Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




2017 e o futuro radioso

por José António Abreu, em 30.12.17

 

«Sabes qual é o primeiro objectivo de qualquer consultor?»

«Reduzir custos ao cliente?»

«Não sejas ingénuo.»

«Então qual é?»

«Descobrir formas de prolongar o contrato de consultoria.»

 

Ora portanto: em 2017, funcionários públicos e pensionistas continuaram a recuperar rendimentos, mas nas escolas a comida surgiu crua ou com lagartas, nas penitenciárias os almoços e jantares foram diminuindo de tamanho, nos hospitais agravaram-se as condições de salubridade e aumentaram as listas de espera para cirurgias urgentes, nas vilas e aldeias a Protecção Civil não conseguiu evitar a morte de mais de uma centena de cidadãos, nos quartéis os militares foram incapazes de evitar roubos de armas, nas instituições de solidariedade social cometeram-se desvios de fundos públicos sem que, não obstante a existência de denúncias, a tutela se desse ao incómodo de averiguar, e nos bancos continuou a meter-se dinheiro público, ainda que num caso - como os socialistas gostam - por portas travessas.

Também em 2017, categorias variadas de funcionários públicos nada incomodados com as irrelevâncias mencionadas no parágrafo anterior lembraram-se de começar a lutar com o governo por «direitos» (leia-se: dinheiro) que até 2016 o governo parecia achar não apenas justos, mas benéficos para a economia (agora parece só achá-los justos). Patrocinada pelo PCP através da CGTP, a luta deverá continuar em 2018 e ser bastante divertida, mas potencialmente muito cara, para quem está de fora.

Do lado das coisas que não aconteceram em 2017 conta-se, por tradição nacional e para não perturbar Catarinas e Jerónimos, a implementação de reformas que todos (enfim, todos os que ideologicamente se situam fora da extrema esquerda) sabem ser indispensáveis, e que todos (ver parêntesis anterior) também sabem que seriam menos dolorosas de realizar em época de crescimento económico, ainda que esse crescimento ronde os 2%, muito abaixo dos cerca de 3% da vizinha Espanha ou dos valores que seriam de esperar em qualquer economia minimamente equilibrada saindo de uma fase de correcção das contas públicas durante a qual o PIB contraiu 8% (convém ter presente que, neste caso, 2 não chega a uma quarta parte de 8, pelo facto de o denominador ter ficado mais baixo*). E, todavia, as exportações de bens e de serviços mostram-se excelentes, não obstante os recentes e tristes problemas com o pernil de porco destinado a um dos países-modelo do Bloco e do PCP, facto que só pode deixar um indivíduo a ponderar o que diabo travará Portugal. O clima, talvez. O excesso de eucaliptos. A venda de salgadinhos nos hospitais.

Enfim, continuemos, que é forçoso reconhecer um inegável mérito à Geringonça: em 2017, tornou abundantemente claro que o primeiro objectivo do Estado é alimentar o próprio Estado. (A anedota do início perde alguma piada ao chegar aqui, não perde?)

 

E o futuro? Quais as perspectivas para 2018, 2019, 2020, e por aí fora? Numa palavra, sublimes, que Centeno lidera o Eurogrupo, a Alemanha está com governação suspensa e até as agências de notação vêm subindo os ratings da república para níveis de 2010. Há uma nuvenzita negra, uma manchinha no radar, mas poucos a referem, até para evitarem imediatas acusações de «pessimismo» e - pior ainda - de «passismo» (um termo que 2018 poderá não conseguir apagar do léxico nacional). Eu - garanto - vou fazê-lo exclusivamente por motivos de sistematização: o que acontecerá a um país com o nível da dívida pública portuguesa (em queda apenas ligeira) e o nível de encargos do Estado português (entre já assumidos e previsíveis, com tendência para subida), quando a economia mundial abrandar, especialmente se abrandar muito (se houver um crash bolsista, por exemplo)? O que fará um governo com as contas públicas novamente desequilibradas e dificuldades de financiamento externo? Na verdade, é facílimo antever o primeiro passo: subirá ainda mais os impostos, estrangulando ainda mais empresas e cidadãos, e lançando novamente milhares de funcionários do sector privado no desemprego. Mas, porque fazê-lo nem sempre aumenta as receitas e invariavelmente aumenta as despesas do Estado, é capaz de não chegar. Com ou sem programa de assistência internacional, pode ser necessário cortar pensões, bem como salários no sector público, de forma ainda mais brutal do que na última ocasião (a vitória de Pirro que as «devoluções» rápidas e a garantia de «progressões» constituiriam para professores, enfermeiros e demais funcionários do Estado), ou até avançar para despedimentos no sector público (o horror, o horror). Ou então, chegados a esse improvável cenário, talvez possamos ser verdadeiramente criativos e salvaguardar os direitos dos trabalhadores ligados ao Estado libertando os presos, obrigando os alunos a trazerem refeições de casa, equipando os militares com fisgas e encerrando os hospitais.

Vai-se a ver e nessa altura, ainda que com milhentas ressalvas de temporalidade, o Tribunal Constitucional aceitará tudo. E o Bloco de Esquerda, enquanto parceiro de uma coligação governamental maioritária, imitará os parceiros do Syriza e, como ainda agora fez nas alterações à lei do financiamento partidário, aceitará o contrário do que jura defender.

Mas de momento corre tudo bem e, porque outra coisa não merecemos, assim continuará. Um excelente ano de 2018 para todos.

 

* Perdoe-se-me a nota presunçosa, mas a matemática não é o ponto forte nacional, como a generalidade das estatísticas e três bancarrotas em cerca de 30 anos confirmam.

Autoria e outros dados (tags, etc)


19 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.12.2017 às 11:52

Estou aver que vem aí mesmo o diabo. Afinal o outro tinha razão. Vamos ver.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 30.12.2017 às 14:43

Bah, com sorte morremos antes e vamos direitinhos para o Céu.
Perfil Facebook

De Rão Arques a 30.12.2017 às 12:01

Entre S. Bento e Belém quem consulta quem?
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 30.12.2017 às 14:07

São os resultados de um jornalismo Marxista que tem objectivo promover a política.
O resultado óbvio é que os recursos vão para a política, para os empregos políticos, desde assessores a função publica.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 30.12.2017 às 14:46

O jornalismo tem as suas responsabilidades, sim, mas não basta como justificação. Até porque:
1. As pessoas ligam cada vez menos aos jornalistas.
2. Ultimamente, eles até começaram a fazer alguns trabalhos minimamente dignos do qualificativo "jornalismo".
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 31.12.2017 às 07:16

1. As pessoas ligam cada vez menos aos jornalistas

Também ligam menos a eleições. Mas o poder da violência do estado não diminui por isso, nem há lugar vazios na assembleia.

O que quero dizer é que é irrelevante que as pessoas liguem pouco a jornalistas, porque os políticos respondem aos da sua cultura: os jornalistas e vice versa.
O Complexo Político-Jornalista.
Só haverá mudança quando as pessoas tiveram poder para negar esse existente, não têm, logo é como se não existissem - para Costa obviamente o ano foi saboroso - . Quando tiverem, a partir daí veremos a narrativa do Complexo em acção com as habituais palavras transformadas em acusações: populismo, extremismo etc.


2. Ultimamente, eles até começaram a fazer alguns trabalhos minimamente dignos do qualificativo "jornalismo".

Só vejo peanuts. Se Pedrogão acontecesse com Passos os Governo teria caído, e se fosse preciso para o empurrar, o jornalismo marxista não deixaria de colocar fotos de pessoas carbonizadas.
É só ver de que lado aparecem as imagens chocantes no jornalismo- têm sempre o mesmo sentido. Nenhum jornalista coloca uma foto de uma uma criança abortada, de um refugiado Cubano afogado, ou de uma vítima de um atentado islâmico...

---
Enquanto as sociedades Ocidentais não tiverem maneira de diminuir a Política. O caminho para o desastre só se acentuará.


Bom 2018.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.12.2017 às 23:56

Jornalismo marxista? Deve ser mais um facho com teorias da conspiração...
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 31.12.2017 às 11:48

Não sabe que tanto o Fascismo como o Comunismo nasceram do Marxismo?

Estude a História de Itália
Descubra quem foi assassinado com Mussolini...um amigo de Lenine, alguém que queria a Socialização da Economia.



Sem imagem de perfil

De Anónimo a 31.12.2017 às 17:31

Olá, José Rodrigues dos Santos. Feliz Ano Novo para si também!
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 31.12.2017 às 18:33

Por uma vez um jornalista disse uma coisa de jeito...

Quem é que é Fidel Castro para o jornalismo Marxista. Qual o adjectivo que empregam para o designar?

: Líder

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.01.2018 às 20:36

Marxista era a sua prima.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.12.2017 às 14:25

Ao menos o JAA mantém - se cooerente ao não referir as empresas privadas que vivem penduradas no orçamento do estado e nas que devem milhoes a uma banca falida mas que já empresta dinheiro novamente aos níveis pré crise.
Esquece - se também de referir os monopolios naturais e os oligopolios que contribuem para uma economia cronicamente atrasada.
E por ultimo sendo o JAA um liberal é caricato que peça ainda mais Estado.

P.S. Gostaria que o JAA aqui desse a sua opinião sobre o descalabro dos CTT.

WW
Imagem de perfil

De José António Abreu a 30.12.2017 às 14:42

1.
Essas empresas - e esse monopólios e oligopólios - não têm hoje razões de queixa. A geringonça serve-lhes perfeitamente.

2.
"E por ultimo sendo o JAA um liberal é caricato que peça ainda mais Estado."
Peço?

3.
O que é que eu tenho a ver com os CTT? Não sou accionista. E só espero não ter que o vir a ser à força.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.12.2017 às 18:27

O descalabro dos CTT é depois da privatização entenda-se, nem nos USA o serviço postal foi privatizado e não se admire nada se no final do próximo ano os CTT tenham de ser renacionalizados com prejuízo para o Estado assim como o banco social...
E sim o JAA pede mais Estado ao referir tudo o que se passou este ano de mais gravoso na ausência do trabalho que compete ao Estado, basicamente tirou-se de um lado para meter noutro e isso quase ninguém diz pelo menos desta forma simples e que toda a "gente" compreende.
Na minha modesta opinião o Estado tem de controlar tudo o que são monopólios naturais (energia , água ,etc) e ter uma acção determinante em outros sectores chave da economia que vivem em oligópolio não através de regulação mas através de participação activa nos mercado em si como seja a Banca / Seguros (detendo um banco / seguradora a 100%) , ter controle sobre um player de telecomunicações ...

O problema de Portugal está bem exemplificado no caso do serviço audiovisual, nem com a RTP quase sem publicidade e com o canal 2 a ser um sombra do que já foi, os canais privados mal conseguem sobreviver e isto não é de "agora".

Claro que o Estado não poderá nunca (na minha opinião) ser paizinho de lesados do BES e afins nem andar a subsidiar negócios privados ou a dar-lhes alento, coisa em que PS e PSD / CDS de formas distintas sempre fizeram.

WW
Imagem de perfil

De José António Abreu a 30.12.2017 às 20:36

1a.
"O descalabro dos CTT é depois da privatização entenda-se"
Logo, deveria ser problema dos accionistas.

1b.
"nem nos USA o serviço postal foi privatizado"
E funciona que é uma maravilha. O Trump até faz tweets sobre o assunto.

2.
"E sim o JAA pede mais Estado ao referir tudo o que se passou este ano de mais gravoso na ausência do trabalho que compete ao Estado, basicamente tirou-se de um lado para meter noutro "
No limite, portanto, peço o mesmo Estado (e não mais), mas tirando do outro lado para meter no um (assim a modos, não repor os cortes tão depressa, mas deixar os presos comer e os doentes serem operados). Sendo que, na verdade, até acho que se pode fazer o mesmo com menos. Um país como Portugal não tem capacidade para sustentar um Estado acima dos 42% a 44% do PIB.

3.
"não através de regulação mas através de participação activa nos mercado em si como seja a Banca / Seguros (detendo um banco / seguradora a 100%) , ter controle sobre um player de telecomunicações ..."
Sim, as posições do Estado na CGD e na PT foram muito úteis ao país. Ou, pelo menos, a certas pessoas do país.

4.
Lamento, mas não percebo a analogia do audiovisual. O Estado devia ter uma empresa em cada sector porque os concorrentes têm dificuldades em sobreviver?

5.
"Claro que o Estado não poderá nunca (na minha opinião) ser paizinho de lesados do BES e afins nem andar a subsidiar negócios privados ou a dar-lhes alento, coisa em que PS e PSD / CDS de formas distintas sempre fizeram."
Fixe, acabamos com um nota de concordância. Bom ano.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.12.2017 às 23:58

"E funciona que é uma maravilha. O Trump até faz tweets sobre o assunto."
E você leva a sério os disparates que o Trump escreve? O Trump é um burro que não acredita no aquecimento global e só ocupa o cargo que ocupa graças a um sistema eleitoral do século XVIII, pois nem sequer foi o candidato mais votado.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.12.2017 às 08:37

O Trump até pode estar só preocupado em atacar o Jeff Bezos, da Amazon, por causa do Washington Post. Não impede que os serviços postais norte-americanos sejam um buraco financeiro gigantesco, que provavelmente os contribuintes terão que pagar. Mas, não sendo uma entidade privada nem um banco, talvez não se importem.

(É verdade que grande parte do buraco advém de responsabilidades com pensões. Mas esse também é o grande problema de muitas empresas privadas norte-americanas.)
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 31.12.2017 às 07:21

WW quando descobrir que um funcionário publico é um privado...
E quando descobrir que o Estado é um monopólio e oligópolio...

"CTT tenham de ser renacionalizados com prejuízo para o Estado"

E depois diz isto: Claro que o Estado não poderá nunca (na minha opinião) ser paizinho de lesados do BES e afins nem andar a subsidiar negócios privados ou a dar-lhes alento.

Se é mal gerido, vai à falência.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D