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É, ou não, mérito do Governo o regresso aos mercados?

por José Maria Gui Pimentel, em 31.01.13

Embora concorde genericamente com a estratégia seguida, a verdade é que a resposta objectiva é: não. Desde o início de Setembro, o spread da dívida portuguesa face à alemã tem diminuido bastante, mas tem-no feito grosso modo paralelamente ao das dívidas dos restantes "periféricos" (na verdade a queda do spread da dívida grega foi bem mais pronunciada, tendo começado a descolar depois das decisões de novembro do Eurogrupo).

 

Daqui se percebe que a súbita queda do spread -- que se encontra já em quase metade dos valores de início de Setembro -- não resultou de nenhum factor específico de Portugal. Isto não invalida, ainda assim, que o Governo possa com alguma propriedade argumentar que as suas políticas -- nomeadamente a relativa acalmia conseguida, apesar de tudo, nos últimos meses e a aprovação do Orçamento -- permitiram que os factores externos que beneficiaram a dívida portuguesa pudessem actuar.

 

A propósito, ao contrário do que tem sido dito, esta pronunciada diminuição da pressão dos mercados não se deveu exclusivamente aos comentários de Mario Draghi -- afirmando estar disposto a fazer tudo quanto necessário para salvar o euro -- e às subsequentes medidas do BCE. Resultou também da determinação demonstrada, finalmente, pelos líderes políticos europeus (particularmente Angela Merkel) em manter o euro unido, e, mais do que isso, ao facto de os chamados países core terem tomado medidas que os levaram a um ponto praticamente de não retorno. Em suma, Portugal encontra-se subitamente no caminho de regresso aos mercados essencialmente devido ao facto de os decisores europeus terem empenhado capital, político e monetário na sobrevivência da moeda-única.   

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Um abraço colectivo ao Adolfo

por André Couto, em 31.01.13

Sou politicamente insuspeito no elogio ao nosso Adolfo Mesquita Nunes, a quem hoje foi entregue a Secretaria de Estado do Turismo. Estou certo que todos neste espaço, autores e leitores, lhe damos a maior força, certos de que estará à altura de tão nobre desafio.
A aposta no Turismo por parte do Governo tem sido curta e, diga-se, por parte da oposição as críticas têm sido estilo calças pelos tornozelos. Não é preciso, no entanto, ser visionário, para perceber que este pode ser um sector chave na recuperação económica do País, através da geração de emprego e captação de investimento. Até a aparente sazonalidade deste sector pode ser contornada, Portugal não é só um País de praias, havendo todo um outro País a divulgar...
O Adolfo Mesquita Nunes sabe isto melhor que nós. Este é um dia feliz, porque alguém indubitavelmente competente foi designado para o Governo.

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"Gorduras do Estado" (71)

por Pedro Correia, em 31.01.13

Câmara do Seixal usa dinheiro do Estado no aluguer de autocarros para manifestações

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Péssimo ou forward to the past e back to the future

por José António Abreu, em 31.01.13

Vejamos então, da frente para trás para que os nossos cérebros extenuados possam ir suavemente relembrando os gloriosos pormenores do passado recente. Os governos de José Sócrates constituíram o paradigma da teimosia suicida, tendo conduzido o país ao limiar da bancarrota. A curto prazo dificilmente serão ultrapassados em arrogância, miopia, estupidez. O governo de Santana Lopes foi um curto mas intenso concentrado de trapalhadas acerca do qual (e das quais) quanto menos se disser, melhor. O governo de Durão Barroso começou com o discurso certo e, perante a resistência dos poderes instalados e uma comunicação social ignorante e hostil, acabou em desistência e fuga. Os governos de António Guterres aproveitaram a abundância de dinheiro barato proporcionado pela descida das taxas de juros para distribuir benesses e fazer crescer o Estado. Fugiram sempre de qualquer medida que suscitasse pigarreio à oposição ou às corporações (as quais, pelo papel cada vez mais decisivo do Estado na economia, se iam tornando mais fortes) como o diabo foge da cruz (analogia em honra do catolicismo de Guterres que, talvez por causa dele, foi até agora o único a admitir pecados) e acabaram no famoso – mas largamente ignorado – discurso do pântano. Os governos maioritários de Cavaco Silva aproveitaram a abundância de dinheiro europeu para estabelecer o modelo baseado no Estado e nas obras públicas que nunca mais foi possível alterar. Ah, e também o modelo da arrogância, que Sócrates emulou e – no que parecia impossível – melhorou através da injecção de uma dose cavalar de histrionismo. O governo minoritário de Cavaco Silva foi excelente a aproveitar o trabalho do governo anterior (já lá vamos) e as primeiras consequências da entrada na então CEE. O governo de Mário Soares e Mota Pinto enfrentou uma situação de pré-bancarrota com coragem e determinação mas também mais instrumentos do que hoje se encontram disponíveis e um Estado que, por menos pesado (cerca de 36,5% do PIB), gerava menos inércia. O governo de Pinto Balsemão levou o país ao limiar da bancarrota e o melhor que se poderá dizer é que o fez com mais ingenuidade e muitíssimo menos arrogância do que o de Sócrates. O governo de Sá Carneiro e Freitas do Amaral estabilizou o sistema político ao demonstrar que a direita (uma direita muito centrista mas era a possível) podia ocupar o poder. A nível económico, porém, não merece os mesmos elogios, tendo aproveitado a retoma que se seguiu à pré-bancarrota de 1978 para políticas eleitoralistas (sensivelmente o mesmo que Cavaco faria em 1985). Os governos de Maria de Lurdes Pintassilgo, Mota Pinto e Nobre da Costa foram períodos da mais pura e inadulterada confusão política e económica. Por culpas próprias e inevitabilidades dos tempos conturbados que se viviam, os primeiros governos de Mário Soares (em 1978, com apoio parlamentar do CDS), conduziram o país ao limiar da bancarrota. Com os governos de Pinheiro de Azevedo, Vasco Gonçalves e Adelino da Palma Carlos não vale a pena perder tempo, até porque o meu cérebro extenuado foi ficando cada vez mais extenuado, encontrando-se agora tão lento como um computador de 1995 tentando correr o Windows 8. Ou se calhar o Vista. Ou o cérebro de António Guterres tentando calcular uma percentagem do PIB.

 

Primamos a tecla » de modo a fazer avanço rápido até ao presente e sejamos claros: como tanta gente afirma com admirável convicção, o governo actual é péssimo. Honestamente: péssimo. Usa e abusa dos aumentos de impostos, garante o que devia saber não poder garantir, adia medidas que não devia adiar, tem ministros que não deviam ser ministros há cerca de um ano e melhor seria nunca o terem sido, permite excepções a regras anunciadas como universais, faz reformas tímidas quando pagaria quase o mesmo preço fazendo reformas a sério, permite, por culpa própria, especulação em torno de processos que deviam ser transparentes, etc, etc. E, contudo, sendo péssimo, numa perspectiva de mérito (ou, se preferirem, da relação esforço desenvolvido / dificuldades encontradas), trata-se provavelmente – e ponderei o que vou escrever durante, sei lá, para cima de cinco segundos – do melhor governo que tivemos nas últimas duas dúzias de anos, quiçá em toda a Terceira República. Por mim, apenas o do Bloco Central e o primeiro da AD podem disputar-lhe o lugar. Os restantes ou foram catastróficos ou governaram em tempo de vacas gordas sem pensar no futuro – e assim é fácil. Apesar de todos os seus erros – muitos, enormes –, este é o único desde há décadas que se encontra verdadeiramente a procurar corrigir o modelo de funcionamento da economia portuguesa no sentido da sustentabilidade. Coisa de somenos, está bem de ver, destinada, como a história do pós-25 de Abril amplamente demonstra, ao mais tonitruante aplauso público e retumbante sucesso.

 

Mas, na realidade, nem precisamos de ficar pelo 25 de Abril. Atendendo a que os governos imediatamente anteriores ao dito também não eram recomendáveis, para encontrar melhor (ou menos mau) teremos de recuar até... até... credo, é demasiado deprimente pensar nisso. Tal como constatar quão repletas de nada as alternativas permanecem, incluam ou não esse estandarte da boa gestão da coisa pública (é o que ouço dizer) chamado António Costa, devidamente acolitado pelos saudosistas do grande flâneur dos boulevards parisienses.

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«A educação não é a preparação para a vida - é a própria vida.»

John Dewey (1859-1952)

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As canções do século (1127)

por Pedro Correia, em 31.01.13

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Ler

por Pedro Correia, em 30.01.13

Êxito. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

À pressa. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Sr. Luís.

Muitíssimo apressados. De Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado.

De joelhos. De João Miranda, no Blasfémias.

Histórias da nossa terra. Do Filipe Tourais, n' O País do Burro.

Bichos. Do Miguel Cardina, no Arrastão.

Memória da esquerda da esquerda. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Quando for grande quero ser... Da Joana Nave, no Forte Apache.

A grande ilusão. De José Carlos Alexandre, n' A Destreza das Dúvidas.

Hoje regressei ao mercado. De Carla Romualdo, no Aventar.

Leonard Tarantino. De Pedro Góis Nogueira, no Desertações.

Obama, Tarantino e Shakespeare. Do João Lopes, no Sound + Vision.

'Django Libertado', de Quentin Tarantino. De João Torgal, no 5 Dias.

Morte certa. De Carla Ferreira, n' Uma Mulher não Chora.

Tenho uma chávena quente entre as mãos e o cão repousa sobre os meus pés. De Mel, no Coração Independente.

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ARGO

por Ana Vidal, em 30.01.13

 

Não fora a garantia de ser uma história verídica e eu diria que ARGO era mais uma dessas xaropadas inventadas pelos EUA para enaltecer a pátria e manter os níveis do orgulho nacional, tal é a concentração dos clichés habituais: a supremacia americana a vencer em todas as frentes, da heroicidade à inteligência, da abnegação ao humor, da moral à razão. Mas, por incrível que pareça o happy ending, os factos aconteceram mesmo e os protagonistas estão bem vivos para contá-los. Comprovam-no também as imagens do genérico final, comparando fotografias retiradas do filme com outras, reais, das mesmas situações (a propósito, esta sequência faz-nos tirar o chapéu à excelência do casting). ARGO dá-nos conta de uma curiosa história de espionagem, ocorrida com um grupo de diplomatas americanos encurralados em Teerão, logo após a revolução de 1979 que depôs o último Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi, e instalou no Irão a "democracia" do Ayatollah Khomeini. É também um tributo à cooperação diplomática entre países, e esse foi um dos motivos para que o presidente Clinton tornasse público, muitos anos depois, um incidente até aí mantido secreto e guardado a sete chaves pela CIA. A história - mais uma prova de como a realidade ultrapassa tantas vezes a ficção em matéria de improbabilidade - é mirabolante e deliciosa. Não quero estragar-vos a surpresa, não a contarei aqui. Dir-vos-ei apenas que vale a pena ver o filme: a reconstituição da época é rigorosa e funde-se muito bem com os vários excertos de documentários reais, usados para reforçar a ideia de autenticidade. 

 

Registei um pormenor, entre tantos outros, porque me incomodou: ajudado pelos parceiros ocidentais de quem fora aliado durante todo o seu reinado, o Xá foge do Irão in extremis, como é sabido, trocando pelo exílio a prisão ou uma execução sumária. Parte num avião privado," de tal maneira carregado de ouro que mal conseguiu levantar do chão". Não consigo deixar de pensar que é nestes momentos, exactamente nestes momentos, que se revela um carácter. Quantos dos seus apoiantes mais fiéis, deixados para trás e entregues à fúria dos revoltosos para uma justiça apressada e mais do que duvidosa, teriam cabido naquele avião em vez do ouro, em igual peso? E quantas vezes, durante os parcos meses que decorreram entre esse episódio e a sua morte no exílio, rodeado de um luxo tão exagerado como inútil perante um cancro, terá pensado o Xá nesse seu gesto? 

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Fotografias tiradas por aí (112)

por José António Abreu, em 30.01.13

Foz do Douro, 2010.

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(Um postal propositado para um outro blog onde escrevo, e com tema algo excêntrico ao Delito de Opinião. Mas, como se diz em inglês, aqui fica "para quem possa ter interesse".)

 

Há um ano escrevi num blog (e no Canal de Moçambique) sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique, e no meio deixei: "Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isso vai levantar questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e vão assumir uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito “complexo do Equador”, que torna “doutor” quem o atravessa – coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como “tuga” (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão (“senhor(a), você está no estrangeiro” é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, “que raio de gente, etc e tal", como se fossem laurentinos enjoados com os colonos rurais, transmontanos ou madeirenses, vindos para o Chockwé nos tempos idos. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze – como eu – ou, poucos, há mais anos ainda)."

 

Nos últimos dias recebo várias mensagens com uma "carta aberta aos portugueses", a qual vejo também reproduzida no facebook e na comunicação social. Ecoa o mal-estar com esta imigração e termina com um conselho explícito: que mantenhamos a bola baixa. Sucede-se a algumas outras discussões de facebook (vi algumas, contam-me outras) que realçam o desagrado com a situação actual. Umas explicitando o porquê desse desagrado (mais ligadas às questões da imigração ilegal), outras aludindo a uma generalizada má-vontade dos recém-chegados. E outras pura e simplesmente, considerando os portugueses aqui prejudiciais ("os portugueses são todos mal-educados" li recentemente, e engoli).

 

Esta carta chega-me, e em tons de concordância, por parte de amigos moçambicanos (alguns do grupo socio-etário da sua autora, até dela amigos pessoais), e por parte de amigos portugueses aqui há longo tempo residentes ou ex-residentes de longo prazo. E também por outros patrícios, entre o incomodados e o até receosos, sobre o que isto significa, o que pode induzir. Não se exagere, é um fenómeno normal, também no nosso país, e em tantos outros, a chegada de imigrantes provoca reacções de incómodo. E, em particular, quando estão inseridas num tipo de relacionamento histórico como este, ex-colonial.

 

A questão desta "carta aberta" ultrapassa o seu conteúdo ou mesmo o contexto sociológico muito particular da sua realização. E até mesmo o facto de eclodir na sequência da questão recentemente levantada dos vistos de entrada, cujo incremento de controlo advém da mais normal, e salutar, actividade administrativa. A questão central será até mais a da sua recepção e reprodução (partilha electrónica e conversacional).

 

Alguns pontos gostava de deixar, em corrida, pois por demais atarefado para textos sistematizados:

 

a. Em finais de XX também houve afluxo de portugueses, normalmente quadros ligados a grandes ou médias empresas, ou pequenos e médios investidores. Uma menor dimensão quantitativa e com outras características sociológicas (para facilitar chamo-lhes "expatriados", no sentido de melhor situação socioprofissional e com lugares de recuo). A reacção foi, e as pessoas esquecem-se, bastante mais adversa. Não só porque isto significava a chegada de capital (financeiro, fundamentalmente) português, e nisso parecendo assumir contornos do "neo-colonialismo". Mas também porque as memórias do período colonial, da guerra de independência (e da civil) eram mais vivas. E ainda porque a "classe média" urbana tinha menores disponibilidades e sentia mais o peso competitivo dos quadros estrangeiros. E a questão de Cahora-Bassa não estava ainda terminada, pois continuo a pensar que o final desse processo significou um "degelo" nas relações entre países e, por arrasto, entre sociedades.

 

Quando falo em "reacção adversa" falo de discursos públicos, de personalidades conhecidas. E das "cartas de leitores" aos jornais (e quão célebre era a correspondência, vera e fictícia, no jornal "Notícias"). Alusões e acusações a desmandos e maus tratos (e a escândalos económicos) juntaram-se. Umas teriam fundamento (a mácula de uma grande aldrabice bancária foi terrível) outras nem tanto (a primeira vez que escrevi num jornal moçambicano foi para defender um amigo, administrador de uma empresa, que estava a ser, prolongada e injustamente, escalpado no jornal "Savana". E ainda hoje lembro a gratidão ao Augusto Carvalho por ter intercedido no "Domingo" para que ali me publicassem o justíssimo desagravo).

 

Interessante no processo actual, bem menos intenso, é que se centra no mundo do "facebook", evidenciando a força do novo espaço de discurso público em Moçambique. E fazendo notar que neste espaço, muito menos hierarquizado, as vozes descontentes que se expressam estão mais entre os cidadãos comuns do que nas personalidades da elite político-cultural. Haverá, ponho como hipótese, menos "política" neste expressar do desagrado.

 

b. A sociedade portuguesa indiscutiu o colonialismo. Ou seja, manteve a sua histórica inconsciência colonialista, muito baseada no velho mito do "modo especial de ser português", aliás, do "modo especial de ser colono". Isso implica a manutenção, fluída, de estruturas mentais sociais que condicionam categorizações e relacionamentos, as quais subsistem, como é óbvio, numa multiplicidade de conteúdos - entenda-se, "cada um como cada qual", ou seja, as perspectivas individuais não são determinadas mas são, isso  sim, influenciadas.

 

Esta "inconsciência", este impensar do passado, não num sentido automortificador mas sim com uma veia prospectiva, continua a ser sublinhada por discursos dominantes. O actual pico da literatura "leve" que evoca a "boa África colonial" ajudará, a continuidade da ideia da "lusofonia" como espaço comum (e com a sua excrescência mal-cheirosa Acordo Ortográfico) é disso motor. A ideia de que as realidades históricas eram brutais desvanece-se. E quase inexiste a ideia que essa brutalidade era sistémica, como lhe chamou Sartre. Estas coisas estão escritas, e há muito. Pegue-se no "O Fascismo Nunca Existiu" (1976) de Eduardo Lourenço e vejam-se os luminosos textos dedicados ao (im)pensamento português sobre a relação colonial com África (escritos entre 1959 e 1976!!!) e está lá quase tudo, numa poderosa análise que as décadas seguintes só vieram sublinhar.  Lourenço é muito falado, premiado, elogiado. Mas parece ser pouco (re)lido. A dimensão sistémica colonial da sociedade e economia portuguesa (e metropolitana) está explícita em textos pioneiríssimos de José Capela ainda do início de 1970s, e depois demonstrada no excelente "Fio da Meada" de Carlos Fortuna, um marco já nos anos 90s. Mas dá a sensação que não ultrapassam o meio académico que os respeita. Os extraordinários textos de Grabato Dias (António Quadros) são esquecidos, que de "leves" e "miríficos" nada têm.

 

Porquê este rodeio bibliográfico? Porque o desconhecimento das realidades históricas e a armadilha da "língua comum" produz em Portugal uma visão de África(s) e categorizações menos actuais do que se pensa, portanto menos úteis, menos utilizáveis, menos propensas a um relacionamento desmaculado (o "imaculado" não é uma palavra ... humana). E implica também muita surpresa, o deparar com ambientes menos propícios aos portugueses do que quantas vezes se pensa, se antevê. Ambientes diversos sociologicamente e diversos nacionalmente, pois não há uma una relação "portugueses-ex-colónias". Mas é tudo, como não poderia deixar de ser, bem menos fraterno do que o nosso (português) senso comum produz.

 

E talvez este tipo de discursos posssa servir, empurrar, para que se pense melhor. Não "de bola baixa". Mas de "bola alta".

 

c. A polémica carta pega em excertos discursivos de portugueses sobre Moçambique (recolhidos aquando das polémicas no facebook sobre o fim da atribuição de vistos de entrada nas fronteiras). São entendidos como significativos, os discursos na internet baseando uma indução sobre os portugueses. Para mim este é também um ponto interessante, pelas novas dinâmicas do discurso público e das suas utilizações e interpretações, que demonstra. Pois ao longo dos anos acompanhei os discursos electrónicos sobre Moçambique, em particular no bloguismo. Com a fantástica colaboração do Paulo Querido, organizei o directório "ma-blog", continuado depois com o Vitor Coelho da Silva no PNetMoçambique. Conheci centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Muitos, muitos mesmo, escritos por portugueses. E vários destes por portugueses em Moçambique, voluntários, missionários, cooperantes, turistas, imigrantes, investigadores (como exemplo muito actual este Beijo-de-mulata,  recentemente editado em livro em Portugal).

 

E o que me foi sempre notório, até como analisável, é o facto da (re)produção do encanto nesses blogs. Um encantamento, solidário com as pessoas, embrenhado na natureza, curioso com a história, preocupado com o real e o futuro. Quantas e quantas vezes ingénuo, namorando o exótico, até pa/maternalista, e eu face a isso resmungando. Mas um generalizado tom nos discursos electrónicos portugueses aquando em Moçambique. Oposto, até inverso, ao produzido em discussões de facebook que quase de certeza têm locutores sociologicamente distintos, e na sua esmagadora maioria bem longe do país, cruzando ainda as dores de um "luto colonial", de teimosia imorredoira. E nisso muito mais ligados às concepções (históricas) que acima refiro.

 

Deste modo, também por tudo isto, assentar a tese da malevolência portuguesa (ou da significativa malevolência portuguesa, mesmo que não universal) no "picanço" a la carte desses exemplos mais ultramontanos (ainda que eles sejam, porque o são, recorrentes em alguns contextos electrónicos) me parece francamente letal. Para quem escreve. Não para quem ouve e lê.

 

d. Depois, e por fim, o óbvio e mais importante. Moçambique como "terra de oportunidades"? Como penúltimo passo deste generalizado "go south" africano? Como espaço de mineração e garimpo? Como país que vive uma continuada pacificação e um anunciado desenvolvimento? Como terra de gás e petróleo? Esta é a realidade das representações que o país tem, de momento, no contexto internacional. O problema são os imigrantes portugueses (com as suas características)? Ou é a capacidade do país conviver com o fluxo tão diversificado de imigrantes e de migrantes? O qual foi, inclusivamente, saudado há pouco por um membro do governo como dimensão do desenvolvimento e globalização sentidos no país.

 

A classe média maputense choca-se com a imigração portuguesa, legal e ilegal. E tem razões sociológicas para tal, deixemo-nos de exagerados prudidos. Expressa-as publicamente (jornais, redes sociais). Mas se cruzarmos a sociedade nas suas várias dimensões encontramos outras preocupações com tantos outros núcleos estrangeiros. No norte com os "tanzanianos", nos pequenos comerciantes com os "nigerianos", generalizadamente com os "indianos", em tanta gente com os chineses (sem aspas, pois são realmente chineses contrariamente aos outros universos), nos quadros também com os "sul-africanos", há alguns anos no centro do país com os "zimbabweanos". Etc.

 

A questão é bem mais vasta. E apaixonante. É a de incrementar a capacidade administrativa para dirimir este desafio que a imagem de progresso do país provoca, o fluxo imigratório. E de fazer coexistir isso com desenvolvimento económico e com justiça social - sim, atentando que nestas mobilidades os défices de capital cultural ou económico dos cidadãos nacionais podem ser (podem ser, sublinho) prejudiciais para a justiça social. Ou seja, os desafios do país são enormes, não são os "200 portugueses por mês" (que Núria Negrão, autora da "carta aberta", afirma) - por piores que estes sejam, que nós sejamos.

 

Por tudo isto, ver os meus amigos intelectuais, académicos, empresários ou funcionários burgueses, a maioria deles auto-situando-se "à esquerda" (no espectro político moçambicano esta polaridade inexiste, mas na linguagem autodefinidora funciona), até ecoadores do "indignismo" globalizado, a aplaudirem textos sociologicamente tão débeis, generalizações a roçarem o mero preconceito, e invocações do "respeitinho", do "bater a bola baixa", que aludem ao mais medonho do autoritarismo, é-me doloroso.

 

Até porque, e ainda que não esquecendo (daí a arenga histórica acima colocada) o particular contexto histórico desta imigração portuguesa, a construção de sociedades democráticas é também a defesa de que os imigrantes, não deixando de ser estrangeiros, "batam a bola alta", sejam cidadãos. Metecos, como [me] reclamo. Desajustados, até mal-criados, se calhar. Mas não rasteirinhos.

 

Oxalá.

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Abriu oficialmente a época dos fenómenos

por Rui Rocha, em 30.01.13

Onda surfada por Garrett McNamara na Nazaré media 34 metros.


Couve de Caneças atinge 4 metros de altura.


Álvaro Beleza afirma que Seguro saiu da reunião do PS como "o grande líder".

 

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Exercício de... português?

por Ana Vidal, em 30.01.13

Acabo de ter acesso, através de uma mãe desesperada, a este exercício de português para o 10º ano:

 

«Funcionamento da língua:


1. A coesão* referencial do texto assenta, sobretudo, na co-referência anafórica pronominal que assegura os segmentos do discurso.

1.1. Considerando o referente «eu» (v.3), apresenta:

a) uma catáfora

b) os co-referentes anafóricos pronominais da segunda volta

c) duas elipses.»

 

(*A "coesão" é definida desta forma, para quem tiver dúvidas: «o termo que designa os mecanismos linguísticos de sequencialização que instituem continuidade semântica entre diferentes elementos da superfície textual». Logo, «"coesão referencial" é a interdependência de fragmentos textuais assinalada por co-referentes, dando origem a uma cadeia referencial». Esta açorda linguística vem acompanhada de outros mimos igualmente perceptíveis, tais como: coesão interfásica, temporo-aspectual, co-referência anafórica, coesão lexical, etc. Tudo muito coeso e facílimo, como se vê.)

 

Ainda vou na primeira volta e já estou em estado catafórico. Dou graças aos céus por já não ter filhos (e ainda não ter netos) em idade de precisarem de ajuda com os trabalhos de casa, porque me sentiria pouco mais do que atrasada mental. O drama é, afinal, muito mais extenso do que a imposição de um estúpido e inútil acordo ortográfico. O problema de fundo é que o funcionamento da língua não funciona.

 


 

Adenda: Não resisto a trazer a esta discussão o contributo da grande Natália Correia. É preciso chamar os bois pelos nomes, e poucos o fizeram como ela. Neste caso, as vacas (sagradas?).

 

Língua Mater Dolorosa

 

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luís Vaz a chama joalhada

 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

 

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda... mas de vaca.

 

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O regresso de Nick Cave

por José António Abreu, em 30.01.13
 

Estou tão consciente de que o imaginário dele transborda de sexo e de morte que até já me atrevi a perorar sobre o assunto (1, 2, 3, 4) mas não sei o que pensar da capa do álbum:

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«O igualitarismo doutrinário esforça-se em vão para contrariar a natureza, biológica e social, e não conduz à igualdade mas à tirania.»

Raymond Aron (1905-1983)

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Puseram o Costa à frente dos boys

por Rui Rocha, em 30.01.13

Apesar das expectativas, a montanha do Rato não pariu até ver mais do que um Seguro. Todavia, as movimentações e declarações que precederam a comissão política do PS permitem chegar  a algumas conclusões:

 

1) Costa tinha (tem) vontade de avançar para a liderança do partido. Se não fosse assim, teria picado muito mais cedo a bolha que se criou à sua volta. O silêncio que manteve e fez questão de sublinhar ao longo de vários dias sobre as suas intenções tem valor declarativo.

 

2)  O primeiro problema de Costa é a paspalhice de Seguro. Parecendo que não, é complicado apresentar uma alternativa a algo que não existe. A alternativa implica dois caminhos. Um que está a ser trilhado e outro que se lhe quer contrapor. No PS actual, falta desde logo o primeiro.

 

3) O segundo problema de Costa é a ausência de projecto político próprio e estruturado. O propósito de substituir a esqualidez e o arquear de sobrancelhas de Seguro pelo frondosidade de Costa e do seu sorriso parece insuficiente. Costa fala melhor, é mais incisivo, não tem cara de palonço? Poderá ser verdade, mas não chega. Costa sabe disso.

 

4) Não há surfista que não sinta atracção pelo mar. Mas é preciso saber escolher a onda. Costa percebeu que a onda que tinha para surfar não era a dele. Era a dos órfãos daquele que não pode ser nomeado. E Costa percebeu ainda que, se avançasse contra Seguro como general de um exército composto por soldados ainda intrinsecamente fiéis a lideranças pretéritas, mesmo em caso de sucesso seria refém e não vencedor.

 

5) Costa esperará por uma onda que lhe sirva. Para a poder surfar, precisa de uma prancha (um projecto político diferenciador) e de a ver como a sua onda: uma vaga política que possa surfar com autonomia, independência, apoiado num exército que possa considerar seu e sem interferências de terceiros. Não é claro que essa onda ainda possa aparecer em tempo politicamente útil.

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Derrotado em toda a linha.

por Luís Menezes Leitão, em 30.01.13

 

A ala socrática do PS deixou-se de tal forma contaminar pela irrealidade, que julgou que bastava um jantar com o seu querido líder para poder patrocinar uma espécie de Revolta na Bounty no PS. António Costa seria o imediato que destituiria o Capitão Bligh, que os socráticos odeiam por ser incapaz de cantar hossanas ao Governo anterior que atirou o país para a bancarrota. Para isso António Costa já andava à procura de figuras no PS que disputassem a Câmara de Lisboa, mas ninguém se mostrou disponível para defender a desastrada gestão de Costa/Salgado à frente da capital.

 

Seguro surpreendeu, porém, tudo e todos, e desafiou os adversários a ir a jogo, mostrando as suas cartas. De caminho pôs os pontos nos is, referindo não admitir que "nenhum combate político seja condicionado por agendas pessoais, pela mera ambição pessoal e o regresso ao passado". António Costa teve que mostrar assim que só tinha ternos e duques, pelo que recuou em toda a linha, evitando um confronto em que seria humilhado. Vê-se agora obrigado a disputar a Câmara em muito piores condições, uma vez que os lisboetas não esquecerão esta tentativa de fuga, a acrescer ao desastre das sua gestão.

 

Do lado do Governo, porém, as coisas não estão muito melhor. Esta debandada de secretários de Estado pode ser uma clara indicação de que já perceberam que o navio se afunda. Eis como Seguro pode passar num ápice de quase derrotado a plenamente vitorioso. It's politics, stupid.

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As canções do século (1126)

por Pedro Correia, em 30.01.13

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France Gall e os lollipops

por Adolfo Mesquita Nunes, em 29.01.13
A razão pela qual cheguei a France Gall é suficientemente ridícula para que a deixe para outra ocasião. Mas foi nesse momento, em que a vi e ouvi cantar, que começou esta minha - também ela ridícula - queda por cantoras de vozes limitadas, na vertigem da afinação e sempre à beira do abismo. Mas voltemos a France Gall, que é dela que quero falar. Quem a visse cantar as músicas de Serge Gainsbourg, ainda adolescente e com ar inconsciente, não podia deixar de perguntar: mas sabe ela o que está a cantar, percebe ela o significado das coisas que o Gainsbourg lhe escrevia para cantar?

O duplo sentido das canções de Gainsbourg era evidente, sobretudo quando coladas a uma ninfeta como Gall. Mas mesmo que não fosse evidente, seria sempre presente. E bastava saber que vinham de Gainsbourg para que a certeza se instalasse: estas letras dizem muito mais do que a mera literalidade. E France Gall, sabia? Quando, ninfeta, lambia lollipops em Les Sucettes, sabia o que estava a fazer? Sabia a imagem que emprestava a pedaços de letra como este: Lorsque le sucre d'orge, parfumé à l'anis, coule dans la gorge d'Annie, elle est au paradis? E quando, de boca sensual, se dizia uma boneca de cera à mercê de tentações, em Poupée de Cire, Poupée de Son, sabia o que estava a fazer? Sabia o que aquele beicinho ilustrava quando cantava elles se laissent séduire pour un oui, pour un nom?

Na altura em que ouvi pela primeira vez France Gall, algures no princípio dos anos 90 (estas canções são do começo da carreira dela, lá para 1965 e 1966) não havia internet e as perguntas que me fiz, numa altura em que, à conta de uma mãe absolutamente francófona, me iniciei na música francesa, ficaram sem resposta. Há uns tempos lembrei-me de France Gall, não vou dizer a propósito de que outra cantora, e fui procurar a resposta.

Ela está aqui, numa pequena entrevista, que partilho convosco. A ninfeta France Gall não sabia, ou diz que não sabia. Sentiu-se, de certa forma, enganada e traída pelos adultos que a rodeavam, e o momento em que se viu enganada marcou-a para sempre, alterando a forma como via e se relacionava com os rapazes. Curiosamente, esse é o tema de Poupée de Cire..., canção que, ao lado de Les Sucettes, foi banida do seu repertório. Chega a ser comovente a forma como France Gall, em imagens antigas mostradas na entrevista, descreve, alheada, uma letra que contava uma história um pouco mais densa do que aquela de 'rapariga que gosta de lamber lollipops'.

Esta história lança várias discussões (o papel dos adultos que rodeiam jovens cantores, a moralidade de autores como Gainsbourg quando escondem, ou parecem esconder, desses jovens cantores o significado das letras que estes manifestamente não alcançam, etc...), que podem correr nas caixas de comentários. Não quis foi deixar de partilhar esta história, real, que me parece demasiado actual, 40 e tal anos depois. 

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Frases de 2013 (5)

por Pedro Correia, em 29.01.13

«Qual é a pressa?»

António José Seguro há seis dias (parece ter sido há seis meses...)

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Efeitos do aborto ortográfico

por Pedro Correia, em 29.01.13

 

Já ouvi hoje, pela primeira vez, na televisão: alguém afirmou de dedo em riste que se "de têta" não sei o quê "no mapa". Era de esperar.

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Esta é que eu nunca tinha ouvisto

por Rui Rocha, em 29.01.13

Relvas afirma que a RTP não pode ser fundo sem poço.

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A sucessão de Beatrix

por João André, em 29.01.13

 

Ontem a Rainha Beatrix da Holanda (não gosto da "tradução" de nomes, mesmo de monarcas) comunicou ao país que no dia 30 de Abril, o dia da Rainha, abdicaria do trono em favor do filho mais velho, Willem-Alexander. A razão invocada foi o seu 75º aniversário e os 200 anos da Holanda como país. Nos seus 33 anos de reinado, Beatrix conseguiu construir uma influência determinante para a harmonia do país. Não tendo muitos poderes reais, Beatrix será hoje a mais influente figura política do país. Mesmo no mundo a sua influência não é de desprezar, sendo desde há muito participante assídua das conferências Bilderberg, as quais tiveram como figura fundadora o seu pai. A sua abdicação era já prevista há vários anos (era mesmo um dos tópicos permanentes das previsões de início de ano) e tornou-se ainda mais provável quando o seu filho Friso ficou em coma após ser soterrado por uma avalanche em 2012.

 

A maioria dos holandeses parece estar algo triste com o afastamento da rainha Beatrix. Trata-se de uma monarca popular e geralmente considerada como bastante inteligente. Tais virtudes são ainda mais exaltadas quando colocadas em comparação com as do filho, Willem-Alexander, que é visto como não particularmente inteligente, desinteressante (Máxima, a sua mulher, ter-lhe-à emprestado alguma cor) e como alguém que deixa a população algo indiferente.

 

As minhas impressões pessoais vão no mesmo sentido, mas claro que apenas o futuro o dirá. Seja como for, este episódio de sucessão ilustra bem o anacronismo de um sistema que, em pleno século XXI, continua a deixar que uma pessoa possa decidir sozinha quem será o futuro chefe de estado de um país, baseando-se essencialmente no facto de ser o seu filho mais velho. Esta falta de entusiasmo por Willem-Alexander apenas sublinha o quão caricato é o caso. Não vejo quaisquer mudanças no horizonte próximo, mas talvez uma futura sucessão em Inglaterra comece a trazer estas discussões mais à baila nas monarquias europeias.

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«O mais esplêndido não é / a beleza, por profunda que seja, / mas a clássica tentativa / de beleza, / no meio do charco.»

William Carlos Williams (1883-1963)

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Duopéssimos

por Rui Rocha, em 29.01.13

Esta trapalhada dos duodécimos faz lembrar um daqueles casos em que os amigos do alheio levam o dinheiro e ainda te deixam a casa em pantanas.

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Do sul sempre com sede de sol

por Pedro Correia, em 29.01.13

Um dia, Rodrigo, verás como nascer no Alentejo é algo que deixa marcas indeléveis. Há uma comunhão mais forte e mais funda com o tempo e o espaço. Adquire-se no berço uma relação mais equilibrada com os elementos naturais: uma sabedoria antiga emana da paisagem física e humana desse sul que não cessa de ter sede de sol e a vida é saboreada com vagares ancestrais, em desafio permanente aos grãos de areia continuamente a tombar no fundo da ampulheta.

Vieste ao mundo nessa Évora milenar, património universal da Humanidade, uma das capitais culturais e gastronómicas desta pátria que se percorre toda em escassos dias mas que nunca deixamos de palmilhar num cíclico retorno às raízes sem as quais não seríamos o que somos. Saberás sempre quais são as tuas e escutarás a voz do sangue a guiar-te de regresso aí, trilhes tu as rotas que trilhares.

Chegas sob o signo de Capricórnio, mais fadado para o uno do que para o múltiplo, e vaticino que poderás sempre gabar-te de fazer parte de um vasto e feliz clã. Deixo-te um beijo de Boas Vindas e daqui saúdo efusivamente a tua Mãe, o teu Pai - o nosso António - e teus manos Bernardo, Madalena e Francisca. Que todos cantem em uníssono por muitos invernos, vida fora, os renovados parabéns que hás-de merecer no primeiro dia 11 de cada ano. E que o sol desse teu torrão natal sempre te guarde, te abençoe e te ilumine.

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Uma espécie de slogan

por José António Abreu, em 29.01.13

Cuide da saúde. Escolha os transportes públicos e ande a pé.

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Frases de 2013 (4)

por Pedro Correia, em 29.01.13

«Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu, outro da Comissão Europeia e o mais escurinho, o do FMI.»

Arménio Carlos

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Duoquantos?

por Rui Rocha, em 29.01.13

Podem correr e saltar. Mas na grande trapalhada do pagamento de parte dos subsídios em duodécimos o legislador meteu a pata na poça. O subsídio de Natal férias a pagar em 2013 diz respeito às férias vencidas em 1 de Janeiro deste ano. Ora, o nº 3 do artigo 4º da Lei 11/2013 é bem claro:

O disposto nos números anteriores não se aplica a subsídios relativos a férias vencidas antes da entrada em vigor da presente lei que se encontrem por liquidar.

É certo que o artigo 11º faz retroagir a produção de efeitos a 1 de Janeiro. Mas se os efeitos são estabelecidos com carácter retroactivo, a entrada em vigor está fixada (artigo 12º) para o dia seguinte ao da publicação (isto é, para 29 de Janeiro). E é expressamente para a entrada em vigor que o referido nº 3 do artigo 4º remete. 

 

Aliás, a propósito de trapalhadas, e deixando esse lapso de parte, é bem possível que a consequência do diploma seja a de introduzir involuntariamente não dois, mas três regimes alternativos de pagamento dos subsídios. É que, se não me engano, nada impede que um trabalhador comunique à entidade patronal que pretende continuar a receber apenas 1 dos subsídios por inteiro, no momento "normalmente" previsto para o efeito. Teríamos assim o sistema anterior com pagamento por inteiro nas alturas "normais", o sistema de pagamento de 50% dos dois subsídios em duodécimos e ainda a possibilidade de receber um dos subsídios por inteiro, de uma só vez, e 50% do outro em duodécimos. Perante tudo isto, talvez esteja na altura de rever a presunção de que o legislador sabe exprimir o seu pensamento em termos adequados.

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As canções do século (1125)

por Pedro Correia, em 29.01.13

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Os melhores do ano

por Pedro Correia, em 28.01.13

 

O Aventar divulgou a lista dos melhores blogues do ano, em diversas especialidades: no total, cerca de 800 blogues foram a votos. O DELITO DE OPINIÃO ficou em quarto lugar, na categoria Actualidade Política - Blogue Colectivo. Logo atrás do Arrastão (que venceu), da Má Despesa Pública e do 31 da Armada.

Parabéns ao vencedor, parabéns também ao Aventar pela trabalhosa iniciativa e obrigado a todos quantos votaram em nós. Para o ano há mais.

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O PS em convulsão.

por Luís Menezes Leitão, em 28.01.13

 

Seguro fez uma jogada política de resultado incerto: eles querem um congresso antecipado? Pois vão tê-lo. É uma jogada que traz sérios riscos quando, como referi aqui, bastava a Seguro chegar às autárquicas para a liderança não lhe poder mais ser disputada. Mas o grupo socrático não lhe dá descanso, sonhando com o regresso à filosofia de Sócrates. Eles querem ver o PS voltar a defender o TGV, o novo aeroporto, as parcerias público-privadas, o cheque-bebé e o aumento aos funcionários públicos. E nem aceitam qualquer responsabilidade no estado de bancarrota, uma vez que o seu miraculoso PEC4 salvaria o país. É por isso que lançaram António Costa contra Seguro, que tem no currículo ter sido incapaz de dizer uma única palavra contra Sócrates, mesmo quando o país mergulhava no abismo.

 

António Costa é naturalmente muito mais popular no eleitorado socialista do que Seguro. Não sei, no entanto, se tem apoio nas federações partidárias de forma a poder ganhar o partido. Nas últimas eleições internas, os seus candidatos foram estrondosamente derrotados. O seu avanço nesta altura só pode ser assim compreendido como um pretexto para poder largar a Câmara de Lisboa. António Costa já percebeu que, depois do atoleiro que criou no Marquês, não tem grandes hipóteses de voltar a ganhar a Câmara. Quanto à sua eminência parda, Manuel Salgado, em caso algum os lisboetas votariam nele para Presidente da Câmara. Por esse motivo, multiplicam-se no partido as sugestões de candidatos que Costa se propõe lançar às feras e que educamente rejeitam a proposta.

 

O PS é assim neste  momento um partido em convulsão, vivendo entre o saudosismo de um grupo que sonha que haverá sempre Paris, um autarca que quer a todo o custo sair do atoleiro em que se meteu, e um líder acossado por um grupo parlamentar hostil. Se é esta a alternativa ao péssimo Governo que temos, Passos Coelho bem pode dormir descansado.

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Cilicídio

por Rui Rocha, em 28.01.13

O DN dedicou nos últimos dias uma Grande Investigação ao Opus Dei. Pelo que vi, o trabalho jornalístico não trouxe grandes novidades. Em todo o caso, realce-se o facto, que desconhecia, de a obra ser dirigida pelo Espírito Santo. José Rafael, no caso. Parece-me muito bem. Nomen est omen, diziam os latinos. E não podendo a missão ser assegurada pelo Pai ou pelo Filho themselves, creio que é o melhor que se pode arranjar. Parecendo que não, transmite uma certa ideia de coerência. Mal comparado, é como se o grão-mestre de uma loja maçónica trabalhasse nas obras. Também sem surpresa é o facto de a Maçonaria ter, hoje por hoje, mais influência do que o Opus. Pelo visto, o melhor que a obra conseguiu foram duas Presidências da Assembleia da República e meia-dúzia de banqueiros mais ou menos falidos. Feitas as contas assim por alto, deve sair  a coisa à razão de cinquenta milhões de vergastadas por cada cargo honorífico. No ramo do tráfico de influências, a Maçonaria é uma espécie de grande superfície e o Opus um pequeno negócio de proximidade com margens esmagadas. No fundo, é um sinal dos tempos. Tirando a Pépa, pouca gente está disponível para fazer sacrifícios. E o avental aperta muito menos do que o cilício. Claro, quando o líder afirma que tanto lhe faz que uma pessoa do Opus seja Presidente da AR ou mulher de limpeza, isso pode causar-nos algum espanto. Mas, se virmos bem, faz todo o sentido. Não tenho os números oficiais, mas dos mil e tal membros do Opus, mais de metade devem ser mulheres de limpeza. Aliás, ou me engano muito ou já houve para aí uma queixa da IURD à Autoridade da Concorrência por abuso da posição dominante no mercado das domésticas. E depois, as mulheres de limpeza têm uma actividade profissional muito adequada à concretização de certas mortificações. Quando estão a esfregar as escadas, podem aproveitar para pôr os bagos de milho debaixo dos joelhos. E confesso que também não me surpreende a composição do index das obras literárias. O Cândido do Voltaire está muito bem visto. Todos sabemos quanta sedição se esconde sob o fino véu da ingenuidade. Da mesma forma, a ninguém passa despercebido o potencial libidinoso induzido pela ausência de pontuação em Saramago. É claro que, para a protecção das almas ser completa, talvez também se pudessem incluir na lista as obras de S. Tomás de Aquino, tal como em sua e boa hora fez o piedoso bispo Étiennne Tempier de Paris. Mas nada é perfeito. E em  caso de necessidade, há sempre por aí à mão um látego prontinho para flagelar as nádegas.

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Estrelas de cinema (15)

por Pedro Correia, em 28.01.13

 

O INFERNO NO PARAÍSO

***

Fixem este nome: Tom Holland. Ou muito me engano ou ainda ouvirão falar dele no futuro. Porque, se há pormenor que apetece desde logo destacar em O Impossível, é precisamente o desempenho deste adolescente de olhar desamparado errando no horizonte em busca da mãe que supõe jamais voltar a ver após um idílico local de férias na ilha tailandesa de Phuket ter ficado reduzido a escombros pelas águas assombradas do Dilúvio. Adolescente capaz de fazer das fraquezas força para enfrentar uma tragédia de proporções bíblicas, animado pelo instinto de sobrevivência e pelo amor filial em desafio desproporcionado à implacável força dos elementos.

A isto alude este filme de produção espanhola dirigido com mão competente pelo jovem realizador catalão Juan Antonio Bayona (que em 2007 já tinha rodado o aplaudido El Orfanato). Uma longa-metragem que arrisca a incursão num género desde sempre reservado às megaproduções de Hollywood: o cinema-catástrofe. O espectador é advertido desde o início que está perante uma obra inspirada em factos reais, tendo apenas sido alterada a nacionalidade da família - de espanhola para britânica - por motivos comerciais, o que permitiu a contratação de dois nomes consagrados como chamariz para a bilheteira: Naomi Watts e Ewan McGregor. Sobre o desempenho dele não vale a pena gastar linhas de texto, mas ela é um prodígio de contenção num papel que se prestaria a todos os exageros histriónicos: não lhe fizeram favor nenhum ao nomeá-la para o Óscar de melhor actriz que aliás já merecera ter ganho noutros filmes.

 

O Impossível acontece para nos demonstrar que o homem, suposto dominador da natureza, mais não é afinal do que um minúsculo grão de poeira cósmica na intangível imensidão do universo. É disso que nos fala uma cena crucial do filme, quando uma senhora de 75 anos aponta o céu estrelado a um rapaz de sete, sedento de sabedoria, e lhe ensina a mais elementar das lições: as aparências iludem. Muitas estrelas que vemos refulgir no céu estão já mortas há uma eternidade e só o nosso débil olhar humano, incapaz de discernir o essencial do acessório, não se apercebe disso.

Aquela mulher que surge como um fugaz cometa no filme é Geraldine Chaplin, herdeira directa de um dos gigantes de sempre da Sétima Arte e ela própria protagonista de vários títulos que povoam a nossa memória cinéfila - Doutor Jivago (1965), de David Lean, por exemplo. De constelações percebe ela, sendo quem é e filha de quem é.

 

Procurem ver este filme com a visão limpa dos miúdos que contemplam fixamente as estrelas. Evitem saber em que condições foi rodado, passem ao lado das minudências técnicas e de todo esse estendal "informativo" que as distribuidoras cinematográficas propiciam em incontáveis acções de marketing, roubando aos espectadores aquilo que há de mais precioso: a inocência do olhar. Se o conseguirem, verão este filme como eu vi - uma espécie de tributo à memória dos pioneiros como Méliès que transformaram o cinema num processo ímpar de acreditarmos no inacreditável. Não me interessa saber como aquele maremoto foi conseguido para se tornar credível no ecrã: basta-me saber que funciona.

Mas este artifício serve apenas para nos reconduzir a uma evidência primordial: na eterna batalha entre o homem e a natureza, só por inimaginável clemência desta não sairemos derrotados. Depois desse trágico tsunami de 26 de Dezembro de 2004 que ceifou mais de 230 mil vidas no Sudeste Asiático - e que este filme revive de forma tecnicamente irrepreensível - nenhum de nós voltou a olhar para uma praia paradisíaca sem pensar que a todo o momento pode desembocar ali uma onda gigantesca pronta a derrubar qualquer obstáculo e a varrer todas as certezas na sua fúria cega, dantesca, irracional.

 

 

O Impossível (Lo Imposible, 2012). De Juan Antonio Bayona. Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Soenke Möhring, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin.

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RTP

por José António Abreu, em 28.01.13

As soluções de Miguel Relvas eram péssimas. A solução de Paulo Portas mantém o status quo. Parabéns a ambos.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.01.13

«O Acordo Ortográfico quer impor à força bruta um modelo de grafia sem nenhuma base lógica, linguística, sociológica ou meramente humana que o sustente, uma coisa sem pés nem cabeça que no fundo se pulveriza em vários modelos - e cito apenas dois, porque existem, continuam a existir e até aumentam as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil (para somente citar estes dois casos). (...) Vejam-se por exemplo os mais de 250 canais de TV que nos entram pela casa adentro todos os dias, e cujas legendagens de filmes e séries-TV chegam a desorientar de tão confusas que ficam. Sendo frases curtas, sem contexto literário, tornam-se por vezes num enigma: se vemos duas personagens a correr e uma diz para a outra: "Para aqui", ficamos sem saber se lhe está a dizer que se dirija para aqui (movimento), ou que fique parada aqui (ausência de movimento). Com o maior à-vontade a mesma curta frase pode ter dois significados opostos.

Pobre língua portuguesa, esfrangalhada de uma maneira tão boçal como interesseiramente obscura.

Língua que já foi grande na sua ascensão, na pena de Gil Vicente, de Camões, de António Vieira, de Pessoa...

Consentirão os portugueses na sua queda, agora, por obra desta nova "invasão dos bárbaros" que tudo quer nivelar pelo nível mais baixo, menos nobre e mais rasteiro?»

António de Macedo, no Público

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O país dos eufemismos

por José António Abreu, em 28.01.13

No emprego, enviam-me uma mensagem de correio electrónico com a informação de que algo é "mentira" (assim mesmo, com aspas).

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E se pensassem?!

por Helena Sacadura Cabral, em 28.01.13
O Prof. Marcelo, todo expedito, censurou Arménio Carlos por uma infeliz afirmação que o mesmo havia feito quanto à cor da pele de um dos elementos da Troika, que considerou racista e que deveria obrigar o seu autor a um pedido de desculpas. Que não aconteceram, claro.
Mas, rápido no gatilho e perante as diferenças existentes entre António José Seguro e António Costa, o mesmo Marcelito responderia, por sua vez, lépido, que elas (as diferenças) eram "como televisão a preto e branco e televisão a cores"!
Nem comento, está de ver.

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Irão diz que lançou macaco para o espaço.

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A infância do 3D

por João André, em 28.01.13

 

Não sei se sou só eu, mas a verdade é que começo a detestar o 3D no cinema.O seu uso, desde Avatar, tem estado destinado aos filmes de acção e/ou aventura. Filmes com muita bordoada e explosões, onde os realizadores nos possam fazer encolher no assento quando uma bala ou estilhaços voam na nossa direcção. À primeira funciona, à segunda pisca-se os olhos e à terceira encolhe-se os ombros. A partir daí para nada serve.

 

Este hábito do 3D deixa-me ainda mais incomodado em filmes onde a fotografia é importante. Vi o Hobbit e, passados os primeiros minutos, dei por mim a tirar os óculos para poder apreciar as paisagens de fundo, que por o serem não eram distorcidas sem óculos. É verdade que o sistema de 48 imagens por segundo melhora a resolução, mas ver a maquilhagem dos actores não acrescenta muito à experiência.

 

Já nos filmes mais simples, baseados na história e no drama ou comédia, o 3D não tem sido usado. E é aqui que estranho as opções dos realizadores. Num filme de acção tudo se passa depressa demais para apreciar os diferentes níveis de detalhe. Num filme romântico (por exemplo) é que seria interessante ver o efeito do 3D em ambientes lentos, feitos de gestos, olhares e posições relativas. Para quem estranhe a perspectiva, peço que se imagine o simples gesto de estender uma mão para a face de outra pessoa e como o 3D nos tornaria cúmplíces desse gesto. Far-nos-ia entrar na acção, que é o que se pretende. Veja-se a imagem que encima o post e imagine-se o efeito que poderia ter em 3D.

 

Verdade que o 3D é uma ferramenta ainda criança no que diz respeito ao seu uso no cinema. Também o som demorou a ser usado correctamente e o contributo da cor só passado algum tempo foi verdadeiramente explorado por novos cineastas com uma visão para lá da da novidade. Espero que a história aqui se repita.

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O meu país preferido

por João André, em 28.01.13

Cumpri em Dezembro 9 anos a viver na Holanda já sabendo que não chegaria aos 10. Irei começar em Abril uma nova etapa da minha vida profissional que me levará a viver novamente numa Alemanha onde estive pouco depois de terminar o curso. Ao todo passei 10 anos dos 19 da minha vida adulta a viver fora do país onde nasci.

 

Isto de nascer num determinado país tem que se lhe diga. Os holandeses têm uma peculiaridade curiosa: quando lhes é dito que a Holanda é um bom país para viver mas que se gosta mais do país X ou Y (habitualmente o país de origem, como é natural), eles estranham, como se fosse possível preferir outro país que não os Paraísos Baixos. Esta é uma característica que partilham (tal como muitas outras) com muitos estado-unidenses.

 

Analisando os factos esta perplexidade faz sentido. A Holanda (ou os EUA) tem uma qualidade de vida superior à da esmagadora maioria dos países do mundo, os salários permitem vidas relativamente tranquilas a quase toda a população, é comparativamente fácil obter emprego e, quando se está desempregado, há uma boa rede de suporte social. Os serviços públicos e privados funcionam bem e o país está bem estruturado. Os cuidados de saúde e a educação são de qualidade e o acesso a eles é simples. Porque não preferir este país aos outros?

 

Claro que a resposta é sempre simples: é difícil preferir qualquer país àquele onde crescemos simplesmente porque foi a este que nos habituámos. Conhecemos o temperamento das pessoas, por mais ilógico que seja. Sabemos como manobrar pelas vielas dos favores necessários a obter certos serviços mesmo quando não aprovamos tais atitudes. Aceitamos os ruídos, os cheiros e a desorganização mesmo quando não fazem sentido. Conhecêmo-los. Fazem-nos sentir em casa.

 

Notei-o pela primeira vez quando visitei uma amiga em Bruxelas, após dois anos na Holanda. A comparativa desorganização e sujidade da cidade, que a tornam mais desagradável que a cidade média holandesa, fez-me sentir em casa. Ainda hoje ao chegar ao aeroporto de Lisboa só me sinto de facto em casa quando saio porta fora da zona de chegadas e ouço as buzinas e sinto o cheiro a combustível que estão ausentes das assépticas cidades holandesas.

 

No fim de contas, a maior perplexidade não é tanto a holandesa ao saber que continuarei a preferir Portugal para viver. Antes é a minha, por não ver como é que os holandeses não compreendem (mesmo não partilhando) a minha preferência. E, nessa perplexidade, recebo parte das razões para a minha preferência.

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"Óh Arménio... Pede desculpa, porra!"

por André Couto, em 28.01.13

"Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do FMI e dois brancos, o do Banco Central Europeu e o da Comissão Europeia, e já se fala em mais medidas de austeridade". O Arménio não foi racista, se calhar enganou-se a ler...
O Arménio foi infeliz, ponto. Fugiu-lhe o discurso para o preconceito e ninguém morre por isso, mas já morre pela reacção: dos Homens de causas e convicções, de voz grossa e atitude firme, espero a mesma frontalidade na assunção dos erros próprios que na crítica aos erros dos outros e, nesse aspecto, esteve bem pior do que nas polémicas palavras.

Como já li hoje: "Óh Arménio... Pede desculpa, porra!".

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A angústia do bloguista perante o teclado

por Rui Rocha, em 28.01.13

Armeninho ou Armeniozinho?

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«O historiador nunca se evade do tempo da história: o tempo adere ao seu pensamento como a terra à pá do jardineiro.»

Fernand Braudel (1902-1985)

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Resistência activa ao aborto ortográfico (35)

por Pedro Correia, em 28.01.13

  

 

Conselho Superior da Magistratura

 

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.01.13

 

«Os mortos não ajudam a morrer os vivos que um dia amaram.»

François Mauriac, Genitrix (1923)

Livros do Brasil, Lisboa. Colecção Miniatura, nº 81.

Tradução: Virginia Motta

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As canções do século (1124)

por Pedro Correia, em 28.01.13

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Frases de 2013 (3)

por Pedro Correia, em 27.01.13

«António José Seguro e António Costa é como televisão a preto e branco e televisão a cores.»

Marcelo Rebelo de Sousa, há pouco, na TVI

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 27.01.13

«Esse tipo de linguagem "coninhas" e "meriquinhas" sugere diminutivos de Cónios e Mericas.
É coisa tão ordinária quanto chamar Gaja em vez de Gaia, Puto em vez de Putto/Cupido, ou Puta em vez de Putta/Vénus. Coisas da Raia miúda que emalucou nas ilhas Malucas.
Hmmm... e a Maia?
Pois a Maja é foneticamente Macha, e também tem masculino, Macho, se quisermos em Maio.
Mas, para não ser mais ordinário, não falo de Machupichu, nem da mesma variação de Raia em Raja, Racha.
Pode-se dizer ainda que ginete é uma variação de cynete, em que o y seria um upsilon, ficando "cunete", que leva de novo aos Cónios. E Conistorga seria não em Coina, mas sim em Beja. Beja-se aqui tão perto e as Méricas lá do outro lado do mar, ou seria, à francesa, da mar?
Desculpa abardinar o post com ordinarices.»

 

Do nosso leitor da Maia. A propósito deste texto do JAA.

 

 

«Com este texto voltei aos meus verões. Verões passados na aldeia dos meus avós, Alcafozes, na Beira Baixa. Verões quentes e secos. Temperaturas escaldantes que hoje me custam aguentar, mas que à época o corpo franzino de um primário adolescente aguentava sem sequer reparar no calor. Os finais de tarde em que a minha avó, a única que me sobra nestes dias, regava o largo defronte da casa, o cheiro a terra molhada que só consigo associar a Alcafozes, esse cheiro intenso que absorvo cada vez que o sinto que me transporta anos e anos atrás, às memórias dos verões. As tardes passadas em cima da bicicleta, roda vinte e seis de ciclista, correrias pelas estradas desertas de alcatrão que derretia com o calor e usávamos para servir de travões na jante da bina, com primos e amigos que também eram primos, numa aldeia onde todas as famílias, de uma forma ou de outra, estão ligadas. O meu tio hoje velho e calado a levar-nos pelos campos de tractor até à “sorte” dos meus avós, onde estavam os porcos as galinhas os coelhos e por vezes umas ovelhas, o cão de guarda, arraçado de serra da estrela, que quando chegou a nós era uma bola de pelo, ficou o bolinhas, um bisonte de sessenta ou setenta quilos que era o bolinhas, saltava muros de dois metros para ir às cadelas. As noites quentes, imensas e dormidas muitas vezes no terraço a céu aberto, um céu só visto nas aldeias, com todas as estrelas a chamarem por mim, eu a querer saber os nomes e o meu pai a ensinar-me os nomes, a ursa maior e menor, a apontar ao céu, ali e ali, a estrada de São Tiago um caminho que para mim era só meu, pois se tinha até o meu nome, e adormecer assim. Tempos que não voltam, mesmo regressando “à terra” ano após ano para ver e ouvir a minha avó hoje sozinha que o homem dela, o meu avô, já partiu, esses verões ficaram onde afinal têm mesmo que ficar, ficaram dentro de mim, em mim.

Resta a saudade.»

 

Do nosso leitor Tiago Cabral. A proposito deste texto do JPT.

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Barbados

por José António Abreu, em 27.01.13

 

Quando surgem notícias sobre mulheres violadas penso quase sempre nesta canção de Tori Amos (Me and a Gun, do álbum Little Earthquakes, lançado em 1992) e, mais especificamente, nesta actuação em Montreaux. É raro mas desta vez pude pensar nela por um bom motivo: o post da Ana Vidal sobre a evolução da Lei em Marrocos. Para quem não saiba (talvez não devesse mas faz uma certa diferença ao ver o vídeo e ela nunca escondeu ter-se baseado na experiência para escrever o tema), fica a informação de que Tori, que em 1994 co-fundaria a RAINN – Rape, Abuse and Incest National Network –, uma rede telefónica de apoio a vítimas de violência sexual, fora violada em 1985.

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Ver para crer

por Rui Rocha, em 27.01.13

Não é razoável que se exija ao génio criador que se pronuncie sobre o mundo que nos rodeia com absoluto rigor. Em Ricardo III, por exemplo, Shakespeare deixa-se levar pelo engenho e afirma que os olhos são a janela para a alma: To thee I do commend my watchful soul,/ Ere I let fall the windows of mine eyes. E está bem que seja assim. Ao artista pede-se que reinterprete o mundo, que o reconte, que o treseleia. Outra coisa bem diferente é que a ciência, que se quer rigorosa, frugal e circunspecta porque presa aos factos, se deixe embarcar em devaneios e teorias tão próximas do imaginário poético que só podem estar arredadas da mais básica realidade. Vem isto a propósito de um estudo pretensamente científico realizado pela Universidade de Melbourne onde se conclui que é possível perceber o que alguém está a pensar pela simples observação do seu olhar. Os olhos serão então uma verdadeira janela para a alma, não apenas em sentido poético ou figurado, como afirmava Shakespeare, mas também numa acepção cientificamente válida e testada? Pois digo que não. Nem pensem nisso. Não há método científico que permita determinar o que está por detrás disto:

 

 

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