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biografias

por Patrícia Reis, em 30.06.13

Dizem - aqueles que acham que o mercado guarda segredos para uns eleitos - que as biografias não vendem.

O mercado português - seja isso o que for - não gosta (para quem estiver interessado, O Inferno de Dan Brown sai dia 10 de Julho).

Pois, eu sempre gostei e há uma em especial que acarinho. Minto. Duas. Não, há mais, pronto, não vou fazer a lista. Mas para quem precisar de dicas para as férias leiam a biografia de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector, leiam a biografia de Ruy de Carvalho ou a biografia ficcionada - brilhantemente - por David Lodge de um dos meus autores de sempre, Henry James, chama-se Autor, Autor. Tendo-lhe tomado o gosto escreveu recentemente uma outra sobre H.G.Welles e quem lê só pode suspirar de admiração.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.06.13

«Quando se fala de greves e da estabilidade no emprego, onde está a minha estabilidade? O Estado garante à minha empresa o rendimento mensal necessário para pagar salários (primeiro), ao Estado (segundo) e aos fornecedores (terceiro) para ver se, no final de tudo, sobra alguma coisa.
O Estado garante-me as noites mal dormidas porque alguém se atrasou nos pagamentos e agora não sei a cinco dias do fim do mês onde vou desencantar dinheiro para pagar IVA, Segurança Social e os ordenados?
Fala-se dos Ferraris (como disse) e dos empresários que, tal como uma caricatura, devem ser anafados e de charuto. De ser fácil não ter de respeitar horários ou ter um "patrão". Mas não se fala do peso na consciência de o negócio não andar tão bem quanto devia (quando acontece...) e ter-se 10 ou 20 ou 30 pessoas que sabemos que podem ficar mal de um momento para o outro e a responsabilidade é nossa (mas ainda quando, em muitos casos, ou se despedem todos ou não se consegue despedir nenhum, mesmo que a empresa afunde).
O Governo fala de "contribuintes cumpridores" e não perdoa um dia de atraso no recebimento de impostos ou contribuições para a SS. Mas devolver IVA não é com ele e quem o pede ainda se arrisca a ser inspeccionado pelas finanças porque - suponho - se tem lucro e a empresa é pequena, deve estar a fugir ao fisco (se for grande isso não se põe, obviamente).
Custa, custo muito a "prisão" de ter uma empresa, de não se poder pura e simplesmente mandar tudo às malvas - porque temos pessoas que dependem de nós, porque a empresa é uma parte forte de nós, porque, se calhar, até já é um legado familiar. Tem de se aguentar, de lutar dia-a-dia contra o desânimo, contra o Estado, contra alguns clientes que de honestos têm pouco (mas nada lhes acontece), contra os senhores sindicalistas (e os senhores políticos na televisão) a falarem do que não sabem, do que nunca viram ou do que já esqueceram - esses sim bem resguardados das agruras da vida.»

 

Do nosso leitor Carlos Duarte. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

 

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O fetichista

por Teresa Ribeiro, em 30.06.13

Era já um vício. Todos os dias gastava umas horas a espiá-las, procurando adivinhar através do que escreviam os seus traços de personalidade e potencial intelectual. Depois entrava no jogo ainda mais arriscado de lhes atribuir formas e traços fisionómicos sugestionado pela construção frásica, agilidade narrativa, enfim pelas características formais dos textos que lia. Quando um trecho o enfeitiçava deixava-se sempre tomar pela convicção de que a autora só podia ser linda. Pernas longas e bem  torneadas como a sua escrita, o rosto iluminando-se como a mais bela das frases intercalares entre o corpo e a alma.

Os seus dotes de comunicador facilitavam-lhe a abordagem elegante, com perfeita noção dos timings. Era sempre épica a fase em que as seduzia numa valsa progressiva que o arrebatava também. Entregue às mais requintadas fantasias nunca apressava o desfecho, que sabia fatal. Invariavelmente em passos curtos eram elas que acabavam a descer do pedestal com impertinências, sugestões de encontros e por fim ultimatos.

Cheias de pressa de tocar o chão, as princesas eram então descartadas em esplanadas e miradouros, generosamente enquadradas pela sua estética exigente. Nem sempre cedia à tentação de as ir espreitar, não fosse deparar com figuras sem estilo, cheias de erros de métrica no peito e nas pernas.

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Cenas favoritas de filmes (4)

por José Navarro de Andrade, em 30.06.13

 

Pelo menos desde que em 1588 ofereceram a El Greco uma parede da igreja de São Tomé de Toledo e ele a preencheu com o céu e a terra, ligados pela morte e o milagre, até aos murais de Diego Rivera, que os pintores, só os mais confiantes, ousam representar o universo inteiro de modo que possa caber num olhar. Isto dito sem ver, parece mentira ou insensata vaidade, mas ponham-se diante do que eles fizeram e digam que não sentem a arte de pôr o mundo na palma da mão.

No cinema não cabem tamanhas enormidades. Pela sua natureza o cinema está condicionado ao movimento, mesmo que se dedique a inventar as suas realidades. E porque no cinema movimento e realidade são a mesma coisa, ambos cosidos pela narrativa, a ele é impossível uma imagem total que nós possamos pôr em ação com o simples poder do nosso olhar.

A isto não se conformou o perverso Hitchcock. De tal modo que decidiu a propósito de um nada da intriga de "North By Northwest" (Intriga Internacional") passar do cosmos ao caos como se fosse um deus a reinventar o big bang primordial. O resultado foi talvez a mais lógica e delirante sequência de toda a arte do cinema.

 

PS - infelizmente não há como inserir este excerto de "North By Northwest" senão através do link:

http://fliiby.com/file/690838/q1fy0ev36p.html

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A palavra a Mário Soares

por Rui Rocha, em 30.06.13

Mário Soares declarou-se durante a recente visita de Dilma Rousseff a Portugal “excelentemente impressionado” com a Presidente do Brasil. Afirmou ainda: “somos camaradas, ambos de esquerda, tem um pensamento muito claro sobre o que se está a passar”. Esperemos que durante a profícua reunião, Mário Soares tenha tido tempo de esclarecer Dilma sobre o seu entendimento relativamente às condições de continuidade no poder de titulares de cargos políticos legitimamente eleitos. Recorde-se que Soares tem defendido reiteradamente que um governo contestado nas ruas e impossibilitado de comparecer em locais públicos sem que se gerem protestos, perde legitimidade para permanecer em funções. Pois bem, é altura de Mário Soares se pronunciar. Uma queda de 35% nas sondagens e a decisão de última hora de não estar presente na final da Confederações para evitar uma vaia monumental parecem ser, de acordo com a doutrina Soares, motivos suficientes para Dilma dar lugar ao próximo.

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a coisa de se ser de outra maneira

por Patrícia Reis, em 30.06.13

Nem todas as mães devem sentir isto.

Digo eu.

Será preciso definir o "isto".

Não sei o começo ou o fim, mas algures, num tempo que não se controla, os filhos surpreendem-nos por serem gente que desconhecemos.

Podemos estar numa situação social, num momento mais frágil, de doença, podemos até estar irritados. Os filhos chegam e desvalorizam. Ou desviam a conversa e percebemos, nesse instante, que a nossa importância é relativa, que se espera um certo recato, que uma mãe não usa o vernáculo como sempre usou - hábito de jornais, outros tempos - pois agora não fica bem.

Se eu fosse uma mãe como muitas que conheço dava um safanão, um raspanete, ficava ofendida, indignada. No meu caso, mando-os à merda para ver se percebem que minha vida existe para lá da deles. Ficam, é evidente, amachucados, não é suposto, uma mãe deveria ser outra coisa, um ser composto (e sem mudanças de grande monta), formatada, calada, sem opiniões sérias e fomentadas, preferencialmente uma mãe deveria cultivar,  a partir de certo momento, uma invisibilidade qualquer para que os infantes, ou infantas, possam crescer na tranquilidade de não terem de dizer:

 

- Ah, pois, é a minha mãe.

 

O azar dos meus filhos é que eu não tenho jeito para o invisível, mesmo quando me esforço muito e, acreditem, há dias em que faço de papel de parede. Depois regresso e vem tudo ao de cima.

Afinal, como a minha mãe sempre disse, sou inconveniente. Não me parece que vá mudar.

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Blogue da Semana

por Ana Lima, em 30.06.13

O ano passado deixou-nos tristes quando anunciou que, porque o tempo nunca chega, o blogue iria fechar.

Para felicidade nossa tratou-se apenas de uma interrupção e podemos contar novamente com os seus textos que gosto sempre de ler e nos quais aprendemos sempre algo de novo (mesmo que o soubéssemos já).

O “Patrão da Barca” é  J. Rentes de Carvalho. Tempo Contado é o blogue desta semana.

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Coisas da canalha

por Gui Abreu de Lima, em 30.06.13

Um Mefistófeles dentro de casa. 13 anos, a anunciar que não vai mais à missa. "Deixa-te disso", disse a mãe, "enquanto viveres debaixo do meu tecto fazes o que eu mando", lembrou o pai. Conseguiu um acordo - passaria a ir à das seis e meia e dispensavam-no da do meio-dia, na Misericórdia, com aquele errante final social.

Da Matriz ao campo da bola era uma certa distância e ainda que com tempos sobrepostos, valia toda a diferença.

Junto e atacado, só levou uma. No meio da estrada, depois do som da travagem no areão da berma, viu-lhe os olhos faiscar. – Foste à missa? Nem falou. Ao primeiro biqueiro concluiu que chegara o dia. Da coça.

Hoje, quando derrapa por si adentro e a poeira se levanta, é um camelo direitinho a casa. Percorre o seu deserto e frente a santinhos de pau com olhares de troça, deixa correr o pranto. Mefistófeles apeia-se nas igrejas.

 

Foto: Gui Mohallem

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As canções do século (1277)

por Pedro Correia, em 30.06.13

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Um livro todos os dias

por Pedro Correia, em 29.06.13

A pedido de alguns leitores, lanço aqui uma nova série a partir de segunda-feira. Sugerindo um livro por dia até ao fim do ano. Como já tinha feito em 2012, por ocasião das feiras do livro de Lisboa e Porto - iniciativa que retomei em Maio e Junho de 2013, enquanto durou a Feira do Livro de Lisboa (a do Porto, lamentavelmente, não se realizou este ano, o que revela muito sobre a indigência cultural dos gestores políticos da cidade).

Antes que alguém me faça a pergunta, fica desde já prestado o esclarecimento: todas as obras recomendadas - dos mais diversos autores, géneros e estilos - terão uma característica comum. Essa mesmo, que já adivinharam: são escritas na grafia pré-acordista - a que continua a ser seguida pela larga maioria dos portugueses, incluindo alguns dos mentores políticos do acordês, a quem devia aplicar-se a regra de São Tomás, mas invertida: não faças o que ele diz, faz o que ele faz.

E ninguém diga que não compra livros por rejeitar as aberrações ortográficas plasmadas no convénio pseudo-académico de 1990: são inúmeras as obras que continuam a ser editadas em Portugal segundo a norma pré-acordística. Como procurarei demonstrar também, dia a dia, com as sugestões que aqui deixar.

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Dez anos sem Katharine Hepburn

por Pedro Correia, em 29.06.13

 

1907-2003

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Fotografias tiradas por aí (148)

por José António Abreu, em 29.06.13

Flåm, Noruega, 2013.

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.06.13

 

«Uma pessoa é sempre inocente quando ama, porque regressa sempre à mesma idade emocional, à porta da eterna adolescência. Pura e formosa fui porque desejei e me desejaram. O amor é uma mentira, mas funciona

Rosa Montero, Amantes e Inimigos

Editorial Presença, Lisboa, 1999. Tradução: Maria Bragança

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As canções do século (1276)

por Pedro Correia, em 29.06.13

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a tal da greve

por Patrícia Reis, em 28.06.13

A questão é a de saber se fiz greve. Perguntaram-me várias vezes.

Dá-me vontade de sorrir e pouco mais.

Explico: há quase 17 anos que tenho uma empresa, nunca deixei de pagar subsídios de férias, os empregados têm sete semanas para gozar e, em caso de gravidez, seis meses em casa pagos pela empresa e depois, conforme a lei, têm mais seis meses para sair cedo e entrar mais tarde.

Não têm horário, portanto se ligarem para lá às nove da manhã, o mais certo é estar deserto.

Se ligarem às nove da noite, a conversa talvez seja outra.

Temos frigorífico e partilhamos refeições.

Mesmo os que estão a recibo verde têm direito a subsídio de férias e de natal. Nunca fugi ao fisco. Nunca deixei de pagar nada. Não tenho uma dívida, é certo que também não tenho uma fortuna sorridente à minha espera. Vivo sem qualquer tranquilidade, sem conseguir projectar o que estaremos a fazer. Às vezes, não sabemos o que vamos fazer no dia seguinte.

Bato às portas, vou a concursos, faço relações públicas (sou péssima!) e não posso dizer que faça de comercial por não ter jeito e nunca ter contratado ninguém dessa área. Posso dizer que os clientes que temos ficam connosco. Sabem que não falhamos, mesmo que as horas de sono sejam poucas. Sabem que os nossos orçamento são um quarto dos orçamentos de outros ateliers, de agências de comunicação, de publicidade, etc e tal.

Sabem que não chegamos atrasados e que, apesar do contrato com Nossa Senhora (ela não faz design, nós não fazemos milagres), temos tido sorte e levado a carta a Garcia.

Durante quase 13 anos tivemos a revista mais premiada da Europa, a Egoísta, mas a quantidade de coisas que já fizemos é brutal e é um orgulho imenso. Quero lá saber da lei se calha a ter de despedir alguém: dou o que posso, dou para lá da lei se for o caso e possível, dou computador e, até já aconteceu, voltar a contratar a mesma pessoa.

Portanto, não. Não fiz greve.

Porque não tenho um patrão, só o meu rosto do outro lado do espelho e conheço uma quantidade de gente que se queixa, que se queixa muito mas que não vejo trabalhar. Sim, há uma diferença enorme entre trabalhar e ter um emprego.

E não, não tenho fins-de-semana e 21 dias de férias, tenho o que posso, quando posso e muitas vezes sem subsídio.

Optei por ter uma empresa por causa dos horários flexíveis, para educar os meus filhos de outra forma.

Agora estão grandes, a crise é mais que muita e eu trabalho que nem uma louca. Há coisas que me dão imenso gozo, outras são uma grande seca. Fazer greve não posso. O que posso dizer é  estão à vontade para perguntar às três pessoas que trabalham comigo se, por mero acaso, querem ir para outro lado. Por favor, perguntem. Eu já sei a resposta. E não, não fizeram greve.

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Um desastre anunciado.

por Luís Menezes Leitão, em 28.06.13

 

Sempre achei que a restrição da lei de limitação de mandatos era relativa à função e não ao território. Mas, mesmo que esta interpretação seja contestável, perante uma lei duvidosa a atitude mais prudente é considerar que vai vigorar a interpretação da lei mais contrária aos nossos interesses. É uma atitude que os práticos do direito costumam chamar de "jurisprudência das cautelas". Infelizmente o PSD não quis seguir essa prudência elementar e decidiu embarcar na aventura de candidatar às principais autarquias do país pessoas que se arriscavam a ver a sua candidatura rejeitada pelos Tribunais. Como seria de esperar, alguns Tribunais rejeitaram essas candidaturas, e declararam em providências cautelares Fernando Seara e Luís Filipe Menezes impedidos de concorrer. Esses autarcas, no entanto, insistiram em manter as suas campanhas, confiando que o Tribunal Constitucional os viesse salvar, posição que aliás alguns Tribunais também defenderam, considerando-se incompetentes para julgar a questão e remetendo a decisão para o Tribunal Constitucional.

 

Só que o Tribunal Constitucional acaba de lançar um balde de água fria sobre esta posição. Uma vez que não está em causa uma questão de constitucionalidade, mas de mera interpretação de uma lei, acaba de se declarar incompetente para decidir sobre o assunto, rejeitando o recurso que foi interposto. Fernando Seara e Luís Filipe Menezes perdem assim a esperança de ver revogadas as providências cautelares que os abrangeram e vêem as suas candidaturas naufragar ainda antes de se terem iniciado. Quanto aos outros candidatos, mesmo que não sejam abrangidos por providências, correm o risco de verem as suas candidaturas rejeitadas aquando da sua apresentação, podendo qualquer Tribunal decidir como entender, já que o Tribunal Constitucional não irá uniformizar a questão.

 

Tudo isto era mais que previsível e foi previsto pelo PS que, perante uma lei dúbia, não recandidatou nenhum autarca nessas condições. Continuo sem perceber que teimosia levou o PSD a embarcar numa aventura de que sairia sempre mal. Será mais importante atender aos interesses de recandidatura dos dinossauros autárquicos ou aos interesses de todo o partido em vencer as eleições autárquicas?

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Ler

por Pedro Correia, em 28.06.13

O Brasil está a despertar? Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.

Brasil, o princípio do fim do embuste. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.

A biblioteca mais bela do mundo (neste momento). Do José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel.

Matar, matar. De Filipe Nunes Vicente, no Declínio e Queda.

Um forte entre fracos. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

É necessário um novo partido à esquerda? (2) Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

Geografias. De Luís Serpa, no Don Vivo.

Homo lagartus (Lineu). Do João Paulo Palha, no És a nossa Fé.

 

(actualizado)

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Como se os algozes fossem vítimas

por Pedro Correia, em 28.06.13

Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu recentemente em Portugal.

Como já previa, não tardaram os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

Também aqui

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Resistência activa ao aborto ortográfico (90)

por Pedro Correia, em 28.06.13

 

Quinzenário Imediato, de Paços de Ferreira

 

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 28.06.13

 

Celia Freijeiro

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como tantos casais

por Patrícia Reis, em 28.06.13

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As canções do século (1275)

por Pedro Correia, em 28.06.13

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Então, o homem

por Patrícia Reis, em 27.06.13

Então, o homem, no café, cigarro pronto para ser aceso, lá fora, disse-me

 

- Sabe, a menina, não posso aderir à greve. Votei nestes gajos. Tem de existir uma certa coerência.

 

E eu, muito rápida, muito parva:

 

- Acha que sim? Pois, eu sei sempre achei que coerente uma vida inteira é um acto de estupidez, temos o direito a mudar de ideias.

 

O homem olhou-me. Calado. Depois sorriu, ou pareceu-me ver um qualquer sorriso, e saiu.

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Cenas favoritas de filmes (3)

por José Gomes André, em 27.06.13

American Beauty ("Beleza Americana"), de Sam Mendes (1999)

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Parabéns Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 27.06.13

 

O júri do Prémio Morgado de Mateus 2013, constituído por Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva e Nuno Júdice, atribuiu o prémio, por unanimidade, a Vasco Graça Moura, pelo conjunto da sua obra.

 

O Prémio Morgado de Mateus foi instituído em 1980, ano em que foi atribuído ex-aequo a Miguel Torga e Carlos Drummond de Andrade, e não voltou a ser entregue até agora.

 

A sessão solene de entrega do prémio terá lugar na Casa de Mateus, no dia 21 de setembro de 2013, pelas 18.30.


«"Não contava, de todo, com o prémio, mas é muito gratificante", disse o autor, referindo que teve uma longa ligação à Fundação Casa de Mateus e [que] este prémio é uma espécie de "chave de ouro" a encerrar essa relação»

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Michelle, ma belle

por Pedro Correia, em 27.06.13

 

Michelle Larcher de Brito (131ª na tabela das melhores tenistas mundiais) derrota Maria Sharapova (terceira na mesma tabela) em Wimbledon

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Questões democráticas e jurídicas

por João André, em 27.06.13

Antes de mais o meu aviso: entendo que os casamentos entre pessoas do mesmo sexo devem ser tratados exactamente da mesma forma que os casamentos entre pessoas de sexo oposto. Motivos para isto podem ser discutidos noutra altura. Neste momento quero apenas levantar uma questão em relação à decisão do Supremo Tribunal dos EUA.

 

Ora se bem entendo, o Supremo Tribunal declarou que, nos estados onde o casamento homossexual já existe, é inconstitucional remover esse direito. A decisão, mais uma vez de acordo com o que entendi, não declara o casamento homossexual como legal a nível federal, antes devolve qualquer decisão sobre o mesmo aos órgãos legislativos estaduais.

 

Aquilo que me faz confusão é o facto de o Supremo tribunal declarar que uma decisão na direcção de aceitar o casamento homossexual já não é reversível, mesmo que seja essa a vontade dos eleitores (como no caso da Proposta 8 na Califórnia). Pelo que entendo, a Constituição é um documento tão poderoso no sistema legal americano que se sobrepõe (desde que os seus guardiões - o Supremo tribunal - assim o entendam) a qualquer vontade democrática.

 

Longe de mim querer que o casamento homossexual deixe de ser legal, mas por outro lado preocupa-me (pouco, mas ainda assim alguma coisa) que a principal democracia do mundo tenha um texto por tão sagrado que se sobrepõe ao sistema político que consagra. Alguém é capaz de me explicar esta - aparente para mim - contradição?

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Pouco afeiçoado à tômbola das novidades, são muitas as vezes que melhor defino os meus gostos pelo que deliberadamente não estou a ler. O método, sendo um bocado cáustico, tem a enorme vantagem de reduzir ao mínimo as desilusões e dar sempre por bem empregue o dinheiro e o tempo despendido nas leituras selecionadas.

Bem podem os livros hibernarem anos na estante após a pulsão urgente da compra até ao dia em que misteriosos impulsos tornem a sua leitura imprescindível. Foi assim com “Tirano Banderas” comprado numa qualquer passagem por Badajoz e por motivos que as motivações esquecem (honni soit qui mal y pense) só convocado ao activo no princípio deste ano.

Já lido, apreciado e imaginado, que são estas as fases por que passam os livros, traz-se a obra-prima de Ramón del Valle-Inclán à colação porque a sua leitura inspirou prolongamento por “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias que hoje repousa na mesa de cabeceira durante o dia para à noite despertar quando lhe pego. É muito mais divertido os livros sucederem-se na órbitra uns do outros, este a pedir aquele e assim sucessivamente de universo em universo até sentir-se que é altura de mudar de viagem.

O picaresco da edad de oro, o castelhano adocicado e feroz do México e o ritmo truculento da modernidade daqueles épicos anos 20, convertem “Tirano Banderas” numa obra-prima do seu tempo, ou seja, sem uma ruga se lido hoje. É um livro faiscante em que os crioulismos disputam cada parágrafo ao finíssimo léxico clássico, e onde não há página em que não palpite o sangue, o suor e a canícula. Tais elementos são o combustível para a crueldade da narrativa e das personagens, às quais se equivale a escrita cruel de Valle-Inclán.

Publicado em 1926, “Tirano Banderas” foi lido pelo guatemalteco Asturias tinha ele 37 anos, já bem temperados pela luta política, cuja aventura mais trepidante fora a participação no derrube do tirano Manuel Estrada Cabreba. Que a obra de Valle-Inclán haja influenciado a inspiração de Ángel Asturias é um facto palpável quando se lêem ambos os livros de enfiada. Mal sabiam eles, infundidos na esperança típica dos escritores, que a Espanha estava a caminho de décadas "de sofrimento e que a Guatemala dele ainda não se tenha libertado, mesmo já século XXI adentro.

"El Señor Presidente foi escrito em 1933 mas ficou prudentemente guardado numa gaveta até 1946; o autor sabia bem as labaredas e os problemas que chamejavam daquelas páginas. Às rutilantes características da obra de Valle-Inclán, Asturias acrescentou uma elaboração narrativa pejada de acidentes verbais e linguísticos que há quem chame de surrealistas, mas entre nós basta dizê-los vigorosos, porque o amor à língua, não a tomando como um instrumento mas como um mármore escultórico, deveria ser a razão primeira que faz de alguém um escritor.

Se cada uma destas obras isoladamente refulge um brilho intenso, assim concatenadas como foram lidas, parece que nada fica por dizer da malvadez dos tiranos, da sabuja concupiscência dos seus acólitos, da amoralidade que inspiram na oposição e da violenta desesperança que derramam nas sociedades.

Na grave e ensimesmada literatura portuguesa do século XX, abarrotada de Dantas, Torgas, Namoras e quejandos urbano-telurismos, nenhuma obra ousou aproximar-se da vitalidade efusiva de “Tirano Banderas” e de “El Señor Presidente”; assim de longe talvez só “Dinossauro Excelentíssimo” de Cardoso Pires possa sugerir semelhante animação.

 

Passa ao outro e não ao mesmo, não é JPT?

 

 

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A derrota em toda a linha de Nuno Crato abre pistas de interpretação do futuro próximo. Se alguma dúvida houvesse, estão identificados os alvos prioritários do ajustamento no sector público: os pensionistas e os contratados a prazo. As razões são simples. Os pensionistas não têm estruturas representativas enraizadas na sociedade, não podem fazer greve e não atiram pedras em manifestações. Os contratados a prazo são a última das preocupações na agenda dos sindicatos e serviram, na educação mas também em outros sectores, de moeda de troca sistemática das reivindicações sindicais, ficando sempre a perder. Estava escrito que um governo politicamente inepto como o de Passos Coelho acabaria mais cedo ou mais tarde por direccionar-se para os que não lhe podem fazer frente. E estava escrito que no final ganhariam (ou perderiam menos) os que têm como objectivo final a defesa dos direitos adquiridos. Dos interesses dos insiders sobre os dos outsiders. Neste contexto, não servem as explicações da realidade que recorrem à luta de classes. Está na hora de darmos as boas-vindas aos tempos da luta de gerações sendo que, ao que parece, esta tem um vencedor anunciado. A greve geral de hoje é apenas mais um episódio deste tempo histórico.

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Resistência activa ao aborto ortográfico (89)

por Pedro Correia, em 27.06.13

 

Quinzenário AuriNegra, de Coimbra

 

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Parte do problema

por José Gomes André, em 27.06.13

Enquanto largos sectores do Partido Socialista continuarem a achar que "o PEC IV teria evitado o resgate", o PS faz parte do problema, e não da solução.

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As canções do século (1274)

por Pedro Correia, em 27.06.13

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Mandaram o tipo à África do Sul, é jornalista. À porta do hospital onde Mandela agoniza diz o tal jornalista português que se coloca a possibilidade de se terminar o apoio artificial, tecnológico, à vida do velho líder. Mas tomar essa decisão enfrenta um problema, diz-nos, com ar semi-pesaroso semi-analítico. E explicita o tal problema, como se pedindo a nossa compreensão para aquele peculiar contexto cultural, quiçá muito africano: é que na "tribo" de Mandela só se pode fazer isso, cessar o apoio artificial à sobrevivência, a pedido do próprio. Ora como Mandela está (já) impedido de o fazer só resta uma solução. Que a família tome essa decisão.

 

Ocorre-me que na minha "tribo" também é assim.

 

Não sei quais serão as regras, morais e legais, para estes casos lá na "tribo" do energúmeno jornalista. Nem os da "tribo" (selvagem, canibal, ágrafa decerto) dos seus  espectadores, consumidores dos seus anunciantes.

 

Que "tribo" de gente.

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Esta mulher

por Patrícia Reis, em 26.06.13

Na cadeira verde está uma mulher que faz parte da banda sonora da minha vida, de quem sei algumas coisas, agora mais, que me faz rir e chorar. Tem o dobro do sangue dos outros, sim. E perto dela a vida corre mais depressa ou mais devagar, não sei dizer. Sei que as palavras correm, atropelam-se, as histórias entram umas nas outras e, de repente, eu podia estar nas tábuas de um palco, eu que morro de medo dessas coisas, de mão dada com esta mulher podia ir onde fosse, podia mesmo ao fundo do poço, ali onde ela tem o seu lugar e sabe como sair. Há momentos de privilégio na vida. Hoje tive mais umas horas que ninguém me pode roubar, aprendi, ri e quase chorei. Quem me move desta forma? Simone de Oliveira.

 

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 26.06.13

«Os animais também sentem os efeitos do calor.»

Há pouco, no Jornal da Tarde, da SIC

 

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Resistência activa ao aborto ortográfico (88)

por Pedro Correia, em 26.06.13

 

Semanário Terras da Beira, da Guarda

 

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"Now is the time"

por jpt, em 26.06.13

 

(Apesar de já ter sido criticado por colocar postais longos aqui boto um texto antigo, lembrando época ainda mais recuada. Colocado no ma-schamba para este tão especial conturbado 25 de Junho, dia da independência de Moçambique. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

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As canções do século (1273)

por Pedro Correia, em 26.06.13

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Resistência activa ao aborto ortográfico (87)

por Pedro Correia, em 25.06.13

 

Semanário Jornal da Beira, de Viseu

 

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Um sucesso esta política.

por Luís Menezes Leitão, em 25.06.13

 

Juros da dívida portuguesa perto de 7%.

 

Gaspar admite défice acima dos 10% no primeiro trimestre.

 

Quantas mais derrapagens serão necessárias para que se mande embora de vez Vítor Gaspar? Ou vai-se continuar a defender que a culpa é do mau tempo?

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"Gorduras do Estado" (79)

por Pedro Correia, em 25.06.13

Portimão. Município gastou 2,5 milhões a modernizar estádio

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Cenas favoritas de filmes (2)

por Leonor Barros, em 25.06.13

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Parabéns!

por Ana Vidal, em 25.06.13

 

Ao nosso charmoso Zé Maria, que faz hoje anos.

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Leituras

por Pedro Correia, em 25.06.13

 

«A mim sempre me ensinaram a aceitar todos os convites; se são de boa vontade, é um gosto que fazemos a quem convida; se são de má vontade, é bem feito para quem os faz.»

Henrique Monteiro, Papel Pardo

Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009

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As canções do século (1272)

por Pedro Correia, em 25.06.13

 

Dedicada ao José Maria Gui Pimentel

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Puttin’on the Ritz

por Patrícia Reis, em 24.06.13


Dedicatória: para a minha mãe

 

Epígrafe: Puttin’on the Ritz

Have you seen the well-to-do

Up and down Park Avenue

On that famous thoroughfare

With their noses in the air

 

High hats and narrow collars

White spats and lots of dollars

Spending every dime

For a wonderful time

 

Now, if you're blue

And you don't know where to go to

Why don't you go where fashion sits

Puttin' on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin' on the Ritz

 

Dressed up like a million dollar trooper

Trying hard to look like Gary Cooper

Super-duper

 

Come, let's mix where Rockefellers

Walk with sticks or "umberellas"

In their mitts

Puttin' on the Ritz

 

 

Sempre pintei ao som do fado. Não por causa da música, mas pelos poemas, palavras que se casam com um sabedoria até aí desconhecida. Prefiro os homens no fado; gosto de tentar igualar a fraqueza da minha voz com a voz deles. Os homens que cantam o fado em Portugal encenam-se menos que as mulheres, preservam uma certa ingenuidade. As mulheres seguem as pisadas de Amália Rodrigues e, afinal, é por ela que aqui estou. Quarto 113 do Ritz de Lisboa.

Subi do deserto melancólico e quase vazio do interior alentejano para imitar a grande diva. Pareceu-me a coisa acertada. Vi aquele documentário sobre ela, uma coisa bem feita, ela já de cabelo aloirado, com rugas, as mãos dançando acompanhadas pelas unhas pintadas de vermelho... é impossível de pintar a dança. A dança, seja ela qual for, é secreta e íntima, não se reproduz. Vi, ao longo da vida, muitas fotografias de bailarinos. Não mostram a dança. Ficamos presos na ideia do corpo, dos músculos, daquele corpo igual ao nosso que pode ir mais. Da delicadeza de movimentos. Ir mais longe. Fazer o impossível. Nunca pintei a dança. Pinto mulheres e homens, pinto a terra e a desolação. Os críticos chamam-me original. Suponho que seja um elogio, ou que deva ser encarado como um elogio. Original num século XXI tão estafado de imagens e ideias é qualquer coisa, todavia não me comove. Não consigo encher-me de mim. Amália, agitando as mãos, diz, no tal documentário, que nunca foi feliz, apesar de tudo o que Deus lhe deu. A mim, Deus deu-me a minha mãe, ela que trabalhou e trabalha para nos obrigar a fazer o nosso caminho.

Trabalha, Maria, trabalha que vais lá chegar. Cada um tem o seu caminho, terás de construir o teu.

Quando lhe disse que queria seguir Artes, a minha mãe nem pestanejou, arrastou todas as suas posses até Lisboa. Eu tinha quinze anos. Fiquei num quarto para os lados de Campo de Ourique, casa de uma senhora viúva, americana,  uma designer de jóias chamada Nora. Aprendi a amar o fado com Nora e descobri Lisboa pelas mãos de uma estrangeira. Talvez por isso ela quisesse ir aos sítios onde os lisboetas não vão. Eu seguia-a aos fins de semana. Conheço todos os miradouros da cidade. Sei histórias de santos e de mártires que ninguém ensina na escola. Uma tarde, seguimos até junto à Pascoal de Melo para espreitar a fachada mais estreita da Europa na rua Aquiles Monteverde, número 16. Ficámos ali apenas a ver por uns momentos. Sentámo-nos depois no jardim e Nora reparou nos miúdos e nas brincadeiras. Foi um bom dia.

Durante a semana estava na escola. Desenhava, moldava, experimentava.  Não estava numa fase de rebelião, como tantos colegas meus. Não pintei o cabelo de roxo, não me interessava a moda dos góticos ou dos outros. As minhas mãos eram o reflexo exacto do que fazia. Todas as noites as limpava – e continuo com esse ritual diário -  com cuidado; todos os vestígios de tinta que se imprimem no meu corpo desaparecem por umas horas e depois voltam a instalar-se. A pinta sempre foi a minha moda.

A minha mãe telefonava pelas sete da tarde. Fazíamos o relato completo das actividades. Ouvia-lhe o riso miudinho, a dizer que sim, que era engraçado, que tinha razão sobre qualquer questão banal, a contar a última asneira do Zé da Chica e outras familiaridades. Todos os meses, eu mandava para casa uma carta com desenhos de Lisboa, de Nora, do Jardim da Parada, da vista do Tejo perto da escola. Até hoje, a minha mãe guarda esses envelopes.

Depois entrei no Conservatório. Ganhei uma bolsa de estudo. Mantive-me com Nora que, por essa altura, já começava a dar sinais de instabilidade. Os papéis inverteram-se. Comecei a colocar post it amarelos pela casa a identificar as coisas:

fogão, desligar

limpar a ferida

tirar a roupa do estendal

Fazer a cama

Abrir o correio

 

Coisas assim. Nora seguia-me. Baralhava as coisas, datas e acontecimentos. Guardava, contudo, memórias extraordinárias da América e eu fui tomando notas à minha maneira: desenhava para ela.

­Era assim?

Não, não, a rua tinha mais pessoas e ali havia uma loja de antiguidades. Preciosa. Era quase um segredo. Era preciso tocar num botão para entrarmos. Nunca comprei nada, claro, não havia dinheiro para isso, mas adorava ir ver.

 Que idade tinha, Nora?

 Uns dezassete? Sim, talvez.

 E desenhava jóias com essa idade?

 Sim, mas isso foi tudo antes do Bill e do casamento.

Era muito nova.

 Nunca somos demasiado novos, Maria. Não estamos é atentos como deveríamos estar. Demoramos a cá chegar.

Depois encostava-se ao cadeirão de orelhas e ficava a ouvir Carlos do Carmo, Pedro Moutinho, Marco Rodrigues, Camané, António Zambujo. Por vezes, na cozinha cantarolava o “Fado do Estudante”, imitando o Vasco Santana, e dizia que era em minha honra. Ríamos do sotaque dela, da pose, da almofada que enfiava debaixo da camisola para se fazer barriguda como o Vasquinho amaldiçoado pela “da franja”.

 

 

Quando é cantado e a rigor

Bem afinado e com fulgor

É belo o Fado, ninguém há quem lhe resista

É a canção mais popular, toda a emoção faz-nos vibrar

Eis a razão de ser Doutor e ser Fadista

 

Ríamos com tanta facilidade que não chegámos a entender que estávamos a viver os melhores momentos de todos. Aprendi tanto com ela, mas isso já disse, não é? Repetir as coisas é uma forma de viver, também isso aprendi com a Nora e, decerto, com a minha mãe, sempre a dizer as mesmas coisas.

Tem cuidado contigo. Não te canses. Faz o teu melhor, não precisas de ser a melhor e nunca faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

A minha mãe. Nora. A minha orientadora de tese, Inês, uma mulher que dobrava a pedra e o ferro com astúcia e violência, contra o mundo conformado, contra os preconceitos. Só existem mulheres fortes na minha vida, mulheres que tanto admiro, e que agora, quem sabe?, vou desiludir. Mas ainda cedo. O quarto tem a luz de fim de dia de Lisboa. Ando descalça e os pés pisam a alcatifa mole quase amorosamente. Cheguei ontem. Fui à minha mãe, como se diz, fiquei por lá uns dias e regressei. A casa de Nora já não existe, claro; ela está nos Estados Unidos há uns anos.

Deve ter sido uma coisa assim: a filha telefonou uma vez e achou que Nora estava confusa; telefonou mais vezes e meteu-se num avião. Num americano anasalado, repetidamente invocando o Senhor num “Ó my God”, a filha rica levou a mãe para casa. Nora estava com princípio de Alzeihmer. Eu sabia e não sabia. Fiquei órfã de Nora e das suas histórias. Nesse ano, desenhei tudo o que consegui lembrar-me da vida daquele mulher pequena que me acolheu. Aluguei um quarto e enfiei o que tinha debaixo da cama alta de ferro preto. Não era uma cama como esta, nada disso. Era uma cama que rangia com vida própria.

Acabei a escola e uns coleccionadores estimados no meio competitivo das artes compraram as peças que exibi no fim de curso. Fiquei, pareceu-me então, rica. Mandei dinheiro à minha mãe que, diligente, voltou a colocar a mesma quantia na minha conta bancária.

Ó mãe, mas isso era preciso?

É dinheiro do teu trabalho, Maria. Nem penses. Eu estou bem.

Aluguei uma casa e deixei a cama que rangia. Para não correr riscos, coloquei o colchão no chão e, com um certo desprezo, decidi que não precisava de móveis. Ainda que me lembro da cara da minha mãe quando me visitou a primeira vez.

 

Então, mas tu vives assim? Sem cama, sem cortinados, sem tapetes...

Não preciso nada disso, basta-me o estirador e boa luz, mãe.

Se tu dizes.

Não me lembro de uma zanga entre as duas. A minha mãe deixa as coisas fluírem, tem essa sabedoria, mesmo agora que já não é nova. Demonstra um certo orgulho no meu percurso, faz recortes de jornais desde que comecei a expor e, quando fui a Madrid pela primeira vez, decidi levá-la: ela com tanto medo de multidões, ela sem perceber o que os espanhóis diziam; parecia um papel de parede, uma mulher na meia idade a sorrir por causa da filha.  Nunca senti tanta ternura por ela como nesse momento. Portugal era um dos países tema de um certame importante. O escritor alentejano, José Luís Peixoto, um homem bonito ornamentado de tatuagens e piercings, numa noite de jantar e alguma formalidade, disse, maravilhosamente, o poema “Cinco à Mesa”. A minha mãe abandonou a sala a chorar.

Foi a única vez que a vi chorar.

Agora, a imagem dela à soleira da porta — eu a entrar no carro com sacos de bolo pobre feito com aguardente e mel, com pão fresco e queijo — está presa a tudo. Não sei o que faço aqui, mãe. Podia ter ido para casa. Mas não, está lá o Miguel e, por isso, não posso, seria como ir à guerra.  O Ritz era um sonho antigo.

Quando for rica vou dormir para o Ritz.

Disse-o muitas vezes, em tom de brincadeira, sem pensar no que dizia. Imaginava o Ritz como ele é, cheio de histórias e solene, com alcatifa mole no chão dos quartos e camas feitas de forma impecável. Imaginava o Ritz com música de fundo.

Amália dizia que tudo lhe aconteceu por acaso, que foi Deus, mas que também foi a Sorte, já que possuía a coragem para reinventar o fado, de cantar rancheras  e outras coisas, de aceder aos poetas e músicos, de representar nos filmes por mera intuição. Ela a quem nunca ensinaram nada. Eu não posso dizer o mesmo. Talvez tenha uma espécie de talento que me leva ao carvão ou ao óleo; sim, posso ter isso, todavia sou um elo de esforços, pessoas que fizeram caminho uma vida inteira para eu cá chegar. Não tenho um tumor na cabeça nem noutro sítio, tenho-o no coração. Amália fugiu para Nova Iorque para se matar. Era o medo da traição do corpo, desse diagnóstico infeliz. Enfiou-se num hotel, não sei qual, e deduzo que tenha bebido e visto televisão, até que foi salva por Fred Astaire. É ela quem o afirma. Começou a percorrer as lojas todas atrás dos filmes de Fred Astaire. Ficava o dia inteiro sentada a vê-lo dançar. Dançar com Judy Garland, com Audrey Hepburn, com Cid Charisse, com Gene Kelly, com Ginger Rogers, com Bing Crosby.

Consigo imaginá-la com facilidade e essa imaginação leva-me ao desenho. Tenho Lisboa aos meus pés, literalmente, e desenho os passos elegantes de Fred Astaire a cantar “Puttin’ On the Ritz”. Parece-me justo. Já disse que não é possível desenhar a dança? A dança tem uma teimosia, digamos, que não se captura. Trouxe comigo um dos meus filmes preferidos, “Blues Skies” ou “Romance Inacabado” em boa tradução portuguesa. Tenciono vê-lo no computador daqui a pouco. Enquanto isso, penso. Penso e desenho e oiço a Amália na minha cabeça, a “Gaivota”, o “Grito”, a “Estranha Forma de Vida”. Sei os poemas de cor. Sei-os por causa de Nora, ela que os dizia num português emprestado, sibilante e arrastado. Por esta altura, deve estar num lar e não sei se me reconheceria. Por vezes, ligo a Helen, a filha: ela começa logo a dizer coisas de forma estridente e pouco ou nada diz da mãe.

She’s fine, dear. It’s so nice of you to care, but there’s nothing one can do.

Irrita-me a falta de tristeza de Helen.  Talvez eu a tenho pelas duas. Não sei. Consigo ser injusta quando não estou bem. Quando sou assolada por estes pensamentos. Amália foi para Nova Iorque para se matar. Queria que o tumor desaparecesse sem dramatismo. Estava decidida a isso. Não contava, porém, com o poder hipnotizante de Fred Astaire. Um homem magro, com pouca voz, para quem todos os grandes compositores americanos escreveram.

Now, if you're blue

And you don't know where to go to

Why don't you go where fashion sits

Puttin' on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin' on the Ritz

Deixo o bloco em cima da secretária, junto à jarra com flores, corro as cortinas  e deixo-me ficar na cama a fazer de estrela do mar. O corpo tenso, os braços abertos e as pernas abertos. Tenho quase quarenta anos agora. O Miguel está à espera de explicações. É um homem que aprecia a troca de palavras, pode até ser violento, mas sobre isso não falarei. Não sei se consigo voltar para casa. A minha mãe, sempre na soleira da porta, a gritar para dentro do carro em andamento:

O teu quarto está sempre pronto, querida. Volta.

Não tenho forças, mãe. Já não sei o caminho das coisas certas. Não consigo falar do Miguel, é apenas um homem na minha vida. Não me dá paz, nem luz, não se confunde nas minhas tintas. Julga-me e condena-me. Diz coisas absurdas. Odeia o cheiro da água raz, dos pincéis, das telas. Se me soubesse aqui, bem quente no Ritz, escondida do mundo, rir-se-ia com desdém. Tem um absoluto desprezo pelo luxo. Azar o dele.

Vou ficar aqui dentro deste quarto, como num aquário, e tentar dormir. Invocarei a senhora dona Amália, pedir-lhe-ei que me assalte os sonhos e apareça a dançar com Fred Astaire aqui mesmo. Terei um vestido negro e colocarei umas pérolas para os acompanhar na dança majestosa, alcançarei uma graça que nunca possuí.  Serei uma personagem do Ritz. Vou entrar num filme dentro do meu sonho. Depois disso, talvez, possa voltar para casa. Mandarei ao Miguel um desenho a servir de fim de conversa e peço aos anjos para se colocarem na direcção do campo, do Alentejo mais calado e profundo. Pode ser que aí seja, por fim, feliz. Ou, como na canção de Amália, sem secar as minhas lágrimas, vá adormecer cantando baixinho

 

Cheia de penas me deito

E com mais penas me levanto

Já me ficou no meu peito

O jeito de te querer tanto

 

Nota: Amália Rodrigues morreu a 6 de Outubro de 1999.  A expressão "puttin’ on the Ritz," significa “vestir de forma sofisticada” e teve como inspiração o Ritz Hotel em Nova Iorque. Fred Astaire cantou e dançou esta música de Irving Berlin, escrita em 1929, no filme “Romance Inacabado” de 1946.


Este conto faz parte da colecção Divas, que sai no Diário de Notícias, todas as sextas-feiras. Além de uma ficção, o leitor ganha um texto de Rui Vieira Nery e um CD sobre a Diva em questão: já tivemos a Callas, a Amália, a Ella Fitzgerald.

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Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 24.06.13

Para esta semana venho recomendar-vos um blogue de Jorge Lopes de Carvalho, o Manual de Maus Costumes. Como muitos outros autores da lusoblogolândia já teve (e tem) outras empreitadas, mas nada como começar pelo compêndio do dia, certo? Boas leituras!

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Subsídios para call-centers

por João André, em 24.06.13

Leio no Público (via der Terrorist) que Nuno Crato está a pensar em benefícios para as empresas que contratem doutorados. Para um governo que se anuncia liberal, isto é de rir. Para socialistas de cartoon (como imaginados por alguns dos nossos comentadores ultra-liberais), isto seria um sonho. a realidade é mais complicada.

 

José Simões já falou da forma como estes subsídios servirão apenas para continuar a contratar doutorados para trabalhos pouco classificados enquanto que o dinheiro extra vai para o bolso das empresas. Só que isto não advém (apenas) de qualquer ganância corporativa, antes do facto de, independentemente dos subsídios, ninguém no seu perfeito juízo ir contratar uma pessoa com doutoramento quando não há tabalho para lhe dar.

 

As dificuldades ao nível da contratação dos doutorados não é financeira por si. Muitos estariam plenamente satisfeitos em receber os salários do grau abaixo, desde que isso significasse ter algum tipo de trabalho. O problema está entes no facto de as empresas em si não verem qualquer vantagem em ter alguém com doutoramento nos seus quadros. Os doutorados continuam a ser vistos como os tipos de bata branca e óculos que se sentam em bancadas de laboratório o dia inteiro e desenvolvem protectores solares quando lá fora está a chover.

 

Enquanto as empresas não virem aquilo que um doutorado pode trazer, os subsídios de nada adiantarão. Especialmente porque os maiores custos seriam materiais, para o desenvolvimento do trabalho desse doutorado.

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O carburante da extrema-direita.

por Luís Menezes Leitão, em 24.06.13

 

Em 2002, a França entrou em estado de choque quando Jean-Marie Le Pen conseguiu passar à segunda volta das eleições presidenciais, ultrapassando o socialista Leonel Jospin. Todos os partidos democráticos aliaram-se então a Chirac, que foi reeleito com 84% dos votos. Nessa altura, no entanto, Jean-Marie Le Pen não conseguiu mais do que 16% dos votos, só tendo passado à segunda volta em virtude da divisão do campo socialista, que posteriormente passou a ser resolvida com a criação de uma espécie de primárias socialistas nas presidenciais.

 

Ontem, no entanto, a Frente Nacional obteve 47% dos votos numa eleição parcial, só não tendo conseguido a eleição do seu candidato em virtude de todos os outros partidos se unirem contra ela. A França já percebeu, por isso, que nas próximas europeias corre o risco de assistir a uma vitória da Frente Nacional. Para tal contribuem dois factores: Primeiro, a personalidade de Marine Le Pen, bastante mais perigosa do que o seu pai, e que tem feito crescer paulatinamente o seu partido. Em segundo lugar, a incompetência total da Comissão Barroso, cujo liberalismo radical ameaça fazer cair a Europa nos braços do nacionalismo. Tem toda a razão o Ministro francês Arnaud Montebourg quando avisa que Durão Barroso é o carburante da extrema-direita. Efectivamente, a política da Comissão Europeia só tem tido como efeito o crescimento dos partidos nacionalistas e xenófobos em toda a Europa.

 

Só que a irresponsabilidade da Comissão Europeia ameaça virar-se contra si própria. Efectivamente uma das propostas eleitorais de Marine Le Pen é a saída da França do euro. Como o euro não subsistirá sem a França, se a Frente Nacional alguma vez ganhar as eleições, é certo e seguro que o euro acaba e com ele a União Europeia. E Durão Barroso será o principal responsável por este descalabro.

 

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