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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 31.12.11

Sporting - És a nossa fé. Não há melhor maneira de iniciar o ano.

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Delito breaking news

por Rui Rocha, em 31.12.11

 

Em declarações proferidas algumas horas antes de tomar posse, o ano 2012 afirmou que as medidas serão suas mas as dívidas são dos anos anteriores.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 31.12.11

«Como os pessimistas, hoje vou estar acordado até à meia-noite -- eles para terem a certeza que o ano velho foi mesmo embora, eu para ver o novo ano chegar. A 2011 arrumo-o com uma frase: foi um ano ímpar (comprove, faça o teste do algodão aritmético). Mais logo, vou brindar. Aí, uns dirão que o copo está meio vazio, outros, meio cheio -- e eu, optimista prático, com a esperança que os produtores de copos passem a fazer meios copos, dando plenitude à vida. Não vou brindar com Coca Cola mas aplaudo-lhe o espírito do seu anúncio natalício 'Razões para Acreditar'. Os pessimistas dizem que o anúncio é oportunista e eu digo que é só anúncio. Com este acrescento, lembra boas razões para acreditarmos.»

Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias

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So I thought I'd learned my lesson
But I secretly expected
A choir at the shore
And confetti through the fall night air

I'll make a living telling people what they want to hear
It's not a killing, but it's enough to keep the cobwebs clear

Cause it's not a perfect plan
It's not a perfect plan
But it's the one we've got

It's not a perfect plan
But it's the one we've got

Cause I make a living telling people what they want to hear
But I tell ya, it's gonna be a champagne year

 

Letra de St. Vincent (Annie Erin Clark)

 

A sério: vai ser um ano fantástico! Bom 2012.

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2012

por José António Abreu, em 31.12.11
 
I've got a bad feeling and it's not going away
I've got a baaaaaad feeling (baad feeling)
I've got a baaaaaad feeling and it's not going awaaaaaaay!

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Fotografias tiradas por aí (22)

por José António Abreu, em 31.12.11

Porto.

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Apesar dos pesares

por Ana Vidal, em 31.12.11

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Mãos à obra

por Teresa Ribeiro, em 31.12.11

O melhor é ser pragmático, tirar as pedras do sapato, escolher uma nuvem e deitar mãos à obra. O Pessoa percebia disto. Sigamo-lo em 2012.

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo,
e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…"

Fernando Pessoa

Feliz Ano Novo

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 31.12.11

A Rita escreve bem, tem uma voz própria que não se confunde com qualquer outra e acaba de se transferir da Alemanha para Portugal, regressando com a inspiração de sempre. Merece destaque, como autora do nosso blogue da semana. Mesmo que de Boas Intenções esteja o inferno cheio.

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Tenham todos um ano jeitoso

por João Carvalho, em 31.12.11

 

De acordo com um velho calendário Maya de previsões, o ano que vai entrar não augura nada de bom. Porém, para mim, a civilização Maya é um logro. Maya é só uma cartomante e palpita-me que nem sequer adivinhou como garantir o seu próprio futuro sem ser a deitar cartas. Por isso, esqueçam as previsões e façam o seguinte: tentem que 2012 seja um ano mais ou menos jeitoso para todos. São os votos de felicidade que vos dirijo. A vossa sorte será a minha.

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Receita de Ano Novo

por Laura Ramos, em 31.12.11



Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
                                                                                           Carlos Drummond de Andrade
                                                                                    
"Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 31.12.11

Parabéns ao Luís Melo. Pelas 50 mil visitas.

 

Tiago Barbosa Ribeiro, que já foi uma das vozes mais estimulantes da blogosfera, regressa com O Portugal Futuro.

 

Agradeço ao João Severino o imerecido destaque no Pau para toda a Obra.

 

(em actualização)

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As canções do século (730)

por Pedro Correia, em 31.12.11

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Dois pesos, duas medidas

por Pedro Correia, em 30.12.11

 

Concebo que um jornal tenha uma agenda política. Concebo que um jornal transforme as palavras em arma de arremesso ideológica. Concebo até que um jornal abdique esporadicamente do rigor da escrita em função de simpatias declaradas ou aversões indisfarçáveis. Mas entendo muito mal que o faça de forma tão ostensiva que possa levar alguns leitores a confundir esse preconceito com pura incompetência. Confesso: foi nesta hipótese que cheguei a pensar ao ler hoje as páginas 28 e 30 do Público, ambas pertencentes à secção Mundo, ambas redigidas sob critérios jornalísticos antagónicos.

Título da página 26: «Kim Jong-un, o 'Grande Sucessor', já é o líder supremo da Coreia do Norte». Destaque de entrada da peça: «No último dia de luto nacional por Kim Jong-il, o 'número dois' da hierarquia veio discursar perante milhares de pessoas para dizer que o país vai 'transformar o pesar em força'». Reparem nos vocábulos utilizados, todos com conotação positiva ou neutra: «líder»; «supremo»; «grande», «hierarquia»; «sucessor». A notícia refere-se à Coreia do Norte, a mais feroz tirania do planeta, onde segundo informações veiculadas por organismos internacionais credíveis pelo menos um quinto da população passa fome e cerca de 200 mil pessoas estão internadas em "campos de reeducação", privadas dos direitos fundamentais. A liberdade de expressão é inexistente neste país submetido desde a década de 40 ao totalitarismo comunista. De liberdade de imprensa nem vale a pena falar.

Ditadura? Claro que sim. Mas o termo é cuidadosamente evitado nesta página. Fica reservado para outra notícia, a que surge duas páginas adiante: «Mais 15 anos de prisão para o último ditador argentino». É uma peça curta, de apenas quatro parágrafos. Mas onde surgem três vezes as palavras «ditadura» ou «ditador». Nem faltam nela referências concretas a «crimes contra a humanidade», «tortura», «detenções» e «assassinatos» cometidos entre 1976 e 1983 na Argentina. Palavras que, por assinalável contraste, estão omitidas nos 12 parágrafos sobre a Coreia do Norte. Dois pesos, duas medidas: quem leia o longo texto sobre o "Grande Sucessor" fica apenas a saber que a Coreia do Norte "atravessa uma grave crise alimentar", eufemismo para evitar a palavra fome.

Um ditador devia ser sempre apelidado de ditador. Mas se for um ditador de esquerda é legítimo que receba um indulto jornalístico? Deixo a pergunta à consideração de quem quiser pronunciar-se. A resposta, para mim, é óbvia.

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A palavra paixão atravessou repentinamente o espírito de Jed, e viu-se de súbito dez anos antes, no seu último fim-de-semana com Olga. Estavam no terraço do château de Vault-de-Lugny, no domingo de Pentecostes. O terraço dava para o imenso parque cujas árvores eram agitadas por uma leve brisa. Caía a noite, a temperatura era de uma amenidade ideal. Olga parecia mergulhada na contemplação da sua mousse de lavagante, havia pelo menos um minuto que não dizia nada, quando ergueu a cabeça, o olhou de frente nos olhos e lhe perguntou:

– Saberás tu, no fundo, porque é que agradas às mulheres?

Ele mastigou uma resposta indistinta.

– Porque tu agradas às mulheres – insistiu Olga. – Suponho que já tiveste ocasião de o verificar. És o que se pode dizer bonito mas não é isso, a beleza é quase um pormenor. Não, é outra coisa…

– Diz-me qual.

– É muito simples: é porque tens um olhar intenso. Um olhar apaixonado. E é isso, acima de tudo, que as mulheres procuram. Se conseguem ler uma energia, uma paixão, no olhar de um homem, então acham-no sedutor.

Deixando-o a meditar sobre esta conclusão, bebeu um gole de Mersault, saboreou a sua entrada.

– Como é evidente… – disse um pouco mais tarde com uma leve tristeza –, quando essa paixão não se dirige a elas, mas a uma obra artística, elas são incapazes de dar por isso… enfim, ao princípio.

Dez anos mais tarde, ao encarar Houellebecq, Jed tomava consciência de que havia no olhar dele, também no dele, uma paixão, algo de alucinado até. Ele devia ter suscitado paixões amorosas, porventura violentas. Sim, considerando tudo o que sabia acerca das mulheres, parecia provável que algumas delas se tivessem tomado de amores por aquele destroço torturado que agora balançava à sua frente enquanto devorava fatias de pâté caseiro, que se tornara manifestamente indiferente a tudo o que podia parecer-se com uma relação amorosa, e provavelmente também a qualquer relação humana.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Jed Martin é artista plástico. Tem uma relação complicada com a caldeira do seu apartamento, janta uma vez por ano com o pai, um arquitecto que ganha muito dinheiro a fazer projectos de estâncias turísticas, ama uma mulher deslumbrante que também o ama mas, de forma quase passiva, evita o compromisso. Fica conhecido com uma série de trabalhos em que, segundo o crítico do Le Monde, adopta o ponto de vista de um Deus comparticipante, ao lado do homem, na (re)construção do mundo. Mais prosaicamente, trata-se de fotografias de mapas Michelin. Atinge a fama e a fortuna com duas séries de pinturas mostrando «profissões-tipo». Na «série dos ofícios simples», vêem-se artesãos, na das «composições de empresa», vultos como Bill Gates e Steve Jobs conversando em casa deste, ou Ferdinand Piëch visitando a fábrica da Bugatti. Para o catálogo da exposição sobre as profissões-tipo, Jed pede um texto ao famoso mas recluso escritor Michel Houellebecq. Depois ainda há um crime violento, um detective envelhecido e uma Europa que definha nas primeiras décadas do século XXI (Houellebecq é capaz de ser melhor a prever o futuro do que muitos economistas).

 

O Mapa e o Território é um Houellebecq com o desencanto de sempre, com referências à decadência do corpo, à incapacidade de manter relações afectivas prolongadas, à vacuidade que tomou de assalto a vida diária, ao primado do dinheiro e do show-off, mas mais suave, mais irónico do que obras anteriores. É um livro em que Houellebecq tira um prazer evidente de se inserir na trama e de se descrever com todos as idiossincrasias de que é acusado. É também um livro que não inclui uma única cena de sexo (sacrilégio, em especial quando Houellebecq tem livros em que pareceu defender ser o sexo o único acto que ainda tem significado) e em que a única menção explícita a sexo, remetendo para a Tailândia de Plataforma, é feita em registo nostálgico: No entanto, elas chupam sem preservativo, bem bom… – resmungou ainda vagamente, como se recordasse um sonho defunto, o autor de As Partículas Elementares. Poderia ser a confirmação de que a idade não perdoa (um tema tão caro a Houellebecq) mas é antes uma partida, uma maneira de fintar as expectativas do leitor. Sim, por incrível que pareça sou mesmo eu, o gajo que metia sexo em cada página, parece dizer-nos o francês, nesta passagem como de cada vez que, referindo-se a si mesmo, usa a formulação o autor de (disse o autor de As Partículas Elementares; perguntou o autor de La Poursuite du Bonheur; concordou o autor de Plataforma). É verdade: podíamos duvidar.

 

Mas talvez mais surpreendente do que a inexistência de sexo seja o facto de as personagens, ainda que por vezes ridículas, exsudarem calor humano. A mulher por quem Jed se apaixona, o pai com quem janta todos os Natais, num ritual parte obrigação parte prazer, o galerista que lhe expõe as obras, a especialista em marketing que lhas promove, o polícia que adia tanto quanto lhe é possível o momento de enfrentar o cadáver do assassinado, até a fauna que rodeia o mundo da arte e da comunicação social – todos são apresentados com uma ironia benigna substituindo o cinismo e a acidez frequentes no passado. De uma forma ou de outra, parece admitir Houellebecq, por tentarmos de mais ou por tentarmos de menos, somos todos ridículos – mas talvez não execráveis.

 

Como seria de esperar (nenhum bom escritor se apresentaria num livro sem garantir um mínimo de distanciamento irónico), ninguém surge mais ridículo do que Michel Houellebecq. Mas também ninguém suscita tanta empatia. (Já era tempo.) Até as raras passagens em que Houellebecq não resiste a usar os olhos de Jed Martin para nos dizer que existe – ou existiu – um ser de rara argúcia e sexualmente atraente por baixo do Houellebecq que nos apresenta, como a transcrita acima, confundindo ainda mais os planos entre Houellebecq-escritor e Houellebecq-personagem, acabam por ajudar a aproximá-lo do leitor. Percebemos a necessidade. É humana – e muito masculina, pormenor não despiciendo quando falamos do autor de obras como As Partículas Elementares e Plataforma.

 

Ao contrário do que sucede noutros livros, aqui também não existem grandes considerações sobre o ser humano, sobre as suas falhas e incapacidades, sobre o seu declínio biológico. Tudo isto está no livro, claro, que as obsessões de Houellebecq não desapareceram nem desaparecerão, mas encontram-se abordadas de um modo mais leve, mais resignado, como se Houellebecq tivesse decidido encolher os ombros, parar de pensar tanto (o verdadeiro problema do ser humano é, evidentemente, pensar) e dizer: se não me percebem quando sou directo e brutal, vão-se lixar; já me estou nas tintas e até aprendi a rir-me às vossas custas.

 

A verdade é que este novo distanciamento resulta. O livro é bom. Porém, causou um problema aos intelectuais franceses. Sem tiradas polémicas sobre o papel do sexo, a decadência humana ou a estupidez de certas religiões para criticar, tiveram de contentar-se em acusar Houellebecq de plagiar a página da Wikipedia sobre a mosca doméstica. Houellebecq admitiu imediatamente que sim senhor, retirara a informação da Wikipedia e passou a incluir no fim do livro um agradecimento a essa enciclopédia online (a edição portuguesa inclui-o). A intelligentsia gaulesa permaneceu tão perplexa que, na dúvida, depois de anos a zurzi-lo, lhe atribuiu o Goncourt.

 

(Adenda: Este post teve ontem uma espécie de primeira parte. Mas devo avisar que vale ainda menos o esforço – excepto para aqueles de vós que a sexo oral preferirem carneiros e porcos.)

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Réveillon 2011/2012

por Ana Vidal, em 30.12.11

 

Lá porque estamos em crise, não deixe de festejar a passagem de ano com todos os matadores. Aqui está a minha sugestão: uma receita de lagosta a la troika para o seu réveillon. À sua!

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Piano Bar

por Laura Ramos, em 30.12.11

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As estradas, as estradas.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Ana, entendamo-nos. Para alguém que — como eu — nem sequer tem carta de condução, o que se passa nas estradas portuguesas é um genocídio. Pior que isso, é uma orgia de parolos montados em altas cilindradas, psicopatas do tuning e espectadores da TVI.  

 

Só que não é isso que estou a discutir. O que estou a discutir é se um responsável de uma força policial pode invocar a falta de cooperação dos mortos para sacudir a água do capote quando o confrontam com os resultados de uma acção que é e deve ser avaliada por nós. Na minha opinião, não pode. E já devia estar no olho da rua. 

 

Repito, aliás, o que escrevi no post anterior: muitas das vítimas não são os maus condutores. Muitas das vítimas são apenas isso: vítimas, que tiveram o azar de levar com um bêbado em cima. Sugerir que a culpa é delas talvez não seja a melhor maneira de respeitarmos os mortos ou de resolvermos os problemas da sinistralidade. 

 

Mas permitir que um incompetente qualquer de uma instituição pública encarregada de manter a ordem se safe com esta aisance de nos explicar onde falhou é um convite para que nunca mais alguém seja responsável pelo que quer que seja neste país. 

 

O Estado tenta? Pelos vistos tenta pouco.

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Em conversa directa

por Ana Margarida Craveiro, em 30.12.11

Luís, o Estado faz dezenas (centenas?) de operações de sensibilização. Construiu estradas novas, mais seguras, para minimizar os efeitos que não resultam das acções individuais. Gasta dinheiro dos contribuintes em campanhas de prevenção, para que esses mesmos contribuintes aprendam a ser responsáveis. Em cada fim-de-semana, desloca centenas ou milhares de agentes para as estradas, a patrulhar, a fazer a tal "caça à multa", para que os inocentes como tu e eu não sofram as consequências das acções dos outros. Se podia fazer mais? Não sei. Se cada condutor podia fazer mais? Com toda a certeza. É só isso. E não me parece assim tão descabido. Nas primeiras aulas de condução que tive, o instrutor disse-me que tinha uma bomba nas mãos. Uma bomba que me matava a mim, e aos outros. Infelizmente, raramente vejo essa consciência à minha volta.

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O que ando a ler (18)

por Ana Sofia Couto, em 30.12.11

 

Cruzámo-nos muitas vezes nas livrarias antes de eu o levar comigo. Houve razões para tanta hesitação. Não sei se foi uma embirração com o título, a influência de um professor que eu admiro e que não tinha grande simpatia pelo livro ou, simplesmente, por causa das minhas dúvidas a respeito de um medicamento filosófico (uma expressão que é toda uma teoria). Mesmo assim, decidi dar-lhe uma oportunidade e comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos. Assim, no capítulo “Utilidade dos Estudos de Filosofia”, encontramos uma síntese das principais teses de filosofia moral que surgiram no pensamento ocidental, apesar de o “Oriente” também merecer uns parágrafos. Depois desta síntese, o autor passa à demonstração da aplicação do método. Nos dois primeiros casos (foi o que li até agora), o aconselhamento visa o autoconhecimento e a formulação de soluções através da leitura, mais ou menos orientada, de frases dos grandes pensadores. Fica, no entanto, e para desilusão de quem criou algumas expectativas na primeira parte, a ideia de que a resolução dos problemas depende da utilização de uma espécie de fórmula encontrada nas leituras sugeridas. Ou seja, apesar de afirmar a importância da meditação e sublinhar que a abordagem filosófica dos problemas traz consigo a responsabilidade pessoal, o autor explica a evolução dos vários casos de estudo descrevendo de forma muito pobre o modo como cada pessoa foi capaz de relacionar o pensamento de outros com a sua vida. Ler e perceber que não é assim tão fácil.     

 

E tu, Ana Vidal, o que tens andado a ler?

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O melhor texto dos últimos tempos

por Rui Rocha, em 30.12.11
Arrependo-me de quase todas as decisões que tomei na vida. Durante muito tempo acreditei ser a escolha da profissão aquela de que me não iria arrepender. Os últimos tempos vieram provar o contrário: ser professor é um destino que não se deseja ao nosso pior inimigo.
O que era escola tornou-se comunidade educativa, designação execrável que engloba sensibilidades que não se encontram nem nunca se irão encontrar.
O zénite do desencanto aconteceu hoje: ao abrir o mail, recebo os votos de Boas Festas da direcção da escola. As Boas Festas dirigidas a todos os colaboradores. Colaboradores. Colaboradores, assim mesmo como se de uma empresa se tratasse. A escola não é uma empresa, não pode ser uma empresa, não deve ser uma empresa.  Eu sei que esta linguagem está na moda e que é muito fácil agarrar estas expressões e usá-las sem reflectir sobre a elas. Ligam-me às pessoas que integram a direcção da minha escola laços de amizade de muitos e muitos anos. Sei que não usaram este termo para magoar, usaram-no porque se usa.
A mim, que sou rija e pouca dada a lamechices, vieram-me as lágrimas aos olhos. Resumir o trabalho de um professor a uma colaboração é uma ofensa, é uma mágoa que custa a sacudir.
Só me apetece emigrar. Para um sítio onde me chamem professora.
 
A nossa Ivone Costa, na sua A Ronda dos Dias

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Da responsabilidade do Estado.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Ana, as declarações desse homem são uma vergonha, não por efeito de qualquer menosprezo colectivo pela responsabilidade individual mas porque implicam a desresponsabilização do Estado e das polícias, que têm o dever de manter as estradas seguras quer os mortos "cooperem" ou "não cooperem". Ao sugerires que a culpa é dos condutores esqueces que para além dos que provocam acidentes também existem os outros, que não bebem, não aceleram e ainda assim morrem na estrada.

 

Aliás, pelo teu raciocínio esquecíamos a avaliação quantitativa do número de acidentes e das vítimas: dizia-se que a responsabilidade era nossa e acabava-se a conversa. Ou seja, tínhamos o Governo e as instituições postas em sossego, sem necessidade de responderem pelos resultados das suas decisões. Eu até compreendo que lhes dê jeito: quando no próximo ano avaliarmos a evolução da pobreza e das desigualdades é bem provável que a conversa regresse.

 

Era só o que faltava.

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Tiques de ditadores

por João Carvalho, em 30.12.11

 

Mais um "milagre" do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de "restabelecida a ordem" por via do computador.

O processo é velho e conhecido, desde a era pré-Photoshop na União Soviética ao regime egípcio recentemente deposto. Estes retoques têm todos uma coisa em comum: são tiques que só lembram aos ditadores, que gostam sempre de experimentar se o poder os deixa apagar ou modificar a História.

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Bom ano para todos...

por João Carvalho, em 30.12.11

 

... se puderem. E não vale a pena fingir que nada se passa: o ano vai passar e o assustador 2012 vem mesmo aí.

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Da responsabilidade individual

por Ana Margarida Craveiro, em 30.12.11
      

 

Tenho visto por aí algum brado a propósito das declarações deste senhor GNR. Que é insensível, que não respeita os mortos e suas famílias, etc., etc., e dá-me vontade de perguntar: mas a sério que vivemos no mesmo país? A sério que vivemos todos num mesmo país onde gente com bem mais de um copito em excesso pega no volante, onde o limite de velocidade é uma coisa para totós, onde os piscas a assinalar ultrapassagem são uma coisa que se usava no dia do exame de condução?

Em Portugal, andar na estrada é um desafio constante à vontade de querer ver nascer o dia seguinte. Mas ninguém o diria, a avaliar pela certeza de que há um Senna em cada um de nós. Os sacanas dos polícias é que andam à caça da multa, uns palhaços. Depois a curva estava no sítio errado, começou a chover, os pneus ou os travões falharam. Inevitavelmente, depois de fins-de-semana de festa, temos as listas de mortos e feridos graves, a mostrar que entrar num carro é causa de morte. Mas a fantástica lógica destes Schumachers de trazer por casa consegue sempre distorcer qualquer noção de responsabilidade individual. E os trágicos números não são mudados por esta distorção.

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MMXII

por José António Abreu, em 30.12.11

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.

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"Gorduras do Estado" (27)

por Pedro Correia, em 30.12.11

Jardim não corta pensões vitalícias

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2012.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos.

De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos.

Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e tostõezinhos.

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.

 

(Armindo Mendes de Carvalho, várias vezes declamado por Mário Viegas — e a falta que ele cá faz).

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Passado presente (CCCLVIII)

por João Carvalho, em 30.12.11

 

Pinheiro de Natal vintage

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2011.

por Luís M. Jorge, em 30.12.11

Na sala as mulheres chegam e partem, falando sobre Salazar.

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Uma bela carnificina

por João Campos, em 30.12.11

Carnage - em português, O Deus da Carnificina -, de Roman Polanski, é em certa medida o oposto de muitos dos filmes que podemos ver hoje em dia: actores de qualidade misturados com actores com menos qualidade em produções feitas para mostrarem grandes cenários (normalmente feitos em computador) pirotecnia, efeitos especiais e cenas de acção e suspense que querem ser muito originais mas que acabam por ser invariavelmente iguais. E é justamente por ser o oposto dessa tendência que Carnage é um filme excelente e refrescante - Polanski juntou quatro actores de provas dadas, colocou-os numa sala - numa única sala, em todo o filme - e deu-lhes um argumento bem escrito e inteligente para trabalharem. O resto é talento puro - e que talento. Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz representam dois casais a tentar resolver amigavelmente um confronto violento entre os seus filhos, ainda crianças - mas da tentativa de amenização até ao mais puro ressentimento vai uma distância mesmo muito curta. 

 

A força de Carnage, como já disse, reside nos actores, que têm desempenhos formidáveis. Destaco, no entanto, Christoph Waltz, uma vez mais absolutamente brilhante. Vê-lo representar é uma maravilha. Polanski merece todos os elogios por este filme, mas há que colocar também uma velinha a Tarantino - que o mostrou ao mundo em Inglourious Basterds, e lhe deu o lugar que merece com toda a justiça: entre as estrelas do cinema mundial. Como aquelas com quem contracena neste filme.

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O som dos nomes antes de os saber escrever

por Rui Rocha, em 30.12.11

Não sei se também vos aconteceu... No meu caso, antes de aprender a ler, os nomes de algumas pessoas soavam de maneira bem diferente daquela que vim a descobrir ser a forma correcta de os escrever. Por exemplo, para mim, Zeca Afonso era Zé Cafonso. Lembro-me também do Omar Xerife (na minha imaginação de menino, naturalmente, um herói do velho oeste) ou do Igreja Isqueiro (Igrejas Caeiro). A maior desilusão foi todavia o Sam Peque em Paz. O nome real de Sam Peckinpah não lhe servia nem para moço de recados.

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.12.11

 

Amália Rodrigues

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Retro Actividades, #1

por Ana Cláudia Vicente, em 30.12.11

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As canções do século (729)

por Pedro Correia, em 30.12.11

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Poetas esquecidos (6)

por Ivone Mendes da Silva, em 29.12.11

Isto de associar ideias é rodopiar que bem se conhece mas que nem sempre bem se explica. Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose. Ora bem: como é sabido que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã imaginação, um anjo de passagem, dos que fizeram formação em blogues, segredou-me à consciência: “Olha lá, não devias voltar a falar de um poeta esquecido?” Pois é, pensei: os poetas. Depois: Ofélia. A Ofélia de Fernando Pessoa, irmã de Carlos Queirós. Será o meu poeta de hoje.

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu em Lisboa em 1907 e morreu em Paris em 1949. Já conferi as datas, não me enganei. Felizmente, há sempre um ou outro comentador de bom coração que me vem assinalar o lapsus calami (ou de tecla, no caso vertente). Amigo de Fernando Pessoa e de Luís de Montalvor, a estética do Orfeu não deixou marcas muito visíveis na sua produção poética. Se alguma influência se quiser encontrar, será a da Presença, talvez mais de Régio, embora a poesia de Carlos Queirós assuma características muito próprias, diversas dos dois modernismos. Em vida, a sua publicação foi escassa: Desaparecido e alguns poemas em várias revistas. A publicação póstuma de Poesia Completa permitiu uma visão de conjunto sobre uma escrita de grande apuro sintáctico e formal. Eu di-lo-ia um clássico moderno e citadino, com dores de alma refreadas numa expressão contida. É um nostálgico comedido, desencantado do mundo e dos seus enganos. Uma nostalgia muito portuguesa, com metáforas de veleiros e de arrais.

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

- Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu...»

Eu, o feliz desaparecido!

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Frases de 2011 (73)

por Pedro Correia, em 29.12.11

«Para 2012 só peço que as lesões me respeitem.»

Jeffren Suárez, jogador do Sporting

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Bonnie and Clyde

por Laura Ramos, em 29.12.11

João Carvalho:
- Não achas que o TGV protegeria os portugueses do risco de assaltos como este?
Não tarda nada e a vida estará para os novos Bonnies&Clydes, que farão parar qualquer inocente comboio alfa...
É  que é pendular! Quero dizer: patibular.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 29.12.11

«Não festejar o 1 de Dezembro representa a morte de um dos três dias mais importantes da nossa história: os outros dois já foram chacinados e servem agora de exemplo: 5 de Outubro de 1143? Lembra-se de um tal Tratado de Zamora? E lembra-se de Aljubarrota e de 14 de Agosto de 1385? (...) Os EUA ou França alguma vez acabarão com o 4 de Julho ou o 14 de Julho? Never. Jamais

Filipe Paiva Cardoso, no i

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Houellebecq por Houellebecq (com carneiros e porcos)

por José António Abreu, em 29.12.11

– Vai reconhecer a casa com facilidade, é o relvado mais mal conservado das redondezas – dissera-lhe Houellebecq. – E talvez de toda a Irlanda – acrescentara.

Na ocasião julgara tratar-se de um exagero, mas a vegetação atingia efectivamente alturas fenomenais. Jed seguiu por um caminho empedrado que serpenteava por uma dezena de metros entre os maciços de cardos e de silvas, até à plataforma alcatroada onde estava estacionado um SUV Lexus RX350. Como era de esperar, Houellebecq escolhera a opção bungalow: era um grande edifício branco e novo, com telhados de ardósia – realmente uma casa perfeitamente banal, exceptuando o estado repugnante do relvado.

Tocou, esperou uns trinta segundos e o autor de As Partículas Elementares veio abrir, de pantufas, vestindo umas calças de bombazina e um confortável casaco de trazer por casa, de lã crua. Fitou Jed longamente, pensativamente, e depois dirigiu o olhar para o relvada numa meditação melancólica que parecia ser-lhe habitual.

– Não sei usar uma máquina de cortar relva – concluiu. – Tenho medo de cortar os dedos nas lâminas, parece que é frequente isso acontecer. Podia comprar um carneiro, mas não gosto deles. Não há nada mais foleiro que um carneiro.

Jed seguiu por umas salas de chão de pedra, vazia de móveis, aqui e além com algumas caixas de cartão das mudanças. As paredes eram forradas de papel pintado, liso, branco sujo; o chão estava coberto por uma ligeira película de poeira. A casa era muito ampla, devia ter pelo menos uns cinco quartos; não estava muito quente, não mais que dezasseis graus; Jed teve a intuição de que todos os quartos, com excepção daquele onde Houellebecq dormia, deviam estar vazios.

– Acabou de se instalar aqui?

– Pois foi. Enfim, há três anos.

(...)

– Gosta de enchidos? – perguntou o escritor.

– Sim… Digamos que não tenho nada contra.

– Vou fazer café.

Levantou-se com vivacidade e regressou uns dez minutos depois com duas chávenas e e uma cafeteira italiana.

– Não tenho leite nem açúcar – anunciou.

– Não faz mal. Eu não tomo.

O café era bom. O silêncio prolongou-se, absoluto, durante dois ou três minutos.

– Eu gostava muito de enchidos – disse por fim Houellebecq –, mas decidi passar sem eles. É que, sabe, eu acho que devia ser proibido ao homem matar porcos. Disse-lhe todo o mal que pensava dos carneiros; e persisto na minha opinião. Até os méritos da vaca, e neste ponto estou em desacordo com o meu amigo Benoît Duteurtre, me parecem ser exageradamente exaltados. Mas o porco é um animal admirável, inteligente, sensível, capaz de dedicar um afecto sincero e exclusivo ao dono. E realmente a sua inteligência é surpreendente, nem sequer se lhes conhecem os exactos limites. Sabe que já foi possível ensiná-los a dominar as operações simples? Enfim, pelo menos a adição, e acho que a subtracção em certos indivíduos muito dotados. Estará o homem no direito de sacrificar um animal capaz de atingir as bases da aritmética? Francamente, acho que não.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Já não me lembro em que publicação li, há cerca de dez anos, uma entrevista a Michel Houellebecq. Na altura ele vivia realmente na Irlanda (depois mudou-se para Espanha, onde não sei se permanece) e as fotos que ilustravam o artigo eram tal qual como se apresenta a Jed Martin, a personagem principal do seu novo livro. Há muitos anos que Houellebecq, o escritor, se transformou numa personagem e ele sabe-o. Raramente os seus livros foram lidos pelo que pretendiam dizer e ele sabe-o. Chegou a referi-lo em entrevistas, explicando que as críticas negativas o chateavam acima de tudo por, centrando-se nele próprio – e, no fundo, muito mais na personagem Houellebecq do que nele próprio – e nas componentes de choque que os livros incluíam – misantropia, sexo, niilismo –, passarem ao lado daquilo que os livros efectivamente procuravam transmitir. Claro que boa parte da responsabilidade por as coisas se passarem assim era dele, nunca avesso a desencadear uma polémica. Mas é verdade que, se os livros continham sexo, uma razoável dose de niilismo e muito mais do que simples vestígios de misantropia, continham também um desamparo raivoso, implacável, pouco dado a contemporizações, e uma aparente falta de afecto que era muito mais um queixume (reaccionário, no limite) sobre a evolução das relações humanas, sobre a incapacidade destas se manterem significativas (L'amour non partagé est une hémorragie, queixava-se a personagem principal de La Possibilité d'une Île) do que verdadeiro ódio à humanidade ou vontade de chocar os leitores e conseguir publicidade (embora esta estivesse presente, que Houellebecq é demasiado cerebral para não levar todas as vertentes em consideração). A premissa do seu primeiro romance, Extensão do Domínio da Luta (1994; edição portuguesa pela Quasi em 2006) diz tudo sobre a posição dele e explica perfeitamente o que se seguiu: os afectos e a sexualidade, condicionados de tantas maneiras no passado, jogam-se hoje num mercado aberto, capitalista, no qual há vencedores e perdedores, a frieza dos factores de competitividade (dinheiro, beleza, poder) se sobrepõe a tudo o resto, o tédio e a decadência do corpo constituem os principais inimigos e os bens materiais se revelam tão importantes (e tão pouco importantes) como os relacionamentos (a referência à Lexus, no excerto que transcrevi acima, como dezenas de outras às mais variadas marcas espalhadas pelos seus livros, é tudo menos acidental). Concorde-se ou não, ache-se que sempre foi assim ou não (mas não foi; pense-se, por exemplo, em como as crenças religiosas, os casamentos arranjados, os estreitos limites geográficos em que as pessoas se moviam, a falta de tempo livre e a inexistência de alternativas lúdicas às proporcionadas pelo casamento tornavam as relações – e as expectativas em torno das relações – bastante diferentes) a visão de Houellebecq é de que o ser humano, uma construção biológica que começa a morrer logo após atingir a idade adulta, encontrando-se cada vez menos capaz de verdadeiro afecto (deseja-o mas tem dificuldades em consegui-lo e não sabe como mantê-lo), o substitui por consumo (de sexo, de gadgets, de aparências, de ideias sem significado real). Em Plataforma (2001 em França; 2002, pela Bertrand, em Portugal), as ideias de consumo e de mercado eram tão evidentes (as personagens principais dedicavam-se a explorar uma empresa de turismo sexual) que talvez fossem demasiado óbvias para bem do livro. E em A Possibilidade de Uma Ilha (2005; 2006 em Portugal, pela D. Quixote), Houellebecq criou mesmo, num par de clones vivendo no quarto milénio, versões «melhoradas» do ser humano, menos expostas ao declínio físico e aos problemas dos afectos. Note-se que ele já abordara os temas da clonagem e da manipulação genética, enquanto hipóteses de solução para os defeitos humanos, em As Partículas Elementares (1998; Temas e Debates, 1999) e que terão existido declarações suas segundo as quais essas tecnologias lhe são simpáticas. Isto seria tudo menos estranho, considerando que é o ser humano tout court que parece deprimi-lo para além de qualquer hipótese de redenção, se não existissem nos seus livros sinais em contrário. Por exemplo, Daniel25, vigésimo quarto descendente de Daniel1, o humano original de A Possibilidade de Uma Ilha, confessa: Ma propre vie pourtant, j'y pense souvent, est bien loin d'être celle qu'il aurait aimé vivre. «Il» é Daniel1, o humano do presente. Ou seja, mesmo com manipulação genética, o humano do futuro não será o que gostaríamos que fosse; a ciência não é a panaceia e Houellebecq sabe-o. Pelo que as declarações a favor da clonagem talvez não passassem de pose, de uma mistura de sinceridade (última esperança, malgré tout?) com estratégia de marketing (o maior problema com Houellebecq é mesmo conseguir separá-lo da personagem Houellebecq). Seja como for, independentemente do que ele vai dizendo (ou do que se vai dizendo que ele disse), parece inegável que, por muito desencanto e raiva que o ser humano actual lhe suscite, Houellebecq não consegue inventar-lhe uma alternativa válida. E, no fundo, resigna-se a admiti-lo em cada livro.

 

Assim sendo, a pequena surpresa que constituiu O Mapa e o Território, editado no ano passado em França e há umas semanas por cá, advém de verificar quão perto da superfície se encontra enterrada essa incapacidade. Mas isso fica para amanhã. A menos que a preguiça, o tédio ou o desânimo me vençam – sou apenas humano.

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Médica de Armando Vara rouba ourivesaria.

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Sem deuses nem Cristo

por Pedro Correia, em 29.12.11

 

A "Europa" suspensa da próxima presidência europeia, confiada à Dinamarca, já a partir do dia 1. Do próximo Conselho Europeu, em Bruxelas. De mais uma cimeira "decisiva". Como gostam de dizer os jornalistas papagueadores de banalidades, "tudo pode acontecer". Um deles, fazendo jus aos seus consabidos dotes histriónicos defronte das câmaras, vem proclamando com dramatismo crescente: "A União Europeia está à beira do precipício."

Exageros à parte, paira de facto a sensação de que a curto prazo nada ficará na mesma: a Europa modelar do "Estado social", do crescimento económico e do pleno emprego parece pertencer definitivamente ao passado nestes dias em que apenas se ouve falar em défice, "dívidas soberanas", estagnação económica e recessão. O problema é que aquele modelo agora em acelerado declínio não se limitou a assegurar a prosperidade no Velho Continente durante mais de meio século: assegurou também a paz. E não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do mundo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer -- além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall -- contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.

Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar -- património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.

 

Imagem: Churchill e Adenauer, dois pioneiros da Europa unida

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Será o querido ditador?

por João Carvalho, em 29.12.11

 

Não tenho a certeza, mas parece que esta foto não é do funeral do querido ditador norte-coreano. Se fosse, aquele ciclista refractário que acabou de fugir da coluna já estaria, no momento da foto, a ser mortalmente alvejado por um agente da autoridade em julgamento supersumário feito a olho.

Ainda assim, vou falar com o camarada Bernardino Soares para tirar dúvidas.

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"Gorduras do Estado" (26)

por Pedro Correia, em 29.12.11

Saúde: Tribunal de Contas revela contabilidade pouco fiável e incentivos à ineficiência

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Hugo Chávez, o tiranete que, com a lucidez que o caracteriza, admitiu no passado que a vida em Marte possa ter sido destruída pelo sistema capitalista, especula agora sobre a possibilidade de os EUA terem desenvolvido um método para provocar cancro nos líderes da América latina (a doença foi também diagnosticada a Lula, Rousseff, Lugo, Kirchner e, quem sabe, a Fidel Castro). Embora não tenha aprofundado a questão no que diz respeito ao método utilizado, não é difícil imaginar um esquadrão de drones, apetrechados com armas que disparam raios cancerígenos e invisíveis e que, com precisão cirúrgica, atingem os corpos dos líderes progressistas daquelas paragens. Enquanto tudo isto se passa na cabeça de Chávez, há entretanto um aspecto que importa realçar como dado da realidade (e não apenas como elemento de teorias da conspiração mais ou menos delirantes): ninguém como Chávez, e numa segunda linha, como os outros líderes da América latina referidos, adoptou de forma tão despudorada um comportamento de aproveitamento político da doença. É evidente que a doença de Chávez, para o tomarmos como exemplo, é um assunto fundamental para a Venezuela. Sem Chávez não há chavismo. Uma doença grave do autor de tal programa político pode implicar uma mudança fundamental da situação do país. O que está em causa, todavia, é transformar uma doença real numa encenação teatral destinada a fortalecer a posição do tiranete e a abafar a oposição interna. Fazer de uma doença um golpe publicitário não é, na Venezuela, uma cabala perpetrada pelos inimigos do socialismo populista e delirante de Chávez. É o exemplo último da farsa em que Chávez converteu o debate político no seu país.

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Foi mesmo só para chatear a GNR!

por Ana Lima, em 29.12.11

Causa de morte: falta de cooperação.

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As canções do século (728)

por Pedro Correia, em 29.12.11

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Estes comunistas são impagáveis!

por Rui Rocha, em 28.12.11

 

Enquanto a natureza continua a chorar a morte de Kim Jong-il (convém recordar aqui os episódios da ave branca maior do que uma pomba que limpou a neve de uma estátua do Querido Líder, do grou que voou três vezes em redor de uma outra, das pombas que choraram meia-hora ou do ruído ensurdecedor do  quebrar do gelo no monte Baekdu), coisa que aliás não é surpreendente se tivermos em conta que o nascimento do agora defunto foi anunciado por um arco-íris duplo e por uma nova estrela no firmamento junto ao monte Paektu, o dito cujo foi transportado para a derradeira morada numa americaníssima limusina Lincoln. Caso para dizer: so long, buddy!

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A degradação do jornalismo

por Pedro Correia, em 28.12.11

 

Percebemos que a degradação do jornalismo atingiu níveis alarmantes quando lemos, em prosa assinada pelo editor de cultura de um dos principais jornais portugueses, que Benjamin Franklin foi presidente dos Estados Unidos da América.

A falta de exigência profissional, o esvaziamento das bases culturais, a perda de referências históricas, a incapacidade de formular raciocínios e exprimir ideias que ultrapassem o patamar das conversas de café são notórias nas páginas da generalidade dos periódicos. E este -- não tenhamos ilusões -- é um dos principais motivos do crescente divórcio entre jornais e leitores. Se enquanto consumidor regular da Internet posso ter mais e melhor leitura, sem gastar dinheiro e sem sair de casa, por que motivo me darei ao trabalho de adquirir um jornal que ainda por cima me trata como se eu fosse intelectualmente desprezível?

Manuel António Pina, um dos comentadores portugueses que mais respeito, transcrevia recentemente na sua habitual coluna do Jornal de Notícias um despacho da Lusa dando nota que "o Tribunal da Relação de Coimbra condenou os proprietários de uma loja de Aveiro a pagar 6500 euros a uma trabalhadora que obrigou a cumprir o horário laboral sentada virada para a parede e sem nada fazer". E, justificadamente, chamava a esta peça uma quase-notícia. Porquê? "O nome da empresa (o 'Quem?' da teoria clássica do jornalismo) [era] pudicamente omitido." Um reparo muito pertinente. "Ficam, pois, todos os 'proprietários[s] de loja[s]' de Aveiro sob suspeita de assédio no local de trabalho", concluía com amarga ironia este prestigiado escritor, um veterano das lides jornalísticas.

Outro jornalista veterano, Wilton Fonseca, dava há dias nota, numa coluna regular que mantém no diário i, do seu desencanto perante a falta de qualidade do que lê na imprensa de hoje. E socorria-se, para o efeito, do recente desabafo do provedor do leitor do Público, José Queirós, perante a manifesta degradação do conteúdo genérico da imprensa escrita. Citando alguns exemplos: Georges Braque mencionado como "escritor"; a Cisjordânia transformada em 'West Bank' numa legenda preguiçosa; o Fidel Castro de 1976 ilustrado numa imagem junto a Che Guevara, assassinado nove anos antes...

Concluía José Queirós: "O número de pro­fis­si­o­nais a quem cabe zelar pela cor­rec­ção da escrita dos tex­tos do Público dimi­nuiu dras­ti­ca­mente nos últi­mos anos e vários pro­ce­di­men­tos de con­trolo de qua­li­dade foram eli­mi­na­dos. [Mas] quais­quer que sejam as res­tri­ções finan­cei­ras, há limi­tes abaixo dos quais um jor­nal de qua­li­dade não pode des­cer sem des­me­re­cer esse rótulo. É uma ques­tão de res­peito pelos direi­tos dos consumidores." Será difícil não lhe dar razão.

Wilton Fonseca, no entanto, ia ainda mais longe: "A meu ver, não são apenas os revisores residuais. São os editores residuais, os chefes de redacção e os directores residuais, jornalistas residuais a fazer jornalismo residual para uma sociedade em que todos os valores também parecem ser residuais."

O problema é precisamente este. Falta acrescentar: um jornalismo residual conduz a uma democracia residual. O que basta para constituir motivo de preocupação para todos nós.

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Ele que aprenda

por João Carvalho, em 28.12.11

Diz o nosso João Campos aqui que diz o Daniel Oliveira no Expresso: «Não gostam da luta dos maquinistas? Aprendam a conduzir comboios.»

Ora, diz também o nosso João Campos — e diz muito bem — o seguinte: «No meu caso, e no caso de muita gente, não gostar da luta dos maquinistas (não é isso que está em causa, mas vá) não significa aprender a conduzir comboios (mesmo que o quisesse fazer, quem seria despedido para eu ter trabalho?), mas sim ser forçado a optar por transportadoras rodoviárias privadas.» E acrescenta que, «mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas — estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões — ficam desempregados».

O prognóstico é muito aceitável para uma mente linear. Já para o Daniel Oliveira talvez não seja, porque dá-se o caso de tudo isto resultar da actual gestão política do Estado, que ele parece que não aprecia muito.

Mas não faz mal. O Daniel não gosta da gestão do Estado? Ele que aprenda a fazer-se eleger para conduzir o país. Palpita-me que eu aprenderei muito mais depressa a conduzir comboios.

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