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As canções de Maio

por Pedro Correia, em 30.04.15

Começarão ao som dos Bee Gees, com uma canção de que sempre gostei muito. E continuarão com vários outros nomes ilustres: Caetano Veloso, Cowboy Junkies, Elton John, Leonard Cohen, Madonna, Paul Simon, Silvio Rodríguez, Tina Turner, U2. A pretexto das eleições no Reino Unido e em Espanha, haverá um reforço de música inglesa e espanhola.

E haverá também as sugestões que aqui me quiserem deixar. Sugestões que agradeço desde já.

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Primeiro criaram a lista de devedores ao fisco e eu não me importei, porque não devia nada ao fisco. Depois criaram a lista de pedófilos e eu não me importei, porque não era pedófilo. A seguir veio a lista dos pedintes, mendicantes, sem abrigo, sei lá, e eu não me importei, porque não era nada disso. Por essa altura, consoante o governo fosse de esquerda ou de direita, já havia listas de fascistas ou comunistas e eu, como sou um desalinhado, estava sempre numa ou noutra. Aí comecei a importar-me, mas como não me tinha preocupado com ninguém, ninguém se importou comigo. Aí comecei a importar-me mas já era tarde. Porque a seguir começou a ser obrigatório pendurar na porta de casa letras e símbolos de acordo com a(s) lista(s) a que se pertencia. Pouco depois vieram as braçadeiras, para que na rua os nossos "crimes" fossem facilmente identificados. Agora estão a bater à porta para levar-me. Todos sabemos como estas histórias terminam.

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A ventoinha é rotativa

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.15

"Núncio perdoa IVA a Lalanda"

"Empresa de ex-patrão de José Sócrates isenta de pagar imposto"

"Secretário de Estado assinou despacho"

"Empresário meteu `cunha´ no gabinete de Paulo Núncio e secretário de Estado deu despacho a favor"

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 30.04.15

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

 

Reedito este texto no dia em que os meus pais fariam 60 anos de casados. Sempre associo esta data a um clima de alegria redobrada lá em casa. Festejaram-na durante 55 anos. Hoje, pela primeira vez, evoco-a sem nenhum dos dois cá estar.

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Presidenciáveis (42)

por Pedro Correia, em 30.04.15

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José Silva Peneda

 

Falta alguém com sensibilidade social em Belém? Pois aí têm essa pessoa: o presidente cessante do Conselho Económico e Social, que nesta qualidade assinou alguns dos documentos  mais contundentes contra a austeridade que ficaram a marcar a era da tróica em Portugal.

Conotado com o cavaquismo puro e duro, amigo do ainda inquilino de Belém, José Silva Peneda foi um discreto ministro do Emprego e da Segurança Social em dois governos de Aníbal Cavaco Silva. Mas soube compensar esse período de ausência das manchetes jornalísticas pelas suas mais recentes funções: era rara a semana em que os críticos do Governo PSD/CDS não citavam um parágrafo produzido pelo CES. E quase fizeram de Silva Peneda o seu herói.

Este nativo do signo Gémeos, de 64 anos, está na reserva da república. Mobilizável a qualquer momento, como se dizia no tempo dos nossos egrégios avós.

 

Prós - O mediatismo dos últimos anos: agradou a uma certa esquerda sem desagradar em excesso a uma certa direita conotada com o catolicismo social. Opõe-se ao aborto ortográfico. Silva é um apelido que o liga ao cidadão comum enquanto Peneda lhe confere uma aura de solidez. 

 

Contras - Suavizou o pendor crítico do CES quando começou a constar que figurava na lista dos proto-candidatos a comissário europeu. Na altura, chegou a transmitir essa ambição de forma talvez demasiado franca. Preterido por Carlos Moedas, trocou o CES por Bruxelas, a convite de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia - um dos ramos da tróica, por sinal.

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O medo dos bárbaros

por Luís Naves, em 30.04.15

As pessoas vivem vidas confortáveis no constante receio de brotar do caos um elemento que possa virar o barco onde viajam sentadas. Devemos defender as nossas cidades e erguer muralhas bem fortes. Teoricamente, temos  pena dos pobres, até enfrentarmos um verdadeiro pobre. A miséria não é para sentir ou cheirar, é para admirar à distância, como quem observa a diversidade no jardim zoológico, lugar de exibição que apenas serve para confirmar a superioridade da nossa própria espécie. Assim, o que vemos na televisão sobre deserdados funciona como os documentários da National Geographic, a cores, em alta definição, suficientemente exótico e distante para nos interessar. Não gostamos da realidade, apenas da irrealidade. Os bárbaros são os diferentes; nós somos os indiferentes. Amontoamos belas palavras sobre a dor das vítimas, a inépcia dos desadaptados, mas queremos os nossos direitos e ficamos espantados quando os miseráveis não se levantam da sua miséria.

Assisti ontem a uma cena interessante, mas sem moral ou sentido do qual se possa tirar uma conclusão: um homem de aspecto miserável, pedinte mal-cheiroso, estendia a mão ao fundo das escadas da boca do metro, abrigado da chuva miudinha. A funcionária do metropolitano veio imediatamente e mandou-o sair dali. Que fosse estender a mão à chuva. Na véspera, aquela mesma funcionária estivera em greve, a defender os seus direitos.

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A suspensão da UBER

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.15

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A Uber é uma empresa tecnológica, com sede nos Estados Unidos da América e que entrou em Portugal em Julho de 2014.

Actualmente disponibilizava dois serviços: o UberBlack e o UberX. O primeiro era considerado o segmento de luxo, porque só funcionava com carros de gama alta, como Audi A6, BMW série 5 ou Mercedes Benz Classe E.

A tarifa base deste serviço era de dois euros, a que se somava 30 cêntimos por minuto e 1,10 euros por quilómetro. No mínimo, uma viagem custava oito euros. Quem quisesse cancelar este serviço, pagava a tarifa mínima do serviço.

O UberX era o serviço low-cost da empresa, que começava com uma tarifa base de um euro, em carros Volkswagen Golf, Opel Astra ou Seat Leon. À tarifa base, acresciam 10 cêntimos por minuto e 65 cêntimos por quilómetro. No mínimo, teria de pagar 2,50 euros pela viagem. Se quisesse cancelar o serviço, pagava a mesma tarifa mínima.

A empresa foi proibida de operar em Portugal e, em menos de 24 horas, milhares de pessoas manifestaram-se contra a decisão.

Pessoalmente gostava de perceber quais as razões que levaram a tal decisão e que grupos de pressão nela estarão interessados, já que só recorria a este serviço quem queria e a qualidade do mesmo era inquestionável. Sobretudo num país onde o grau de sujidade dos táxis é lamentável, e não sofre a fiscalização por parte das autoridades sanitárias que o seu estado e funcionando em continuo justificaria. Nomeadamente face aos preços praticados...

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O candidato.

por Luís Menezes Leitão, em 30.04.15

 

Se alguém tinha dúvidas sobre a absoluta vaguidade de Sampaio da Nóvoa, corporizada na total ausência de ideias e propostas concretas, ficou esclarecido com o seu discurso de ontem. Qualquer candidato a Presidente da República, na apresentação da sua candidatura, deve responder a algumas questões básicas. Este candidato respondeu assim:

— Por que é que se candidata?

— Pela "obrigação de não ficar em silêncio, não me esconder num tempo tão duro".

— O que é que vai fazer na Presidência?

— "Se for eleito Presidente da República não serei o espectador impávido perante a degradação da nossa vida pública".

— Mas então o que vai fazer de concreto?

— Vou ser "presente, capaz de ouvir, cuidar, proteger e promover a inclusão".

— Mas de que forma?

— Vou "unir os portugueses e fazer pactos para o futuro" "Tudo na mesma é que não".

— Mas não nos consegue dizer nada de mais preciso?

— O meu compromisso para Presidente ficará selado numa carta de princípios a ser apresentada "dentro em breve".

— Mas o que é que acha de que facto pode fazer um Presidente da República?

— Um Presidente da República "pode fazer a diferença". "Não governa nem legisla", mas deve ser "um moderador, um regulador". "É por isso que aqui estou". Proponho-me dizer o que penso sobre as grandes questões de Portugal e "agitar".

 

O candidato questionou: "Que política é esta, sem uma única ideia de futuro para Portugal, que país é este que parece sem vontade, sem pensamento e sem rumo?". Acho que deveria começar por olhar para si próprio, já que não apresentou nenhuma ideia nem nenhum pensamento em concreto, tendo até contraditoriamente assumido a posição simultânea de moderador e de agitador. Talvez seja essa a razão por que foi escolhido para candidato pelo PS, em detrimento de Henrique Neto que, esse sim, tem falado de coisas concretas, como o número de políticos a contas com a justiça.

 

Em qualquer caso, está visto que a candidatura de Sampaio da Nóvoa não entusiasma ninguém. Não é por acaso que foi lançada no Teatro da Trindade, com uma capacidade para 400 pessoas, quando o lógico seria que fosse na Aula Magna da Universidade de Lisboa, da qual foi Reitor, com uma capacidade para 1600 pessoas, e que foi onde Jorge Sampaio apresentou a sua candidatura. E mesmo no Teatro da Trindade, os lugares tiveram que ser preenchidos com gente do PS. Já António Costa, que empurrou o candidato para Belém, convenientemente nem sequer compareceu, limitando-se a mandar a família. Na verdade, o candidato não existe sem o PS, e se este não lhe tivesse manifestado apoio, estaria ao nível dos outros candidatos folclóricos que têm surgido. Mas o apoio de um partido não chega para eleger um candidado anódino, como ficou demonstrado em 1980 quando a AD apoiou um general desconhecido, Soares Carneiro, para Belém. Sampaio da Nóvoa já começou a tomar consciência disso, quando disse que "vai ser difícil". Não me lembro de ter ouvido essa frase em nenhum outro lançamento de candidatura.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.04.15

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Hitler, de Giulio Ricchezza

Biografia

(reedição Saída de Emergência, 2ª ed, 2015)

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Um bom negócio

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.15

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(Foto José Coelho, Lusa) 

 

aqui tinha assinalado as razões pelas quais me parecia oportuna a reedição da coligação PSD/CDS-PP para as legislativas do Outono. Aproveitando a aprovação pelo Conselho Nacional do CDS-PP do acordo entre Passos Coelho e Paulo Portas, hoje registo a forma inteligente como o CDS-PP se "integrou" nessa coligação.

De acordo com o que foi conhecido, os termos desse acordo e a formação das listas respeitarão os resultados das legislativas de 2011. Em princípio, atendendo ao desgaste de quatro anos de Governo, às muitas decisões polémicas, ao número de casos obscuros - alguns em investigação, outros a iniciarem esse caminho -, às brechas no relacionamento entre os dois partidos e à diferença de discursos, seria pouco previsível que houvesse coligação. Mas o que é facto é que há e vai continuar a haver coligação. 

À partida, os resultados de 2011 para a elaboração das listas e inclusão de candidatos de cada um desses partidos favorecerá mais o CDS-PP do que o PSD. Porquê? Porque com a apetência do método de Hondt para favorecer os maiores partidos, se os partidos concorressem  isolados uma quebra da votação teria efeitos mais gravosos para o CDS-PP, em termos de deputados eleitos, do que teria para o PSD. Mas, por outro lado, também seria admissível que a verificar-se uma queda eleitoral dos partidos da coligação - ainda por provar -, essa queda seria mais pronunciada para o PSD, que liderou o Governo, do que para o CDS-PP. Para já, o PSD parte com 108 mandatos e o CDS-PP com 24, ou seja, a coligação parte com 132 deputados.   

Porém, aquele que para mim é o facto mais relevante é verificar que o CDS-PP desvaloriza a circunstância de não ter havido qualquer acordo em relação aos cabeças de lista. No PSD deve haver muita gente a esfregar as mãos. No CDS-PP talvez não tantos, pois seria natural que nalguns círculos, como por exemplo em Aveiro, aparecesse o próprio Paulo Portas a encabeçar a lista. Ao recusar o tal braço-de-ferro com o PSD por causa dos cabeças de lista, o líder do CDS-PP protege-se, ao mesmo tempo que protege o seu próprio partido.

O cumprimento do programa de ajustamento, ainda que indo muito para além da troika e com resultados péssimos ao nível do défice, da procura interna, do desemprego, da qualidade de vida dos portugueses, bem ou mal foi levado até ao fim. Se o CDS-PP se pode "orgulhar" disto não poderá, certamente, contornar as consequências desse cumprimento para o seu próprio eleitorado. Pelo menos para aquele que reclama representar: reformados e pensionistas, jovens, quadros técnicos da classe média, pequenos investidores bolsistas, pequenos aforradores, pequenos e médios empresários. Foram estes os que mais sofreram com o cumprimento do programa de ajustamento e com o desvario fiscal, aqueles que mais sentiram nos bolsos o descontrolo das contas públicas e a incapacidade do Governo para fazer os ajustamentos na máquina do Estado e da Administração Pública que impedissem a limpeza que fizeram às carteiras dos contribuintes. Estes, ao mesmo tempo que viam os seus rendimentos e parcas poupanças (os que as tinham) desaparecer, assistiam à forma complacente como "o partido dos contribuintes" assimilava os cortes nas reformas e as taxas e "taxinhas" extraordinárias em matéria de IRS, e assistiam ao crescimento da despesa do Estado.

Um mau resultado da coligação PSD/CDS-PP será sempre um mau resultado de quem liderou o Governo, e não uma consequência do desempenho mais ou menos infeliz dos ministros do CDS-PP. Levar em conta os resultados de 2011, por este prisma, como parâmetro seguido para a elaboração das futuras listas dos candidatos a deputados, foi um bom negócio para Paulo Portas. E um bom negócio será se houver um bom resultado eleitoral da coligação. Porque neste caso esse bom resultado só acontecerá, di-lo-á Paulo Portas no rescaldo, "porque o CDS-PP se manteve fiel aos seu princípios, dando o seu aval à coligação, conferindo-lhe o apoio necessário para que este resultado, de que o CDS-PP se orgulha, fosse possível". 

Habituado como está a percorrer tudo o que é feira e mercado e a assistir ao regateio dos preços, Paulo Portas percebeu que este não é o momento de fazer exigências. No final se verá se foi um bom negócio para os seus eleitores ou se só o foi para o homem dos chouriços.

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As canções do século (1946)

por Pedro Correia, em 30.04.15

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Deviam ter chegado mais cedo

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.04.15

Desta vez, já lá estavam. Para a próxima têm de escolher os que trabalham vinte e quatro horas por dia e não precisam de picar o ponto.

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Pelo visto, o extraordinário Yannis Varoufakis, depois de ter sido remetido a uma posição mais recatada nas negociações com a troika, digo com as instituições, tem agora mais tempo para se dedicar à reflexão sobre medidas originais para dar a volta à situação grega. O próximo coelho a saltar-lhe da carola poderá bem ser, ao que se diz, uma amnistia fiscal para os concidadãos que declarem a existência de depósitos no estrangeiro. À primeira vista, a coisa pode causar algum estupor: mas então não eram Varoufakis e o Syriza a luzinha que nos alumia, o símbolo da mudança da própria Europa, os percursores de um novo caminho que seria trilhado cantando hossanas por vultos da dimensão de António Costa, Mário Soares (Tsipras, de quem sou amigo), Catarina Martins, Boaventura Sousa Santos e outros subscritores de manifestos e participantes em iniciativas cidadãs, foruns, plataformas, movimentos e iniciativas? Não estarão, perguntarão muitos, Varoufakis e o Syriza a abastardar a sua linha política, a vender-se ao capital (iiiiiiiih!), a trair os ideais de esquerda, a renegar os valores da alternativa, ó horror, a roer a corda? É que, se bem virmos, dirão os mesmos, não deve ser o grego comum, o grego vítima da crise humanitária, o grego esmagado pela Merkel, o titular típico dessas (ler a partir de agora com os dentes cerrados e expressão a meio caminho entre a raiva e o nojo, como faz o Louçã) cooooontas no estrrrrrangeirrro oooonde cerrrrtamente se acumularrrrrão grroooossos capitaiiiiiis subtrrrraídos aos impoooostos e ao pooovo (dar agora um gritinho de indignação e voltar a ler normalmente)... Mas dizer isso é, lamento, ter vistas curtas. A genialidade da medida está aqui: vinda da cabeça de qualquer outro perigoso governante de qualquer outra geografia, a amnistia fiscal é compadrio com o capital, com os tubarões, com os especuladores e agiotas, é favorecimento de amigos; vinda da cebeça pelada de Varoufakis, a amnistia fiscal tem o objectivo de favorecer os inimigos. Isto é, apela à paz no mundo e promove a concórdia. A amnistia fiscal pensada por Varoufakis é como a baixa da TSU dita por Costa: bebe da pureza dos ideais do homem novo e solidário. Quanto ao trabalhinho de casa, é só isto: procurar no Google declarações de camaradas do Bloco de Esquerda sobre amnistias fiscais e imagens de abracinhos ao Tsipras.

 

Nota: o autor é contra amnistias fiscais em geral, abrindo excepção apenas para as que forem ou tenham sido propostas por Varoufakis ou por governos do Partido Socialista português.

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Fala-se muito em direitos, liberdades e garantias. Mas existe um direito fundamental de que lamentavelmente ninguém fala: o elementar direito ao reconhecimento da realidade.

Lembrei-me disto ao ver a última emissão do programa televisivo Quadratura do Círculo, em que os papéis pareciam mais trocados que nunca. António Lobo Xavier, militante do CDS, defendia o PS com visível convicção. Jorge Coelho, militante do PS, mostrava uma compreensão benévola para a missão governativa da coligação PSD-CDS. E Pacheco Pereira, militante do PSD, transformava o Bloco de Esquerda num modelo de moderação política.

O diálogo a três foi muito extenso, mas interessou-me essencialmente o trecho que passo a transcrever - com a devida vénia - antes de um sucinto remate.

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Pacheco Pereira - Estão lá [nas propostas divulgadas pelo PS] a incorporação dos dados do Tratado Orçamental, está lá o controlo do défice, está lá um conjunto de medidas restritivas...

Jorge Coelho - Quer que o País saia da Europa?

PP - Não, não quero que o País saia da Europa. O que eu gostava era de ter visto o PS, nos últimos tempos, crítico da construção europeia, por exemplo em relação à Grécia.

JC - Você tem uma visão ultra-radical da construção europeia!

PP - Tenho uma visão ultra-radical. Aceitando-se os objectivos do Tratado Orçamental, aceitando-se os modelos pelos quais se incorporam esses objectivos, a maioria das coisas que você diz não é razoável. Vocês colocam-se na situação de dar razão às críticas do Governo.

JC - Então você quer sair da União Europeia. Assuma isso! Diga: Portugal tem que sair da UE!

PP - A Europa, neste momento, é um dos principais venenos para a democracia. Você não acha?

JC - Olhe... está a ver?

PP - A UE só existe se conjugar políticas comuns com a solidariedade. E a solidariedade significa uma transferência de recursos dos países mais ricos para os mais pobres. E só resulta se os países forem virtualmente iguais, coisa que neste momento claramente não são. Enquanto vocês falam da Europa, vocês estão a falar dos Donos Disto Tudo.

Lobo Xavier - Sem desprimor, mas a diferença entre este pensamento e o do Louçã é nenhuma.

PP - Vocês são os donos da realidade e não acertam numa!

LX - Você não gosta da realidade e não quer lidar com ela. Quer romper com a realidade.

..................................................................

 

Ouvindo tão inspirador diálogo, questiono-me se na próxima revisão constitucional os deputados não deverão acrescentar este direito ao extenso cardápio dos já existentes: o inalienável direito ao reconhecimento da realidade. Sem esta conquista, outros direitos fundamentais jamais sairão do papel.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.04.15

 

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Prometo Falhar, de Pedro Chagas Freitas

Romance

(edição Marcador, 2014)

"Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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As canções do século (1945)

por Pedro Correia, em 29.04.15

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.04.15

Ao Geografando...

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.04.15

«Para quem nasceu já depois de acontecida a Revolução, sinto que aos poucos, poucochinhos, estamos a perder a liberdade que me dizem ter sido tão aclamada nesses tempos. E, como é óbvio, duvido das verdadeiras conquistas desse dia, pois não tenho "termo de comparação" a não ser a atualidade.
Quando questiono quem me rodeia sobre as suas opiniões relativas a estas e outras novas censuras, ouço que naquele tempo antigo era pior. Ou então percebo que alguns apenas defendem as antigas liberdades pelas quais se lutou na Revolução e não entendem que o mundo mudou e que existem tantas outras correntes que amarram a nossa nova necessidade de liberdades ao ponto de ser necessária uma nova revolução (figurada ou não).
A bandeira dessa luta tem de ser redesenhada, reinventada. Os princípios fundamentais têm de emergir e abarcar a nova realidade.
Neste caso em concreto, em vez de limitarem/censurarem a cobertura por parte dos media, censurem as campanhas dos partidos políticos, para que se abandonem as campanhas circenses e se faça política "à séria", pois a política é uma ciência e não um acto de palhaçada.
A política existe para e pelos cidadãos e não para e pelos partidos.»

 

Do nosso leitor Jhonny M. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.

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A região mais perigosa do país?

por José António Abreu, em 28.04.15

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Estrada Nacional 2, perto de Lamego.

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A senhora da foto é filha de Salgueiro Maia. Além desse facto não se lhe conhece, publicamente claro, nenhuma outra "virtude". Não só não há nenhuma relevância jornalística em eu ser filho de, pai de, marido de ou amigo de, como as qualidades e/ou defeitos de alguém não se transmitem por osmose em nenhuma dessas ligações. Mas o que quero relevar aqui é o embuste, transmitido pelos meios de comunicação sem qualquer verificação crítica dos factos que, como a seguir demonstro, estão facilmente à disposição de qualquer um. Diz Catarina Salgueiro Maia que emigrou para o Luxemburgo em 2011, «ano em que a 'troika' chegou a Portugal e "em que o primeiro-ministro aconselhou as pessoas a ganhar experiência no estrangeiro", ironizou, recordando os apelos do Governo à emigração». Não há dúvida de que a troika chegou a Portugal em 2011 (o pedido de ajuda foi feito a 6 de Abril); já o governo apenas tomou posse em 21 de Junho, e as tais declarações polémicas sobre emigração ocorreram a partir de Outubro. Ora neste vídeo, aos 30 segundos, Catarina afirma com absoluta certeza que chegou ao Luxemburgo no dia 15 de Março. Portanto, quando diz que diz que «foi "convidada" a sair de Portugal pelo primeiro-ministro Passos Coelho» está a mentir descaradamente. Se por ressabiamento ou ao serviço da sua ideologia política, isso não sei; mas sei que se queremos melhores políticos temos que ser melhores cidadãos. Não vale tudo para levar a água ao nosso moinho. E não, as qualidades (a imagem de tenho de Salgueiro Maia é a de um homem recto) não se transmitem por osmose jornalística. Nem sequer pelos genes.

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A queda de um anjo.

por Luís Menezes Leitão, em 28.04.15

Sempre estive contra a ideia de atirar a Grécia às feras, como parece ser o objectivo de Schäuble, para o que conta com o entusiástico apoio de Maria Luís Albuquerque. No entanto, também sempre achei que Yanis Varoufakis tinha uma visão demasiado simplista dos problemas da Grécia, aliada a uma enorme falta de credibilidade, que era ainda mais acentuada pelo visual que ostentava. Um Ministro das Finanças de qualquer país deve saber que existe um dress code que deve ser adoptado em reuniões internacionais, sob pena de ficar com a imagem de ser o palhaço do grupo. Da mesma forma, um Ministro das Finanças deve saber que nessas reuniões se apresentam propostas concretas e estudadas e não ideias vagas sobre os problemas. E muito menos se apresentam propostas estapafúrdias, como a de colocar turistas, domésticas e estudantes a vigiar os impostos pagos pelos gregos. Há um limite para o amadorismo e para as boas intenções, das quais diz o povo que está o inferno cheio. Se a própria bolsa grega entra em euforia com a despromoção do Ministro das Finanças, está tudo dito. Varoufakis quis comportar-se como um anjinho no Eurogrupo. Como todos os anjos, o seu destino só podia ser a queda.

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Do amor masculino

por Teresa Ribeiro, em 28.04.15

"O amor nos homens não é mais que o reconhecimento pelo prazer recebido" - Michel Houellebecq in "Submissão"

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.04.15

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Manoel de Oliveira - O Homem da Máquina de Filmar, de Rute Silva Correia

Biografia

(edição Oficina do Livro, 2015)

"Por vontade expressa da autora, o livro respeita a ortografia anterior ao acordo actual"

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As canções do século (1944)

por Pedro Correia, em 28.04.15

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 28.04.15

Ao Desconversando...

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Pensamento da semana

por Rui Rocha, em 27.04.15

Ainda melhor do que substituir o Varoufakis pelo Tsakalotos era substituí-lo pelo Tsakaeuromilhões.

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Extinções e mudança: uma polémica

por Luís Naves, em 27.04.15

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André Abrantes Amaral considera aqui que interpretei incorrectamente o que escreveu. O autor afirma que “os objectivos do 25 de Abril se esgotaram em 1986”, pois o “regime saído de 74 não foi capaz de evoluir”. Mas este é o ponto que tentei criticar, sublinhando que vivemos em contexto europeu e num país industrializado com democracia normal. Após a resposta continuo sem compreender a razão para o autor separar o antes e o depois de 86. Julgo que se refere à adesão europeia, que foi um dos maiores triunfos do 25 de Abril.

Um regime que não evolua tem falta de flexibilidade e resiste à mudança. Não parece ser o caso português, pois nos últimos 40 anos, a sociedade sofreu uma transformação acelerada e sem precedentes. Por outro lado, André Abrantes Amaral acusa-me de escrever um texto politicamente correcto, embora sem definir o que é isso. Será politicamente correcto pensar que esta mudança resultou da adesão europeia, por sua vez proporcionada pela liberdade do 25 de Abril?*

“O regime não dá respostas”, considera o autor, centrando a análise na questão da dívida pública: o desenvolvimento foi conseguido à custa de uma dívida que se transformou numa ameaça ao desenvolvimento, diz. Esta ideia também é difícil de sustentar, já que em 2006 a dívida pública portuguesa rondava 63% do PIB, o que então dificilmente se podia considerar um nível insustentável. Claro que os erros de política já lá estavam, também se pode afirmar que essa dívida era superior ao nível permitido pelos compromissos europeus, fora a parte escondida, mas o facto é que havia países mais desenvolvidos com proporções bem superiores.

Enfim, sendo recente, a dívida que nos levou ao resgate e agravou de maneira dramática a nossa passagem pela crise não parece resultar do carácter do regime. Os erros políticos que a causaram têm proprietários. As responsabilidades não são difusas e não podem ser atribuídas a um sistema que, englobando toda a gente, desculpa toda a gente.

 

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Insisto: o regime político que resulta do 25 de Abril é normal no quadro europeu e esse é o maior elogio que se lhe pode fazer. Os objectivos de 74 foram cumpridos: banalidade democrática e problemas suportáveis. As clivagens parecem irrelevantes (nem a crise causou insurreições), o que explica a falta de debate político: lembro que na campanha eleitoral britânica também não há discussões por aí além e os candidatos se entregam a uma estranha obsessão com as selfies; há ainda exemplo de países menos felizes onde o debate político é sintoma de profundas divisões sociais, religiosas ou étnicas, mas não é esse o modelo que queremos.

O ponto que mais me incomoda nos posts que tentei criticar foi a tentativa implícita de atribuir a crise que atravessámos aos defeitos do 25 de Abril. Além disso, a ideia que paira nestes textos conduz à necessidade de se pensar num novo regime. Precisamos de políticos mais competentes e círculos uninominais? Provavelmente, apesar de alguns distritos serem quase círculos uninominais e isso não mudar muito as práticas habituais em relação aos candidatos partidários ou a actuação dos eleitos no parlamento. Precisamos de contas equilibradas e menos pobreza? Claro, mas pergunto se isto não se pode fazer sem alterar o sistema político. O que impede o aparecimento de novos partidos, de movimentos cívicos, de reformas económicas? O que impede o aparecimento de novas ideias? O regime saído do 25 de Abril não se adaptou à mudança? Pelo contrário, ele permitiu grandes alterações na sociedade portuguesa. Os dinossauros é que nunca se adaptaram ao seu século e acabaram extintos (o Estado Novo, a Primeira República, a Monarquia Constitucional). Não quererá Abrantes Amaral explicar melhor o que o leva a dizer que estamos perante outro dinossauro?

 

* para mim, o politicamente correcto é uma perversão da linguagem que altera o sentido das palavras e nos impede de ver o óbvio. Julgo estar inocente.

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Traduções

por José António Abreu, em 27.04.15

Ao escrever o texto sobre Linda Fiorentino e The Last Seduction ponderei usar o termo «bitch» em português. Verifiquei traduções possíveis. Como seria de esperar, o Dictionary.com oferece várias hipóteses: a female dog; a malicious, unpleasant, selfish person, especially a woman; a person who is submissive or subservient to someone, usually in a humiliating way. Numa tradução directa para português, o Google escolhe «cadela». Já o Bing... bom, o Bing não está com meias-medidas. Ora façam o teste.

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Presidenciáveis (41)

por Pedro Correia, em 27.04.15

 

Vítor Constâncio

 

Tem um ar grave e circunspecto, a condizer com os reposteiros presidenciais. O cachimbo fica-lhe bem. E há quem jure que percebe imenso de contas públicas - embora neste caso a doutrina se divida. Nativo do signo Balança, 71 anos. Já foi ministro das Finanças, como sucessor de Medina Carreira, governou o Banco de Portugal em tempo de previsões falhadas e ocupa hoje uma das vice-presidências do Banco Central Europeu. No PS, que contou sempre com o seu aval de especialista em operações de adição e subtracção, encontraria certamente alguns apoios: convém recordar que Vítor Constâncio chegou a ser secretário-geral do partido, entre as lideranças de Mário Soares e Jorge Sampaio.

 

Prós - Resiste incólume às intempéries. O descalabro das contas públicas - portuguesas e europeias - não lhe causou até agora um só cabelo branco.

 

Contras - Em 1987, com um lapidar erro de cálculo político, ofereceu de bandeja ao PSD a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva: os militantes socialistas dotados de boa memória ainda não se esqueceram disto. Se fosse para Belém, perderia muito dinheiro: tem um salário milionário como vice-presidente do BCE.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.04.15

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Searas Vermelhas de Abril, de Francisco do Ó Pacheco

Romance

(edição Página a Página, 2014)

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Depois dos submarinos vêm os aviões

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.04.15

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 "A empresa que beneficiou da maior parte das contrapartidas só foi criada em Setembro de 2012. Um mês depois da assinatura do contrato entre o Governo e a Airbus" - Público, 27/04/2015

Para já ainda não há drones. Eu estou convencido, por experiência destas coisas, de que com tempo também aparecerão. Drones e ovnis. Mas sabe-se que a criançada - não apenas esta - sempre gostou de submarinos e outros brinquedos caros para se entreter. E que já no tempo do outro Cavaco Silva, do que foi primeiro-ministro, o Independente do Dr. Portas trazia umas "histórias" relacionadas com a Airbus que chegaram a fazer manchete. Admito que os mais novos não saibam, ou não se lembrem disso, e que alguns mais velhos já tenham  esquecido, mas é bom recordá-lo, agora que os aviões estão de regresso. 

Bem sei que tirando aquelas coisas das despesas de deslocação e das contas da segurança social que um tipo se podia escusar a pagar sem ninguém dar por nada, há quem pense que é só má vontade contra os cavalheiros. Só que são tantos os gatos escondidos entre os lençóis da lavandaria que se esqueceram da cauda de fora, que antevejo a necessidade de se gastar uma verba extra com amaciadores durante a campanha eleitoral.

Ainda não se acabou a lavagem das PPP's e das privatizações e eis que mais um caso de exemplar transparência conhece a luz do dia. Entretanto, enquanto as catatuas não começam a repetir o que ouviram aos donos, o mexilhão vai pagando os juros dos brilharetes. Isto é, das contrapartidas. 

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As canções do século (1943)

por Pedro Correia, em 27.04.15

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Fotografias tiradas por aí (223)

por José António Abreu, em 26.04.15

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Florença, 2011.

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Blogue da semana

por Rui Rocha, em 26.04.15

Tenho uma selecção de blogues no feedly, claro. Há todavia três que leio diariamente mas que não tenho lá. Um deles é de um tipo insuportável que escreve bem nas horas. Jamais admitirei em público que o leio, quanto mais tê-lo no feedly... o grande sacana. O terceiro deve vir cá quando me calhar escolher outra vez o blogue da semana. O outro é o do Filipe Nunes Vicente. Há então razões para não o ter no feedly? Deve haver. Uma delas bem poderia ser a de o fulano mudar de blogue com o mesmo à vontade com que o Jorge Jesus atropela os bons costumes e a gramática. Mas o mais certo é não ser só isso. Se quisesse aprofundar o assunto, talvez chegasse à conclusão de que tenho um bocadito de raiva das análises (pun intended) acutilantes e sagazes que o Filipe nos vai oferecendo. Em todo o caso, é ir ao Nada os dispõe à acção antes que o gajo mude de blogue outra vez. Com um bocado de sorte, ainda levam o bónus de encontrarem algum texto do Pedro Picoito.

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Os filmes da minha vida (48)

por Pedro Correia, em 26.04.15

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Kay Adams (Diane Keaton) e Michael Corleone (Al Pacino) em O Padrinho (1972)

 

O MITO É O NADA QUE É TUDO:

NOS 75 ANOS DE AL PACINO

É uma das cenas mais inesquecíveis do cinema - do tempo em que o cinema ainda não havia sido destronado, como forma de expressão artística, pela excelente televisão dos nossos dias.

Ele e ela estão sentados a uma mesa. Ele acaba de vir da guerra, aparece de uniforme a conferir-lhe dimensão de herói: é Michael Corleone (Al Pacino). Ela, naquela hora irrepetível do esplendor na relva, é a noiva dele, Kay Adams (Diane Keaton).

Percebemos que o diálogo que travam terá consequências irreparáveis na vida de ambos.

 

Ela, com o sexto sentido a alertá-la para um final infeliz, despeja-lhe todo um cardápio de dúvidas - visando-o menos a ele do que ao poderoso clã familiar no qual está prestes a entrar como esposa e nora, consciente de que dará um passo do qual talvez venha a arrepender-se para sempre.

Ele, com um sopro de inocência insuflado no olhar, procura atenuar-lhe os receios com todos os recursos estilísticos de que a eloquência masculina é capaz perante uma mulher apaixonada. Assegura-lhe ser diferente dos restantes Corleones. Ilude-a ao proclamar que não foi em vão que combateu pela pátria, como o mais decente dos cidadãos faria. Faz-lhe promessas que não tardarão a ser quebradas, cumprindo um ritual atávico da velha Sicília que lhe sulca os genes.

O destino irá desmentir-lhe as palavras com precário prazo de validade, sinceras apenas no momento preciso em que são pronunciadas. Mas Kay acredita nelas. E todos nós, que assistimos àquele diálogo como testemunhas privilegiadas, acreditamos igualmente nelas. Porque a mentira em arte é verdade também.

Haja o que houver, aconteça o que acontecer, jamais esqueceremos aquele último lampejo de inocência no olhar de Michael Corleone no primeiro tomo da trilogia d' O Padrinho, realizada por Francis Ford Coppola. Um filme que vale por uma sinfonia de Beethoven, uma partitura de Brahms, um drama de Ibsen, uma tela de Goya. Do tempo em que o cinema não se envergonhava de ser arte.

 

Al Pacino é um dos raros actores que conferem genialidade interpretativa a um simples olhar. Já era assim em 1972, quando pela primeira vez deu vida e voz à figura de Michael Corleone. Sem esgares, sem truques histriónicos, sem gestos desmesurados. Aproveitando cada pausa, cada silêncio, cada momento aparentemente morto para melhor compor a personagem. Como é próprio de um grande intérprete.

E continua assim aos 75 anos, cumpridos ontem. A trabalhar. Porque um verdadeiro actor nunca se reforma. Porque um verdadeiro actor sabe melhor que ninguém como são autênticos, na pele e na carne, aqueles imortais versos de Pessoa: "O mito é o nada que é tudo".

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Cavaco e os "campeões" da democracia

por Rui Rocha, em 26.04.15

Percebo a sanha contra Cavaco. A mim também me incomoda o discurso, a pose e a visão (ou a falta dela). A mim e a muitos outros cidadões, como diria para nosso tão grande desencanto o próprio presidente. Mas há uma coisas que conviria não esquecer. Cavaco foi sempre democraticamente eleito e em diversas ocasiões. Duas delas, de forma consecutiva (isto é, com renovação da confiança do voto) para as funções que actualmente exerce. A última, há menos de cinco anos. E é preciso não esquecer também que as principais alternativas democráticas a Cavaco foram nessa altura Fernando Nobre (isso), Manuel Alegre (pois) e Mário Soares (exacto). Isto é, não chegámos a Cavaco por acaso. Da mesma maneira, quando Cavaco assumiu funções de primeiro-ministro pela primeira vez a situação do país e as alternativas eram as que eram. Que a nossa democracia é pobrezinha? Pois é. Basta medi-la pela qualidade das alternativas que foram sendo apresentadas nas várias eleições que Cavaco ganhou. Ou pelas atitudes dos auto-proclamados campeões da democracia que, querendo diminuir Cavaco, mais não fazem do que atingir o pouco crédito que resta às instituições. É triste ter um provinciano como Cavaco como presidente. É ainda mais triste perceber como são mesquinhos, sectários, arrogantes e desligados das regras do jogo democrático alguns daqueles em quem podíamos ter votado em vez dele.

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 26.04.15

O grande José Vilhena agora na blogosfera. Apetece-me dizer novamente: "Je suis Vilhena".

 

Ladrões de Bicicletas pedalam há oito anos. Parabéns.

 

Um abraço ao António Agostinho: há nove anos na Outra Margem.

 

Cumpre-se uma década de Bic Laranja. Que também podia chamar-se Bic Cristal.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.04.15

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 Cantores de Abril, de Eduardo M. Raposo

Prefácio de Manuel Alegre

Entrevistas a cantores e outros protagonistas do "canto de intervenção"

(edição Colibri, 2ª ed, 2014)

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Uma coligação oportuna

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.04.15

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(foto JN) 

A decisão de PSD e CDS-PP de se apresentarem coligados às próximas eleições legislativas é uma decisão oportuna por várias razões.

Em primeiro lugar, porque é natural que quem governou em coligação se apresente ao eleitorado nos mesmos termos em que governou, ou seja, em coligação. Se governaram juntos, se foram parceiros nas boas e nas más decisões, se entendem que o caminho que percorreram deve continuar a ser trilhado no futuro, então a decisão é perfeitamente compreensível e, em meu entender, sensata. Essa será a melhor forma do eleitorado avaliar o desempenho do Governo de Passos Coelho e manifestar o que pensa sobre o futuro que deve ser reservado aos coligados.

Depois, é uma decisão oportuna porque introduz clareza numa área tradicionalmente confusa. A coligação é uma medida higiénica que traz transparência ao eleitorado, promove uma adequada separação de águas e mostra ao eleitorado que ao centro há, por agora, pelo menos dois caminhos. Um mais à direita, outro mais à esquerda.

Também é uma decisão oportuna porque permitirá ao PS saber com o que conta, podendo dessa forma ver facilitada a sua estratégia eleitoral e consolidar as suas propostas para o país. Os portugueses sabem que o PS não irá manobrar nos bastidores um qualquer governo de "consenso" para o país. 

Por outro lado, é ainda uma decisão oportuna porque também responsabilizará daqui para a frente o Presidente da República naquilo que disser e no que pontualmente venha a fazer quanto ao pouco, pouquíssimo, que lhe for exigido. Se Cavaco Silva pensava que ia ter um final de mandato calmo, fica agora com a certeza de que depois de todas as "asneiras" que promoveu as suas hipóteses de chegar ao fim sem mais problemas ficam ainda mais reduzidas. Essa é para ele uma recompensa merecida pelo seu desempenho até aqui.

Finalmente, a coligação que acabou de se apresentar ao país para as próximas eleições é também uma decisão oportuna porque mostra aos portugueses o pânico que grassa entre as hostes do PSD e do CDS-PP. Depois de todos os amuos, traições, sacudir da água do capote, intrigas e golpes a que o país assistiu, a coligação é uma imagem do estado a que chegaram e é a prova acabada de que só existe e só é anunciada nesta altura porque o desastre foi tão grande que nenhum dos partidos se sente à-vontade para se apresentar sozinho a eleições.

Esta é, pois, uma boa notícia para o país e que deve por isso mesmo ser devidamente saudada.

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Ler

por Pedro Correia, em 26.04.15

O meu 25 de Abril. De João Medina, no Malomil.

Todos os dias serão sempre o dia antes. Da Cristina Nobre Soares, n' Em Linha Recta.

Temperança. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Passos de Costa. De João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas.

Cópia privada. De Maria do Rosário Pedreira, no Horas Extraordinárias.

A "Europa" e a morte. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Tráfico de morte e indiferença. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

E se ficasse calado? Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

Pensar à grande! De Rita I Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Olhos nos olhos. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

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As canções do século (1942)

por Pedro Correia, em 26.04.15

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Passado presente (CDVIII)

por Pedro Correia, em 25.04.15

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Boletim de voto das primeiras eleições verdadeiramente democráticas em Portugal, para a Assembleia Constituinte, faz hoje 40 anos

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Crise de liquidez na banca angolana

por José Maria Gui Pimentel, em 25.04.15

Tem sido pouco noticiada a restrição à transferência de capitais para fora de Angola. Não se trata de uma restrição oficial, mas é o que acaba por acontecer efectivamente: é hoje virtualmente impossível para um particular transferir dinheiro para fora de Angola pelas vias oficiais.

Tudo começou com a recente crise económica, provocada pela queda do preço do petróleo, e que se repercutiu na taxa de câmbio do kwanza, que já está perto dos 110 kwanzas/dólar. Sucede que esta é apenas a taxa oficial, fixada pelo banco central. No mercado paralelo, o dólar é vendido a 170-180 kwanzas, um valor muito superior. Ora, os bancos comerciais são obrigados a converter kwanzas em dólar a uma taxa em torno da oficial, e porventura será este o motivo para recusarem a transferência aos clientes: estariam a perder dinheiro. Por outro lado, a própria liquidez deverá estar bastante apertada, numa altura em que os mercados internacionais se fecham e o banco central deverá dosear a cedência de reservas, elas próprias depauperadas pela crise do petróleo.

Os próximos tempos serão, tudo indica, difíceis para quem confiou no 'sonho angolano'.

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Às primeiras horas da madrugada de hoje

por José Navarro de Andrade, em 25.04.15

Ontem, ao soar da meia-noite, estralejaram foguetes em vez de badaladas, e no Largo de Santos, ruiu uma bátega que só vista. Abrigados debaixo de um beiral, oito cinquentões ergueram os cravos que traziam e soltaram-se a cantar a Grândola. Nesse instante passou por eles um grupo de miúdos demasiado jovens – não haviam de ter mais de 14 anos – de cerveja na mão e os cotas saudaram-nos com um “viva o 25 de Abril!”. Retorquiram os garotos com um esgar inibido: ter-se-ão assustado com a interpelação? Terão ficado embaraços com a figura que estavam a fazer aqueles maduros? Ter-lhes-á parecido paleolítica ou despropositada a manifestação de jovialidade?

Eu era um dos oito veteranos. Estava radiante por me encontrar vivo, porque ao fim de meio século aprende-se a não ser invulnerável; alegre por ainda estarmos ali juntos, camaradas de faculdade desde lá do fundo dos décadas; contente por poder continuar a festejar o 25 de Abril. Bem sei que é uma felicidade melancólica, aquela que se tem por aquilo que não se perdeu. Mas o que mais me tranquilizou no festejo foi a atitude dos adolescentes; para eles, que nasceram muito depois, a data é tão longínqua como o 5 de Outubro ou como o 28 de Maio eram para mim – pura História.

Confesso, por isso, algum desconforto perante o cerimonioso afã institucional, a enfatuada seriedade, ou, nos piores casos, a senatorial altivez etária (“vocês não sabem como era dantes”) nas comemorações oficiais do 25 Abril. Ainda mais entristece a versão ressentida e fracassada de um suposto 25 de Abril que não aconteceu, que transforma a data num repositório arbitrário de todos os sonhos não realizados, o 25 de Abril do que poderia ter sido, como se em vez de uma conquista – a bem dizer de uma dádiva de uns moços de 30 e poucos anos, com a pele endurecida por duas comissões de guerra – o 25 de Abril tivesse sido um malogro.

Bem andaram os miúdos de sexta à noite dos bares de Santos: a maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo – a que melhor pode aspirar a democracia senão a ser uma evidência?

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A república popular

por Luís Naves, em 25.04.15

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André Abrantes Amaral considera aqui que o actual regime se esgotou em 1986, numa curiosa tese de fim da História (talvez não tenha acontecido mais nada entretanto). O autor pergunta para que serviu o 25 de Abril e descreve a democracia como uma espécie de calamidade, o progresso económico como uma quimera.

Estas ideias parecem confusas e leves. O 25 de Abril serviu para acabar com uma guerra colonial que Portugal não podia vencer, também serviu para proporcionar a existência de opiniões livres (só a liberdade de expressão teria bastado para justificar o movimento), permitiu ainda a adesão às comunidades europeias. Sem liberdade e democracia, não estaríamos na UE e a evolução do país teria sido diferente, para pior, pois recebemos anualmente subsídios europeus equivalentes a uma média de 3% do PIB, isto durante 30 anos. Em apenas quatro décadas, Portugal conseguiu aquilo que outros países europeus fizeram num século. Em 1974, a proporção de analfabetos era de uma em cada quatro pessoas, agora é de 5%; o número de alunos no ensino secundário passou de pouco mais de 60 mil para quase meio milhão. Em 1974, metade das residências tinha água canalizada, agora é quase a totalidade. A esperança de vida à nascença aumentou dez anos e a mortalidade infantil foi reduzida para um valor que é um dos melhores do mundo. Em 1974, um terço da população activa trabalhava na agricultura; agora, a proporção é inferior a 10%. No mesmo período, o PIB per capita duplicou em termos reais.

É escusado prosseguir a lista de transformações, mas o Portugal de hoje (mesmo a sair de uma crise) não tem nenhuma semelhança com o país tristonho e pobre de 1974. A sociedade sofreu uma alteração radical, o império é uma memória, as pessoas gozam de amplas liberdades e a democracia é indiscutível. O autor escreve que não há debate político e que Portugal se desenvolveu à custa da dívida, quando é evidente que as razões do desenvolvimento são outras, que a dívida é recente e que não há dissidentes ou presos por delito de opinião. Aliás, se não há debate, é também porque André Abrantes Amaral vai ignorar este texto.

No fundo, a direita e a esquerda têm discursos parecidos em relação à Revolução de 1974: ambos consideram que se tratou de um fracasso. A esquerda acha que as ideias iniciais foram atraiçoadas, que a utopia nunca se cumpriu. A direita, de que é exemplo a análise citada, pensa que as promessas não estão concretizadas, que o novo regime é uma espécie de república popular e que devia ser mais liberal, embora os portugueses tenham escolhido assim.

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Um travesti de democracia

por Rui Herbon, em 25.04.15

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A ideia de que podemos saber e contar tudo acerca de outro ser humano é o pior pesadelo do mundo moderno. A submissão da fragilidade pessoal ao olho alheio devora tudo e revela uma perda de sensibilidade, da capacidade de se colocar no lugar do outro, do escrutinado. Há uma cegueira moral generalizada, que implica uma atitude de indiferença perante o que sucede ao nosso redor, desde logo política e socialmente, enquanto aumenta o olhar crítico – invejoso, ressabiado, maledicente, não empático – sobre os demais. É o primado do próprio: o mundo visto exclusivamente de acordo com o Eu.

 

Um dos traços da modernidade é a perda da sensibilidade para respeitar a intimidade do outro, os seus pequenos recantos reservados, as suas ideias sobre qualquer realidade. Há que pôr a nu o adversário, catalogá-lo, enviá-lo para as estantes dos armazéns construídos pelos fabricantes de rótulos. Não se admitem matizes; apenas preto e branco. Não são tempos de valorizar as complexidades humanas, individuais e colectivas.

 

Os fabricantes de rótulos não perdem tempo. Etiquetam rápida e liminarmente personagens públicas ou privadas, livros, autores, instituições. Não se discute o conteúdo; apenas o rótulo que se lhes coloca. Quem incomoda é devidamente rotulado, empacotado e tirado do circuito – neutralizado.

 

Não há só uma fábrica de rótulos; existem em todos os quadrantes políticos e sociais. Mas há umas mais poderosas que outras. Todas trabalham com afã, segundo as suas possibilidades e a sua infra-estrutura. É o triunfo da democracia de opinião (ainda por cima desinformada e/ou dirigida) sobre a democracia participativa, baseada na complexidade da vida e dos factos que a acompanham. Estas visões transformam o adversário em inimigo e dificultam a convivência política e social; colocam a ficção acima da realidade.

 

A democracia não se define pela realização de eleições; estas são a consequência de um conceito mais profundo: nunca seres humanos livres pensarão todos da mesma maneira, daí a necessidade de aferir e balancear essas correntes mediante o escrutínio eleitoral, respeitando as diversas opiniões, mesmo as minoritárias, para que a democracia não se converta na ditadura da maioria. Quando o que se observa generalizadamente, nas caixas de comentário de jornais e blogues, nas redes sociais, nas conversas de café, nos debates entre políticos, até no parlamento, é o desprezo (ou até o ódio) por quem pensa diferente, rotulado com uma parafernália de epítetos e visto como encarnação do Mal, facilmente se conclui que o regime – sinal dos tempos mas também por culpa de todos e cada um – se transformou num travesti de democracia.

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A vítima julga-se o caçador. E depois é tarde.

 

A presença de 'bitches' (mais sobre o termo em breve) no cinema americano forma um historial longo e prestigiado. Ficando por algumas das mais conhecidas, Mary Astor, no papel de Brigid O’Shaughnessy, já tentava dar volta ao Sam Spade de Humphrey Bogart em The Maltese Falcon (John Huston, 1941). Falhou (vindo dos livros de Hammett, Spade não deixava a testosterona toldar-lhe o raciocínio) mas abriu o caminho a Phyllis Dietrichson que, três anos depois, levou o agente de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) a assassinar-lhe o marido, no que muitos consideram ser o pai do Film Noir: Double Indemnity, de Billy Wilder. Em 1981, Matty Walker (Kathleen Turner) deixou Ned Racine (William Hurt) a transpirar por todos os poros em Body Heat, de Lawrence Kasdan, e uma década mais tarde surgiram duas adaptações do livro As Ligações Perigosas, de Laclos, onde pontificava a sedutora e manipulativa Madame de Meurteil (Glenn Close na versão de Stephen Frears, Annette Benning na de Milos Forman). A última grande ‘bitch’ do cinema americano terá sido Amy Dunne, interpretada pela inglesa Rosamund Pike, que há menos de um ano fez gato-sapato do marido Nick (Ben Affleck) em Gone Girl, de David Fincher (naquele jeito de liberal de Hollywood, incapaz de uma frase politicamente incorrecta, Affleck prestou-se de forma brilhante ao papel). Se me forçassem a ordenar uma lista, contudo, eu talvez atribuísse o papel de 'ultimate bitch' do cinema a Bridget Gregory, corpo e voz de Linda Fiorentino, em The Last Seduction, de John Dahl (1994). E ao chamar-lhe ‘bitch’ não estou a fazer uma apreciação de valor externa ao filme: é a própria Bridget quem o assume durante uma cavalgada sexual no interior de um Jeep Cherokee. De resto, que ela o faça torna-se útil para a definição do conceito: 'bitches' são mulheres que seduzem e manobram homens de acordo com interesses particulares, levando-os a actos contrários ao seu interesse e – no limite – criminosos; são mulheres que vêem sexo e sentimentos como meios para a obtenção de resultados materiais e se encontram perfeitamente conscientes de possuírem um poder que atira quase todos os homens heterossexuais para um estado de ingenuidade e estupidez atrozes (perdoe-se-me o adjectivo mas sou homem e heterossexual). Qual a diferença para homens atraentes e manipuladores? Apenas que estes, tendo os mesmos objectivos (riqueza, fama, poder), são, quiçá em resultado do condicionamento social e sexual a que as mulheres estiveram sujeitas ao longo dos séculos, que as obrigou a especializarem-se em jogos subtis de manipulação, muito mais lineares na forma como procuram atingi-los. Esse condicionamento (de boa saúde em inúmeras latitudes) também faz com que ainda seja desconfortável para muitos homens (e  algumas mulheres) verem mulheres no papel de predadoras sexuais - algo inerente às 'bitches', mesmo que, circunstancialmente, elas adoptem a capa de 'donzela em apuros'.

No início de The Last Seduction, Bridget abandona o marido (Bill Pullman, hilariante no meio do desespero) e a cidade de Nova Iorque, levando com ela uma mala cheia de dinheiro resultante de uma venda de droga. Obviamente, o cônjuge não fica satisfeito, muito em especial porque tem dívidas a um agiota com tendência para aparar dedos a quem se atrasa nos pagamentos. A caminho de Chicago, Bridget pára na pequena cidade de Beston e conhece Mike (Peter Berg), um tipo bem parecido mas – percebe-se logo – não excessivamente inteligente. Mike recupera de um casamento irreflectido, está desejoso de abandonar Beston e, naturalmente, deixa-se enfeitiçar pela atitude ‘don’t give a shit’ da citadina Bridget. (Há uma cena deliciosa em que ela, estando na rua a ler o jornal e a beber café, acaba por se meter dentro do carro para escapar aos «bons dias» cordatos dos transeuntes.) O resto do filme é um jogo do gato e do rato entre esposos (sendo que nem sempre o rato é quem parece), com Billy apanhado no meio, tentando convencer-se de que Bridget está genuinamente interessada nele quando vai ficando cada vez mais claro que o seu papel é exclusivamente ajudá-la a desfazer-se do marido e ficar com o dinheiro.

O filme tem voltas e reviravoltas suficientes para constituir um excelente thriller mas é mais interessante pela forma como Bridget se mantém uma ‘bitch’ do primeiro ao último fotograma. Quando Phyllis e Walter se confrontam perto do final de Double Indemnity, não é descabido ver tristeza na expressão dela. Também não é descabido pensar que Madame de Meurteil (na versão Glenn Close como na versão Annette Benning) lamenta o destino do Visconde de Valmont. Na última cena de Body Heat, Matty Walker tem uma expressão melancólica, apesar de se encontrar exactamente na situação com que sempre sonhou: rica, apanhando sol numa praia exótica. Bridget Gregory também surge nos últimos instantes de The Last Seduction mas nada na sua expressão permite acalentar a esperança de que lamenta o que quer que seja. Ganhou e é isso que lhe importa. Ainda hoje, Fiorentino confessa ter sido esse um dos pontos que mais a atraiu no papel: a recusa feroz em ‘sentimentalizar’ Bridget. Na verdade, os tradicionais papéis masculino e feminino estão invertidos no filme. Bridget nunca diz claramente a Billy que o ama enquanto este se esforça por acreditar que, traumatizada pelo casamento, ela apenas resiste a admiti-lo. Mais: tirando os momentos em que tal se revela indispensável para a prossecução do seu plano, Bridget mente muito pouco a Billy. Na maior parte do tempo, nem sequer esconde sentir por ele algum desprezo. É uma combinação de desejo e ilusões (ela não pode ser assim tão cabra) que o mantém interessado. O clímax do filme (pun intended) também nos mostra que Billy é uma personagem com mais dúvidas acerca da sua própria sexualidade do que quer fazer crer. E há ainda o facto de vermos quase sempre o homem incontornável na vida de Bridget – o marido – relegado ao apartamento de Nova Iorque, qual esposa impotente, furiosa por desconhecer o paradeiro do cônjuge.

The Last Seduction foi o terceiro de uma sequência de filmes tematicamente similares de John Dahl. O anterior, Red Rock West, com Nicolas Cage, Lara Flynn Boyle e Dennis Hopper também vale muito a pena. Após The Last Seduction, Dahl ainda realizou obras como Rounders, com Matt Damon e Edward Norton, mas depressa saiu de cena, estando hoje relegado à realização de episódios de séries televisivas. The Last Seduction foi «vendido» à produtora como sendo um filme curto, de rodagem rápida, com violência e sexo, mas Dahl e o argumentista, Steve Barancik, sempre tiveram ambições um pouco mais elevadas. Barancik relata que, após terem chegado a uma versão do argumento que ambos consideravam não poder ser mais reduzida, sob pena da lógica narrativa e da definição das personagens se perder, Dahl lhe telefonou, dizendo que a produtora ainda a considerava demasiado longa e exigia o corte de cinco páginas. Contrariado, Barancik meteu as mãos ao trabalho. Enviou o resultado a Dahl, que lhe ligou escandalizado com as alterações. Barancik perguntou-lhe como havia de encurtar o guião em cinco páginas sem cortar ou reescrever cenas. Dahl deu a resposta óbvia: «Reduz nas margens!» Cinco páginas mais ‘curto’, o guião foi aprovado e o financiamento obtido.

Linda (née Clorinda) Fiorentino nunca foi uma actriz de primeiro plano. Creio ter começado por vê-la em After Hours, de Martin Scorsese, depois achei piada a The Moderns, de Alan Rudolph (um realizador quase esquecido), mas foi The Last Seduction que – passe o pleonasmo – verdadeiramente me seduziu. Para o bem e para o mal, o filme marcou os anos seguintes da carreira de Fiorentino: que William Friedkin a tenha escolhido para protagonizar o fraquinho Jade só pode dever-se a ele e à tendência hollywoodesca para o typecasting. Entrou ainda noutro filme de John Dahl (Unforgettable, de 1996, que não fez jus ao título), em Men in Black, de Barry Sonnenfeld (1997), e praticamente não filma desde o início do milénio. Nem todos concordarão mas arrisco afirmar que The Last Seduction marcou o ponto alto das carreiras tanto do seu realizador como da sua actriz principal.

Deixei para o fim a questão mais perturbadora. Bridget é tão honesta na atitude de desinteresse pelas vontades alheias que as ilusões dos homens que encontra – e, em particular, de Billy – podem não decorrer apenas de ingenuidade mas da assumpção (o passo seguinte a uma percepção que se vem tornando cada vez mais evidente) de que, hoje em dia, o papel principal (talvez único) dos homens é servir os propósitos das mulheres (sejam eles reprodutivos, recreativos ou financeiros) e que, tal como o louva-a-deus é consumido após a cópula, constitui sua função (se não objectivo) extinguirem-se após eles serem atingidos. Uma espécie de desejo de morte nos braços (e na vagina) da mulher mais forte e atraente das redondezas. Afinal, não pode ser coincidência que os homens com quem Fiorentino saiu nos anos seguintes a The Last Seduction procurassem nela – confessa-o a própria em entrevistas – Bridget Gregory. E que ficassem desiludidos por não a encontrarem.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.04.15

 

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Abril - 40 Anos, de 40 autores

Antologia

(edição Âncora, 2014)

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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.15

 

Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói.

Cumpre o seu dever não por ser um dever

mas por urgente imperativo de consciência.

Dá o nome

a cara

o peito às balas

e se for preciso a vida

pela causa que crê ser mais justa

entre todas as causas.

 

 

Um verdadeiro herói pensa em si próprio

só depois de pensar nos outros.

Avança sem temor

com a noção exacta

de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo:

conforto, carreira, promoções, anonimato.

Ficando a partir daí

exposto ao escárnio imbecil

de todos os cobardes

que nunca dão um passo

fora do perímetro de segurança

mas quando a poeira assenta

logo surgem muito expeditos

a julgar os outros.

A julgar aqueles como tu:

os que arriscam

os que experimentam

os que se atrevem a romper as malhas

de um quotidiano medíocre.

Os que trocam a palavra eu pela palavra nós.

Os que nunca se conformam.

 

 

Um verdadeiro herói

é aquele que deixa a sua impressão digital

nas insondáveis rotas do destino humano.

 

 

Tu ousaste mudar um país.

Não pelo sangue

não pelo ódio

não pela intriga

mas pelo gesto

pelo rasgo

pelo exemplo.

Sabendo como é ténue a fronteira

entre glória e drama

quando alguém irrompe de madrugada

pronto a desafiar os guiões da História.

 

 

Fernando Salgueiro Maia.

Foste um herói

ao comandar a patrulha da alvorada.

Voltaste a ser um herói

quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol

deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes.

Recusaste ficar exposto na vitrina.

Recusaste servir de bandeira.

Recusaste ser "vanguarda revolucionária".

Recusaste ser antigo combatente.

Recusaste dar pretextos para dividir.

Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses

naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

 

 

Saíste do palco:

aquela peça já não te dizia respeito.

 

 

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente

como no momento em que abandonaste a ribalta

regressando à condição de homem comum.

Indiferente a ladainhas e louvores.

Longe da multidão

que fugazmente te acenou

na mais límpida de todas as manhãs.

Sem outra medalha além desta:

eternamente graduado no posto

de capitão da liberdade.

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25 de Abril de 2015

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.15

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Ainda cá estamos. Os cabrões também. Têm cartões de todas as cores, os vícios são os mesmos e não há maneira desta porra evoluir. Continuamos a resistir. Ligo-te para o ano.

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