Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Blogo, logo existo

por Pedro Correia, em 31.12.13
Dizia John Donne, na magnífica frase que Hemingway inscreveu no pórtico de Por Quem os Sinos Dobram, que nenhum homem é uma ilha. Pois não. Convém lembrar esta verdade elementar em tempo de progressivo isolamento, numa altura em que a solidão é talvez a mais grave doença que se abate sobre o mundo "desenvolvido" que habitamos.
Comunicar, como aqui fazemos dia a dia, é um poderoso exercício contra a solidão. E é precisamente a pensar nisto que aqui deixo, em jeito de balanço do ano que agora acaba, uma menção a companheiros da blogosfera que fui lendo ao longo destes meses. Concordando com muitos, discordando quase sempre de outros. Mas todos eles me reforçam a sensação de que não nascemos para ser ilhas: devemos continuar a travar um combate diário pela comunicação. Pensemos o que pensarmos, gostemos do que gostarmos.
Aqui fica a extensa lista desses bloguistas, para além de quem partilhou o percurso comigo no DELITO DE OPINIÃO, o que é outra forma de lhes expressar o meu agradecimento como leitor. E de esperar que em 2014 tenhamos muito mais para dizer.

 

Abel Rosa

Adelino Cunha 

Afonso Azevedo Neves

Autoria e outros dados (tags, etc)

Festas felizes.

por Bandeira, em 31.12.13

José Bandeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

Previsões para 2014

por Teresa Ribeiro, em 31.12.13

Amor: vejo muitos casamentos e muitos divórcios... adiados. Filhos estão fora de questão pelo menos até ao fim do próximo decénio, quando o sol começar a sair da casa das PPP.

 

Saúde: ao longo do ano poderá sofrer de frequentes crises de enxaquecas. Se já está a viver debaixo da ponte, evite expor-se às correntes de demagogia governamental que sopram do arquipélago de S.Bento, que são fonte de tensão muscular, azia e subida dos níveis de açúcar no sangue. A menos que se conte entre os indigentes que são considerados pobrezinhos pelo Estado, procure por todos os meios não adoecer, mas se o não conseguir evitar, peça à avó que lhe ensine uma mezinha, pois não vai ter dinheiro para pagar as taxas moderadoras da assistência hospitalar.

 

Vida profissional: para este ano os astros favorecem todas as actividades ligadas à economia paralela. Se tiver um mba, pire-se. O que é que está cá a fazer?

 

Finanças: não confie na banca, no governo e muito menos nos mercados. Guarde o dinheiro que lhe resta debaixo do colchão. Se tem dívidas ao fisco não as pague, aumente-as até um montante que seja considerado incobrável, que o Estado perdoa-lhe tudo.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

O melhor é oferecer livros

por Pedro Correia, em 31.12.13

Este ano, por efeitos acumulados da crise no meu orçamento pessoal, as prendas natalícias que ofereci aos familiares mais chegados resumiram-se a livros que fui comprando ao longo do semestre. Estas são aliás, para mim, as melhores prendas. As mais intemporais, as mais persistentes, as que mais nos acompanham vida fora.

 

Que livros foram esses?

 

 

O Quinto Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes, com chancela editorial da Dom Quixote. É um género em que o autor de Memória de Elefante se revelou um dos maiores cultores de sempre em Portugal, produzindo textos que são autênticas obras-primas do engenho literário.

 

 

Os Contos Completos, de Fernando Pessoa. Enfim um volume que reúne supostamente na íntegra -- supostamente porque com Pessoa nunca se sabe -- ficções do criador de Mensagem, capaz de ser pontualmente tão brilhante em prosa como foi na poesia. Uma edição com a qualidade a que a Antígona nos habituou.

 

 

Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Uma reedição muito cuidada deste grande clássico da dramaturgia de todos os tempos inserido numa colecção de obras do genial autor britânico que a Relógio d'Água, a preços muito convidativos, põe agora à disposição dos leitores portugueses. A isto chamo serviço público.

 

 

A Bibliotecária de Auschwitz, de António G. Iturbe. Com a chancela da Planeta, uma das melhores narrativas que nos chegou de Espanha nos últimos anos, cruzamento de reportagem com ficção, originalmente editada em 2012. Uma admirável história de resistência baseada em factos reais que passou com distinção no exigente crivo crítico espanhol.

 

 

As Grandes Batalhas da História de Portugal, de Rui Natário. Um livro de consulta permanente, ideal para quem gosta de conhecer ou recordar alguns dos factos mais decisivos da nossa história política e militar, sem os quais Portugal não seria o que é. Da batalha de São Mamede (1128) à batalha de La Lys (1918), quase 800 anos em revista nesta obra da editora Marcador.

 

....................................................................................

 

Nota suplementar: todos estes livros, impressos em 2012 ou 2013, estão escritos em português não-acordista. Sem mutilação de consoantes, portanto. O que os torna ainda mais recomendáveis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

23:59:59

por José António Abreu, em 31.12.13

Às 23:59:59 do dia 31 de Dezembro todos os relógios pararam na Nova Zelândia, Fiji, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. As pessoas, que já levantavam os braços para festejar a passagem do ano, ficaram imóveis nas ruas, nos restaurantes e nas casas, sem saber o que fazer. Exactamente duas horas mais tarde aconteceu o mesmo em Sydney e noutras cidades da costa Leste australiana. Depois foi a vez das cidades da Austrália central e do Japão. Cinco horas após o início do fenómeno, os relógios pararam em Perth, em Hong Kong, em Xangai, em Pequim. Entretanto, já os governos estavam reunidos e as forças militares em alerta máximo. Quando, outras cinco horas decorridas (dez desde o momento inicial), os ponteiros se aproximaram da meia-noite em Moscovo, São Petersburgo, Bagdade e Nairobi, milhares de cidadãos permaneciam nas praças e ruas, muitas delas enfeitadas com luzes coloridas e sistemas de som, mas a expectativa e o receio haviam substituído a alegria. O salto das 23:59:58 para as 23:59:59 foi o último que os ponteiros dos segundos efectuaram. O mesmo se passou sessenta minutos depois em Helsínquia, Bucareste, Jerusalém, Damasco, Cairo, Maputo, Pretória. Nas cidades e aldeias dos países onde os relógios ainda funcionavam normalmente, as pessoas juntavam-se agora por curiosidade e medo, para estarem juntas de outras pessoas quando os relógios parassem. Especialistas avançavam teorias nas rádios e televisões. Questões climáticas, excesso de magnetismo, uma arma desconhecida. As comunicações dependentes de sistemas de contagem do tempo bloqueavam. Deixava de se conseguir telefonar ou navegar na internet. Enquanto, com a inexorabilidade de um relógio em perfeito funcionamento, o tempo deixava de ser contado na Europa e em África, muitos olhos voltavam-se, desconfiados, para os Estados Unidos. O presidente norte-americano fez uma declaração ao país e ao mundo garantindo que o seu governo nada tinha a ver com o assunto. Por todo o lado, cientistas verificavam os mecanismos dos principais relógios, mediam todos os parâmetros em que conseguiam pensar (a intensidade do campo magnético, os níveis de radioactividade, o grau de vibração da superfície terrestre) e vigiavam o cosmos, pois era opinião de muita gente que um tal acontecimento só podia ter origem no espaço: a Terra, afirmavam vozes apocalípticas um pouco por todo o planeta, estava prestes a ser atacada. Questionavam-se os fabricantes de relógios mas estes não tinham respostas: a Suíça era um país em estado de choque. Começando em cidades como o Rio de Janeiro, Brasília e Montevideu, também no continente americano os relógios foram deixando de funcionar às 23:59:59. Buenos Aires, Recife, Salvador. Manaus, La Paz, Halifax. Toronto, Nova Iorque, Quito. Manágua, Cidade do México, Minneapolis. A última região do continente a ser afectada foi o Alaska, com os relógios de Anchorage parando exactamente vinte e duas horas após o mesmo ter sucedido aos relógios de Auckland. Uma hora mais tarde encravaram os últimos relógios ainda funcionais do planeta, em arquipélagos do Pacífico como a Polinésia Francesa e Samoa. Iniciou-se então um período em que não era possível medir o tempo pelos meios a que os humanos se haviam habituado pois todos os relógios, independentemente do tipo de mecanismo que os fazia operar (mecânico, de quartzo, atómico, de água) haviam deixado de funcionar. Pela primeira vez em séculos, o tempo não foi dividido em horas, minutos e segundos. Entretanto, a noite voltara a cair na Nova Zelândia onde, com excepção das crianças, ainda ninguém pregara olho. As pessoas já não estavam nas ruas mas reunidas em casa ou em bares, defronte de televisores. Discutia-se o que poderia estar por trás do acontecimento mas também muitos outros assuntos. Dever-se-ia ir trabalhar no dia seguinte? Como acordar na altura certa? De que forma seriam garantidos os horários? Como marcar reuniões? E então, de repente, sem aviso nem espalhafato, os relógios recomeçaram a funcionar. Clique. Clique. Passaram para as 00:00:00 e depois para as 00:00:01 e depois para as 00:00:02 e não mais pararam. As pessoas entreolharam-se e muitas voltaram a sair para a rua e ergueram os olhos para o céu. Tudo parecia normal. A noite estava limpa, com o firmamento coberto de estrelas e a lua a brilhar. Progressivamente, com as mesmas diferenças horárias que se tinham verificado ao pararem, os relógios voltaram a trabalhar em todos os pontos da Terra. Na televisão, especialistas não se sabe bem em que assunto diziam que os relógios haviam estado parados exactamente vinte e quatro horas. Por razões que se desconhecem, nesse ano o tempo recusou comemorar a passagem do ano e saltou por cima do dia 1 de Janeiro.

Desde então, como por vezes sucede perante acontecimentos que os humanos se revelam incapazes de explicar, um véu de silêncio tombou sobre o assunto. Mas a possibilidade de que possa suceder novamente, e até com consequências mais graves, permanece no inconsciente colectivo um pouco por todo o planeta. É também por isso que hoje, às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas susterão a respiração, exalando apenas quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.

 

(Republicado com ligeiras alterações. Boas entradas e bom ano.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.12.13

 

Odisseia, de Homero

Poema épico

Tradução de Frederico Lourenço

(edição Cotovia, 9ª edição, 2012)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Nem no Dia de Ano Novo os portugueses terão descanso

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.13

Do que disse em 1 de Janeiro de 2013 não se aproveitou nada. Uma vírgula que fosse. Nem os partidos da sua coligação lhe deram ouvidos, precipitando uma crise política que custou ao País mais uns milhares de milhões de euros. Houve de tudo: demissões em barda, declarações patéticas de quem saiu empurrado pela porta dos fundos a dizer que saía pelo próprio pé, remodelações a intervalos regulares, manifestos irrevogáveis, cartas de fazer corar um santo. Enfim, aconteceu tudo o que a criatura disse que não queria que acontecesse em matéria de credibilidade externa, estabilidade e cooperação institucional, segurança interna, confiança dos mercados e equilíbrio social. Será que ele ainda acredita que tem alguma coisa de relevante para dizer? E que nós teremos de ouvi-lo? Será que os portugueses não sofreram já o suficiente para serem poupados ao seu monocordismo?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (1461)

por Pedro Correia, em 31.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Público tem aqui um interessante trabalho sobre os fluxos migratórios de e para Portugal. Vale a pena ler para colocar num contexto histórico alguma desta emigração. Tem no entanto alguns pontos mais fracos, especialmente relativamente à conjuntura total dos países de destino no passado e ao problema com a contabilização das emigrações actuais.

 

Em relação à conjuntura passada, convém lembrar que muita da emigração até à década de 60 para França, Alemanha ou Bélgica existiu no contexto de iniciativas desses países para atrair trabalhadores que compensassem o declínio populacional do pós-guerra e que apoiassem os esforços de reconstrução suportados pelo plano Marshall. Foi nesse contexto que esses países se encheram também de imigrantes italianos, gregos, jugoslavos ou espanhóis (estes algo menos).

 

Os números actuais da emigração portuguesa têm, na minha opinião (baseada em puro "achismo" e reflexão), uma falha: com a presente possibilidade de se estabelecerem e trabalharem noutros países sem processos complicados, os portugueses acabam por muitas vezes não actualizarem os seus registos locais. Em 10 anos que levo fora do país só me registei no consulado na Holanda porque precisei de um documento em cima da hora. O meu passaporte e cartão do cidadão ainda são portugueses. Como eu está a maioria dos portugueses que conheço, que se registam nos países de acolhimento mas não informam o país de origem. Isto provavelmente poderá subestimar os números da emigração.

 

Duas notas para a notícia: a primeira para o infográfico que a acompanha. Não faço ideia da origem dos preços que apresentam, mas tenho sérias dúvidas que a gasolina em 1973 e 1993 custasse o equivalente a 200 e 260 escudos, respectivamente. Ou que uma noite num hotel em quarto duplo andasse pelos 130 e 260 contos em 1973 e 1993, respectivamente. Ou até que custe em média 200 euros actualmente (ainda no ano passado paguei 80 por uma noite dessas no Marquês de Pombal). Estes números têm óbvias asneiras.

 

Outra nota para as declarações de Pedro Lomba sobre as "vantagens" que Portugal tem para oferecer a «imigrantes de elevado potencial». A saber: «Clima, segurança, protecção social, serviços de saúde [e] infra-estrutura». Quanto ao clima, tudo certo. Quanto à protecção social, mesmo ignorando que está a ser destruída pelo governo de Pedro Lomba, é sempre inferior à de muitos outros países. Os serviços de saúde, se estão bem, não deveriam ser mudados por este governo. Mesmo ignorando isso, mais uma vez são inferiores aos dos países de onde viriam esses imigrantes. Já quanto à infra-estrutura, só por piada alguém escolheria Portugal quando tem outros países europeus. A única solução seria atrair os imigrantes de países abaixo de pobres ou de ditaduras, mas com o CDS no Governo, que horror! nem pensar!!

 

A verdade é que Portugal é de facto um país de emigração e vai continuar a sê-lo. Vejo Portugal a sofrer uma verdadeira catástrofe demográfica a médio prazo e sem sequer ter a visão de criar laços com aqueles que partem. Isto terá consequências verdadeiramente desastrosas dentro de uns 20 anos. Claro que por essa altura, os bandalhos que estão no governo, nunca nada fizeram na vida (começando pelo PM) e exortam os portugueses a «sair da sua zona de conforto» já terão tratado do seu. Tenho ainda esperanças: nos filmes, os jagunços costumam pagar pelos crimes. Seria bom que 2014 fosse um ano nesse sentido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Faço minhas as palavras dele

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.13

"If people were really concerned about the quality of politicians, they would join a local branch and endeavour to get a good person pre-selected as the candidate". - Keith Suter, Political Disengagement in Australia, in Contemporary Review, June 2012, Vol. 294, Issue 1705, 176-184

 

Mexam-se. De que estão à espera? 2014 está já aí.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas mesmo boas de 2013 - 1 novela

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

Paulo Catrica, série stadia, 2004

 Catarina Botelho, "O tempo e o modo", 2011

 Duarte Amaral Netto, s.t., Lisboa, 1999 

  

Deve ser problema meu, mas não cessam de me surpreender a avareza lexical e os tratos de polé perpetrados na sintaxe, nos mais célebres literatos nacionais. Acresce o excesso metafórico, a proliferação de comparações (se a conjunção “como” pagasse imposto a dívida nacional estaria paga), o chuto para diante que são os advérbios de modo terminados em “-mente” (idem sobre a cobrança de taxa), a imagética rudimentar, ou os enredos enrolados.

O esforço de atravessar estes dislates poderia ser compensado, à moda de Kerouac, por uma vitalidade, uma experiência existencial e uma urgência de escrita, capaz de levar por diante a palpitação da leitura. Mas nada, népias, nihiil; estes moços consagraram-se depressa, tão depressa que se agarraram para nunca mais largarem às bebidas grátis e frias dos beberetes literários, como (olhá comparação ó urso!) os macacos aos cocos.  

Tudo isto é triste, é nacional, é fado e são águas que não movem moínhos. “Ora andante” nas palavras do inspector Elias Santana.

Contraste com tal cenário, pro nele sobressair, foi a novela “As primeiras coisas”, de Bruno Vieira Amaral (BVA). Teve o autor receio que vissem nela uma espécie em voga de “turismo literário suburbano para dar a conhecer aberrações de bairro social aos leitores burgueses da capital.” E desmente tal pretensão afirmando que a sua escrita andou por aqueles lugares do outro lado do Tejo e doutro mundo, porque foi de lá que ele desembarcou. Escusava de tais precauções – felizmente percebe-se, ou melhor, sente-se isso.

BVA parece não ter grande crença no storytelling porque os vários acidentes novelescos deste livro são as personagens que os exalam ao serem descritas. (Mal comparado: sai Hawks, entra Godard). Esta técnica narrativa não é nova, mas tal cepticismo resulta particularmente aceitável: isto é sobre gente que não vai para lado nenhum, que veio aqui parar e aqui ficou, sem ter para onde ir; não têm história, só histórias, nem vida, só vidas, muito menos esperança – só esperanças, sobretudo que os dias passem depressa e as noites sem acidentes. “As primeiras coisas” é, por isso, um livro exacto, um feito assinalável.

Sem desprimor para ninguém, se antecedermos a leitura de “As primeiras coisas” com a de “O retorno” de Dulce Maria Cardoso, teremos em 584 páginas, escritas entre 2011 e 2013, toda a história, motivos, sensações, perspectivas e consequências dos deserdados das colónias, mais conhecidos por “retornados”. Foi preciso virem os filhos para serem contadas as desventuras que sucederam aos pais – mas não é para isso que servem os filhos, literariamente falando?

 

PS - As fotos acima só estão aqui porque foi isso que eu quis dizer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas mesmo boas de 2013 - 1 fotografia

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

 

Em pintura chama-se composição, em cinema e noutras artes narrativas ponto de vista, em fotografia enquadramento. Cada vez mais gosto deste olhar de Luísa Cunha, que tanto me surpreendeu e continua a encantar quanto mais o vejo. Parece faltar-lhe qualquer coisa, que tem demasiado ar, mas está tudo bem assim, imponderável e sideral.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas mesmo boas de 2013 - 1 filme

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

 

Afinal Sarah Polley não era filha de seu pai. É isto que ficamos a saber a meio do documentário realizado pela própria. O que sucede na outra metade? Ela espoja-se a carpir mágoas? Faz um ajuste de contas com a família e as suas hipocrisias? Arrasa com desassombro a sociedade e que vivemos? Exibe o seu estoicismo? Estraguei o enredo ao contar aqui o facto central de “Histórias que contamos” (“Stories we tell”)?

Muitos filmes são excelentes por aquilo que não mostram nem dizem. É o caso deste. Sarah Polley não é narcisista, nem se faz vítima; não julga, mas não se coíbe de comentar (ou seja de dar a ver as emoções contidas) como faria se acreditasse na farsa da objetividade; não disseca as emoções e os factos mas – e creio ser isto que faz de “Histórias que contamos” um filme prodigioso – revela e pondera o modo como conta estes acontecimentos.

Filha de actores, actriz ela própria, Sarah Polley sabe bem como se esbate a linha entre a representação e a interpretação – onde quer que ela esteja. E com este filme percebe e dá-nos a perceber que a realidade tem uma imaginação que supera a humana e que, desde a preponderância do Youtube, o documentário é apenas outra maneira de contar histórias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para 2014...

por João André, em 30.12.13

Os desejos habituais de um bom ano. Deixo a minha prenda: uma fotografia do ano passado tirada no castelo de Lisboa. É uma recordação de casa no ano em que passei o meu primeiro Natal fora de Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.12.13

Há uns anos, quando estava em funções o executivo de José Sócrates, sugeri numa das reuniões regulares de planeamento do Diário de Notícias que fizéssemos uma edição anual só com "boas notícias". E expliquei o meu conceito: nenhuma informação deixaria de ser transmitida ao público, mas sempre num ângulo tão positivo quanto possível. Víamos o copo meio cheio, e não meio vazio. Só uma vez por ano, por ocasião do aniversário do matutino fundado a 29 de Dezembro de 1864. Numa época propícia, entre o Natal e o ano novo.

 

Já acreditava nessa altura, como acredito agora, que o efeito acumulado de más notícias provoca um sentimento de exaustão junto dos consumidores de informação. Isto ocorre ainda mais em tempos de crise: procuramos encontrar no fluxo noticioso quotidiano alguma luz que nos permita sair do escuro. Enganam-se aqueles que se empenham em carregar ainda mais nas tintas escuras, julgando ir assim mais ao encontro dos leitores, ouvintes e telespectadores. É um erro semelhante àqueles que, na política, radicalizam em grau crescente as suas propostas, sem perceberem que a crise potencia soluções de moderação da parte dos eleitores, naturalmente descrentes de derrapagens radicais.

 

Na altura, alguns colegas olharam-me como se aquela ideia não tivesse pés nem cabeça. E no entanto continuo convencido de que tinha pernas para andar e poderia constituir um excelente veículo de promoção editorial caso fosse posta em prática da melhor maneira.

Voltei a lembrar-me disto ontem ao ver nas bancas a edição especial do DN em que o jornal assinala o início do seu 150º ano de vida, o que à partida bastaria para justificar aplauso. Acontece que esta edição está à altura das expectativas geradas quando a direcção editorial do matutino decidiu confiar ao presidente do Grupo Oi e da PT Portugal, Zeinal Bava, a condução do jornal por um dia. A ideia tem sido posta em prática por diversos títulos jornalísticos, com resultados irregulares, e o próprio DN já a tinha concretizado em anos anteriores. Mas talvez com menos sucesso do que aconteceu agora.

Gosto de praticamente tudo nesta edição, que constitui peça para coleccionar. Desde a surpreendente e bem conseguida manchete: "País de boas contas não pode ter medo da matemática" à excelente ilustração de Vhils também na capa. Passando pela antevisão de grande fôlego de 2014 aos mais diversos níveis e pela opinião muito diversificada, onde me apetece destacar um artigo de página inteira de Filipe La Féria "escrito em português antigo" pois "no Teatro Politeama nem as bailarinas russas aderiram ao Acordo Ortográfico".

 

Enfim, uma edição de prestígio. Que notabiliza o jornal e a sua longa história, que remonta aos tempos da monarquia constitucional. "O melhor jogador do mundo fala português. Na ciência, nas artes, no desporto e nas empresas temos portugueses a dar cartas. Dizem 'obrigado' quando agradecem os prémios e distinções de que todos os meses chegam notícias e são embaixadores naturais do nosso país, da nossa língua e cultura no mundo", escreve Zeinal Bava no editorial.

Afinal uma outra forma de se fazer a tal edição com notícias pela positiva. Uma boa ideia, como sempre pensei.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.12.13

 

 

O Terceiro Bispo, de Frederico Duarte Carvalho

Romance

(edição Planeta, 2013)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Resumo

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.13

"Porque as grandes felicidades aqui são todas feitas de escapar à tragédia, uma e outra vez, até ninguém ser mais capaz de escapar à tragédia. Porque é isso que acontece. Com o tempo, a atrocidade abrevia tudo a toda a gente, e o que sobra é de uma tristeza para sempre. A tristeza para sempre é o que mais identifica esta comunidade. Ainda que a heroicidade não o mostre, não o permita aos olhos descuidados de quem vê apenas em passagem." - Valter Hugo Mãe, Adiar, Público, 29/12/2013.

 

Poucos se atrevem a ser tão claros. Por isso podia ser um resumo de Portugal em 2013.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (1460)

por Pedro Correia, em 30.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

E a todos...

por Helena Sacadura Cabral, em 29.12.13

E a todos - autores e comentadores - um 2014 cheio de saúde, são os meus votos pessoais!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cenas favoritas de filmes (16)

por Leonor Barros, em 29.12.13


Antes que a quadra se vá de vez, um dos meus filmes preferidos.

Esta cena que retrata o primeiro Natal de uma família turca na Alemanha, em pleno Milagre Económico, e o inevitável choque cultural. 

Almanya, de Yasemin Samdereli, 2011.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bom, bom

por Patrícia Reis, em 29.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Receita de sempre

por Ana Vidal, em 29.12.13

É muito provável que este poema já tenha sido publicado aqui (não fui procurar, confesso), mas é sempre bom recordá-lo. Que acorde um Ano Novo em cada um de nós, e que seja bem menos doloroso do que este que passou.

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um acto de resistência

por Pedro Correia, em 29.12.13

Entro numa Livriaria Bertrand mais próxima de casa, disposto a aproveitar os saldos em curso para comprar Os Níveis da Vida, de Julian Barnes, galardoado em 2011 com o Prémio Booker. A leitura de uma belíssima crónica de Jaime Nogueira Pinto, na última edição do semanário Sol, suscitara-me grande curiosidade por esta novela editada pela Queztal.

Reparo logo na obra em destaque, folheio-a e dou de caras com o aviso na ficha técnica: vem impressa em acordês. É quanto basta para devolvê-la ao escaparate. Prefiro ler Barnes noutra ocasião, em versão original, do que levar uma edição que afronta a minha consciência anti-acordista.

Felizmente não faltam nas prateleiras livros editados num português correcto, o anterior ao pseudo-acordo ortográfico de 1990. Encontro-os na livraria ao lado, a Barata. Uma obra de Winston Churchill em promoção: Os Meus Primeiros Anos (My Early Life), a primeira autobiografia do grande estadista britânico lançada originalmente em 1930, entre aplausos generalizados, e lançada em 2010 entre nós pela Guerra & Paz. E uma novela tardia de Alejo Carpentier, Concerto Barroco, traduzida por Helena Pitta para a Antígona e recém-lançada no mercado editorial português.

Vinte euros pelos dois livros, com a garantia de que nenhum deles mutila consoantes para satisfação de alguns linguistas brasileiros e do professor Malaca, pai e padrinho do aborto ortográfico. A contínua edição de livros em Portugal sem cedências ao prontuário acordista -- de que dou aqui testemunho diário -- é um saudável acto de resistência cultural que nós, leitores, devemos incentivar. Mantendo em 2014 a determinação já revelada em 2013.

Como diria Churchill, que recebeu o Nobel da Literatura em 1953, "não há mal nenhum em mudar de opinião -- desde que seja para melhor." Quando não for, é preferível ficar assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Gorduras do Estado" (92)

por Pedro Correia, em 29.12.13

Estado paga 13 milhões de euros em pontes pedonais

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pós-Troika

por Bandeira, em 29.12.13

(José Bandeira/DN)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.12.13

 

 

Trans Iberic Love, de Raquel Freire

Romance

(edição Divina Comédia, 2013)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Para ler e ouvir, Filipa Leal, Cidade esquecida

por Patrícia Reis, em 29.12.13

http://www.lyrikline.org/pt/poemas/cidade-esquecida-8084#.Ur-DbPbyvKl

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um gato à chuva

por Pedro Correia, em 29.12.13

 Dia de Natal, 2013 (foto minha)

 

"Ha perduto qualque cosa, Signora?" 

"There was a cat", said the American girl.

"A cat?"

"Si, il gatto."

"A cat?", the maid laughed. "A cat in the rain?"

"Yes, –" she said, "under the table." Then, "Oh, I wanted it so much. I wanted a kitty."

 

Hemingway, Cat in the Rain

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (1459)

por Pedro Correia, em 29.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Gorduras do Estado" (91)

por Pedro Correia, em 28.12.13

Mafra tem buraco de 169 milhões de euros: existem oito entidades só para fazer transporte escolar

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 28.12.13

 [FLS, MAFLS]

 

Antes de mais, e já que ainda vos apanho na oitava natalícia, faço votos para que (trabalhando ou feriando) continuem a celebrar a quadra com ternura e boa disposição.

Gostava de vos recomendar nesta semana um blogue cuja minúcia e detalhe vão bem a par da sua matéria: chama-se Memórias e Arquivos da Fábrica de Loicas de Sacavém. Através da exposição das razões e inspiração inscritas em cada objecto, o seu autor - que não consegui identificar- torna possível sabermos um pouco mais sobre o nosso país na época da sua produção. Para mais, o dito autor/a parece tão ou mais recomendável que a obra: uma busca no Sapo permite intuir um daqueles polígrafos inspirados e curiosos que as novas plataformas de publicação em rede têm trazido ao conhecimento público. Um caso a seguir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Política e futebol

por Pedro Correia, em 28.12.13

Perdoem-me a aparente imodéstia, mas julgo valer a pena deixar o registo para memória futura: este meu postal figura entre os mais comentados, ao longo de todo o ano de 2013, entre os blogues inscritos na plataforma Sapo. É o que acontece quando se mistura política e futebol: as emoções tornam-se mais fortes e surgem logo à flor da pele.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O lixo em Lisboa.

por Luís Menezes Leitão, em 28.12.13

Só há uma função absolutamente imprescindível a uma Câmara Municipal: é tratar da higiene urbana, onde se inclui obviamente a recolha diária do lixo. No entanto, António Costa, que sempre encarou a gestão da Câmara como um trampolim para outras funções, acha naturalmente que a recolha do lixo é demasiado prosaica para ser uma função camarária, decidindo por isso atirá-la para as juntas de freguesia. Os trabalhadores da recolha do lixo é que obviamente não gostaram de serem assim atirados às juntas, pelo que decidiram fazer greve. Essa greve está a ter um impacto tal que hoje, dia 28 de Dezembro, o lixo acumula-se nas ruas de tal forma que praticamente não se pode circular. O que faz, no entanto, António Costa? Pede aos lisboetas candidadamente que esperem até 10 de Janeiro, altura em que conta ter o problema resolvido. E entretanto propõe-se colocar contentores de obras nas ruas, como se um contentor tivesse algum efeito prático perante o lixo já acumulado. Conclui-se assim que Lisboa vai ficar por mais 13 dias a ter o lixo a acumular-se nas ruas, com os inúmeros problemas inclusivamente de saúde que isto acarreta. No dia 10 de Janeiro a maioria dos lisboetas já nem deve conseguir sair de casa, tal o lixo em frente das portas. Resta-lhes apenas o consolo de estarem a contribuir para a glória da reforma autárquica imaginada pelo Senhor Presidente da Câmara. Esta pode traduzir-se por um slogan: "o lixo às freguesias — e se for preciso aos munícipes — rapidamente e em força".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.12.13

 

O Instinto de Morte, de Jacques Mesrine

Autobiografia de um fora-da-lei

Tradução de J. Freitas e Silva

(edição Antígona, 2013)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

As canções do século (1458)

por Pedro Correia, em 28.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pois não...

por Rui Rocha, em 27.12.13


Autoria e outros dados (tags, etc)

Romance de parede

por Pedro Correia, em 27.12.13

 

 Lisboa, Avenida Infante D. Henrique

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 27.12.13

 

 

 

(José Bandeira/DN)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.12.13

 

O Chalet das Cotovias, de Carlos Ademar

Romance

(edição Parsifal, 2013)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Belles toujours

por Pedro Correia, em 27.12.13

 

Hannah Ware

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

As contas que nunca se farão

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.13

Alertado por um amigo para a notícia do sempre bem informado Diário Económico, pelo menos junto de fontes governamentais, de que a remodelação provocada pela decisão "irrevogável" do então ministro dos Negócios Estrangeiros se demitir custou ao País, isto é, a todos nós, a módica quantia de € 2,3 mil milhões de euros em perdas bolsistas, para além do rombo na credibilidade e de nos aproximar de um segundo programa de ajustamento, dei comigo a pensar sobre o custo das oito-quase-nove remodelações, mini-remodelações ou ajustamentos do executivo a que assistimos em pouco mais de meia legislatura.

Naturalmente que, para quem sempre apregoou aos quatro ventos o seu elevado sentido de estado e profundo desconforto pelos desperdícios socialistas, chegando ao ponto de demagogicamente anunciar o mais pequeno governo de sempre, a revelação deste escandaloso número devia causar algum incómodo e merecer justificação. Porém, como é usual, o silêncio que impera é a melhor prova da irresponsabilidade política e da falta de autoridade ética e moral de quem nos governa. Nada com que, aliás, o senhor primeiro-ministro ou a ministra das Finanças se incomodem depois de se já se saber que os mesmos que queriam impor a quem está reformado e tem de se sustentar com € 600,00 mensais sacríficios inqualificáveis, pagaram a uma sociedade de advogados, sem concurso e escondendo esse facto ao Parlamento e à opinião pública durante mais de três meses, a quantia de € 418 000,00 (quatrocentos e dezoito mil euros) para assessoria jurídica aos famigerados swaps.

Desconheço a quantas horas de trabalho isso corresponde nem qual o valor hora que a senhora ministra se predispôs a tão rapidamente pagar, sabendo que há quem em Lisboa cobre por hora mais do que o salário mínimo nacional para esse tipo de assessorias. De qualquer modo, os factos falam por si e dizem muito sobre a cerviz política, ética e cívica de quem tanto criticou (e insultou) os antecessores. Os restantes comentários guardo-os para casa e para as poucas tertúlias em que ainda vou participando.

Em todo o caso, gostaria de chamar a vossa atenção para um artigo publicado em 2012, na Party Politics, 18 (I), 61-80, com o título Givers and takers: Parties, state resources and civil society in Portugal, cujos autores são três investigadores da Universidade de Aveiro (Carlos Jalali, Patrícia Silva e Sandra Silva). Conforme se pode retirar do estudo ali revelado, a explicação para o que está a acontecer poderá residir, por um lado, no facto da participação militante dos portugueses em organizações voluntárias estar muito abaixo da média europeia (2004), apenas ultrapassando por escassa margem a Roménia e a Bulgária, dados confirmados pelos números do Eurobarómetro 2005 (Special Eurobarometer on Social Capital), e, também, na conclusão que a investigação sublinhou de que em matéria de gastos "on average, the right-wing PSD/CDS coalition governments were more generous than their Socialist counterparts, particularly if we take into account the different duration of the governments".

Bem sei que são dados desagradáveis para o cinismo e a hipocrisia dominantes de quem se pela por uma boa "privatização" ou assessoria à custa da mama do Estado, e que sem esta tem dificuldade em mostrar os seus méritos na sociedade de mercado desregulado que defende, como se vê pelas inúmeras empresas dirigidas por gente ou dos partidos ou com ligações a estes que foram à falência, mas talvez não nos fizesse mal nenhum pensarmos um pouco naquilo que por ali se ficou a saber.

Tal como já escrevi, continuo convencido de que os portugueses não voltarão a ter uma oportunidade tão boa como a presente para se emanciparem da tutela das oligarquias que dominam os actuais partidos, aproveitando o momento para fazerem a sua reforma, criando uma sociedade civil mais forte, atenta e participativa, capaz de escrutinar e responsabilizar a tempo e a horas quem tanto tem contribuído para a sucessão de desmandos e de comportamentos inaceitáveis em democracia, e tão pouco republicanos, que nas duas últimas décadas foram protagonizados sempre pelos mesmos actores. Presidente da República incluído. Pelas declarações e exemplos com que ciclicamente nos brinda, pela cobertura que deu - e continua a dar - aos responsáveis pelos mais 2,3 mil milhões de euros de prejuízos que o DE referiu, e em razão da sua timidez institucional, ausência de estamina política e desconcertante enviesamento na análise política e constitucional das situações que exigem a sua intervenção.

Sobre isto creio que nunca ninguém se atreverá a fazer as contas. Para vergonha já basta assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (1457)

por Pedro Correia, em 27.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do mérito perdido em parte incerta

por Pedro Correia, em 26.12.13

 

Passo por uma loja e volto atrás. Não para ver qualquer produto exposto na vitrina pós-natalícia mas para reler um letreiro que me ficou na retina. "Estamos a executar a montra", reza o aviso. Executar? Será possível que aquele comerciante tenha instintos homicidas, como tais palavras indiciam?

Mais adiante, noutra loja, outro letreiro promete "fazer as unhas" a quem se digne passar por lá. Como se as ditas não estivessem já feitas de origem.

E nesta ronda, como tantas vezes sucede, vou sentindo uma absurda estranheza perante o meu próprio idioma, tantas vezes maltratado, abastardado, vítima de aberrações lexicais que lhe são totalmente alheias não no sentido em que um Alexandre O'Neill ou um Mário-Henrique Leiria o "desconstruiam" mas devido à mais chocante ignorância.

A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal "houve o telejornal". Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema.

Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela "tem descendência portuguesa" quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que "o professor haja" de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: "Se não houverem sobressaltos..."

Podia multiplicar os exemplos por cem ou por mil -- exemplos que não se circunscrevem à realidade portuguesa, como se pode comprovar aqui. Para chegar sempre à mesma conclusão: é lamentável ver tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.12.13

 

Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques

Romance

(edição Porto Editora, 6ª edição, 2012)

"Por vontade expressa do autor, o presente romance não segue as regras do Acordo Ortográfico"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

As canções do século (1456)

por Pedro Correia, em 26.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mensagens de Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 25.12.13

 

O dia de Natal trouxe-nos anúncios de prendinhas no sapatinho, só que mais uma vez não nos vão ser destinadas mas sim ao Estado, que continua a tratar os cidadãos como o Xerife de Nottingham, confiscando abruptamente os seus bens e rendimentos. E nem no dia de Natal as pessoas podem ficar sossegadas.

 

Em primeiro lugar, e como se esperaria, Cavaco Silva esteve-se mais uma vez nas tintas para os novos cortes de salários e a escandalosa tributação das pensões via contribuição especial de solidariedade e não vai suscitar o Orçamento a fiscalização preventiva. Nada que não se esperasse em face do seu comportamento nos anos anteriores. O que já espanta é a singeleza da explicação aqui dada: "A Presidência não comenta, uma vez que não há nenhuma decisão presidencial". Deixar passar o prazo para recorrer ao Tribunal Constitucional não resultou assim de nenhuma decisão presidencial. Será porventura fruto de esquecimento ou distracção?

 

Quanto ao Primeiro-Ministro, acaba de declarar que vai usar "todos os instrumentos" à sua disposição para cumprir o programa de resgate. O que isto significa é que agora vale tudo até Junho de 2014. Não se sabe o que aí vem, mas as perspectivas são muito sombrias, até porque, como tive ocasião de sustentar aqui, não é nada tranquilizadora a decisão do Tribunal Constitucional sobre os cortes de pensões.

 

É gravíssimo termos um regime constitucional em que um Governo pode fazer tábua rasa dos direitos adquiridos das pessoas, sem que surja qualquer controlo, seja do Presidente da República, seja dos tribunais a impedir esses desmandos. Nem o Estado Novo alguma vez foi tão longe. No seu exílio no Brasil, confrontado com as medidas do PREC, Marcello Caetano proclamava que no seu regime "nunca houve confisco de bens fosse a quem fosse — e a Constituição, aliás, proibia-o". Acrescentava ainda que "sempre se respeitaram os direitos adquiridos à reforma pelos funcionários civis ou militares punidos por motivos políticos" (Minhas Memórias de Salazar, p. 418). Vivia-se então em ditadura. Mas o actual regime constitucional, que proclama ser um Estado de Direito, não apenas tem admitido o confisco de salários e pensões, com o beneplácito do Tribunal Constitucional, como nem sequer precisa de perseguir politicamente e punir os funcionários públicos para lhes retirar os seus direitos adquiridos às pensões.

 

Na sua célebre Quinta Emenda, a Constituição Americana estabelece que "no person shall be (…) deprived of life, liberty, or property, without due process of law; nor shall private property be taken for public use, without just compensation". Entre nós, também o art. 62º da Constituição garante a todos o direito à propriedade privada, e só admite a requisição e a expropriação por utilidade pública com base na lei e mediante o pagamento de justa indemnização. Até quando continuaremos a desrespeitar desta forma os direitos fundamentais dos cidadãos?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um dia diferente

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.12.13

Passei aqui o meu dia de Natal. Quem quiser poderá fazer o mesmo que eu fiz até 16 de Fevereiro. Basta que se atrevam a entrar no segundo andar da Praça do Rossio, no MGM Macau, para darem de caras com todo o esplendor da Florença renascentista. No final do percurso, depois de encontrarem o retrato do próprio Botticelli, de cumprimentarem Rafael e Leonor de Toledo com seu filho Giovanni di Mantua, num retrato imortalizado por Agnolo Bronzino, de se deliciarem com as imagens da Madonna com a Criança e Oito Anjos, de se cruzarem com La Calumnia e de esfregarem o focinho do Porcellino de Pietro Tacca, enquanto o Nascimento de Vénus vos guarda, entramos numa sala escura onde Simonetta Vespucci nos espera tal qual veio ao mundo com toda a riqueza das suas formas perante os olhos e o pincel do artista. A Vénus e Il Porcellino são os originais. As restantes obras são fotografias em tamanho real, aliás autorizadas pelas próprias galerias depositárias das obras, realizadas em materiais e com um acabamento que são só por si uma obra de arte e que servem para nos situar e preparar antes do encontro com a aclamada Vénus. A recriação da Piazza della Signoria é uma obra única. Resta dizer que a entrada é livre. Sim, leram bem, livre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Feliz Natal

por Joana Nave, em 25.12.13

 

O Natal é uma chama que arde em nossos corações, uma estrela que nos conduz ao destino mais almejado por todos nós: o seio da família, onde reunimos os que mais amamos para comemorar o próprio amor, que todos os anos renasce dentro de nós e transforma as nossas vidas para um novo ano repleto de desafios. Feliz Natal!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.12.13

 

Vida de Jesus, de Raul Correia

(edição Guerra & Paz, 2013)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 
«Os pastores disseram uns aos outros: "Vamos, então, até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer." Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira. E, quando os viram, começaram a espalhar o que lhes tinham dito a respeito daquele Menino. Todos os que ouviram se admiraram do que lhes disseram os pastores.»
São Lucas, 2: 15-18

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Pág. 1/6





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D