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Manuela de Azevedo: cem anos

por Pedro Correia, em 31.08.11

Assinala-se hoje o centenário da primeira mulher que recebeu carteira profissional de jornalista em Portugal. E é um aniversário felizmente celebrado com esta particularidade: Manuela de Azevedo está viva. Num meio que durante gerações esteve interdito a mulheres, ela arregaçou as mangas e soube mostrar quanto valia. Como repórter talentosa, entrevistadora de mérito, crítica que deixou rasto e também dramaturga e escritora - o seu livro de estreia, em poesia, teve prefácio de Aquilino Ribeiro.

Distinguiu-se como jornalista em várias publicações: Vida Mundial (onde chegou a chefe de Redacção), República, Diário de Lisboa e Diário de Notícias. Foi dela a primeira reportagem sobre um bairro de lata em Lisboa, muitos anos antes da Revolução dos Cravos, num texto em que fintou as malhas da censura. E conseguiu algumas entrevistas consideradas impossíveis - uma delas com Ernest Hemingway, durante uma breve escala no cais de Alcântara do navio que transportava o autor de Adeus às Armas numas das suas viagens entre Espanha e Nova Iorque. Eva Perón, Calouste Gulbenkian e Rudolf Nureyev foram outras celebridades que entrevistou.

"Se alguém dizia que uma determinada tarefa era difícil, eu oferecia-me logo para a fazer", recordou-me quando a entrevistei em 2007 no seu modesto apartamento do Bairro das Colónias, em Lisboa. Tinha então 96 anos mas o seu discurso, rápido e fluente, disfarçava-lhe por completo a idade. Pôde concretizar um dos planos que na altura me revelou: publicar um livro de memórias. Um dos períodos mais conturbados da sua vida profissional ocorreu pouco depois do 25 de Abril, numa fase de má memória do Diário de Notícias, em que foi incluída numa lista de jornalistas a despedir do jornal por motivos políticos. Era conotada com o PS, o que bastou para lhe valer o ódio da direcção do matutino, alinhada com o Partido Comunista.

Muitos anos depois, estava ela já aposentada, houve uma administracção do DN que teve a peregrina ideia de se desfazer do emblemático edifício na Avenida da Liberdade e transferir a sede para Moscavide. O Conselho de Redacção do jornal, para o qual eu tinha sido eleito, liderou um amplo movimento de contestação a tal medida, que incluiu a mobilização de prestigiados nomes da nossa vida política, cultural e jornalística. Manuela de Azevedo, já então decana do jornalismo português, fez questão de ser uma das primeiras signatárias do manifesto pró-Liberdade no DN, associando-se desde logo à nossa causa - felizmente bem sucedida.

Nunca me esqueci desse seu gesto, que agora evoco com um grato e respeitoso beijo de parabéns à ilustre aniversariante.

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Universidade de Verão.

por Luís M. Jorge, em 31.08.11

O que é preciso é amar Portugal
os velhinhos o novo passe social.
Ouvir os doutores travar amizades
viver um pouco acima das possibilidades.

 

A Marisa já está na banca o Lopes na Distrital
a Kátia exige o fim do Estado Social.
O que é preciso é amar Portugal
ouvir os doutores ser mais liberal.

 

Se eu também for esperto obediente atilado
não muito impaciente nem muito apressado
Hei-de encontrar padrinho hei-de ter um aliado
e mais tarde ou mais cedo, mamã, chegarei a algum lado.

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Ab initio

por Ivone Mendes da Silva, em 31.08.11

É do chão que sobe

o rumor das estradas ao longe.

 

É a distância ainda quente,

é a distância incompleta,

é o caule de Setembro

a emergir da terra.

 

in Ordem Breve, p.37

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Cadeira modelo Ricardo Carvalho

por Rui Rocha, em 31.08.11

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Enquanto os cães ladram

por Teresa Ribeiro, em 31.08.11
Foi Margaret Thatcher que disse que a sociedade não existe, só existem indivíduos e famílias. A frase, muito citada, reflecte um pensamento em que a direita se revê: culpar a sociedade é desculpabilizar os indivíduos, os únicos cuja existência pode ser comprovada pelas leis da física, logo os únicos que podem ser responsabilizados por tudo o que de bom ou mau acontece na praça pública.

Negar à sociedade qualquer responsabilidade, ou até a própria existência não é, porém, uma tese menos absurda que a da esquerda idealista que a todos perdoa, imputando as culpas das falhas humanas ao sistema.

As reflexões que os tumultos do Reino Unido suscitaram à direita e à esquerda confirmam que o mundo pode estar a mudar, mas o pensamento não. Enquanto os miúdos partiam montras na rua, os analistas vestiam as camisolas dos respectivos "clubes" e atiravam aviõezinhos de papel uns aos outros despejando as cartilhas da direita e da esquerda que já conhecemos de cor. Em tempo de crise, quando vemos o mundo que conhecemos a ameaçar ruir, estranho esta aparente falta de interesse em tentar perceber o que se passa. Deve ser reactivo este retorno ao discurso vincadamente ideológico que parece estar a voltar em força. O problema é que implica sempre alguma desonestidade intelectual, porque é, por natureza, redutor. Entretanto a História, que não é rapariga para se empatar com estas coisas, vai fazendo o seu caminho. E que depressa que ela vai. Receio que mais uma vez nos ultrapasse pela direita e fique a rir-se de nós.                                                                  

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Modo de Vida (13)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 31.08.11

 

Não é a primeira vez que refiro aqui o céu de Jerusalém, uma das mais impressionantes cidades em que estive. Junto agora um vídeo que pode ilustrar o que então tentei descrever. E se acomodo este vídeo na série 'modo de vida' é porque há muito me deixei fascinar por Israel.

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Ontem anunciaram que o aumento do número de crianças por sala permitirá criar 20 mil novas vagas nas creches. É, claro, uma má medida. Todos sabemos que as crianças precisam de espaço e vistas largas. Para estreitezas bem basta o pouco tempo que passam em casa, confinados à cadeirinha, enquanto o pai vê o Benfica, assim o nevoeiro o permita, a mãe actualiza conhecimentos no Facebook e o irmão de seis anos estuda com a profundidade necessária todas as potencialidades da Wii. Por isso, não admira que os corações dos progenitores se apertem em sofrimento perante a antevisão de pilhas de crianças amontoadas, partilhando, com evidente falta de privacidade, babas, ranhos e, tremam os pilares da psicologia infantil, os arrotos que se seguem à sopa passada. E que o pequeno Rúben se desfaça em pranto. Na verdade, só não chora quem não tem coração. Vocês tentam, mas ainda não estão lá, é o que é. Falta a essas almas empedernidas uma fina capa de sensibilidade social. Um polimento final em esmerado eduquês. Uns ornamentos de destreza estatística. Um certo amor pelo estado social. Explico-vos como se faz (atentos, que não duro sempre):

Lucrécia Algodãodoce, Presidente da Comissão do Livro Arco-íris para a Compreensão dos Estados de Alma da Primeira Idade e Promoção da Felicidade Infantil, apresentou as conclusões preliminares do trabalho desenvolvido nos últimos meses a pedido do governo. A Investigadora, licenciada em Estudos da Criança pela Escola Superior de Educação de Cabeça Gorda e doutorada em Serviço Social e Geriatria (isto dá jeito, porque podem usar a mesma pessoa quando tiverem que tratar da questão dos velhotes) pela Universidade de Wayne Bridge, afirmou que o estudo permitirá adoptar, a curtíssimo prazo, um conjunto de best practices educativas que colocarão Portugal na vanguarda dos sistemas e equipamentos sociais de apoio às famílias e às crianças, bilu bilu bilu. Avançando algumas conclusões do trabalho efectuado, a investigadora afirmou que todos os estudos recentes apontam no sentido da necessidade de uma maior proximidade entre as crianças e que esta deve ser assegurada logo a partir do berçário. O contacto físico e visual entre os bebés, cuchi cuchi cuchi, promove e reforça laços de afectividade e  promove uma socialização precoce, potenciando estratégias e abordagens educativas ricas e diferenciadas de estruturação da socio-afectividade infantil, quem é lindo quem é. Face a estas conclusões, Lucrécia Algodãodoce acrescentou que a Comissão a que preside formulará uma forte recomendação ao governo no sentido de aumentar significativamente o número de crianças em cada sala: "a sociedade deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar um desenvolvimento saudável, harmonioso e equilibrado aos nossos filhos".

Uma medida muito diferente, como se vê. E que, por isso, não provocaria choro e ranger de dentes, mas Catarinas e Franciscos sorridentes e confiantes no futuro.

  

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...

por Luís M. Jorge, em 31.08.11

 

 

"E então, pequeno Rúben — queres mais meninos para brincar contigo aqui na sala?"

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As canções do século (608)

por Pedro Correia, em 31.08.11

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 31.08.11

Ao Estrelas Cadentes.

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Subsídios para o estudo do uso do fato sem gravata - 3

por Ana Cláudia Vicente, em 30.08.11

  [A título de exemplo corporativo: J.L. Carrilho da Graça]

 

Entre os diferentes ofícios, um se destaca pela inclinação para bem vestir sem grandes formalismos: o dos arquitectos. Que é raro vê-los engravatados, lá isso é, mas que são estetas, lá isso são - por natureza ou formação. Desleixados não.

[Posts anteriores: #0;#1;#2]

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Juro que é o meu último post sobre os desacatos de Londres

por José António Abreu, em 30.08.11
Prova de que há cerca de quarenta anos os britânicos tinham outro respeito pela propriedade alheia. Se bem que, atendendo ao final, este possa ter sido precisamente o ponto de viragem.
(Lamento mas não arranjei com legendas em português.)

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Susannah York, Sarah Miles, Susan George, Julie Christie, Charlotte Rampling, Jenny Agutter, Jane Birkin, Dominique Sanda,  Sandrinne Bonnaire, Nathalie Baye, Isabelle Huppert, Carole Bouquet, Valérie Kaprisky, Victoria Abril, Maria Schneider, Hanna Schygulla, Barbara Sukowa, Carole Laure, Geneviève Bujold, Liv Ullmann, Monica Vitti, Ornella Muti... Isso sim, era serviço público.

 

(Ah, a RTP2 em mil nove e oitenta e poucos...)

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O caçador de negros

por Rui Rocha, em 30.08.11

La polémica imagen publicada en Facebook.

Este pulha publicou esta foto, em que aparece com uma arma na mão e uma criança a seus pés, como se fosse um troféu de caça,  na sua página do Facebook. Gosta de chamar-se a si próprio Eugene Terrorblanche. Tinha 588 amigos na rede social. Desde que o escândalo rebentou na África do Sul, 25 desamigaram-se. Os outros continuam, impávidos e serenos. Reconheço que sou profundamente racista. Contra cabrões como este.

 

* pode ler-se mais aqui e aqui.

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Ler

por Pedro Correia, em 30.08.11

À esquerda, nada de novo. Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.

Sumário. Da Maria, n' 1 Dia Atrás do Outro.

Destrunfar. De Suzana Toscano, na Quarta República.

A ética da autenticidade. Do Pedro Mexia, na Lei Seca.

Não me lembrava do teu nome...  Do Luís Milheiro, no Largo da Memória.

Outras musas. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Quem tem uma mãe tem tudo? Da Ana Cristina Leonardo, na Meditação na Pastelaria.

Causa duma coisa muito cá de casa. Do João Marchante, no Eternas Saudades do Futuro.

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Muito calmo é ele...

por Rui Rocha, em 30.08.11

Percebe-se a indignação do Tozé. Onde é que já se viu um Governo «exigir a quem mais tem e a quem mais ganha» e demonstrar uma total «ausência de insensibilidade social». Não há alma socialista que se cale perante uma coisa destas.

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Piano Bar

por Laura Ramos, em 30.08.11

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A menina almoça?

por Ivone Mendes da Silva, em 30.08.11

A nossa relação com os álvaros e os doutores cria as mais curiosas situações. Lembro-me de um professor universitário brasileiro que, quando esteve em Portugal a leccionar um seminário, me disse: "Sabe, eu cheguei procurando não enrolar o meu pé no tapete das etiquetas."

Eu, quando estou em aula, prendo-me a essas minudências. Afinal, o pessoal está ali para aprender e a pragmática linguística também faz parte do conjunto. Fora isso, acho que a vida não está para pormenores. Confesso, todavia, que o "você" vindo de uma criaturinha muito nova me arranha sempre.

Uma vez almocei em Serralves e, a certa altura, o empregado, um efebo imberbe, perguntou: "A menina já escolheu?". Olha-me este, pensei eu. Descobri, logo de seguida, que aquele "a menina" atravessa todo o comércio portuense e é uma delícia.

Ora bem e vamos lá a ver se acabo esta conversa: aquele post que o Rui fez ontem comoveu-me muito. De modo que  achei estar a precisar de coentros para resolver um assunto e passei pelo mercado. Diz-me a rapariga que os vendia:

- Então e esta mocinha? O que é que deseja?

- Já fui, já fui - respondi eu e tivemos uma conversa engraçada.

No caminho para casa, recordei uma história antiga. Um colega meu, quando ia para o liceu onde dava aulas, costumava parar no mesmo engraxador. Passava os olhos pelo jornal, enquanto os sapatos recebiam polimento e, no fim, ouvia sempre:

 - Então obrigado, senhor engenheiro.

Em resposta, repetia o pedido de  que não o tratasse por engenheiro, uma vez que o não era. Certo dia, o homem impacientou-se:

 - Então como é que o hei-de tratar?

Lá foi dizendo que, sendo licenciado em História e professor num dos liceus da cidade, existiam várias possibilidades de tratamento, era só escolher. O engraxador ouviu com atenção. No dia seguinte, quando acabou o trabalho, tornou:

- Então obrigado, senhor engenheiro.

- Homem! Já lhe disse que não me trate por engenheiro porque eu não sou engenheiro.

- Olhe: não é, mas pode vir a ser.

 

Eu é que já não posso vir a ser uma mocinha, por isso vou almoçar. E sabe a coentros. 

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Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 30.08.11

Dois meses depois, não há reformas, dizem eles - os que nunca reformaram nada ou estiveram sempre na primeira linha do combate a todas as reformas no aparelho de estado. Dois meses depois, não há cortes na despesa, dizem eles - os que sempre contribuiram para avolumar a despesa.

Eis que surge o primeiro corte substancial na despesa, com a fusão de dois institutos públicos que permite poupar 14 milhões de euros, e os mesmos recomendam agora que se trave a fundo. "Estas fusões não se anunciam sem estar bem estudadas e sem haver um cronograma", brada um. "Não há razões para queimar etapas. As questões devem ser profundamente debatidas", proclama outro.

Os mesmos de antes, os mesmos de sempre. Por isso é que o País está como está.

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Voz da Planície

por Laura Ramos, em 30.08.11

 

Nada como uma pausa num monte alentejano para nos devolver a dimensão do tempo.

Nem tão imóvel quanto agora. Nem tão urgente quanto aquele que nos aguarda.

Esta quietude não é deste mundo. O mundo da pam-politização. Das convulsões. Dos impasses da moeda. Da geo-estratégia. Das culturas decadentes e das economias emergentes. Da insegurança. Do medo do futuro. Do pânico da perda.

- Pânico? - Perda? Não. Subitamente, o mundo é isto, aqui, suspenso na relatividade absoluta de uma abóbada celeste descomunal e perfeita, descrevendo um ângulo raso tão nítido, de extremo a extremo, quanto os milhares de estrelas que semeiam este céu sardento.

Larguei o meu Divórcio em Buda (na verdade, e por hoje, estou um pouco farta das confissões de Kristóf, talvez porque me lembrem um pouco a minha própria vida, tão alinhada entre os apelos do desempenho e as contradições do espírito).
Apaguei as lanternas do terraço e assim fiquei, espectadora da noite, perdida nos enigmas do planeta, nos segredos da vida, nas ironias do tempo, que nos verga e devora. E nós sempre sem perceber porque corremos. - Exactamente atrás de quê?

Quedei-me por aqui dois dias, pertinho de Sabóia, escapando ao êxodo de fim do ciclo de férias. Entre manhãs a contemplar esta lonjura, e tardes longas, ardentes de calor, despeço-me do mar e percorro a costa vicentina: Zambujeira, Alteirinhos, Milfontes… Tudo estereótipos. Redime-me apenas o Malhão. E Porto Côvo (sempre).
Mas as águas quentes... que é delas? Nada nos consola quando se regressa do fidalgo aconchego da Ria Formosa.

Acordo ao som de um ruído compassado que vem da porta do meu quarto: o arranhar das patas do meigo labrador branco, que implora por afagos e atenção.

– E quem não pede o mesmo? Apenas demoramos mais, nós, os humanos. O Óscar, esse, adoptou-nos no espaço brevíssimo de um dia (e teria partido connosco para destino incerto).

O espectáculo do céu despareceu agora, à luz do dia. Cedeu o palco ao horizonte, tomado pela planura e pelos maciços de freixos e amieiros.

Sempre que a vida for insuportável, voltarei aqui, ao som e ao verbo da planície.

Para rever a dimensão pequena da nossa circunstância.

E, como o Óscar, acreditar inabalavelmente nas pessoas.

Confiar e rosnar. Guardar e atacar.

 

Regresso às lides com esta voz por dentro.

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As canções do século (607)

por Pedro Correia, em 30.08.11

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.08.11

Ao Cacarecos da Marta... (do Brasil)

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Ainda Londres, umas semanas depois

por José António Abreu, em 29.08.11

Escreveu-se muito sobre as diferenças como direita e esquerda viram os «motins» ou «manifestações» (os termos fazem toda a diferença) no Reino Unido. No fogo cruzado, creio que são misturados pelo menos três níveis de análise.

 

O primeiro passa por tentar perceber se havia motivações ideológicas por trás dos acontecimentos. De forma geral, a direita respondeu que não. Que aqueles jovens aproveitaram uma oportunidade (a morte de um cidadão às mãos da polícia) para destruir e roubar o que se lhes apresentava à frente (quase apenas lojas de pessoas que dificilmente podem ser consideradas ricas). Por seu turno, muita esquerda (não toda) preferiu ver nos acontecimentos uma manifestação de opções políticas. Aqueles jovens, ainda que de forma atabalhoada, estavam a querer transmitir uma mensagem política e não era por aproveitarem a oportunidade para roubar LCDs e telemóveis que a mensagem não devia ser ouvida. A minha opinião foi, e continua a ser, que todo o enquadramento ideológico é obra externa. O que se passou em Londres foi essencialmente o aproveitamento de uma oportunidade para destruir propriedade (à semelhança do que fazem elementos das claques de futebol nas áreas de serviço) e ganhar dinheiro. Quase todas as declarações de jovens envolvidos tendem a reforçar esta posição e é perfeitamente possível que alguns refiram motivações políticas sem que estas realmente tenham existido pois constituem agora a melhor justificação disponível para quem deseja parecer algo mais do que vândalo e ladrão. Mas avancemos: não me custa admitir que este seja o nível de análise menos importante.

 

No segundo plano de análise pode discutir-se se, independentemente das motivações concretas da maioria daqueles jovens, as condições de vida que têm servem de justificação para actos de protesto, e especialmente actos de protesto envolvendo violência. A esquerda acha que sim: inseridos em comunidades pobres, muitas vezes ostracizados por questões étnicas, com reduzidos níveis de escolaridade, alvo de cortes de subsídios, estes jovens, tenham ou não consciência plena do facto, representam uma insatisfação que se estende a muito mais gente do que eles – aos pais deles, por exemplo – e são um símbolo da falência do capitalismo. Como tal, para a esquerda eles não só podem como devem manifestar-se e, de forma similar ao que se passa nos protestos anti-globalização e anti-G20, a violência é tolerada, quando não aplaudida. Por seu turno, a direita considera que os desequilíbrios existentes são menos graves do que nos querem fazer crer (afinal, a maioria brande telemóveis de última geração e vive melhor do que, por exemplo, os pais deles alguma vez viveram), que parte da responsabilidade é dos próprios (muitos terão desperdiçado oportunidades para estudar e/ou trabalhar, preferindo viver de subsídios públicos) e das suas famílias (por não lhes incutirem valores «correctos»), e que, acima de tudo, nada justifica a violência. «Nada» é, evidentemente, demasiado definitivo e também demasiado teórico. Há situações que justificam violência – mas nem o Reino Unido é a Síria (as decisões governamentais estão validadas por eleições bastante recentes) nem a violência indiscriminada pode alguma vez ser aceite, ocorra onde ocorrer (também na Síria seria inaceitável que, em protesto contra o governo, se destruíssem lojas de cidadãos anónimos). Quanto ao resto, haverá parte de verdade tanto nas posições da esquerda (claro que as condições sociais em que eles vivem não são as melhores) como da direita (sim, em muitos casos parte da responsabilidade será deles e/ou das suas famílias e não vale a pena estar sempre a desculpar as pessoas só porque são pobres).

 

Finalmente, há um terceiro nível de análise, que não depende das circunstâncias concretas daqueles jovens londrinos e das suas famílias, e que passa por definir se pessoas com dificuldades económicas devem ser ajudadas pela comunidade e, em caso de resposta afirmativa, em que moldes. Franjas radicais exceptuadas, creio ser consensual da esquerda à direita que uma sociedade minimamente coesa e saudável tem de apoiar os seus elementos em dificuldades. É uma questão de ética e de bom senso (de segurança, se preferirem). As dificuldades prendem-se com saber identificar esses elementos, estabelecer (ou não) condições para a ajuda e definir montantes mas também formas de a prestar (descontos no acesso a bens e serviços, entrega de géneros em vez de apenas dinheiro, etc). Sendo este um debate complexo, em que a esquerda tende a ver como positivo o aumento dos apoios sociais e a contestar dúvidas sobre o merecimento de algumas pessoas que os recebem, permitam-me algumas notas:

a) Na sequência dos problemas orçamentais, em grande parte atribuíveis ao crescimento exagerado das próprias despesas sociais nas últimas décadas, cortes são inevitáveis, por muitos impostos extraordinários que ainda possam vir a inventar-se, incidindo sobre os ricos, os remediados ou os canídeos de porte altivo;

b) A única forma de melhorar as condições de vida da generalidade dos cidadãos (numa perspectiva materialista, que é aquela com que quase toda a gente se preocupa) é através do crescimento económico;

c) Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa dificilmente terá dinheiro suficiente para fazer justiça social sem afundar a economia;

d) O dinheiro gasto em apoios sociais gera algum consumo mas muito pouco investimento (isto é, os subsídios sociais –  e, na realidade, não só os sociais – pouco ajudam o crescimento económico);

e) Os apoios sociais são sempre uma transferência daqueles que poupam (ou seja, daqueles que ainda têm dinheiro disponível para entregar ao Estado) para aqueles que não o fazem (e não se trata necessariamente de uma questão de falta de recursos à partida: imagine-se uma família de classe média atolada em dívidas e que perde tudo – deve ser ajudada da mesma forma que uma família que, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu ganhar o suficiente para chegar a ter hipótese de poupar o que quer que fosse?);

f) Com ou sem ameaça de violência nas ruas, smartphones e ténis de marca não constituem bens de primeira necessidade;

g) Aqueles que, mesmo ganhando pouco, trabalham e pagam os impostos que legalmente lhes são exigidos sentem-se com frequência explorados (de forma tanto mais intensa quanto mais altos forem os impostos) por quem parece viver, muitas vezes tão bem ou melhor do que eles, sem mexer uma palha;

h) A raiva das pessoas referidas na alínea anterior também dá azo a uma situação potencialmente explosiva; o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países europeus devia servir-nos de aviso.

 

Conclusão? Uma muito simples: é importante procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que provavelmente não incluirá iPhones) e, acima de tudo, que tenha oportunidades de melhoria das suas condições de vida (através de acesso a estudos e de uma economia que cresça) mas a ameaça de violência não pode levar-nos a pagar chantagens, até porque ao fazê-lo estaríamos a abrir a porta a consequências económicas e sociais no mínimo tão assustadoras como as que estes jovens, sejam meros ladrões ou utópicos revolucionários, podem despoletar.

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Kadhafi dá muito que falar

por Pedro Correia, em 29.08.11

Novo recorde de comentários no DELITO: 320, num texto sobre Muammar Kadhafi, intitulado 'Este já não prende mais ninguém'. Está visto que a Líbia é um tema muito polémico.

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Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 29.08.11

Venho sugerir-vos para estes dias de regresso à vida-como-ela-é O Economista Português, um blogue de Luís Salgado de Matos. Mais conhecido pelo seu trabalho como politólogo, o autor mostra aqui, com a franqueza e espírito habituais, uma faceta menos óbvia do seu percurso profissional e político.

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Um grosseiro atentado à liberdade

por Pedro Correia, em 29.08.11

A comprovada violação do sigilo das comunicações escritas e telefónicas à margem da lei pelos serviços de informações, no Verão de 2010, foi um dos factos mais graves registados em Portugal nos últimos anos. Viola vários direitos constitucionais, compromete irremediavelmente a relação de um jornalista com as suas fontes e constitui um atentado inadmissível à liberdade de informação.

Exige-se um esclarecimento rápido e cabal de tudo quanto sucedeu. E, em consequência, a punição exemplar dos protagonistas destas ilegalidades, inaceitáveis num país democrático - incluindo o elemento da operadora telefónica que terá colaborado com o SIED neste caso, em que apenas imperou a "lei" do mais forte, como em qualquer república das bananas.

O Nuno Simas, jornalista prestigiado com quem trabalhei durante anos, merece uma palavra de solidariedade e apreço. De alguma forma, e por vias sinuosas, esta grosseira violação de alguns dos seus direitos básicos enquanto cidadão representa o maior prémio ao seu mérito profissional.

De caminho, apetece perguntar o que andam a fazer os responsáveis da Comissão Nacional de Protecção de Dados e sobretudo do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações. Se não têm poderes ou capacidade para detectar um caso destes, mais vale reconhecerem tal evidência e darem lugar a outros.

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Ainda sou do tempo

por Rui Rocha, em 29.08.11

em que os treinadores do Sporting (quase) chegavam ao Natal.

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Existirá algum ponto em que Portugal se distinga, realmente, de outros destinos turísticos? Temos Sol, é certo. Mas, outros têm-no também. Até mais intenso. O mar? Temos tanto mar, de facto. Todavia, já vi águas mais turquesa, mais calmas e mais quentes. Somos ainda, é verdade, um país relativamente seguro. Tão seguro como muitos outros lugares. Ao contrário do que se possa pensar, os nossos preços não são baixos. Pelo contrário. Não faltam destinos muito interessantes com relação qualidade preço mais favorável. Temos uma história longa, mas estamos longe de dispor de uma oferta cultural ou monumental tão entusiasmante como aquela que se pode encontrar em Itália, França ou Espanha, para só dar alguns exemplos. A nossa simpatia? Sim, é certo que não somos franceses no trato. Mas daí a dizer-se que somos um povo extraordinariamente hospitaleiro ainda vão mais uns passos. Será então a alegria contagiante que nos distingue?. Pois, quanto a isso estamos conversados. O leitor, por esta altura, depois de tanta hipótese sugerida e refutada, estará já com pouca paciência para continuar a acompanhar este exercício de erro e tentativa. É pois tempo de partilhar as conclusões a que cheguei. Sim, parece-me que Portugal tem uma marca distintiva, um aspecto em que é imbatível. Refiro-me à gastronomia. Rica, diversificada, apurada. Entradas, sopas, peixes, carnes, sobremesas. Uma profusão de sabores, cores e paladares. Ao dispor de quem nos visita em qualquer canto e esquina, mesmo (ou sobretudo) nos locais menos pretensiosos. Não conheço ainda meio mundo. Mas, por onde tenho passado, nunca encontrei nada assim. 

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Vêm aí os russos (6)

por Leonor Barros, em 29.08.11
E no último dia o sol brilhava sobre o Moscovo, estava aberto e não havia fila. Uma última manhã e uma última oportunidade. Diz Kaminer mais uma vez que só os estrangeiros lá vão. Os holandeses também dizem o mesmo dos coffee shops e outros povos dirão o mesmo dos que lhes provoca embaraço ou desconforto. À minha frente estava a oportunidade de ver o morto mais famoso do planeta, aquele que é levado para que lhe façam a manutenção, pobre Wladimir, nada como tinha desejado, e que também já foi objecto de controvérsia. A última vez que vi um morto assim venerado, mas por outras razões milagreiras, foi a Santa Maria Adelaide, uma vez que a minha avó paterna se cobriu de fervores religiosos, mas não me consta que lhe façam manutenção, pobre mulher. Seria rápido, estar na fila para ver mortos nunca foi meu lema e mataria -verbo curioso, logo aqui - de uma vez alguma curiosidade mórbida. Sim, é verdade. Malas, carteiras, máquinas fotográficas e telemóveis extirpados dos visitantes e eis que me vou aproximando do lado de dentro dos muros do Kremlin, lá onde via desfilar as paradas a preto e branco encimadas por Brejnev e outros camaradas. A memória colectiva de que sou feita. Instantâneos da História. O mausoléu é um monstro de basalto negro no interior e que tem a capacidade de nos fazer sentir pequenos, mínimos, assim que descemos as escadas. E ei-lo. Iluminado no centro da sala, o boneco de cera mais famoso do mundo: Vladimir Ilitch Lenin. Alguém achará que ali ainda está o homem? Saio do mausoléu e entretenho-me a ver as pedras tumulares dos falecidos, um esforço sobre humano, este de decifrar o cirílico, um enigma que ao longo dos dias se foi desvendando e que alimenta a aura de uma cidade que não se deixa possuir, orgulhosa e imponente.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo. 
E digo adeus a Moscovo. Irei voltar?
Os russos, querida Io, os russos.


fotografia minha

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Surpresas do nosso património (1)

por Ana Lima, em 29.08.11
Quando passeamos por aí, sem grandes definições de destinos ou percursos, somos surpreendidos por determinados sítios ou monumentos que, à partida, desconhecíamos ou nunca tínhamos visitado. O estado em que se encontra o nosso património também nos surpreende, umas vezes positivamente, outras negativamente. Claro que o que para mim constitui uma surpresa não o será para outros. Mesmo assim, vou por aqui deixar, de vez em quando, umas pistas. Não farei grandes descrições. Só algumas impressões que esses locais me suscitaram.
Começo por um monumento que nos lembra que, num tempo em que tantas obras de arquitectura nos gritam para que as vejamos, é bom encontrar situações em que o esforço para as conhecermos é proporcional ao prazer da descoberta. 
Após uma descida íngreme de automóvel e mais alguns metros a pé lá está ela, a igreja românica, antigo eremitério, de S. Pedro das Águias. Quem procura a sua entrada deve fazê-lo no sítio mais inusitado. De facto ela está a menos de 1 metro do rochedo que, naquele lugar, marca a paisagem. Encontra-se frente a ele, de costas para o rio, o Távora, que por ali corre pouco caudaloso. O tempo está agradável e, junto a ela, uma família, aproveita uma plataforma natural para aí se instalar para um piquenique calmo. As crianças brincam indiferentes às razões que levaram os construtores do século XII a virá-la para a parede. Não terá sido um castigo mas talvez uma forma de lembrar aos monges que a sua relação com o mundo dos homens deveria ser o mais reduzida possível.  

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 29.08.11

1. O Albergue Espanhol fechou as portas logo após ter atingido a bonita soma de um milhão de visitantes. Gostei de por lá ter andado, embora não tivesse sido dos mais assíduos: foi bom enquanto durou. Outro projecto vai nascer, reunindo vários dos actuais 'alberguistas'.

 

2. Fim da linha também para o Mar Salgado, um título histórico da blogosfera portuguesa.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 29.08.11

«O conde de Romanones era uma das maiores fortunas de Espanha. Um seu amigo, homem com preocupações sociais, passava o tempo a dizer-lhe que era uma vergonha ser rico assim, havendo tanta miséria em Espanha, que devia fazer alguma coisa.
Um dia, farto, Romanones respondeu-lhe:
- Quanto achas que vale a minha fortuna?
- Não sei, para aí uns cem milhões de pesetas!
- E quantos espanhóis é que há?
- Para aí uns vinte milhões!
- Então quanto calha a cada um?
- Cinco pesetas!
O Conde tirou do bolso uma moeda de um duro e deu-a ao amigo:
- Pois toma lá a tua parte e não me maces mais!»

 

Do nosso leitor Monge Silésio. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

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As canções do século (606)

por Pedro Correia, em 29.08.11

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Marketing Pouletico

por Ana Cláudia Vicente, em 28.08.11

 [Serpa Moura, Agosto de 2011 (Foto:N.Vicente)]

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Outros delitos

por Pedro Correia, em 28.08.11

«Na Madeira há DELITO DE OPINIÃO.»

António José Seguro, hoje, na Madeira

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adeus cenouras:)

por Patrícia Reis, em 28.08.11

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O maravilhoso relato e as belas fotografias das férias

por José António Abreu, em 28.08.11

Regressa-se de férias e fala-se do tempo que se apanhou (nunca tão mau que tenha arruinado a experiência), dos locais que se visitaram (quase todos pelo menos muito giros), da temperatura da água da praia onde se ficou assim fantasticamente bronzeado (mas só se fala do bronzeado depois de alguém o mencionar primeiro). Evita-se abordar os maus momentos (de chatice, desilusão, irritação, cansaço) que, aliás, são empurrados para um canto escuro do cérebro onde, com sorte, apenas se voltará nas férias do ano seguinte, ao enfrentar momentos de chatice, desilusão, irritação e cansaço exactamente iguais. Trazem-se centenas ou milhares de fotografias que se mostram a familiares, amigos e colegas de trabalho. Noventa e cinco por cento (vêem, sou capaz de ser magnânimo) são más (tortas, desfocadas, tremidas, cheias de ruído digital, mostrando um primeiro plano vazio e um segundo plano desinteressante); pior, há uma média de trinta e oito fotografias por local, sendo que na maioria dos casos duas seriam suficientes (com frequência, uma; por vezes, nenhuma). Trata-se de um massacre que as vítimas (mas vítimas que tendem a pôr-se a jeito) suportam com um sorriso cada vez mais dorido. Ainda assim, toda a gente mantém as aparências.

 

No que me diz respeito, evito fazer longas descrições das minhas férias e quase não mostro fotografias. Explico que nem pensar em apresentá-las assim, por seleccionar. Seria demasiado penoso para quem as visse, acrescento. Não resulta. Ninguém parece ouvir-me. Ninguém percebe a mensagem implícita e toda a gente continua a mostrar-me cada uma das centenas de fotos que tirou nas férias e a repreender-me por não mostrar as minhas. Serei a única pessoa não-masoquista no raio do planeta? Decididamente, regressar de férias sucks. Mesmo quando são os outros a fazê-lo.

Catedral de Siena. Espectacular, é o que vos digo.
Tenho mais vinte e duas, só do interior.
Já sei: vou publicá-las ao ritmo de uma por dia, ok?
 

Adenda: Se alguma daquelas pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias estiver a ler isto, é favor ter em conta que não estou a falar dela mas das outras pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias. (A sério: as tuas são super-giras.)

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outra espécie de vidinha

por Patrícia Reis, em 28.08.11

Sou casada com um homem rico. Não parece grande coisa, mas tem três talhos em Sacavém e um em Moscavide. Comprou uma carrinha com sete lugares porque diz que quer uma família grande. Não podemos ter gatos ou cães porque ele é alérgico. Não faz mal. Pintou o quarto como vi numa revista e só vê um jogo de futebol por dia. Eu faço as unhas de gel com a irmã dele e vimos a novela da TVI e os gordos da Júlia Pinheiro, para lhe dar uma força, lemos nas revistas que aquilo na SIC não está fácil. Somos uma família feliz. Sei que vem aí a crise não tarda, mas as pessoas têm que comer e o meu homem é muito esperto, controla tudo. Vou abrir um pequeno negócio de venda de qualquer coisa, mas ainda não me decidi. O facto de estar grávida não ajuda muito e ando com os nervos feitos num fanico. Durmo mal, já nem a almofada entre os joelhos me ajuda. A minha cunhada fica triste a ver a minha barriga crescer, ela que tem a dela vazia, vazia como um ovo podre. Nunca terá filhos, coitada. Tento fazer com que pense noutras coisas, mas não é fácil. A minha mais nova, fez quatro anos na semana passada, está traquinas e não pára, às vezes acho que deve sofrer de um mal qualquer porque não está quieta, anda sempre a dançar e a fugir e eu não tenho pachorra e o meu homem muito menos, ele que se levanta tão cedo, coitado, e tem tantas responsabilidades. A menina tem tudo, tudo como é suposto. Até o quarto brilha, como se fosse tirado de um filme. Enerva-me que ela só queira brincar com as coisas da cozinha quando tem um quarto cheio de coisas e já perdi a cabeça mais de duas ou três vezes. Dou-lhe uns safanões, uns estalos e dois berros. Eu também levei e não me fez mal nenhum, digam lá o que disserem. Por isso, diria que a minha vida é um pouco melhor do que a dos outros e que sou feliz. Sim, foi a cruzinha que coloquei no teste felicidade que saiu hoje na revista com o jornal do meu homem. Sou feliz a mais de setenta por cento. Às vezes vejo aquelas escanzeladas, cheias de coisas de marca, cursos superiores e filhos criados e pergunto-me serão felizes. Não são de certeza. Pelo menos não são como eu sou. Posso apostar.

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Djilusão

por Rui Rocha, em 28.08.11

Leões derrotados em Alvalade

Há coisas que são evidjentes. Uma djefesa com o Colga e o Parriço é o melhor ataque. Dja equipa contrária. Cadja canto djos adjversários vale-lhes o mesmo que uma grande penalidjadje. E um ataque com o Djostiga e o Djaló é a melhor djefesa. Djos adjversários. Se o Djomingos, 15 contratações djepois, não tem outras soluções, sugiro-lhe que coloque o Colga e o Parriço no ataque e o Djostiga e o Djaló à djefesa. Pior djo que está agora não fica. Se resultar, é um dgénio. Se falhar, acaba djespedjidjo e a caminho djo Djragão. Nadja que não vá acontecer se insistir na solução actual.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.08.11

 

«'Façamos um raciocínio meramente experimental', escrevia a académica americana Anne-Marie Slaughter no Financial Times, na quinta-feira passada. 'Imaginemos que a ONU não tinha votado a autorização do uso da força na Líbia, em Março passado. Que a NATO não tinha feito nada. Que o coronel Kadhafi tinha tomado Bengasi. Que os Estados Unidos tinham ficado a ver. Que a oposição líbia ficara reduzida a um ou outro protesto, rapidamente esmagado...'

Para o povo líbio e para a Primavera Árabe, as consequências deste cenário alternativo teriam sido obviamente catastróficas. E para a Europa? Teria sido absolutamente insuportável do ponto de vista moral e do ponto de vista político. Os europeus passaram anos a apostar na 'estabilidade' do mundo árabe, garantida pelos regimes mais ou menos opressores que dominavam a região. Com ou sem estados de alma, conviveram tranquilamente con Ben Ali ou Mubarak e passaram a ser (uns mais do que outros) visitas assíduas à célebre tenda do coronel Kadhafi, sobretudo a partir do momento em que o ditador aceitou renunciar ao terrorismo e a qualquer ambição nuclear a troco da reabilitação ocidental. No início deste ano, descobriram que, afinal, a única alternativa aos ditadores não era o fundamentalismo islâmico, que os povos da região também aspiravam à dignidade e à liberdade e resolveram agarrar no destino com as próprias mãos. Teve de rever a sua estratégia. Imagina-se o que teria significado se os mesmos visitantes da tenda assistissem impávidos e impotentes a um massacre em Bengasi.»

Teresa de Sousa, no Público

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Os filmes da minha vida (37)

por Pedro Correia, em 28.08.11
 
 
A SOMBRA DO CAÇADOR:
A ÁRVORE E OS FRUTOS
 
Eis uma daquelas películas que nunca nos cansamos de ver. Único título de um cineasta singular que não voltou a sentar-se na cadeira de realizador - o actor britânico Charles Laughton, que em 1955 rodou esta obra-prima insólita e arrebatadora, longa toada nocturna, mais poesia que prosa, cruzamento do expressionismo alemão com cinema negro, de conto de fadas com romance gótico. É uma fita hipnótica, com um cortejo de actores em estado de graça. Incluindo Robert Mitchum na perfeita encarnação do Mal e Lillian Gish - que foi a primeira estrela do cinema - a servir-lhe de contraponto.
Há um sopro bíblico neste singular filme para adultos onde as crianças desempenham um papel central, numa espécie de celebração do triunfo da inocência. Com alusões ao Sermão da Montanha, talvez o mais belo texto de toda a Bíblia.
"Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Conhecê-los-eis pelos seus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos, nem árvore má dar bons frutos." Este trecho do Evangelho de São Mateus serve de legenda implícita a um filme de óbvia matriz cristã que se indigna contra quem pratica crimes em nome de Deus. De uma perene actualidade num tempo cheio de implacáveis predadores travestidos de arautos da virtude.
A Sombra do Caçador perdura-nos na memória também por isto.

..................................................................................

A Sombra do Caçador (The Night of the Hunter, 1955). Realizador: Charles Laughton. Principais intérpretes: Robert Mitchum, Lillian Gish, Shelley Winters, Billy Chapin, Sally Ann Bruce, Peter Graves.

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Piano Bar

por Laura Ramos, em 28.08.11

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O sexo da escrita - Prova cega (9)

por Ana Vidal, em 28.08.11

 

"- Estas pequenas dimensões irão fascinar o meu cliente - disse J.S., o agente imobiliário, enquanto deixava escapar um assobio de admiração. - Um achado. J.S. quebrara um velho costume para acompanhar N. e C. à tal casa. Nunca, nos seus vinte anos de profissão, aceitara fazer uma visita numa noite de sábado: tabu total. Os sábados dedicava-os ao tai-chi, a única disciplina que lhe permitia manter o equilíbrio emocional em tão esgotante actividade. Mas sem dúvida o sacrifício tinha valido a pena. S. julgava ter descoberto uma pérola e não se cansava de repeti-lo. Por isso foi elogiando uma a uma as virtudes do andar: a altura dos seus tectos, como estavam bem orientadas as janelas e a boa qualidade das madeiras, até repetir com ênfase aquela história de que «tão perfeitas e diminutas dimensões» eram ideais para o seu cliente. N. não se deteve para ouvir quem podia ser esse cliente para o qual duzentos e cinquenta metros quadrados na Rua A. se demonstravam «umas diminutas dimensões», tanto lhe fazia."

 

Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.

Nota: Texto traduzido.

 

Solução (28/8, às 14.45h): Carmen Posadas – “Pequenas Infâmias”. Desta vez as respostas tenderam a acertar, mas ainda assim não foram consensuais e houve alguns cautelosos que fugiram à aposta. O que significa, uma vez mais, que o tema não é linear. E amanhã sai a última prova cega, um passatempo de Agosto que muito gosto me deu fazer. Toca a apostar, que as probabilidades são maiores do que no euromilhões e o prémio... bem, o prémio não é quantificável. Não são os melhores?

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Coisas que tenho dificuldade em compreender (1)

por Ivone Mendes da Silva, em 28.08.11

Vi agora que a RTP 1 vai passar Ma nuit chez Maude às duas e meia da manhã.  Será um serviço público de acompanhamento aos insones ou, após alguns estudos, chegaram à conclusão de que os rohmerianos estão acordados a essa hora?

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E um imposto sobre a respiração?

por João Campos, em 28.08.11

Cavaco Silva defende imposto sobre heranças e doações. Como é bom de ver, faltava ainda esta ideia peregrina para alimentar o monstrengo do Estado. À partida, os bens e valores herdados ou doados já foram sujeitos a vários tipos de impostos - a herança ou a doação consiste apenas na passagens daqueles bens e valores de uma pessoa para outra. Como tal, cobrar impostos nestas matérias parece-me a mim ridículo, para não dizer (mais) um roubo. Claro, isto é só o PR a falar - e tem falado muito e mal, o PR. Falta ainda saber o que pensa o Governo disto. Mas os antecedentes não são nada promissores.

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Vêm aí os russos (5)

por Leonor Barros, em 28.08.11

Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.

 

fotografia minha

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As canções do século (605)

por Pedro Correia, em 28.08.11

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Retratos

por Ana Vidal, em 27.08.11

Da minha mesa de canto vejo-o entrar aprumado, digno, ainda bonito. Foi em tempos um homem lindo e muito disputado, segundo me contaram. Já perdeu o viço, mas ainda conserva o porte de quem foi tu-cá-tu-lá com reis e cardeais. Só os olhos parecem pedir desculpa à vida, como se tivesse abusado dela de alguma forma e agora saiba já ser tarde para reparar o erro. Tudo o que traz vestido é de bom gosto e qualidade, mas não têm menos de vinte anos as calças de bom corte, o blusão cor de camelo, a camisa de linho, os mocassins engraxados a preceito que já viram muitas meias-solas. Dirige-se ao balcão e pede um café e uma água. De garrafa? A voz do criado é mecânica, está quase na hora de saída. Não, não, da torneira, obrigado. A resposta sai urgente, quase em pânico, não vá o outro enganar-se e quebrar a tampa de plástico enquanto faz a pergunta sacramental. O homem encolhe os ombros, já se habituou às poupanças dos fregueses que ainda vão aparecendo. Mais nada? Obrigado, mais nada. Não se senta, fica a vaguear por ali como se esperasse alguém. De vez em quando olha em volta, para as mesas quase desertas. Algumas não foram limpas ainda - esperam o fechar das portas - e têm em cima guardanapos amarrotados, restos de pão e copos sujos. Um casal de namorados levanta-se e sai, abraçado e alheio a tudo. Deixaram na mesa metade do que pediram, bastam-se um ao outro e de pouco mais precisam como alimento. Saem sem ver ninguém: nem a mim, nem ao meu momentâneo objecto de interesse, nem ao criado que já tira o avental e avisa a mulher, pelo telemóvel, que não tarda a chegar a casa. Já a levantar-me também, não perco de vista, embora discretamente, aquela figura literária que me faz disparar a imaginação. Alguma coisa nele me lembra uma personagem de Märai, o declínio de um príncipe é sempre fascinante. E sou a única pessoa a presenciar uma das cenas mais tristes a que assisti nos últimos tempos: o meu solitário lord olha rapidamente em volta uma vez mais (baixo os olhos quando os dele passam por mim, incapaz de sustentar-lhe o olhar amargurado) e, ainda mais depressa, a caminho da porta recolhe dentro do blusão a meia tosta e o bolo que os miúdos deixaram na mesa. O que sinto? Sinto-me morrer um bocadinho, ali mesmo. 

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