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Com jeito vai

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

"Não haverá aumento de impostos ou esforço extra sobre salários e pensões", Maria Luís Albuquerque, 15/04/2014

 

"IVA sobe para 23,25%";

"A taxa contributiva, conhecida como TSU, vai aumentar 0,2 pontos percentuais para todos os trabalhadores, subindo, assim, de 11% para 11,2%";

"Pensões acima de mil euros pagam nova CES"

 

A Rádio Renascença, que deve andar mancomunada com a CGTP e o camarada Jerónimo, confirmou-me que, efectivamente, a ministra disse uma coisa no dia 15 de Abril e duas semanas depois acabou a dar o dito por não dito. Sei que o Governo também anunciou que os aumentos seriam só para 2015, que as previsões para o desemprego são mais optimistas do que as da troika e que em 2018 não haverá défice. Boas notícias, portanto.

Registo que com a mesma seriedade disseram antes que não iam cortar salários nem subsídios; que ninguém mexeria nas pensões; que o OE de 2012 foi condicionado, mas que o de 2013 é que já era deles. Enfim, a execução orçamental seria uma maravilha, a economia estaria a crescer no final de 2012, sem cortes, e por aí fora. Pelo caminho percebi que Passos Coelho se estava a lixar para as eleições. Os portugueses até nisto acreditaram e estoicamente tudo suportaram. Tinham motivos para isso.

Agora que tudo passou, que vêm aí as eleições europeias, que vejo os reformados e os trabalhadores muito mais aliviados nas suas pensões e salários, estou tão baralhado que entrei na fase em que acredito em tudo. Até na ministra.

Convenci-me, sabe-se lá porquê, como diz o exagerado do Pedro Santos Guerreiro, que "o martírio é agora diferente". Exultei com a boa nova. Estou tão esperançoso com o futuro dos meus compatriotas e do meu longínquo Portugal que não sei se compre uma garrafa de champagne. Ou, estou indeciso, se aproveitarei o facto de estarmos no Primeiro de Maio para acender uma vela à família Pingo Doce e encomendar uns panchões para celebrar as conquistas deste novo Abril, quarenta anos depois.

De qualquer modo, penso que os portugueses vão ficar satisfeitos. As coisas estão a compor-se. Tanto mais que agora vem aí mais um grupo de trabalho para transformar Portugal numa enorme cozinha, cheia de pançudos e de estrelas Michelin, há todos os motivos para celebrar.

Para os mais cépticos - sim, porque nestas ocasiões aparecem sempre uns tipos a desfazer estas conquistas -, e de maneira a que o martírio se torne ainda menos doloroso e se transforme em prazer, pois que já se sabe que apesar das iguarias só ficaremos limpos lá para 2018, o melhor mesmo é os portugueses estarem preparados para o que ainda aí vem. E ouvirem tudo com muita atenção. Os sorteios de carros do fisco já ninguém os tira, mas não tarda e o ministro Paulo Macedo, já me confidenciaram, anunciará com o seu à-vontade de fadista o aprofundamento do estado social e a compartição integral do Serviço Nacional de Saúde na aquisição de bisnagas de vaselina. Este Governo sabe que quando se trata de abrir alas para a entrada dos clisteres que nos irão ajudar a libertar as gorduras e reformar o Estado, não há nada como ter alguém que zele por nós, garanta os cuidados paliativos e nos facilite o martírio.

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Gloria in excelsis DEO.

por Luís Menezes Leitão, em 30.04.14

 

Tinha escrito aqui há dias que para este Governo o céu é o único limite para o aumento da carga fiscal. Esta apresentação do DEO, depois de sucessivos adiamentos, acaba de demonstrar que estamos perante um Governo de fanáticos, cuja única obsessão são os aumentos estratosféricos de impostos, os quais proclamam para gloria in excelsis Deo. O IVA a 23,25% passará a ser o sexto mais elevado da UE, ultrapassando mesmo a Grécia, que alegam ser o único falhanço dos programas de ajustamento. Os cortes temporários de salários passam a ser de tal forma definitivos que só se admite que o nível salarial de 2010 regresse em 2020, se os programas de redução de funcionários correrem como esperado. A CES, que também se prometia extinguir, afinal vai ser substituída por um sucedâneo qualquer, continuando a ser cortadas as pensões em pagamento. E nem a TSU dos trabalhadores é deixada em paz, permanecendo intocável a dos empregadores. Para mim este Governo acaba de reconhecer o fracasso total destes três anos de ajustamento e deveria ir imediatamente embora. É evidente que já DEO o que tinha a dar.

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Profetas da nossa terra (11)

por Pedro Correia, em 30.04.14

«Portugal não necessita de nenhuma assistência financeira.»

José Sócrates, 11 de Janeiro de 2011

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Dez jornalistas de Abril (10)

por Pedro Correia, em 30.04.14

 

Fernando Assis Pacheco

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Os amigos escolhem-se

por Rui Herbon, em 30.04.14

Há um conflito na Ucrânia que ameaça a paz na Europa e, na passada segunda-feira, o presidente Putin abraçou o ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, que celebrava o seu septuagésimo aniversário em São Petersburgo. É uma bofetada na política externa alemã, um gesto que mancha a conduta de ex-governantes que vendem a sua influência por soldos muito suculentos. Os parentes não se escolhem, mas os amigos sim. Se o ex-governante quer celebrar o seu aniversário com o amigo Putin é livre de fazê-lo. Mas foi chanceler da Alemanha e sabe que esta acção terá uma interpretação política.

Schröder foi contratado pela russa Gazprom poucos meses após deixar a chancelaria. É o chairman da empresa que fornece boa parte da energia consumida pela Ucrânia, Alemanha e outros países da Europa central e de leste. Obteve o lugar pela sua condição de ex-chanceler que, incidentalmente, havia estabelecido as relações amistosas e contratuais com dita empresa.

Os seus correligionários social-democratas estão no governo com Merkel. Deixa-os numa posição muito delicada e podia, nesta ocasião, ter mantido algum distanciamento relativamente a Putin, que tenta alterar o direito internacional nas fronteiras ocidentais russas. Violou as regras do jogo com a anexação da Crimeia e impulsiona a brutalidade dos pró-russos da Ucrânia que pretendem repetir a estratégia na parte oriental do país.

Ninguém pretende um confronto aberto com Putin. Mas que um ex-chanceler europeu se preste a dar credibilidade à política expansionista do líder russo é de todo inaceitável. Schröder pode ganhar muito dinheiro mas perderá credibilidade entre os seus. O destino final dos políticos não pode ser tornarem-se milionários nem continuar a influenciar a vida pública como quando estavam no poder.

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Abril (30)

por Pedro Correia, em 30.04.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.04.14

 

 

O Impostor, de Damon Galgut

Tradução de Fátima Alice Rocha

Romance

(edição Alfaguara, 2013)

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Quando um Presidente da República, tendo feito o discurso que fez no dia 25 de Abril pp., em seis condecorações que resolve atribuir se permite entregar cinco aos correligionários do seu partido político e antigos colaboradores, incluindo ao seu ex-director de campanha, é legítimo que os portugueses possam dele esperar que antes do final do mandato seja suficientemente justo para também condecorar a mulher que o atura, a filha, o genro, o resto da família, e todos os militantes da sua agremiação que tenham as quotas em dia.

Há muito que eu tinha a percepção de que o Infante D. Henrique e mais algumas figuras gradas da nossa História levavam tratos de polé. Nunca pensei que um Presidente da República lhes faltasse ao respeito desta forma tão descarada e ostensiva. E que os humilhasse tanto. E com eles ao resto da nação.

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Cristiano

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

(Foto EPA, Kiko Huesca)

Nem todos os deuses são magos, mas há magos que se elevam e fazem de deus. No futebol isso também acontece. Cristiano Ronaldo e a armada do Real Madrid cilindraram em Munique os impantes, rudes e sobranceiros bávaros. Os campeões europeus, reforçados com o saber de Pepe Guardiola, encaixaram uns rotundos quatro a zero perante o seu próprio público. A vitória do Real, quer se queira quer não, será sempre vista como uma vitória da Europa do Sul contra a hegemonia alemã, como uma correcção e reequilibrar de forças depois do que aconteceu na época passada. Lisboa e o Estádio da Luz recebê-los-ão como merecem.

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As canções do século (1581)

por Pedro Correia, em 30.04.14

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26 de Agosto de 1977

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Profetas da nossa terra (10)

por Pedro Correia, em 29.04.14

«À oitava jornada está encontrado o campeão nacional [quando o FC Porto liderava o campeonato com cinco pontos de avanço].»

Rui Santos, 29 de Outubro de 2013

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Dez jornalistas de Abril (9)

por Pedro Correia, em 29.04.14

 

Joaquim Letria

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O atoleiro

por Rui Herbon, em 29.04.14

Dizem que os milagres existem e, a ser verdade, deve sê-lo especialmente na terra onde convivem os três deuses do monoteísmo. Ainda que, neste caso, a palavra conviver seja um pouco excessiva. E se falo em milagres é porque a possibilidade do acordo entre o Hamas e a Fatah contribuir para a paz é mais própria da teologia que da geopolítica. Na realidade pode até temer-se o contrário. É certo que pode tratar-se de uma manobra estratégica e não real, com Abas tentando mover as peças num tabuleiro virtual, mas, mesmo que não se efective e que tudo seja apenas fumo na guerra da propaganda, o acordo alimenta a outra guerra, a que não é nada virtual. Em qualquer caso deita por terra as últimas tentativas da administração Obama, via John Kerry, de conseguir qualquer espécie de solução para o problema israelo-palestiniano, uma vez que o primeiro-ministro israelita, Netanyahu, já afirmou que «quem escolher o Hamas não deseja a paz», e Abas fez essa escolha.

 

É difícil imaginar que o acordo chegue a bom porto ou seja duradouro, tanto pela rivalidade entre as diversas facções como pelos interesses não só políticos como económicos que se movem de ambos os lados do território. Não esqueçamos que a luta palestiniana é um grande negócio para os dirigentes da causa, com a fortuna dos Arafat como grande escola, mas, inclusive no caso de que pela primeira vez se tratasse de uma vontade política real, o branqueamento do Hamas que dito acordo significa dinamita por longo tempo qualquer negociação com Israel. Primeiro porque o Hamas não aceita a existência do estado hebraico e toda a sua filosofia se baseia na respectiva destruição. Segundo, porque o Hamas representa os interesses iranianos, a par do Hezbollah libanês, e toda a sua estratégia passa por preparar-se para o terrorismo e não para a mesa de negociações. Terceiro, porque um acordo desta natureza afasta os sectores mais razoáveis da liderança palestiniana, ao mesmo tempo que reforça a preponderância do Hamas, e isso implica islamismo radical e violência organizada. É evidente que num futuro longínquo o Hamas poderia ser um interlocutor nas negociações, mas deveria mudar tanto de pele como de alma. E esse é o grande problema: Abas não só não conseguiu nenhuma mudança na natureza radical e violenta do Hamas como, aceitando o acordo, legitimou dita natureza, o que derruba o frágil plano de Kerry. Mais uma vez as notícias que nos chegam da zona não são boas e vislumbram-se dias difíceis: um acordo contra-natura, um plano bem intencionado dinamitado na origem e uma organização terrorista legitimada sem que tenha abandonado os seus propósitos violentos. Bad deal, bad news.

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Abril (29)

por Pedro Correia, em 29.04.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.04.14

 

 

Pulsações, de José Gil

Ensaio

(edição Relógio d' Água, 2014)

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As canções do século (1580)

por Pedro Correia, em 29.04.14

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Profetas da nossa terra (9)

por Pedro Correia, em 28.04.14

«Continuação da Portela é inviável. Aeroporto corre o sério risco de ser desqualificado como aeroporto europeu, num prazo de dez anos, por causa dos seus constrangimentos ambientais.»

Mário Lino, 21 de Julho de 2005

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Dez jornalistas de Abril (8)

por Pedro Correia, em 28.04.14

 

Maria Antónia Palla

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Abril (28)

por Pedro Correia, em 28.04.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.04.14

  

 

A Porta da Liberdade, de Pedro Prostes da Fonseca

Investigação

(edição Matéria-Prima, 2014)

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Quando se acabarem as meias-solas ... voltaremos a andar descalços

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.04.14

Os portugueses não só continuam a empobrecer e a pagar mais pelo que tinham, como vêem regredir diariamente a qualidade dos serviços que um Estado cada vez mais mínimo presta aos seus cidadãos, incluindo em coisas tão básicas como o cartão de cidadão. Era esta a reforma que prometiam.

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Blogue da semana

por João Campos, em 28.04.14

Desta vez, escolho para blogue da semana aqui no Delito o Intergalactic Robot. E não é (só) pela amizade ao Artur Coelho, companheiro de armas nas andanças da ficção científica e afins; é, sim, pelas excelentes sugestões de banda desenhada (contemporânea e não só), pelas críticas literárias sempre pertinentes, e por algumas das melhores reflexões sobre o género que podemos ler actualmente em português. Para nem referir as belíssimas fotografias, claro. Para os interessados e curiosos, fica a sugestão. 

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As canções do século (1579)

por Pedro Correia, em 28.04.14

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Uma data especial!

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.14

Hoje gostaria de ter estado nas celebrações de santificação de João XXIII e de João Paulo II. Pela primeira vez dois Papas são santificados ao mesmo tempo que um Papa e o seu antecessor assistem juntos a tal cerimónia.
A fé é algo que se não discute. Ou se tem ou não se tem. Mas para um crente não ter fé não o dispensa de lutar por ela. Sei do que falo, porque os meus Pais deixaram ao meu critério essa escolha. Por isso, apenas fui baptizada aos 19 anos e de forma muito consciente. A fé não foi, portanto, algo que tenha nascido comigo. É, sim, algo por que luto diariamente, que todos os dias me faz confrontar comigo própria, que guia os meus passos e que, julgo, me torna uma pessoa melhor. Mas percebo quem não tem fé e admiro quem, sem esse suporte, vive a sua vida com a maior dignidade.
Talvez por tudo isto, gostaria muito de ter assistido a estas cerimónias. Mas já me dou por feliz de ter vivido o tempo suficiente para, através da televisão, ter podido assistir a elas neste mês de Abril de tão más recordações.
Eu sei que estas palavras só tocam uma parte daqueles que me lêem. Mas o testemunho também serve para que aqueles que não acreditam possam entender aqueles que crêem.

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Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 27.04.14

As meninas
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:

entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.

a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.

e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.

 in "Antologia dos Sessenta Anos"

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Sempre a doer de tanta perfeição

por Pedro Correia, em 27.04.14

 

Há palavras que, por bons ou maus motivos, vão caindo em desuso. Tem acontecido com a palavra intelectual: poucos vocábulos foram tão trivializados e pervertidos como este. Muitos dos chamados intelectuais estiveram na primeira linha da defesa das causas mais indefensáveis, erguendo loas a sistemas totalitários que escravizaram corpos e espíritos. Ao contrário do que a nobre palavra indiciava, padeciam de "fuga da razão", segundo o certeiro diagnóstico feito por Paul Johnson.

Subsistem no entanto alguns intelectuais genuínos: senhores de uma cultura vastíssima, ancorada na reflexão permanente e no estudo constante do lastro milenar da sabedoria clássica de que somos transitórios legatários com a missão indeclinável de transmiti-la às gerações futuras. Com elevado sentido estético jamais dissociado de parâmetros éticos.

O intelectual genuíno recusa render tributo à ignorância travestida de sapiência, mesmo que seja propagada mil vezes pelas trombetas mediáticas: pelo contrário, é aquele que sabe questionar a falsa sabedoria erigida em dogma e tem a noção muito clara de que quanto mais sabemos mais adquirimos a certeza de que nunca saberemos o suficiente para impor a nossa verdade aos outros. Como ainda há dias nos ensinava a cientista Maria de Sousa numa notável intervenção no programa televisivo Expresso da Meia-Noite, mesmo naquele ramo do saber que se convencionou catalogar com o rótulo de ciências exactas a certeza não deve sobrepor-se à dúvida. "O que nos deve motivar não é o que sabemos mas o que não sabemos."

 

Ainda existem intelectuais que honram o carácter primordial desta palavra e do seu ambicioso conceito, mas para nosso mal são cada vez menos. Acabamos de perder um deles: Vasco Graça Moura -- poeta, ensaísta, novelista, cronista, tradutor de Dante, Petrarca, Racine, Molière, Shakespeare, Rilke e Lorca, com mais de meio século de vida literária -- morreu hoje, aos 72 anos. Tinha sido alvo de uma tardia homenagem do Estado -- sempre muito lesto a colectar impostos e demasiado lento a reconhecer o mérito dos cidadãos -- há menos de três meses. Homenagem que se arriscou a ser post mortem: naquela altura já se encontrava muito doente.

Antes disso fora justamente distinguido pela sociedade civil. Com o Prémio Pessoa e os prémios de Poesia do PEN Clube Português e da Associação Portuguesa de Escritores, que também lhe atribuiu o Grande Prémio de Romance e Novela. Foi quase imperdoável não ter recebido o Prémio Camões: desde logo porque raros contemporâneos estudaram tanto e tão bem o autor d' Os Lusíadas como ele.

 

Devemos-lhe muito. Também no campo da mobilização cívica, pelo seu infatigável combate ao chamado "acordo ortográfico" imposto pelo poder político à revelia da comunidade científica portuguesa. Fui um dos seus mais modestos discípulos nesta luta contra uma "perversão intolerável da língua portuguesa", como justamente lhe chamou. E devo-lhe palavras simpaticíssimas a que talvez um dia faça pública referência: não é hoje o momento para isso.

Fica-nos dele a memória de um intelectual à moda antiga: alguém que nunca deixa a cultura para segundo plano sem perder um olhar crítico perante a actualidade, como demonstra o seu último texto, publicado há quatro dias no Díário de Notícias

Fica-nos também o exemplo: devemos travar um combate persistente e bem fundamentado pelas causas que acreditamos serem justas.

E fica-nos sobretudo a obra, que merece ser lida e relida -- desde logo a obra poética, notável a todos os títulos.

Como bem demonstra este seu Soneto do Amor e da Morte, que aqui transcrevo em comovido preito ao grande português que agora nos deixou.

 

"quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

 

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

 

tivesse de acabar, sempre a doer,

sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão." 

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 27.04.14

 

Os antigos romanos, com a sua infinita sabedoria, diziam: "Si vis pacem para bellum". Ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Infelizmente, no entanto, o actual Ocidente perdeu totalmente essa perspectiva e arrisca-se a deixar desencadear uma guerra mundial, por total incapacidade de previsão e antecipação das consequências das decisões estratégicas que tomou.

 

Barack Obama, talvez confortado por a Academia de Estocolmo lhe ter dado o Nobel da Paz mal se sentou no cargo, apostou totalmente no isolacionismo americano, abandonando a postura intervencionista que desde Reagan sem excepção os Presidentes Norte-Americanos vinham seguindo. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de que a América deixou de ser temida no mundo, sem deixar de ser odiada. Hoje, qualquer milícia pró-Rússia na Ucrânia acha que pode livremente tomar reféns, da mesma forma que os estudantes iranianos tomaram a Embaixada Norte-Americana em Teerão durante a presidência de Carter, que se mostrou incapaz de fazer fosse o que fosse. E como se isso não bastasse, o inenarrável Presidente da Coreia do Norte insulta o Presidente Norte-Americano, ao mesmo tempo que prepara mais testes nucleares, sabendo-se bem com que fim.

 

Quanto à União Europeia, que tem mostrado durante a crise financeira que tem muito pouco de união e ainda menos de europeia, limita-se a satisfazer os desejos de hegemonia de Berlim. Precisamente por isso mergulhou de cabeça na crise ucraniana apoiando precipitadamente um governo de extremistas formado na Praça Maidan, o que teve como contraponto a revolta das populações russas do país. Depois de a Rússia já ter anexado o que lhe interessava, ou seja a Crimeia, sem precisar de disparar um tiro, assiste-se a uma verdadeira guerra civil, em que de um lado estão os "terroristas" e do outro os "nazis", enquanto os desgraçados dos observadores da OSCE são mandados para uma zona de guerra observar não se sabe o quê, sendo logo feitos reféns e qualificados como prisioneiros de guerra, sem que ninguém tome qualquer medida de retaliação.

 

Enquanto na Ucrânia e na Coreia do Norte os sinais de guerra são cada vez mais ameaçadores, a resposta do Ocidente continua a ser ridícula. As agências de rating consideram a dívida da Rússia como lixo financeiro, julgando que em caso de guerra os investidores continuarão a comprar dívida como se nada se passasse e a seguir os prestimosos conselhos destas agências. O Governo interino da Ucrânia acusa a Rússia de querer a terceira guerra mundial. E Obama acusa a Rússia de não levantar um dedo para resolver a crise ucraniana. Quanto à Europa, amarrada pelo colete de forças do euro, não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia. Continuem com os cortes orçamentais, deixem os países europeus sem defesa, e vão ver aonde vamos parar.

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Cedo demais

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.14


Morreu Vasco Graça Moura, poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, ensaísta, dramaturgo, cronista, advogado, político, gestor cultural.

De Graça Moura poderá dizer-se que foi um espírito renascentista a viver num presente demasiado conturbado para o seu gosto pela ordem e pela disciplina.

Autor de quase 30 livros de poemas foi um tradutor de textos particularmente difíceis, como a Divina Comédia e a Vita Nuova de Dante, as Rimas e Triunfos de Petrarca, os Testamentos de François Villon, ou ainda a integral dos Sonetos de Shakespeare.

Escolhas a que, cremos, não terá sido alheio a sua enorme vontade de enriquecer o património literário disponível em língua portuguesa.

É por estas duas dimensões - de poeta e de tradutor -, que é mais reconhecido, e foram elas que lhe valeram as principais distinções atribuídas à sua obra, de que se destaca, em 1995, o Prémio Pessoa.

Dois combates haviam de marcar igualmente a sua vida: a intervenção política e a crítica feroz conduzida contra Acordo Ortográfico, que considerava um crime de lesa-língua.

Mesmo que nos fiquemos pela sua obra literária, talvez seja necessário recuarmos a Jorge de Sena, para encontrarmos um antecessor da sua qualidade. Ambos partiram cedo demais!

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.04.14

«Talvez a liberdade de uma só pessoa diga apenas respeito ao seu intimo. Liberdade para matar é crime, porque atenta contra a espécie/sociedade, mas liberdade para matar outras espécies é necessidade de alimento, logo não ter liberdade para matar é equivalente a ter liberdade para o fazer, uma é tão necessária como a outra, pois ambas culminam em sobrevivência. Socialmente, o humano deixa de ser humano a partir do momento em que deixa de respeitar o próximo, porque a liberdade não é mais do que partilhar. As fronteiras variam, mas há limites impostos, e alguns são pela decência. Um deles é o de respeitar os mortos, pois afinal de contas estamos todos de passagem.
E em vez de apontar os defeitos mudemos de perspectiva e aprendamos a aprender com quem morreu mas percorreu em vez de querer viver sem nada fazer.»

Do nosso leitor Manuel. A propósito deste meu texto.

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Dez jornalistas de Abril (7)

por Pedro Correia, em 27.04.14

 

Vítor Direito

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Nihil obstat

por Rui Rocha, em 27.04.14

Já está. O Papa Francisco declarou hoje santos João XXIII e João Paulo II perante centenas de milhares de fiéis de todo o mundo. Pelo visto, à cerimónia assistiram 98 delegações de Estados e organizações internacionais, incluindo 24 chefes de Estado e monarcas, do Rei de Espanha a Robert Mugabe. Sei como são tortuosos os caminhos do Senhor, mas talvez fosse caridade cristã informar o Presidente do Zimbabué que o Vaticano ainda certifica santos mas já não vende indulgências. São tradições que se perdem e é pena. Imagine-se, por exemplo, o jeito que não daria por estes dias às crianças do Corno de África aquela coisa da multiplicação dos pães. O certo é que houve milagres, embora de outra natureza. São João Paulo II fez, só à sua conta, dois. E São João XXIII cometeu um. Temos portanto dois Papas e milagres temos três que é, como se sabe, a conta que Deus fez. Pelo que, se recorrêssemos à estatística que é uma outra forma de produzir milagres (veja-se a já estafada questão dos dois frangos comidos por um só mas que estatisticamente divididos por dois dão um frango a cada um), sairia a coisa à média de milagre e meio por Papa hoje santificado. Mas a manipulação, de números ou outra, não é para aqui chamada. Os milagres agora certificados em folha azul de vinte e quatro linhas foram devidamente analisados, estudados, escrutinados e finalmente reconhecidos por uma comissão de sábios e peritos lúcidos e independentes que aplicou no processo, Deus me perdoe, verdadeiro rigor científico. Veja-se o caso, por exemplo, de um dos milagres de São João Paulo II. Floribeth Mora Dias tinha um aneurisma que a medicina não podia curar. A 1 de maio de 2011, às duas da manhã na Costa Rica, esta católica acompanhou pela televisão a beatificação do Papa polaco, apesar de habitualmente não conseguir “acordar normalmente” e voltou a adormecer. “Às oito da manhã ouviu uma voz no quarto que lhe dizia "levanta-te”, recordou. Apesar de estar sozinha, voltou a ouvir "levanta-te, não tenhas medo” e identificou a origem do apelo numa revista comemorativa da revista de João Paulo II, com o Papa polaco na capa, com as mãos levantadas. E pronto, macacos me mordam se não estava curada sem necessidade daquelas mezinhas que o Bruxo de Fafe obriga os seus clientes a emborcar. Natureza diferente têm os outros dois milagres papais. Para que não se diga que santos da casa não os fazem, a cura dirigiu-se desta vez a membros da própria Igreja. João Paulo II curou a freira Marie Simone Pierre que sofria de Parkinson. E João XXIII salvou a religiosa  Caterina Capitani de morrer devido a uma perfuração gástrica hemorrágica. Ora aqui confesso a minha decepção. Apesar de maravilhosos, estes dois milagres, não desfazendo, parecem-me poucochinho. Noto que João Paulo II e João XXIII conseguiram curar as religiosas das suas doenças mas, apesar dos seus imensos poderes, foram incapazes de as fazer celebrar missa.

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Abril (27)

por Pedro Correia, em 27.04.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.04.14

 

Capitãs de Abril, de Ana Sofia Fonseca

História

(edição A Esfera dos Livros, 2014)

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Imagens ao domingo (5)

por João André, em 27.04.14

Esta foto foi tirada no Egipto, enquanto esperava para passar as comportas de Esna, no Nilo. No bote estavam uns vendedores de túnicas que avançavam para os barcos de turistas e atiravam as túnicas para apreciação e, de imediato, se afastavam, evitando que as túnicas lhes fossem enviadas de volta de imediato e acabassem compradas. Era um quase bailado engraçado que naquelas águas adquiria uma beleza intensa.Não resisti e fiz esta fotografia.

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As canções do século (1578)

por Pedro Correia, em 27.04.14

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Ler

por Pedro Correia, em 26.04.14

25 de Abril sempre - o que é sempre? Do João Lopes, no Sound+Vision.

O meu 25 de Abril. Do José Paulo Fafe.

O meu 25 com quarenta. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Quarenta anos depois. De Bruno Alves, n' O Insurgente.

Saber passar o 25 de Abril. Do Pedro Rolo Duarte.

26 de Abril. Do José Meireles Graça, no Gremlin Literário.

A grande transformação. Do Luís Naves, no Fragmentário.

Cadernos da mudança (I): o diagrama de Mandelbrot. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

Mas os totalitaristas são donos da luta contra o totalitarismo? Do Joel Neto, no Regresso a Casa.

A liberdade é mesmo para ser livre. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Foto-fitas do dia. De Luísa Correia, no Corta-Fitas.

Páscoa e "progresso". Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Isto não é uma parábola pascal. Da Ana Cristina Leonardo, na Meditação na Pastelaria.

Marcação de território. Do Carlos Azevedo, no The Cat Scats.

É muito? É pouco? Do Luciano Amaral, no És a nossa Fé.

Adepto da arte. Do Eduardo Saraiva, n' O Andarilho.

Cruzeiro. Da Tânia Raposo, no Not quite sun not quite the moon.

Às vezes. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

Wann kommt der wind. Da Eugénia de Vasconcellos, na Cabeça de Cão.

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 26.04.14

Nada os Dispõe à Acção, agora no plural. Com a chegada de Pedro Picoito.

 

Vanessa Rato reforça Jugular.

 

Bic Laranja: há nove anos com escrita fina.

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De todas as discussões possíveis, política, futebol, costumes, há uma e uma só de que qualquer tipo sensato foge como Jorge Jesus das regras gramaticais elementares. Trata-se, já adivinharam, de qualquer tentativa de estabelecer critérios que permitam decidir se determinada produção ou objecto é ou não uma obra de arte. Mas há momentos em que é preciso arriscar. E não é todos os dias que um objecto de discussão deste calado dá à costa. Costa, o presidente da edilidade lisboeta, como Gepeto dentro da barriga da baleia, já teve oportunidade de se pronunciar afirmando que esta é uma oportunidade única de viajar dentro de uma obra de arte. Aconselha todavia a prudência que avancemos um pouco mais devagar, que os cacilheiros não se fizeram para grandes velocidades. Ora vejamos. Um cacilheiro, este cacilheiro, dificilmente poderia ser considerado uma obra de arte no sentido clássico. Mas as coisas evoluem e devemos a nós próprios a obrigação de não nos tornarmos uns completos botas de elástico. Arejemos pois mesmo os cantos mais recônditos das nossas mentes. E admitamos o passo seguinte.  O de saber se este cacilheiro tem os requisitos mínimos que parece serem exigidos às obras de arte nos nossos dias (notaram por certo a elegância com que evito os termos moderna ou contemporânea e outras designações do mesmo calibre). Este cacilheiro cumpre, isso é certo, a regra da transversalidade dos suportes: qualquer coisa serve para fazer arte, desde atacadores de sapatos até cafeteiras. Por outro lado, responde também ao imperativo da diluição dos significados inteligíveis. Na verdade, caríssimos, hoje em dia um bom indício de que estamos perante uma obra de arte resulta de existir um catálogo, um guia, uma tabuleta, um jornalista, um Presidente de Câmara vá, que nos diga que aquilo é de facto uma obra de arte, conclusão a que não chegaríamos simplesmente olhando para ela. Em decorrência, verifica-se também a tendência nihilista que toda a produção artística contemp... (raios, quase que caía) deve apresentar: é desejável que o objecto não se possa enquadrar em nenhuma referência sólida ou padrão estético. Da mesma maneira, este cacilheiro cumpre integralmente o desígnio da obliteração da busca do belo que contaminava a arte clássica. Ainda assim, e apesar de todos estes indicadores apontarem para estarmos perante uma obra de arte no sentido modern... (irra, que foi quase), o certo é que lhe falta ainda qualquer coisa. Falta-lhe, como poderei dizer, o sentido do efémero que por estes dias é absolutamente indispensável. Isto é, este cacilheiro não é ainda uma obra de arte, mas pode bem vir a sê-lo. Basta torná-lo perecível. Para que este cacilheiro possa ser considerado um objecto inquestionavelmente artístico é preciso afundá-lo.

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Dez jornalistas de Abril (6)

por Pedro Correia, em 26.04.14

 

Joaquim Furtado

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Abril (26)

por Pedro Correia, em 26.04.14

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.04.14

 

 

O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril, de Avelino Rodrigues, Cesário Borga e Mário Cardoso

Prefácio de Boaventura Sousa Santos

História

(reedição Planeta, 5ª ed revista e aumentada, 2014)

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Mário Soares recebe o Óscar

por Rui Rocha, em 26.04.14

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As canções do século (1577)

por Pedro Correia, em 26.04.14

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Antes ir ao encontro dela do que "de encontro"...

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.14

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Dez jornalistas de Abril (5)

por Pedro Correia, em 25.04.14

Baptista-Bastos

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Para MM

por Patrícia Reis, em 25.04.14

(com 24 horas de atraso)

Era um sítio onde nada existia porque era também onde tudo tinha nascido. Ali a olhar o vulcão, o fim da tarde e o silêncio ancestral das casas brancas, escadas azuis, portadas de madeira por abrir. Ela deixou-se ficar assim por um instante. E lembrou-se de coisas. Pequenas e estranhas coisas que faziam dela o centro a partir dali, da ilha. Primeiro a absoluta convicção de um fim qualquer. Depois os detalhes desse fim: minuciosos pontos avessos à realidade. Ela gostava, já se vê, de metáforas. Não por serem simples de conceber, pelo contrário, mas por serem uma forma simplificadora de tudo o resto. Explicar com clareza é exaustivo. Ela acreditava nisso. Mesmo olhando os barcos que deixavam riscos como trilhos terrestres nas águas duras, a beleza era - e seria sempre - sofrimento. Produzida por essa imensa dor que ela carregava. Ninguém sabia disso, claro. Era uma verdade dela. Talvez fosse a sua imagem. Quem sabe? Não se ajustava a nada daquilo que pertence ao imaginário dos outros, ideias seguras e certeiras sobre anjos e heróis e até, porque não?, sobre Deus.
Ao contrário de todos, ela sabia exactamente o cheiro do bafo do criador, a textura da sua pele, o odor mais cansado só dele, os gestos milenares de incompreensão, de amor e desamor. Sim, desamor. Deus também tinha essa capacidade única de deixar de amar e, depois de tanto tempo, era só disso que ela tinha receio. Não, não era receio, era medo. Um sentimento comum a todos os seres vivos, pensava ela na sua pose de vigilante do vulcão, da ilha e do mar. Ali estava o ralo do mundo. Se alguém poderoso suspeitasse a água desapareceria para sempre, fugindo rápida no ralo do mundo que conduz ao fim do universo. Ela também acreditava nisso: Deus, o ralo, alguém poderoso, no medo e no desamor. Para alguém com as suas responsabilidades era quase cómico prever as desgraças da Humanidade, acreditar na bondade da natureza.
Deus perdoa sempre, o homem por vezes, a natureza nunca, ouvira sentenciar uma vez, longe dali, na voz de um padre inspirado. E assim era.
A natureza é quem manda, é uma criação que tomou conta do criador, que goza na cara dele, que faz e desfaz qualquer sonho. A natureza não é uma forma bondosa de sobreviver e evoluir. Nada pode ser encarado com essa premissa tão fácil. Ela já o sabia. Quando se afastou do muro caído de branco, fixou o chão azul grego e seguiu, rápida, resolvida a procurar alguém para salvar.

Salvar uma pessoa não é o que se espera. A maioria das pessoas não quer ser salva, agarram-se a ideias, depois a coisas e de imediato ao tal medo dominador que tolda até os mais inteligentes. Ela era determinada e, por isso, ocupava grande parte do seu tempo nessa procura: alguém para salvar de uma forma eficaz, para sempre. Não tendo asas de anjo ou capa de super-herói, o seu lugar no mundo estava limitado. Era apenas mais uma, quem sabe se a precisar de salvação. Ninguém a reconhecia de imediato e, com o tempo, havia mesmo quem nunca chegasse a reconhecê-la. Para cada indivíduo ou situação ela era transformável. Se fosse preciso era boa ouvinte; se necessário não se calava; se argumentava, lutava; se lutava, argumentava. Andava contra a maré dos outros. A impor respeito, regras, sabedoria. Não tinha a certeza. Havia pessoas que diziam que o destino estava marcado no ciclo sanguíneo do código genético. De quem vens? Como serás? És o que outros foram? A tua inteligência é apenas a do outro e sem o outro não és nada? Ela não compreendia essa lógica. Ela não decifrar qualquer espécie de exercício lógico, fosse qual fosse. O seu papel era outro. Caminhar ao lado, levitar se fosse caso, mas nunca desvalorizar o potencial vislumbre de um génio descarnado. Um incompreendido. Um sofredor. Todos esses - com ou sem código genético inspirado no caldo cultural certo - eram a inteligência do mundo, mantinham-no a funcionar, contribuíam para a sua rotação. Quanto mais fora do padrão, melhor. A sobrevivência da natureza era apenas isso: encontrar pessoas fora daquilo a que se designava a ordem das coisas, a normalidade, e salvá-las para que tudo começasse de novo. Uma fórmula simples. Ela procurava nos pobres, nos ricos, nos sem abrigos, nas ilhas e nos continentes, pelos desertos e savanas. Ela tinha mais de um milhão de anos. Ela era chave de tudo. E ali, na Grécia, onde tudo começa e acaba, haveria também alguém para salvar, alguém importante. Era a sua missão. Sentiu-o quando chegou à ilha, sempre de barco, sempre na tal água dura e cristalina, uma água com a cor do coração dela, transparente e limpa, profunda e escura por vezes; implacável. Ninguém a imagina. Nem ela se imagina nesse tormento, é apenas uma vida, a dela. E agora parte pelas ruelas brancas de sombra fresca e junta-se à multidão para ir ver o pôr-do-sol em Oia, vai na onda humana que se desloca para a ponta da ilha. Recorda-se de um soneto e diz alto, como fazem os loucos nas grandes cidades, diz alto porque aqui não importa o que achem dela e porque também ninguém a vê, não é?

Vi que, durante a longa travessia
Das águas cor de vinho, num sinal
De passagem divina, o mar ardia
Com brancas labaredas de cristal.

E vi depois, ao pôr do sol, em Ia,
Coberto o céu de líquido metal
Num resplendor de aurora boreal.
E o povo, ateu, ao culto se rendia.

É que, ao ver a beleza do teu rosto,
A natureza se equivoca. E crê
Que um deus voltou. E, perturbada, vem

Fazer raiar auroras no sol-posto
E a água incendiar. Bem sei porquê:
Vejo o teu rosto e engano-me também.

Ela não se enganava. Estava à beira de um outro muro branco e o mar chamava-a, raios de prata, rasgos de luz, movimentos subtis, correntes e marés, vozes de outras margens, sentidos distintos. Quando o sol adormeceu no fim daquele desenho, as pessoas bateram palmas, alguns tímidas, outras esfusiantes. E foi então que, pela sombra, percebeu o seu destino, a alma a salvar. A sombra dizia tudo: o corpo pequeno, encolhido, a cabeça baixa, numa combinação de desistência e de melancolia que tantas vezes se confunde com tristeza. Ela caminhou na direcção da sombra.

Foi bom o pôr-do-sol.

É sempre bom. É o sol.

Diz isso como se não tivesse importância.

Disse? Não dei contei. Talvez tenha dito. Hoje nem estive a ver até ao fim, entristece-me o fim, sabe?

Quer dizer, quando o sol desaparece por fim?

Não, antes, quando fica aquela nesga de luz amarela ou laranja, não se sabe, a esconder-se do outro lado daquela ilha.

Compreendo.

Não é para compreender.

Talvez não seja, mas eu compreendo. Julgo sempre que o sol fica do outro lado, intacto, à espera. Bastaria ir à outra ilha, do outro lado, e lá estava ele...

Pois, pode ser, mas não é assim que sinto.

Como é que sente? Se não se importa que pergunte...

Não me importo. Não a conheço, não sei quem a senhora é. Não faz mal.

O homem não disse como se sentia e ela não insistiu. Ficaram ali. O vento começou a fustigar os toldos dos restaurantes, os vasos com flores, as cortinas das janelas por fechar. Quando percebeu o gesto dele, a mão na pedra do chão junto à anca, ainda sem esforço, ela fez o que fazia melhor: apagou a luz. Oia encheu-se de uma escuridão natural. Todos os candeeiros se apagaram, os restaurantes levariam um momento a repor a luz com geradores ruidosos, velas brancas em frascos coloridos. E, por um segundo, o coração dele parou, ela viu, e ficou, estático, perante o enorme céu, um manto de estrelas sem fim, uma outra perspectiva. Não conseguiu deixar de sorrir. Havia momentos em que valia a pena ser o que era. O corpo do homem abandonou-se à contemplação e ela voltou a perguntar

Como se sente?

Pequeno.

O céu tem esse efeito.

Não. Quer dizer, sim, é verdade que o céu é de uma imensidão sem fim. Eu sinto-me pequeno perante tudo. Estou a chegar a um fim.

Qual fim?

O fim do amor.

É por isso que está aqui sentado?

Lá em cima, na varanda da casa que aluguei, deve estar a minha mulher, a roer as unhas, a ler um livro, a falar ao telefone...

Ou a chorar, à sua espera.

Não. A minha mulher não chora por mim. Já não.

Ela calou-se. Não tinha previsto uma salvação amorosa. Não era o seu forte. O amor desassossegava-a. Fugia dos amorosos, dos perdidos e desiludidos, desses que eram capazes de exibir um coração partido com uma quase precisão médica. O tempo provara-lhe que o amor tinha sempre um rasto de desencantamento. O homem ali ao lado era apenas mais um fio desse rasto. Suspirou. E, depois, com um excesso de generosidade e paciência, preparou-se para cumprir a sua missão.

Então, conte lá. Eu sou uma desconhecida e gosto de histórias de amor.

Esta não é uma história de amor. É sobre o fim do amor, já lhe disse.

Conte lá.

E o homem contou. Conhecera a sua mulher por acaso. Havia até, pensando nisso, uma série de acasos e consequências, que o levaram a ficar junto a ela numa inauguração de uma exposição. Estavam os dois a tentar decifrar uma escultura feita com panelas e tachos. E a mulher disse

É demasiado conceptual.

Tudo o é nos dias que correm.

Tem toda a razão.

E a mulher rira-se de uma forma tão amorosa, delicada, que ele deixou de ver a escultura e concentrou-se nela: baixa, morena, algumas sardas, cabelo preso, calças pretas, camisa branca, mãos de unhas rentes, demasiado rentes, o final dos dedos arredondados adequados à sua condição de vítima. Era uma mulher bonita. Esperta. Viva. Ele soube logo estas coisas todas e outras que a vida confirmou mais tarde. Tomaram vinho tinto. Trocaram telefones e seguiu-se o resto até ao amor infantil do reconhecimento dos corpos, primeiro tímido, depois audaz com a sorte que os deuses reservam a estes casos. Era quase perfeito quando nada o é. Ela ria-se e deitava a cabeça para trás. Ele pegava-lhe na mão assim que chegavam à rua. Ao fim de um ano eram capazes de terminar as frases um do outro ou ainda; muito mais surpreendente para terceiros, dizer exactamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Era uma operação matemática. Ele e ela e os dois e depois tudo o resto e o resto valia nada.

Foi assim durante dez anos.

E depois? O que aconteceu?

Acho que foi a vida. Deixámos de falar.

Mas já tentou, não tentou?

Falar? Sim, falar, conversar, discutir, ficar irritado e depois bater com a porta. É a minha especialidade.

Pode sempre dar a volta.

Dar a volta a quê? À Terra?

Não. Ao desamor.

O homem ficou a pensar naquilo. Ela fechou os olhos e suspirou de novo, um suspiro quase imperceptível. As luzes de Oia continuavam por acender, um capricho seu, mas isso agora não importava. Estava decidida a tirar o homem do fundo do nada, devolvê-lo à vida. Para isso era preciso o céu e as estrelas luminosas, a estrela do norte tão forte mesmo ali ao lado.

Já viu a estrela do norte?

Sim. Brilha muito.

É porque mantém o brilho. A questão é sempre essa: manter.

Pois, talvez. Eu não me mantive apaixonado e agora estou aqui preso numa ilha com a minha mulher e não tenho como fugir.

Bom e se caísse uma estrela cadente? Que desejaria?

Voltar atrás.

Onde? Exactamente...

Àquele momento em que o amor se perdeu.

O amor não se perde.

Ah, isso é tão fácil de dizer.

O homem não arredava da sua angústia e ela viu-se obrigada a ceder. Fez cair uma estrela cadente. Tocou no braço do homem para que ele a visse cair, o brilho como um desenho de arquitecto no topo do mundo. O homem levantou-se num repente. Ficou parado a olhar a queda da estrela. Ela levantou-se e disse

Agora já tem a sua oportunidade: volte atrás e mantenha o brilho aceso. Não existe nada de semelhante ao fim do amor. Se quiser, teve sorte, teve-me hoje só para si e eu decidi tomar conta, salvá-lo.

Dito isto, levantou-se devagar e começou a descer as escadas em direcção ao porto. Confundiu-se com as paredes e as casas esculpidas nas rochas, seguiu ligeira, sempre olhando o mar. As luzes de Oia regressaram, o céu voltou a esconder as estrelas e tudo regressou ao burburinho habitual dos turistas e locais. Já não viu o homem, continuou sempre em frente, descendo, até que os pés tocaram na pedra fria do pontão, passaram dois barcos atracados e o corpo dela mergulhou inteiramente no berço do mundo. Naquele dia não haveria mais ninguém a salvar.

(poema de Hélia Correia)

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Desfile comemorativo em 25 de Abril de 2014

por Rui Rocha, em 25.04.14

Freitas do Amaral à direita. Também à frente Mário Soares. Soares a falar sempre de Mário Soares, ainda que pareça falar de outros. O coiso era meu amigo. O tal um democrata. Que passou uns dias em minha casa. E por aí adiante. Um pouco atrás Cavaco, arrastando as botas. Passos Coelho preso ao casaco de Cavaco por uma guita. Vai pronunciando frases vazias. Freitas do Amaral ao centro. Passos Coelho dizendo umas coisas sobre a iniciativa privada. Outras em murmúrio sobre o estado social. Um exército de formigas cede logo às primeiras palavras. As formigas retrocedem, desmotivadas. Alegre proclama. Alegre declama. Alegre exclama. Alegre rima: o tiroliro está la em cima. Jorge Sampaio ouve e toma notas. No próximo discurso dirá o mesmo em mais cinco mil e quatrocentas palavras. O exército de formigas acelera a marcha em sentido contrário. Sócrates tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Pinto Monteiro tem um cartaz com a fotografia de Sócrates. Freitas do Amaral está agora à esquerda. Já teve um cartaz com a fotografia de Sócrates. Teixeira dos Santos vai lá mais para trás. Tenta contar os participantes no desfile. E falha. Eanes foi convidado mas imperativos morais impedem-no de participar. Relvas está ao telemóvel. Vitor Gaspar ouve Alegre e toma notas. Há-de dizer dois ou três dos versos de Alegre demorando o mesmo tempo que levará Jorge Sampaio a ler o seu discurso. Seguro promete que quando chegarem ao fim da rua farão o percurso inverso. Aliás, indigna-se, deviam ter feito o desfile numa rua paralela. Freitas do Amaral está agora do seu lado direito. Perdão. Acabou de colocar-se do seu lado esquerdo. O exército de formigas já desapareceu completamente do campo de visão. Passos Coelho tem uma visão. Comprou-a ontem no quiosque. Comprou também a Caras e a Guia do Automóvel. Aguiar Branco vai de braço dado com Poiares Maduro. Otelo cumprimenta a filha de Marcello Caetano com um beijo. Jerónimo de Sousa distribui doces às criancinhas. Ajuda-se com uma bengala de cego. Nunca soube, nunca viu. O Bloco de Esquerda optou por participar na modalidade de 400 metros estafetas. Assim ficam representadas todas as tendências e sensibilidades. O desfile começou há exactamente quinze minutos. Relvas fechou três negócios e concluiu duas licenciaturas nesse período de tempo. Sócrates concluirá mais uma no próximo Domingo. Marques Mendes prevê chuva. Acerta em cheio. Freitas do Amaral abriga-se com o guarda-chuva de Vasco Lourenço que desfila em representação do Grande Oriente Lusitano. Perdão. Freitas está agora debaixo do guarda-sol de Eduardo Catroga que desfila em representação de si mesmo. César das Neves vergasta-se enquanto caminha. Mas mantém o sorriso. Compraz-se na mortificação do cilício. Isabel Jonet entrega um quilo de arroz carolino a um professor tornado indigente enquanto diz umas palavras a um repórter. Armando Vara segue às cavalitas de José Lello. Cavaco fala do mar. Soares fala da subida dos oceanos. Nomeadamente daqueles que desaguam à porta de sua casa. Passos Coelho fala de submarinos. Portas de contribuintes, agricultores, militares e pensionistas. Marcelo Rebelo de Sousa fala. Jorge Sampaio discursa. Freitas do Amaral adapta o discurso enquanto inicia um movimento em diagonal. O bispo que representa a Igreja Católica tem andado sempre atrás dele. Eanes, que por imperativo moral afinal sempre veio, cala. Guterres dialoga. Durão Barroso abandona. Santana Lopes fica. Oliveira e Costa aproveita um momento de distracção do professor indigente e abifa-se com o quilo de arroz carolino que Jonet lhe tinha dado. Desta vez, Armando Vara foi menos veloz. D. Januário é o único que desfila armado. Otelo distribui beijinhos. Jerónimo de Sousa leva uma criancinha às cavalitas. Ricardo Salgado segue com as mãos nos bolsos. A direita no de Passos Coelho. A esquerda no de Seguro. O exército de formigas recolheu há muito ao formigueiro.

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Sofrimento por antecipação

por José António Abreu, em 25.04.14

Pois, pois... É óptimo o dia 25 de Abril este ano calhar a uma sexta-feira mas isso só quer dizer que, no próximo, calhará a um sábado.

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40 anos

por Teresa Ribeiro, em 25.04.14

Os políticos ensinam-nos muito. Ensinam-nos, por exemplo, a desvalorizar a retórica e a descodificar declarações evasivas. Com o tempo também nos ajudam a separar o discurso da prática política e a identificar estratégias e tacticismos em comunicações inflamadas ou iniciativas populares. 

Provavelmente no dia-a-dia os políticos esquecem-se desta coisa elementar que é a influência que exercem na educação cívica e democrática das pessoas que representam. Mas a verdade é que os seus gestos continuados não se perdem no vácuo, antes configuram aquilo que se convencionou chamar em democracia "cultura democrática". E a nossa amadureceu. Sendo que amadurecer em democracia é, como se sabe, tornarmo-nos cínicos. 

Se os nossos políticos pudessem evitar este efeito perverso da acção política sobre a educação cívica das pessoas, como seria fácil meter conversa com os eleitores durante a próxima campanha eleitoral e, antes disso, falar ao povo das "conquistas de Abril" sem tropeçar no espectáculo degradante da desilusão que é o desta democracia chegada à meia idade.     

 

 

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