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Hoje, dia mundial do jazz

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.13

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Ontem, dia mundial da dança

por Helena Sacadura Cabral, em 30.04.13

Ontem foi o dia internacional da dança. Aqui fica um apontamento de excelente qualidade!

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Uma vox no deserto

por Teresa Ribeiro, em 30.04.13

Quando lá entrei pela primeira vez não tinha mais que 14, 15 anos. Nesse tempo os cinemas eram espaços sérios e elegantes onde se servia chá e café em balcões de mogno nos intervalos das sessões. Não sei exactamente que memórias tem o King de mim, sobretudo da época em que ainda se chamava Vox, mas não precisamos de lembrar-nos de todos os detalhes para sabermos qual a importância da relação que mantemos com as coisas.

Apesar de velho e decadente o King conserva a dignidade dos lugares que não perderam a identidade. Mantém a traça original, a que os anos acrescentaram uma certa patine e insiste em receber pessoas que gostam de cinema, não audiências. É por isso que organiza ciclos temáticos e faz reposição de filmes, algo impensável noutras salas comerciais.

Há dias fui lá ver o excelente Em Carne Viva (1997), que perdi quando passou em estreia, integrado num ciclo dedicado a Pedro Almodóvar. Na sala, além de mim estava só mais uma pessoa, apesar de ser uma tarde de sábado. Nem os cinéfilos avessos a pipocas parecem interessados em manter em funcionamento um dos últimos cinemas tradicionais lisboetas.

O mercado, é bom não esquecer, é feito de gente que regula a oferta e a procura. Não adianta chorar lágrimas de crocodilo quando vemos fechar mais um cinema. Se mesmo lutando à sua maneira contra a crise, integrando uma livraria com exposições temporárias de pintura e um bar onde nos podemos sentar confortavelmente a lanchar, os lisboetas lhe viram as costas, o King terá os dias contados.

Fica numa rua escondida, mas a dois passos da avenida de Roma. É tão ou mais acessível que o Corte Inglês, os bilhetes são mais baratos, não precisamos de fazer fila na bilheteira, tem sempre uma programação de qualidade e nas paredes, em vez de cartazes gigantes com slogans publicitários encontramos informação sobre os filmes que vamos ver. Modestas fotocópias de críticas e entrevistas, incapazes de atrair, é certo, os ruidosos frequentadores de maus filmes, mas úteis para quem não perdeu o foco e sabe que nisto de ir ao cinema o que conta é o recolhimento no escurinho da sala e a descolagem rumo a uma tela gigante onde tudo pode acontecer. Não os néons, não o cheiro a caramelo desses espalhafatosos receptáculos de consumidores de tempo. De tempo, não de filmes.

Que bom que era se não deixassem morrer o King.

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E se criássemos mais uma comissão?

por Luís Menezes Leitão, em 30.04.13

 

Este Governo começa a parecer-se cada vez mais com o grupo de conselheiros de Júlio César no Obélix et Compagnie. Temos um problema para resolver? Cria-se mais uma comissão para analisar esse problema, a qual depois se dividirá em sub-comissões específicas ou então combina-se um almoço para discutir o assunto. Sabe-se que para além de ter que alterar o orçamento de Estado em virtude do chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo deveria explicar onde é que vai cortar 4.000 milhões de euros na despesa do Estado. Mas depois inúmeros conselhos de ministros, a discutir não se sabe o quê, em que inúmeros ministros decidiram pelejar uns com os outros, chega-se à conclusão que é melhor deixar o assunto para depois do 1º de Maio.

 

Mas, como não podia deixar de ser, Vítor Gaspar não perde a oportunidade de nomear mais comissões. Já tinha criado o Conselho de Finanças Públicas, que foi um excelente estímulo ao emprego no sector. Em seguida criou a ESAME-Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos, com nada menos que 30 elementos, com emprego assegurado até 30 de Junho de 2014, sem prejuízo de prorrogação se o país vier a necessitar de novos resgates. Agora, como se isto não bastasse, surge mais uma Comissão de Normalização Contabilística e uma Unidade Técnica de Acompanhamento de Parcerias Público-Privadas, que acabam de tomar posse.

 

Alguém acredita que assim é possível reduzir a despesa pública? Eu não. Talvez por isso o que este Governo vai anunciar será seguramente a criação da CCDE - Comissão para Cortar na Despesa do Estado, com um orçamento de milhões e centenas de funcionários. E depois os Ministros lá poderão reunir com toda a tranquilidade.

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Segunda-feira, 22 de Abril

De manhã, aproveitando uma conferência de imprensa de outro modo inútil, o ministro Poiares Maduro fartou-se de mencionar a palavra «consenso». António José Seguro, sempre iludido acerca da sua própria importância no grand scheme of things, resmungou ser tarde para consensos. Assumindo que merece a reputação de inteligência que tanta gente lhe atribuiu no último par de semanas, o ministro Poiares Maduro não terá ficado nem surpreendido nem demasiado incomodado: como se comprovaria três dias mais tarde, a pessoa que devia ouvir e apreciar os apelos ao consenso, ouvira-os e apreciara-os (ver quinta-feira, 25).

À tarde, o ministro Santos Pereira, revelando estar finalmente a conseguir agir como ministro, apresentou um plano inútil repleto de clichés e intenções grandiosas. Foi severamente criticado por ter demorado uma eternidade a apresentá-lo e por as intenções nele expressas não serem suficientemente grandiosas.

 

Terça-Feira, 23 de Abril

É estranho, até um pouco assustador, mas não me lembro de um único pormenor deste dia. Tê-lo-ei passado a dormir? Tê-lo-ei eliminado da memória em resultado de uma experiência traumatizante? Mas, neste caso, que experiência poderia levar-me a uma reacção tão definitiva? Um assassinato? Um sonho húmido com a Ana Gomes? Uma tentativa para ler um livro do José Rodrigues dos Santos?

 

Quarta-Feira, 24 de Abril

Estive presente numa reunião com pessoas simpáticas e faladoras. Foi tão produtiva como os últimos conselhos de ministros.

 

Quinta-feira, 25 de Abril

O presidente Cavaco Silva mostrou que: (1) ouvira os apelos ao consenso que o ministro Poiares Maduro, por ordem/sugestão (riscar a que parecer menos adequada) do presidente Cavaco Silva, lançara na direcção do PS; (2) não gostara da resposta do PS. Fez tudo isto nas comemorações do 25 de Abril, através de um discurso inesperadamente inteligente e sensato. Esqueceu-se, porém, de que o 25 de Abril, não obstante todos os seus pontos positivos, é muito mais acerca de fervor revolucionário e grandes quimeras do que acerca de sensatez. A oposição reagiu com a ferocidade e demagogia que lhe competiam. Ainda assim, António José Seguro não exigiu a realização de eleições antecipadas para a Presidência da República.

 

Sexta-Feira, 26 de Abril

Acordar para o mundo real no dia 26 de Abril é sempre difícil.

A secretária de Estado Maria Luís Albuquerque explicou que o governo conseguira reduzir em 170 milhões de euros (uau) as perdas potenciais de 3000 milhões de euros (17,6 vezes uau) a que as empresas públicas se haviam arriscado, na sequência da contratação de instrumentos financeiros que os seus gestores, mais habituados a calcular prémios de desempenho, estariam longe de compreender. Evidentemente, nada disto significa que as empresas públicas devam ser fechadas, privatizadas ou concessionadas. Não significa sequer que os seus custos operacionais devam ser reduzidos, excepto se puderem ser reduzidos sem custos. Significa antes que coisas assim são uma vergonha e que os envolvidos deviam ser presos e que é preciso garantir que, sem mudar o que quer que seja, no futuro tudo se passará de forma diferente, o que talvez recomende a constituição de um grupo de trabalho incumbido de apresentar um «plano», e que... bla bla bla ad nauseum. Pelo menos – feliz o país em que, por levar o epíteto de evolução, isto merece registo – o caso fez perder o lugar a dois secretários de Estado.

 

Sábado, 27 de Abril

Ouvi algures (seria o televisor da vizinha?) que decorria um congresso do Partido Socialista mas resolvi prestar-lhe atenção apenas depois de esgotadas todas as opções televisivas mais excitantes, como as televendas, os programas do canal BabyTV e as receitas do chef Hélio Loureiro.

 

Domingo, 28 de Abril

Continuei sem ver uma imagem do congresso do Partido Socialista mas, pelo final da tarde, ouvi dizer (tenho mesmo de ter uma conversa com a vizinha) que o plano de António José Seguro para resolver os problemas do país é tão infalível que se encontra apenas dependente da boa vontade de terceiros. Uma das alíneas passará pela redução dos rácios de solvabilidade dos bancos nacionais. Tsk, tsk. Esvaíram-se depressa, os desejos de mais regulamentação.

Para evitar pensar no Seguro ou na vizinha, pus-me a rever A Noite da Iguana, em DVD. Quando o filme terminou passei para a televisão de forma imperdoavelmente displicente (estaria ainda sob os efeitos da Ava Gardner) e José Sócrates encheu-me o ecrã. Atarantado, carreguei no botão mais ao dedo e Richard Burton sobrepôs-se-lhe. Suspirei de alívio. As personagens de Tenessee Williams podem ser problemáticas e até desagradáveis mas pelo menos mantêm uma possibilidade de redenção.

 

Segunda-Feira, 29 de Abril

Vesti um pólo de manga curta mas a manhã esteve fresca. Toda a gente se meteu comigo.

O ministro Vítor Gaspar entrou no jogo dos apelos ao consenso. Fê-lo alertando para a inevitabilidade de o consenso ter de se formar em torno da reestruturação e do redimensionamento do Estado. É nestes pormenores que se detecta que o ministro Vítor Gaspar não é muito bom a acompanhar o sentido dos tempos. O consenso na sociedade portuguesa já é outro.

 

Terça-Feira, 30 de Abril (hoje)

Ocorre mais um (interminável?) conselho de ministros na interminável série de intermináveis conselhos de ministros em que, desde a sapientíssima decisão dos treze vultos mais insignes da nação, o governo anda embrenhado, sem conseguir chegar a decisões sobre onde e como cortar num Estado que ainda representa quase metade do PIB. Cambada de neoliberais.

 

Quarta-Feira, 1 de Maio (amanhã)

Não é altura de lhe mudar o nome para dia do trabalhador e da trabalhadora?

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As canções do século (1216)

por Pedro Correia, em 30.04.13

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Galinha o quê?

por Gui Abreu de Lima, em 29.04.13


O meu companheiro seguiu o rasto dos mais velhos. Era um tagarela serão fora, capaz das perguntas mais parvas só para me ouvir praguejar. Bom sentido de humor, das noites queria a risota (fazia-me bem aos brônquios). Agora a sala é um intervalo. Vem beber, o passarinho, e segue onde outros estão de olho num monitor. Desprende-se o petiz da saia, rumo ao ciberespaço. Os filhos são como os pintos, ganham pena e voam. Ingratos.

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Certo, o medo do escuro é nictofobia

por Rui Rocha, em 29.04.13

E o medo da luz é fotofobia. Mas qual é a designação correcta para o medo da conta da luz? É que eu, por mim, estou em pânico. E gostava, ao menos, de saber qual a nome adequado para isto que sinto.

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Ítacas

por Ana Vidal, em 29.04.13

A cada um a sua Ítaca. A de Kavafis, que nos fala de todas elas com admirável sabedoria, é um poema belíssimo.

 

O grego Konstantinos Petrou Kavafis (Κωνσταντίνος Π. Καβάφης) nasceu e morreu em Alexandria no mesmo dia 29 de Abril (1863 –1933). Foi jornalista e funcionário público. Publicou apenas 154 poemas, mas não precisa de mais obra para que o seu nome fique gravado para sempre na história da poesia. Um clássico impõe-se pela qualidade, não pela quantidade. 

 

 

O caminho para Ítaca


Se partires um dia rumo a Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem!
No teu caminho jamais os encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se subtil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posídon hás-de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás-de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor será muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te punhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu.

Se a achas pobre

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

(Tradução de José Paulo Paes)

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Blogue da semana

por Leonor Barros, em 29.04.13

Ler. Ler. Ler. Desejar dias longos sem amarras nem obrigações, dias em que nos rescostamos no mais confortável dos lugares e nos deixamos levar por um livro. Ou que agarrramos o que está à mão e, nos sítios improváveis, sucumbimos ao apetite voraz de devorar páginas, ou de saboreá-las com vagares de tempos suspensos. Livros. O que vos trago hoje não é propriamente um blogue mas é um dos sítios de que gosto muito. Apresento-vos Book Loving Girls.

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Perplexidade

por Pedro Correia, em 29.04.13

Dois partidos que nunca ganharam uma eleição para a Assembleia da República repetem, a todo o momento, que os portugueses devem ir a votos outra vez.

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À última da hora

por Ana Vidal, em 29.04.13

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele foram, em tempos, de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido (era egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas só perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não era o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque era um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder. Lembro-me bem de assistir a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa "injustiça", nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remoeu o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estavam mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a vida familiar foi cruelmente atravessada por uma tragédia arrasadora. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esse terrível acontecimento. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume começou a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o um dia, por acaso, na Bertrand do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E és tu uma pessoa que vive da escrita?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tinha sempre de dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, às vezes também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar, saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”...

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As canções do século (1215)

por Pedro Correia, em 29.04.13

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Está apressado o rapaz

por João André, em 28.04.13

Seguro pede maioria absoluta para o PS. Nos próximos dois dias reclamará vitória nos debates televisivos, na próxima semana apresentará o orçamento de estado para 2014, para o final do mês fará o balanço dos primeiros dois anos de governo PS. Espera-se que até ao fim do ano anuncie a reforma para passar tempo com os bisnetos.

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Premonição

por Ana Vidal, em 28.04.13

 

Do excelente documentário de Patrick Jeudy sobre a vida e morte de Marilyn Monroe, retive um pormenor que me impressionou, não só por ser premonitório como por resumir e condensar em si toda a dimensão de uma tragédia: quando a explosão de popularidade começou a ameaçar seriamente a sua privacidade, para se proteger e tentar preservá-la Marilyn dava sempre um número de telefone falso. Esse número, coincidência ou não, era o da morgue de Los Angeles.

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A Liga de Clubes não devia imiscuir-se em questões políticas. Mas a verdade é que já não tenho qualquer dúvida de que o faz e, o que é pior, de forma deliberada. Confesso que já na semana passada me tinha cheirado a esturro. Comentei com amigos: esta coisa de marcar o Benfica-Sporting para a hora a que o Sócrates faz comentário político na RTP não é inocente. Que não, que lá estás tu com as teorias da conspiração, que vês fantasmas em todo o lado, disseram-me. Pois muito bem. Esta semana, a cena repete-se. Para a hora do comentário está marcado um trepidante Académica-Moreirense. Ora toma. Tudo clarinho como água. E agora? Se as audiências de Sócrates voltarem a cair, continuará a Liga de Clubes a negar as suas intenções? E, mais do que isso, assumirá finalmente as suas responsabilidades nesta inqualificável tentativa de silenciamento?

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Cabanas, 28 de Abril

por Pedro Correia, em 28.04.13

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado "duas sopinhas" e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. "O Arbeloa está lesionado mas o Messi não", argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português - o futebolístico - já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs...

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

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Entretanto, em Santa Maria da Feira

por Rui Rocha, em 28.04.13

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É um pássaro, é um avião?

por Rui Rocha, em 28.04.13

 Não. De acordo com Álvaro Beleza, é o Tó Zé.

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Com senso?

por Rui Rocha, em 28.04.13

Quando o governo defende o consenso com o PS, pretende obtê-lo

 

a) relativamente à posição dos ministros que defendem cortes significativos nos salários e nas pensões, conduzindo uma parte significativa da população à miséria e a economia ao desastre,  enquanto Portugal continua com mais de trezentos municípios, universidades e politécnicos com cursos duplicados, triplicados e pentuplicados, apoios a fundações completamente injustificados, observatórios e institutos que acompanham a evolução de um par de botas e respectivos cordões, o sector da energia a defender com unhas e dentes as rendas que extorquiu, viaturas topo de gama para secretários de estados e ministros como se o país não estivesse na bancarrota, tudo isto só para dar alguns poucos exemplos,

ou

b) relativamente à posição daqueles outros ministros que defendem que os cortes não podem ser tão brutais, para que Portugal possa continuar, sem dar demasiado nas vistas, a ter mais de trezentos municípios, universidades e politécnicos com cursos duplicados, triplicados e pentuplicados, apoios a fundações completamente injustificados, observatórios e institutos que acompanham a evolução de um par de botas e respectivos cordões, o sector da energia a defender com unhas e dentes as rendas que extorquiu, viaturas topo de gama para secretários de estados e ministros como se o país não estivesse na bancarrota, tudo isto só para dar alguns poucos exemplos?

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Tu, que tens por mapa o firmamento

por Laura Ramos, em 28.04.13

Coisas da Ana Vidal

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O estado do comentário político em Portugal

por José Gomes André, em 28.04.13

"Eu acho que..."

 

Como bem dizia o saudoso Gore Vidal, "the major problem of our time, is that everyone has an opinion, but nobody has a thought".

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 28.04.13

«Somos um país de gente invejosa - e minada por uma desconfiança campónia.
Arrependermo-nos ou percebermos anos depois é pouco relevante: o que é preciso é abandonar o pé atrás (que não a inteligência) e o medo, precisamos de boas e limpas primeiras impressões. Das outras está o inferno cheio.»

Do nosso leitor FGH. A propósito deste texto da Gui Abreu de Lima.

 

«O “nosso” 25 de Abril foi o termos crescido como crescemos. Confunde-se, identifica-se, em grande medida, com a forma como vivemos a nossa adolescência e nos tornámos adultos. É isso. Quero fazer uma confissão, encorajada pela troca de comentários a este post... Sinto-me muito triste por verificar que não há espaço para alguém como eu comemorar o 25 de Abril, o facto de ter vivido o que viveu, como viveu. E não há espaço - leia-se em qualquer comemoração oficial, promovida por qualquer quadrante político - porque toda a celebração faz parte de uma agenda política actual à qual estou alheia. Restam algumas pessoas avulsas com quem uma verdadeira e autêntica celebração possa ser feita. Sob reflexão, talvez seja melhor não me sentir triste com isto. Faz parte da natureza das coisas. E é preciso aprender a viver com aquilo que não se pode mudar. Se é que alguém pode deixar de se sentir triste por verificar sob reflexão que é inútil sentir-se triste!»

Da nossa leitora Adriana Silva Graça. A propósito deste texto do José Navarro de Andrade.

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As canções do século (1214)

por Pedro Correia, em 28.04.13

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Abram alas pró Nódoa

por Rui Rocha, em 27.04.13

 

Quando se pensa um pouco nisso, o Congresso do PS bem pode ser uma versão piorada de uma conhecida série infantil. Ana Gomes é a Macaca Marta, sempre desbocada e pronta a pregar partidas. A Maria de Belém fica bem o papel de Ursa Teresa, muita amiguinha de Seguro e de Sócrates e deste e daquele e daqueloutro. Edite Estrela é a Gata Rosa, sim, um nadinha vaidosa. O Mafarrico desta vez não apareceu, embora haja quem diga que o viu a espreitar atrás dos arbustos. Deve estar a preparar o comentário de amanhã, na televisão. O Sonso, Pedro Silva Pereira, é que não faltou. Vi-o ainda há pouco a conversar com aquele que é agora o melhor amigo do líder, nem mais nem menos do que António Costa, que acabou por aceitar o papel de Orelhas. Por casa ficou o paquiderme Senhor Volumoso, o paizinho do regime. Nos últimos tempos tem andado de trombas. O Turbulento, João Galamba, não pára um segundo. Ele é entrevistas, é twitter, é o camandro. Andou apagadote por alturas da visita do Krugman a Lisboa, mas já se recuperou e agora é um virote. Em termos de declarações de João Galamba, está na hora de estimular a procura pois vivemos tempos de excesso de oferta. O Urso Rechonchudo, Francisco Assis, estava ainda agora sentado ao lado de Carlos Zorrinho, o Senhor Sempre em Pé, e de Almeida Santos, o Rato Relojoeiro. Todos ficaram muito animados quando ouviram falar o Tó Zé, o boneco de madeira. No fim, cantaram a plenos pulmões o Abram Alas pró Nódoa. Depois, entraram no seu carro amarelo. O Nódoa é o taxista de serviço. Enquanto for abanando o guizo, vão deixá-lo conduzi-los até ao poder. Mas, no fundo, cada um deles tem o seu próprio destino. O PS é isto. E Portugal é a cidade dos brinquedos.

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António Ramos Rosa

por Patrícia Reis, em 27.04.13
Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore.
Quem escreve quer ser terra sobre terra,
solidão adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

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Fotografias tiradas por aí (127)

por José António Abreu, em 27.04.13

 Porto, 2013.

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Europe - The Final Cut Down

por Rui Rocha, em 27.04.13

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O pesadelo espanhol

por Pedro Correia, em 27.04.13

 

Olhemos para Espanha, nosso principal parceiro económico: como vão ali as coisas? Piores que nunca: 6.202.700 desempregados, segundo as estatísticas oficiais referentes ao primeiro trimestre de 2013 - isto é, 27% da população activa.

Seis em cada dez jovens não encontram trabalho: há hoje 2,8 milhões de espanhóis com menos de 30 anos sem emprego - números correspondentes a 57% do total. Em cinco comunidades autónomas, duas das quais fronteiras com Portugal, a taxa de desemprego ultrapassa 30%: Andaluzia com 36,87%, Extremadura com 35,56%, Canárias com 34,27%, Castela-La Mancha com 31,51% e Múrcia com 30,37%.

Há na Andaluzia já mais desempregados do que em toda a Grécia. A nível provincial, o recorde vai para Cádis, também na Andaluzia: 42% de desempregados.

 

Desde que começou a crise, em Agosto de 2007, o flagelo do desemprego passou a atingir mais 4.410.800 pessoas, o equivalente à população somada da Extremadura, Baleares, Aragão e Astúrias, e foram destruídos quase 3,2 milhões de postos de trabalho só no sector privado. Desde que o anterior primeiro-ministro, Zapatero, deu lugar a Mariano Rajoy desapareceram 1.117.800 - à média de 2579 por dia e 107 por hora. E o Governo já admite que a situação não será invertida durante a actual legislatura, iniciada em Dezembro de 2011.

 

Restam hoje apenas 16,6 milhões de empregos, enquanto no terceiro trimestre de 2007 havia 20,5 milhões. E, dos que restam, há muitos precários: 15% dos espanhóis ainda empregados recebem à hora. A noção de precariedade dos postos de trabalho consolida-se a cada dia que passa, multiplicando los lunes al sol, título de um perturbante filme de 2002, espantosamente visionário.

Outro registo muito preocupante: a soma dos desempregados e pensionistas (15 milhões) está extremamente próxima do número daqueles que ainda têm emprego (16,2 milhões). Nunca esta diferença foi tão reduzida.

Pior: existem 1,9 milhões de lares espanhóis em que todos os seus membros estão sem trabalho remunerado.

Pior ainda: nos últimos seis meses deixaram de existir 80.200 lares - algo nunca antes registado nesta escala. "A crise tem reagrupado as famílias", noticia o diário El Mundo, que tinha uma manchete bem expressiva na sua edição de ontem: "O recorde da vergonha".

 

São números aterradores, espelho fiel de uma receita que falhou. Prossegui-la é desembocar no desastre: como Santiago González escreve na sua coluna de hoje, também no El Mundo, Hitler chegou ao poder precisamente quando a Alemanha acabara de ultrapassar a cifra dos seis milhões de desempregados.

Manter esta receita é fomentar a revolta daqueles que, sem nada, estão dispostos a tudo. Atribuir-lhe a caução de instituições como a União Europeia e o Banco Central Europeu é implodir o projecto europeu, condenando-o a um irremediável fracasso - e fazer a Europa recuar 80 anos. À década de 30, precisamente. Lembrem-se do que ocorreu em Espanha nesse período de má memória: uma guerra civil com um saldo sangrento de mais de 600 mil mortos. O franquismo acabou por conduzir ao pleno emprego, mas à custa da asfixia de todas as liberdades essenciais e de movimentações maciças de espanhóis para os destinos da emigração, com destaque para a França, a Alemanha e a América Latina.

Jean-Claude Juncker bem avisou, recentemente: os piores fantasmas da História podem sempre voltar.

 

Imagem: fotograma do filme Segundas-Feiras ao Sol (2002), de Fernando León de Aranoa, com Javier Bardem e Luis Tosar

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As canções do século (1213)

por Pedro Correia, em 27.04.13

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Cry me a river, Argentina

por Rui Rocha, em 26.04.13

A Argentina kirchnerista das estatísticas manipuladas, da inflação martelada, em todo o seu esplendor. Uma entrevista lamentável do ministro da economia e finanças públicas Hernán Lorenzino que acaba por pedir a sua interrupção com a frase: me quiero ir.

 

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muito bom

por Patrícia Reis, em 26.04.13

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Bandeira de Papel

por Bandeira, em 26.04.13

José Bandeira/DN
José Bandeira/DN

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Ao trigésimo nono ano da nossa era

por José Navarro de Andrade, em 26.04.13

Jantámos a comemorar mais do que o 25 de Abril, porque ainda somos do tempo em que. Apesar das crenças, deliberei que não era bem a data da “alvorada da liberdade” o que nos juntava, mas o que vivemos mais adiante, entre 78 e 82. Se não tivesse havido 25 de Abril nunca teríamos sido o que fomos na faculdade, nem teríamos feito coisas que, decorridas estas idades, não lamentamos nem renegamos, mas as guardamos com a imensa benevolência da maturidade.

O 25 de Abril, por mais que haja quem o incomplete em lamentos, o nosso foi afinal podermos ter crescido assim, foi terem-nos sido permitidas, pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos, todas as tropelias em que alegremente nos empenhámos. Queríamos mudar o mundo, e a verdade é que contribuímos para mudá-lo, mas não assim como pensávamos, porque foi em preservá-lo tal como o habitámos que o mudámos realmente.

Mas o melhor veio depois do jantar. A Xana abespinhou-se sem razão nenhuma – foi ela que pediu mais uma garrafa de vinho quando já queríamos desbancar – e acabou por não passar a meia-noite onde tanto desejava. Divagámos então por um Bairro Alto distante do nosso dos anos 80, porque cresceu desmesuradamente e já não é o secreto esconderijo da irreverência. Um belíssimo Bairro Alto, digo eu agora, território franco, sem exigir certificado de memória nem teste de consciência, para que nele possam beber, cantar na rua, sentar-se no passeio, todos a quem apetecer fazê-lo sem limite de autenticidade. E a multidão que entupia as ruas, essa gente quase toda mesmo quase toda, embora se calhar entre ela houvesse pais e mães de família, via-se pela míngua de rugas e grisalhadas que não tinha idade para vinte cincos de abris. Dele sabiam o que ouviram dizer e dele estavam tão distantes como da batalha de Aljubarrota, porque tudo o que sucedeu antes de nascermos é pano de fundo, não é existência.

E foi essa a felicidade que me acometeu nessa noite: o 25 de Abril é de todos – juro que não haverá melhor maneira de celebrar o 25 de Abril senão a de tomá-lo como óbvio, como parte da natureza das coisas.

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Ao nervo, ao osso e à alma

por Pedro Correia, em 26.04.13

Este é um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que nos devolve ao convívio com algumas das mais fascinantes personagens da literatura portuguesa. Um livro que não se confina ao chamado cânone consagrado, recuperando obras e autores que costumam estar arredados da análise crítica, condenados à pior das marginalizações - a que opera através do silêncio.

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral, é um livro de quem gosta de ler e de quem sabe ler. "Não há nenhuma fórmula para os grandes livros e não há nenhuma fórmula para as grandes personagens. O efeito de uma personagem sobre o leitor depende, por vezes, de minúsculos pontos de ligação que criam empatia, que facilitam a tarefa de imaginar como será aquela vida", assinala o autor na nota introdutória.

Estamos no reino da ficção, mas convictos de que esta se entrelaça muitas vezes com o real, enquanto testemunho de uma época ou reflexo de um avassalador impulso existencial. À semelhança do que Steiner disse sobre Hamlet, como sublinha também Vieira Amaral, "as grandes personagens de ficção são mais reais do que nós".

Partilhei inesquecíveis horas da minha vida com algumas delas que aqui reencontro de forma inesperada - e, até por isso, ainda mais gratificante. A dilacerada Clarisse de Domingo à Tarde (Fernando Namora, 1961), recriada por Isabel de Castro na magnífica adaptação cinematográfica de António de Macedo, expoente do efémero 'Cinema Novo'. A irresistível Léah, do conto homónimo de José Rodrigues Miguéis, um dos meus autores de eleição, tão injustamente esquecido. A esfuziante Madalena d' A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis, 1868). Há quanto tempo as não via...

 

Desfilam aqui algumas das personagens consideradas obrigatórias da literatura portuguesa - a Joaninha dos olhos verdes, d' As Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett, 1846), Tomás Manuel da Palma Bravo, o Delfim (José Cardoso Pires, 1968) e o par Baltasar Sete-Sóis/Blimunda Sete-Luas, do Memorial do Convento (José Saramago, 1982). Mas também - e a justificar aplauso - o Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco (1993), o Viriato, de João Aguiar (A Voz dos Deuses, 1984), o Rapaz, de Dinis Machado (O Que Diz Molero, 1977), e o inapagável Gineto, de Soeiro Pereira Gomes, um dos melhores retratos infantis da nossa ficção (Esteiros, 1941).

Adivinharam, certamente: o escritor aqui mais representado é Eça de Queirós. Com o padre Amaro, João da Ega, o Raposão d' A Relíquia e esse prodígio digno de figurar no quadro de honra das figuras literárias portuguesas que é a eterna criada Juliana, d' O Primo Basílio (1878). Cardoso Pires, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco surgem representados com duas obras cada. E há vários autores já do século XXI: Dulce Maria Cardoso (O Retorno, 2011), Miguel Real (A Ministra, 2009), Ricardo Adolfo (Mizé: Antes Galdéria do que Normal e Remediada, 2006), Miguel Sousa Tavares (Equador, 2003) e Francisco José Viegas (Um Crime Capital, 2001), por exemplo.

O desfile não surge por ordem alfabética ou cronológica, como eu teria preferido, até para efeitos de consulta recorrente, e há lapsos muito ocasionais que poderão ser corrigidos em edições posteriores - Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, surgiu em 1944 e não em 1949, a obra mais antiga aqui representada é Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano, 1844) e não Viagens na Minha Terra. Mas é notável a capacidade de inclusão revelada por Bruno Vieira Amaral, crítico literário que foi conquistando leitores em blogues como Circo da Lama e acaba de estrear Atentado ao Pudor - prova evidente de que a blogosfera, ao contrário do que alguns juram, também pode ser um viveiro de talentos.

 

Proeza digna de registo é igualmente o modo como o autor, de forma subtil mas inegável, adapta o seu próprio estilo ao dos escritores nas personagens que destaca. Isso é evidente, para mim, nas notas sobre António Malhadinhas (Aquilino Ribeiro, 1922), o Calisto Elói, d' A Queda dum Anjo (Camilo, 1866), a Quina, de Agustina (A Sibila, 1954), e o Ricardo Reis, de Saramago (1984), entre outros.

E não há aqui romancistas "menores": todos são maiores na capacidade de inventar figuras capazes de perdurar na memória de quem lê. Este é um dos méritos mais evidentes de um livro que nos envia ao reencontro de Clara Pinto Correia (Adeus, Princesa, 1985), Mário Zambujal (Crónica dos Bons Malandros, 1980), Baptista-Bastos (Cão Velho Entre Flores, 1974) ou José Rentes de Carvalho (A Amante Holandesa, 2003).

Cada nota é sucinta, nunca excedendo duas páginas. Mas é também de uma precisão cirúrgica: Vieira Amaral consegue ir ao nervo, ao osso e à alma de cada personagem com louvável concisão e um requinte literário sem o qual esta resenha estaria condenada ao fracasso. Leiam as notas sobre Clara, d' Uma Abelha na Chuva (Carlos de Oliveira, 1953), Bento, da Seara de Vento (Manuel da Fonseca, 1958), e Tomás da Palma Bravo para confirmarem o que digo.

O título ilude: são afinal 55 personagens aqui retratadas - 50 de romance e apenas uma de conto (Léah). E quatro surgem emparelhadas (Y e Fernão, Renato e Marlene, Baltasar e Blimunda, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque). Ainda assim, um número que acaba por nos saber a pouco. Em futuras edições talvez surjam outras. O Conde de Abranhos, Jacinto ou Dâmaso Salcede, da pena inesgotável de Eça. Eusébio Macário ou qualquer outra saída da imaginação trepidante de Camilo. O João Semana, d' As Pupilas do Senhor Reitor - tão marcante que até passou para o vocabulário comum como sinónimo de médico. O Barão, de Branquinho da Fonseca. O Mariano Paulo, de Casa na Duna (Carlos de Oliveira). O jovem seminarista António Lopes, de Manhã Submersa (Vergílio Ferreira). O Alberto d' A Selva (Ferreira de Castro). A Eva Lopo, d' A Costa dos Murmúrios (Lídia Jorge).

Tantas histórias que cada uma destas personagens nos narra. E tantas outras que nós pudemos viver através delas...

 

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral

Guerra & Paz, Lisboa, 2013. 229 pp.

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"Gorduras do Estado" (76)

por Pedro Correia, em 26.04.13

Pórticos têm mais custos de manutenção do que receitas

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Ontem, 25 de Abril

por jpt, em 26.04.13

 

Já é noite, avançada até, oito e tal, subo os corredores da faculdade para a última aula do dia. Vou como vou, a gripe voltou, a telha mantém-se, longa, ríspida, como sempre o é, neste amarfanhar do trapo. Pior, serão pormenores mas tanto moem, reparo agora que tenho uma enorme mancha na camisa, café decerto, mas não tenho tempo para me mudar, vou assim aparecer diante dos alunos, qual ogre abatido. Cruzo uma colega, saúda-me, arranjo alento - esse que falta quando só - para umas palavras sorridentes. Simpática, felicita-me pelo dia, "25 de Abril", lamenta-me, companheira, por não gozar o meu feriado, mas para logo mudar, como se até arrependida, "bem, mas para ti o 25 de Abril não é nada! tu não és disso!", qualquer coisa assim .... Fico gelado, transido, balbucio qualquer coisa como "então ...?", ou nem mesmo isso, e sigo trôpego para a sala, maçar quem me espera com qualquer coisa tão distante, umas quaisquer ideias de XIX, e antes de lá chegar ainda penso "que terei eu dito?, algum dia?, para ouvir isto?".
Depois regresso a casa, o jantar tardio das quintas-feiras d'agora. Enquanto os tachos reaquecem espreito o fb no portátil, muito 25 de Abril nos meus "amigos" dali. Entre o imenso "memeísmo" que dominou tudo aquilo, lá surge uma foto real das comemorações na minha Lisboa, impante lá está o bombista e assaltante, anos preso pelas malevolências e assassinato cometidos, para depois ser "amnistiado" por via de uma "absolvição", esta brotada daquele necessário irenismo reconciliatório dos anos 80s. Todo ele, gordo, encanecido, está ali qual também símbolo do 25 de Abril, e quem o ladeia enche blogs de democráticas aspirações. A este assassino os colegas não lhe questionam a democracia, que o folclore se globalizou, resmungo para mim.

Vou-me ao peixe, trago-o no tabuleiro e vejo um pouco as notícias portuguesas. Mais comemorações. Os jornalistas questionam os "populares" sobre o significado da data, e também algumas criancinhas, aperaltadas, vestidas a rigor, cheias de símbolos (a data é simpática, mas ninguém percebe o tétrico que é adornar as crianças para este tipo de situações, quais "anjinhos da democracia"?). Todos eles respondem da mesma forma, até os bem industriados petizes, o 25 de Abril representou a liberdade.

Sorrio. Nem um desses "donos" (e filhos de "donos") da data, da democracia, se lembra de falar na paz. Que a data significa a paz. A história pátria foi bem limpa ... Apetece-me enviar um sms à minha colega, mas ela não compreenderia. Nem o teor, nem a minha irritação. Que nem é com ela.

Depois surge um "não-popular", o cantor Carlos Mendes. Opina. Que  "o que se está a passar no país é indecente". E como tal é necessário um novo 25 de Abril! Isso mesmo: temos seis colónias, cheias de barreiras raciais (mesmo que os luso-tropicais afiancem que não, e nunca desistam de o lembrar); três guerras e dezenas de milhares de tipos a fazê-las, na esmagadora maioria sem perceberem para quê. Nelas, e também na metrópole (onde Carlos Mendes continua a cantar e vai opinando, sabe Deus com que coragem) temos as prisões cheias por delitos de opinião, mais a merda da censura. Temos o povo analfabetizado, pobre como o caraças, e mais no campo ainda, onde quase metade de nós se vai arrastando entre machambeiros, malteses e ratinhos, e nem falar da liberdade de associação, seja ela qual for, e mesmo a de culto, enfim esta com muito cuidadinho - nem de dessassociação, já agora, que nada de divórcio legal, não vá a gente meter-se com ideias. Eleições está visto, vota quem está nas listas, e depois no fim ainda vai tudo à "contagem". O Presidente, não o do Conselho, falo do da República, é fascista e da pide, dizem-me ainda no fb, e vários o fazem também com grande coragem. Tem razão o Carlos Mendes, e espero que o cante. A tropa tem que se revoltar, e o povo deve segui-la, a acabarem com este estado de coisas.

Passo de canal, para o Fenerbahce-Benfica, o Magdeburgo-Sporting de hoje.

Deve ter razão a minha colega. O meu feriado não é o mesmo deste cantor. Nem o do chefe das Brigate Rosse lusas. Fico mais sossegado e, imagine-se, desirrito-me. Pois a cada um o seu folclore.

É essa a democracia. O meu feriado. Ou, melhor, o meu folclore. 

 

(também colocado no ma-schamba)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.04.13

 

Luciana Salazar

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As canções do século (1212)

por Pedro Correia, em 26.04.13

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boa noite

por Patrícia Reis, em 26.04.13

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Frases de 2013 (15)

por Pedro Correia, em 25.04.13

«É necessário uma nova revolução, pá.»

Otelo Saraiva de Carvalho

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O resultado acabou por não ser mau

por Rui Rocha, em 25.04.13

Mas notou-se muito a ausência de João Capela no eixo da defesa.

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Dois deputados que deixaram saudades

por Pedro Correia, em 25.04.13

                                     

 

É curioso: o 25 de Abril fez-se para fundar uma democracia representativa em Portugal, sufragada pelo voto universal e livre dos cidadãos. Mas raras vezes, ano após ano, vejo homenagear esse órgão concreto da democracia - com o qual tantos sonharam durante gerações - que é a Assembleia da República, símbolo supremo do nosso regime constitucional.

Espero que este lapso seja corrigido e que em 25 de Abril de 2014, quando a Revolução dos Cravos comemorar quatro décadas, possam ser homenageados 40 deputados, de diferentes partidos. Deputados que nunca foram ministros nem secretários de Estado nem presidentes de câmara nem presidentes de governos regionais: apenas deputados. Seria uma excelente forma de assinalar a instituição máxima da democracia portuguesa.

Fui repórter parlamentar do Diário de Notícias durante cinco anos e, nessa qualidade, tive o privilégio de conhecer competentíssimos deputados em todas as bancadas. E hoje, a pretexto do 25 de Abril, quero distinguir dois desses parlamentares que conheci pessoalmente: Maria José Nogueira Pinto e João Amaral. Ela claramente de direita, ele inequivocamente de esquerda.

Em legislaturas marcadas por fortes combates políticos, nenhum dos dois alguma vez cessou de tomar partido, envolvendo-se convictamente no confronto de ideias que é função cimeira do órgão parlamentar: sabia-se ao que vinham, por que vinham, que causas subscreviam e que bandeiras ideológicas sustentavam. Mas também sempre vi neles capacidade para analisar os argumentos contrários, com elegância e lealdade institucional, sem nunca deixarem as clivagens partidárias contaminarem as saudáveis relações de amizade que souberam travar com adversários políticos.

Porque a democracia também é isto: saber escutar os outros, saber conviver com quem não pensa como nós.

Lembro-me deles com frequência. Lembrei-me hoje deles também a propósito das sábias palavras que Giorgio Napolitano proferiu segunda-feira passada, em Roma, ao tomar posse no segundo mandato como Presidente italiano. "O facto de se estar a difundir uma espécie de horror a todas as hipóteses de compromisso, aliança, mediações e convergência de forças políticas é um sinal de regressão", declarou neste notável discurso Napolitano, de longe o político mais respeitado da turbulenta e caótica Itália, que festeja a 25 de Abril o seu dia nacional.

Palavras que certamente encontram eco entre os italianos.

Palavras que também deviam suscitar meditação entre nós. Palavras que a conservadora Maria José Nogueira Pinto e o comunista João Amaral seguramente entenderiam - desde logo porque sempre souberam pôr os interesses do País acima de tacticismos políticos.

Quis o destino, tantas vezes cruel, que já não se encontrem fisicamente entre nós. Mas o exemplo de ambos perdura, como símbolo de convicções fortes que - precisamente por isso - são capazes de servir de cimento para edificar pontes. E talvez nunca tenhamos precisado tanto dessas pontes como agora.

 

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A chama e o incêndio

por Laura Ramos, em 25.04.13

 

Nesse dia de Abril de 1974, ao 1º tempo, na aula de Latim, discutia-se se a revolta era de esquerda ou de direita. À época, estudava-se muito no liceu… mas não se pense que éramos parvos.
Aprendemos imenso.

Tempos antes, numa viagem a Lisboa com a professora de História, íamos rumo à Gulbenkian para a uma exposição de pintura sobre expressionismo alemão. Constará decerto dos anais, que eu eternizei numa série de fotos com a máquina do meu pai, de uma marca alemã (pfff...) com uma incómoda caixa acoplada de voluptuoso couro, coisa mais demodée.

A meio, decidimos parar, ignorantes, para um café na base da Ota, nesse tempo uma paragem normal. Aproximaram-se uns militares que, em vez de nos ralharem por estarmos a fumar - a consciência pesada devorava-nos por quase tudo, nesse tempo! - aconselharam-nos a voltar a casa, por obscuros motivos.

Viemos a saber, convenientemente depois, que era o 16 de Março. Mas fomos à exposição. A professora era durona e nós adorávamo-la.
Aprendemos imenso.


Na Páscoa anterior, durante a tradicional viagem de finalistas do '7ºano', para além da costumeira monumentália e do novíssimo 'Corte Inglés', ainda dera tempo para o meu grupo (que delicioso conceito…) abdicar com proveito de uma ida às cuevas do flamenco, à noite. E conviver com uns guapisimos muchachos no foyer do hotel, em Sevilha. Com quem falámos de política, madrugada dentro e cinzanos a esmo: Salazar, Franco, Marcelo e os americanos. Para nós, pura teoria...
Aprendemos imenso.

No liceu, a professora de Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN) era um assombro. Margarida RC dava-nos a matéria num único período (canja). E, de Janeiro em diante, conversávamos sobre cultura, autores, mundo e liberdade de expressão. Todos sabíamos que ela fora interrogada pela PIDE variadíssimas vezes. E que era socialista.

Por isso, logo no dia 26, na sua aula, desafiou-nos a lançar os livros de OPAN ao cesto, passando o nosso manual, mediante proposta aceite por unanimidade, a ser o 'Expresso'. Semana a semana, aula após aula. Até ao verão.
Aprendemos imenso.

Entretanto, a professora de Latim, ao 1º tempo do dia vinte cinco do quatro, hesitava entre as duas respostas possíveis à nossa inquietação. - Esquerda? Direita? - Endurecimento? Libertação? Abstracções puras para nós, mas o que é que, de sério, não é abstracto nesta idade?
Mal o toque soou, corremos em polvorosa rumo ao gabinete da Reitora. Tínhamos 16-17 anos e éramos 'seniores', respeitáveis pré-universitárias. A brincar à idade adulta, boas alunas, muitas de nós inscritas no mal-amado 'quadro de honra'. Disgusting...

Só que, por isso mesmo, davam-nos desconto em questões de disciplina. E algumas liberalidades.
Mulher inteligente, essa Reitora… Não mudou o seu estilo num centímetro, mas deu-nos as chaves para entrar no carro dela e, sob o olhar festivo-vigilante da contínua, sintonizar a BBC.
A chama deflagrara.

À tarde não houve aulas. O almoço foi de família italiana. E depois saímos, competentemente tutelados pelos irmãos mais velhos, deambulando pela Praça em grupos cada vez maiores, para acabar em frente à PIDE, entre centenas e centenas de povo unido: uns a berrar, outros a rir, outros a chorar, outros a pensar.
Entretanto, o liceu feminino perdera a virgindade. Entravam amigos a toda a hora. O Sérgio, o célebre Sérgio S. - nosso colega de ano, mas do liceu masculino, o 'D. João III' -, inflamava as hostes femininas, de giraço que era... Culto, civilizado, brilhante, inspirador. Falava magnificamente, como Che: em cima de um muro, no palco do ginásio, onde quer que fosse. Bonito, inteligente, ardente, luminoso (um cocktail fatal).

Eram as primícias do MRPP, sem que soubéssemos.

Desde então sempre alinhei com eles, atrás da chama. Não gostava nada dos malcheirosos e sebentos dos comunistas, pardos e feiosos, entre quem eu conhecia um ou outro trânsfuga. Só sabiam pregar-nos lições de moral, ou sabotar as RGA, ou chamar-nos de filhos da burguesia e de traidores, com aquelas caras de velhos de 40 anos...

 

Hoje tenho-lhes genuíno respeito, ao contrário de então... sendo certo que nos estragaram a vida para sempre (o incêndio).
Desmantelaram as faculdades. Puseram-nos um ano à espera de nada, enquanto saneavam professores, ferozmente e à toa. E no fim do black-out, em Novembro de 75, ainda lá estavam à espera de nós, caloiros. Continuando por bons anos a dominar aquilo. Greves manipuladas, desordem, boicote às aulas... até que Sottomayor Cardia chegou para eles e pôs termo ao baile.
O PC foi, francamente, um verdadeiro estorvo.


Ganhei em cidadania e humanidade, sim...
Ganhei em tantas coisas. Mas perdi uma escola superior como devia ser. E esta coisa do ensino nunca mais se endireitou.
Mesmo assim, digo eu, valeu a pena.

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Isaltino vai continuar a gerir Câmara na prisão.

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Meu caro 25 de Abril

por Gui Abreu de Lima, em 25.04.13


Naquele último ano em Angola eu tinha feito uma exemplar 1ª classe. Lia todos os reclames da cidade com destreza, contava dinheiro sem dúvidas e inaugurava-me nos caminhos da Liberdade. Vagueava pelas ruas, juntava-me a uns quantos como eu, e a praia Morena era toda nossa. Eu já estava lançada e a minha família habituada, quando vossemecê apareceu todo badalado. Foi vir e ver: só desgraça, só confusão. A bem dizer, tramaste-me a vida. E não foi pouco. Estava tudo muitíssimo bem encaminhado lá em Benguela. Tudo sobre rodas, 25! A minha Liberdade acabou quando a tua começou. Isso não gostei. Não gostei mesmo, ó 25.


Foto: Carlos Pires

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As canções do século (1211)

por Pedro Correia, em 25.04.13

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25 de Abril. Agora e sempre

por João André, em 25.04.13

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Fotografias tiradas por aí (126)

por José António Abreu, em 24.04.13

Guimarães,  25 de Abril de 2005.

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Bandeira de Papel

por Bandeira, em 24.04.13

José Bandeira/DN

José Bandeira/DN

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