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Fotografias tiradas por aí (165)

por José António Abreu, em 31.08.13

Valência, 2012.

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A mão que embala os incendiários

por Teresa Ribeiro, em 31.08.13

Quando morrem bombeiros a ladainha sazonal dos políticos choca-me mais, porque sei - com o saber da experiência feito - que é inconsequente. Há dias Marques Mendes admitiu na televisão que os discursos circunstanciais da época são "hipócritas" porque, assim que o Verão termina, as medidas anunciadas de prevenção e combate aos fogos ficam imediatamente esquecidas até ao Verão seguinte. E reconheceu que esta atitude se tem perpetuado de governo em governo, ou seja, que as culpas estão democraticamente distribuídas por todos os que ocuparam cargos de decisão nas últimas décadas. Os políticos que não estão no activo são assim, desassombrados. A frontalidade é uma forma de exercerem também o seu direito à hipocrisisa.

As medidas que ficam na gaveta de ano para ano são bem conhecidas de todos, já que na época dos fogos são sempre lembradas, nos mais diversos fóruns. É impossível evitar de todo os incêndios florestais, mas os nossos piores anos começaram a somar-se no passado recente, não por acaso. Sei que pouco depois do 25 de Abril a rede de guardas florestais que residia nas florestas foi desmantelada e o combate aos fogos saiu da alçada da então Direcção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, onde se concentravam os especialistas, quase todos engenheiros silvicultores de formação. A partir daí foi o caos. Os bombeiros, na época sem treino específico de combate a incêndios florestais, passaram a liderar as operações nas frentes dos fogos com resultados desastrosos.

Se ao nível da formação dos bombeiros muito se evoluiu com o tempo, o resto, tudo em que assentava o antigo sistema de prevenção de fogos permaneceu afastado dos programas governamentais, com destaque para a rede de postos de vigia, com comunicação entre si, a que acediam os guardas florestais (que foi desactivada) e práticas como a abertura e manutenção de picadas e valas para facilitar respectivamente os acessos da floresta em caso de fogo e a sua delimitação.
Também a preservação das espécies autóctones deixou de ser um desígnio. O eucalipto ainda há-de ser promovido a símbolo nacional. Para quem trabalha na indústria da pasta de papel, já o é, com certeza.
A inércia tem diversos factores, também já profusamente enumerados, mas é na falta de vontade política que se consubstancia. É por isso que quando vejo políticos a chorar lágrimas de crocodilo na televisão me repugna. Se há quem possa sentir confiança nas suas palavras são certamente os próprios incendiários.

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De Estaline a Gordon Gekko

por Pedro Correia, em 31.08.13

 

Bem-vindos ao admirável mundo novo. O do trabalho sem direitos, o das jornadas laborais sem horários. Não me refiro às lúgubres linhas de montagem da China ou do Bangladeche, onde mulheres e crianças são atiradas, a troco de quase nada, para satisfazer as delícias consumistas das sociedades "emergentes". Refiro-me a outro género de escravatura contemporânea. À promovida pelos esclavagistas engravatados da City londrina, que utilizam jovens trabalhadores precários como peões da sua alucinada engrenagem do compra-e-vende, espécie de proletariado do nosso tempo que começa a trabalhar ainda antes de nascer o sol e continua agarrada à cadeira e ao telefone depois de o sol se pôr (porque há sempre uma Bolsa a abrir algures, noutro continente).

Um admirável mundo novo cheio de suicidas, em paragens tão diversas como Paris ou Tóquio. E com um novo mártir: um rapaz de 21 anos, oriundo da Alemanha, que trabalhou literalmente até morrer.

Chamava-se Moritz Erhardt, estava há sete semanas como estagiário da sede londrina do Bank of America Merrill Lynch, no sector da banca de investimento. Tinha como herói uma figura do cinema: Gordon Gekko, o implacável corretor interpretado por Michael Douglas em Wall Street, de Oliver Stone. O mesmo Gekko que proclamava: "A ganância é que faz mover o mundo."

 

Colegas que partilhavam a residência estudantil com o jovem alemão encontraram Moritz morto no duche, há duas semanas. Vinha de 72 horas consecutivas de trabalho, sem pausa para dormir. Num meio onde é frequente trabalhar entre 12 e 16 horas diárias, seis a sete dias por semana.

Trabalha-se em piloto automático, muito para além dos primeiros sinais de fadiga e esgotamento começarem a ser emitidos pelo corpo humano: 110 horas semanais, sem fins de semana. Para satisfação permanente da ganância de alguns.

 

O jovem alemão morreu a 15 de Agosto, dia de festas e romarias em Portugal nas quais se conjugam o sagrado e o profano. Dia que chegou a estar na lista dos feriados nacionais a abolir entre nós, por vontade dos Gordon Gekkos lusitanos, pífios aprendizes de Estaline - sem bigode e com camisas Hermès em vez da samarra comunista.

O ditador soviético promovia a "heróis do socialismo" aqueles operários que mais horas consagrassem à patriótica tarefa de produzir em doses brutais. O maior de todos eles foi Andrei Stakhanov, um mineiro que, no dia 31 de Agosto de 1935, terá conseguido extrair 102 toneladas de carvão em cinco horas e 45 minutos.

No amplo formigueiro estalinista, Stakhanov foi apontado como exemplo a seguir: recebeu um caloroso abraço de Estaline, passou a ostentar a Ordem de Lenine, ascendeu a deputado no Soviete Supremo da URSS, teve honras de capa na capitalista Time e deu até origem a novas palavras: stakhanovismo e stakhanovista.

Milhões de soviéticos procuraram seguir este padrão, para louvor e glória da "pátria dos trabalhadores", conduzida pelo grande ditador.

Moritz Erhardt não teve tempo para receber o abraço de ninguém. Infeliz Stakhanov dos nossos tempos, escravo de gravata, sucumbiu em Londres, à hora em que abria a Bolsa de Tóquio, deixando tanta acção por vender e por comprar. "Money never sleeps", como Gordon Gekko ensinou aos seus contemporâneos.

 

Imagens, de cima para baixo: Moritz Erhardt (foto The Times); Michael Douglas, protagonista de Wall Street (1987); Andrei Stakhanov num selo soviético

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.08.13

 

O que a noite aprendeu do gato, de Luís Miguel Rosa

Poesia

(edição Esfera do Caos, 2013)

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Ler

por Pedro Correia, em 31.08.13

Sem luz ao fundo do túnel. De Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas.

Loucos à solta. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

O julgamento moral de António Borges. De Luís Aguiar-Conraria, n' A Destreza das Dúvidas.

TC rebaptizado para TC-PEF? Esperemos que não... De Tavares Moreira, na Quarta República.

O Estado irreformável. Do Mr. Brown, n' Os Comediantes.

Para quê? Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

António Patriota. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Síria - "castiga-se" porque as armas foram químicas. Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.

Hollande, o Conquistador. De Ricardo Lima, n' O Insurgente.

Questões de ADN. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

Ana Rita Pereira. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

Rodrigo Leão, um português excepcional. Do Pedro Rolo Duarte.

Benfica TV. Do João Paulo Palha, no És a nossa Fé.

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As canções do século (1339)

por Pedro Correia, em 31.08.13

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Foi você que pediu um piropo?

por Ana Vidal, em 30.08.13


O anedotário nacional soma e segue. Agora é a penalização do piropo, como se não houvesse problemas a sério para nos preocuparmos.


Se não quiser ir preso, cavalheiro, modere a linguagem quando passar por uma boazona (perdão, por uma jovem interessante). Nada de sugestões em vernáculo de calceteiro, nada de fantasias culinárias. Se não conseguir mesmo ficar calado, nunca vá mais longe do que isto: "Minha senhora, permita que lhe diga que a acho particularmente bonita. Nos meus sonhos mais ousados, imagino-me a oferecer-lhe um bombom na Versailles".

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CDTSPDERP

por José António Abreu, em 30.08.13

1. Das duas, uma: ou os juízes do Tribunal Constitucional não sabem interpretar a Constituição, o que, sendo grave, até um pouco assustador, a gente acaba por entender (incompetência é o que há mais por aí), ou a Constituição deveria deixar de chamar-se «da República Portuguesa» e passar a chamar-se «dos Direitos dos Trabalhadores do Sector Público e dos Dependentes do Estado da República Portuguesa», por ser cada vez mais claro não se destinar a proteger os direitos dos restantes.

 

2. «Espero que esta leitura do Tribunal Constitucional do princípio da protecção da confiança não tenha sido tão estreita que no futuro não se possa alterar nada no Estado”, referiu Passos Coelho. Caso contrário, “o Estado só conseguiria financiar-se à custa de impostos e eu não acredito que o país consiga suportar mais impostos para resolver um problema do Estado». Passos Coelho tem razão. Mas ter razão é inútil. Por força da Constituição ou dos juízes do TC (na prática, a distinção é irrelevante), qualquer governo (mesmo este, tão frequentemente apodado de liberal) pode apenas seguir um programa. Mais privatização, menos privatização, é um programa socialista. Tão socialista que, neste momento de crise, o PS aplaude por tacticismo enquanto o BE e o PC aplaudem por convicção.

 

3. Ouve-se frequentemente dizer, em tom de lamento, que PSD e PS são iguais. Claro que sim. Nem quando o desejam podem ser diferentes.

 

4. No fundo, o sonho de Cavaco está a concretizar-se: há uma única via – só não está a ser definida por ele, nem por acordo entre os partidos, mas pelos juízes do TC. Ironia deliciosa é a aplicação caber aos partidos a que teoricamente menos agrada.

 

5. O que suscita a questão: em 2015, PSD e CDS devem ser julgados pelo fizeram ou pelo que tentaram fazer?

 

6. Sendo que a pergunta fulcral talvez seja outra: para que servem as eleições quando a ideologia está constitucionalmente fixada?

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Aforismos políticos (42)

por Pedro Correia, em 30.08.13

 

Nada é irreparável na política. Por vezes nem a morte.

 

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Universos paralelos

por José António Abreu, em 30.08.13

Os sonhos são os universos paralelos mais comuns. Aqueles a que ninguém escapa e em que é impossível não acreditar. Recuso acreditar nos outros, os da ficção científica, os que nascem a cada decisão que se toma. Recuso acreditar existiram milhares de «eus» em universos paralelos, ligados por singularidades espaço-temporais ou lá como se chamam essas coisas. «Eus» que tiraram outros cursos, que reagiram de forma diferente quando conheceram certas pessoas (sim, mulheres acima de tudo), que andam neste preciso momento numa furgoneta desconjuntada algures no Tibete. E recuso acreditar por um motivo extraordinariamente simples: era preciso um azar do caraças para ter ficado com a versão mais desinteressante. Que, evidentemente, é a versão geradora de mais sonhos.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.08.13

 

O corpo em que nasci, de Guadalupe Nettel

Tradução de Jorge Fallorca

Romance

(edição Teodolito, 2012)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.08.13

 

Halle Berry

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O que estou a ler (13)

por Ana Cláudia Vicente, em 30.08.13

Enquanto o Adolfo não vem, aproveito o ensejo para falar das minhas leituras. Este foi o Verão no qual menos pude ler, em muitos anos. Um só livro me acompanhou por estes dias : O Coleccionador de Erva, de Francisco José Viegas. Vou a páginas cento e nove, cento e dez:

 

 

 

«Alguma coisa acabou entretanto, alguma coisa que nunca mais registámos no deve e haver, naquela contabilidade inocente das nossas vidas.

Jaime Ramos pensou nisto porque o rosto de Irina era impenetrável, uma espécie de desafio à sua habilidade para arrancar confissões ou para perceber um caminho no meio dos becos dos subúrbios.»

 

Regresso então a Isaltino de Jesus, a Jaime Ramos, ao mundo da investigação de crimes de sangue num Portugal não tão ficcional quanto seria de desejar. Dois traços autorais me prendem a atenção, aí: a presença sensível de um território que nunca é apenas cenário ou decoração; a insistente sombra do insolúvel, apesar do progresso da acção.  Desta feita, há dois russos e uma africana aparecidos sem vida não longe do Porto, e uma portuguesa de velhas famílias desaparecida algures na Galiza. Ajustes novos, diferenças antigas. E o fim? E o título? Ainda não sei  comos nem porquês - prefiro disdesfrutar o caminho para lá chegar.  

     

 

Então e tu, Ana Lima, o que andas a ler?

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o que os outros vêem em nós

por Patrícia Reis, em 30.08.13

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As canções do século (1338)

por Pedro Correia, em 30.08.13

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O mundo em que vivemos

por José António Abreu, em 29.08.13

Convém ter presente que em Portugal, como em muitos outros países, sempre ocorreram incêndios. Em 1980, por exemplo, arderam mais hectares do que em 2008 (44.251 contra 17.565). Mas é verdade que, ao longo das últimas duas décadas, a tendência foi de subida, tanto ao nível de número de incêndios (na década de 80 apenas em 1989 ocorreram mais de 10.000 enquanto na primeira década deste século apenas em 2008 o valor ficou abaixo de 20.000) como da área ardida (duas vezes acima dos 100.000 hectares na década de oitenta, quatro na de noventa, seis na de 2000), tendo-se registado picos de destruição em 2003 (recorde de área ardida: 425.839 ha) e 2005 (recorde de número de incêndios: 35.824 e segundo valor mais elevado de sempre de área ardida: 339.089 ha). Isto enquanto os meios de detecção e combate eram progressivamente reforçados e a formação dos bombeiros melhorada. Explicações para o aparente contra-senso? Ouve-se diariamente falar no interior cada vez mais desertificado, na alteração de espécies plantadas (com o crescimento das áreas de eucaliptal), nas florestas por limpar, em comportamentos negligentes. Serão factores importantes. Mas permitam-me acrescentar mais dois. O primeiro não ajudará a explicar o aumento (a  menos que se adopte uma perspectiva decididamente maquiavélica) mas talvez ajude a explicar a inexistência de diminuição. É tão politicamente incorrecto que, tivesse eu algum senso, esperaria pelo final da «época de fogos» (fantástica designação, que por um lado parece tentar empurrar os incêndios para uma normalidade similar à «época balnear» mas por outro contém um horror implícito, como que antecipando épocas ainda piores: a «época oficial das mortes na estrada», por exemplo, ou a «época dos afogamentos em massa») antes de o abordar, ou, se tivesse ainda um pouco mais de senso (o nível adequado às noções do politicamente correcto), nem sequer o abordaria. É, no entanto, muito simples: como noutras áreas, por incompetência e por interesses, do investimento efectuado nem sempre terão saído os resultados esperados. A prevenção dos incêndios e o combate aos mesmos são uma realidade com bastante que elogiar (acima de tudo, a abnegação de tantos voluntários) mas também são um negócio, um emprego para muita gente e um universo de hierarquias, jogos de poder, interesses cruzados e aparências. Nem sempre se terá comprado o equipamento mais adequado. Nem sempre se terá ministrado a formação mais útil. Nem sempre a competência terá sido premiada. Nem sempre o dinheiro terá chegado onde era suposto chegar. Nem sempre se terá funcionado de acordo com regras de sensatez financeira e operacional. Adoptando a tal visão maquiavélica, talvez até se possa acrescentar que nem sempre terá existido interesse em que os incêndios deixassem de assustar a população e, mais importante (mas uma coisa decorre da outra), os responsáveis políticos que assinam a maioria dos cheques (passatempo para um fã de teorias de conspiração: tentar estabelecer uma relação entre as épocas de cortes orçamentais e o valor da área ardida).

O segundo factor gera menos polémica. Muita gente já o referiu mas (desta feita, compreensivelmente) também é pouco abordado nos meios de comunicação social. Trata-se da histeria televisiva, inexistente há vinte e tal anos. Do mesmo modo que noticiar suicídios tende a fazer com que ocorram novos suicídios, o espectáculo televisivo das chamas, do fumo, do medo, da impotência, opera simultaneamente como prémio e incentivo aos pirómanos.  Há pouco mais de vinte anos somente existia a RTP e os incêndios ocupavam dois ou três minutos de um noticiário que demorava meia hora. Há pouco mais de trinta, as chamas nem sequer tinham cor. Hoje, as televisões dedicam aos incêndios mais de meia hora de cada serviço noticioso (alongado para hora e meia) e mostram aos pirómanos, com som, cor, transpiração, desespero, a grandiosidade dos seus actos. O que fazer? A única solução credível passaria pela auto-regulação e isso significa que dificilmente algo mudará. Continuaremos lamentando e protestando, horrorizados (mas também mais do que ligeiramente fascinados), diante dos televisores. O mundo em que vivemos é o mundo em que vivemos.

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Home sweet home

por Ana Vidal, em 29.08.13

 

Chego de fora mesmo a tempo de não precisar de me beliscar para saber que estou de volta a casa. Enquanto o país arde triste e realmente, no Chiado brinca-se aos fogos num simulacro comemorativo para turista ver, com figurantes e cheiro a fumo em spray. Enquanto morrem bombeiros e as populações se queixam de uma aflitiva falta de meios, corporações inteiras sobem e descem escadas de incêndio, de mangueira na mão, fingindo apagar um fogo inexistente. Diria o velho Camões, habituado aos lusos absurdos, que foi "um fogo que arde sem se ver". Digo eu, entre a estupefacção e a vergonha alheia, que isto é de um mau gosto atroz e de uma total falta de senso. E ainda falam da Cristina Espírito Santo.

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Aforismos políticos (41)

por Pedro Correia, em 29.08.13

 

Nunca aguardes por uma segunda oportunidade. O mais provável é que ela, quando surgir, acabe por beneficiar um inimigo teu.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.08.13

 

Dentro de Ti Ver o Mar, de Inês Pedrosa

Romance

(edição D. Quixote, 2012)

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As canções do século (1337)

por Pedro Correia, em 29.08.13

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"Por vezes, ficar calado equivale a mentir"

por Pedro Correia, em 28.08.13

 

Falei ontem, evocando-o a propósito da passagem do 50º aniversário, daquele que considero o segundo melhor discurso proferido no século XX. Hoje quero falar do melhor de todos - muito menos comentado, muito menos mediatizado, sem a repercussão universal que teve o de Martin Luther King. Mas que constituiu um dos melhores exemplos de coragem cívica, inteireza moral e ética política de que há memória.

Ocorreu na fase inicial da guerra civil de Espanha, na cidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936. Foi proferido de improviso, na universidade desta urbe castelhana, pelo reitor vitalício do secular estabelecimento de ensino, o basco Miguel de Unamuno, figura cimeira da cultura espanhola.

Unamuno, um intelectual ferozmente independente, tecera fortes críticas ao rumo descontrolado do regime republicano que vigorou em Espanha entre 1931 e 1936, tendo acolhido com palavras de simpatia o alzamiento em Julho de 1936. Durou pouco a sua adesão ao golpe liderado pelo general Franco: os morticínios das primeiras semanas de guerra revelaram-lhe a verdadeira natureza da rebelião, nacional só de rótulo. No início de Outubro, reuniu-se com Franco para lhe pedir clemência por diversos amigos de esquerda que tinham sido detidos em território controlado pelos falangistas. Esforço inútil: acabaram quase todos fuzilados.

Nesse dia 12, perante o governador civil de Salamanca, o bispo da diocese e a esposa de Franco, o general Millán Astray - inválido da guerra em Marrocos - proferiu uma diatribe contra o País Basco e a Catalunha, considerando-os "cancros do corpo da nação", terminando a sua arenga com a frase que criara para divisa da Legião Espanhola: "Viva a morte!" enquanto os braços se erguiam na saudação fascista.

 

Unamuno, já então um senhor de 72 anos, poderia ter-se remetido a uma atitude de cómoda indiferença. Mas não foi capaz. Levantou-se dignamente e pronunciou estas palavras de modo pausado mas firme:

"Esperais as minhas palavras. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser confundido com concordância. Quero fazer alguns comentários ao discurso - para chamar-lhe assim - do general Millán Astray, que se encontra entre nós. Deixando de lado a ofensa pessoal que pressupõe a sua repentina explosão contra vascos e catalães. Eu próprio, como sabeis, nasci em Bilbau. O bispo [apontando para o prelado], queira ou não queira, é catalão de Barcelona."

Fez uma pausa. E prosseguiu:

"Mas acabo de escutar o insensato e necrófilo grito 'Viva a morte!' E eu, que passei a vida a cultivar paradoxos que irritavam alguns incapazes de entendê-los, tenho de dizer-vos, como especialista na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. O general Millán Astray é um inválido. Não é necessário dizermos isto em voz baixa. Ele é um inválido de guerra. Também Cervantes o foi. Mas, por desgraça, há hoje em Espanha demasiados mutilados. E, se Deus não nos ajudar, em breve haverá muitíssimos mais. Atormenta-me pensar que o general Millán Astray pudesse ditar as normas da psicologia das multidões. De um mutilado a quem falte a grandeza espiritual de um Cervantes é de esperar que encontre um terrível alívio ao ver como se multiplicam os mutilados em seu redor."

 

O general, acometido de fúria perante estas palavras, começou então a gritar: "Abaixo a inteligência! Viva a morte!" Provocando a entusiástica adesão dos falangistas ali presentes, que gritaram em uníssono com ele.

Mas Unamuno ainda não tinha terminado. E concluiu assim:

"Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando o seu recinto sagrado. Vencereis porque tendes, de sobra, a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir necessitaríeis de algo que vos falta: razão e direito na vossa luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha. Tenho dito."

 

Palavras que soaram como denúncia da fanática brutalidade dos esbirros de Franco. Palavras que custaram o cargo e a vida a Unamuno: de imediato destituído das funções de reitor, confinado a prisão domiciliária, o filósofo basco viria a morrer dois meses mais tarde, no último dia desse ano tão trágico.

Mas o eco das suas palavras, fruto de uma vontade indómita, prolongou-se muito para além dos horrores daquela guerra. Como admirável exemplo de resistência contra a barbárie - tenha a cor que tiver, seja em que época for.

 

Imagem: Unamuno (ao centro, de barbas) abandonando a Universidade de Salamanca a 12 de Outubro de 1936, acossado por falangistas espanhóis

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Fotografias tiradas por aí (164)

por José António Abreu, em 28.08.13

S. Romão, concelho de Seia, 2009.

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Aforismos políticos (40)

por Pedro Correia, em 28.08.13

 

Admira os fracos: sem eles não estarias onde estás.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.08.13

 Nunca é Tarde, de Carlos Carneiro

Memória de uma viagem

(edição Oficina do Livro, 2013)

"Por vontade expressa do autor, o livro respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico"

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As canções do século (1336)

por Pedro Correia, em 28.08.13

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Fala-lhes do sonho, Martin

por Pedro Correia, em 27.08.13

 

Faz amanhã meio século, um reverendo baptista de baixa estatura e vontade inquebrantável, militante anti-racista, pronunciou o segundo melhor discurso que conheço do século XX (tenciono falar do melhor amanhã). Martin Luther King culminou a gigantesca marcha de Washington, que congregou cerca de 250 mil pessoas, com a última de dez intervenções proferidas nas escadarias do Memorial Lincoln - local emblemático por evocar o presidente norte-americano que libertou os EUA da escravatura e pagou com a vida por isso.

Falando perante aquele que era então o mais vasto auditório de sempre no seu país, com as três estações de televisão nacionais transmitindo em directo, King começou o discurso lendo um texto que levava escrito, mas - segundo reza a lenda - quando já havia muitas pessoas a dispersar naquela tarde de 28 de Agosto de 1963, a cantora Mahalia Jackson incentivou-o em voz bem audível: "Fala-lhes do sonho, Martin!"

Ele largou os papéis, passando a falar de improviso. Destes dois momentos conjugados nasceu um discurso extraordinário, pontuado de referências bíblicas (com citações do Salmo 30:5 e do livro de Isaías, 40:4-5) em defesa da igualdade racial e em sonoro protesto contra todos os actos de discriminação de que os cidadãos americanos de raça negra continuavam a ser alvo um século após a guerra civil, sobretudo nos estados do sul governados por caciques do Partido Democrático.

"Sonho que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos esclavagistas serão capazes de se sentar à mesa da fraternidade. Sonho que um dia até o Mississipi, um estado que sufoca sob o calor desértico da injustiça e da opressão, se transformará num oásis de justiça e liberdade. Sonho que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação onde não serão julgados pela cor da pele mas pelo seu carácter", declarou King nesta obra-prima da oratória política, peça essencial para a promulgação da legislação que reconheceria direitos civis a todos os norte-americanos, promulgada dez meses mais tarde pelo presidente Lyndon Johnson.

 

James Reston, um dos mais categorizados jornalistas do New York Times, fez a cobertura do acontecimento, no qual John Kennedy, então inquilino da Casa Branca, chegou a pensar participar antes de ter sido fortemente dissuadido pelos seus conselheiros, receosos de que a marcha pelos direitos raciais degenerasse em tumultos na capital dos Estados Unidos. Mas Reston, com o seu inegável instinto jornalístico, não foi capaz de descortinar a força mobilizadora do discurso do futuro Prémio Nobel da Paz, tendo-lhe reservado um modesto 19º parágrafo na peça de reportagem que o mais influente diário norte-americano dedicou no dia seguinte à memorável manifestação de Washington - prova evidente de que nem sempre o jornalismo está em condições de ser o primeiro rascunho correcto dos livros de História.

Meio século depois, com tantas segregações ainda em vigor - de modo explícito ou implícito - nos mais diversos locais do globo, faz falta uma nova Mahalia Jackson a incentivar: "Fala-lhes do sonho, Martin!" E faz falta, acima de tudo, um novo Luther King, transformando a resistência passiva e a não-violência em poderosos instrumentos de combate cívico em defesa dos direitos humanos, com a sua retórica de profeta iluminado, capaz de mobilizar incontáveis multidões através dos continentes só com o poder da palavra.

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A cabra morreu

por jpt, em 27.08.13

Abro o facebook e leio "The bitch is dead", frase colocado por uma amiga, verdadeira e bem antiga, nem sei quem morreu, mas vejo logo uma fila de comentários entusiastas, festivos, depois percebo, e é aqui que tomo conhecimento que Thatcher acaba de morrer. Choco-me, imenso, não pela notícia da morte da antiga primeira-ministra, que sempre me faz lembrar o velho Dylan alive em "Maggie's Farm", a qual vi há tempos (há quanto tempo?) na TV já muito idosa e doente, li que com essa demência que tanto amesquinha os ocasos dos nossos mais velhos, tanto que sempre me custa sabê-la em alguém enquanto vou agradecendo que os meus mais velhos, pais e sogros, se venham escapando desse martírio. O que me choca agora, o que me desagrega, é o brusco fim da memória dessa minha amiga daquele antes, ali vizinha mais nova, tão bonita, que conheci como namorada de bom amigo, e pela qual vim depois a ter aquilo a que os meus pais chamariam um "béguin", muito pela sua doçura, até adolescente, aquele fresco que agora já velho ainda lembro nas raparigas do meu tempo, e uns olhos mar que me faziam sonhar marinheiro. Nos últimos 25 anos vi-a duas ou três vezes, breves acasos de Lisboa, e agora reencontrei-a no FB, o tempo foi-nos passando mas mantém (ou mantinha, quando a vi) aquele sorriso e, presumo, o encanto nos olhos. Espanto-me, que se passou com esta miúda, de esquerda sim, que já o era, mas caminhando na normal vida lisboeta, ali para as faculdades, que eu saiba nunca tendo vivido em Inglaterra, para assim festejar a morte da velha líder, para acoitar aqueles comentários d'amigos, celebrando o momento, vociferando fel? Hesito. E depois preservo-me, e às résteas daquele velho encanto ou só a memória dele. Clico e "desamigo-me", fico com ela sem isto.


Passa pouco e volto ao FB. Noto que outra amiga desses antes, outro reencontro aqui na "rede", anuncia mais uma morte. Vem concisa, seca, sarcástica, também ela colhendo ecos dos seus amigos, invectivas ao "assassino", "criminoso", saudando-lhe o fim, e falam de António Borges, um apenas economista, parcial político, caído do maldito cancro que a todos nos assusta nesta nossa meia-idade, esses calvários que amputam. Lembro-a "nos tempos", bela bela, complexa e, muito, apetitosa, raisparta. Lembro-a, jovem, em desatino. E em carinho. E tenho saudades. Hesito, mas não me desamigo. Fico, ficarei, mais um bocadinho.


Que aconteceu às miúdas do meu tempo durante este tempo? Que azedume é este?

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Dias de cão

por Rui Rocha, em 27.08.13

Aux Champs-Élysées, au soleil, sous la pluie, à midi ou à minuit, il y a tout ce que vous voulez. E havia também, há dias, um pedinte atravessado no caminho de quem se dirigia ao Arco do Triunfo, ali por alturas da loja da Yves Rocher. Ao seu lado, um enorme cão branco e um cartaz: temos fome, o cão e eu. Ou qualquer coisa deste género. Estranho mundo este. Não se trata já de notar a enorme contradição entre o luxo de algumas lojas e a indigência, assim colocados, aos olhos de quem quiser ver, a uns escassos metros de distância. Agora a coisa vai mais fundo. O marketing da miséria ajusta-se aos novos tempos. Se um ser humano quiser despertar a compaixão do seu semelhante tem menos hipóteses de sucesso se o fizer em nome próprio. Todavia, se invocar o nome ou a circunstância de um animal, é provável que não o faça em vão. E que receba, a seu reboque, um bom punhado de moedas. O conceito de animal de companhia já conheceu épocas mais gloriosas. Sucede-lhe agora o do Homem como companhia do animal. Vivemos, dir-se-ia, verdadeiros dias de cão.


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Desassombro da morte

por João André, em 27.08.13

Quem me lê compreende certamente que eu não tinha qualquer simpatia para com António Borges (isto para ser diplomático). Não é no entanto para falar dele que eu escrevo. Aquilo que me pergunto é se farão sentido as declarações politicamente correctas que costumam aparecer que nem cogumelos depois de uma chuvada assim que determinadas figuras públicas morrem.

 

António Borges é uma caso desses: deverei eu temperar a minha antipatia por ele ter morrido? Não terá António Borges suficientes admiradores, fãs, amigos ou outros que lhe defendam a vida ou o trabalho? Ou, para usar um oposto, deveriam os adversários de Álvaro Cunhal, que sempre se opuseram ao seu estilo e às suas ideias, passar a enaltecer a sua intelectualidade e firmeza para evitar ofender aqueles para quem ele era um exemplo?

 

Há obviamente casos de pessoas cuja morte nos deixará satisfeitos. Duvido que haja poucos que não tenham ficado satisfeitos com a morte de Bin Laden (poderemos questionar muita coisa, mas o mundo está melhor sem ele). Mas, fora a tragédia pessoal que será sempre uma morte (para família e amigos, para começar), teremos mesmo que procurar razões para lamentar a morte de alguém cujo trabalho em vida nós detestámos?

 

Penso que uma das melhores formas de enfrentar a morte (que chegará a todos) é o desassombro. Se elogiámos, elogiemos ainda. se criticámos, continuemos a criticar. E lembremo-nos sempre que, apesar dos outros morrerem, há sempre outros para os seguir.

 

PS - muitas pessoas que não gostavam de António Borges lembram agora esta "entrevista". Uma única nota: isto é (na minha opinião) exemplo de mau jornalismo, de um conceito de entrevista feito para o espectáculo, onde os entrevistados têm que ir sofrer. Subscrevo um conceito de entrevista que uma vez ouvi (não me lembro a quem): o entrevistador deve colocar as perguntas, sempre pertinentes (e não necessariamente difíceis) mas a esmagadora maioria do tempo da entrevista deve ser preenchida com o que o entrevistado diz. Até tenho simpatia para com as posições do entrevistador (na entrevista), mas nenhuma para com o estilo.

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Aforismos políticos (39)

por Pedro Correia, em 27.08.13

 

Quem está seguro do seu caminho não se perde por atalhos.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.08.13

 

O Amor é Difícil, de Helena Sacadura Cabral

Contos

(edição Clube do Autor, 2013)

"Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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As canções do século (1335)

por Pedro Correia, em 27.08.13

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Para ler

por Patrícia Reis, em 26.08.13
 
UM POEMA DE NUNO JÚDICE

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

( in “Poesia Reunida”)
 
UM POEMA DE NUNO JÚDICEQuero-te, como se fosses a presa indiferente, a mais obscura das amantes. Quero o teu rosto de brancos cansaços, as tuas mãos que hesitam, cada uma das palavras que sem querer me deste. Quero que me lembres e esqueças como eu te lembro e esqueço: num fundo a preto e branco, despida como a neve matinal se despe da noite, fria, luminosa, voz incerta de rosa.( in “Poesia Reunida”)

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Aforismos políticos (38)

por Pedro Correia, em 26.08.13

 

A política a sério consiste em prevenir, não em remediar.

 

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Portugal a arder

por Helena Sacadura Cabral, em 26.08.13


Devia já ter abordado este tema. Mas no que respeita a fogos, tenho um traumatismo que me bloqueia se me não impuser a mim própria. Explico-me.

Deveria ter uns dez anos, quando a casa paterna, em plena Baixa lisboeta, foi repasto de um curto circuito, na ausência de todos nós. A imagem do retorno a uma habitação negra de fumo e muito destruída acompanhou-me durante anos e condicionou, em muito, o meu desejo de viajar.

Já mulher e acabada de divorciar - felizmente os meus filhos estavam no Alentejo -, uma empregada minha resolveu reforçar o aquecedor, aceso, do seu quarto, com petróleo. Não vos descrevo o sangue frio que tive, para isolar a dispensa, onde se guardavam duas bilhas de gaz. Perdi todo o meu enxoval, toda a roupa pessoal e parte significativa do mobiliário. 

No dia seguinte tinha o exame médico de admissão no Banco de Portugal, onde apareci de kilt e meias de lã, que era a roupa que trazia no corpo. Valeu-me a compreensão imensa do médico que estranhou a minha tensão arterial elevada e me perguntou se, na véspera, tivera alguma emoção ou comera algo salgado. Abençoado seja pela qualidade humana então manifestada.

Parti do zero. Em tudo. Na vida afectiva perdera o marido, na vida doméstica perdera o recheio da casa, na vida profissional começava uma rota inteiramente nova. E os filhos, pequenos, choravam os brinquedos desfeitos. Sobrevivi, mas o temor das chamas permaneceu para toda a vida. Muito mais forte.

Chego ao que, agora, interessa. O abnegado trabalho dos bombeiros e a indesculpável incúria, pública e privada, na limpeza dos matagais. Este ano já perdemos três seres humanos, um deles uma mulher. Acredito que a maioria dos pirómanos seja doente. Mas sei que há os que trabalham por conta de outrem, a quem muito convém o solo ardido. Para estes, a justiça deveria ser exemplar. E para os que não limpam as suas matas, também.

Saiba, ao menos, o governo ser justo a recompensar aqueles que ficaram sem os seus entes queridos!

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Livros que deixei a meio (5)

por Pedro Correia, em 26.08.13

 

A MONTANHA MÁGICA

de Thomas Mann

 

Há cerca de cem anos, parecia indestrutível a relação entre a tuberculose e a literatura. Muitos livros eram passados ou inspirados em termas e sanatórios, mas nenhum deles tão célebre como A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Concebido nos tempos imediatamente precedentes da I Guerra Mundial, quando todos os sonhos de progresso e optimismo pareciam condenados ao malogro, este é um dos primeiros romances assumidamente de tese, precursor da receita a que décadas mais tarde Sartre daria corpo em livros que usavam a ficção como pretexto para a especulação filosófica (a propósito, A Náusea passará por cá um destes dias).

Thomas Mann, mais tarde galardoado com o Nobel da Literatura, foi pioneiro na fixação da temática da doença como poderosa metáfora de um mundo em decomposição, o que viria a tornar-se ainda mais patente em 1947, quando surgiu A Peste, de Albert Camus, e em 1995, ano em que José Saramago lançou o seu Ensaio sobre a Cegueira.

Fórmula inovadora e sugestiva posta em prática nesta saga de Hans Castorp, internado em Davos por estar apenas levemente contagiado com o bacilo da tuberculose. Mas o sanatório acaba afinal por ser um símbolo de um universo concentracionário onde toda a esperança se revelava uma miragem destituída de sentido.

 

Li com gosto as primeiras 300 páginas deste extenso romance que sempre me foi apresentado como uma das obras-primas da literatura. Mas há livros assim, que são tremendamente egoístas: exigem dedicação exclusiva, impõem uma relação de tudo-ou-nada.

Falhei. Interpuseram-se outros afazeres, intervalaram-se outras leituras, a minha relação com esta obra tão exigente quebrou-se. Mandei-a repousar na estante.

Era um fim de Verão, só voltámos a ter contacto no Verão seguinte. Para tudo recomeçar da página um e tudo terminar mais ou menos no mesmo ponto da obra, com Hans Castorp já confinado às paredes do sanatório.

 

 

Não me conformei. E no Verão seguinte lá retornei à Montanha Mágica, relendo as páginas iniciais passadas na buliçosa cidade de Hamburgo naqueles anos em que nenhuma guerra mundial havia ainda manchado a face da terra.

A vontade de chegar ao fim era tanta que nessas férias, ao contrário do que é meu hábito, não incluí mais nenhum livro na bagagem.

Deu resultado: foram dias a fio ao sol de Tavira em convívio íntimo com as neves perpétuas dos Alpes suíços. Muitas páginas, muitos parágrafos, muitas palavras. Isso mesmo: muitas palavras. Mann não poupou palavras neste ensaio travestido de romance. Desconhecia por completo a técnica de Hemingway: um texto de ficção, para ser eficaz, deve sugerir muito mais do que relata. Aqui é ao contrário: relata-se tudo, sugere-se pouco.

 

Seiscentas e tal páginas. E, de súbito, fartei-me. Fechei o livro e parei de vez.

Estava há mais de cem páginas no mesmo capítulo, estava há mais de 30 páginas a seguir o mesmo diálogo entre Hans Castorp (sempre mencionado desta forma, com nome e apelido) e o sr. Settembrini, sempre a mesma dialéctica entre o agir e o não-agir, sempre a mesma torrente de palavras.

Cansei-me irremediavelmente, quando faltavam cerca de cem páginas para chegar ao fim, nesta minha terceira tentativa falhada de ler A Montanha Mágica (numa tradução nada brilhante encomendada pela editora Livros do Brasil).

Costumo dizer para mim próprio - e garanto-vos que é verdade - que não deixo livro por ler quando me faltam apenas cem páginas. Mas toda a regra tem excepção. E a excepção, até hoje, chamou-se Montanha Mágica.

 

Isto sucedeu há cinco anos. Desde então, tenho feito progressos: li mais 40 páginas. Sempre com a sensação de nunca passar do mesmo sítio.

Falta tão pouco que é seguro dizer que um dia acabarei por chegar ao fim do romance de Mann. Mas isso jamais poderia suceder antes de figurar nesta série. Por demérito próprio. Não me lembro de nenhum outro livro que me tenha dado tanta luta e provocado tanto tédio.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.08.13

 

 

 História Viva - 25 de Abril: Golpe Militar ou Revolução?, de Franco Charais 

Memória histórica

(edição Âncora, 2013)

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As canções do século (1334)

por Pedro Correia, em 26.08.13

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Blogue da semana

por José António Abreu, em 25.08.13

Por motivos que vêm tão ao caso como salientar a falta de senso de qualquer pessoa que, tendo visto dois ou mais filmes recentes com Jessica Chastain, não a considere a melhor actriz norte-americana da sua geração, nos últimos meses tenho visitado poucos blogues e descoberto menos ainda (eufemismo para «zero»). Cabendo-me a escolha do blogue da semana, resta-me assim ficar pelos velhos conhecidos. O Complexidade e Contradição já foi mencionado no Delito várias vezes mas, tanto quanto o sublime (eufemismo para «bleurgh») motor de busca dos blogues do Sapo me permitiu determinar, nunca obteve a transcendental honra de ser escolhido como blogue da semana (hipérbole para «seja como for, uma honra pelo menos comparável a ganhar um Globo de Ouro da SIC»). Ainda que o excelso (eufemismo para «#$/"%*£@§!») motor de busca dos blogues do Sapo se (e me) tenha enganado, a ironia, a concisão e a frontalidade de Lourenço Cordeiro merecem destaque frequente. Sendo que «ironia, concisão e frontalidade» não é eufemismo, como este par de textos do mês em curso demonstra:

Outras maneiras, para apreciadores de corridas de touros;

Menos é mais, para apreciadores de praia (coisa diferente – digo eu – de apreciadores de praias).

 

P.S.: De forma a evitar surpresas desagradáveis, quiçá mesmo (nestes tempos de egos frágeis) traumáticas, aviso que serei muitíssimo pouco simpático (eufemismo para «insultarei», «injuriarei» e «chamarei nomes») com comentadores que deixem evidente não partilhar a minha opinião sobre a Jessica Chastain.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.08.13

«Controlar o que nos rodeia é parte do que nos faz humanos. Controlar é colocar o racional acima do irracional, o (neo-)córtex primeiro que o cerebelo. A questão aqui é controlar o quê e para quê.
O instinto natural do ser humano (todos os seres, aliás) é egoísta. Rosseau estava errado com o "bom selvagem" e William Golding correcto com o "Senhor das Moscas". Quem tem filhos pequenos e os vê crescer rapidamente se apercebe que o desenvolvimento da personalidade e a educação faz-se, em grande parte, a contrariar desejos, a minimizar egocentrismos.


No entanto, socialmente, a nossa sociedade infantilizou-se. Trocou-se o fazer o que é correcto pelo fazer o que nos (aparentemente) faz feliz. Quando os "Founding Fathers" dos Estados Unidos da América escreveram a declaração de independência face ao Reino Unido e incluíram esta famosa frase


"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness."


foram efectivamente longe de mais (se não em espírito, pelo menos na letra) e essa ideia, que fez caminho pelo liberalismo de John Stuart Mill, acabou por ter alguns efeitos perniciosos ao centrar tudo, excessivamente, no individuo.

Esquecemos que estamos aqui para fazer o que é correcto, o que é adequado, para viver uma vida boa (εὐδαιμονία) e não para ser animalescamente felizes. Porque a felicidade animal é comparativa e passageira (somos felizes em comparação com a infelicidade e, ao contrário do que diz, não existe nem pode existir "felicidade plena"), enquanto uma vida bem vivida, preenchida, com alegrias e mágoas, é absoluta e ficará marcada nos que cá deixamos quando partimos.»

 

Do nosso leitor Carlos Duarte. A propósito deste texto da Joana Nave.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.08.13

 

1937 - O Atentado a Salazar, de João Madeira

História

(edição A Esfera dos Livros, 2013)

"O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico"

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Indignações

por Rui Rocha, em 25.08.13

A onda de indignação dos fans de Batman na sequência da escolha de Ben Affleck coloca as coisas no seu devido lugar. Afinal de contas, não é qualquer um que está preparado para desempenhar o papel de um tipo crescidinho que pensa que é um morcego e para contracenar com um outro que usa cuecas por cima das calças.

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...

por Patrícia Reis, em 25.08.13

Hoje, dia 25 de Agosto de 2013, não é um dia como os outros.

Eduardo Prado Coelho morreu há seis anos.

Há mortos que morrem e outros que não podemos deixar morrer.

O Eduardo faz parte desta última leva de pessoas extraordinárias que mudaram o mundo, o meu mundo, o mundo de outros tantos. Saudade? É pouco. Deixo-vos um poema que ele gostaria.

“You darkness, that I come from,
I love you more than all the fires
that fence in the world,
for the fire makes
a circle of light for everyone,
and then no one outside learns of you.

But the darkness pulls in everything:
shapes and fires, animals and myself,
how easily it gathers them! -
powers and people -

and it is possible a great energy
is moving near me.

I have faith in nights.” 

― Rainer Maria Rilke

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Em tua memória

por Joana Nave, em 25.08.13

Os avós ocupam um lugar inigualável nas nossas vidas. Somos o fruto dos filhos que eles plantaram no mundo, o orgulho da família, a promessa de um futuro risonho, que os encha de soberba e altivez. Tenho tantas memórias da minha avó, que hei-de andar o resto da minha vida a recordá-las. Essas memórias mantêm-na viva no meu pensamento e ajudam-me a suportar a dor da perda.

Lembro-me da história da “Bela Adormecida”, que me leu vezes sem conta por volta dos meus 3 anos, até que eu soubesse reproduzir de cor cada palavra, cada ponto final e virar de página, sem saber ainda ler. Lembro-me dos bolos caseiros que me ensinou a fazer, numas das muitas férias de Verão que passámos juntas na aldeia. Lembro-me de todas as vezes que cuidou de mim, da preocupação constante com o meu bem-estar, da alegria com que testemunhou e contribuiu para a minha educação católica, do orgulho por me ter visto terminar com sucesso a minha Licenciatura, e das muitas rezas que fez para que nunca me faltasse trabalho, para que a vida me corresse bem.

Quando tirei a carta de condução, o primeiro caminho que o meu pai me ensinou foi ir de nossa casa a casa da minha avó, um caminho que percorri inúmeras vezes. Lembro-me dos lanches de Domingo à tarde, das revistas que ela tinha por lá e que eu devorava sentada no sofá, enquanto ia ouvindo a conversa dos adultos. Era dessas revistas que ela recortava receitas para me dar. A minha avó era a fã nº1 dos meus cozinhados e, por isso, no Natal eu fazia o seu prato preferido para a consoada: bacalhau com broa e grelos.

Na casa onde viveu a maior parte da vida, e onde eu vivi os meus primeiros anos, estão espalhadas várias fotografias que lhe ofereci, aquelas que revelam as três décadas que partilhámos. Penso que a organização extrema e a memória implacável me vêm dela, que era exímia nestas duas características.

Por vezes, pensava que devíamos passar mais tempo juntas, mas a vida é demasiado complexa e passa demasiado depressa para termos tempo de dar valor ao que é realmente importante. Somos gratos, mas também somos egoístas. Agora, já não posso fazer mais nada, mas mesmo que pudesse o tempo continuaria a não encaixar na complexidade do dia-a-dia, porque temos de fazer escolhas e ser determinados e eu fui sempre demasiado ocupada para me permitir sentir a dor que hoje sinto.

 

Esta crónica foi escrita em memória de Maria Lucília da Costa dos Anjos 1931-2013.

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As canções do século (1333)

por Pedro Correia, em 25.08.13

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E se fossem sempre sete em vez de treze?

por Pedro Correia, em 24.08.13

Segundo o Expresso de hoje, o Tribunal Constitucional prepara-se para duas semanas de frenética actividade com apenas metade (mais um) dos seus membros em plenitude de funções. Nem o facto de o Palácio Ratton estar a ser inundado de pedidos de impugnação de candidaturas às eleições autárquicas de 29 de Setembro, tanto a nível de câmaras municipais como de juntas de freguesia, e dos recursos das decisões já tomadas por tribunais de primeira instância pró ou contra as referidas candidaturas levou Suas Excelências a abdicar do tradicional período de férias, fixado anualmente de 15 de Agosto a 14 de Setembro, quer chova quer faça sol.

Cabendo decisões tão importantes da nossa vida colectiva como o destino de candidaturas autárquicas em Lisboa, Porto, Aveiro, Évora, Beja, Oeiras e Loures, com reflexos directos no eventual desfecho eleitoral, cabe perguntar se este facto não devia bastar para alterar o programa de férias dos senhores magistrados do Constitucional, que auferem 6.130 euros mensais e cumprem um mandato de nove anos, não prorrogável, gozando das "garantias de independência, inamovibilidade, imparcialidade e irresponsabilidade", conforme consigna a Constituição da República.

Nas próximas duas semanas, o Tribunal Constitucional terá também de pronunciar-se sobre outra questão muito polémica: o pedido de fiscalização preventiva oriundo da Presidência da República sobre o sistema de requalificação dos funcionários, que abre pela primeira vez a porta a despedimentos na administração pública. Nem isto fez alterar os costumes no Palácio Ratton. Segundo salienta o Expresso na notícia que faz manchete do semanário, estes revelantes assuntos de Estado, do qual depende o destino de centenas de milhares de portugueses, estão confiados ao escrutínio de apenas sete juízes, em vez dos 13 que compõem o órgão máximo de apreciação de leis em Portugal.

"Ou seja, bastam quatro juízes para fazer a maioria que decide o destino de milhares de trabalhadores. O mesmo 'piquete' de turno vai ainda decidir sobre a eligibilidade de 11 candidatos a presidentes de câmara", lê-se na notícia, assinada pela jornalista Rosa Pedroso Lima.

Se basta uma frágil maioria de quatro contra três para fixar doutrina jurídica tão decisiva ao longo deste mês com uma agenda preenchidíssima, cabe perguntar se o Tribunal Constitucional não poderia funcionar o ano inteiro com apenas sete juízes. Sempre seria possível poupar algumas "gorduras do estado" neste país em crise.

 

Leitura complementar: Férias judiciais no Tribunal Constitucional, do Luís Menezes Leitão.

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Fotografias tiradas por aí (163)

por José António Abreu, em 24.08.13

Porto, 2012.

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As "nossas" histórias

por Helena Sacadura Cabral, em 24.08.13
«A ideia de que todo o escritor escreve forçosamente sobre si mesmo e se retrata nos seus livros é uma das puerilidades que nos foram legadas pelo Romantismo (...) As obras de um homem retratam muitas vezes a história das suas nostalgias ou das suas tentações, quase nunca a sua própria história, sobretudo quando se pretendem autobiográficas. Nenhum homem ousou jamais pintar-se tal como é
Albert Camus

Hoje perguntaram-me se escrevo sobre mim. Também, respondi. Mas, acrescentei, escrevo sobretudo sobre o que vejo e o que oiço, que é bem mais interessante.
Quando me sentei à secretária para trabalhar, dei com a transcrição feita acima, que foi retirada pelo Pedro Correia de um livro de Marcelo Mathias. Como gosto dos três, lembrei-me da conversa que acabara de ter e sorri por causa da coincidência (que a Margarida Rebelo Pinto diz não existir, e é capaz de ter razão).
Não sendo, como é evidente, nem escritora - costumo dizer que sou escrevinhadora - nem comparável a Camus nem a Marcelo, ou mesmo ao meu querido Pedro, aquilo sobre que "peroro" tem muito pouco a ver com a minha história pessoal. Tem, sim, a ver com o meu olhar sobre o que me rodeia, o que , parecendo ser o mesmo, é, de facto, bem diferente. O que eu vejo, o que eu oiço, o que eu penso, não é o que eu vivo. O que eu vivo vai muito para além do que escrevo e, em certas ocasiões, vai mesmo para além de mim própria.
Talvez seja por tudo isto, que nunca publiquei um romance, apesar de ter dois quase escritos e o meu saudoso Mário Castrim me ter incitado a fazê-lo...

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Resistência activa ao aborto ortográfico (97)

por Pedro Correia, em 24.08.13

 

GNR

 

Acção actor acto
Ponta-pé traves-tu barato

 

Bem-me-quer o Pedralvares cordato
Que era “súdito” directo de fato

 

Óptimo ou caricato
É um acordo ou é um buraco

 

Quem no quer esse muro concreto
É político mas anal fabeto

 

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Tanguíssimo

por Helena Sacadura Cabral, em 24.08.13



Veja em ecrã grande e aprecie a sensualidade, a precisão, a beleza deste tango, versão electrónica. Silvana Capra e Roberto Herrera são magníficos. Este é um daqueles que elegi para um trabalho que estou a fazer sobre a sensualidade na música e na dança.

Deliciem-se com esta perfeição!

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