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Até já mandam a fonética às urtigas

por Pedro Correia, em 31.05.13

 

O leitor pronuncia reCtificativo? Pois eu também. E garanto-lhe que estamos bem acompanhados.

Em Portugal pronuncia-se genericamente assim, tal como acontece noutros países de língua oficial portuguesa.

Pronuncia-se desta forma e escreve-se em conformidade, sem omitir um c tão sonoro. Mas não em todo o lado, como mandariam as boas regras. Lamentavelmente, isso não sucede nas televisões generalistas portuguesas, manietadas pelas absurdas imposições do acordês, que aceitam sem um sussurro de protesto. O "acordo ortográfico" consagra o predomínio do "critério fonético a desfavor do critério etimológico", como reconheceu o professor Malaca Casteleiro, pai desta aberração. Mas alguém se esqueceu de comunicar a novidade aos responsáveis do Portal da Língua Portuguesa, gerido pelo Instituto de Linguística Teórica e Comunicacional, que proíbe a utilização do c em reCtificativo apesar de todos o pronunciarem entre nós, como ainda esta noite se ouviu à hora dos telediários.

Em todos os canais.

O pivô do Jornal da Noite da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho, falou em "orçamento reCtificativo", um dos assuntos do dia. Tal como o pivô do Telejornal da RTP, João Adelino Faria. E a apresentadora do Jornal das 8 da TVI, Judite Sousa.

O mesmo fizeram outros jornalistas que leram notícias ou produziram comentários em estúdio, como Bernardo Ferrão e José Gomes Ferreira (SIC). E todos os políticos que abordaram o tema em peças várias nos três canais: João Semedo (BE), João Almeida (CDS), Eurico Dias (PS), Duarte Pacheco (PSD) e Pedro Soares (BE).

Enquanto ouvíamos dizer reCtificativo, as legendas nas televisões insistiam na burrice ortográfica: retificativo. Mandando às urtigas o "critério fonético" a que o professor Malaca se apegava noutros tempos, de pulsação acelerada, como Tristão suspirando por Isolda...

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Frases de 2013 (18)

por Pedro Correia, em 31.05.13

«Esta é uma greve geral para mudar de política, mudar de governo e promover eleições antecipadas.»

Arménio Carlos, hoje, anunciando a convocação de uma greve geral

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Bandeira de Papel

por Bandeira, em 31.05.13

José Bandeira/DN

José Bandeira/DN

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Justo prémio

por Pedro Correia, em 31.05.13

Se há prémio justo, é este que acaba de ser atribuído ao Ricardo Araújo Pereira. Que escreve com todas as vogais e consoantes.

 

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Resistência activa ao aborto ortográfico (76)

por Pedro Correia, em 31.05.13

 

WordPress Portugal

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Vejam tudo o que nos afecta em dois minutos

por Patrícia Reis, em 31.05.13

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.05.13

 

Disparates do Mundo, de G. K. Chesterton

Tradução de Maria José Figueiredo

(edição Alêtheia, 2013)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 31.05.13

 

Alexandra Lencastre

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Mais dois prémios e um agradecimento para sempre

por Patrícia Reis, em 31.05.13

 

Egoísta, a edição número 50, dedicada aos Artistas ganha menção honrosa para design e Grande Prémio Revista na edição dos Prémios Papies referentes a 2012. Foi um privilégio trabalhar nestes 50 números e, mesmo agora, sentir que os prémios recordam o que tentámos fazer. Parabéns a todos os que colaboraram (ao Rodrigo Saias e à Sara Cunha), à Norprint que imprimiu, à Estoril-Sol que apostou na cultura durante tanto tempo e a todos escritores, pintores, ilustradores, fotógrafos, jornalistas, experimentalistas e mais... - todos sem excepção - que fizeram da Egoísta uma casa para mim, uma boa casa. O meu agradecimento nunca será suficiente.

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As canções do século (1247)

por Pedro Correia, em 31.05.13

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O Desacordo

por Helena Sacadura Cabral, em 30.05.13

JUIZ RUI TEIXEIRA PROÍBE ACORDO ORTOGRÁFICO

« Magistrado alega que as “actas não são uma forma do verbo atar” e que “os cágados continuam a ser animais e não algo mal cheiroso”.
O juiz Rui Teixeira, que conduziu a instrução do processo ‘Casa Pia e que agora está colocado no Tribunal de Torres Vedras, não quer os pareceres técnicos sociais com o novo Acordo Ortográfico. Os pareceres (relatórios sobre a situação social dos envolvidos em julgamentos) são elaborados pela Direcção Geral de Reinserção Social.
Em Abril, a DGRS recebeu um pedido de relatório social acompanhado de uma nota: “Fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011(…) a qual apenas vincula o Governo e não os Tribunais”.
Os serviços da DGRS pediram um esclarecimento e Rui Teixeira respondeu: “Não compete aos Tribunais ensinar Leis aos serviços do Estado. É de presumir que a DGRS tenha um serviço jurídico e se não o tiver o Ministério da Justiça tem-no de certeza”.»
(in Correio da Manhã)
A ser verdadeira a notícia não posso deixar de me congratular com a decisão por muito que ela ofenda os apoiantes do Acordo. Torna-se cada vez mais evidente que vão perdurar duas formas de escrita por muitos e bons anos...

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Acordar um dia

por Ana Vidal, em 30.05.13

Belíssimo e contundente, este texto de Nuno Camarneiro sobre uma Europa que é cada vez mais uma espécie de museu do mundo, cheia de preciosidades mortas e pó nas esquinas das salas, à espera de turistas que venham de lugares longínquos para admirá-las depressa e voltar para as suas terras onde se vive uma vida de vivos. A Europa está a morrer, orgulhosamente agarrada aos seus pergaminhos de rainha-mãe e sem perceber que eles hão-de ser a sua mortalha. Mas ainda tenho esperança de um dia poder votar moções de nuvem e eleger pássaros.

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Sugestão: um dia livro por dia

por Pedro Correia, em 30.05.13

 

O Sino da Islândia, de Halldór Laxness

Tradução de João Reis

(edição Cavalo de Ferro, 2012)

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Borgen

por jpt, em 30.05.13

 

 

Já que abaixo falei de TV aqui boto sobre a série que venho vendo, e com muitíssimo agrado: "Borgen", um produto dinamarquês, verdadeiramente de qualidade, refinado e interessantíssimo. Procurei na internet por referências em português e apenas as encontro originadas no Brasil, pelo que deduzo que ainda não tenha sido transmitida em Portugal. Se assim é ainda bem. Pois significa que ainda a podem ver pela primeira vez, um prazer (res)guardado. Em Moçambique também não passou, mas isso já me parece mais difícil que venha a acontecer. Cá em casa vêmo-la por especial simpatia de uma nossa danish connection, que já nos emprestou os dois primeiros lotes ("estações"), havendo ainda um terceiro (e último) a receber, num total de 30 episódios.

 

É uma série política. "Borgen" significa castelo, sendo o nome popular do Palácio Christiansborg, sede dos três poderes dinamarqueses. Trata da surpreendente ascensão a primeira-ministra da chefe de um pequeno partido de centro-esquerda, algo devido ao impacto público da sua pureza algo idealista (e ao facto de ser bem apessoada, diz este telespectador), a personagem Birgitte Nyborg [a actriz Sidse Babett Knudsen].

 

 

Numa produção que é muito boa, e isso sem se desdobrar em luxos e quantidades, há alguns eixos da trama que são especialmente apetecíveis. O pano de fundo (pelo menos nos 18 primeiros episódios) é o rolar da protagonista para um crescente realismo político, que em nada sendo sinónimo de cinismo implica uma evidente crispação (também simbolizada através da vertente familiar), por vezes por ela pressentida mas também perseguida. O que é algo bem rico, até pela densidade de carácter que permite ir descobrindo, para além das topologias e tipologias mais imediatas. Mostra ainda o jogo político local com particular incisão, a confrontação entre blocos ("esquerda" e "direita") e suas flutuantes fidelidades ideológicas, bem como as suas transformações históricas - é excelente, superlativa mesmo, a apresentação do ocaso sociológico do velho "socialismo democrático" local. E mostra também as artes e engulhos da governação em coligação (a primeira-ministra provém de um partido minoritário, ainda para mais), o que tornará a série bem actual, vera lição, para o histriónico cenário político português.

 

Dois outros pontos ali transparecem. Sendo a série bastante realista nota-se a frugalidade dinamarquesa, nos cenários e nas práticas (seja de representação política seja de vida doméstica - e como pequenas são as casas e pequeno-burguesas aparentam ser as vivências). E ainda que se notando uma secura no trato (pelo menos para os olhos latinos) impõe-se um evidente protocolo leve, que é algo que bem se poderia importar para o enorme sul.

 

 

Finalmente há a constante presença da comunicação social, um tráfego constante. Que sendo em parte uma deriva da trama, até romântica, da série, não poderá deixar de denotar esse "convívio" quotidiano entre o poder executivo e o temido quarto vector dos possidentes. O qual em "Borgen" surge com várias matizes, desde o pérfido anterior chefe trabalhista até a gente profissional muito louvável (é notória a "aliança de classe" entre argumentistas e o mundo do jornalismo). Na série o protagonismo do sector jornalístico recai na personagem Katrine Fonsmark [a actriz Birgitte Hjort Sørensen, que vai muito bem e cuja carreira anseio por acompanhar].

 

Resta dizer o óbvio: algo está muito viçoso no reino da Dinamarca.

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As canções do século (1246)

por Pedro Correia, em 30.05.13

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Frases de 2013 (17)

por Pedro Correia, em 29.05.13

«Pacheco Pereira representa dois terços do PSD.»

Mário Soares, há pouco, em entrevista à SIC Notícias

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Fotografias tiradas por aí (136)

por José António Abreu, em 29.05.13

Porto, 2004.

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Os filmes da minha vida (43)

por Pedro Correia, em 29.05.13

 

LAWRENCE DA ARÁBIA:

DO SOL ÀS SOMBRAS

 

«O deserto é um oceano onde remo algum se enterra.»

Alcorão

 

Há filmes que facilmente se associam a outros. E há filmes que não se parecem com nenhum outro. É este o caso do deslumbrante Lawrence da Arábia, que David Lean rodou durante mais de um ano em quatro países (Reino Unido, Espanha, Marrocos e Jordânia), por vezes sob um sol inclemente, quase insuportável, que chegou a originar queimaduras na pele de alguns actores.

Nenhum filme é confundível com este porque a personagem central aqui é o deserto e a magia que dele emana vai-nos guiando de cena em cena ao som da hipnótica partitura de Maurice Jarre. Desde o plano-sequência - um dos mais famosos da história do cinema - que começa na chama do fósforo nos dedos de Lawrence e se prolonga pelo sol que começa a elevar-se, como bola em chamas, iluminando a vastidão das areias arábicas em alegoria à primeira aurora do mundo.

T. E. Lawrence, já então conhecido por Lawrence da Arábia, explicará mais adiante a Bentley, o jornalista americano que ali fora em busca de um herói para as manchetes do seu jornal, por que motivo o deserto tanto o atraía. "Por ser limpo", foi a definição, sucinta e exacta. Esse deserto limpo é o que vemos na primeira parte do filme - aquela em que Lawrence, filho bastardo, ignorado pelo pai e decepcionado com a família de substituição que procurou encontrar nas burocráticas fileiras militares, abraça enfim como se fosse sangue do seu sangue. As jornadas de sol a sol no Sinai e na Península Arábica são um banho lustral para este europeu sem raízes que se sente filho do deserto e irmão das tribos beduínas.

É um filme de 216 minutos - para ser visto em cinema e não em televisão - sem mulheres onde imperam os códigos masculinos e longos momentos de silêncio apenas entrecortados de diálogos lacónicos e sulcados de entrelinhas num cenário em que um poço de água valia mais do que uma vida humana. Em plena I Guerra Mundial, quando britânicos e turcos se confrontavam pelo domínio do Médio Oriente e o nacionalismo árabe emergia enfim de um sono de 900 anos, pelo impensável braço de um inglês pálido e louro que trocara a farda de caqui pelas vestes de beduíno: "Aquele para quem nada está escrito pode escolher a sua tribo."

 

David Lean designou para protagonista o actor perfeito: Peter O'Toole tem aqui o seu primeiro papel de relevo no cinema - e também o seu melhor papel de sempre. Como se tivesse nascido para interpretar Lawrence em cada palavra, em cada silêncio, em cada gesto, em cada olhar. A Academia de Hollywood, que em 1963 viria a inundar este filme de estatuetas, foi incapaz de reconhecer o talento ímpar desta interpretação, preferindo conceder o Óscar ao desempenho esforçado mas mediano de Gregory Peck em Na Sombra e no Silêncio, politicamente mais correcto mas artisticamente incomparável a Lawrence da Arábia, o filme que Steven Spielberg viu ainda adolescente e o impressionou ao ponto de nesse mesmo dia ter jurado tornar-se cineasta.

"Nada está escrito", como se repete ao longo do filme. A escolha de O'Toole resultou de um golpe do acaso, após as recusas de Marlon Brando (que preferiu filmar A Revolta na Bounty nas ilhas do Pacífico) e Albert Finney: nenhum destes astros já então consagrados no cinema teria certamente a capacidade revelada pelo desconhecido O'Toole de se entregar de forma tão credível, convincente e quase demencial a este desempenho, como se fosse o último da sua vida.

Da excelente galeria de secundários há que destacar Omar Sharif (num papel que também o tornou célebre e o projectaria para protagonista de Doutor Jivago, o filme seguinte de Lean), Anthony Quinn, Alec Guinness e Claude Rains, o inesquecível capitão Renault de Casablanca que funciona aqui como um traço subliminar a unir duas obras-primas do cinema.

 

Este é um fascinante filme sobre poder, guerra e solidão. Mas é sobretudo um filme sobre a relação umbilical entre o homem e a natureza. Um filme onde, à medida que as imagem progridem - em movimentos de câmara que evoluem sempre da esquerda para a direita, ditados pelo perfeccionismo do realizador britânico -, as sombras vão ganhando terreno ao sol.

Sucedem-se as batalhas, cada vez mais violentas, cada vez mais sangrentas: a conquista de Ácaba aos turcos, o massacre de Tafas, a dilacerante queda de Damasco sem ser alcançada a unidade política entre os árabes que Lawrence sonhou. De permeio acontece a sua captura pelos turcos, que o sujeitam a sevícias que não vemos mas imaginamos.

"Só beduínos e deuses conseguem divertir-se no deserto", avisara-o a tempo Rains (no papel de Dryden, político entre militares no quartel-general do Cairo, filmado na bem reconhecível Praça de Espanha em Sevilha). Lawrence não lhe dá ouvidos: nada está escrito, ele quer cumprir aquilo por que anseia nas rotas da nação árabe. Superando-se a si próprio com a mesma tenacidade que o levara a tentar expurgar indizíveis dramas íntimos ao prestar-se a inúmeras provas que envolviam dor física. "Neste país, o homem que proporciona vitórias nas batalhas é mais valorizado do que qualquer outro", diz o Rei Faiçal ao jornalista americano.

Lawrence sagrar-se-á vencedor aos olhos dos outros: Bentley encontrara o herói de que precisa para vender jornais. Mas sente-se derrotado, pois sabe que é incapaz de vencer os seus próprios traumas.

Não voltará a ser o mesmo. Nem nunca mais voltará a ver o deserto com os mesmos olhos. Chegara em busca de purificação, sai de lá mais conspurcado - não com sede de água, mas de sangue, clamando por uma vingança ancestral que o torna incapaz de se aquietar em lugar algum. Home é, sintomaticamente, a última palavra deste filme. O lar que Lawrence procura e jamais encontrará.

..................................................

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). De David Lean. Com Peter O'Toole, Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins. José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy.

 

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Jacarandás

por Ana Vidal, em 29.05.13

 

Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, a troika, a crise do euro, as escandaleiras para todos os gostos, a falência da segurança social, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, o galope do desemprego, o tédio da conversa de políticos e economistas, as trapaças dos chicos-espertos, a miséria dos programas televisivos, as íntimas misérias de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar do cinto... ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.

 

[Nota: texto republicado (desta vez nem foi preciso actualizá-lo, infelizmente)]

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Resistência activa ao aborto ortográfico (75)

por Pedro Correia, em 29.05.13

 

Associação dos Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

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Postais de um Fotógrafo de Bairro (XII)

por Bandeira, em 29.05.13

José Bandeira

 

O Euclides emigrou de Cabo Verde para Lisboa quando soube pela mulher que lhe ia nascer um filho. A razão para o salto fora atendível: trabalhar, ganhar dinheiro para assistir a família na ilha. A mulher pediu o divórcio pouco depois da sua partida. Encontrara parceiro mais próximo, nestas coisas de matrimónio a distância é um terceiro elemento. Ficou-lhe o filho à espera em Santiago enquanto o Euclides trabalhava como factotum nas obras. Após um acidente de trabalho cujo processo nunca seguiu as vias direitas e o deixou com lesões na coluna, o Euclides foi tomar conta do tasco do pai. Passa ali os dias (e as noites, já que dorme num quarto contíguo à cozinha). De vez em quando lembra-se do dinheiro que nunca lhe pagaram em obras tão importantes como o foram as da Expo ou do Colombo. Não compreende o que se passou, ele que nunca falhou um dia de trabalho sequer e sempre fez o que lhe mandaram com competência e aprumo.

 

Algumas semanas atrás conseguimos fazer com que o Roni, agora com dezoito anos, recebesse um pequeno computador que eu mesmo configurei dentro do balcão do Café Africano. Servi ponchos e tudo! O Euclides, para quem um computador é um país estrangeiro, estava radiante. O único contacto que mantém com o filho é via o telefone de um vizinho do rapaz, proprietário de uma tenda de refrescos em Santiago. Nunca se viram, o Euclides e o Roni: o preço das viagens de e para Cabo Verde não se aguenta de tão caro. O portátil acabou por ser levado por uma tia do Euclides que calhou voar para as ilhas por esses dias. Há já notícia de que o Roni, que completou há uns meses o 12º ano, mexe no computador com destreza. Um tio dele tem uma loja de Internet por lá e ajuda-o. Eu já disse ao Euclides: “Dia em que o rapaz passe as portas do aeroporto, quero estar lá para vos tirar fotografias”.

 

O Euclides enrola cigarros porque não tem dinheiro para pacotes. Ele não fuma tanto quanto isso, é mais para matar o tédio, mas ainda assim o pai faz pressão para que corte no hábito. Um homem que não vê o filho há dezoito anos porque não pode pagar a viagem torna-se presa fácil para chamadas de atenção à moral. Mas eu estive com o Euclides nas horas de melancolia. Para quase toda a gente no bairro Clemente Vicente, partir é o outro nome da felicidade. “Para Santiago”, diz. “Plantar batatas?”, pergunto eu. “Plantar batatas”, ri-se. “E tu tens de ir também”.

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Masterchef (USA)

por jpt, em 29.05.13

 

O nosso pacote tvcabo inclui 5 canais portugueses. Não é resmunguice minha mas são pobres. Não tanto (ou só) em conteúdo mas em estilo. Decerto que por causa dos custos a televisão portuguesa radializou-se, abundam os programas de conversa. Ou seja, basta um cenário mais ou menos pobre por detrás de uns convidados, cíclicos ou residentes, que vão falando. Seja no velho modelo dominical "Júlio Isidro", que reina nas manhãs mas não só (numa das quais vi há tempos a nossa co-bloguista Helena Sacadura Cabral ladeando o grande Mário Zambujal, e nisso suspendi a minha malevolência menosprezadora). Ou na mera conversa de painel, versão sisuda de cariz denunciatório (Medina Carreira, Rui Santos, etc.) muito apropriada ao estado de espírito popular, ou versão engraçadista, exemplo da qual vi há dias o falado "Governo Sombra", pungente programa com Araújo Pereira e Pedro Mexia, onde os tipos mandam umas bocas saídas do "achismo" e se riem das piadas próprias, falha primeva de qualquer humorista ou a isso candidato. Enfim, no meio disto ao longo dos anos fui deixando de ver tv portuguesa, até porque nem sou grande consumidor dos produtos tv. Se calhar até perdendo algum programa interessante.

 

Mas de quando em vez encanto-me na televisão. Aconteceu-me há algum tempo com Boston Legal, então repetido e que não conhecera antes. E agora, por razões bem diversas, ando a seguir o Masterchef (USA), porventura também uma repetição no canal Fox. E sigo-o tão afincadamente que até a mim me surpreendo. Não sou um bom garfo, contrariamente ao que a minha barriga filha do sofá e das teclas (e de alguma cerveja) anunciará. E na cozinha nada percebo nem faço, para além de ocasionais ovos mexidos e uma ou outra lata de atum a misturar com Hellmann's. O que me prende ao Masterchef é outra coisa. É mesmo acompanhar como de um assunto aparentemente nada visual, isso de juntar uns tipos diante de uns fogões e fazê-los cozinhar algo que nunca comeremos (nem cheiraremos), e como tal nada atractivo para TV, se faz um trepidante e entusiasmante programa, cheio de expectativa, ritmo, suspense, humor e emoção. Tudo saborosíssimo, de fazer crescer água na boca.

 

Será uma produção muito cara? Aparentemente nem tanto, pelo menos em termos comparativos com tantas outras. E é com toda a certeza uma prova que há imensos, e até inesperados, assuntos sobre os quais se pode telefazer. Precisando-se de alguma imaginação. E, acima de tudo, de técnica narrativa. A qual parece mesmo ser o grande défice na tv portuguesa. Isso do não saber como ...

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Falta de responsabilidade

por João André, em 29.05.13

Quer eu concorde com as afirmações de Soares quer não (e até me parece que politicamente têm uma certa lógica), a verdade é que este tipo de acusações, dirigidas a ambos os partidos do governo (um por chantagear, outro por ser chantageado) não podem passar completamente em branco. É verdade que Soares tem o direito de dizer as asneiras que quiser, mas como antigo presidente e membro do conselho de estado, tem que mostrar mais responsabilidade.

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Sem petróleo não há invasão, mas...

por João André, em 29.05.13

A UE e os EUA descobriram finalmente como fazer dinheiro com o conflito sírio. Acaba-se com o embargo aos rebeldes para lhes vender armas. A Rússia e a China fazem o mesmo a Hassad. Entra-se numa bola de neve onde o conflito se prolonga, necessitando sempre de mais armas e os cifrões vão crescendo. Se os rebeldes vencem, ganha-se dinheiro e um aliado. Se Hassad vence pelo menos fez-se dinheiro. Se o conflito se prolonga, muito dinheiro entrará. Que final feliz.

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Cortar sem pensar

por João André, em 29.05.13

Desde 1993 - ano em que entrei para a universidade - que ouço falar disto. Ou melhor, que presto atenção a este assunto (provavelmente é muito mais antigo). As universidades oferecem cursos sem interessados que acabam com uns 2 ou 3 gatos pingados a cada ano. Alguns deles foram sendo descontinuados (adoro este termo) e outros foram continuados à força de duas ou três pessoas por ano. Em Coimbra, o caso paradigmático era engenharia de minas, com a qual a AAC tinha frequentemente de gerir o interesse dos estudantes (não queriam que o curso acabasse) e da universidade (desperdício de recursos).

 

No passado, como a notícia esclarece, já se tinha cortado o financiamento a cursos com menos de 20 inscritos (pessoalmente parece-me um número baixo). Agora o governo decidiu mesmo acabar com os cursos com menos de 10 inscritos. Autonomia das universidades? Um termo giro.

 

Já os cursos e a necessidade de profissionais na área são ignorados. Não conheço todos os casos e admito que a maioria seja de cursos que, de facto, não tem saída. Algumas áreas haverá, no entanto, que não necessitando de muitos profissionais por ano, vão necessitando de alguns. Volto à engenharia de minas: passados uns anos encontrei alguns engenheiros num encontro internacional. Explicaram-me que tinham frequentemente que pagar valores exorbitantes pelos poucos engenheiros de minas portugueses ou para trazer outros do estrangeiro. Não era para trabalhos de minas. Era para construção de pontes, túneis, edifícios, estradas, etc. Não eram necessários muitos por ano, explicaram-me, mas havia necessidade deles.

 

E é isso que, mais uma vez, o Governo (e aqui falo do Governo em geral, não só deste) volta a falhar. Não há uma ideia real para o ensino superior em Portugal. Ao invés de fechar a maioria desses cursos mas mantê-los abertos em menos universidades, para continuar a fornecer estes profissionais, o Governo fecha. Contenção de gastos e cobrança de propinas, é a palavra de ordem. Uma visão, boa ou má, é aquilo que nunca aparece.

 

Voltarei a este assunto numa série de posts que ando a escrever.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.05.13

 

Contracorpo, de Patrícia Reis

(edição D. Quixote, 2013)

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As canções do século (1245)

por Pedro Correia, em 29.05.13

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Resistência activa ao aborto ortográfico (74)

por Pedro Correia, em 28.05.13

 

Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico

 

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Os sonâmbulos

por Luís Menezes Leitão, em 28.05.13

 

Acho que nunca uma capa do Economist teve uma imagem tão violenta como esta. Mas a seriedade da crise do euro justifica-a plenamente. Os líderes europeus parecem de facto um grupo de sonâmbulos caminhando para o abismo, insensíveis a tudo o que se passa à sua volta. Mas o mais chocante na imagem nem é o passo decidido dos que caminham à frente, liderados por Merkel e Draghi. O que mais me perturba é ver no canto direito Durão Barroso e Passos Coelho, irmanados e cabisbaixos, seguindo os líderes do grupo como cordeiros no caminho do suicídio.

 

Neste momento, a situação do nosso país é objecto de comentário à escala mundial, com Paul Krugman a dar Portugal como exemplo de um pesadelo económico-financeiro. Mas imagine-se o que perturba o nosso Ministro das Finanças? O facto de os jornalistas terem dirigido uma pergunta ao Presidente do Eurogrupo e não a ele. Efectivamente só pode ser de sonambulismo que estamos a falar.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.13

 

Servidões, de Herberto Helder

(edição Assírio & Alvim, 2013)

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O Prémio Camões para Mia Couto

por jpt, em 28.05.13

 

Sou um mau leitor de Mia Couto, transporto-me com dificuldade para a sua ficção. E gosto muito dos seus textos de opinião, pelo que diz, pela forma como o apresenta. E nesse âmbito não esqueço nunca o seu extraordinário texto, de sentimento e de coragem, até física, lido no funeral do jornalista Carlos Cardoso, assassinado em 2000. Que mais me fez admirar o homem ali, sempre gentil no seu jeito muito próprio, para além do escritor afamado, reconhecido. E sempre amado pelos leitores, um tipo que não precisa de confrontar quem o aprecia, sinal de grandeza.

 

Neste agora em que lhe é atribuído o Prémio Camões deixo um poema que lhe foi dedicado: 

 

 

Praia do Savane

 

Tu apenas tu e rodeando-te

a imensidão do mar

e a savana imensa

e o céu abrindo e fechando

todo o horizonte à sua volta.

 

O bramido oceânico

e o fundo silêncio da savana.

E a solidão a solidão

e as aves marinhas

confirmando a solidão ...

 

Livre te sentes é verdade

mas também perdido

e inútil esta liberdade

Adão que és agora ínfimo

desolado e inquieto

contemplando o mar perplexo

contemplando-o como se as ondas

te pudessem decifrar o mistério

desta absurda criação

de deserto de mar e de terra

de silêncio de vento e de aves ...

 

[Fernando Couto, 1985, em "Monódia"]

 

 

E ocorre-me repetir o conteúdo de um postal colocado há dois anos, mostrando "as capas nas estantes cá de casa. Até para conferir(mos) o que falta ...", que então coloquei exactamente quando tive conhecimento da formação de um grupo dos seus leitores que apelavam a que se lhe atribuísse o "Camões".  

 

 

[Cada Homem é Uma Raça, Caminho, 1990]

[A Chuva Pasmada, Ndjira]

[Contos do Nascer da Terra, Ndjira, 1997]

[Estórias Abensonhadas, Ndjira, 2ª edição, 1997 (1994). Ilustrações de João Nasi Pereira]

[Ilha da Inhaca. Mitos e Lendas na Gestão Tradicional de Recursos Naturais, Impacto, 2001. Coordenação de Mia Couto]

[Idades Cidades Divindades, Ndjira, 2007]

[Jesusálem, Ndjira, 2009]

[Mar me quer, Ndjira, 1998]

[Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Ndjira, 2001]

[O Fio das Missangas, Ndjira, 2004]

[O País do Queixa-Andar, Ndjira, 2003]

[O Último Vôo do Flamingo, Ndjira, 2000]

[E se Obama Fosse Africano? e Outras Intervenções, Caminho, 2ª edição, 2009]

[O Pátio das Sombras, Escola Portuguesa de Moçambique/Fundació Contes pel Món, 2009. Desenhos de Malangatana]

[Pensando Igual, Moçambique Editora, 2005 (com Moacyr Scliar e Alberto da Costa Silva]

[Pensatempos. Textos de Opinião, Ndjira, 2005]

[Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Ndjira, 2ª edição, 1999 (1983)]

[Terra Sonâmbula, Ndjira, 1996]

[Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Ndjira,  2ª edição, 2002]

[A Varanda do Frangipani, Caminho, 1996]

[Venenos de Deus Remédios do Diabo, Ndjira, 2008]

[Vinte e Zinco, Ndjira, 1999]

[A Confissão da Leoa, Caminho, 2012]

 

(postal também colocado, em versão algo diferente, no ma-schamba)

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Parabéns!

por Ana Vidal, em 28.05.13

 

A Mia Couto, que acaba de ganhar o prémio Camões. É actualmente um dos meus escritores preferidos de língua portuguesa e o único (repito, o único) que me leva ao sacrifício de ler um livro escrito em acordês. Porquê? Porque, simplesmente, pior do que isso seria não poder lê-lo. Mas é pena que tenha cedido ao AO e ao enganador argumento da uniformização do português. Logo ele, que tem um vocabulário tão próprio e por isso contribui de forma tão expressiva para a diversidade da nossa língua.

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As canções do século (1244)

por Pedro Correia, em 28.05.13

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A Feira do Livro

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.13
Vencendo a intempérie do clima em Lisboa, lá estive na Feira do Livro na sexta, sábado e Domingo e lá estarei todos os próximos fins de semana, à excepção do 8 de Junho, em que irei ao Porto receber um prémio.
Muita gente me pergunta porque é que ali estou tantos dias, quando se sabe que é uma tarefa cansativa, sobretudo para quem, como eu, trabalha com três editoras. Respondo sempre que é o mínimo que eu posso fazer por quem compra os meus livros e vai àquele espaço para me ver e dar um abraço.
De um ponto de vista pessoal, quem publica deve ter uma componente de proximidade e de acessibilidade face aos seus leitores. Eu sei que os "intelectuais" não pensam assim e até há muitos que nunca foram à Feira. Mas eu não sou intelectual, não escrevo para intelectuais. Sou, sim, alguém que tem prazer em partilhar "estórias" e pedaços de si com aqueles que se identificam com as suas palavras. Por isso, estar com essas pessoas e conversar um bocadinho com elas, é uma forma humanizada de lhes dizer "muito obrigada"!

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O que torto nasce nunca se endireita

por Pedro Correia, em 27.05.13
Numa semana de Outubro de 1990, dúzia e meia de sábios iluminados reuniram-se no velho edifício da Academia das Ciências de Lisboa para mudarem a ortografia de uma língua falada por mais de 200 milhões de pessoas. Foi assim, neste ambiente de secretismo, quando não havia nenhuma demanda social para esse efeito, que nasceu o acordo ortográfico.
Nasceu torto. E, como diz o povo, o que torto nasce tarde ou nunca se endireita. O acordo nasceu torto desde logo por ignorar a esmagadora maioria dos pareceres técnico-científicos sobre a matéria. Foram produzidas notáveis peças de análise crítica por parte de escritores, professores, linguistas - e todas acabaram no fundo de uma gaveta, olimpicamente ignoradas. O poder político fez tábua rasa dos alertas da comunidade científica - não só portuguesa mas também brasileira - que advertiam para as suas inúmeras deficiências técnicas, para as suas incongruências conceptuais, para os seus clamorosos erros.
Temos, portanto, um acordo que quase ninguém defende, que quase ninguém respeita, que quase ninguém aplica na íntegra. O Presidente da República, que o promulgou, confessa numa entrevista que em casa continua a escrever como aprendeu na escola. O Ministro da Educação, que o faz aplicar no sistema lectivo, admite que não gosta de mudar a maneira de escrever. O secretário de Estado que o assinou em nome do Governo português continua a escrever, em blogues e jornais, na correcta grafia anterior ao convénio de 1990.

Este acordo pretendia unificar o nosso idioma, na sua versão escrita, mas acabou por consagrar grafias diferentes. Hoje o Estado angolano, por exemplo, tem uma grafia diferente da do Estado português. E este, por sua vez, acolheu como boas mais de 200 novas palavras que passam a ser escritas de forma diferente entre Portugal e o Brasil. Palavras como recepção ou excepção, que viram cair o p nos documentos oficiais portugueses, enquanto mantêm o p que sempre tiveram no documentos oficiais brasileiros.
Entre nós, em resultado das chamadas "facultatividades" reconhecidas pelo acordo, vai-se abolindo o carácter normativo da escrita, dando lugar a uma espécie de ortografia à la carte, ao sabor da subjectividade de cada um. Assim é possível ver órgãos de informação pertencentes ao mesmo grupo editorial escreverem nuns casos sector, com c, e noutros setor, sem c. Há jornais que adoptaram o acordo, mas adiantando desde logo várias excepções à regra, continuando por exemplo a pôr acento na palavra pára. Ainda há dias, a propósito da co-adopção, registámos quatro grafias diferentes desta palavra: com p e sem p, com hífen e sem hífen.
E porque não haverá de se instalar a confusão geral na escrita jornalística se ela impera no próprio Diário da República, onde já foram consagradas na letra da lei expressões como fato ilícito ou união de fato?
 
O acordo acabou por conduzir, portanto, ao caos ortográfico.
O que fazer?
Aquilo que deve ser feito quando alguma coisa não está bem: mudá-la.
Deve ser constituída sem demora uma comissão de revisão do acordo, com carácter muito alargado e reunindo especialistas dos mais diversos saberes, de modo a produzir um dicionário ortográfico e regras claras, que não violem a etimologia das palavras, como no absurdo espetador em vez de espectador, e não separem famílias lexicais, como na frase «há egiptólogos no Egito».
Enquanto não houver essa revisão profunda e enquanto não for produzido esse dicionário, o acordo deve ser suspenso. E naturalmente a sua aplicação obrigatória, prevista para 2016, deve ser adiada, como aliás o Brasil já fez.

 

Alguém me perguntava há dias por que motivo não se ouvem as vozes dos defensores do acordo.
A resposta é simples: essas vozes não se ouvem porque os defensores deste acordo são em número muito diminuto. Basta folhearmos livros que vão sendo publicados, de escritores das mais diversas tendências, das mais diversas escolas estéticas e de todas as gerações para se perceber que fazem questão em escrever estas suas obras na ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990. Isto sucede não apenas com escritores portugueses: ainda agora foi editado um livro póstumo de Antonio Tabucchi, intitulado Viagens e Outras Viagens. Lá vem a advertência, na ficha técnica: «Por vontade expressa dos herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo ortográfico.»
O mesmo sucede nos jornais: mesmo naqueles que aplicam o acordo, aliás cada qual a seu modo, não faltam colunistas e articulistas que insistem em escrever na ortografia pré-AO.
Em todos os sectores da sociedade portuguesa a rejeição das normas acordísticas é claríssima. E maior seria ainda se não houvesse a imposição de adoptá-las na administração pública, incluindo nas escolas, onde são largos milhares os professores que se opõem às regras ortográficas emanadas do AO. A estes professores, tal como a todos os utentes qualificados da língua portuguesa, o poder político tem a estrita obrigação de reconhecer e garantir o estatuto de objecção de consciência.
 
Vou terminar. Mas antes gostaria de contar um episódio que protagonizei e do qual me lembro sempre que ouço alguns dizerem que não vale a pena discutir o acordo por ele ser irreversível. Já tenho anos suficientes para ter visto enterrar muitas coisas consideradas irreversíveis. Em 1984, estava eu no início da minha carreira jornalística, escrevi uma carta aberta a José Ramos-Horta que terminava assim: «Um dia hei-de abraçá-lo num Timor livre e independente.» O jornal onde eu trabalhava tinha uma linha editorial de apoio à integração de Timor na Indonésia precisamente por a considerar irreversível.
Afinal não era irreversível. E vinte anos depois dessa carta aberta, em 2004, pude abraçar de facto Ramos-Horta - já então galardoado com o Nobel da Paz e exercendo as funções de primeiro-ministro do seu país, num Timor livre e independente.
Os timorenses souberam resistir.
Nós devemos continuar a resistir também. Em nome daquilo em que acreditamos. Por isso dedico este livro à minha filha Joana, aqui presente. Porque nós, os mais velhos, somos fiéis depositários de valores culturais que temos o dever de legar às gerações futuras. E nenhum valor cultural é tão nobre e tão inestimável como a nossa língua.
 
Texto lido na apresentação do meu livro, dia 21, em Lisboa.

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1. A Jorge Jesus, no Benfica, é pedido muito mais que o mero papel de treinador e gestor de recursos humanos, é pedido o papel de criador e valorizador de activos, activos esses que são alienados para enfrentar o passivo do clube. Não fosse isto e o Benfica podia, como fazem outros grandes da Europa, acumular no plantel valores como os vendidos nos últimos anos, e que dariam uma dimensão desportiva diferente pela antiguidade e desempenho técnico.

2. Ao analisar esta época, recuando a Setembro, tempo da venda de Witsel e Javi Garcia e lesões de Pablo Aimar e Carlos Martins, exercício que poucos analistas fazem, o que estranho não é o Benfica ter perdido três finais, é o facto de, perante os meios disponíveis e gestão seguida, lá ter conseguido chegar.

3. Vejamos, à entrada para a época desportiva 2012/13 o Benfica fez €71,49M em vendas e investiu €26M em aquisições. Mais uma vez o património desportivo do clube foi delapidado, com as vendas de Witsel e Javi Garcia, como sucedeu nas épocas anteriores. Nem assim, o Benfica deixa de, 9 meses volvidos, ter mais uma série de nomes cobiçados pelo mercado, como Garay, Matic, Enzo Perez ou Nico Gaitán, que prometem encaixe financeiro semelhante. 

4. Especialmente grave foi a oportunidade em que se desinvestiu este ano. Witsel e Javi Garcia são vendidos à segunda jornada, depois de toda uma pré-época trabalhada à volta de um meio campo composto por eles. Mais, quando o plantel parecia tornar-se curto, Bruno César e Nolito são dispensados em Janeiro, para reduzir custos. Em qualquer destes quatro caso não é feita qualquer contratação para suprir lacunas. Acresce a isto as indisponibilidades de Carlos Martins e Pablo Aimar, meio campo da época anterior e de Luisão, capitão e líder da equipa.

5. Nunca, desde que me lembro de ser gente, vi o Benfica jogar tão bom futebol e dar tanta luta na conquista das competições. Eu não sou da geração que viveu nas épocas de glória, sou da geração que só viveu vitórias dos adversários, e nunca o Benfica esteve tão perto de as quebrar. Se hoje assim é, deve-se a alguma visão estratégia de quem dirige, e a um grande gestor de activos e recursos humanos, que pratica autênticos milagres: Jorge Jesus. 

Se algo estiver errado no Benfica actual não é o treinador, é a estratégia da Direcção. É o atirar de areia para os olhos dos associados, com objectivos que contrariam a gestão praticada. É o momento absolutamente danoso em que são tomadas as decisões desportivas, privando o plantel de jogadores fulcrais com as épocas em curso, como aconteceu com todos os principais, à excepção de Di Maria e Coentrão. O Benfica não pode ser Campeão Nacional, muito menos Europeu, com esta estratégia, o triplete que este ano esteve quase a acontecer deve-se apenas ao facto de contar com um dos grandes treinadores da Europa nas suas fileiras. É importante que assim continue a ser.

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Bandeira de Papel

por Bandeira, em 27.05.13

José Bandeira
José Bandeira/DN

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.13

 

Crónicas de Anos de Chumbo (2008-2013), de Eduardo Paz Ferreira

(edição 70, 2013)

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As canções do século (1243)

por Pedro Correia, em 27.05.13

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E o burro sou eu?

por Rui Rocha, em 26.05.13

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É que a maldição acabou mesmo

por Rui Rocha, em 26.05.13

Benfica conquista título de basquetebol.

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Acabou a maldição

por Rui Rocha, em 26.05.13

Desta vez o Benfica não perdeu com golos nos descontos.

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A última viagem do José Alberto

por Pedro Correia, em 26.05.13

 

Julgo que foi o único colega de profissão com quem estive em cinco continentes. Desde logo em Lisboa, onde chegou a ser um dos profissionais mais qualificados da RTP. Os nossos caminhos profissionais cruzaram-se depois em Macau, onde dirigiu os canais de rádio e televisão da TDM. Mais tarde, reencontrei o José Alberto de Sousa em Nova Iorque, onde desempenhava as funções de conselheiro da missão permanente de Portugal junto das Nações Unidas e vivia do outro lado do estuário do Hudson, já em Nova Jérsia. Encontrámo-nos de novo em Cabo Verde, quando ele ali chefiava a delegação da RTP África, e em Díli, onde era assessor da administração da Rádio e Televisão de Timor-Leste.

Era um gentleman, capaz de estabelecer os consensos mais improváveis, sem nunca sentir a necessidade de levantar a voz. Um excelente pivot televisivo, aparentemente imperturbável mesmo nas situações de maior stress. Um homem com uma curiosidade insaciável, sempre disponível para conhecer diferentes lugares e diferentes culturas, e que mesmo quando exerceu cargos directivos nunca se fechava na redoma dos gabinetes.  Um bon vivant, que sabia aproveitar como poucos o lado solar da vida. Um boémio à moda antiga, capaz de cultivar a conversa à mesa como forma de arte. Um daqueles, cada vez mais raros, para quem a amizade era um posto. Por isso há hoje inúmeros amigos, nos mais diversos locais, a lamentar a sua morte - tão precoce e para mim, que nem o sabia doente, tão inesperada.

Despeço-me dele, como tenho a certeza de que gostaria, com esta morna na voz do Ildo Lobo que escutámos num dos nossos jantares na cidade da Praia. Quando havia muitos amanhãs no horizonte e a Morte era uma dama distante a que nenhum de nós sonhava passar cartão.

 

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Resistência activa ao aborto ortográfico (73)

por Pedro Correia, em 26.05.13

 

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral

(edição Guerra & Paz, 2013)

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A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever..., enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar...hmmm... o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de...hmmm... output.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.05.13

 

O Que é a Arte?, de Lev Tolstoi

Tradução de Ekaterina Kucheruk

(edição Gradiva, 2013)

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Ler

por Pedro Correia, em 26.05.13

O pronto-a-vestir da luta de classes. Do Daniel Oliveira, no Arrastão.

Martim fizeste mal. Da Helena Matos, no Blasfémias.

Hermenêutica às causas que tornam Raquel Varela em Raquel Varela. Da Maria João Marques, n' O Insurgente.

O génio infantil. De Maria do Rosário Pedreira, no Horas Extraordinárias.

Banco vazio... De Massano Cardoso, na Quarta República.

Paulo "Gromyko" Pinto. De Paulo Pinto, na Jugular.

Insultos cultos. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Mau Tempo no Canal. Da Joana Carvalho Dias, n' Os Tempos e as Vontades.

Sobre a fortaleza de seiva. Do Ricardo António Alves, n' Abencerragem.

A doença que James Dean inventou. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 26.05.13

 

«Querida Helena

Compreendo-a tão bem. Eu sou um pouco mais jovem do que a Helena, isto é, mais jovem no Cartão de Cidadão (confesso que Bilhete de Identidade é bastante mais poético) e partilho o mesma admiração, paixão, encantamento, o que for, pelo Robert Redford. Conheci-o numa matiné de um cinema de província, o meu Cinema Paraíso, conheci-o e comecei a sonhar. Aquela era a figura acabada do príncipe encantado. Procurei-o por todo o lado e foi numa página de O Século Ilustrado que o encontrei. Recortei-o - um bocadinho de papel que comigo amareleceu, esgaçou, perdeu a cor das letras e, por fim, com muita pena minha, se desfez, também o "meu" Robert Redford já era uma mancha muito borrada num papel de má qualidade. Vi - quase - todos os seus filmes. Cresci com Dois Homens e Um Destino, de mãos dadas com a minha Avó, tremi com as minhas amigas nas Brancas Montanhas da Morte e com o meu pai numa das muitas conversas que tive e ainda tenho, discuti sobre o Bem e o Mal, depois de termos visto A Golpada, claro que a música também não nos deixou indiferentes. Mas foi com o Great Gatsby e no "escurinho do cinema", com o meu príncipe de então, que eu me rendi - alma e coração - ao belíssimo Gatsby - (Ai! Leonardo Di Caprio, muito pão com côdea ainda terás tu de comer!).

Eu já gostava do Jay, confesso, mas o Robert Redford deu-lhe um brilho maior. Sempre com lágrimas nos olhos já vi não sei quantas vezes África Minha. Sozinha e com os meus filhos. Isto, só para citar "os" filmes que não são da minha vida - nunca percebi muito bem esse conceito - fazem parte da minha vida. Cresceram comigo e com as minhas memórias, recordações, fantasias. Tudo isso. O senhor tem muitas e belas rugas, continua a fazer filmes, a realizar filmes, a ser um garboso actor de cinema que ainda faz sonhar muitas raparigas. Como nós. Não, o coração não envelhece, porque felizmente ainda há um ou outro príncipe que nos consegue montar num qualquer cavalo encantado e levar para mundos distantes. Só nossos. Não morras ainda, Robert - fazes cá muita falta.»

 

Da nossa leitora Linda David. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.

 

Imagem: Robert Redford em O Grande Gatsby (1974)

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As canções do século (1242)

por Pedro Correia, em 26.05.13

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Névoa

por Gui Abreu de Lima, em 25.05.13


Hoje nem a literatura. Todos os livros neste dia são nós na goela. É dó do escritor que eu sinto, como se o cansaço do seu esforço fosse todo meu e as penas expostas junto às minhas, quase sobrepostas, me amortalhassem mais ainda, e o riso não existisse. Que tortura olhar o texto, montanha minada de silvas, horas e horas sobre um poço onde nunca se mata a sede. Haviam de queimar todos os livros hoje. De agrilhoar todos os escribas agora. E as palavras só deviam ser faladas, para que todos as ouvissem já.

foto Gui Mohallem

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