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A silly season

por Helena Sacadura Cabral, em 31.07.13


Nesta época do ano era habitual o país entrar em notícias rendilhadas, ou seja, falava-se de tudo menos do que seria importante. Os interesses centravam-se nos amores recentes, nas trocas dos antigos, nos vestidos e penteados, nas festas daqui, dali e d'alem mar, enfim abordavam-se toda a espécie de trivialidades. E era muito descansativo!

Agora, tudo isso se perdeu sob o manto diáfano da seriedade e do rigor. Já não há silly season. Quando muito, teremos que nos contentar com as notícias da Lux ou da Caras, dado que a Hola, com os problemas internos da Espanha, perdeu muito do seu fulgor. Mas mesmo as referidas nacionais, a que com alguma boa vontade se poderão acrescentar a Vip ou a Flash, mesmo essas, não conseguem dar conta do serviço por falta de material.

Exceptuando o Cristiano e a Irina que ainda despertam os portugueses da letargia em que vivem, o que é certo é que já não há jardins da Parada ou betinhos que nos valham. A globalização fez desaparecer o beautiful people e, os resquícios que ainda subsistem, não dão para mais de duas páginas com fotos e texto escassos.

A crise é, nos nossos dias, pasme-se, o tema central das revistas cor de rosa que assim se tingem de um cinzento outonal. Que pena. Que falta nos fazem aqueles floreados da época!

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"Brancas" jogam e perdem

por Pedro Correia, em 31.07.13

Nunca tive a menor dúvida sobre a orientação do Tribunal Constitucional relativamente à questão das candidaturas autárquicas. Para mim, portanto, a decisão dos juízes do Palácio Ratton - hoje anunciada - relativamente à candidatura de Fernando Seara em Lisboa não constituiu surpresa. Vem na sequência de várias outras, emanadas dos tribunais comuns. Já tinha ocorrido em Évora, Loures, Tavira, Aveiro, Alcácer do Sal, Beja e Guarda. Com derrotas claras do auto-proclamado Movimento Revolução Branca (que raio de nome...) encabeçado por um ex-mandatário de Narciso Miranda. Alguém que só ganhou alergia aos chamados "dinossauros" do poder local depois de ter sido ferrenho adepto do tiranossaurus rex de Matosinhos.

Como já referi aqui e aqui, não faz o menor sentido limitar direitos políticos consagrados na Constituição da República com interpretações extensivas da lei ordinária. A ausência da clarificação que a Assembleia da República deveria ter feito ao diploma que interdita mais de três mandatos consecutivos na mesma câmara municipal ou na mesma junta de freguesia foi um erro que não pode ser compensado com outro, de maior gravidade. A melhor doutrina jurídica ensina-nos que a compressão de um direito só é admissível com menção expressa na letra da lei, não invocando um seu putativo "espírito" à mercê de calendários políticos.

Os "revolucionários brancos" terão de arranjar muito em breve outra causa para se manterem à tona das ondas mediáticas. Esta tornou-se um "não-assunto", como bem lhe chamou Vital Moreira.

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Fotografias tiradas por aí (156)

por José António Abreu, em 31.07.13

Cidade da Praia, Cabo Verde, 2007.

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Maus hábitos jornalísticos

por João André, em 31.07.13

No caso do acidente ferroviário em Espanha, aquilo que mais me incomoda é a forma como a vida do condutor tem sido completamente devassada pela comunicação social. Ainda antes de se saber o que tinha sucedido (além da existência de muitos mortos) já se sabia quem era o condutor, que idade tem, que tinha colocado uma foto na sua página do Facebook, etc. Perante o tratamento dado ao caso pela comunicação social, é normal que o público tenha reagido como uma turba raivosa com ganas de enforcar o condutor da árvore mais alta da Galiza.

 

Neste aspecto não seria de desdenhar o hábito que eu vejo na Holanda. Perante um acusado de um crime, a comunicação social dá habitualmente o primeiro nome e a inicial do apelido, desfocando sempre as fotografias em que ele (ou ela) apareça. A lógica é simples: se a pessoa for considerada inocente (ou mesmo que cumpra pena e depois saia em liberdade), é importante que possa voltar a ter uma vida normal. Como tal, faz sentido que a sua identidade seja mantida em segredo.

 

Não sei se é um compromisso dos media ou uma determinação legal. Para bem da justiça, no entanto, seria bom que fosse adoptado (pelo menos) em Portugal.

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Extraordinário!

por Fernando Sousa, em 31.07.13

Bradley Mannings não será condenado a prisão perpétua, porém incorre numa pena de 136 anos. Extraordinário! A juíza que presidiu ao tribunal militar que julgou o soldado que filtrou centenas de milhares de ficheiros para a WikiLeaks foi no entanto magnânima: descontou-lhe 112 dias pelos oito meses em que esteve metido numa cela de 2x2,5 metros e sem janelas, com direito apenas a uma hora diária de recreio. Que humanidade! Mas o mais extraordinário é que o Governo dos Estados Unidos, que se mandou ao Iraque como gato ao bofe com base em mentiras e que vem recusando investigar alegações de tortura e outros crimes, tenha decidido processar Mannings por ter revelado provas de comportamentos de guerra criminosos. 

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Regresso ao passado (IV)

por Pedro Correia, em 31.07.13

 

A publicidade é uma das formas mais interessantes de acompanharmos a evolução de uma sociedade através dos jornais. Por exemplo, em 1967 era frequente haver anúncios a televisores e frigoríficos nas páginas do Jornal do Fundão, algo impensável poucos anos antes. E registavam-se já técnicas publicitárias a que hoje estamos muito habituados.

Repare-se nisto, que encontro na edição de 26 de Março de 1967: "Vive no Fundão e tem telefone? (título) Ao atender, que as primeiras palavras sejam Quem tem Butagaz tem tudo".

Falta acrescentar que naquele tempo, por estas bandas, os números de telefone tinham apenas três algarismos (ou dígitos, como hoje diríamos).

 

Eram alguns dos primeiros sinais da acelerada transição de um meio marcadamente agrícola, numa vila ainda cercada de quintas em todo o seu perímetro, para a urbe moderna em que se tornou, embora sem perder as raízes rurais. Já então - recordo-me bem desses tempos da minha infância - quem vinha das aldeias situadas em zonas mais remotas do concelho era facilmente reconhecível, em comparação com as gentes da crescente malha urbana, pela indumentária e pelo tom de pele, muito mais moreno devido à constante exposição ao vento e ao sol. O que de algum modo ainda sucede, nomeadamente às segundas-feiras, quando muitos forasteiros acorrem à concorrida feira municipal, tradição que perdura.

 

Nesse ano de 1967 já o Jornal do Fundão tinha nomes sonantes das letras, das artes e do jornalismo a escrever nas suas páginas - e não apenas ligados à região, como em épocas precedentes sucedia com António José Saraiva (que escrevia regularmente do exílio em Paris), José Hermano Saraiva ou Francisco Rolão Preto, nome histórico do nacional-sindicalismo e da resistência monárquica.

Refiro-me a figuras como José Cardoso Pires, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, José Carlos Vasconcelos e Lauro António. Artur Portela Filho era "enviado especial" do jornal à Jordânia, em plena Guerra dos Seis Dias. Vítor Silva Tavares editava um excelente suplemento cultural - chamado "& etc", predecessor da editora homónima - com um grafismo que pedia meças ao da melhor imprensa com difusão nacional e onde se escrevia sobre filmes como Pierrot le Fou e Blow Up. A palavra "sexo" já surgia em títulos, apesar do olhar sempre vigilante da censura, que mirava com vistas implacáveis um periódico então com fama (e proveito) de simpatias pela oposição democrática.

"Arranjei uma gravurinha do século XIX - uma mãozinha com uma tesoura - que reduzi e apliquei na primeira página, quatro ou cinco vezes nos lugares onde tinha havido cortes. Aprendemos com a censura a ler os sinais gráficos. Tudo poderia constituir mensagem, subliminar, escondida. Era um jogo de gato e rato", lembraria o editor numa entrevista, muitos anos depois.

Marcas de um certo cosmopolitismo nessa Cova da Beira do Portugal de Salazar ainda situada a muitas horas de viagem de Lisboa. Marcas reflectidas no próprio noticiário comum. Na contracapa do jornal, sempre tradicionalmente dedicada à cidade da Covilhã, o destaque era dado - nessa edição de Março de 1967 - a uma "notável palestra do sr. Manuel Mesquita Nunes [provavelmente familiar do nosso Adolfo] sobre os problemas actuais da indústria de lanifícios", numa conferência de rotarismo.

 

Na mesma edição, leio a notícia de que dois primos meus - o alferes miliciano Manuel Correia Saraiva e o furriel miliciano António Eduardo Correia Saraiva - tinham regressado ao Fundão, cumprido o serviço militar no Ultramar. Eram as referências possíveis à guerra que se travava em três frentes africanas muito distantes do rectângulo luso e da qual só chegavam ecos esparsos às páginas dos jornais.

 

Imagem: uma rua do Fundão nos anos 50 (foto Caradisiac)

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Aforismos políticos (22)

por Pedro Correia, em 31.07.13

 

A competência é a melhor forma de resistência.

 

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Atravessando o Rubicão.

por Luís Menezes Leitão, em 31.07.13

 

 

Ontem Rui Rio anunciou urbi et orbi a sua candidatura a substituir Passos Coelho. As suas declarações constituem uma pedrada no charco e representam um claro sinal de que há na actual política portuguesa um amplo sector que não se revê na incompetência política do actual PSD nem está disposto a assistir ao desastre que seria a entrega do país a António José Seguro.

 

Rui Rio cortou a direito e diz o que muita gente está a pensar. Não é aceitável que numa democracia madura os políticos não digam a verdade no Parlamento, pelo que se forem apanhados em falso não têm outra alternativa senão demitirem-se ou serem demitidos. Mas é claro que Passos Coelho não o fará a Maria Luís Albuquerque, uma vez que nem sequer reagiu quando na oposição se colocou a mesma questão em relação a José Sócrates. E também não é aceitável que um partido que proclama querer combater a despesa pública candidate à segunda câmara do país um autarca que deixa uma dívida monumental na câmara que geriu e cujas promessas para o Porto se resumem a um endividamento estratosférico. Esta absoluta incoerência no discurso político vai custar cara ao PSD. E não são as moções de confiança no Parlamento que dão algum balão de oxigénio a um Governo que persiste em cometer erros sobre erros. Essa experiência já a tivemos com o governo de Santana Lopes, que também apresentou uma moção de confiança na Assembleia. Seis meses depois tinha caído. Na verdade, só precisam de apresentar moções de confiança os governos politicamente fracos. E a fraqueza política deste Governo é óbvia ou não estaria a ser dirigido pelo segundo partido da coligação.

 

É precisamente por esse motivo que Rui Rio decidiu ontem atravessar o seu Rubicão, deixando o Porto e preparando as suas tropas para o assalto ao poder.  Das suas declarações não há retorno e o combate tornou-se agora inevitável. Alea jacta est.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.07.13

 

Euro Forte, Euro Fraco, de Vítor Bento

Análise económica

(edição bnomics, 2013)

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As canções do século (1308)

por Pedro Correia, em 31.07.13

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Um novo léxico

por Helena Sacadura Cabral, em 30.07.13

"Portugal é um país muito dado à semântica". Assim começa, hoje, a crónica de Tiago Freire no Jornal Económico. Com base nesta afirmação séria, decidi tecer algumas considerações sobre sinónimos especiais para uso público, de modo a ajudar aqueles que tenham de discursar no exercício de funções oficiais, mas não queiram ser vaiados.

Dando corpo ao exercício fiz uma pesquisa das palavras mais utilizadas na actual oratória, às quais entendi dar um cunho pessoal de modo a que, quem necessite, possa ir mais longe na utilização das mesmas

Assim, sugere-se que a mentira seja apenas uma inverdade, e a miséria uma questão de ajustamento económico. Continuando, teremos a salvação nacional como sinónimo de simples acordo entre partidos do arco da governação e os swaps uma encrenca financeira que utilizada em certos contextos é uma excelente opção e noutros uma péssima escolha. O problema aqui reside na definição do dito contexto, como deverão ter percebido. Já a expressão saber deve significar, sempre, o conhecimento atempado de tudo e não apenas de uma parte, excluindo portanto daquele conceito o estar informado. Finalmente austeridade será, pelos tempos mais próximos, sinónimo de rigor e seriedade. E, para não ser criticada,irrevogável será tudo o que, a seu tempo e por motivos alheios à vontade de cada um, se torne reversível.
Acredito que com este novo léxico ninguém ficará mal visto nas diversas ocasiões em que for chamado a pronunciar-se sobre o que quer que seja!

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Regresso ao passado (III)

por Pedro Correia, em 30.07.13

 

Os periódicos regionais, como o Jornal do Fundão, cumpriam a vocação de acompanhar os ciclos vitais dos seus leitores. Lembro-me desde sempre de ver pais, avós, tias e primas abrindo o semanário enquanto diziam "deixa cá ver quem morreu..."

 

A primeira notícia verdadeiramente triste de que me lembro na minha família - como já evoquei aqui - foi a morte do meu avô, na segunda metade da década de 60. Lá vem ela relatada também nas páginas do Jornal do Fundão, sob letras grandes e negras: "Necrologia".

Era muito novo para me recordar de pormenores - e nem sequer estive presente no funeral: por esses dias, eu e o meu irmão ficámos à guarda dos meus outros avós, pais da minha mãe.

Deixou-me portanto uma sensação amarga e doce, a leitura desta notícia a tantos anos de distância na sala onde funciona o arquivo do jornal. Amarga por me fazer reviver aqueles dias tristes da minha infância. Doce por fornecer um retrato do falecido que sublinha as suas qualidades profissionais e humanas. Assim ficarão registadas para a posteridade, graças ao redactor anónimo daquelas linhas. A tal ponto que não resisto a transcrevê-la parcialmente:

 

"Na madrugada do dia 25 faleceu no Hospital da Misericórdia o nosso prezado amigo sr. Luís Correia, de 72 anos de idade, funcionário, aposentado, da Federação Nacional dos Produtores de Trigo. Muito considerado nesta vila, de onde era natural, foi vereador da Câmara Municipal do Fundão, regedor da freguesia e durante muitos anos secretário da Liga dos Combatentes da Grande Guerra. Profissional zeloso, bairrista devotado, o extinto, quer pela lhaneza do trato, quer pelas suas qualidades pessoais, contava inúmeros amigos. (...) O funeral, realizado para o cemitério do Fundão, e para o talhão dos Combatentes da Grande Guerra, foi uma grande manifestação de pesar."

 

O avô Luís era "muito considerado", "bairrista devotado", conhecido pelas "qualidades pessoais" e com "inúmeros amigos". Um legado destes, documentado nas páginas de um prestigiado semanário, vale por toda a fortuna que pudesse ter recebido em herança.

Obrigado, Jornal do Fundão, por teres feito do meu avô notícia. E por teres conseguido tornar também doce uma recordação que para mim era apenas triste.

 

Imagem: praça do município do Fundão, nos anos 30 (do blogue Postais do Fundão)

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Aforismos políticos (21)

por Pedro Correia, em 30.07.13

 

Aprende a escolher: toda a política é feita de opções.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.07.13

 

Desamor, de Ricardo Martins Pereira

Crónicas blogosféricas

(edição Oficina do Livro, 2013)

Aviso ao leitor: "Por vontade expressa do autor, o livro respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico"

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As canções do século (1307)

por Pedro Correia, em 30.07.13

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no good

por Patrícia Reis, em 29.07.13

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O que estou a ler (9)

por Marta Spínola, em 29.07.13

Pergunta o Luís. Eu estou sempre a ler muita coisa e leio nada. Livros a meio são mais de muitos (não são eles, sou eu) e tenho saudades de me prender a um livro de início ao fim. Entretanto, peguei num uma outra vez. 

O livro que reli mais recentemente, coisa que faço frequentemente com este livro, é o "Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci". Desta vez, a propósito de um post no facebok que coincidiu com a altura em que assisti a um curso sobre a Mesa Aristocrática no século XVIII (e aconselho o blog da autora Ana Marques Pereira, Garfadas On Line) e me lembrou muito as notas de Mestre Leonardo dois séculos antes.

Este livro, mais do que me interessar pelo conteúdo histórico, está cheio de pérolas de preocupação de Leonardo Da Vinci não só com a apresentação à mesa, como os modos dos seus contemporâneos. Percebe-se que sofria com a falta de civismo o que resulta, admito que também pela tradução, em notas engraçadíssimas. Ainda que a intenção dele não fosse fazer rir. 

Inocentemente - ou não - acaba por ser indiscreto nos hábitos de Sforzas e Borgias à mesa, dá-nos conta de algumas receitas da época e são mostrados alguns projectos de objectos para cozinha e mesa como o saca-rolhas e a batedeira (à escala humana, com pedais, impraticável uma vez que ou o conteúdo era pouco e o efeito não o pretendido, ou o "batedor" se afogaria). 

Relativamente a soluções práticas, diz-nos que o melhor para não ter a cozinha a cheirar a cabra é não ter cabras na cozinha. 

É um livro recheado de pepitas. Deixo umas imagens, mas vale bem a pena lê-lo. 

 

É com este livro que tenho andado para trás e para a frente, enquanto a vida se prepara para dar uma reviravolta.

 

Passo a vez à Patrícia Reis, para sabermos o que lê de momento.  

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Políticas da droga

por João André, em 29.07.13

Há em relação à Holanda uma noção sobre as drogas que não é a mais correcta: as drogas leves (Cannabis, no caso concreto) não são legais. As coffee shops, por seu turno, também não. O que há é uma política de tolerância em relação à sua existência. Desde que as quantidades de drogas vendidas sejam reduzidas e a venda ocorra apenas nas coffee shops, as autoridades não intervêm (isto cria a situação curiosa de ser possível comprar e vender drogas sem riscos legais, mas não ser possível cultivar as plantas sem se cometer crime). Este arranjo tornou-se de tal forma corrente que os próprios tribunais decidem habitualmente a favor de acusados quando alguém é detido por venda de cannabis.

 

Uma das cusiosidades deste arranjo ao nível da sociedade é que muitos dos consumidores são estrangeiros (ou residentes ou apenas turistas). Os holandeses vivem num clima de não ligarem a este fruto proibido. Claro que isto motivou bastante o turismo de drogas, especialmente em cidades fronteiriças. A cidade de Maastricht, encostada à Bélgica, a 30 km da Alemanha, a 100 km do Luxemburgo e cerca de 150 km da França, sendo também uma cidade bonita e com bons acessos, é uma das principais vítimas do turismo de drogas. Um dos principais destinos é uma zona fluvial encostada à praça velha da cidade onde existem duas coffee shops construídas em barcos.

 

Ora, há uns anos, a cidade decidiu evitar a aglomeração destas pessoas, as quais causavam um "mau ambiente", limitando a venda de cannabis apenas a residentes na Holanda. Ou seja, os estrangeiros que vão à cidade deixam de poder comprar as suas drogas em ambiente tolerado pela lei. O resultado foi o esperado por qualquer pessoa com imaginação: várias coffee shops fecharam as portas e o influxo de estrangeiros em busca de droga não diminuiu. Isto porque, como seria de esperar, vários residentes (não necessariamente holandeses) passaram a calcorrear a zona oferecendo-se para ir comprar as drogas aos turistas. Além de a decisão não reduzir a entrada de "turistas de droga", teve o condão de os concentrar precisamente numa das mais agradáveis zonas da cidade e de atrair ainda outros residentes que não contribuem para a "atmosfera".

 

O que fizeram então o governo e a câmara? Recuaram na ideia? Adaptaram-na? Claro que não: aumentaram o número de polícias na cidade à medida que a criminalidade reclacionada com drogas foi aumentando e juraram que não se desviariam um milímetro do percurso, com o ministério responsável pela polícia a prometer que apoiaria sempre com reforços quando a cidade o precisasse.

 

O curioso não é a insistência na política nem o destruir de um conceito que tem funcionado (na maior parte da Holanda as coffee shops continuam a poder vender a não residentes). O curioso é que num país tão obcecado por dinheiro, o governo esteja tão disposto a abrir mão de rendimentos (impostos pagos pelas coffee shops) e a pagar o custo disso (mais polícia). Numa altura de crise (quando o dinheiro falta e as drogas se tornam mais atractivas) talvez não fosse má ideia olhar para este caso com mais atenção.

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Regresso ao passado (II)

por Pedro Correia, em 29.07.13

 

Leio a notícia do casamento dos meus pais, na segunda metade dos anos 50. São quatro parágrafos, encimando uma coluna também de "notícias pessoais" - incluindo um "pedido de casamento", a transferência para outra zona do País de um tesoureiro que "durante alguns anos exerceu as suas funções no Fundão onde, pelo seu nobre carácter e excelentes qualidades, conquistou sólidas amizades", a partida "com destino a Luanda do nosso conterrâneo e amigo" senhor Fulano de Tal "aceitando um convite que lhe foi dirigido pela Companhia dos Diamantes de Angola" e a boa nova da menina Maria do Céu..., "operada com pleno êxito ao nariz".

A notícia sobre os meus pais publicada no Jornal do Fundão, que transcreverei parcialmente, é muito completa. E obedece aos cânones técnicos da escrita jornalística, respondendo às questões fundamentais: o quê, quem, quando, onde.

"Na Igreja da Sé, em Castelo Branco, realizou-se no passado dia 30 o casamento do nosso distinto colaborador e amigo sr. Félix da Silva Correia, funcionário da Direcção-Geral de Saúde em Lisboa, filho do sr. Luís Correia e da srª D. Maria Ângela da Silva Correia, com a srª D. Isabel de Magalhães Mendes Correia, gentil filha do sr. major Mendes Correia e da srª D. Maria do Patrocínio Mendes Correia."

Além dos nomes dos noivos e dos pais, são também mencionados os padrinhos e madrinhas. E a prosa rematava desta forma: "Em casa dos pais da noiva foi servido aos convidados um fino copo de água. Os noivos fixam residência na Costa da Caparica. Ao novo lar desejamos incontáveis felicidades."

 

Relance de um jornalismo de proximidade, espécie de rascunho dos livros de História do futuro a partir do qual reconstituímos uma parcela significativa da vida quotidiana que passou. Um tempo em que os órgãos de informação desejavam "incontáveis felicidades" a jovens recém-casados: instantes felizes fixados para a posteridade numa coluna de jornal.

 

Imagem: Sé de Castelo Branco, num postal antigo (do blogue O Albicastrense)

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Aforismos políticos (20)

por Pedro Correia, em 29.07.13

 

O silêncio é sempre uma forma de comunicação política.

 

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Como se liquida um Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 29.07.13

 

 

A soberania de um Estado é essencialmente simbólica, pelo que depende da preservação dos seus símbolos. Ora, o que se tem visto nos países que se submeteram a este vergonhoso protectorado é a destruição total dos símbolos da soberania nacional. Os Governos transformaram-se em simples paus mandados dos credores, obedecendo cegamente a qualquer disparate por eles sugerido, mesmo que esteja em causa grande parte da herança cultural de um povo. Em Portugal, o país deixou de comemorar a sua independência e o regime republicano. Na Grécia vai-se paulatinamente destruindo tudo o que resta do Estado grego, transformando o país novamente num território ocupado. Primeiro encerra-se a televisão pública numa noite e agora é a sua orquestra nacional que vai encerrar. Nas lágrimas desta violinista o que eu consigo ver é a alma grega a desaparecer. Ora, nem todo o dinheiro do mundo, venha ele da troika ou de outro lado qualquer pode pagar isto. Apetece citar a velha sabedoria do evangelho: "De que adianta o homem ganhar o mundo inteiro se perde a sua alma?" (Marcos 8:36).

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.07.13

 

A Filha do Papa, de Luís Miguel Rocha

Romance

(edição Porto Editora, 2013)

"Por decisão do autor, o presente livro não segue o novo Acordo Ortográfico"

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Blogue da semana

por Fernando Sousa, em 29.07.13

O tema religião continua  limitado entre nós a uns quantos colunistas, por exemplo Frei Bento Domingues, no Público, aos domingos, Fernando Calado Rodrigues, no Correio da Manhã, às sextas, e Anselmo Borges e Tolentino Mendonça, respectivamente no Diário de Notícias e Expresso, aos sábados. Não é ainda parte da nossa cultura, tradicionalmente laica e republicana. Nem - infelizmente - uma especialidade jornalística a cultivar. Por isso escolhi como blogue da semana o Religionline, um trabalho colectivo de Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, do jornalista António Marujo, ex-Público, com anos de experiência acumulada, e de Joaquim Franco. Contra o que possa parecer não é um blogue proselitista, é um espaço voltado para o “sentido da vida, a dimensão religiosa e a cultura”, com “notas, notícias, procuras e interrogações”, abrangente, atento e crítico. 

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As canções do século (1306)

por Pedro Correia, em 29.07.13

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Num ecrã perto de si

por José Gomes André, em 28.07.13

A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de "decadência".

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Frases de 2013 (24)

por Pedro Correia, em 28.07.13

"Estou desiludido com António José Seguro"

Mário Soares

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A angústia do bloguista perante o teclado

por Rui Rocha, em 28.07.13

Tudo muito certo. Mas escreve-se sejemos ou cejemos?

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Regresso ao passado (I)

por Pedro Correia, em 28.07.13

 

Se há coisa de que sempre gostei foi de consultar jornais antigos. Sou capaz de estar horas esquecidas numa biblioteca ou numa hemeroteca, aprendendo em cada notícia sobre o passado - e, através dele, conseguindo perceber também um pouco melhor o presente.

Sucedeu-me na tarde de quinta-feira, numa consulta à colecção do Jornal do Fundão, em cuja redacção fui muito bem recebido. Pretendia ler, fotocopiar e guardar notícias especificamente relacionadas com a minha família. Houve épocas em que os jornais - particularmente os jornais sedeados em cidades ou vilas da província - eram repositório de acontecimentos que constituíam marcos na vida privada de muitos dos seus assinantes e leitores, tornando-os notícia.

A partir de muitos desses textos é possível reconstituir hoje grande parte do quotidiano das décadas precedentes.

 

 

 

Recolhi várias notícias que de algum modo me diziam respeito. Incluindo a notícia do meu próprio nascimento, que não possuía em nenhum arquivo familiar. Seis linhas apenas, numa coluna do jornal que tinha imensa leitura, sob a epígrafe "notícias pessoais". Uma coluna que registava nascimentos e casamentos, naturalmente. Mas também internamentos hospitalares. Ou alterações de estatuto profissional ("Foi nomeado tesoureiro da Agência Geral de Depósitos em Oliveira de Azeméis o nosso amigo sr. X a quem cumprimentamos e desejamos os melhores êxitos"), ou simples visitas em gozo de licença ou de férias ("cumprimentámos o sr. Y, natural do Alcaide, oficial da Força Aérea em Lunda, que no continente se encontra em visita de alguns dias à família").

E há pormenores deliciosos, que nos remetem para um imaginário nada condizente com os nossos dias e nos falam de um Portugal que há muito deixou de existir.

 

Uma das rubricas fixas destas "notícias pessoais" era a dos pedidos de casamento. Lá vêm dois, registados para os devidos efeitos, na edição da semana em que nasci.

Não resisto a transcrever uma destas notícias (omitindo apelidos):

"Pela srª D. Otelinda... e sr. Aníbal..., solicitador e residente em Anadia, foi pedida em casamento para seu filho sr. dr. Serafim..., Delegado do Procurador da República em Lagos, a srª D. Maria..., gentil filha da srª D. Regina... e do sr. Francisco..., falecido."

Outros hábitos, outros costumes, outra imprensa, até outra linguagem. Outro País.

 

Imagem: avenida principal do Fundão, nos anos 50 (do blogue Postais do Fundão)

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Aforismos políticos (19)

por Pedro Correia, em 28.07.13

 

Todo o excesso de confiança exige travão a fundo.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.07.13

  

A Casa de Bragança, de Ernesto Rodrigues

Romance histórico

(edição Âncora, 2013)

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Português cruza-se com o Papa Francisco a caminho da casa de banho.

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As canções do século (1305)

por Pedro Correia, em 28.07.13

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Não citarás Beauvoir em vão

por Rui Rocha, em 27.07.13

Cécile Kyenge, ministra italiana da Imigração, tem sido alvo dos actos mais abjectos. Há dias, Roberto Calderoli, vice-presidente do Senado, chamou-lhe orangotango. Na passada sexta-feira, atiraram-lhe bananas. Estes actos definem, naturalmente, apenas e só quem os pratica. A barbárie vem à superfície, desta vez, por Cécile Kyenge ser negra. A ministra da Integração poderia ter respondido, por exemplo, citando Simone de Beauvoir: não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus hábitos. Poderia e teria razão para isso. Todavia, Cécile Kyenge preferiu outro caminho. A citação seria um mero recurso retórico. Cécile meteu o discurso na realidade: com tantas pessoas a morrer de fome por causa da crise é triste desperdiçar comida assim. O sentido democrático e a maturidade cívica também são isto. O desapego de si, da sua posição formal como ministra e a sensibilidade que permite pensar em terceiros mesmo sob fogo cerrado. Acossada, não se defendeu a si própria, mas remeteu para o sofrimento de outros, ridicularizando assim, ainda mais, o gesto obsceno dos que a pretendiam ofender. Na resposta, Cécile foi simplesmente Cécile. Trata-se, obviamente, de uma chapada de luva negra que estalou na face dos energúmenos. Mas é, também, um exemplo para quem, a uns milhares de quilómetros de distância, ainda há umas poucas semanas, com altivez, desvio corporativo e insuflado sentido da própria honra, citou Beauvoir para chamar carrascos, de forma absolutamente desproporcionada, aos cidadãos que se manifestaram nas galerias da casa que se diz ser a da nossa democracia.

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Teoria e prática do líder inspirador

por Rui Rocha, em 27.07.13

O líder eficaz inspira pessoas. Promove mudanças de comportamento e atitude. Constrói um código de conduta com os membros dos grupos dos quais faz parte em torno de valores que são explicitados, disseminados e praticados por todos. Numa época de superexposição, o comportamento do líder ganha destaque pois mais importante que atingir um resultado é a forma como se age para conquistá-lo. O modo de fazer é a característica do líder inspirador. Neste contexto, entusiasmar os cidadãos através de um discurso motivador parece ser o caminho mais curto para o sucesso. A tarefa exige a escolha dos termos certos, emoção e sensibilidade. Quem sa­­be comunicar exerce influência positiva. Se os pés estiverem bem assentes na terra, às vezes é suficiente uma única palavra para congregar uma comunidade em torno de um objectivo comum. Passos Coelho consegue frequentemente esse quase milagre de sintetizar numa forma verbal inspiração e acção, presente e futuro, individualidade e solidariedade, convocando todos para um propósito partilhado. Desta vez essa palavra foi, singelamente, sejemos.

 

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Fotografias tiradas por aí (155)

por José António Abreu, em 27.07.13

Águeda, 2013.

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Livros que deixei a meio (1)

por Pedro Correia, em 27.07.13

 

20 MIL LÉGUAS SUBMARINAS

de Júlio Verne

 

O primeiro livro que me lembro de ter deixado a meio foi um daqueles de que mais gostei. Custa a crer, bem sei, mas eu já explico.

 

Há livros que devemos ler na idade própria - nem cedo de mais nem tarde de mais. Nunca compreendi aqueles pais que se apressam a proporcionar aos filhos, ainda muito novos, literatura "adulta" para "amadurecerem" com maior rapidez. Também me faz alguma impressão ver adultos mergulhados numa espécie de infância retardada, deliciando-se com a leitura das histórias do Tio Patinhas. Nada melhor do que tudo ocorrer no tempo certo.

Parafraseando o outro, a propósito de algo bem diferente, eu fui um miúdo do meu tempo. Devorei as aventuras dos Cinco e dos Sete, era fanático de banda desenhada, não perdia uma série do bom velho Oeste na televisão (Bonanza, O Maioral, Os Monroe, Shenandoah, High Chaparral). E não perdia também uma só obra de dois autores muito lá de casa: Jack London e Júlio Verne.

 

Associo sempre muitas tardes da minha infância aos livros do aventureiro norte-americano, com as magníficas capas multicoloridas da editora Civilização, e do respeitável burguês de Nantes, que pôs várias gerações de jovens a percorrer o globo sem saírem das quatro paredes do quarto.

Apreciava particularmente o Verne editado pela Bertrand no início dos anos 70, com uma estampa antiga emoldurada por um grafismo moderno. Nunca soube quem era o autor destas capas: julgo que tal referência não constava da ficha técnica. Mas presto-lhe hoje homenagem. Este é um dos segredos editoriais para consolidar uma legião de leitores fiéis.

E, claro, havia a sedução da própria escrita de Verne - didáctica sem nunca ser maçadora, capaz como poucas de nos prender a atenção no fim de cada capítulo, abrindo o apetite para o capítulo seguinte - técnica herdada dos melhores textos folhetinescos, relíquia de um tempo em que o jornalismo era indissociável da literatura.

 

Li vários livros dessa colecção: cada um deles era uma espécie de tesouro íntimo para um garoto como eu, então à descoberta do fascínio da literatura. Tenho ainda muitas dessas obras: A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Náufrago do Cynthia, O Bilhete de Lotaria nº 9672, Viagem ao Centro da Terra, A Carteira do Repórter, Os Filhos do Capitão Grant, O Farol do Cabo do Mundo, Matias Sandorf.

Mas a Bertrand editava por vezes algumas destas obras, um pouco mais extensas, em dois volumes. Eu ignorava tal facto até ler, absolutamente empolgado, o primeiro volume d' A Mulher do Capitão Branican: chegando ao fim, deparei com o aviso de que a continuação viria noutro tomo da mesma obra. Corri à procura dela: estava esgotada. Só muitos anos depois, já quase esquecido do empolgamento juvenil, adquiri esse outrora ansiado segundo volume.

Mas - como seria de esperar - o fascínio perdera-se.

Aconteceu-me o mesmo com as 20 Mil Léguas Submarinas. Com a diferença de que este foi um romance que me atraiu ainda mais. Não tenho a menor dúvida em classificar o capitão Nemo entre as grandes figuras de sempre da literatura mundial. Recordo as ementas minuciosas das refeições a bordo do submarino e a atmosfera claustrofóbica daquelas cenas. E não esqueço a aura de mistério que envolvia Nemo.

 

Terminei o primeiro volume: a mesada não chegava para o segundo. Quando chegou, já não havia o livro. Nem no mês seguinte, nem no ano imediato.

Nunca li a segunda parte das 20 Mil Léguas Submarinas. Talvez com receio de que a magia se perdesse para sempre, como sucedeu com A Mulher do Capitão Branican.

Assim permaneceu intacta.

 

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Aforismos políticos (18)

por Pedro Correia, em 27.07.13

 

Aprende a conservar energias para as batalhas decisivas.

 

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Respect

por Patrícia Reis, em 27.07.13

 

O senhor doutor entende-me, não é verdade?

Ah, eu espero que sim.

Olhe que nunca pensei em ter de recorrer a estas coisas da psicanálise e da terapia, mas uma colega convenceu-me e a minha angústia é tão grande que achei melhor marcar uma consulta com urgência. A sua assistente foi de uma delicadeza sem fim, percebeu logo o desespero na minha voz, até me disse de que nada valia estar assim, que vou morrer e que preciso de canalizar as minhas energias para coisas positivas. Mal sabe ela, a sua assistente, o que eu faço para pagar as contas.

Há mais de vinte anos que escrevo sobre mortos. Não fique tão admirado. É um trabalho honesto. É, para ser sincero, a minha especialidade. Nos dias que correm já não escrevo sobre nada a não ser sobre os mortos.

Se o senhor doutor me disser um nome de um morto, pois decerto que escrevi o obituário e, posso dizer com certo orgulho, tenho livros publicados, sempre correctos, sem margens de risco para a difamação ou eventuais processos judiciais. Escrevi sobre quase todas as personagens importantes da nossa História.

As pessoas confiam em mim, sabe? As famílias. E contam tudo o que podem. Mostram os objectos, as cartas, os guarda roupas, as coisas mais íntimas. Muitas vezes, sou eu que faço censura. Claro que o editor não sonha que tenho informações sobre as quais não escrevo uma linha, mas que sabe um editor? Actualmente? Sabe pouco.

O que me custa mais, senhor doutor, é o arrivismo extremo da juventude que ainda não percebeu que a morte é algo respeitável e que lhes irá acontecer, mesmo que tenham um automóvel de marca ou uma namorada nova a cada quinze dias. Nada disso tem importância.

O que acontece, senhor doutor, é que é muito diferente escrever sobre os mortos, muitas vezes no próprio dia da morte, sob pressão, com os olhos de todos em cima de mim, todos à espera do meu texto. Muito mais fácil do que escrever sobre os vivos. Aqueles que irão morrer.

Pois, a minha ansiedade deriva desta lista que aqui tenho. Veja só o senhor o que me incumbiram de fazer até finais do mês de Junho. Estiveram fechados numa sala a ver quem tem mais probabilidades de morrer e depois, com um enorme desplante, entregaram-me a lista dizendo que deveria ser um alívio ter tempo para escrever sobre um putativo morto.

Não, não estou a brincar, o editor disse “putativo”. Não é uma palavra da minha eleição, mas... enfim, nem todos somos versados no melhor português e morte com palavras destas não andam bem de mão dada.  Mesmo que isto pareça um cliché, terá de me perdoar, mas estou deveras perturbado. À cabeça da lista, como pode ler, está o nome dela.

Ora, foi ao ler o nome dela que eu entrei neste frenesim. Eu posso fazer os obituários que quiserem, de políticos a estrelas de cinema, mas da Aretha Franklin? Sabe quantas vezes eu canto “the moment I wake up...”... Todos os dias, senhor doutor, todos os dias.

Só seria mais dramático se o nome fosse o da Barbra Streisand, confesso.  Sim, sim, todos temos os nossos fétiches, os nossos sonhos e momentos de euforia pessoal. Comigo são estas duas e, senhor doutor, não consigo. Simplesmente não consigo escrever a história de Aretha.

Não sei se está a par. Não tem tido uma vida fácil, agora está semi-retirada. Há três anos ainda a vi em Nova Orleães, comprei o bilhete on-line, estava cheio de medo que as coisas não corressem de feição, no entanto na hora lá estava eu e ela a cantar como mais ninguém. Trazia um vestido com as mangas rendadas. Eu sei que há homens que preferem as mulheres esqueléticas, cadavéricas. Aretha, para cantar como canta, preciso de ter peso, de ter caixa. Como as cantoras de ópera, de certa forma.

A revista Rolling Stone escreveu, há uns anos, que é a melhor cantora de todos os tempos. Eu subscrevo. Gosto especialmente de a ouvir cantar o que começou por ser o seu chão, o gospel. É uma forma de conversar com Deus e, quando a ouvimos, Ele fica mais próximo e acreditamos, mesmo quando não somos crentes.

Em Memphis, onde ela nasceu, pois o gospel era obrigatório e Aretha não tardou a ser solista. Daqui até à fama foi um salto. O Estado de Michigan declarou a voz desta deusa como uma das maravilhas naturais. É a rainha da soul, a rainha do gospel, a rainha. Olhe, é tão importante, que é a primeira mulher a ter conseguido chegar ao Rock & Roll Hall of Fame. Tem dezoito grammies. E mais uma série de prémios que não vale a pena enumerar. Está a olhar para mim um pouco alarmado? Cristo! Não sabe quem é Aretha?

Espere lá... Gosta de George Michael, aquele rapaz que é constantemente apanhado em casas de banho a assediar outros rapazes? Pronto. Aí tem: Aretha gravou com ele o “I knew you were waiting for me”. Não está a ver? Certo. Deixe ver se eu consigo cantar um bocadinho...

 

Like a warrior that fights
And wins the battle
I know the taste of victory
Though i went through some nights
Consumed by the shadows
I was crippled emotionally
Somehow i made it through the heartache
Yes i did. I escaped.
I found my way out of the darkness
I kept my faith (i know you did), kept my faith

When the river was deep i didn't falter
When the mountain was high i still believed
When the valley was !ow it didn't stop me, no no
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

With an endless desire i kept on searching
Sure in time our eyes would meet
Like the bridge is on fire
The hurt is over, one touch and you set me free
I don't regret a single moment, no i don't looking hack
When i think of all those disappointments
I just laugh (i know you do), i just laugh

When the river was deep i didn't fairer
When the mountain was high i still believed
When the valley was low it didn't stop me
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

So we were drawn together through destiny
I know this love we snared was meant to be
I knew you were waiting, knew you were waiting
I knew you were waiting , knew you were waiting for me

 

Acha mesmo que tenho boa voz? Já a minha mãe, Deus a guarde, dizia o mesmo. Eu dediquei-me a esta coisa da escrita e fiquei por aqui. Não é uma escrita qualquer, está a ver? Escrever sobre os mortos é importante e a fronteira entre a elegância e o macabro pode ser ténue. Não imagina o que eu passei para escrever o obituário da Withney Houston. Coitadinha. Estava disposta a recompor a sua vida... Era sobrinha da Dionne Warwick.

Outra que está aí na lista e eu não consigo, não consigo, garanto, escrever uma linha sobre as pessoas como se elas já tivessem ido. É de mau gosto.

Se me pedirem para escrever sobre a Maryln Monroe? Faço as páginas que me pedirem, acho que sei mais da loira burra, que não tinha nada de burra, que muita gente. Há uma série de televisão muito interessante, está a passar agora. Já viu? Chama-se Smash. A ideia é fazerem um musical com base na vida de Maryln. Estou ali a ver, na sala com a Mimi, a minha gata, e fico com os nervos em franja só com os disparates que dizem sobre a senhora.

Com Aretha, tenho de ser honesto, nem sei por onde começar e, depois de a ter visto cantar, acho que preferia que outro colega lhe escrevesse o obituário. Sim, não fique aí a pensar que sou só eu a escrever sobre os mortos. São sete cães a um osso. E nos dias de hoje, a competição é ainda mais estranha. Eu tenho um certo estatuto e tal, talvez por isso me tenham dado a lista. Como é que lhes vou dizer que posso escrever sobre todos menos sobre a Aretha?

O senhor doutor, diga-me, que comprimido é que devo tomar?

 

 

 (este texto faz parte da colecção Divas, colecção que tem saído às sexta-feiras com o DN e JN, sempre com CD e um texto de Ruy Vieira Nery a acompanhar)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.07.13

  

Rainha D. Amélia - Uma Biografia, de José Alberto Ribeiro

(edição A Esfera dos Livros, 2013)

Aviso ao leitor: "O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico."

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Uma ignorância histórica espantosa.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.13

 

 

Passos Coelho apela a acordo com o PS para "clima de união nacional".

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As canções do século (1304)

por Pedro Correia, em 27.07.13

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O cancro

por Helena Sacadura Cabral, em 26.07.13


O cancro, na minha família, matou as duas pessoas que mais amei: a minha mãe e o meu filho. Ambos passaram pelo IPO. 

O Miguel fez do Instituto a sua casa. Recebia o partido, os amigos e a família como se todo aquele cenário fosse normal e o convívio destas três categorias de pessoas tornou-se na coisa mais natural do mundo. A mim, esse condição retirava-me a intimidade com ele e, por isso, confesso, em certas alturas custou-me imenso. Beijar ou acariciar um filho na presença de pessoas que apenas conhecia da televisão, foi muito complicado. Mas teve o condão de me fazer estima-las.

A minha mãe, no início, sofreu bastante porque os tratamentos eram muito duros. Mas encontrou em Inglaterra, onde o meu irmão mais velho então estava colocado, o médico que a salvou, pelo que o IPO lhe foi menos familiar.

Falo disto porque sei o que representa, numa família, ter um dos seus membros com tal doença. E sei que é preciso falar dela, para que o medo não se torne silencioso. O que todos mais tememos não é a morte, porque essa é segura e garantida. O que todos mais tememos é o sofrimento. E é esse que faz a grande diferença entre o que era esta doença há trinta anos, quando a minha mãe a teve, e aquilo que ela é agora, quando o meu filho a viveu.

Ambos morreram com extrema dignidade. A minha mãe, entregando-se a Deus. O Miguel, entregando-se a nós. É capaz, afinal, de não ser muito diferente!

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por aí

por Patrícia Reis, em 26.07.13

Leio que há trinta anos que não se consumia tão pouco.

Leio que a crise política não terminou e que a ministra das Finanças não devia aquecer o lugar.

Leio as regras da universidade para onde vai o meu filho mais velho, mil euros mais tarde.

Leio Amos Oz, por ter a graça de ter uma editora generosa.

Leio o livro de Vanda Anástacio, Antologia improvável, sobre a escrita das mulheres desde o século XVI até ao XVIII (edições Relógio de Água). Não mudou nada. Por muito que façamos um esforço, as mudanças são poucas e tudo é risco enorme.

Eu continuo a tentar. Seja lá isso o que for. Acho que aprendo às vezes. Outras tenho vontade de berrar com tanta estupidez junta.

Ao jantar, o meu filho mais novo não abre a boca, o mais velho age como os crescidos e eu tenho uma coisa no cabelo que não condiz com a minha idade, mas who cares?

Podia estar a escrever, a escrever um livro, a fazer tournees e a dizer coisas inteligentes, mas estou aqui por opção, por saber que sou um bicho do mato. Um bicho é uma criatura com algumas fragilidades e ataca antes de ser atacado.

Acho que é muito simples de entender. Para alguns, é impossível.

Eu sou impossível. E pior ainda por dizer que, tal como o Lobo Antunes, pois não escrevo como ninguém. Ninguém escreve ou se escreve é um copista, prefiro o original.

A falta de frontalidade e verdade perturbam-me.

A minha cabeça já só aguenta algumas coisas e ainda bem. Não tenho a menor paciência para a minha imagem no espelho e tão-pouco para os ditos amigos que me cobram as horas - sim, as horas - que não lhes posso dar.

O meu marido, muito calmo, sabendo que vive com alguém que é perigoso, que é desbocado, que precisa de dizer palavrões, não se incomoda. Creio que nada o incomoda. A morte, talvez. Temos tido muitas mortes. E muitas traições. Tentamos todos os dias falhar melhor, como escreveu o poeta, e até esta ideia está gasta.

O mundo é muito maior do que qualquer coisa que se possa deixar no rasto das redes sociais.

Nada disto tem qualquer importância. Está na minha cabeça e é para mim, nem sequer é para vocês. É um exercício de egoísmo. A escrita.

Como aquelas pessoas que abrem as janelas dos automóveis e colocam a mão para sentir o vento. O ritmo muda, a vida muda, o vento muda, o automóvel até pode parar. O pior é o pensamento.

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Ler

por Pedro Correia, em 26.07.13

Haverá um homem forte no governo? De José Medeiros Ferreira, no Córtex Frontal.

A posição do PS. Do Mr. Brown, n' Os Comediantes.

"Desassa!" De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Ânsia epistolar. Da Carla Quevedo, na Bomba Inteligente.

A Nação não carece de salvação. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Sr. Luís.

Um mês. Do João Caetano Dias, no Blasfémias.

Do cabaré para a revolução. Da Joana Stichini Vilela, no Carrossel.

Vígaros em lá menor. Do Luís Naves, no Fragmentário.

Os mensageiros de Buzzati. De Diogo Leote, no Escrever é Triste.

Crónica I - Esplendor na Relva. No Buzzlit.

 

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- As empresas fabricantes de calçado são isentadas do pagamento de IRC.

- É criada nova taxa de IVA de 50%, a aplicar a bilhetes de futebol, de touradas, de combates de boxe e de bilhetes de cinema para filmes com mais de três explosões ou duas perseguições de automóvel. Em contrapartida, os bilhetes de cinema para comédias românticas baixam para a taxa reduzida.

- Com excepção dos de culinária, dos de auto-ajuda e dos escritos por Nicholas Sparks ou Nora Roberts, os livros transitam para a taxa normal de IVA.

- A percentagem do valor do IVA respeitante a refeições dedutível no IRS quadruplica se as refeições forem constituídas apenas por saladas e águas sem gás (ou sumos naturais). No caso de cabeleireiros, o valor da dedução pode atingir seis vezes o actual mas introduz-se uma avaliação de necessidade e mérito, a qual exige o envio de prova fotográfica das operações realizadas para a Autoridade Tributária e Aduaneira (de modo a evitar problemas com a comissão de protecção de dados, ficam de fora da necessidade de prova fotográfica as depilações a partes íntimas).

-  Gastos com cosméticos, perfumes, shampoos, amaciadores, produtos de higiene feminina e produtos de decoração de interiores passam a poder ser deduzidos no IRS.

- Os escalões do imposto automóvel passam a ser definidos pela cor do veículo.

A ministra propõe ainda que as negociações com a Troika sejam marcadas para dias com conjugação astral favorável e que seja criada legislação obrigando os fornecedores do serviço de correio electrónico a bloquear cópias das mensagens para fora dos seus servidores e a apagá-las automaticamente noventa dias após a data do seu envio.

 

 

 

 

(Adeus. Volto quando toda a gente tiver dado várias voltas ao aquário.)

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Teme-se o pior

por Rui Rocha, em 26.07.13

Em todas as fotografias do bebé real que já foram divulgadas as orelhas estão tapadas.

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Aforismos políticos (17)

por Pedro Correia, em 26.07.13

 

Escuta com atenção, sobretudo aqueles que não pensam como tu.

 

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Franquelim Alves foi nomeado Secretário de Estado da Inovação e mais não sei bem o quê em Fevereiro de 2013. O feliz contemplado tinha um percurso profissional em que sobressaíam funções de gestão e responsabilidade no BPN. Pelo visto, em dez milhões de residentes em Portugal e mais uns quantos espalhados por esse mundo fora, e também em Vancouver, não havia mais ninguém qualificado para a função. Tinha de ser ele. Só Franquelim era inovador, brilhante, criativo e um par de botas com os respectivos cordões. Tinha, aliás, cara disso. Do alto da incompreensão da situação portuguesa que Passos Coelho foi demonstrando em diversas ocasiões (a referência aos piegas, à emigração dos professores e outras passitudes de que não me quero lembrar) e com a proverbial e exacerbada teimosia que se diz ser frequentemente sinal de um razoável e incrustado défice de inteligência, o então primeiro-ministro pregava com tal nomeação mais um valente sopapo na carranca dos portugueses. A mensagem era clara: os portugueses deviam pagar o BPN; e deviam ainda tolerar como governante alguém que, com dolo, negligência ou por simples acaso esteve ligado a um dos mais vergonhosos casos de delapidação de património público e privado. Chama-se a isto dobrar a espinha. Pois bem. Pouco mais de 6 meses passados, Franquelim Alves, o único, o inigualável, o extraordinário, o inimitável, sai do governo na remodelação em curso sem que se lhe conheça qualquer façanha ou facto meritório. Ficará para a história, todavia e apenas, mais um episódio de profunda falta de respeito do então e ainda primeiro-ministro. É como se diz. Portugal está tão cheio de imbecis que, se tivermos o azar de entrar mais um, caímos todos ao mar. Com Passos Coelho à frente.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.07.13

  

E onde é que está o amor?, de Ana Zanatti

Novela

(edição Guerra & Paz, 2013)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.07.13

 

 Zooey Deschanel

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