Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Para o Fernando

por Pedro Correia, em 30.11.11

 

ASH WEDNESDAY

 

Although I do not hope to turn again
Although I do not hope
Although I do not hope to turn

Wavering between the profit and the loss
In this brief transit where the dreams cross
The dreamcrossed twilight between birth and dying
(Bless me father) though I do not wish to wish these things
From the wide window towards the granite shore
The white sails still fly seaward, seaward flying
Unbroken wings

And the lost heart stiffens and rejoices
In the lost lilac and the lost sea voices
And the weak spirit quickens to rebel
For the bent golden-rod and the lost sea smell
Quickens to recover
The cry of quail and the whirling plover
And the blind eye creates
The empty forms between the ivory gates
And smell renews the salt savour of the sandy earth

This is the time of tension between dying and birth
The place of solitude where three dreams cross
Between blue rocks
But when the voices shaken from the yew-tree drift away
Let the other yew be shaken and reply.

Blessed sister, holy mother, spirit of the fountain, spirit of the garden,
Suffer us not to mock ourselves with falsehood
Teach us to care and not to care
Teach us to sit still
Even among these rocks,
Our peace in His will
And even among these rocks
Sister, mother
And spirit of the river, spirit of the sea,
Suffer me not to be separated

And let my cry come unto Thee.


T. S. Eliot
(excerto)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Melancholia

por Cláudia Köver, em 30.11.11

Nunca pensei gostar tanto de um filme no qual (independentemente de ser ou não o seu foco) um planeta ameaça embater na Terra. 

Fotografia perfeita. Enquadramentos perfeitos. Cores perfeitas. Música perfeita. História fantástica. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A Lusa vai além da Troika

por Rui Rocha, em 30.11.11

 

A vida não está fácil para os pensionistas. Primeiro, foram os cortes previstos no Orçamento de Estado para 2012. Agora, é a Lusa que os quer pôr a trabalhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só li um livro de Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira, e ando a tentar comprar menos livros. Mas, numa livraria, não resisto a folhear Os Desmandos de Violante, acabado de editar. (Ele gosta de mulheres problemáticas, não gosta? Bom, quem não gosta, pelo menos durante um tempo? Assumindo, claro, que «mulheres problemáticas» não constitui redundância...) É a minha faceta malévola que me leva a fazê-lo. A faceta que me segreda: não seria irónico que estivesse em 'acordês'?

(Não está. Talvez ainda o compre.)

 

Vejo a capa de Short Movies e solto um suspiro de alívio que se ouve do lado oposto da livraria. Começava a ficar preocupado com a possibilidade de Gonçalo M. Tavares não lançar pelo menos um livro neste Natal.

(E afinal vão ser dois. O mundo não anda assim tão estranho.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Delito breaking news

por Rui Rocha, em 30.11.11

 

Tozé Seguro pede gaiola emprestada ao Benfica para controlar deputados do PS que têm saudades de Sócrates.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Poetas esquecidos (2)

por Ivone Mendes da Silva, em 30.11.11

Tenho andado esquecida dos meus poetas esquecidos. Vamos, então, a isto que o prometido é devido. Não quero seguir nenhuma ordenação cronológica em especial. Hão-de sair-me da memória, ao acaso, e pousar aqui.

Eugénio de Castro. Eugénio de Castro e Almeida nasceu em Coimbra em Março de 1869. Formado em Letras, enceta uma breve carreira diplomática em Paris onde se torna amigo de Jean Moréas e Henri de Régnier e aprofunda o conhecimento das obras de Mallarmé, Verlaine e Khan. Regressa a Coimbra para ensinar na Faculdade Letras. Ainda vão dizer que só estou a trazer para aqui poetas que foram professores nas Letras em Coimbra. Até gosto deles, agora que me passaram os traumas, mas não: hão-de vir outros que não tenham andado na Rua da Sofia. (;)

Com Manuel da Silva Gaio, dirige a revista Arte, depois de ter fundado e colaborado com a Os Insubmissos e a Boémia Nova.

A publicação, em 1890, do livro Oaristos coloca-o na história da literatura portuguesa como o introdutor do Simbolismo em Portugal.

Dir-me-ão, talvez, que em Portugal nunca houve um verdadeiro Simbolismo, à excepção de Camilo Pessanha. Podem, talvez, dizer-me que Eugénio de Castro é um poeta menor e eu até posso, num dia em que esteja menos refilona, concordar.

Oaristos, uma palavra que significa diálogos íntimos (mais para o lado da conjugalidade), traz no seu Prefácio um pequeno manifesto do Simbolismo, assumindo uma posição crítica face ao léxico da poesia portuguesa da época, pobre e repetitivo, e preconizava um aproveitamento da musicalidade da língua por puro deleite estético.

Com os simbolistas, a palavra liberta-se de um significado que a aprisiona e limita e torna-se um puro significante, vale pelo som e pelo símbolo, não apenas pelo que significa. Com o Simbolismo, abrem-se caminhos para novos modos de exprimir.

A Eugénio de Castro juntam-se Alberto Osório de Castro, Alberto de Oliveira, António Nobre, Júlio Brandão, entre outros. Eram os “nefelibatas”, designação um bocadinho pejorativa. Vem do grego: são os que andam nas nuvens. O Simbolismo português é, antes de mais, uma atitude estética, não é a filosofia do decadentismo francês de final de século. É um virar de costas ao pesadume exaltado do ultra-romantismo, é “de la musique avant toute chose”.

E fica aqui um poema óptimo, por sinal, para fazer um ditado ali aos amigos da Leonor:

 

Um sonho.

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, b morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 30.11.11

«O novo Partido Socialista teve um bom começo no congresso que consagrou António José Seguro, afirmando os seus valores distintivos e a necessidade de uma renovação, ou mesmo de uma refundação. No entanto, aquilo que parecia uma linha orientadora forte rapidamente começou a perder-se. Quando os portugueses vêem imagens do Parlamento, com fiéis de Sócrates na primeira fila, não podem senão ficar perplexos (o que estão lá a fazer? Não há nenhuma empresa que os contrate, nenhuma universidade que os queira?)»

João Cardoso Rosas, no Diário Económico

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas realmente importantes:

por João Campos, em 30.11.11

Radiohead confirmados a 15 de Julho no Optimus Alive 2012.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Gorduras do Estado" (20)

por Pedro Correia, em 30.11.11

RAVE gastou 14,6 milhões de euros com TGV em quatro anos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma proeza

por António Manuel Venda, em 30.11.11

O texto que coloco a seguir, assinado por um director de serviços de uma das direcções regionais de educação do país, foi ontem recebido numa escola (imagino que terá ido para muitas outras, mas tive conhecimento apenas de uma). Em termos de nível de português, consegue mesmo a proeza de bater este comunicado macarrónico.

 

Exmo./a Senhor/a Director/a

 

Na sequência da mensagem infra, cumpre informar que Por razões de natureza logística e dado que se torna necessário conhecer com antecedência o número de participantes no Encontro, pelo que solicitamos que os professores de Francês interessados em participar no Encontro procedam à sua inscrição através do seguinte endereço electrónico:

 

[aqui surgia o endereço]

 

Com os melhores cumprimentos

 

O Director de Serviços

 

[aqui surgia o nome do director]

Autoria e outros dados (tags, etc)

The lost tracks - de preto não me comprometo

por Cláudia Köver, em 30.11.11

Band of horses é um grupo indie/rock alternativo americano (ou assim o diz a wikipédia). A música de hoje fez parte da banda sonora de "127 horas". Filme que, infelizmente, ainda não vi. A banda tem três álbuns e é provavelmente uma das mais conhecidas que até agora aqui vos apresentei. Fica a esperança que não conheçam a música de amanhã. Para hoje: "The funeral".

 

The lost tracks: Uma playlist que só cresce com músicas perdidas - algures entre o desconhecido, esquecido, ignorado ou ainda por descobrir. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Transportes públicos? (16)

por João Carvalho, em 30.11.11

 

Como se sabe, o transporte de doentes é muitas vezes vertiginoso, o que constitui não só um perigo potencial para os restantes transportes em circulação, mas também para a tensão arterial dos próprios doentes ambulatórios. Recomenda-se, portanto, que a selecção das respectivas viaturas seja feita com muita calma...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cinquenta bordoadas na língua de Camões (49)

por Leonor Barros, em 30.11.11

Dicistir

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ignorando o populismo da coisa, sempre é uma evolução

por José António Abreu, em 30.11.11
Antes quase não se discutiam decisões governamentais de centenas de milhões de euros com impacto ao longo de décadas. Agora discutem-se ferozmente alugueres operacionais de viaturas de oitenta e seis mil euros. Proclama-se que deviam ser anulados. Apesar de resultarem de contratos assinados pelo anterior governo, culpa-se o actual. O Ministro (que se enreda ao procurar explicar-se; note-se como Zorrinho preserva o orgulhoso silêncio que tão bem resulta por cá) devia demitir-se ou, no mínimo, voltar a andar de scooter (não está claro se poderia manter o motorista mas provavelmente Mota Soares preferiria guiar a ter de seguir abraçado a ele). Fazendo voo rasante sobre o pormenor de que, a começarmos a anular contratos, a posição correcta deste seria a uns dois quarteirões do início da fila (ah, os das PPP e os do sector energético e outros igualmente insignificantes...), percebe-se a comoção: uma coisa é investimento, ainda que direccionado para empresas amigas e catastrófico para as contas públicas; outra coisa são luxos. E oitenta e seis mil euros acaba por ser um valor muito mais ao alcance da compreensão da maioria das pessoas.
 
(A posição sensata.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Estava, digo bem, porque perdi o maldito livro hoje mesmo.

 

Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso.

 

E eu pensei: Está bem, abelha.

 

Mal entrei em casa encomendei outro. Para poupar portes de envio mandei vir também este, este, este e este. Como precisava de um miminho, e ainda ontem fiz anos, julguei que não era mal nenhum acrescentar este. E já agora este. Ou seja, fiz um excelente negócio em portes e dei um bom uso aos meus euros, que agora estão a salvo em Inglaterra. 

 

O livro é muito bom — sei disso porque já ia na página 23. Tem a palavra o Luis Menezes Leitão

Autoria e outros dados (tags, etc)

bom dia

por Patrícia Reis, em 30.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (699)

por Pedro Correia, em 30.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.11.11

À Avenida da Liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ler

por Pedro Correia, em 29.11.11

Ao aceitarem governos ilegítimos legitimamos formas extremas de oposição. Do Daniel Oliveira, no Arrastão.

O que os europeus não querem. Do Luís Naves, no Forte Apache.

Novos rumos. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

Não farei greve. De Sofia Loureiro dos Santos, no Defender o Quadrado.

Ainda sobre o post anterior. Da Helena, n' A Conspirata.

Graçolas. Da Ana Cristina Leonardo, na Meditação na Pastelaria.

Os cómicos. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

 

(em actualização)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bons excessos

por Laura Ramos, em 29.11.11

Como imaginam, raras vezes a leitura do Diário da nossa República nos reserva mais do que bocejos e urgentes  escapadelas para um café. Devia estar no index: digo sempre. Combateríamos assim o absentismo e a contaminação do fenómeno da quadratura mental. Mas hoje saiu - como diria o Eça - um diplomazinho importante para a qualidade de vida dos portugueses, em que se estabelece o regime da formação do preço dos medicamento e se diminui a margem de lucro arrecadada pelas farmácias e pelos distribuidores.

A revisão da política do medicamento em Portugal era urgente por variadas razões, nem todas especialmente novas - como a transparência do mercado farmacêutico - mas agora assume um papel redobradamente importante, actuando também na suavização dos efeitos da austeridade.
Quer pelo lado do consumidor privado, porque a baixa generalizada dos preços lhe facilita o acesso a terapêuticas de custos comportáveis. Quer pelo lado do consumidor público, o Estado, que assim poderá reduzir os seus gastos sem comprometer uma parcela dos objectivos do SNS.

Algumas destas medidas cumprem metas assumidas no 'Memorando de Entendimento' com a Troika, é verdade. Mas vão mais além, concretizando linhas de acção estabelecidas no programa do Governo.
Era assim que eu gostava de ver o Governo a exceder os compromissos com a Troika: distribuindo o ónus da crise por todos os portugueses, incluindo os grupos de interesses privados.

- Isto não lhe diz respeito porque não toma remédios?
- Não importa: ligue-se, porque um dia tomará.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O episódio da viatura do Ministro Pedro Mota Soares é bem o exemplo de uma das características principais da fatalidade de ser português. Chamemos-lhe fado, em homenagem a factos recentes. Rápidos na distribuição de culpas, permanecemos impávidos e serenos na alteração do processo. Ora, aquilo que verdadeiramente nos pouparia a tais momentos seria uma alteração no sentido de uma total transparência dos vencimentos dos titulares de cargos políticos e dos benefícios complementares. Há um emaranhado de prestações, subsídios, ajudas e outras remunerações complementares que tornam o pacote global associado ao desempenho de funções ininteligível para o cidadão e contribuinte. A isto acresce uma camada insondável de interpretação jurídica. Acabe-se com isso. Estabeleça-se uma tabela de remunerações e benefícios que obedeça a três princípios:

a) adequação - as funções devem ser bem pagas; à falta de melhor, indexe-se a remuneração base ao salário médio nacional; se um Ministro deve receber 5, 6, 7, 10 vezes o salário médio mensal, pois que o receba; a partir daí só aceita se quiser; pouco importa que vá de Lisboa, do Canadá ou do Sabugal.

b) publicidade - as remunerações globais e os benefícios devem ser públicos e mais do que isso, publicados e acessíveis a quem os quiser ver.

c) simplicidade - a qualquer cidadão deve ser possível perceber que à função de Secretário de Estado corresponde uma remuneração global de "x" e que a função implica uma viatura para utilização em serviço cuja renda mensal é de "y" (uma viatura no valor de 86 mil euros para um Secretário de Estado ou mesmo para um Ministro é, hoje em dia, um abuso).

Não há empresa privada minimamente organizada em que tais tabelas não existam. Assim devia ser também, por maioria de razão, a propósito das funções políticas que todos nós suportamos com os nossos impostos. Ainda mais quando o descontentamento justificado de todos faz depender o incêndio da proximidadade de um fósforo. E até para defesa do próprio exercício de funções políticas. Enquanto isto não for feito, respeitando os três princípios enunciados, resta-nos chapinhar na demagogia. O próximo episódio de indignação segue dentro de momentos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A dor da gente não sai no jornal

por Pedro Correia, em 29.11.11

 

Não sei se convosco acontece o mesmo. A mim sucede-me com frequência: leio uma notícia num jornal que me sabe a pouco. Apetece-me conhecer mais pormenores, desvendar o lado oculto do relato noticioso, frio por excelência, sucinto por óbvia limitação de espaço.

Aconteceu-me nestes dias por duas vezes. A primeira ocorreu ao saber do falecimento da única neta do mítico milionário William Randolph Hearst, que Orson Welles retratou na sua obra-prima O Mundo a Seus Pés (1941), chamando-lhe Charles Foster Kane. A senhora vivia sozinha numa quinta situada nas imediações de Sevilha e regressara pouco dias antes de Portugal, onde fora submetida a uma operação plástica.

A notícia que li era enigmática: calava muito mais do que explicava. Como é que a neta de um magnata americano vai parar a um lugarejo da Andaluzia e lá se radica durante anos? Por que motivo a senhora, dona de tantas posses, vivia tão solitária? Que recordações guardaria do avô? Detestaria Citizen Kane? Que laços a uniam a Portugal, além de frequentar uma clínica de cirurgia estética? A minha estranheza foi ainda maior por ter visto apenas o tema aflorado na imprensa espanhola, sem qualquer eco em Portugal.

A segunda notícia era impressionante. Falava de um senhor com 96 anos que na manhã do dia 20 votou nas legislativas espanholas. Mal depositou o boletim de voto na urna, situada num centro cultural de Madrid, desfaleceu. Todos os esforços para o reanimar foram inúteis.

A peça jornalística nada mais informava senão isto. Restou quase tudo por dizer. Senti vontade de saber quem era aquele homem que morreu segundos depois de exercer o direito de voto -- que durante 40 anos esteve proibido em Espanha. Quais seriam as suas convições políticas? O que haveria a destacar no seu percurso? Terá deixado família? O que diziam dele alguns amigos, uns quantos vizinhos? Com quem falou pela última vez? Que pensamentos povoados de angústia o terão sobressaltado na noite anterior?

Tanto vamos sabendo, no contínuo bombardeamento informativo de que somos alvo de manhã à noite. Mas tanto permanece por desvendar nas entrelinhas das notícias. E muitas vezes é precisamente quando as notícias terminam que a vida verdadeira começa, com o seu permanente jogo de sombras e luzes. Razão tinham Elizeth Cardoso e Chico Buarque quando cantavam: "A dor da gente não sai no jornal."

Autoria e outros dados (tags, etc)

The lost tracks

por Cláudia Köver, em 29.11.11

A crónica esteve provisoriamente "perdida" entre o trabalho e o lazer. No entanto regressa hoje aos nossos ouvidos com "How you like me now?" de "The Heavy", uma banda inglesa que figurou na Hot List da revista Rolling Stones em 2008. Esta mesma música foi usada num anúncio da KIA durante o Super Bowl 2010 e integrou a banda sonora de The Fighter. Se não a tiverem ouvido aí, também a podem reconhecer de séries como "White Collar" ou "Entourage". 

 

 

The lost tracks: Uma playlist que só cresce com músicas perdidas - algures entre o desconhecido, esquecido, ignorado ou ainda por descobrir. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Algum juízo, demasiado tarde.

por Luís M. Jorge, em 29.11.11

Nouriel Roubini, o homem que previu a recessão de 2008, faz uma síntese exemplar da crise do Euro e enumera as soluções que ainda nos restam. A Alemanha está contra, evidentemente. Um trecho com sublinhados meus:

(...) A reflação [estimular a economia através do aumento do suprimento de moeda ou reduzindo taxas, é o oposto de deflação] simétrica é a melhor opção para restaurar a competitividade e o crescimento na periferia da Zona Euro, ao mesmo tempo que se levam a cabo as necessárias medidas de austeridade e reformas estruturais. Isto implica uma significativa flexibilização da política monetária por parte do BCE; provisão de apoio ilimitado de credor de último recurso a economias ilíquidas mas potencialmente solventes; uma forte depreciação do euro, o que poderá transformar os défices das contas correntes em excedentes; e estímulos orçamentais nos países do núcleo se a periferia for obrigada à austeridade.

 

Lamentavelmente, a Alemanha e o BCE opõem-se a esta opção, devido à perspectiva de uma dose temporária de inflação modestamente mais elevada nos países do núcleo da Zona Euro face à periferia.

 

O amargo medicamento que a Alemanha e o BCE querem impor à periferia – a segunda opção – é a deflação recessiva: austeridade orçamental; reformas estruturais visando impulsionar o crescimento da produtividade e reduzir os custos unitários do trabalho; e uma depreciação real, através do ajuste de preços, por oposição ao ajuste da taxa de câmbio nominal.

 

Os problemas com esta opção são imensos. A austeridade orçamental, se bem que necessária, significa uma recessão mais profunda no curto prazo. Mesmo as reformas estruturais reduzem a produção no curto prazo, porque é algo que exige que se despeçam trabalhadores, que se encerrem empresas que estão a dar prejuízos e que seja feita uma realocação gradual da mão-de-obra e do capital em novas indústrias emergentes. Assim, para evitar uma espiral de recessão ainda mais profunda, a periferia precisa de uma depreciação real para melhorar o seu défice externo. Mas mesmo que os preços e salários caiam 30% nos próximos anos, o valor real da dívida aumentará fortemente, agravando a insolvência dos governos e dos devedores privados.

 

(...) Se os países periféricos continuarem enredados numa armadilha deflacionista de elevado endividamento, queda da produção, fraca competitividade e défices externos estruturais, acabarão por se sentir tentados por uma terceira opção: o "default" e a saída da Zona Euro. Isso permitir-lhes-ia revitalizar o crescimento económico e a competitividade, através da depreciação das novas moedas nacionais.

 

Evidentemente, um tal desmoronamento desordenado da Zona Euro constituiria um choque tão severo como o do colapso do Lehman Brothers em 2008, se não mesmo pior.

No mesmo sentido não percam este texto de Vitor Bento, sim o Vitor Bento, que agora se mobiliza contra o fundamentalismo moralista (e quem sou eu para o contrariar?) de alguns governos e do BCE.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Girls (bom, não verdadeiramente; desculpem lá)

por José António Abreu, em 29.11.11

 

Dois rapazes de São Francisco que se autodenominam raparigas e cantam sobre rapazes sonhando com raparigas. Estranho? Mesmo nada quando se sabe que a história de um deles inclui, graças à mãe, passagem por um culto radical, deambulações pela Ásia e Europa enquanto criança e nunca ter pisado uma sala de aula. Hoje na Discoteca Lux, em Lisboa, amanhã na sala 2 da Casa da Música, no Porto. Claramente, têm um fraquinho por ícones da indústria automóvel americana.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Uma abstenção violenta

por Rui Rocha, em 29.11.11

António José Seguro cunhou a expressão violenta abstenção. Todavia, ao que parece, melhor falaria de uma abstenção violenta, sendo que esta descreve não a posição do PS em relação ao Orçamento, mas a situação vivida no próprio grupo parlamentar socialista. Na verdade, e de acordo com vários relatos, Seguro pretendia votar favoravelmente a proposta dita de modelação dos cortes salariais na função pública. A decisão terá mesmo sido comunicada à bancada do PS pelo líder parlamentar. Todavia, alguns deputados socialistas manifestaram a intenção de quebrar a disciplina de voto, o que levou a liderança (se é que assim se pode dizer) a recuar e  a optar pela abstenção. Para lá das limitações próprias e evidentes e de alguns lapsos de percurso (Carlos Zorrinho não tem condições para liderar, sequer, uma assembleia de condóminos), Seguro enfrenta ainda adversidades conjunturais e estruturais que o condicionam politicamente:

  • herdou um partido identificado pela opinião pública com a autoria moral e material da bancarrota (e não soube, deve reconhecê-lo, promover a necessária separação de águas);
  • tem a sua iniciativa (se é que tem uma) limitada pela vinculação ao memorando da Troika;
  • assiste a uma hiperactividade sazonal de Mário Soares que, mais do que interpelar o governo, provoca confusão à esquerda (o complexo de Édipo, na versão PS, relaciona-se com o impulso de amordaçar o avô);
  • vê a esquerda mais radical e o movimento sindical assumirem, na rua, a liderança do processo de oposição;
  • tem a representação parlamentar fracturada pela tensão insuflada pelo grupo de deputados que pretende consagrar Sócrates como património (para já) imaterial do PS (ainda que todos saibamos que o lugar que lhe cabe por direito é o de maravilha da gastonomia).

Neste contexto, por erros seus e má fortuna, é possível que Seguro passe da fase em que provoca tédio aos eleitores para aquela outra em que tudo o que lhes desperta é compaixão. É que, por estes dias, exercer como Secretário-Geral do PS pode muito bem ser uma das piores profissões do mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Gorduras do Estado" (19)

por Pedro Correia, em 29.11.11

NAER investiu mais de 40 milhões a estudar construção de aeroporto na Ota

Autoria e outros dados (tags, etc)

Encontros felizes (11)

por Ana Vidal, em 29.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pequeno Momento de Propaganda Regionalista

por Ana Cláudia Vicente, em 29.11.11

[Foto:RTP]

Parabéns à Cooperativa de Produtores de Queijos da Beira Baixa / Idanha-a-Nova pela Medalha de Ouro conseguida nos World Cheese Awards deste ano. Enquanto uns lamentam o presente, outros investem, arriscam, preparam o futuro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Transportes públicos? (15)

por João Carvalho, em 29.11.11

 

Como se sabe, é essencial haver transportes a circular. Mas convém ter em mente a necessidade de haver rotundas circulantes...

Autoria e outros dados (tags, etc)

A voz de Eco

por Rui Rocha, em 29.11.11

 

Numa grande entrevista conduzida por Stephen Moss e publicada no Guardian, Umberto Eco aborda vários temas. Alguns destaques:

 

Sobre os Protocolos dos Sábios do Sião:

Interessa-me a filosofia da linguagem, a semiótica (...) e um dos aspectos essenciais da linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente. Quando ladra, é sinal de que está alguém lá fora. Os animais não mentem. Os humanos fazem-no. Das mentiras à falsificação a distância é curta (...). A maior e mais terrível falsificação é a dos Protocolos dos Sábios do Sião.

 

Sobre a Conspiração:

O que me atrai não é a conspiração em si, mas a paranóia que permite que ela se desenvolva. (...) A paranóia da conspiração universal é mais poderosa porque perdura. (...) É uma tentação psicológica da espécie. Karl Popper escreveu um belíssimo ensaio sobre o assunto em que afirma que tudo começou com Homero. Tudo o que aconteceu em Tróia foi congeminado pelos Deuses no dia anterior, no cimo do Monte Olimpo. A conspiração é uma forma de não nos sentirmos responsabilizados. É por isso que os ditadores usam a ideia de conspiração universal como uma arma. Fui educado na escola por fascistas durante os primeiros anos de vida e eles usavam a conspiração universal: os ingleses, os judeus e os capitalistas estavam a conspirar contra nós, pobres italianos. Hitler fez o mesmo. E Berlusconi, sem estar em causa compará-lo com Hitler ou Mussolini, passou a campanha eleitoral a falar da conspiração dupla dos juízes e dos comunistas. Já não há comunistas, mesmo que os procures com uma lupa, mas para Berlusconi eles estavam a tentar tomar o poder.

 

Sobre Berlusconi:

Berlusconi é um génio da comunicação. Se não fosse assim, nunca se teria tornado tão rico. Ele identificou o seu alvo desde o princípio: pessoas de meia idade que vêem televisão. Os jovens não vêem televisão, estão na Internet. As pessoas que apoiam Berlusconi são as senhoras de 50 e 60 anos e os reformados que vêem televisão que, num país em processo de envelhecimento, constituem uma força eleitoral poderosa. (...) O lema de Berlusconi foi paguem menos impostos. Quando um primeiro-ministro diz que tens direito a não pagar impostos, ficas satisfeito.

 

Sobre a Itália e suas escolhas eleitorais:

Berlusconi apresenta uma clara aversão aos intelectuais. Orgulha-se de não ter lido um livro até aos 20 anos. Há um claro temor dos intelectuais como representantes do poder da crítica e, nesse sentido, existe um embate violento entre Berlusconi e o mundo intelectual. Mas, a Itália não é um país de intelectuais. Em Tóquio, no metro, toda a gente lê. Em Itália não. Não avaliem a Itália a partir do facto de estar ter produzido Rafael ou Miguel Ângelo.

 

* tradução livre

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parabéns!

por João Carvalho, em 29.11.11

 

O nosso Adolfo Mesquita Nunes está de parabéns.

Atira-nos uma fatia de bolo, se tiveres tempo para o povo!

Um dia em grande e um ano ainda melhor, Adolfo!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

dois pra lá

por Patrícia Reis, em 29.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

A história repete-se

por José Gomes André, em 29.11.11

Sobre a dívida pública, duas opiniões contraditórias:

Alexander Hamilton: "“O aumento da dívida pública é uma circunstância de enorme importância nos assuntos do país. Equivale ao estabelecimento do crédito público. Nenhum homem pode ter crédito se os seus títulos se vendem por um terço ou metade do seu valor: o mesmo se passa em relação ao governo; uma consolidação adequada da dívida pública torná-la-á uma bênção nacional.”

James Madison: "Nunca fui um defensor da doutrina de que as dívidas públicas são benefícios públicos. Considero-as, pelo contrário, como malefícios que devem ser removidos tão rapidamente quanto a honra e a justiça o permitirem."

 

Foi isto escrito no "Economist" de ontem? No "Der Spiegel" da semana passada? Não. Data de 1791, quando uns ainda jovens Estados Unidos se viam a braços com uma colossal crise financeira. Não deixa de ser curioso ouvir nos "media" os relatos histéricos sobre a "crise dos nossos tempos". É no que dá desconhecer o passado. Como nos diz Santayana, acabamos condenados a vivê-lo uma e outra vez...

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (698)

por Pedro Correia, em 29.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

La più bella dell' universo

por Pedro Correia, em 28.11.11

 

Luchino Visconti chamou-lhe "La donna più bella dell'universo": Laura Antonelli faz hoje 70 anos. Quantos se lembram ainda de que ela foi uma extraordinária sex symbol do cinema europeu? E quantos recordam ainda como o cinema foi capaz de antecipar a revolução de costumes da década de 60 com o filme E Deus Criou a Mulher, estreado há exactamente 55 anos, com Brigitte Bardot a incendiar paixões na tela?

A cultura pop, que submergiu o Ocidente no último meio século, forja e tritura ícones a uma velocidade estonteante: esta é a sua grande força, esta é a sua enorme fragilidade. Ídolos de pés de barro, vivem da imagem e apagam-se no esquecimento colectivo quando essa imagem fatalmente se extingue. Tanto mais impressivo quanto mais fugaz. "Não somos mais do que o pó das estrelas", ensinou-nos Carl Sagan. Quantas destas estrelas -- as de cinema -- foram por sua vez reduzidas a pó depois de terem povoado os nossos sonhos?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou a ler "Meine russischen Nachbarn" (7)

por Leonor Barros, em 28.11.11

O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.

Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita. E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.

Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989. Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos, Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.

E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.

A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra: "Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço'. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o pioneiro. 'Não interessa', esclarece o professor, 'vais comê-los na mesma, quer gostes quer não'."

 


É isto que acabei de ler, Laura. Passo o testemunho ao Luis M. Jorge. O que estás a ler, Luís?  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Europa, 2011

por Pedro Correia, em 28.11.11

Notícias frescas da eurozona: Itália à beira da recessão, no próximo ano o desemprego continuará a disparar em Espanha, a Economist vaticina o colapso do euro. E os nossos vizinhos até já admitem sem rodeios um cenário de regresso à peseta.

"Mereceste reinar", escreveu Quevedo num soneto dedicado a Filipe III. De quantos dirigentes europeus contemporâneos poderá um historiador futuro dizer o mesmo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Publicidade descarada

por Ana Vidal, em 28.11.11

Acaba de chegar às livrarias um dos motivos* que me têm afastado do Delito ultimamente. Agora já não me pertence e espera o vosso veredicto. O texto é meu, a capa é um belíssimo quadro do pintor Joaquim Baltazar, que traduz na perfeição o espírito do livro. Enfim, uma sugestão para o Natal.

 

 

(*o outro "motivo" será igualmente objecto de um post com o mesmo título, dentro de alguns dias).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Que outro fumo deveremos seguir?

por Laura Ramos, em 28.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Transportes públicos? (14)

por João Carvalho, em 28.11.11

 

Ninguém deve esquecer-se de que há transportes em que as crianças não devem viajar sozinhas...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gozar com as pessoas

por António Manuel Venda, em 28.11.11

 

Não sei se o aluguer da «bomba», como chama o «Correio da Manhã» ao novo carro de luxo do ministro da Solidariedade Social, Pedro Mota Soares, foi uma herança do anterior governo (como Mota Soares se desculpa). Se foi, bem que o ministro podia ter tomado a decisão de o anular (algum poder de decisão deve ter um ministro). Mas não, limitou-se a ir levantar o carro ao stand (segundo conta outro jornal, creio que o «DN» – e eu que pensava que os ministros até para lhes ir levantar os carros tinham assessores…). E ao fazê-lo acabou por gozar com cada uma das pessoas que dia após dia neste país abdicam de muitas coisas de que não gostariam de abdicar – porque o dinheiro, quando não se tem acesso ao saco do Estado, que mesmo com a crise parece inesgotável, não chega para tudo.

Depois de uma coisa destas, Mota Soares devia ser imediatamente demitido. Certamente que não será cómodo para Pedro Passos Coelho telefonar-lhe a dizer que assim não dá para continuar. Mas podia telefonar a Paulo Portas para os dois acertarem a melhor maneira da fazer a substituição por alguém que revele um pouco mais de bom senso e um pouco menos de sentido de humor negro.

Quanto ao anterior secretário de Estado para quem o carro – ao que diz Mota Soares – terá sido encomendado (Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS), também seria bom que António José Seguro falasse com ele e lhe perguntasse se desperdícios como este são mesmo o que ele defende para a gestão dos dinheiros públicos. E se algum dia o PS vier sob a liderança de Seguro a ser chamado a formar governo (não imagino como, depois do que José Sócrates fez ao país), seria bom que a opinião de Zorrinho fosse tida em conta no momento da escolha do elenco governativo. Aliás, seria bom que fosse tida em conta já agora, para efeitos de continuar a ser ou não líder parlamentar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Uma alteração radical

por José Maria Gui Pimentel, em 28.11.11

A propósito da proposta do Governo de eliminar quatro feriados, ocorreu-me partilhar uma ideia que povoa o meu espirito há algum tempo, que se poderia aplicar não só a Portugal mas a qualquer país do mundo. Admito que possa ser polémica.

Um trabalhador português conta, hoje em dia, com pelo menos 37 dias de descanso anual (22 dias de férias, que podem chegar a 25, e, tipicamente, 15 feriados). Significa isto que o trabalhador não tem direito de escolha sobre a calendarização de mais de metade dos dias de descanso que lhe são alocados. Esta realidade tem diversas desvantagens. Por um lado, a concessão de descanso a todos os trabalhadores ao mesmo tempo impede a diminuição de custos possível através da coordenação das férias dos empregados de uma empresa. Por outro lado, feriados perto do fim-de-semana incentivam a realização de pontes, dentro ou, por vezes, fora dos dias legais de férias. Finalmente, e não menos importante, creio que os próprios trabalhadores prefeririam, em muitos casos, outros dias de “férias”, que não aqueles designados pelo Governo como feriados. Na grande maioria das vezes os feriados são meros dias de férias, muitas vezes ocorrendo a meio da semana, dando pouco usufruto ao trabalhador e quebrando rotinas de trabalho. Na verdade, considero, admitindo que isto possa ser polémico, que não é necessariamente preciso determinado dia ser feriado para que se assinale uma data importante (muitas há que não têm direito a feriado, embora, vendo bem, também não beneficiem da comemoração correspondente). Assim sendo, proporia uma diminuição radical do número de feriados, substituindo a maioria por férias, passando o critério de designação de feriado a ser – salvo numa ou noutra excepção (25 de Abril, por exemplo) – a vontade do trabalhador de o gozar, por oposição à visão paternalista do Estado. Feriados como o Natal ou o dia de ano novo provavelmente manter-se-iam.

Em relação à proposta do Governo, para a eliminação de quatro feriados, acho que faz algum sentido. Mas apenas isso: algum. Isto porque em Portugal no papel até se trabalha muito, em muitos sítios bastante mais do que na maioria dos países europeus. O nosso problema diz sim respeito à produtividade. Aumentar a produção por outros meios pode resultar mas acarreta consequências sobre a qualidade de vida (já das mais baixas da UE) que não são despiciendas. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cinquenta bordoadas na língua de Camões (48)

por Leonor Barros, em 28.11.11

Adirem

Autoria e outros dados (tags, etc)

Está de parabéns...

por João Carvalho, em 28.11.11

 

... o nosso Luís M. Jorge.

Feliz empobrecimento e boa austeridade, Luís!

E tudo o mais também!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O fim.

por Luís M. Jorge, em 28.11.11

Teresa de Sousa, no Público:

Talvez a maior medida do perigo iminente seja a mudança de discurso nas capitais europeias que costumam ser mais papistas do que Angela Merkel. Em Helsínquia, começa a admitir-se que talvez seja preciso uma intervenção a sério do BCE. Em Haia a mesmíssima coisa. A Áustria prepara medidas dissuasoras. Em Estocolmo, que está fora do euro mas não da Europa, o ministro das Finanças admite que os países superavitários poderiam ir em socorro financeiro dos deficitários.

Eis o canto do cisne da escola económica judaico-cristã. Agora que os efeitos da crise chegam à Espanha, à Itália, à França e à Bélgica, e já nem a Alemanha consegue colocar as suas obrigações de dívida pública a dez anos, suponho que vai ser um pouco mais difícil encontrarmos preguiçosos e irresponsáveis para incriminar. Há cerca de um mês escrevi que

se até agora os cidadãos da UE encaravam a crise da dívida como um problema que a Grécia tinha de resolver para benefício da Europa, mesmo que fosse à custa da humilhação do povo, hoje sabem que é a Europa que tem de resolver o problema da Grécia para seu próprio benefício, se quiser sobreviver. Repito: se quiser.

E aqui, as análises sobre quem tem a culpa ou quem merece um castigo interessam muito pouco. Pois é mesmo assim (sem culpabilizações) que gente adulta enfrenta tempos desesperados.

Em vez de Grécia leiam agora metade da Europa. É o preço da cegueira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.11.11

 

«- Quer factura?
- Sim, por favor, como está na montra, aliás.
- Peço desculpa, mas já não temos dessas que o senhor quer. Actualmente já só temos faturas.
- Bom, dê-me lá então uma das que tiver, homem!
- Bem... mas são mais caras, devo avisá-lo...
- Mais caras? Então porquê?
- Sabe como é, são os custos do acordo ortográfico... dantes pagavam a taxa intermédia de 13% e agora, sem o 'c', pagam 23...
- Pois, meu caro senhor, garanto-lhe que isto não fica assim e que vou processar a Fazenda por estar a fazer publicidade enganosa a um producto que já não existe! E digo-lhe mais: vou escrever diretamente ao Victor para ele ficar a saber bem quantas letras são precisas para fazer o país avanssar.»

 

Do nosso leitor Luís Reis Figueira. A propósito deste texto do João Carvalho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (697)

por Pedro Correia, em 28.11.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

As listas

por João Campos, em 27.11.11

É mais ou menos recorrente: o final do ano traz consigo as "listas" que toda a gente faz, em jornais, revistas e blogues, sobre os melhores livros, filmes e discos do ano. Invariavelmente, ao longo dos últimos anos dou por mim a contribuir para essa tradição, mas sem assinalar nada que tenha sido feito nesse ano, pois nunca ando a par dessas coisas. Acontece que em 2011, por qualquer combinação astral esquisita, posso nomear um livro, um disco, uma música e um filme - todos de 2011. Ora isto é tão raro que merece post, pelo que aqui vai:

 

Livro:

A Dance With Dragons, George R.R. Martin.

 

Disco*:

I Am Very Far, Okkervil River

 

Música:

White Shadow Waltz, Okkervil River

 

Filme:

Cowboys and Aliens**


 

*Gostaria muito de ter nomeado o The King of Limbs, dos Radiohead, mas a verdade é que não me cativou por aí além (apesar de ter um par de músicas muito boas e de ser um álbum interessante). 

 

** Cowboys and Aliens não é um grande filme. Longe disso: é um filme razoável, mas muito divertido de se ver, com algums momentos muito bons e, claro, com a Olivia Wilde. No entanto, não tivemos até ao momento uma obra do nível de Black Swan ou True Grit, pelo menos para mim. Cowboys and Aliens, ao menos, tem o mérito de ser um filme que cumpre aquela que é para mim a função primordial de qualquer obra cinematográfica: entreter e divertir. Como não tenho paciência para Woody Allen - que deve figurar em todas as listas respeitáveis deste ano -, fico com este, e acho que fico muito bem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Domingo

por Teresa Ribeiro, em 27.11.11

 

O ventinho de fim de tarde arrepia a superfície do lago onde vogam os patos. Da janela do 4º andar consegue vê-los todos. Seis, sem contar com os bravos. Menos dois que na semana passada. Junto ao prédio, a bebé do terceiro andar, a fugir aos guinchos da avó, e o miúdo que mora em frente com o som do auto-rádio no máximo, chamam a atenção de um cão vadio. Ao longe um bando de adolescentes fustiga com paus a vegetação que espiga na orla do lago. Serão aqueles que os matam? Apertou mais o robe contra si. Do outro lado da rua, junto ao muro grafitado, um velho espreita para os contentores do lixo enquanto um par de miúdos se esgueira por entre os destroços da leitaria que fechou. A lua já espreita por entre os choupos. Ouvem-se os pássaros a recolher, numa azáfama aflita.  Diz que é de noite que os matam. À pedrada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/10





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D