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Perspicácia

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.11

 (foto DN)

 

Se eles forem tão perspicazes a cumprir o acordo como são a contar vocábulos (podiam ser vírgulas na perspectiva do Prof. Catroga) e a descobrir "alterações de substância" onde a Comissão Europeia viu um mero acerto, "uma prática corrente que não introduziu qualquer alteração significativa ao conteúdo do acordo alcançado em Lisboa e na versão apresentada aos partidos da oposição", ainda acabam a receber reservas das "bases" para a caldeirada depois de terem o restaurante fechado.  

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Aquilo por lá não anda fácil

por Pedro Correia, em 31.05.11

Aqui e noutro blogue, ando há vários dias a fazer súmulas dos programas eleitorais dos partidos políticos concorrentes às legislativas de domingo, como qualquer leitor um pouco mais atento terá reparado. Já tinha feito o mesmo na campanha de 2009: é uma tentativa de prestar serviço público aos leitores, que são também eleitores. O João Galamba, que por estas tardes tem sido acometido por frequentes sintomas de excesso de zelo, deparou com isto, em que me limitei - sem comentários - a enumerar 50 promessas eleitorais sociais-democratas e logo me imaginou "muito entusiasmado" com os objectivos deste partido.

Isto foi ontem: se tivesse esperado pela manhã de hoje, em que enumerei 50 promessas eleitorais do PS, lá me veria ele "muito entusiasmado" com os socialistas. Mas, neste seu trepidante afã de tresler o que os outros escrevem, é sempre possível esperar um cenário diferente: amanhã será capaz de supor que me converti ao MRPP, que sou compagnon de route do Partido Humanista ou que tenciono votar na Carmelinda Pereira. A tão poucos dias da eleição, enfim, consigo compreendê-lo: aquilo por lá não anda fácil.

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Questões de consciência

por Ana Margarida Craveiro, em 31.05.11

Roubado descaradamente ao Henrique Raposo

 

Sócrates classificou de "selvajaria" a actuação de jornalistas brasileiros . Porquê? Porque os jornalistas brasileiros, desconhecendo os costumes brandos da nossa imprensa, rasgaram o código deontológico do jornalismo e ousaram fazer perguntas ao nosso primeiro-ministro , perguntas que não estavam nos cartõezinhos do Luís.

Em Bruxelas, Sócrates insinua que jornalistas europeus estão ao serviço dos maléficos mercados . Porquê? Tal como os jornalistas brasileiros, os jornalistas europeus são péssimos profissionais e fazem perguntas difíceis.

Foi preciso um motim de Teixeira dos Santos para forçar José Sócrates a pedir ajuda . Reparem bem: foi preciso um motim do ministro das finanças para que o primeiro-ministro acabasse com o seu teatrinho. Ainda estou para saber como é que isto não dominou as últimas semanas em Portugal. São os mistérios da República do "ó Luís".

- O primeiro-ministro abandonou o parlamento no início da mais importante sessão parlamentar em décadas. Este desrespeito pelo parlamento não gerou polémica nos jornalistas e nos comentadores. E depois é o povo que não tem cultura cívica.

O governo quis silenciar a UTAO, essa instituição que já veio desmentir as contas do governo em relação à execução orçamental deste ano.

- O primeiro-ministro mentiu aos portugueses sobre o documento da troika, nomeadamente na questão da TSU.

- O governo não disse a verdade sobre o uso de fundos da Segurança Social para a compra de dívida.

O primeiro-ministro disse que algumas pessoas que se manifestavam contra o PS eram "pessoas que não sabem o que é a democracia". Ou seja, uma manif anti-PS só pode ser composta por bandidolas. Aliás, protestar contra o PS devia ser proibido.

 - No debate com Passos, José Sócrates disse que o líder da oposição não devia criticar o governo daquela maneira, porque isso punha em causa o país. Notável teoria política: criticar o governo é o mesmo que criticar a nação. O dr. Salazar ia gostar muito.

- No debate com Passos, Sócrates subia às paredes sempre que Passos dizia "bancarrota". Sócrates chegou a dizer qualquer coisa como isto: "mas v. está sempre a falar de bancarrota, que mania". Os contactos com a realidade são, de facto, raros na mente no nosso primeiro. A bancarrota já é um facto (é por isso que pedimos ajuda), mas Sócrates continua a negá-la.

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Há menos de um ano ele considerava, e bem, que o líder do PSD dava "uma demonstração de ignorância face aos ideais democráticos e assemelhou-a à dos tempos do Movimento das Forças Armadas (MFA)", chegando a referir que "as pessoas que estão a fazer este projecto com certeza não sabem o suficiente sobre Direito Constitucional, sobre a história do partido e sobre a história constitucional portuguesa. O doutor Pedro Passos Coelho até tinha dito no congresso que não ia propor nada para alteração do sistema do Governo, agora vem mexer e mexer no pior em que podia mexer, isso não pode ser”.

 

Na altura, quando questionado sobre a crítica de que fora alvo o líder do PSD respondeu que "esse é o tipo de comentário que classifica quem o utiliza".

 

Hoje, ante a perspectiva de isso lhe poder render mais uns votos, esquece o comentário e quem o proferiu e ameaça com o regresso dele

 

Haverá quem chame a isto coerência.  Um "menor mal" dizia o outro. Para mim é pura e simples falta de vergonha e mais uma demonstração de oportunismo de um "jotinha" que tudo faz para ser exactamente igual àqueles que critica.

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Sem muito mais

por Ana Margarida Craveiro, em 31.05.11

 

Do filme The Network, de 1976. 

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Um funeral e dois casamentos

por Rui Rocha, em 31.05.11

José Sócrates está a afundar-se. Será, provavelmente, um momento doloroso. Para ele e para um ou outro apoiante incondicional. Temos pena. Pensando bem, nem por isso. Este é um processo que Sócrates deve enfrentar sozinho. Com toda a indignidade que corresponde ao caminho do desastre que ele próprio quis trilhar. Sabe-se que os náufragos, em desespero, podem arrastar para o fundo aqueles que se aproximarem. Sócrates antecipou-se. Submergiu o país antes de se afogar. Agora, enquanto segue o seu destino solitário, o pouco Portugal que resta não pode perder tempo a dar-lhe atenção. O tempo é dinheiro e há muito que Sócrates esgotou as reservas que permitiriam comprar uma bóia para lhe atirar. A emergência impõe agora duas prioridades para o país. Antes de mais, a constituição de um governo de mudança, com uma base tão abrangente quanto possível, integrado pelos melhores de entre nós ao nível técnico e político. Indispensável um casamento por interesse. Sendo que o interesse só pode ser o do país. A segunda é a renovação do PS, como força política fundamental na democracia portuguesa. Através de uma nova liderança que encerre, definitivamente, a página socrática. Inadiável um casamento por amor entre o aparelho socialista e uma proposta séria (por uma vez) que agite algumas bandeiras legítimas da esquerda. Visto pelo ângulo do PS, o Estado Social não pode continuar a ser o rebuçado que adoça a boca dos incautos como contrapartida pelo regabofe de boysgirls socialistas.  É nestes  tabuleiros que o futuro imediato, e não só, começa a jogar-se na noite eleitoral de 5 de Junho. Até lá, mais uns dias de foguetório nas ruas da campanha eleitoral. Aproveitemos então a fanfarra para, em festa, acompanharmos a caravana que faz as vezes de cortejo fúnebre de José Sócrates. Depois de 5 de Junho não vai sobrar tempo nem disposição para celebrar.

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A nossa obsessão por discutir os pequenos casos da campanha é já mais cansativa do que exasperante. Com o país à beira do colapso financeiro, com a soberania significativamente limitada, com medidas muito duras e ainda mal compreendidas no horizonte, entretemo-nos com uma pletora de «factos» acessórios. Não deixa de ser curioso reparar como quase todos os que adquirem relevância noticiosa, dos «pintelhos» ao «querem proibir o aborto», são negativos para o PSD. Os socialistas parecem nada dizer de inconveniente. Por não dizerem mesmo? Não, apenas por ninguém estar a usar com o PS a táctica que o PS está a usar com o PSD (de vez em quando há quem tente mas falta a convicção que só experiência e dissociação da realidade permitem) e por, como já foi dito e redito, o PS ser insuperável no uso dos meios de comunicação social. Sócrates, esse, transmutado em menos de dois anos de vendedor de ilusões em instigador de medos, livre de ter de defender ideias concretas por obra e graça de um programa eleitoral em que elas não existem, mostra-se chocado três dúzias de vezes por dia, acusando de cada uma delas o PSD de pretender acabar com tudo o que de bom tem o Estado Social (numa versão anterior àquela que ele mesmo amputou). É compreensível. Ao fazer propostas ou ao rebatê-las, Sócrates sempre operou com base em chavões e ideias simples. De resto, sempre foi elogiado por isso – não é uma das críticas que fazem a Passos Coelho, ser demasiado palavroso, não apresentar apenas uma ou duas ideias fortes? Claro que o facto desta táctica ter resultado antes diz muito acerca dos portugueses e claro que dirá ainda bastante mais se resultar novamente. E diz também imenso acerca do papel que a comunicação social, com a inestimável ajuda de dezenas de comentadores, aceita desempenhar, ao dedicar horas à discussão destas minudências (para fugir ao termo de Eduardo Catroga) em vez de focar as atenções nos pontos realmente importantes: as medidas constantes do memorando de entendimento com FMI, UE e BCE e a forma como cada partido se propõe (ou não) implementá-las. Mas, como Philip Roth escreveu em O Animal Moribundo a propósito de algo totalmente diferente, a TV está a fazer o que faz melhor: o triunfo da banalização sobre a tragédia. Com o PS a orquestrar e muita gente a dar uma mãozinha.

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Crítica de Mário Rufino no Pnetliteratura

por Patrícia Reis, em 31.05.11

Sim, coisas que fazem bem ao ego:) para variar.

 

 

“Por Este Mundo Acima”

Patrícia Reis

I

“A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma.”

Pag. 127

Patrícia Reis oferece-nos um livro optimista, onde a amizade é a verdadeira reconstrução num mundo destruído. No seu 6º romance, transporta-nos para um mundo pós apocalipse e arruinado em estruturas e emoções. A sobrevivência é imperiosa e o Homem regride à sua condição de animal.

Nas primeiras páginas, a autora demonstra que existem relações produtivas e explícitas (intertexto) com outros textos. Neste caso, existem relações identificadas com textos de Fausto, «Por este rio acima», e com Brecht, «Do pobre B.B.». Por ser um livro que aborda directamente o papel da literatura na sociedade, existem outras aproximações a outros autores com a subtileza exigida, ou não, pela própria autora. “Por este mundo acima” é um livro que dialoga com a literatura; não é fechado em si mesmo, mas antes abre possibilidades de leituras a outros livros. De outra forma, pode-se afirmar que existe abertura do texto ao pensamento sobre a historicidade e sociedade onde o Homem se insere e influencia.

A narração é sobretudo psicológica e não pude deixar de me lembrar de “Fome” de Knut Hamsun e de “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago (Saramago começa, no entanto, com uma impossibilidade, ao contrário de Patrícia Reis). Assim sendo, a narração ocorre na 1ª pessoa do singular. Esta perspectiva confere uma maior proximidade do leitor ao pensamento do personagem Eduardo (principal narrador). A sua visão sobre as outras personagens será a nossa, também, uma vez que não existe uma entidade omnisciente e concretizada numa 3ª pessoa. No entanto, através da estratégia narrativa de uso de cartas/apontamentos (aqui temos o diferimento da mensagem que abordaremos mais à frente) a autora dá-nos a oportunidade de estarmos mais próximos das emoções e ideias de uma entidade essencial no livro: Sofia. É sobre ela, não exclusivamente mas principalmente, que incide o espírito de tolerância das outras personagens, individualmente e como grupo. É por este meio que descobrimos os acontecimentos da sua vida que influenciaram a sua formação emocional. A aceitação das suas características e o amor que todos sentem por ela é a chave de leitura deste texto. É este tipo de amor que pode levar o Homem à sua salvação. A relação entre eles é de longa data: “ Há mais de trinta e tal anos que falamos das listas do Eduardo” pag.79. E a interdependência emocional é partilhada por todos.

Mais do que um texto musical, construído com frases mais longas interrompidas por frases mais curtas originando mudanças de ritmos, diria que o texto é, sobretudo, fílmico devido à construção de imagens fortes e sugestivas.

A nível temático, o texto relaciona-se com os factores externos (contexto) a si próprio, fundamentando a sua produção, recepção e interpretação em acontecimentos possíveis. Nunca ficamos a saber o que realmente aconteceu. Nem é importante. O que o texto nos transmite é a ruptura com um passado (contexto situacional), um apocalipse que reduz o ser humano à sua essência, ao seu instinto de sobrevivência (universo simbólico).

“O meu corpo estremece. Não o controlo. Vejo as mãos suadas e tento continuar. Sou um animal. Regresso a isso” pag. 126

“É fundamental deixar de pensar” pag.124

Posteriormente, é sobre este movimento niilista que se constrói a salvação, a aceitação e, essencialmente, a elevação do melhor do Homem: A amizade como amor, como dedicação ao próximo em detrimento das próprias necessidades (visão do mundo). Segundo Levinas, o altruísmo, a decisão de colocar o Outro em primeiro lugar pode atenuar o terror da existência. Essa é a nossa transcendência. É esse terror que existe ao longo do livro de Patrícia Reis e é o amor, composto por altruísmo e inclinação para o Outro, que o pode atenuar, sem o derrotar.

 

II

O homem constrói, permanentemente, narrativas. o Homem constrói um texto narrativo quando fala do seu percurso de vida, da história clínica, ou quando conta algo a alguém. Assim sendo, não pode viver sem a produção e recepção desses mesmos textos. Eduardo tem essa percepção e insiste, permanentemente, em recordar/narrar os acontecimentos passados e, principalmente, dar a conhecer a sua memória, os acontecimentos que o marcaram, a Pedro.

“ Ele fazia lista de livros que era importante circular. Livros luminosos que, não sendo lamechas, nos revelavam a vasta matéria dos sentimentos que definem a condição humana” pag.164

Segundo Aguiar e Silva (1990), « a narratividade encontra-se intimamente correlacionada com o conhecimento que o homem possui e elabora sobre a realidade- o Génesis pode-se considerar, sob esta perspectiva, como a narrativa paradigmática e primordial -, devendo ser sublinhado que lexemas como “narrar”, “narrativa” e “narrador” derivam do vocábulo narro, verbo que significa “ dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o quel provém do adjectivo gnarus, que significa “sabedor”, “que conhece”, por sua vez relacionado com o verbo gnosco(<noscp), lexemas estes derivados da raiz sânscrita gnâ, que significa “conhecer”» pp. 201

A narração é indissociável do tempo. Uma característica interessante de “Por este mundo acima” é o facto de a narração ocorrer no futuro, no espaço de um mundo possível, viajando entre o passado (tempo presente do leitor) e o presente do narrador (tempo futuro do leitor). Entre os vários marcadores temporais que nos fornecem essa informação, além do sistema verbal, há um que pretendo sublinhar: A referência ao próprio livro de Patrícia Reis remete-nos à actualidade e indica que ele narra no futuro. E este aspecto é intrigante porque um texto escrito é uma forma de diferimento da mensagem. Através da escrita pode-se perpetuar, ou pelo menos assegurar a permanência no tempo, da mensagem. O personagem adjectiva o livro de “datado”, isto num diálogo sobre o Facebook , o MSN e o Youtube. Ou seja, podemos utilizar esta referência como “ a leitura do texto”, necessariamente mais próxima desse futuro possível; ou como a “edição do texto”, mais afastado desse futuro apocalíptico.

A narração situada no futuro levanta uma outra característica importante e coerente com a temática de “Por este mundo acima”: A presença do verbo “Ser” no futuro é uma vitória, ainda que escassa e ténue, sobre a morte. E o texto é isso mesmo: uma narração no futuro que encontra os seus alicerces no passado para, com esperança e renovação, continuar a adiar a morte definitiva dos valores culturais do Homem e, por fim, dele próprio.

A morte da memória ou a ignorância invalida a continuação da história. Analise-se a conjugação verbal da seguinte frase: “O homem da gabardina bege terá uma história e eu gostaria que alguém me contasse tudo em pormenor” pág. 93

A probabilidade desce do futuro imperfeito até ao imperfeito do conjuntivo… porque não há ninguém para contar.

 

III

“Voltámos ao princípio e até temos um livro para nos guiar” pág. 157

A reorganização social começa quando Eduardo encontra uma criança: Pedro. E devido ao poder transformador deste personagem, a autora divide o tempo em antes e depois do apocalipse:

“O caos aconteceu quando ele andava pelos quatro anos de idade, quase cinco. Fizera os 8 há dois meses”. Pag.114

Pedro é um recomeço, é um exemplo de generosidade num mundo destruído pela falta de comida, de água, de higiene e falido de cooperação e altruísmo: “Ele parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços” Pag. 119

Pedro incentiva Eduardo a quebrar o seu medo de convivência, de partilha de um espaço e diálogo com outros sobreviventes. E assim conhecem Miguel, jornalista, que vagueia pela Península Ibérica transportando notícias. Este personagem, aparentemente secundário, tem um papel importantíssimo na história: Ele é o responsável pela interacção entre os povos, pois é ele que transporta as notícias sobre os outros, os sobreviventes. Miguel é o mensageiro (apóstolo?).

“ A sua vida resume-se a ter estado sozinho, a recolher histórias para depois partilhar. Não criou raízes, não se deixou ficar num qualquer outro lugar. Partiu à procura de algo de melhor que possa, um dia, trazer de volta uma certa ideia de humanidade” pág. 161,162

A reorganização vai-se consolidando. Os anos passaram e com eles veio a capacidade da sociedade se organizar. São mencionados progressos em países distantes.

Pedro descobre as caixas com as recordações escritas de Eduardo. A memória de Eduardo sobrevive, através de várias caixas com textos que foi armazenando desde a infância, na interpretação e na memória de uma criança. A memória individual é transmitida, desta forma, para as mãos e memória individual de Pedro. Mas não chega. Era imperativo a sociedade, que tem a força de uma personagem, manter a sua memória colectiva de forma a não repetir os erros do passado:

“ Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos” pag.180.

Pedro começa a recriar o alfabeto, primeiro passo para a impressão em papel, e, além do livro de Sebastião, outros livros foram escritos e difundidos pela nova sociedade que emergia dos escombros. Miguel, o jornalista, fala com Eduardo sobre a escrita de um novo manuscrito, uma história sobre o presente, a nobreza, onde a linha do Bem e do Mal se distingue (O Novo Livro/Testamento). A revisão do livro foi a última tarefa de Eduardo.

- O livro como salvação

 Na cultura judaico-cristã, como afirma Victor Aguiar e Silva (1990), texto significa obra escrita, o livro, obras religiosas detentoras de autoridade. Na idade média, texto significa a obra do autor, ou seja, obra da pessoa que exerce autoridade. Até ao século XXI, o termo texto não apresenta uma mudança de significado, embora tenha ganhado alguma ambiguidade semântica.

A autoridade emana do livro de Sebastião. É uma obra-prima, segundo Eduardo, e, mais do que isso, é o livro que transporta o passado recente para o futuro. É a continuação temporal, a passagem cultural do que aconteceu antes do acidente. Pedro, já mais velho, é muito céptico em relação a esta hipótese: “Não é um livro orientador, é uma ficção e isso é claro, é uma parábola do tempo em que foi escrito e um achado futurista adequado às circunstâncias» pág. 157

E numa frase simples e ingénua interroga o leitor e o próprio texto: “Voltar ao princípio? Será possível? O que é o princípio?” pag.157

Estamos perante a dúvida a que Steiner, em “Gramáticas da criação”, responde: “Já não temos começos”. Mais: Nas palavras de Pedro, há um reflexo das dúvidas do Homem em relação aos Evangelhos, ao livro orientador e fundador da moral cristã. É no livro de Sebastião, hipotético pilar da refundação social, que incide o debate entre Pedro e Eduardo.

Este livro representa um caminho, individual e/ou colectivo, para o sentimento mais nobre do Ser Humano: Bondade.

“É urgente ensinar a partilhar, Pedro. Para não voltarmos ao mesmo. A Sofia, o Jaime e o Lourenço sabiam o que era bondade. Não por serem bondosos, repara, mas por o saberem distinguir e praticar no dia-a-dia sem se fazerem notar”

Pág. 170

 

Bibliografia:

REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Lopes (2000) “Dicionário de Narratologia”, Coimbra, Almedina

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de (1990) “Teoria e Metodologias Literárias”, Lisboa, Universidade Aberta.

 

Mário Rufino

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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O chinês

por António Manuel Venda, em 31.05.11

Hoje logo pela manhã na «Antena 1». Algures no Ribatejo, um acompanhante da caravana do Bloco de Esquerda, trajado a rigor (do Ribatejo, conforme depreendi da conversa), explicava ao jornalista por que é que não votava nos outros partidos. No caso do PCP, dizia que o tinha abandonado depois de ter passado o tempo de Álvaro Cunhal, uma pessoa que considerou «de rosto muito bonito». A seguir o PS – «têm lá um grande mentiroso», explicou. Quanto ao PSD, o problema era o carácter de Passos Coelho (pessoa contra quem nada tinha) não servir para «estar à frente do país». Finalmente, o PP, em relação ao qual identificou uma desvantagem no líder: «O Paulo Portas não me seduz tão bem.» De forma que ia votar no Bloco de Esquerda. E para eliminar alguma dúvida que ficasse no jornalista (se calhar por via dos acompanhantes de turbante que o PS levou a um comício em Évora), explicou que podia mesmo votar: «Sei que tenho cara de chinês, mas sou natural do Vale de Santarém.» Eu, é claro, nem tinha reparado.

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Não há quem não tenha percebido que o rapaz é um impreparado, mas ele agora veio confirmá-lo. "Eu não quero jogar à bulha com ninguém", diz ele. É natural que quem andou a "jogar à bulha" nas campanhas da JSD quando devia estar a estudar para não dizer "se houverem" e se tenha licenciado aos 37 anos fale assim. Quanto a essa parte ficamos perfeitamente esclarecidos. Quanto ao mais, espero que o Prof. Marcelo venha esclarecer se o imberbe que não quer "jogar à bulha" ainda usa ... bibe.

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Legislativas (18)

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

PARTIDO SOCIALISTA: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do PS

Título genérico: Defender Portugal

Número de páginas: 64

Frase-chave: «O tempo não está para aventuras políticas.» (José Sócrates)

Data de apresentação: 27 de Abril de 2011

 

1. Eliminação de cerca de mil cargos de chefia na Administração Pública.

2. Fusão ou extinção de 60 organismos e serviços da administração central do Estado.

3. Alargamento do programa Simplex ao sector autárquico - para escolas, hospitais, ambiente e reabilitação urbana, entre outras áreas.

4. Lançamento do programa Zero Stop Shop para "eliminar formulários desnecessários".

5. Diminuição do número de freguesias.

6. Adopção de medidas que aumentem a celeridade dos processos judiciais e  reforcem as garantias da execução de créditos e de cobrança de dívidas.

7. Crescimento das exportações de forma sustentada.

8. Concentração dos apoios públicos ao investimento nos sectores de bens e serviços transaccionáveis.

9. Reforçar a parceria com o sector da economia social - cooperativas, misericórdias, instituições particulares de solidariedade.

10. Assegurar uma estratégia de ajustamento orçamental, "prosseguindo a consolidação das contas públicas".

11. Privilegiar a redução do défice pelo lado da redução da despesa pública.

12. Racionalização da estrutura de taxas do IVA.

13. Aumento dos impostos sobre o álcool e o tabaco.

14. Conclusão do processo de convergência entre pensões e rendimentos do trabalho.

15. "Rever estruturalmente o sistema de deduções e benefícios fiscais".

16. Reforçar os instrumentos de luta contra a fraude e a evasão fiscal.

17. Aumentar a produção agrícola nacional reduzindo a dependência do exterior.

18. Aprovação de uma Lei de Reestruturação Fundiária que institua um "banco de terras" para combater a desertificação dos solos.

19. Programa para a requalificação dos rios portugueses.

20. Redução da dependência energética e aposta nas energias renováveis.

21. Rejeição da opção pelo nuclear.

22. Desenvolvimento de um programa específico de formação dos jovens portugueses para os sectores económicos emergentes, nomeadamente das energias alternativas e dos empregos verdes.

23. Continuação do Plano Tecnológico.

24. Substituir o trabalho subordinado de jovens sob a forma abusiva de recibos verdes por formas contratuais que garantam uma relação de trabalho, quer em termos laborais, quer em termos de protecção social.

25. Criar condições que favoreçam o empreendedorismo dos jovens.

26. Defesa da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

27. Aposta em novos serviços nos centros de saúde, como a saúde oral, psicologia, nutrição, fisioterapia e terapia da fala.

28. "Será criado o Registo de Saúde Electrónico de cada cidadão."

29. Prioridade à luta contra a obesidade e o estímulo pela actividade física.

30. Consolidação e qualificação das redes de cuidados de saúde e de equipamento sociais.

31. Reforço das instituições de apoio social, com destaque para creches.

32. Reforço dos abonos de família destinados às famílias monoparentais.

33. Aposta na manutenção do Complemento Solidário para Idosos, que beneficia actualmente 266 mil pensionistas.

34. Aumento da taxa de escolarização dos jovens para os 12 anos de ensino obrigatório e generalização do acesso ao ensino superior.

35. Continuação da aposta no programa Novas Oportunidades.

36. Reforço da acção social escolar.

37. Combate à criminalidade violenta e grave através de novos contratos locais de segurança e da dinamização do policiamento de proximidade.

38. Combate à imigração ilegal.

39. Alargamento do Plano Nacional de Videovigilância às zonas históricas e nevrálgicas das principais cidades.

40. Instalação de uma rede nacional de controlo de velocidade.

41. Atenção redobrada aos antigos combatentes e aos deficientes das Forças Armadas.

42. Aprovação de uma Lei da Paridade que combata as desigualdades sociais entre homens e mulheres.

43. Combate à violência doméstica e de género, com a formação de magistrados para estas áreas específicas.

44. Criação da Rede Portuguesa de Teatros Municipais.

45. Criação da Rede de Cinema Digital.

46. Reforço das medidas de preservação patrimonial.

47. Criação de um museu dedicado às Descobertas Marítimas e à Expansão da Cultura Portuguesa no Mundo.

48. Criação do Arquivo Sonoro Nacional.

49. Criação do Estatuto do Bailarino e do Fundo de Reconversão Profissional dos bailarinos.

50. Consolidação da aplicação do acordo ortográfico em Portugal.

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A (re)ler

por Pedro Correia, em 31.05.11

Parabéns à Amnistia. De Irene Pimentel, na Jugular.

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.05.11

Vem hoje escrever connosco o José Carlos Pereira, do blogue Incursões, a quem dou desde já as boas-vindas.

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As canções do século (516)

por Pedro Correia, em 31.05.11

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Quem com Ferro mata

por Rui Rocha, em 30.05.11

"O voto no centro é um voto no insulto, na agressão"

 

De acordo com a particular visão de Eduardo Ferro Rodrigues, "um voto ao centro, que não seja no PS, é um voto no insulto e na agressão". É uma afirmação que fala por si e não merece outros comentários.

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Diário irregular

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.05.11

30 de Maio

 

“- Portanto, Gláucon, precisaremos também na nossa cidade de um chefe capaz de regular esta associação, se quisermos salvar a nossa constituição.

- Por certo que precisaremos, e muito.”

Platão, A República (Diálogos - I)

  

O país começou a semana de trabalho, para os que trabalham, com os comboios parados. O transtorno que tudo isto causa é coisa de loucos. Centenas de comboios suprimidos, milhares que não conseguem chegar a horas aos locais de trabalho. Quem tem mota ou carro e dinheiro para o combustível nunca fica apeado. Só o pobre que mora nos subúrbios é que está dependurado da CP. Uns são irresponsáveis, outros primam pelo disparate. Numa altura em que as únicas profissões com saída são as de comentador televisivo e de sindicalista, falar de produtividade e defesa dos postos de trabalho numa altura de crise como esta deve ser uma coisa esotérica para os sindicalistas da CP. O meu avô Miguel, que fez pelos ferroviários portugueses o que muitos deles nem imaginam, lá no sítio onde está deve olhar para os tipos e perguntar para si se eles não percebem que o sindicalismo está a regredir. Não por falta de causas mas em razão do atavismo e surda ignorância dos seus dirigentes.

 

Tudo o que passa pelas Finanças parece mesmo que deixou de funcionar. Dos faxes aos computadores está tudo a precisar de uma vassourada. Das grandes. Uma jovem que quer ser empresária queixa-se de que anda há vários dias a tentar aceder ao site do Ministério para declarar o início de actividade e que enquanto não puder fazê-lo não poderá trabalhar. Estava desempregada e como não é de ficar à espera do subsídio pôs mãos-à-obra. Como não obtinha resposta da máquina, nem mesmo às horas em que os serviços estão encerrados, foi a uma repartição entregar o formulário, pensando que um humano lhe resolveria o problema. Qual quê. Não lhe aceitaram o formulário. Ficaram todos a olhar para os monitores dos computadores. E conversando horas a fio. A cena repetiu-se durante vários dias. Mandaram-na embora e disseram para ir tentando. O sistema estava em baixo.. Está o sistema, estão eles e estamos todos nós.

 

A chegada de Manuela Ferreira Leite e Mário Soares à campanha eleitoral começa a mostrar que o mar está encapelado. É difícil navegar nas águas do eleitorado do centro. Mas enquanto um apela ao voto para que não caia o resto que dificilmente se vai aguentando em pé, há quem expluda em ressaibo. Já nem se trata de apelar ao voto no candidato menos mau. É, isso sim, apelar à rejeição de quem não se gosta. Também nos dois os traços do carácter são indisfarçáveis por mais anos que passem.      

 

Marcelo Rebelo de Sousa devia saber que o tipo de intervenção que ontem fez na TVI é uma coisa muito feia para uma pessoa do seu nível académico e intelectual. Em plena campanha eleitoral,  falando na maior parte dos casos para gente pouco informada e facilmente manipulável, é triste, muito triste, que use um espaço que se quer sério para um apelo consciente – e ele que me perdoe, eu diria mesmo a raiar o desonesto - ao voto num dos partidos concorrentes.

 

O Bastonário da minha corporação ficou enxofrado com a prisão preventiva dos petizes que conduziram aquela selvajaria que as televisões ainda mais irresponsavelmente não se furtaram a repetir durante dias e dias seguidos para que todos se pudessem deliciar com os bárbaros de cada vez que pegavam no tema. Não compreendo a sua reacção embora compreenda a sua posição de princípio quanto à prisão preventiva. Lamento desiludir os que pensam como ele, a começar por ele próprio, mas o estado a que essa gente se habituou a descer não conhece, nem merece, outra linguagem, sob pena de um destes dias acordarmos todos na selva governados pelos petizes. Se o caminho a seguir com os grafittis, com a corrupção, com tudo o que desfeia a nossa sociedade fosse o mesmo, certamente que não estaríamos como estamos, acampados e à espera que nos fiscalizem.

 

Agora a discussão é em torno das alterações ao memorando assinado em Lisboa com os senhores do FMI, do BCE e da UE. Estes cretinos não têm mais nada que fazer senão criar casos. Casos e mais casos. José Sócrates não tinha necessidade de ter feito o que fez. Passos Coelho não consegue disfarçar o seu lado calimero de cada vez que abre a boca. A esperteza do primeiro-ministro era dispensável. Se é verdade que os dois documentos que estavam em causa teriam de ser compatibilizados, era escusado fazê-lo dessa forma. Perderam os dois. Um porque voltou a fazer como não devia – não custava nada ter reafirmado aos demais partidos que os documentos teriam de ser articulados em Bruxelas e tê-lo dito de maneira a que todos os portugueses percebessem, sem subterfúgios. O outro porque se fez de tonto – ou será mesmo? – e levou como resposta que os documentos estavam há vários dias na Internet acessíveis a quem quisesse lê-los. No final foi Paulo Portas, o tal que lidera um partido de direita que já está à esquerda do PSD, quem mais uma vez, como sempre, saiu a ganhar. A esperteza ignorante de uns são os votos certos dos outros. E o seu Euromilhões.

 

A hipocrisia tomou conta da campanha. A coisa assume uma dimensão medonha.  

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Conversa da treta

por Leonor Barros, em 30.05.11

A direita acusa a esquerda, a esquerda acusa a direita, Passos Coelho acusa Sócrates, Sócrates acusa Passos Coelho, Paulo Portas acusa Passos Coelho de ter sido "muleta" do PS, diz que não é muleta de ninguém, o Assis diz que vai ser uma desgraça se o Sócrates sair, Sócrates também acha que vai ser uma desgraça se sair, uma parte do país concorda com Sócrates e com Assis outra está empenhada em pôr o Sócrates a banhos lá para onde foi o Catroga. Enquanto tudo isto, neste país pequeno de acusações e discussões estéreis e inúteis, este desfile inane da gente que nos (des)governa há quase quatro décadas, duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza. E ‘isto’ devia ser o essencial. Quase quatro décadas depois, alguém, à esquerda ou à direita, já devia ter conseguido resolver este país. Deixem-se de tretas.

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Jargão eleitoral (2)

por Rui Rocha, em 30.05.11

Voto do Centrão Coentrão: escolha eleitoral que, normalmente, decide o vencedor das eleições.

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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes

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Música inspirada por ataques de pânico

por José António Abreu, em 30.05.11
Oh, estas manic mondays. Depois dos The National, Sufjan Stevens, um rapaz que me dizem ser bem parecido (pronto, ok, não está mal). Hoje no Coliseu do Porto, amanhã no de Lisboa.

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  1. Orderly Greek restructuring a ‘fairytale’Talk about Greece reneging on debt commitments “has been very damaging” and suggests “that investing in the euro area is unsafe,” (…) “a debt restructuring, or exiting the euro, would be like the death penalty – which we have abolished in the European Union”.
  2. Greece set for severe bail-out conditions. With political opposition to new loans to Greece growing in several northern eurozone countries and the European Central Bank adamantly against any restructuring of Greek debt, European leaders see the privatisation plan as the best hope of staving off insolvency. (…) But several diplomats and officials said repeated failures by Athens to start such sell-offs have convinced them of the need to impose new conditions on the programme, including the possibility of an international agency running the divestments. “The state is not functioning,” said one senior European diplomat.

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Legislativas (17)

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

 

PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do PPD/PSD

Título genérico: Mudar Portugal

Número de páginas: 122

Data de apresentação: 8 de Maio de 2011

Frase-chave: «O próximo Governo tem de fazer melhor com menos.» (Pedro Passos Coelho)

 

1. Redução de 230 para 181 do número de deputados.

2. Um Governo com apenas dez ministros e 25 secretários de Estado.

3. Redução imediata em 20% do número de assessores no Governo e até 50% no final da legislatura.

4. Fim dos governos civis.

5. Aglutinação das pastas da Agricultura, do Mar e do Território num mesmo ministério.

6. Integração da protecção civil no Ministério da Defesa.

7. Adopção da regra de uma entrada por cada cinco aposentações na Administração Pública.

8. Aumentar o "crescimento potencial da economia" para três por cento.

9. Limitar a carga fiscal a um máximo de 35%.

10. Redução para 40% do PIB do nível da despesa total.

11. Redução da Taxa Social Única até 4% para empresas exportadoras.

12. Aumento do IMI para prédios devolutos.

13. Aumentar a autonomia de gestão da Caixa Geral de Depósitos.

14. Privatização de diversas empresas públicas na área dos transportes - TAP, ANA, CP, REN, Carris, Metro, STCP e Transtejo.

15. Suspensão dos grandes programas de obras públicas.

16. Reavalização dos programas de investimento a cargo da Parque Escolar.

17. Eliminar todos os gastos em consultadorias.

18. Diminuião para o máximo de três do número de administradores de empresas do Estado.

19. Alargamento da fiscalização do Tribunal de Contas a todos os organismos que recebam apoio do Orçamento do Estado.

20. Pôr fim à "excessiva pendência processual", nomeadamente na área dos litígios civis.

21. Desenvolvimento de tribunais arbitrais.

22. Sentenças simplificadas para crimes de menor gravidade.

23. Revisão da lei eleitoral autárquica, passando a haver apenas eleição para as assembleias municipais.

24. Redução do número de membros das assembleias municipais.

25. Transferência de competências para os municípios, sobretudo em áres como a educação, a saúde e a acção social.

26. Revisão do regime do Rendimento Social de Inserção e transferência de parte das dotações para instituições de solidariedade.

27. Dinamização do voluntariado, nomeadamente através da criação de 'bancos de horas' para funcionários públicos.

28. Criação de um Fundo para a Inovação Social.

29. Criação de uma Rede Nacional de Solidariedade, com a participação do Estado, autarquias e organizações da sociedade civil, como as misericórdias e instituições particularidades de segurança social.

30. Desenvolvimento de políticas de inclusão social para imigrantes.

31. Fim tendencial dos contratos a termo, mas alargando o prazo para o período experimental no recrutamento de novos trabalhadores para estimular a criação de emprego.

32. Simplificação da legislação laboral e diminuição da burocracia entre empresas, Estado e trabalhadores.

33. Revisão do Código Contributivo com vista a "diminuir os custos de trabalho para as empresas e promover o emprego".

34. Desenvolvimento de iniciativas de liberdade de escolha para as famílias em relação à oferta de escola, independentemente de ser pública ou privada.

35. Criação de uma Agência Nacional de Avaliação da Educação.

36. Generalização dos testes nacionais no fim dos ciclos do ensino secundário.

37. Reforço do programa Escola Segura nas zonas urbanas de maior risco.

38. Avaliação externa e reestruturação do programa Novas Oportunidades.

39. Simplificação do Estatuto da Carreira Docente e substituição urgente do modelo de avaliação dos professores.

40. Criação de uma Rede Nacional de Escolas Tecnológicas.

41. Novo financiamento do ensino superior.

42. Abertura da gestão dos centros de saúde a cooperativas de profissionais, entidades privadas ou sociais.

43. Revisão das taxas moderadoras para garantir que "apenas se isenta quem realmente necessita".

44. Aumentar a prescrição de genéricos e combater o desperdício através da unidose.

45. Aumentar a produção agrícola nacional e o rendimento dos agricultores.

46. Criação de "bolsas de terras", que permitam aos agricultores ceder as suas terras "quando não tenham capacidade ou condições para as explorar, fomentando o mercado de arrendamento rural".

47. Redução de 30% do consumo energético no Estado.

48. Promoção da utilização de carros electricos nas frotas de transporte colectivo de passageiro em centros históricos.

49. Privatização da agência Lusa e de um dos canais da RTP.

50. Completar a Rede Nacional de Bibliotecas.

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Comparações

por Ana Margarida Craveiro, em 30.05.11

Jovens de iMacs, subsídios estatais, propinas acessíveis, liberdade de voto, liberdade de expressão, liberdade de movimento, liberdade de quaisquer medos comparam-se aos jovens das ditaduras egípcia, líbia, tunisina. Afinal, o pós-materialismo é mesmo uma coisa grave. A primeira faculdade que afecta é a razão.

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O Ministério Público não vai à bola?

por Rui Rocha, em 30.05.11

Vê-se logo que a investigação sobre o Benfica é conduzida por pessoas que não percebem nada das inúmeras subtilezas do mundo do pontapé na gramática na bola. Tratando-se  da transferência de um guarda-redes, o mais normal é que se fale em luvas. Ou não?

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 30.05.11

Vem hoje escrever connosco o Luís de Aguiar Fernandes. Do blogue Manifestação Espontânea.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

«Muito obrigado por ter suscitado este tema. As viúvas a que se refere não são exclusivamente do tempo do Estado Novo. Trata-se também, ao que julgo saber, de cônjuges de diplomatas de épocas posteriores, as quais, para poderem acompanhar os seus maridos, prescindiram muitas vezes das suas carreiras profissionais, num regime de "dupla exclusividade" que é único na função pública portuguesa. Como as reformas dos diplomatas se baseiam, como é óbvio, nos seus salários de base, e não tendo as suas mulheres uma reforma própria, a sua situação, quando viúvas, ficou, por vezes, muito difícil.»

 

Do nosso leitor Francisco Seixas da Costa. A propósito deste texto de Margarida Corrêa de Aguiar.

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As canções do século (515)

por Pedro Correia, em 30.05.11

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Duas perguntas desagradáveis

por José António Abreu, em 29.05.11

Assaltam-me duas perguntas quando vejo as notícias acerca das iniciativas do Banco Alimentar contra a Fome. Não gosto do que elas revelam sobre mim e sobre a minha relação com este país mas recuso fugir-lhes. São muito simples:

1. Quantas destas pessoas que vejo na televisão a entregar, imbuídas de genuína e louvável boa vontade, pacotes de bolachas e de cereais aos voluntários do Banco Alimentar fogem aos impostos sempre que podem? Por exemplo: quantas aceitam não pagar IVA ao contratar serviços ou não o cobrar, ao prestá-los? Sendo certo que uma coisa não substitui a outra, quantas percebem o conceito de caridade mas não o de responsabilidade?

2. Com o Estado que temos, especialista em malbaratar recursos, será essa a atitude mais sensata?

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Soares foi mesmo fish

por Rui Rocha, em 29.05.11

O entusiasmo de Soares no apoio a Sócrates foi tal que até parece que o histórico socialista queria era arranjar bilhete para ir ver os peixinhos ao SEA LIFE. 

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O que dizem as sondagens

por Teresa Ribeiro, em 29.05.11

Vejo-os em campanha, rodeados por apoiantes que só os planos fechados das televisões conseguem elevar para um número razoável, oiço-os a falarem de quezílias que só a eles interessam e entendo porque os resultados das sondagens são esquisitos.

Se algo se percebe neste circo é que as circunstâncias podem até ter mudado, mas eles não. Em plena crise de confiança entre eleitores e partidos, eles disputam eleições evitando falar claro sobre governação, contornando todas as questões que têm relevância para as pessoas que querem conquistar, revelando falta de coragem e um medo mesquinho de perder votos.

Quando se torna claro que a salvação do país depende de uma revolução de costumes que inclui também uma nova forma de estar na política, oferecer ao eleitorado o folclore regulamentar é frustrar legítimas expectativas. Admiram-se que as sondagens não descolem do imobilismo na intenção de voto quando tudo o que os partidos têm para oferecer aos indecisos decisivos é mais do mesmo?

O que as sondagens traduzem não é apatia, nem desinteresse, nem tão pouco a falta de salero que nuestros hermanos revelaram ao varrer olimpicamente os socialistas do poder. O que espelham é uma triste e tremenda falta de esperança.

 

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É só a mim que acontece ou...

por Rui Rocha, em 29.05.11

 

Não questiono os resultados das sondagens. E, tendo eu uma preferência eleitoral que é, antes de mais, o afastamento de José Sócrates do poder (por indecente e má figura), não sei se é melhor, do ponto de vista desse interesse, que as sondagens apresentem resultados folgados ou apertados. Existe, todavia, uma coisa que me causa confusão há uns dias largos. Os círculos em que me movo (família, amigos, contexto profissional) apresentam normalmente escolhas políticas heterogéneas (com socialistas e social-democratas com natural prevalência). Pois bem, nestas eleições são raríssimas as pessoas que manifestam intenção de votar em José Sócrates. Ou seja, as intenções de voto reveladas estão muito longe dos trinta e tal por cento. Isto é, ao contrário do que costuma acontecer, esta minha amostra pessoal apresenta resultados claramente contraditórios com os que vão sendo divulgados nas sondagens oficiais. Ou então, o voto em Sócrates tornou-se uma decisão eleitoral envergonhada que nem aos familiares, amigos e colegas se confessa.

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Prosas Apátridas - o livro, o blogue e o livro do blogue

por José António Abreu, em 29.05.11

Julio Ramón Ribeyro nasceu em Lima, no Peru, em 1929. Estudou letras e direito mas abandonou direito no último ano do curso, depois de começar a escrever. Viajou pela Europa durante a década de 50, desempenhando tarefas tão variadas como porteiro e vendedor de produtos de impressão. Voltou ao Peru em 1958 mas em 1960 fixou-se em Paris, onde trabalhou como tradutor e redactor da France Press. Foi adido cultural e embaixador peruano junto da UNESCO e regressou ao Peru de forma definitiva apenas em 1993. Menos famoso do que outros autores latino-americanos surgidos no terceiro quartel do século XX (por exemplo, o seu conterrâneo Vargas Llosa), é ainda assim reconhecido como um dos principais nomes das letras peruanas, tendo recebido em 1994, poucos dias antes de falecer, o prémio Juan Rulfo. Escreveu maioritariamente contos mas Prosas Apátridas, editado agora em Portugal pela Ahab, não é bem um livro de contos. São duzentos textos numerados, quase todos bastante curtos, que incluem aforismos, divagações e análises de acontecimentos e atitudes observados nos sítios mais variados. Por exemplo, no número 57 pode ler-se: As únicas pessoas civilizadas da praia de Albufeira são estes campónios que às vezes descem das suas quintas de figueiras e amendoeiras, trajados de negro sob um sol abrasador, com a sua estranha maneira de usar o chapéu, muito descaído sobre os olhos e levantado na nuca, e que ficam a apreciar em silêncio, um tanto espantados, mas com dignidade e indulgência e sabedoria, os turistas que, disfarçados de rãs, esfolados vivos na soalheira, embrulhados nas suas toalhas, lubrificados como armas de fogo, desembarcaram de veículos rolantes vindos do Norte e agora rebolam alegremente na areia, lendo Die Welt, The Times, Le Monde e introduzindo, sem se aperceberem, nesse espaço belíssimo, os primeiros sinais da barbárie. Isto terá sido escrito na década de setenta do século passado e serviu-me de grande conforto. Primeiro, porque corpos «lubrificados como armas de fogo» é uma imagem que ficará comigo para sempre e que me fará olhar de outra forma para praias sobrelotadas já nos próximos meses. Depois, porque o texto demonstra que a degradação do Algarve como, decerto, todas as restantes degradações portuguesas, foi afinal culpa de estrangeiros (atente-se, logo à cabeça, na referência aos alemães – e aos alemães conservadores, ainda por cima – através do Die Welt). Tivessem os estrangeiros ficado a tomar banho no Báltico ou no Canal da Mancha, o Algarve ainda seria um paraíso e nós continuaríamos, cheios de estilo, a usar roupa preta e chapéus tombados sobre os olhos.

 

Mas voltemos ao livro. O facto de ser constituído por textos curtos, sempre maravilhosamente escritos, refira-se, é uma das suas forças (lê-se com grande facilidade e despoleta sorrisos, trejeitos e murmúrios regulares) mas permite a ocasional sensação de insubstancialidade. No fundo, Prosas Apátridas é um blogue avant la lettre, como José Mário Silva salientou aqui. Ou melhor: Prosas Apátridas é como o livro extraído de um blogue – objecto de utilidade duvidosa mas muito comum hoje em dia – só que, neste caso, o blogue nunca existiu. E esta circunstância, para além de tornar inesperadamente difícil responder à até agora nada polémica questão: «Quem nasceu primeiro: o blogue ou o livro do blogue?», suscita a possibilidade de Prosas Apátridas, o livro, ser um objecto indefinido e incompleto, uma entidade cuja essência  não é clara. Matutava eu nesta inesperada questão existencialista que desconheço se Sartre ou Camus alguma vez abordaram (como noutros objectos de fabrico artificial, precede a essência dos livros a sua existência ou estaremos perante objectos tão humanos que as coisas funcionam exactamente ao contrário?) quando, numa hiperligação fulminante, me surgiu uma ideia fantástica, passe a rara imodéstia, que permitiria resolver o problema e só não coloquei de imediato em prática por medo de vir a receber uma carta dos advogados da Ahab (nem sempre os editores de livros percebem as intenções de um artista buscando o sentido total de uma obra). Mas posso contá-la, até para que alguém mais corajoso do que eu a aproveite. Trata-se de dar início a um blogue chamado Prosas Apátridas, o qual teria exactamente duzentos posts, publicados ao ritmo de um por dia. Isso mesmo: os duzentos posts deste livro-de-blogue-sem-blogue, desvendados durante os próximos duzentos dias. Mas não se deveria ficar por aqui ou o exercício confinar-se-ia a um gesto vácuo e vacuidade é algo que, estou certo, todos detestamos (sim, mesmo quem leu até este ponto). Considerando que a intenção seria completar o livro, criando a posteriori (por não ter existido a priori) um blogue com tudo aquilo a que ele não consegue chegar (a flexibilidade e a interactividade permitidas pela internet e interditas ao papel impresso), o blogue Prosas Apátridas incluiria imagens e vídeos (ah, o material que se poderia obter para ilustrar os corpos «lubrificados como armas de fogo»), hiperligações (vá, cliquem na capa do segundo livro, infelizmente esgotado há muito) e comentários (sorrio ao pensar na espontaneidade e elegância das reacções a nacos de prosa como o texto número 57 transcrito acima ou o número 77, acerca dos hábitos dos machos mediterrânicos que, frustrados de somente conseguirem roçar-se em mulheres atraentes nos autocarros e no metro, se masturbam como «orangotangos enjaulados»). E talvez Prosas Apátridas, o blogue, pudesse depois ser editado em livro, dando origem a um verdadeiro livro de blogue – cumprindo a visão que Ramón Ribeyro certamente teria tido se há trinta anos já existissem blogues e unindo existência e essência num único volume compacto. Para evitar confusões e marcar a diferença, o novo livro poderia receber o título Prosas Apátridas v2.0. Maior e melhor do que o original, ainda que sem uma única ideia nova, como qualquer sequela que se preze. Que tal, Ahab, vamos a isto?
 

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas.

Edição Ahab (2011), tradução de Tiago Szabo.

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Para acabar de vez com a lamúria

por Pedro Correia, em 29.05.11

 

A Banda mais Bonita da Cidade.

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Legislativas (16)

por Pedro Correia, em 29.05.11

 

CENTRO DEMOCRÁTICO SOCIAL: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do CDS-PP 

Título genérico: Este é o momento

Número de páginas: 72

Data de apresentação: 14 de Maio de 2011

Frase-chave: «Promover o elevador social, ou seja o direito a subir na vida legitimamente através da educação e do trabalho.»

 

1. Sanear as finanças públicas.

2. Imposição de limites ao endividamento na Constituição da República.

3. Redução do número de gabinetes do Governo e "cortes muito concretos nas despesas de aquisições de bens e serviços como comunicações, publicidade, eventos e assessorias".

4. "Revisão da lista dos cargos de confiança política".
5. Fusão ou extinção de empresas públicas, institutos públicos, fundações e grupos de missão do Estado no prazo máximo de 90 dias.

6. Programa de rescisões por mútuo acordo na Administração Pública.

7. Redução dos membros dos conselhos de administração das empresas públicas.

8. "Revisão rigorosa do regime de remunerações dos gestores públicos", com a imposição de um tecto máximo para as remunerações fixas.

9. Nova autoridade da concorrência, concedendo ao Presidente da República responsabilidades na nomeação dos reguladores.

10. Reduções fiscais às pequenas e médias empresas que cumpram objectivos de crescimento e de exportação.

11. "Ganhos de produtividade das empresas devem reflectir‐se numa compensação no nível salarial do trabalhador".

12. Reforma profunda do IRS no sentido da sua simplificação, "de forma a promover o valor da mobilidade social e avançar, progressivamente, para um IRS mais amigo da família e atento ao número de filhos".

13. Um IRS com menos escalões, menos taxas e menos excepções.

14. Redução da Taxa Social Única.

15. Incrementar uma "política de segurança firme, que responsabiliza o criminoso, apoia a vítima e ajuda e liberta a sociedade de demasiada violência".

16. Aumento de penas por crimes de fraude fiscal, nomeadamente em burlas tributárias e associações criminosas e fraudes qualificadas.

17. Criação de uma "bolsa de juízes de acção rápida" para a resolução de "atrasos crónicos" nos tribunais.

18. Criação de um Conselho Superior do Poder Judicial para substituir os actuais Conselho Superior da Magistratura e Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais.

19. Assessorias técnicas nos tribunais para libertar os juízes de tarefas administrativas.

20. Ministério da Administração Interna com poderes reforçados sobre a política penal, processo penal e execução de penas e prisional, matérias actualmente da competência do ministro da Justiça.

21. Ministério das Finanças deve agregar parte das actuais competências do Ministério das Obras Públicas.

22. Adiar novo aeroporto de Lisboa e modernizar aeroporto da Portela.

23. Suspensão do TGV.

24. Reafectação dos fundos comunitários do TGV e do novo aeroporto para novos projectos de pequena dimensão e que fomentem a coesão territorial.

25. Reavalização das parcerias público-privadas.

26. Extinção dos governos civis.

27. Revisão do Rendimento Social de Inserção, com regras mais apertadas para sua a atribuição e fiscalização.
28. Actualização das pensões mínimas, sociais e rurais ao nivel anual da inflação.

29. Reabilitar o mercado de arrendamento.

30. Agilizar os prazos para as acções de despejo.

31. Regenerar os bairros sociais.

32. Criar Rede Nacional de Cuidados Paliativos.

33. Generalizar a prescrição de medicamentos por unidose.

34. Aprovação de uma lei do testamento vital.

35. Dar mais autonomia às escolas e mais autoridade aos professores.

36. Revisão curricular, com a introdução de mais aulas de portugues e matemática no ensino básico.

37. Introdução de exames nacionais de final de ciclo no ensino secundário.

38. Criação de bolsas de empréstimos de manuais escolares.

39. Valorização do ensino profissional.

40. Defesa dos contratos de associação entre as escolas privadas e o Estado.

41. Ligação das escolas às empresas com a criação de um um Indice de Empregabilidade que torne "tão transparente quanto possível a ligação oferta-procura de qualificações".

42. Definir o estatuto de micro-empresário para "salvaguardar aqueles que querem criar valor, através de um negócio".

43. Negociação da reforma da Política Agrícola Comum.

44. Elaboração de um cadastro florestal.

45. Criação de mecanismos de segurança e de gestão de riscos, com o apoio da União Europeia, para reduzir os incêndios florestais.

46. Manutenção da Caixa Geral de Depósitos sob controlo do Estado português.

47. Manutenção de um canal público de televisão visando "obrigações de interesse nacional", nomeadamente a defesa e promoção da língua portuguesa.

48. "Avaliação criteriosa" dos apoios à expressão artística e às fundações.

49. Dignificação dos deficientes das Forças Armadas e dos antigos combatentes.

50. Reinventar e promover a marca Portugal.

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As canções do século (514)

por Pedro Correia, em 29.05.11

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.05.11

À Aldeia Olímpica.

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Ler

por Pedro Correia, em 28.05.11

Os jovens, esses preguiçosos. Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.

70 (Don't look back). Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

É a vida! Será? De Ana Gomes, na Causa Nossa.

Sobre a grande maioria do 'povo português', o PCP e a soberania nacional. Do Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto.

Inaugurar obra sem pagar um cêntimo. De Álvaro Santos Pereira, no Desmitos.

Compreender não é desculpar. Da Priscila Rêgo, n' A Douta Ignorância.

Parece a brincar, mas é a sério. Do Pedro Rolo Duarte.

Pontapés de canto. Do Nuno Costa Santos, na Sinusite Crónica.

Obra de arte. Do Henrique Fialho, na Antologia do Esquecimento.

La Coca. Do Sérgio Lavos, no Auto-retrato.

Beleza é fundamental. Da Ana Cristina Leonardo, na Meditação na Pastelaria.

Brigade de ménage à deux. De Maria N, na Segunda Lingua.

Uma estranha gratidão. Do Pedro Mexia, na Lei Seca.

Story tão pequenina... Da Eugénia de Vasconcellos, no É Tudo Gente Morta.

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As eleições de 1958 tiveram, como se sabe, Humberto Delgado e Américo Tomás como protagonistas principais. O que já muitos não saberão é que não foi apenas o resultado final das eleições que foi condicionado pelo regime. Na verdade, o próprio recenseamento eleitoral estava longe, na prática, de abranger o universo dos potenciais eleitores (em 1974 o número de eleitores recenseados não chegaria a um milhão). Outro aspecto surpreendente, aos nossos olhos, é o de os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores. Como seria de esperar, o regime assegurou a impressão e a distribuição, porta a porta, pela GNR e pela PSP, dos boletins de Américo Tomás. A tarefa de imprimir os boletins de Humberto Delgado foi bem mais complicada, pois até conseguir papel com as características impostas em quantidade suficiente foi um obstáculo difícil de superar. Quanto à distribuição, esta foi feita de mão em mão, entre aqueles que não temeram ver o seu nome associado à candidatura do General. Neste contexto, e tendo em conta o ambiente geral de intimidação, o controlo da imprensa e a falta de rigor na própria contagem de votos, pode imaginar-se que Humberto Delgado tenha perdido muitos votos. Pois bem, estou em condições de afirmar que também ganhou um que não lhe estava destinado. Pelo visto, o meu Bisavô, homem de muito mundo e não poucas dificuldades, valorizava a ordem e a disciplina que Salazar impusera ao país. O meu Avô, por seu turno, era um homem afável como poucos naquela época. Trabalhador incansável, acumulava a arte de alfaiate com a gestão da mercearia da terra. Tanto riscava a fazenda com giz como servia copos de vinho pela noite dentro aos não poucos bêbados da aldeia. Independentemente da hora a que se deitasse, às cinco da manhã dava à bomba para retirar água gelada do poço com que tomava o seu banho diário e inadiável. Homem de visão, teve três filhas e, coisa também pouco comum à altura, todas estudaram. E se uma das minhas tias não obteve a licenciatura, tal sucedeu bem contra a sua vontade. Ora, o Avô Adriano, para além de muitas outras qualidades, era também um democrata. Mas, foi em vão que tentou convencer o meu Bisavô a alterar o sentido de voto. Cansado de argumentar, o Avô Adriano decidiu, em estado de necessidade, tentar alterar o curso inexorável da história recorrendo a outros métodos. Assim, na manhã das eleições, quando o meu Bisavô se aprestava a sair de casa para votar, o Avô Adriano chamou-o. Deixe cá ver esse casaco, que lhe dou uma passadela. Que sim, que não, que não vale a pena, que deixa estar, que vai melhor que isto não se vota todos os dias. Finalmente, o Bisavô tirou o casaco. O ferro a carvão já fumegava, prontinho para o deixar impecável. Aos pés do Avô Adriano, escondida pela mesa de alfaiate, estava uma catraia, a minha mãe, com um boletim de voto de Humberto Delgado na mão. E enquanto a mão do Avô Adriano empurrava o ferro, a mão da minha mãe entrava no bolso do casaco do Bisavô e substituía o boletim de Américo Tomás que lá estava, muito bem dobrado, à espera de ser depositado na urna. Ora aqui está, já que não muda de ideia, ao menos que vá  com a devida apresentação. Não mudo não rapaz, e melhor farias tu em mudar. E enquanto um e outro se iam entretendo a terçar os últimos argumentos políticos, a minha mãe já se dirigia à mercearia para se apropriar da laranjada que o pai lhe tinha prometido.

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Estatura

por Ana Vidal, em 28.05.11

O que é ser-se realmente GRANDE? É isto.

Bom fim-de-semana.

 

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Grandes contos (6): Ernest Hemingway

por Pedro Correia, em 28.05.11
Existe algo a que possamos chamar o conto mais belo de sempre? Sim: é um texto que só nos fala de ilusões. Foi escrito por um americano apaixonado por Espanha e passa-se em Madrid, num dos anos mais funestos de que há memória. É um impressionante retrato de um país que não tardaria a mergulhar num dilacerante conflito cujo rasto perdura.
Falo de um conto intitulado A Capital do Mundo (ed. Livros do Brasil), que Ernest Hemingway publicou em Junho de 1936, já entre presságios da guerra civil. Toda a acção decorre no espaço fechado de uma pensão na calle San Jeronimo, perfeito microcosmos de uma Espanha em convulsão. O herói desta saga é um adolescente chamado Paco. Não poderia haver nome mais vulgar – e por isso mesmo tão simbólico. Este Paco, um miúdo órfão, veio da província em busca de um lugar ao sol na fervilhante Madrid da II República, efémera “capital do Mundo”. É na cozinha da pensão Luarca, entre panelas e pratos, que Paco dá largas à imaginação: sonha ser um toureiro, em traje de luces, aplaudido por milhares em delírio numa faiscante tarde de glória. O sonho de qualquer miúdo espanhol da época.
Os sonhos não tardaram a ruir. E nem era preciso sair da sala de refeições da pensão para perceber isso. Lá estavam dois padres galegos, pregando que “não se pode ir contra a autoridade” e ruminando contra Madrid, “que mata a Espanha”. Lá estava o empregado anarquista defendendo a vantagem de “matar cada touro e cada padre”. E lá surgiam três toureiros, ilusórios ídolos das massas: “um estava doente e tentava ocultá-lo, outro passara de moda e o terceiro era um cobarde”. Uma cornada “logo na sua primeira época de matador de cartaz” deixara-o incapaz de voltar a olhar um touro de frente. Era um drama íntimo, desconhecido das multidões – e tanto mais pungente quanto mais ele procurava disfarçá-lo naquela Espanha em que todas as aparências iludiam.
Paco bebia o ambiente circundante: “desejava ser um bom católico, um revolucionário e também gostaria de ser toureiro”. Se o destino o permitisse, haveria de conhecer tempos de triunfo, haveria de matar um miúra a las cinco en punto de la tarde.
Mas o destino não o permitiu: morreria tragicamente, naquele mesmo espaço fechado, naquela mesma noite, enquanto as irmãs mais velhas – também empregadas da pensão – viam uma decepcionante fita protagonizada por Greta Garbo num cinema da Gran Vía. Morreria com a graça e a dignidade de todos os heróis de Hemingway, personagens tocados pela tragédia. Não colhido por um touro, mas por uma traiçoeira faca de cozinha que lhe rasgou a artéria femural.
A “capital do mundo” dobrava a finados: faltava muito pouco para irromper a guerra, com o seu macabro cortejo de um milhão de vítimas. Mortes tão absurdas como a de Paco, que nunca conseguiu ser toureiro nem viu chegar a revolução libertadora que o seu colega anarquista profetizava. A Espanha moderna e cheia de luzes era afinal tão bárbara e ancestral como os espectros das telas de El Greco, era tão faminta de sangue como os grotescos vultos pintados por Goya.
Hemingway percebeu isso antes de qualquer outro nesta "exposição quase cervantina das falsas ilusões de quem vivia em Madrid durante a República", como anotou Edward Stanton – prova evidente de que os melhores escritores são também excelentes oráculos. Madrid, sim, capital do mundo. Mas de um mundo lunar onde os Pacos não viveriam para ver o raiar do sol. Um mundo povoado de sombras, prestes a desembocar num mar de cinzas. Fala-se agora tanto na necessidade de resgatar os fantasmas da guerra civil: releia-se este conto premonitório para se perceber melhor a génese desse imenso pesadelo.

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Não há dúvida. O PS é um partido inclusivo que não descura os aspectos lúdicos e culturais. Primeiro, abriu os braços para acolher na campanha os imigrantes da secção do Martim Moniz. E faz bem, uma vez que, como Francisco Assis reconheceu, ele que conhece bem a dita secção, são militantes muito activos. Depois, decidiu proporcionar aos participantes uma visita gratuita ao SEA LIFE para promover o conhecimento das profundezas dos oceanos. E faz bem, pois que tendo o PS afundado o país, é muito oportuno que os simpatizantes saibam o que os espera. Agora, pelo visto, são os idosos de lares de Fermentões e Guardizela, em Guimarães, a beneficiar das maravilhas do estado social na versão Sócrates 2011. Desta vez, o programa inclui apenas (e não é pouco, caramba!) a participação numa acção de campanha com a presença de José Sócrates. E faz sentido. Uma vez que não há jardim zoológico em Guimarães, esta é uma oportunidade única para os idosos verem ao vivo um animal político que, como se sabe, é um exemplar único do zoo demagógico.

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Legislativas (15)

por Pedro Correia, em 28.05.11

 

BLOCO DE ESQUERDA: MEDIDAS EMBLEMÁTICAS

(para ler e comentar)

 

Programa eleitoral do BE

Título genérico: Mudar de futuro pelo emprego e pela justiça fiscal

Número de páginas: 23

Frase-chave: «É necessário um abanão eleitoral, um 25 de Abril.» (Francisco Louçã)

Data de apresentação: 12 de Maio de 2011

 

1. Auditoria à dívida externa.

2. Renegociação da dívida para estabelecer "novos prazos, novas taxas de juro e condições de cumprimento razoáveis", anulando a dívida existente.

3. Cooperação com outros países da UE para a criação de uma agência europeia de notação.

4. Cooperação com outros países da UE para a emissão de títulos de dívida europeia.

5. Cooperação com outros países da UE para a entrada em vigor de um Pacto para o Emprego.

6. Combate aos paraísos fiscais.

7. Cancelamento das Parcerias Público-Privadas pendentes.

8. Imposição de um tecto aos accionistas das PPP para o nível médio das taxas de juro da dívida pública praticada nos anos anteriores.

9. Fundo nacional de resgate da dívida assente na tributação das operações bolsistas.

10. Novo imposto sobre as mais-valias urbanísticas.

11. Reforço do investimento público.

12. Protecção de políticas de desenvolvimento social e ambientalmente sustentáveis.

13. Revalorização anual das reformas e pensões, especialmente das mais baixas, pondo termo ao congelamento em vigor.

14. Luta contra a precariedade, defendendo o fim dos falsos recibos verdes e do falso trabalho temporário.

15. Limite máximo de um ano para os contratos a prazo.

16. Contrato-estudante destinado a garantir descontos reduzidos para a segurança social.

17. Direito à reforma completa ao fim de 40 anos de descontos.

18. Orçamento de base zero, que obrigue os serviços e departamentos de Estado à justificação de cada gasto.

19. Abolição dos governos civis.

20. Redução drástica das consultadorias externas e assistências técnicas.

21. Revisão dos financiamentos a fundações.

22. Vigilância das nomeações públicas.

23. Limitação salarial no sector público pelo vencimento do Presidente da República.

24. Cumprimento do acordo que prevê aumento do salário mínimo para 600 euros em 2013.

25. Agravamento do IRC sobre empresas que têm apoios públicos mas que distribuem dividendos aos accionistas em vez de reinvestir.

26. Imposto único sobre o património para incluir bens financeiros e acções - "ao mesmo nível do actual IMI, que não deve ser alterado".

27. Imposto complementar apropriado em casos excepcionais de grandes fortunas, cujas receitas serão canalizadas para a segurança social.

28. Criação de milhares de empregos na recuperação da ferrovia.

29. Estratégia de soberania alimentar para as pescas e para a agricultura, com a formação de um Banco de Terras, que dê oportunidades a quem quer trabalhar.

30. Apoio do Estado às redes de certificação, conservação e comercialização de bens alimentares destinados a mercados de proximidade.

31. Incentivo às pequenas poupanças através da emissão de títulos com rendimentos razoáveis e obrigações ligadas a projectos públicos dinamizados no sector empresarial do Estado.

32. Capitalização da Caixa Geral de Depósitos.

33. Criminalização do enriquecimento ilícito.

34. Investigação dos crimes de colarinho branco com cruzamento sistemático de dados e o fim do segredo bancário.

35. Apoio aos projectos de natureza industrial e de serviços avançados que sejam geradores de elevadas cadeias de criação de valor.

36. Renovar radicalmente as redes de distribuição de energia.

37. Recuperação de 200 mil casas degradadas, criando 60 mil postos de trabalho directos.

38. Dinamização do mercado de arrendamento.

39. Criação de uma Bolsa de Habitação para fogos a preços controlados.

40. Criação de um programa nacional de reabilitação urbana e de eficiência energética.

41. Pôr fim aos estágios não remunerados.

42. Extensão do direito à protecção social a todos os estágios profissionais e bolseiros, "através de um regime específico favorável e limitado no tempo".

43. Transferência para o Serviço Nacional de Saúde dos cuidados de saúde prestados por privados mas pagos pelo Estado.

44. Aumentar a eficiência e a qualidade do Serviço Nacional de Saúde.

45. Criação de novos serviços de apoio à infância e à terceira idade.

46. Universalização do acesso a serviços mínimos de água e electricidade.

47. Expansão da banda larga a todo o território nacional.

48. Aposta na exploração sustentável da pesca e na investigação dos recursos do mar.

49. Audição aos contratos de compras militares.

50. Saída de Portugal da NATO, uma "organização militar agressiva".

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As canções do século (513)

por Pedro Correia, em 28.05.11

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Previsões: PSD

por Pedro Correia, em 27.05.11

 

«Pelo que se vai vendo, o PSD parece estar a fazer tudo o que pode para conseguir perder estas eleições.»

Constança Cunha e Sá, Correio da Manhã

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Vício

por José António Abreu, em 27.05.11

E aqui estão, exactamente como os deixámos, livros, jornais e discos, e maços de cartas, e embrulhos, revistas e manuscritos. É impossível ter a correspondência em dia. Oscar Wilde dizia ter conhecido um jovem promissor que se arruinara com o vício de responder a cartas. Não me é possível ver todo este amontoado de papéis, mais os dois ou três livros que chegam todos os dias.

Saul Bellow, Jerusalém - Ida e Volta.

Edição Tinta-da-China (2011), tradução de Raquel Moura.

 

Hoje já não se escrevem cartas. Escrevem-se mensagens de telemóvel e de correio electrónico, posts e comentários. O vício são os blogues, o Facebook e o Twitter. Quantos jovens promissores se arruinarão andando por aqui?

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Convidado: CARLOS CARVALHO

por Pedro Correia, em 27.05.11

 

  Triunvirato

 

– “Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.

 

– “Triunvirato não, pá, que me lembras os romanos, com aquelas togas e tudo” – respondo, por sobre a música, ao mesmo tempo que procurava imaginar a efígie de Poul Thomsen com uma daquelas pencas à Júlio César plantadas no meio da cara. Não, ainda não estou assim tão bêbado.

 

– “Triunvirato? Estão a falar do quê?” – intromete-se o Pedro, que tem este hábito ligeiramente irritante de entrar nas conversas a meio – “Ah, de economia. Que parvoíce a minha. Como ouvi falar em romanos pensei que estivessem a falar daquele período imediatamente antes do fim da República.”

 

Caramba, será que o Paulo Portas tem razão?

 

Carlos Carvalho

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Por um prato de lentilhas

por Leonor Barros, em 27.05.11

Uns vendem-se. Outros não.

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Um Calino irresponsável ou ignorante?

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.11

I acto

 

Passos Coelho, líder do maior partido da oposição e candidato a primeiro-ministro nas eleições de 5 de Junho, "um homem invulgar", fala aos portugueses e aos militantes do seu partido dizendo que tinha havido um concurso no valor de 1,2 milhões de euros para uma assessoria destinada à "aquisição de serviços de elaboração de propostas de decisão e propostas de contra-ordenação" da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

 

II acto

 

O auditório fica indignado. Gesticula, belisca-se, revolta-se. É uma vergonha, um escândalo. Mais uma tença para os boys do partido. O líder aproveita para embalar o discurso e atira: "eu quero saber quem foi o feliz contemplado". O auditório também. A turba aplaude.

 

III acto

 

O destinatário da questão vem esclarecer que o feliz contemplado é uma instituição de ensino superior privada pertencente à Igreja e que tem sido apoiada pelo Estado devido ao seu ensino de excelência, sendo conhecida como Universidade Católica.

 

IV acto

 

À noite fica-se a saber que o "feliz contemplado" participou num concurso público, ao qual se apresentou um único concorrente e que o valor de 1,2 milhões se destina a pagar as cerca de seis dezenas de juristas que dão andamento aos processos de contra-ordenação, por forma a que o Estado não saia lesado com a prescrição das contra-ordenações.

 

Fica-se ainda a saber que desde 1993, quando era primeiro-ministro Cavaco Silva,  que o "feliz contemplado" faz esse serviço e que não há mais ninguém que se candidate a fazê-lo. 

 

V acto

 

Insatisfeito com a resposta recebida, Passos Coelho investe com mais vigor e vem então dizer que os "concursos internacionais são forjados, porque eles já sabem quem os vai ganhar antes de serem lançados". Em rigor, acusou os responsáveis pelo lançamento do concurso de serem criminosos. Matéria, portanto, da competência do Procurador-Geral da República, já que estamos perante a denúncia de um crime cometido por titulares de cargos políticos, crime público, evidentemente. 

 

VI acto

 

Em declarações à rádio, Passos Coelho, que ainda é candidato a primeiro-ministro, vem confessar ser politicamente ingénuo. A turba passa então a falar de portagens, gravidezes e excepções várias, matérias em que o líder se sente mais à-vontade.

 

Moral da história: A culpa de tanta ingenuidade é do "espertalhão" do José Sócrates. A da ignorância do candidato é do próprio. E deve ser aplaudida, posto que até esta é invulgar num candidato a primeiro-ministro. A irresponsabilidade, também ela invulgar, será dos partidos e dos eleitores que permitiram que se chegasse até aqui.

 

Como escreveu um genial e contemporâneo autor que não me canso de ler:

 

"Certos homens, estando sentados,

esforçam-se tanto por esboçar uma ideia

que acabam banhados em suor.

E entretanto cá fora: nada,

nem a carcaça do mais efémero indício

de inteligência. Cada ideia parece estar nesses cérebros

como num labirinto de que só raramente consegue sair".

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Casualidade, causalidade

Talvez tenha visto mal mas não me apercebi de que, como vem sendo feito na Net, algum jornal se tenha ainda interrogado sobre a sucessão de três notícias em pouco mais de dois meses que, isoladas, talvez só tivessem lugar nas páginas de Economia mas que, juntas, e com um director ou um chefe de redacção curiosos de acasos, até poderiam ter sido manchete.

A primeira, de 16 de Março, a da renúncia - dois anos antes do termo do seu mandato - de Almerindo Marques à presidência da Estradas de Portugal (para que fora nomeado em 2007 pelo então ministro Mário Lino), declarando ao DE que "no essencial, est[ava] feito o [s]eu trabalho de gestão".

 

A segunda, de 11 de Maio, a de uma auditoria do Tribunal de Contas à Estradas de Portugal, revelando que, com a renegociação de contratos, a dívida do Estado às concessionárias das SCUT passara de 178 milhões para 10 mil milhões de euros em rendas fixas, dos quais mais de metade (5 400 milhões) coubera ao consórcio Ascendi, liderada pela Mota-Engil e pelo Grupo Espírito Santo. Mais: que dessa renegociação resultara que o Estado receberá, este ano, 250 milhões de portagens das SCUT e pagará... 650 milhões em rendas.

 

E a terceira, de há poucos dias, a de que Almerindo Marques irá liderar a "Opway", construtora do Grupo Espírito Santo.

 

O mais certo, porém, é que tais notícias não tenham nada a ver umas com as outras, que a sua sucessão seja casual e não causal.

Aqui. São trezentos euros se faz favor, António.

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