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À atenção da DECO

por Rui Rocha, em 30.11.16

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Histórias de Lisboa (V)

por Isabel Mouzinho, em 30.11.16

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 Senhora do Monte

 

Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.

Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.

Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 

Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 

Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece, me enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar muito de ser daqui.

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Sem rei nem roque

por Diogo Noivo, em 30.11.16

O Chefe de Estado espanhol, Filipe VI, discursou no parlamento português. No final da intervenção, houve aplausos de todos os deputados, menos na bancada do PCP, onde os parlamentares apenas se levantaram em sinal de respeito institucional. Os comunistas cumpriram o mínimo olímpico. A jogar num campeonato diferente, os deputados do Bloco de Esquerda permaneceram sentados. Nem aplausos nem cortesia. Nada.
A peça da SIC que deu nota deste episódio fala em evolução bloquista. E explicou porquê: por ocasião da visita oficial do anterior monarca espanhol, Juan Carlos I, os bloquistas não apareceram no hemiciclo; desta vez estavam lá. A jornalista da SIC vê nisto uma evolução.
Há dias, Fidel Castro mereceu todos os encómios possíveis por parte do Bloco, que nada disse sobre a sucessão de estilo dinástico entre Fidel e o seu irmão Raúl. Hoje, um Chefe de Estado vinculado a uma constituição democrática, que goza de um respaldo popular muito superior ao da constituição portuguesa, recebeu o tratamento político-institucional que se dá a um ditador. Julgo que a maioria dos democratas verão nisto uma fonte de vergonha alheia e até de algum asco. Mas a SIC vê uma evolução. Parece-me que para os lados de Carnaxide também há gente a limpar os pés às cortinas.

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Já li o livro e vi o filme (161)

por Pedro Correia, em 30.11.16

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O DEFUNTO (1895)

Autor: Eça de Queirós

Realizador: Fernando Garcia (1954)

O conto, publicado num jornal do Rio de Janeiro e reunido em livro só em 1902, decorre na Castela do século XV. A singular adaptação cinematográfica - intitulada O Cerro dos Enforcados, com Artur Semedo - tem hoje apenas interesse histórico.

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Anti-americanismo primário (17)

por Luís Naves, em 30.11.16

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Conhecer D. Afonso Henriques.

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

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Sem grandes dramas

por Alexandre Guerra, em 30.11.16

A Itália é um país fascinante por diversas razões. Politicamente, sempre foi um laboratório para todo o tipo de experiências. Nos últimos 70 anos teve 63 governos, mas a verdade é que, com mais ou menos instabilidade, a Itália lá vai funcionando no seu estilo muito próprio e ao mesmo tempo sedutor e único. No Domingo, realiza-se um importante referendo sobre várias alterações constitucionais, as mais importantes desde a II GM, entre as quais a diminuição da relevância do Senado naquele sistema político. As sondagens indicam que o primeiro-ministro Matteo Renzi se arrisca a perder a votação, mas mesmo que isso aconteça, acredito que a Itália, com toda a sua classe e arte, olhará para todo este processo sem grandes dramas.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.11.16

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Tabacaria, de Álvaro de Campos

Poesia

(reedição Guerra & Paz, 2016)

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O Mundo Às Avessas

por Francisca Prieto, em 30.11.16

Há um par de anos, a Associação Italiana de Pessoas com Síndrome de Down produziu este filme, com jovens de toda a Europa, como resposta a uma carta que tinha recebido de uma futura mãe grávida, a quem tinham diagnosticado Trissomia 21 no feto.

Recentemente, a Alta Autoridade Para a Comunicação Social Francesa proibiu a passagem do filme por considerar que era ofensivo para mulheres que tivessem abortado bebés com Trissomia 21.

Este é talvez o filme mais realista que já vi sobre o assunto. Não doura a pílula, não diz que é fácil. Limita-se a dizer que ter um filho com Trissomia 21 não é o fim do mundo. E que, apesar das dificuldades, podemos hoje esperar que estas pessoas tenham vidas relativamente normais.

Não compreendo como é que num país onde se grita por toda a parte que se é Charlie, se censura um filme que mostra o lado bom da moeda de uma situação que parece a priori tão difícil.

Esta censura amordaça o direito dos jovens com Trissomia 21 de gritarem que são felizes. Diz-lhes que a sua felicidade pode magoar mulheres que tenham abortado pessoas como eles. Manda-os serem deficientes lá no cantinho deles, sem fazer muito estrilho.

Se isto não é o mundo virado ao contrário, vou ali e já venho.

 

 

 

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RH Music Box (304)

por Rui Herbon, em 30.11.16

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 Autor: Six Organs Of Admittance

 

Álbum: The Sun Awakens (2006)

 

Em escuta: Attar

 

 

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A revolta do rebanho

por Luís Naves, em 29.11.16

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Um pouco por todo o Ocidente, alastram fenómenos de protesto eleitoral que podíamos definir como ‘voto puta-que-os-pariu’. Em consequência, no prazo de um ano, a Europa será um lugar muito diferente, com novas lideranças na maioria dos países, porventura à excepção da Alemanha, que foi o país que menos sofreu na pele os efeitos da grande recessão de 2008. Na União Europeia, está em curso uma revolução política ou, no mínimo, uma grande transformação nas maquinarias da sociedade.

 

1

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. Os intelectuais excederam-se no duplo critério das suas interpretações da realidade: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiaram os feitos de Fidel acharia tolerável viver mais do que uma semana em Cuba.

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias.

Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com o tempo do fascismo e comunismo, e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados que desembarcarem amanhã nas nossas costas.

 

2

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados quando votam nos movimentos ‘puta-que-os-pariu’ e vão continuar a votar em formas de protesto semelhantes, pelo menos enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança que têm em relação ao futuro.

As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não queira discutir racionalmente o sismo social em curso ou os erros que foram cometidos no ciclo político que agora encerra. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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Anti-americanismo primário (16)

por Luís Naves, em 29.11.16

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.11.16

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«Um homem culpado não costuma colocar a corda no seu próprio pescoço

Daphne du MaurierA Pousada da Jamaica (1936), p. 176

Ed. Círculo de Leitores, 1993. Tradução de Eduardo Saló

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Tristes tempos!

por Luís Menezes Leitão, em 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

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Música recente (48)

por José António Abreu, em 29.11.16

Christian Kjellvander, álbum A Village: Natural Light.

A música do sueco Kjellvander devia ser um segredo menos bem guardado. Leonard Cohen, Mark Lanegan e os Tindersticks andam por aqui.

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Penso rápido (80)

por Pedro Correia, em 29.11.16

As pessoas também são feitas de sentimentos. E devem expressá-los. Quase nunca isso acontece - a não ser tarde de mais.
Mas o caso do Diário de Notícias deve fazer-nos reflectir a todos muito para além dos sentimentos pessoais de cada um. Porque este caso demonstra exemplarmente como bastou decorrer década e meia - menos de uma geração - para se perceber como diminuiu drasticamente a capacidade de mobilização e a influência social dos jornalistas. Reflecte também como a sociedade no seu todo se tornou mais apática, conformista e resignada.
No início do século os que pensavam na vidinha e permaneceram de lado foram a excepção. Políticos, escritores, artistas, jornalistas. Houve mobilização geral para manter o DN na sua sede histórica, construída de raiz para o efeito com projecto de um dos mais célebres arquitectos portugueses de sempre.
Agora tudo aconteceu de forma envergonhada, quase clandestina, quase sem um protesto, quase sem uma palavra de indignação.
Em década e meia passámos a aceitar o inaceitável. Vale a pena voltar a isto, sim. Pelo seu carácter simbólico. E para que se perceba até que ponto regredimos enquanto comunidade solidária e com valores.
Não é pieguice nem choradinho, como alguns alegam. Eu prefiro chamar-lhe lucidez - uma lucidez perplexa e preocupada de quem se interroga onde estaremos daqui a outra década e meia.
E que faz questão de não ter a cabeça enterrada debaixo da areia.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.11.16

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Deixar Aleppo, de Manuela Niza Ribeiro

Romance

(edição Althum, 2016)

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.11.16

Ao Pravda Ilhéu.

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RH Music Box (303)

por Rui Herbon, em 29.11.16

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 Autor: Sixto Rodriguez

 

Álbum: Coming From Reality (1971)

 

Em escuta: To Whom It May Concern

 

 

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Anti-americanismo primário (15)

por Luís Naves, em 28.11.16

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Leituras recomendadas

por Pedro Correia, em 28.11.16

 

Cuando Cuba era igual de rica que España antes de Fidel Castro. De Javier G. Jorrín, no El País.

 

Fidel y los escritores, una relación de desengaño y humillación. De Luis Alemany, no El Mundo.

 

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Um país que mata os seus heróis

por Pedro Correia, em 28.11.16

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  Huber Matos (à direita) com Fidel Castro em 1959

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 Arnaldo Ochoa (à esquerda) com Fidel Castro em 1961

 

Nenhum ser humano bem formado se congratula com a morte de outro ser humano. Mas um democrata alegra-se sempre perante a expectativa de um fim próximo de um regime autocrático.

Na morte de Fidel Castro - que por ironia mencionou Cristo na sua última reflexão pública, difundida a 9 de Outubro - penso nos inúmeros perseguidos pela ditadura implantada há quase 58 anos em Cuba. Todos, ou quase, acreditaram nas promessas de liberdade, traídas pelo novo tirano que envelheceu no cargo sem nunca ter abdicado da menor parcela do seu poder absoluto.

 

Penso no general Arnaldo Ochoa, que foi o oficial mais graduado do exército, proclamado Herói da Revolução e líder das operações militares em Angola, de que Castro se serviu para a sua propaganda “internacionalista”: acusado de traição à pátria, foi detido em Junho de 1989 pela polícia política e condenado sumariamente à morte por um tribunal fantoche e logo executado, sem lhe ser reconhecido o direito a uma defesa minimamente justa.

Penso em Guillermo Cabrera Infante, um dos melhores escritores latino-americanos do século XX, forçado em 1965 a um exílio perpétuo que o levou a trocar o sol caribenho pelas brumas de Londres, onde sucumbiu de nostalgia, por ter ousado gerir com irreverência o Conselho Nacional de Cultura e o Instituto de Cinema nos primeiros anos da era pseudo-revolucionária.

Penso em Heberto Padilla, poeta encarcerado em 1971 pelo “crime” de pensar e escrever como um homem livre, atirado para os cárceres castristas na sequência de um recital de poesia em Havana considerado “subversivo” – ele que escreveu estes versos corajosos: “Muerte, / no te conoszco, / quieren cubrir mi patria / con tu nombre.”

Penso em Huber Matos, combatente na Sierra Maestra e revolucionário da primeira hora, o primeiro crítico da deriva autoritária do novo regime. “Es bueno recordar que los grandes hombres comienzam a declinar cuando dejan de ser justos”, escreveu ele numa desassombrada carta a Fidel Castro que em Outubro de 1959 lhe valeu 20 anos de prisão, seguido da expulsão de Cuba, onde nunca foi autorizado a regressar.

 

Penso em muitos outros cubanos, uns já desaparecidos outros ainda vivos mas condenados à morte cívica e ao banimento vitalício em sucessivas purgas promovidas pelas patrulhas ideológicas do castrismo ou vítimas dos anátemas políticos lançados pelo regime: Antón ArrufatArturo Sandoval, Bebo Valdés, Belkis Cuza Malé, Cachao López, Carlos Alberto Montaner, Carlos Franqui, Celia Cruz, Eliseo Alberto, Eloy Gutiérrez Menoyo, Gustavo Arcos, Jesús Díaz, Néstor AlmendrosNorberto Fuentes, Olga Guillot, Orlando Jiménez Leal, Paquito d' Rivera, Pedro Luis Boitel, Raúl Rivero, Reinaldo Arenas, Severo Sarduy, Virgilio Piñera, Willy Chirino, Zoe Valdés.

Sob a mão de ferro dos irmãos Castro, Cuba tornou-se um país que "mata os seus heróis", na definição lapidar de Cabrera Infante. País de suicidas e desterrados, onde a luz da esperança se foi tornando cada vez mais precária e vacilante.

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França e o futuro da UE

por José António Abreu, em 28.11.16

nomeação de François Fillon como candidato do centro-direita às eleições presidenciais francesas abre perspectivas interessantes. Se, como tudo parece indicar, for ele a defrontar Marine Le Pen na segunda volta, não apenas a eleição de Le Pen ficará quase impossível (por muito que a faceta social-conservadora de Fillon desagrade à esquerda «progressista», ele constituirá sempre um mal menor) como, qualquer que seja o vencedor, ficam garantidas mudanças fundamentais na política francesa – e, por arrasto, na europeia. É sabido que uma vitória de Le Pen conduziria a França para fora do euro e da UE, provocando o colapso desta. Mas uma vitória de Fillon garantirá uma alteração fundamental no balanço de forças entre os países que defendem e aplicam reformas estruturais e os países que, na prática, se lhe opõem. Fillon defende cortes no Estado e uma economia baseada na iniciativa privada e nas exportações. Num país como França, não é líquido que consiga fazer tudo o que pretende. No mínimo, enfrentará enorme contestação dos grupos que se alimentam do Estado. Mas terá o peso da estagnação francesa a seu favor (muita gente sabe que algo tem de ser feito) e uma legitimidade dupla: a conferida pela eleições e a decorrente da clareza, verdadeiramente admirável, com que tem exposto as suas ideias. Ora uma França reformista (honestamente, parece um oxímoro) estará muito mais alinhada com a Alemanha e tornará a União Europeia muito menos condescendente para com países que preferem ir arrastando os pés. Convinha que estes se preparassem – para qualquer dos cenários.

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Palavras para recordar (6)

por Pedro Correia, em 28.11.16

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AUGUSTO SANTOS SILVA

Público, 7 de Março de 2008

«A liberdade é algo que o País deve a Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre e não a Álvaro Cunhal ou a Mário Nogueira.»

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.11.16

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O Tempo dos Assassinos, de Henry Miller

Tradução de José Miranda Justo

Ensaio literário

(edição Antígona, 2016)

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RH Music Box (302)

por Rui Herbon, em 28.11.16

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 Autor: Seu Jorge

 

Álbum: Músicas Para Churrasco II (2015)

 

Em escuta: Babydoll

 

 

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 27.11.16

É um blogue feito em condições duríssimas, num país onde a liberdade de imprensa ainda é uma utopia e a liberdade de expressão sofre severas restrições. Mas a jornalista Yoani Sánchez não desiste: a sua Generación Y continua a ser de leitura obrigatória para quem quer conhecer o quotidiano de Cuba para além das trombetas da propaganda. Vai ficar na montra do DELITO ao longo desta semana marcada pelo rescaldo da morte de Fidel Castro.

Felizmente em Havana há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

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Anti-americanismo primário (14)

por Luís Naves, em 27.11.16

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Fotografias tiradas por aí (329)

por José António Abreu, em 27.11.16

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O acaso vira a vida do avesso

por Pedro Correia, em 27.11.16

Herbert L. Matthews com Fidel Castro 

 

E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?


Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.


Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista.

Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.


Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda.

A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana.

Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi de algum modo manchada para sempre.

 

Texto reeditado

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.11.16

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Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

Tradução de Vasco Gato

Romance

(reedição Alfaguara, 2016)

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RH Music Box (301)

por Rui Herbon, em 27.11.16

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 Autor: Sisters With Voices

 

Álbum: It's About Time (1992)

 

Em escuta: I'm So Into You

 

 

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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No le tengo miedo

por Diogo Noivo, em 26.11.16

Hoje e nos próximos dias suceder-se-ão as análises sobre a vida e o papel político de Fidel Castro, uma das personalidades mais fortes e marcantes do século XX. Porém, a morte do líder cubano deve convidar-nos também a relembrar todos aqueles que, com prejuízo para a sua parca liberdade e segurança, se atreveram a denunciar o regime ditatorial que submeteu um país inteiro à indigência.
Conhecemos relativamente bem os opositores das gerações mais velhas, gente como Guillermo Fariñas, Elizardo Sánchez, e o colectivo Damas de Branco. Mas existe uma ala jovem, tão ou mais activa. Los Aldeanos, um duo formado por Bian Oscar Rodríguez Gala "El B" e por Aldo Roberto Rodríguez Baquero "El Aldeano", estão na vanguarda da nova dissidência. Usam como instrumento de acção política um dos poucos 'produtos' que conseguiu furar o embargo: o hip hop.
Formado em 2003, o duo Los Aldeanos deixa claro ao que vem nos títulos dos álbuns que editou e no nome dos projectos que integrou: o primeiro trabalho recebeu o título “Censurado”; o segundo intitula-se “Poesia Esposada” (Poesia Algemada); e, em 2007, integram o colectivo “La Comisión Depuradora”.
As letras têm um propósito claro. Contudo, e em linha com a tradição da música de intervenção feita sob o jugo de ditaduras, os versos estão pejados de subtilezas que tornam os textos ambivalentes – e que mantêm os autores fora da prisão. “No le tengo miedo” é porventura um dos melhores exemplos da capacidade de criticar frontalmente o regime de Castro através de uma letra cujo valor facial não é político. O que, à primeira vista, é uma ode à vida e à superação das dificuldades quotidianas, esconde um apelo à resistência e à liberdade.

Y yo sé que yo
a la vida no le tengo miedo
y aquí no se rinde nadie no
seguiré de pie levantando mi voz
Y yo sé que yo... Y yo sé que yo...

 

Los años no engañan, el tiempo puede estar bravo
que yo sigo siendo yo, y a los falsos caso no hago, no!
trabajo diariamente, no soy creyente ni vago
ni me rindo, ni me paro, ni me canso, ni me apago

 

Destruir la poesía de fe con podrida prosa
es como ver encajada en un clavo una mariposa
a la luz la creación, a lo oscuro, el facilismo
tu podrás ser quien tu quieras fiera, que yo soy yo mismo

 

Lo más importante es la visión real que tengas
que nadie te meta un cuento y la mente te la entretenga
en mierda, basura, drogas, dinero y prostitución
porque todo eso, no es más que perdición

 

Voy en dirección contraria, el agor lleva muchos
porque escucho a mi corazón y con mi corazón lucho
son tiempos de ahogo espiritual, de idas absurdas
la gente dobla en lo reto y coge reto en la curva

 

Em Portugal, país apaixonado por cantautores como Zeca Afonso, os projectos musicais como Los Aldeanos deveriam ser venerados. Hoje é um bom dia para começar.

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Reacções à morte de El Comandante.

por Luís Menezes Leitão, em 26.11.16

Marcelo Rebelo de Sousa: Sofri uma enorme perda. Ele era para mim um amigo do peito. Ainda há poucos meses estivemos juntos em amena cavaqueira. Nunca me esquecerei dos conselhos que na altura me deu.

 

Eduardo Ferro Rodrigues: Ele, sim, compreendeu o que era a democracia parlamentar. Deveríamos seguir os seus ensinamentos.

 

Augusto Santos Silva: Era claramente um homem da nossa família política, que a história avaliará, como vai avaliar o nosso governo da geringonça. Por isso daqui enviamos condolências a toda a família enlutada.

 

Jerónimo de Sousa: Ficámos órfãos. Mas vamos continuar a prosseguir a luta no percurso que ele nos indicou.

 

Assunção Cristas: Era uma figura controversa, mas professava como nós o radicalismo do amor. Por isso a morte do camarada Fidel representa uma grande perda para toda a democracia cristã.

 

Donald Trump: Quem diabo era afinal Fidel Castro? 

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Assim, simples

por Rui Rocha, em 26.11.16

Poder sem eleições, ditador. Ditador, cabrão. Apoiantes, tolerantes e elogiadores de cabrão, filhos da puta. Para a esquerda, para a direita. Para cima e para baixo.

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Leituras

por Pedro Correia, em 26.11.16

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«Os covardes morrem muitas vezes antes de morrer. O homem de valor só morre uma vez

William ShakespeareJúlio César (1623), p. 73

Ed. Lello Editores, 2007. Tradução de Domingos Ramos

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Anti-americanismo primário (13)

por Luís Naves, em 26.11.16

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O principal legado de Castro

por Pedro Correia, em 26.11.16

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«El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros.»

Fidel Castro, Setembro de 2010

 

A morte física de Fidel Castro - o autocrata que permaneceu mais tempo em funções na era moderna - tem desencadeado expressões de idolatria lacrimosa nos circuitos mediáticos: "Pai da revolução cubana", "comandante chefe", "líder histórico", "figura carismática".

Nem uma só vez escuto a palavra ditador.

"Não se pode dizer que Fidel Castro deixou Cuba como país próspero e desenvolvido. O povo cubano tem sofrido muito - e tem sofrido não só por causa do bloqueio mas pelas políticas que foram realizadas pelos próprios dirigentes cubanos. E não nos podemos esquecer que em Cuba não há democracia." Palavras do jornalista José Milhazes na SIC Notícias - um dos raros que navegaram contra a corrente, pondo os factos acima da ladainha hagiográfica.

 

Na sua fabulosa Autobiografia de Fidel Castro, Norberto Fuentes - que foi um dos funcionários de mais elevada patente do castrismo antes de se ver forçado a rumar ao exílio, como aconteceu com centenas de milhares de cubanos - escreveu estas palavras, supostamente concebidas pelo próprio autocrata: "Hei-de morrer a ruminar a satisfação imensa de que terão de me julgar à revelia. E quando decorrerá tamanho processo? Dentro de quinhentos anos? Dentro de mil? Quando é que a história julga de maneira definitiva e sem apelo nem agravo?"

Nesse aspecto, Fidel Castro pode ser apresentado como um triunfador da História - alguém que sobreviveu à derrocada do mundo comunista e recorreu às bravatas nacionalistas para se perpetuar no poder até a fatalidade biológica impor a sua lei suprema.

Para ele, só a razão de Estado existia. E o Estado confundiu-se durante mais de meio século com a sua pessoa. Neste contexto, o povo funcionava como substantivo abstracto: compunha as manifestações de apoio ao Governo, as únicas autorizadas, e servia de vocativo permanente na retórica oficial.

 

O que vigora na Cuba dos nossos dias?

Um regime de partido único, profundamente hierarquizado, em que as hostes partidárias se confundem com as forças armadas (que embolsam 60% das receitas turísticas) e o aparelho de Estado. Um regime em que a cúpula do poder permanece nas mãos de membros da mesma família há 57 anos. Um regime que destruiu o tecido produtivo do país e hoje se vê forçado a importar 80% do que ali se come. Um regime mergulhado num irreversível e penoso crepúsculo, confundindo o seu destino com o do país.

Há meio século, a palavra de ordem era "socialismo" - a toda a velocidade. Agora a palavra que paira nas mentes de todos é "capitalismo" - o mais devagar possível. Com mais de dois milhões de cubanos forçados a viver fora da ilha e milhão e meio à beira do desemprego porque o Estado-patrão deixou de ter verba para pagar os magros salários - os segundos mais baixos do hemisfério ocidental - e as esquálidas pensões de reforma.

"Agotados de tanta trinchera y demasiadas alusiones al enemigo, nos preguntamos si no sería más coherente usar todos esos recursos para aliviar los problemas cotidianos. Revertir las crónicas dificultades del transporte urbano, la calidad del pan del mercado racionado o el abastecimiento de medicamentos en la farmacias de la Isla, serían mejores destinos para lo poco que contienen las arcas nacionales." Palavras escritas há dias pela jornalista Yoanis Sánchez no seu blogue.

 

Cuba é hoje uma nação envelhecida, sem esperança, com a segunda mais larga população de idosos da América Latina: 46% da população tem mais de 40 anos. Os jovens tudo fazem para abandonar um país onde o partido-Estado persiste em oprimir a sociedade.

Este foi, para azar dos cubanos que mal sobrevivem hoje com o equivalente médio a 15 dólares diários, o principal legado de Fidel Castro.

Em nome da "liberdade", o que torna tudo ainda mais trágico.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.11.16

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Obra Poética, Volume I, de Ruy Cinatti

Organização de Luís Manuel Gaspar

Prefácio de Joana Matos Farias

(edição Assírio & Alvim, 2016)

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Do princípio ao fim (balanço)

por Pedro Correia, em 26.11.16

Outra série colectiva do DELITO DE OPINIÃO chegou ao fim, é tempo de fazer um balanço - tal como já sucedera aqui, por exemplo - para se lembrar o que escrevemos.

Desta vez chamou-se Do princípio ao fim e destacou os inícios e finais de livros (romances, contos, ensaios, banda desenhada) que por qualquer motivo mais nos impressionaram.

 

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 Kafka

 

Foram estes:

A Metamorfose, de Franz Kafka. Escolha minha.

Sputnik, Meu Amor, de Haruki Murakami. Escolha da Helena Sacadura Cabral.

Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. Escolha do João Campos.

A Casa de Astérion, de Jorge Luis Borges. Escolha do Rui Herbon.

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Escolha do Luís Naves.

Desde Portugal, de Miguel de Unamuno. Escolha do Diogo Noivo.

O Processo, de Franz Kafka. Escolha do Luís Meneses Leitão.

Herrumbrosas Lanzas, de Juan Benet. Escolha do José Navarro de Andrade.

The Long Goodbye, de Raymond Chandler. Escolha do José Navarro de Andrade.

Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez. Escolha da Francisca Prieto.

Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac. Escolha minha.

A Estrada, de Don DeLillo. Escolha do José António Abreu.

A Fera na Selva, de Henry James. Escolha da Patrícia Reis.

Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Escolha do Rui Herbon.

A República dos Sonhos, de Nélida Piñon. Escolha da Inês Pedrosa.

Numa Casca de Noz, de Ian McEwan. Escolha do José António Abreu.

Finnegans Wake, de James Joyce. Escolha do Bandeira.

Lolita, de Vladimir Nabokov. Escolha da Teresa Ribeiro.

A Balada do Café Triste, de Carson McCullers. Escolha da Ana Lima.

A Short History of Nearly Everything, de Bill Bryson. Escolha do João André.

How to... Make Love Like a Porn Star, de Jenna Jameson e Neil Strauss. Escolha do Alexandre Guerra.

O Estrangeiro, de Albert Camus. Escolha da Isabel Mouzinho.

O Principezinho, de Saint-Exupéry. Escolha da Joana Nave.

Alegria Breve, de Vergílio Ferreira. Escolha minha.

O Retrato de Ricardina [e outras], de Camilo Castelo Branco. Escolha do Luís Naves.

The End of the Affair, de Graham Greene. Escolha do Adolfo Mesquita Nunes.

Os Maias, de Eça de Queirós. Escolha minha.

O Falcão de Malta, de Dashiel Hammett. Escolha do José António Abreu.

 

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 Hammett

 

Vinte e oito textos, publicados ao longo de seis semanas - entre 23 de Setembro e 4 de Novembro.

Lembro a lista para memória futura. E para que sirva de incentivo suplementar à procura de qualquer destas obras, que possam ter suscitado a curiosidade dos nossos leitores.

Espero que tenham gostado da série. Outras vão seguir-se.

 

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RH Music Box (300)

por Rui Herbon, em 26.11.16

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Autor: Itamar Assumpção

 

Álbum: Pra Sempre Agora - Ataulfo Alves Por Itamar Assumpção (1996)

 

Em escuta: Vai Mesmo 

 

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Ler

por Pedro Correia, em 25.11.16

Avenida da Liberdade, 266. Da Maria João Caetano, n' A Gata Christie.

Adeus, Diário de Notícias. Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

A insustentável insolvência da memória. Do Pedro Rolo Duarte.

O escaravelho e a Via Láctea. Da Eugénia de Vasconcellos, no Escrever é Triste.

O tempo e o lamento. De Dária, no Toda a Gente e Ninguém.

Um país de malucos ou uma agenda mediática para nos enlouquecer? De Rui Monteiro, n' A Insustentável Leveza de Liedson.

A Igreja Católica em Moçambique em novo livro de José Luzia. Do José Pimentel Teixeira, no Courelas.

Lendo nas estrelas (Michelin). Do Duarte Calvão, na Mesa Marcada.

Leonard Cohen - You Want It Darker. De Manuel Morgado, na Time Out Lx.

 

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O nível dos debates parlamentares.

por Luís Menezes Leitão, em 25.11.16

Confesso que me preocupa o nível a que estamos a assistir nos debates parlamentares, de que o episódio de hoje é um excelente exemplo. Em vez de se fazerem artigos de fundo como este sobre a crise das instituições a propósito da eleição de Trump para a presidência, talvez as pessoas devessem encarar as coisas de um modo muito simples: quando as instituições não se dão ao respeito não podem esperar ser respeitadas. E quando um governante vai ao parlamento achincalhar os deputados perante quem responde, recebendo apenas uma advertência suave do presidente da assembleia, atingimos o grau zero da dignidade política. Hoje António Costa brincou com o facto de José Sócrates lhe ter chamado um líder em formação, mas talvez pudesse aprender alguma coisa com ele. É que José Sócrates levou apenas alguns minutos a demitir um dos seus ministros quando este fez um gesto insultuoso a um dos deputados no parlamento.

 

Mas infelizmente esta forma de os governantes estarem no parlamento, um órgão de soberania que deveria exigir respeito e compostura, não é um exclusivo português. Em países como o Reino Unido também se vê os governantes a gozarem com os deputados. Depois admiram-se com o descrédito das instituições.

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Anti-americanismo primário (12)

por Luís Naves, em 25.11.16

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Música recente (47)

por José António Abreu, em 25.11.16

Mitski, álbum Puberty 2.

A passagem para a idade adulta e a tentativa de encontrar um lugar e um sentido no mundo, através de rotinas que ajudam mas também prendem, e de relações que, hoje em dia, parecem sempre provisórias e desequilibradas.

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França: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 25.11.16

Lembrei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, agora na recta final do seu mandato.

Como estamos a seis meses da eleição presidencial francesa, em que François Hollande - caso se recandidate - se arrisca a sofrer uma derrota de proporções históricas, é hoje a vez de recordar quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu desde 1967.

Volto a dividir este período por um período de cinco décadas, para uma consulta mais fácil. Só altero as cores: vermelho para os Chefes do Estado mais conotados com o socialismo, azul para aqueles que assumiram ser conservadores ou liberais.

Em breve seguir-se-á outro país.

 

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1967/76

1967 - Charles de Gaulle

1968 - Charles de Gaulle

1969 - Georges Pompidou

1970 - Georges Pompidou

1971 - Georges Pompidou

1972 - Georges Pompidou

1973 - Georges Pompidou

1974 - Giscard d' Eistang

1975 - Giscard d' Eistang

1976 - Giscard d' Eistang

O conservador Pompidou, continuador do gaullismo sem De Gaulle, foi a figura dominante nesta década de transição em França. Até à sua morte prematura.

 

 

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1977/86

1977 - Giscard d' Eistang

1978 - Giscard d' Eistang

1979 - Giscard d' Eistang

1980 - Giscard d' Eistang

1981 - François Mitterrand

1982 - François Mitterrand

1983 - François Mitterrand

1984 - François Mitterrand

1985 - François Mitterrand

1986 - François Mitterrand

Outra década, mudança de ciclo político em Paris. Com o socialista Mitterrand - derrotado nas presidenciais de 1965 e 1974 - a impor-se enfim na eleição de 1981.

 

 

FrancoisMitterrand[1].jpg

 

1987/96

1987 - François Mitterrand

1988 - François Mitterrand

1989 - François Mitterrand

1990 - François Mitterrand

1991 - François Mitterrand

1992 - François Mitterrand

1993 - François Mitterrand

1994 - François Mitterrand

1995 - Jacques Chirac

1996 - Jacques Chirac

Segunda década com predomínio de Mitterrand no Eliseu. Foi até agora o mais longo consulado dede o início da vigência da V República francesa, em 1958.

 

 

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1997/06

1997 - Jacques Chirac

1998 - Jacques Chirac

1999 - Jacques Chirac

2000 - Jacques Chirac

2001 - Jacques Chirac

2002 - Jacques Chirac

2003 - Jacques Chirac

2004 - Jacques Chirac

2005 - Jacques Chirac

2006 - Jacques Chirac

Um decénio completo sob a presidência de Chirac, discípulo político do general De Gaulle. Conservador, beneficiou no entanto do voto maciço da esquerda contra Jean Marie Le Pen na segunda volta das presidenciais de 2002.

 

 

                             t100_sarkozy[1].jpg Francois_Hollande_2015.jpeg[1].jpeg

 

2007/16

2007 - Nicolas Sarkozy

2008 - Nicolas Sarkozy

2009 - Nicolas Sarkozy

2010 - Nicolas Sarkozy

2011 - Nicolas Sarkozy

2012 - François Hollande

2013 - François Hollande

2014 - François Hollande

2015 - François Hollande

2016 - François Hollande

Uma década repartida em partes iguais entre a direita e a esquerda. Na segunda metade da década em contraciclo com a Alemanha e o Reino Unido, onde predominaram os conservadores.

 

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Balanço: a direita política dominou o Eliseu em 31 dos últimos 50 anos (percentagem: 62%). Com cinco presidentes: De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac e Sarkozy.

O Partido Socialista teve dois inquilinos no palácio presidencial durante este meio século (percentagem: 38%). Com apenas dois titulares: Mitterrand e Hollande.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.11.16

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Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do Seu Tempo, de vários autores

Coordenação de António Braz Teixeira, Octávio dos Santos e Renato Epifânio

Ensaios literários

(edição MIL / DG Edições, 2016)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 25.11.16

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Joana Amendoeira

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 25.11.16

 

31 da Armada faz hoje dez anos. Parabéns aos seus autores, que não perdem a acutilância. Nem o sentido de humor.

 

O Pedro Rolo Duarte está há nove anos na blogosfera. E faz ele muito bem.

 

Vale a pena espreitar este Retrovisor, blogue de Vera Futscher Pereira onde o Bloco-Notas do embaixador José Cutileiro surge em destaque

 

 

 

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