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Quem é John Galt?

por João Campos, em 28.02.11

Ainda eu não acabei de ver todos os filmes que quero ver do ano passado, e já me estão a prometer coisinhas boas no grande écrã para este ano. Pelo menos, essa é a minha expectativa: em Abril, chega aos cinemas a primeira parte da adaptação cinematográfica de Atlas Shrugged, a obra-prima de Ayn Rand. Projecto ambicioso, sem dúvida.

 

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A revolta das mulheres árabes

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

"Nas imagens das manifestações, onde estão as mulheres da Líbia, da Tunísia, do Bahrein, do Iémen?", questionava há dias Inês Serra Lopes, na sua habitual coluna de opinião da terceira página do i. Lembrando, e com razão, que "sem mulheres não há revolução". Por saboroso acaso, a resposta vinha logo na página seguinte da mesma edição, em texto assinado por Nicholas Kirstof, escrito em Manama, capital do Bahrein, para o New York Times (de que o i tem o exclusivo em Portugal). "Não se deixe levar pela campanha maliciosa lançada pelos ditadores segundo a qual um Médio Oriente mais democrático será fundamentalista, anti-americano ou opressivo para as mulheres. Para começar, têm-se visto muitas mulheres nas ruas a exigir mudanças (mulheres de uma força impressionante, vem a propósito lembrar!)", escreve este jornalista galardoado duas vezes com o Pulitzer.

Espero que a Inês fique mais tranquila com estas palavras escritas por quem tem acompanhado os protestos ao vivo. E a Maria João e a Joana também.

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Neologismos

por Rui Rocha, em 28.02.11

Tripolineiro: trampolineiro que faz negócios com o regime de Kadafi.

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Atão porquê?

por João Carvalho, em 28.02.11

«Teixeira dos Santos assegurou hoje que, se necessário, serão implementadas medidas de austeridade adicionais para baixar o défice.»

Lembrei-me daquela gasta anedota da alentejana que começara a usar "baton" e a quem o marido perguntava porque é que ela andava a pintar os beços.

— P'ra ficar mais bonita — respondia ela.

Atão porque é que ficas? — insistia ele.

Quanto mais se baixar o défice, melhor. Quanto mais se baixar o défice sem recurso a receitas e sim a menos despesa (mais austeridade), melhor. Há mais medidas adicionais que podem ser implementadas (palavra odiosa)?

Atão porque é que se implementam?

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Um país estranho

por Ana Vidal, em 28.02.11

 

Temos um estranho conceito de trabalho.

Temos um estranho conceito de força maior.

Temos um estranho conceito de urgência.

Temos um estranho conceito de prazos.

Temos um estranho conceito de brinquedos.

Temos um estranho conceito de contas.

Temos um estranho conceito de património.

 

Temos, enfim, um estranho conceito de país.

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Teixeira dos Santos decidiu que hoje é o dia certo para disparar em todas as direcções. A sanha do Ministro dirigiu-se a vários alvos. Não escaparam a UE, a quem pretende endossar a responsabilidade do buraco em que nos meteu, a Banca que quer comprometer com soluções de credibilização em que já ninguém acredita e os contribuintes a quem já vai ameaçando com novos ataques. Como pano de fundo, a permanência dos juros da dívida a 5 e 10 anos bem acima do limiar de 7% e a reunião de 4ª feira próxima em que Sócrates se apresentará a Ângela Merkel de bibe e calções. Sim, perante tal desespero fica bem claro que a situação está controlada.

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Convidado: NUNO COSTA SANTOS

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

Todos nós

 

A Otília só vem na quinta. Mas sei – anteouço já – a primeira conversa que vamos ter na cozinha, enquanto ela pousa a sua tralha e eu passo a manteiga light na torrada. Ela vai-me perguntar sobre os “meus meninos” e, logo que eu disser que estão bem, irá rematar a frase com a sentença: “Ah, isso é que interessa!”. Isso é que interessa. Eles estarem bem é que interessa.

 

Sei que não faz por mal – faz por bem até. Mas o que a minha empregada, mulher de 60 anos que veio de uma povoação junto ao Douro e se farta de trabalhar aqui e ali para sustentar uma família com dramas vários (como todas as outras), diz representa um vício de pensamento das nossas e de outras sociedades – ouve-se por todo o lado, sob diferentes formulações. A de que se as crianças estiverem bem o resto das pessoas também estará – a de que elas são o referencial para a felicidade de todos. O que, antes de mais, é injusto para as próprias. Não interpretem isto como uma desvalorização desses seres que dão à vida uma boa parte do significado que a vida tem e pode ter – e, para citar o Miguel Ângelo, toda a gente sabe que amo os meus filhos, com as toneladas de baba que isso implica. Apenas acho que chegou a altura de, além das crianças, se valorizar também os (utilizemos o habitual termo pesado) adultos.

 

Se calhar o problema está nisto: nesta divisão entre “crianças” e “adultos”. Devíamos, digo eu, não tratar as crianças como adultos mas sim tratar os adultos como crianças. Como os seres frágeis que ainda somos, apesar de nos quererem integralmente responsáveis por tudo o que fazemos e dizemos. O problema talvez esteja algures por aí: nessa divisão tão grande entre as crianças e os adultos. Se formos metidos todos, novos e velhos, no mesmo saco – o saco de pessoas frágeis, amorosas e birrentas – a coisa torna-se pelo menos mais justa. Ainda no outro dia pensei nisso ao topar na rua um gesto de ternura de um senhor para com os meus filhos. Se ele estendesse esse gesto de ternura para os adultos (falsos adultos, verdadeiras crianças) com quem se cruza na repartição, no supermercado ou na sala de espera, estaria a contribuir para a vida ser bem mais fácil neste país demasiado refém dos seus instintos de medo, rezinguice e desconfiança. Se nos tratássemos todos como crianças este seria não só um mundo melhor – mas sobretudo um mundo mais justo.

 

Não, Otília, não é só isso que interessa. Não são só os meus filhos e os seus netos que interessam. Todos nós interessamos. A começar pela Otília.

 

Nuno Costa Santos

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Censura a certo jornalismo

por João Carvalho, em 28.02.11

1. «O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, afirmou hoje que a moção de censura ao Governo é uma forma de corrigir as injustiças sociais e de trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.» Perceberam? Eu também não.

 

2. Se Louçã tivesse uma pontinha de razão e conseguisse explicar muito bem explicadinho como é que censurar o Governo corrige as injustiças sociais e traz estabilidade e desenvolvimento ao País, era caso para cada grupo parlamentar, cada partido, cada cidadão cuidar de promover censuras permanentes ao Governo. Eu próprio, modestamente, podia ser laureado com um Óscar qualquer pelas censuras ao Governo que vou lançando e que, pelas minhas contas, já deviam ter-nos livrado da crise. Digam-me lá se tenho ou não tenho contribuído para corrigir as injustiças sociais e trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.

 

3. A notícia em apreço e outras de igual teor pecam pelo mesmo motivo que pecam tantas outras notícias hoje em dia. Pecam de tal modo que já ninguém liga a isso. No caso, pecam porque Louçã lança a atoarda, diz o que lhe apetece, larga uma frase inconsequente e intraduzível, mas nenhum jornalista lhe pergunta o que seguramente não conseguiu entender. Não só nenhum jornalista entendeu e não pediu explicação, como ainda fez notícia do disparate. Só que não o publica como disparate, mas como notícia (que não é). Está na altura de pensar numa moção de censura a esta espécie de jornalismo que anda a minar o jornalismo propriamente dito.

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Os Óscares da realidade

por Rui Rocha, em 28.02.11

A noite dos Óscares não surpreendeu. Consagrou um filme que executa o papel de contar uma história apoiado em excelentes interpretações. Nem mais, nem menos. Uma noite assim, consensual, sem rasgo, polémica ou desastre que a ilumine não ficará  na história da cinematografia. Parece-me uma cerimónia adequada aos tempos que vivemos. Alguém definiu o Homem como o animal que vai ao cinema. O fascínio da sétima arte terá explicação na existência de um conjunto de neurónios (os neurónios-espelho) em que se encontra a chave da empatia. Essa que nos permite vivermos como se fossem nossas as angústias, as derrotas e os sonhos de outros seres humanos. Estes são tempos em que a realidade nos proporciona histórias que superam em muito a ficção. Vivamos então uns momentos da história de Abdul. Aquele que  vendia no Cairo o pão que o Diabo amassou. Ou de Salim, esse que está pronto para atirar uma pedra a uma das últimas fotografias de Kadafi. Um e outro, tal como Fhatima, em Tunis, têm agora uma ilusão de liberdade que também pode ser nossa se a quisermos compartilhar. Por uns tempos, as epopeias da ficção podem esperar. E Hollywood não quis sobrepor-se à narrativa da realidade. Depois, quando aqueles sonhos se cumprirem, se frustrarem ou forem esmagados, lá daremos de novo protagonismo ao cinema. Em busca da vertigem, do drama ou de heróis em luta pela liberdade. E é possível que encontremos, na primeira fila, os cínicos, os cépticos e os democratas de aquário. Esses incansáveis defensores de toda a liberdade que se projecta nas imediações do sofá em que se sentam. Todos temos momentos em que exercitamos os nossos neurónios-espelho. Alguns fazem-no apenas protegidos pelo escurinho de uma sala de cinema. É nesses momentos que revelam, na empatia que experimentam, a raiz mais profunda da sua humanidade.

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Justice is served

por Laura Ramos, em 28.02.11

Pode não ter sido o teu filme, Colin.

Vão correr rios de tinta sobre o assunto.

Mas tu entendes que isso interessa pouco: são apenas os hollywwod-cratas do costume.

Eu sei que entre tantos outros, tantas vezes imerecidos, este teu Óscar é inteiramente devido.

 

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 28.02.11

O Nuno Costa Santos sai do seu Bairro Melancómico para vir hoje escrever connosco. E nós já temos a passadeira estendida, à espera dele.

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 28.02.11

1. O Insurgente faz seis anos. É um blogue imprescindível. Parabéns aos seus autores, incluindo o nosso Adolfo Mesquita Nunes.

 

2. Outro blogue imprescindível também de parabéns é o Blasfémias. Nasceu há sete anos, mantém-se activo 2557 dias depois. E no topo da audiência.

 

3. Como aqui já fez a nossa Ana Vidal, saúdo também o regresso do Paulo Cunha Porto à blogosfera. Bem acompanhado, no Jovens do Restelo.

 

4. Mau-Mau: um novo blogue do Filipe Nunes Vicente.

 

5. Ponte Vertical: blogue recém-estreado. A ler.

 

6. Elevador da Bica agora no Sapo. Bem-vindos, companheiros.

 

7. Agradeço, em nome de todos os delituosos, a atenção do João Severino. Mais uma, no Pau para toda a Obra.

 

8. Agradeço também estas palavras amigas do Luís Novaes Tito. Por mim, sempre chamei ditador a um ditador - não esperei que eles caíssem, como fez a Internacional Socialista. Basta reler isto ou isto.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.02.11
«A meritocracia é uma palavra que devia ser banida de qualquer dicionário de língua portuguesa. Mesmo dos novos dicionários, abrangidos pelo Novo Acordo Ortográfico. Sabe porquê? Não existe. Não é praticada. Por vezes é-nos ensinada quando somos pequeninos mas quando crescemos apercebemo-nos que a teoria não existe na prática.
A meritocracia é algo saudável. Por um lado. Por outro lado, gera inimigos. Dos mais reles que o homem tem de suportar. Aqueles inimigos que pregam armadilhas sem no entanto terem a decência de mostrar algo que os valha. Inimigos rasteiros, cínicos.
Esqueça tudo aquilo que eu escrevi nestes dois parágrafos. Pergunte melhor ao Armando Vara. Ele sabe a resposta.»
 
Do nosso leitor João Branco. A propósito deste meu texto.

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As canções do século (424)

por Pedro Correia, em 28.02.11

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Leitura (muito) recomendada:

por João Campos, em 27.02.11

Sporting: it's not you, it's me, por Rogério Casanova no Pastoral Portuguesa, naquele que será a melhor e mais divertida crónica de futebol que li nos últimos anos. 

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Quando o Óscar chega tarde de mais

por Pedro Correia, em 27.02.11

 

Em cada temporada dos Óscares, lembro-me sempre de Howard Hawks. Foi um dos gigantes da arte de realizar filmes. E também um cineasta que nunca recebeu um Óscar em competição. Não por falta de obras-primas no seu currículo. Mas porque, por algum motivo obscuro, a Academia de Hollywood sempre o considerou um realizador “menor”. Algo muito estranho, já que raros cineastas produziram tantos filmes memoráveis como Hawks, que iniciou a sua actividade ainda no tempo do cinema mudo. Filmes como As Duas Feras (1938), Paraíso Infernal (1939), Sargento York (1941), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), A Culpa foi do Macaco (1952), Rio Bravo (1959) e El Dorado (1967). Foi ele quem reuniu pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em Ter e Não Ter (1944). Foi ele quem juntou Marilyn Monroe e Jane Russell, em Os Homens Preferem as Louras (1953).

O reconhecimento foi tardio – e só surgiu por efeito de ricochete da crítica francesa, que idolatrava Hawks. Hollywood deu-lhe enfim um Óscar honorário em 1974 quando Hawks, de 78 anos, já deixara de filmar. A consagração surgiu demasiado tarde, tal como sucedeu, por exemplo, com Charles Chaplin e Groucho Marx (Óscares honorários de 1971 e 1973, quando tinham 82 e 83 anos, respectivamente).

O génio é muitas vezes reconhecido tarde de mais. Lá como cá.

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Ler

por Pedro Correia, em 27.02.11

Um interregno desertificado, onde a caravana não passa. Do José Adelino Maltez, no Albergue Espanhol.

A unha comprida do dedo mindinho. De José Couto Nogueira, no Perplexo.

A popota mais gorda. Do Joaquim Carlos, no Palavrossavrus Rex.

Círculo TVicioso. Do Paulo Cunha Porto, no Jovens do Restelo.

Conversa de ruas. Da Maria Isabel Goulão, na Miss Pearls.

A inteligência no ritual da discussão civilizada. Do José António Abreu, n' O Escafandro.

Quem apoia ditaduras, colhe fundamentalistas. De Ana Gomes, na Causa Nossa.

A situação na Líbia. De J. M. Correia Pinto, na Politeia.

O mártir da cleptocracia. Do Rui Herbon, na Jugular.

Será possível? Da Helena Matos, no Blasfémias.

Revolução revolution. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

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A Moção de Sócrates: copy, paste, delete

por Rui Rocha, em 27.02.11

José Sócrates apresentou ontem as linhas gerais da sua Moção ao Congresso do PS. De acordo com a informação disponível, a fórmula que traduz esta proposta política é: José Sócrates = a proposta anterior - regionalização. Trata-se, portanto, de uma sequela. Em geral, as sequelas têm como objectivo explorar uma fórmula comercial de sucesso. Em regra, não conseguem alcançar esse objectivo. O problema com a Moção de Sócrates é mais grave. A sequela proposta pretende reproduzir um insucesso. Trata-se da sequela de uma mazela. A visão de Sócrates para o país não funcionou. Mas, perante esta evidência, o ainda Primeiro-Ministro não propõe nada de novo. Sendo este o texto, importa ainda apreciar o contexto. E esse é dado pela intervenção de Sócrates. Aqui, sublinha o apelo à continuidade e à estabilidade. Ora, a estabilidade e a continuidade são coisas que se desejam para fórmulas de sucesso. O que Sócrates quer oferecer ao país é a estabilidade de um programa que conduziu  à derrapagem das contas públicas, à perda do poder de compra por via de cortes de salários e aumento da inflação, à subida dos juros da dívida para níveis incomportáveis, ou à tendência de crescimento do desemprego? O mínimo que se podia exigir a Sócrates é que apresentasse ao PS e a Portugal um desejo de mudança. Que começasse nele próprio. Um acto de contrição, um balanço crítico e um projecto de renovação. Optar por propor mais do mesmo revela um estado de contentamento consigo próprio que não tem justificação na situação real. A continuidade e a estabilidade propostas por Sócrates não podem entender-se, neste contexto, como um projecto colectivo. Pelo contrário, são um programa unipessoal de permanência no poder contra toda a evidência. Constatada a  falta de comparência ao debate das alternativas que existem dentro do PS, a única forma de lhe pôr termo é a crise política que deverá ser aberta logo que os factos (as contas públicas e a intervenção externa directa ou encapotada) certificarem a inustentabilidade da situação. A teimosia é de Sócrates. Mas, a cabeça que bate na parede é a do país. Ao copy/paste proposto por Sócrates é preciso responder pressionando, convictamente e no momento próprio, a tecla delete.

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Comissão de Serviço VII

por Fernando Sousa, em 27.02.11

A GARANTIA

 

Os ramos que o Sebastião soltava batiam-me, mas mal os sentia, a caminho do enxame de luzinhas nervosas da cidade. Ali aguentava-me a braços, as árvores dançavam com a noite à minha volta.

Regressava, o único branco da festa, do casamento de Filomeno, numa aldeia de colmo e adobe, onde durante horas comera e bebera à volta de um porco que um grupo de rapazes ia rodando numa fogueira. Acompanhara, copo a copo, todos os vivas ao casal.

Às vezes era o único: – VIVA! VIVA!

Trocava os passos, ria, parava, dava abraços, voltava a rir-me, tropeçava, caía, debaixo de uma lua tão cheia que deixava pouco espaço ao céu. No chão, meio a dormir, desci lentamente sobre o Mar da Tranquilidade.

– E SE A FRELIMO APARECE? – Endireitei-me.

Sentado, com o Sebastião a segurar-me, Ali pôs-se de cócoras, tomou-me a cara entre as duas mãos, olhou  para o companheiro, depois para mim, com uns olhos enormes, e disse-me:

- Meu furriel, a Frelimo não vai aparecer. Posso garantir-lhe. Venha, estamos perto.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

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O Discurso do Rei

por Teresa Ribeiro, em 27.02.11

 

Eu gosto de ver trailers, embora tenha consciência de que às vezes me enganam. Foi o caso do trailer de "O Discurso do Rei". Vendeu-me emoção e afinal comprei tédio. Prometeu-me ritmo e lamentavelmente arrastou-se, não porque o filme seja demasiado longo, mas porque o seu argumento é demasiado curto. "O Discurso do Rei" limita-se à relação que se estabeleceu entre Jorge VI de Inglaterra e o seu terapeuta da fala. Fosse este rei um personagem de ficção e talvez me satisfizesse com o excelente desempenho de Colin Firth e Geoffrey Rush, mas Jorge VI, que diabo, existiu. E num período histórico extremamente conturbado. O mínimo que se poderia esperar desta obra era alguma contextualização histórica ou, na sua ausência, um biopic, mais focado na vida familiar do rei, que nos explicasse a sua gaguez.

Sei que é matéria delicada, tratando-se de um elemento da família real com parentes próximos vivos, mas resumir as razões que podem ter contribuído para aquela deficiência da fala - afinal o assunto principal do filme - a duas linhas de texto traduzidas numa breve troca de palavras entre Firth e Rush é demasiado redutor.

Firth merece o oscar, mas o oscar que provavelmente ele vai ganhar merecia melhor filme.  

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And stay un unbeliever

por Laura Ramos, em 27.02.11

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Os dois amigos da família Kadhafi

por Pedro Correia, em 27.02.11

                           

 

Uma família entra em guerra contra um povo inteiro. Não hesita em virar os fuzis contra cidadãos desarmados. Perde o apoio da sua própria rede diplomática. Vê a bandeira que arriou voltar a ser hasteada nos mastros. Recebe a censura generalizada da comunidade internacional - incluindo o voto unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas, arriscando-se a responder perante o Tribunal de Haia por violação grosseira do direito internacional.

A acção criminosa desta família que acumulou milhões ao longo de quatro décadas no poder tem a reprovação do mundo inteiro? Nem por isso. Hugo Chávez e Daniel Ortega estão solidários com ela. O que diz tudo sobre um e outro.

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Heróis da BD (95)

por Pedro Correia, em 27.02.11

  

                 

 

Yakari, de Derib e Job

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 27.02.11

Há blogues de que se fala pouco mas que merecem uma visita atenta e demorada. São blogues mais pausados, que nos falam de coisas diferentes, bem escritos, bem paginados. Como este Coisas do Arco da Velha, que elejo como blogue da semana.

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As canções do século (423)

por Pedro Correia, em 27.02.11

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¿Por qué no te callas?

por Paulo Gorjão, em 26.02.11

Pedro Santana Lopes acha "estranho" que Pedro Passos Coelho não consiga colocar o PSD "muito mais distanciado do PS das sondagens". A última sondagem, recorde-se, dá maioria absoluta ao PSD. Mais. Com ou sem maioria absoluta, todas as sondagens ao longo dos últimos meses dão sempre a vitória ao PSD.
No entanto, Santana Lopes gostava que existisse maior distância entre os dois partidos. Fala quem sabe da matéria: em 2005 o PSD sob a sua liderança conseguiu a proeza de ter uns ridículos 28% e permitir que o PS tivesse 45% dos votos e a sua primeira e única maioria absoluta até hoje.

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O feitiço do tempo

por Pedro Correia, em 26.02.11

João Pereira Coutinho, hoje no Correio da Manhã: «A revolução de 1789 acabou por degenerar no Terror jacobino. Por que motivo, então, esta evidência é tão difícil de perceber no caso árabe?»

Vasco Pulido Valente, hoje no Público: «O que havia em França em 1789-94 era uma total ausência de instituições capazes de promover e defender as liberdades. (...) Como hoje na África do Norte.»

 

Espero que os nossos "líderes de opinião" transitem rapidamente do século XVIII para o século XIX. A ver se daqui a uns alguns meses começam a compreender finalmente o que se passa no mundo árabe do século XXI.

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As assoalhadas na Líbia

por João Carvalho, em 26.02.11

«O filho do líder líbio Muammar Kadafi afirmou hoje que a situação na Líbia é "excelente" em três quartos do território.» Alguém sabe quantos quartos a Líbia tem?

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Portugal suspende o TGV?

por João Carvalho, em 26.02.11

Nada tem de especial suspender um TGV. Em França...

... e nos EUA já há muito que se suspendem comboios.

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Pouca-terra

por João Campos, em 26.02.11

Mais uma a cair. Temporariamente, diz a CP, para obras - e, entretanto, sem alternativa rodoviária. Considerando o passado recente da CP, alguém acredita mesmo que a ligação de Intercidades entre Castelo Branco e Covilhã volte a abrir?

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Há pouco mais de uma semana foi Armando Vara que passou à frente dos utentes de um Centro de Saúde. Agora é a segurança do Ministro da Justiça que viola normas elementares de respeito por uma situação de vida ou de morte. No caso de Vara, o juízo de condenação é pessoal e intransmissível. No caso de Alberto Martins, quero crer que o Ministro não terá responsabilidade directa na ordem dada no sentido de afastar uma ambulância em serviço.  Todavia, mesmo que assim seja, estas situações são sinais dos tempos. Os que detêm o poder não estão ao serviço dos cidadãos. Servem-se do poder contra tudo e contra todos. O ambiente que dá origem a estes desmandos é o do arrivismo e da prepotência. O salto à Vara, sem respeito pelas mais elementares regras de civilidade, é uma actividade tão condenável quanto recorrente. Para praticá-lo não são mecessárias especiais aptidões físicas ou intelectuais. É, todavia, necessário apresentar uma acentuada fraqueza de carácter. A vara que permite ascender a cargos para os quais não existem competências adequadas é a mesma que permite saltar sobre os cidadãos no dia-a-dia. A segurá-la está sempre a mão de um boy. Chame-se ele Armando, Alberto ou Videirinho.

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Lá se fazem, lá se pagam

por Pedro Correia, em 26.02.11

O Fianna Fail, partido de governo da Irlanda, teve o pior resultado eleitoral de sempre nas legislativas, obtendo apenas 15,1%.

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Jose Sócrates foi ontem ao Parlamento responder a uma canção e a uma manifestação que está marcada, através do Facebook, para o próximo dia 12. A sua intenção era responder à letra. Mas, acabou por retratar-se a si próprio. À geração que alguns dizem ser parva respondeu a governação do chico-esperto. O melhor que Sócrates tem para oferecer é o anúncio de medidas que já tinham sido apresentadas. Não é surpreendente. Sócrates é mesmo assim. Falta-lhe produto. Interno, bruto e verdadeiro. Sobra-lhe o marketing em que já ninguém acredita. Por isso, o debate de ontem foi para lamentar. A geração a que Sócrates se dirigia tem características próprias. Umas serão melhores do que as das gerações anteriores. Outras,  nem por isso. Mas, se existe característica que a distingue é o facto de ter ao seu alcance informação abundante. Se há coisa que essa geração não tolera é treta. Com informação sobre qualquer assunto ao alcance de um click, os vendedores de banha da cobra têm que se esforçar mais do que há uns anos atrás. Já não é suficiente fazer propaganda com medidas requentadas. Ontem, Sócrates não foi à Assembleia da República dar o correctivo quinzenal à bancada parlamentar do PSD. Pelo contrário, foi reconhecer perante o país e, em particular, perante uma geração, que não tem nada de novo para lhes dizer. Portugal está em graves dificuldades. A geração que Sócrates pretendia embrulhar esbarra numa conjuntura de bloqueio do acesso ao mercado de trabalho. Quanto ao Primeiro-Ministro, esse está mesmo à rasca.

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Grandes contos (3): Albert Camus

por Pedro Correia, em 26.02.11
Pode um conto ser deliberadamente político sem nunca parecer que o é? Pode. Albert Camus dá-nos um exemplo admirável numa das histórias incluídas na excelente colectânea de narrativas intitulada O Exílio e o Reino (1957). O conto a que me refiro, O Hóspede, é daqueles que nos perduram na memória graças à poderosa sugestão visual da escrita de Camus, na sua elegância sincopada. Uma espécie de “Hemingway revisitado por Kafka”, na definição algo irónica de Sartre, que nunca escondeu uma certa aversão pelo autor d'O Estrangeiro, um dos raros escritores franceses do século XX que jamais se deixaram seduzir por sistemas totalitários. É este, aliás, o cerne deste conto hipnótico, que nos fala da solidão, do silêncio, da violência surda, da incomunicabilidade – e também de política, oculta num admirável jogo de metáforas: afinal que papel resta aos intelectuais num mundo que volta a ser dominado por pulsões irracionais de toda a espécie?
O professor Daru – alter ego do autor – encarna este dilema, no quadro da cruel guerra da Argélia, nunca aqui nomeada expressamente mas subjacente do primeiro ao último parágrafo. Camus, francês nascido na Argélia, sabia bem o preço a pagar por aqueles que, como ele, não optaram por nenhum lugar em nenhuma trincheira do conflito.
Num momento em que a História caminha a passo cada vez mais acelerado, há uma estranha actualidade neste confronto de culturas simbolizado no professor francês com alma de apátrida que dá abrigo por uma noite, na sua escola abandonada, ao árabe suspeito de ter infringido a lei. Em pano de fundo, com toda a sua carga simbólica, a nua imensidão do planalto argelino, às portas do deserto, magistralmente descrita pelo autor: “Daru contemplou o céu, o planalto, e, para além, as terras quase invisíveis que se estendiam até ao mar. Nesse vasto país, que ele tanto amara, estava agora só, completamente só.” (Edição portuguesa dos Livros do Brasil, tradução de Cabral do Nascimento).
Não é na irreparável solidão desse deserto que vive o homem contemporâneo, entre as certezas que se desmoronam e um terror sem rosto incrustado no nosso inconsciente colectivo?

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Passado presente (CCCVI)

por Pedro Correia, em 26.02.11

 

Fama

(série da NBC, 1982-87)

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As canções do século (422)

por Pedro Correia, em 26.02.11

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 26.02.11

AO Jansenista.

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Frases de 2011 (13)

por Rui Rocha, em 25.02.11

«¡Viva Libia y su independencia! Kadafi enfrenta una guerra civil»

Hugo Chávez, hoje, no seu (dele) twitter.

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O dilúvio chegou antes e não depois

por Pedro Correia, em 25.02.11

 

Houve um tempo em que uma certa direita, incapaz de resistir a regimes musculados, apontava o Egipto de Mubarak como exemplo de bom governo no mundo árabe. Esse tempo terminou, irrevogavelmente, a 11 de Fevereiro. Houve também um tempo em que uma certa esquerda, num apaixonado flirt com o “socialismo árabe”, mencionava Kadhafi como figura de referência. Esse tempo está prestes a terminar: com o seu patético discurso de ontem, o homem que durante 41 anos dirigiu a Líbia com mão de ferro demonstrou ter perdido definitivamente o contacto com a realidade.

Um elo uniu Mubarak e Kadhafi ao soar a hora da derrocada: perdida a tradicional pose de bravata, ambos invocaram os riscos do extremismo islâmico como chantagem suprema perante a comunidade internacional. O líbio chegou a apontar o dedo acusador à Al-Qaeda como fonte dos distúrbios no seu país. Repetindo, no fundo, o argumento de Luís XV na França pré-revolucionária: “Depois de mim, o dilúvio.” O problema, tanto no Egipto como na Líbia, é que o dilúvio chegou antes e não depois.

 

Publicado no DN

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Educação perversa

por Laura Ramos, em 25.02.11

 

No Jornal i, verdades velhas.

Bem conhecidas de qualquer mãe de filhos-homens, que tenham vivido a fase pré-escolar e o ensino básico aí pelos anos 90 e pelos primeiros anos deste século.
Só agora é que lá chegaram?
Quando eu me embrenhava na vida escolar da descendência, até aos mínimos pormenores, já então não podia evitar o  distanciamento crítico e aperceber-me dessa evidência que era a feroz feminização do ensino, na tenra idade em que se molda a personalidade dos homens e das mulheres, no seu diário de sucessos e insucessos.
E eu, que cresci num tempo em que persistiam, bem potentes e injustas, as  résteas sexistas  do sagrado direito à concorrência desleal masculina, vi-me mãe-investida-em-advogada-do-diabo, a  insurgir-me contra um sistema de aprendizagem e de avaliação totalmente dominado pelo modelo de comportamento feminino, onde os rapazes não encontravam espaço cognitivo nem  re-cognitivo.
Há dez anos atrás, numa daquelas penosas reuniões de escola, gostava de ter tido à mão este artigozinho para acenar à maioria dos pais estupefactos perante mim, quando tentava insinuar assertivamente esta realidade.
A ideia era influir no processo em curso nas aulas e sensibilizar os responsáveis para esta pequena grande perversão involuntária.

Mas é claro que o quorum foi escasso e ficou tudo na mesma.

 

(Nota: escrevi isto há um ano, a propósito disto, e assim o assunto vai andando a ritmo de caracol... Agradeço o link do i.)

 

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O Turista

por Teresa Ribeiro, em 25.02.11

Primeiro vemos Angelina Jolie a caminhar pela rua como numa passerelle. Cabeleira farta, cabelos soltos, vemo-la depois sentada numa esplanada. A seguir de perfil, de costas, em contra luz, de vestido de noite, cabelo apanhado, à média luz, em lingerie de renda, etc, etc. O guarda-roupa é luxuoso, a bijuteria exuberante. Que linda que ela é. Johnny Depp não sabe bem o que está ali a fazer. Enfim, ganha uma pipa de massa e passeia por Veneza, nada mau. Li numa revista que se enamorou de uma casa no Grande Canal e que a vai comprar.

O Florian Henckel devia ter perguntado à Jolie se não se importava de dar uma voltinha. Tinha sido mais prático do que fazer um filme e poupava-nos o dinheiro do bilhete. Quando eu penso que foi este o homem que escreveu e realizou A Vida dos Outros, talvez o melhor filme que vi em 2007, nem acredito.

O Turista não é uma catarse. Trata-se apenas e só de masturbação mental. O problema é que a Jolie não faz o meu tipo.

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Cartão de Profissão

por Rui Rocha, em 25.02.11

Dizem-me que o Governo quer fazer constar a profissão do Cartão de Cidadão. No caso de Sócrates continuar muito mais tempo no Governo não é preciso cansarem-se muito. Basta preverem as situações de boy e de desempregado.

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Elogio dos cínicos.

por Luís M. Jorge, em 25.02.11

Tens razão, Filipe: o passado não favorece os entusiastas. Ainda recordo, por exemplo, quando Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes reclamavam bombas sobre Bagdag. Os cínicos, como eu, manifestaram-se.

 

Mas o tempo e as farsas de cem mil cadáveres trazem circunspecção e sabedoria. Também gosto de os ver agora, tão recolhidos, tão hesitantes em celebrar o derrube das ditaduras do norte de África.

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Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 25.02.11

Um dos problemas deste país é gastarmos muito mais tempo a ler opiniões de gente burra do que de gente inteligente e bem informada. Ainda agora, a propósito das revoltas no mundo árabe, se percebe isso: damos um pontapé numa pedra na rua e saem de lá dez recentíssimos "egiptólogos" a debitar inanidades sobre a incompatibilidade radical entre a democracia e o mundo árabe. Alguns são os mesmos que há 30 anos garantiam ser impossível haver estados de direito na América Latina e há 20 anos juravam que o sistema democrático jamais vingaria na Europa de Leste.

Os mesmos, sempre os mesmos. Clamam desde o século passado contra o atraso endémico do País enquanto interpretam a evolução do mundo com a argúcia de um camião TIR em marcha-atrás.

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Comissão de Serviço VI

por Fernando Sousa, em 25.02.11

ORDEM PARA QUEIMAR

 

Habituada ao ritmo da guerra, a cidade não soube onde pôr as mãos quando ela acabou. A paz não passou de uma notícia nem mereceu um brinde.

Antes não havia dia sem saídas para o mato, colunas de camiões cheios de soldados, ainda compostos e de barba feita, ou sem regressos de contingentes rendidos, meio-despidos e de rostos cinzentos, cansados e esfomeados.

O frenesi guerreiro tinha acabado.

Companhias inteiras espalhavam-se agora ociosas pelas esplanadas, jogavam às cartas e ao futebol, bebiam sem limite, armavam pancadarias; iam às amigas no bairro do aeroporto ou levavam-nas para as suas vivendas, de quartos vazios e paredes vermelhas, iluminados por  luzes desmaiadas, para longas noites de tudo, álcool e suruma.   

No Cinema Militar passavam filmes e sessões do MFA.

Os indianos com mais pressa em sair do território facturavam febrilmente.

A mim mandaram-me para o DRM, onde me deram seis homens, incluindo um civil, Ali, e uma tarefa muito especial: passar milhares de processos individuais a pente fino, separar os da metrópole e queimar os do contingente local.

Durante meses, reduziria milhares de nomes, datas, castigos, feitos heróicos e distinções, várias por lealdade e mérito, a cinzas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

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Convidada: CATARINA REIS DA FONSECA

por Pedro Correia, em 25.02.11

  

'Changement': do branco ao negro

 

Haja a leve suspeita de que possa ser minimamente mainstream e lá vêm todos os argumentos possíveis e imaginários dos gurus do cinema para o carimbar com a palavra  "mau".

Há algumas coisas que podem não fazer muito sentido em Black Swan, como a associação entre questões sexuais ("go home and touch yourself") a um lado negro da personalidade de Nina ou certas cenas com demasiado sangue à mistura. Mas Black Swan é só isso? E o contraste perfeito das cores?  O confronto permanente entre branco e negro? O bem e o mal, a sanidade e a loucura, a lucidez e a alucinação, a racionalidade e a obsessão. A obsessão existe na vida real. Aronofsky não a inventou, lamento. 

Li algures na blogosfera que "as feridas nos dedos dos pés" estão entre as coisas de arrepiar deste filme. E como são então os pés de uma bailarina profissional? Não sangram, não têm feridas de arrepiar? Várias bailarinas profissionais já comentaram o filme. Dizem que o nível de competição não chega a este extremo, mas também não negam a exigência, o sangue nos dedos, as dietas infindáveis, o sofrimento necessário para que tudo pareça, aos olhos do público, simples, fácil e indolor.

 

 

E Natalie Portman não convence? Chamemos então a prima ballerina da New York City Ballet, essa com certeza convencerá, só não é actriz. É Portman em pontas na cena final do filme. É Portman em pontas em tantas outras e parece-me credível. Se não convence, chamemos a prima ballerina então, ela convencerá e dispensamos Portman e a duplo que fez as cenas mais complicadas. Teremos de passar a dispensar muitos outros actores sendo assim.

O filme choca, não é leve, não é só o drama de uma bailarina que quer ser perfeita. É o problema psicológico de uma bailarina jovem, obcecada, com alucinações, que se auto-mutila, que se auto-mutilava já antes de ter sido nomeada bailarina principal n' O Lago dos Cisnes. Com certeza que nunca ninguém ouviu falar de auto-mutilição. Que horror, vamos guardar isso para os filmes de terror porque nestes podemos ferir susceptibilidades.

Parece-me algo impossível classificar um filme como mau, ou muito mau, quando estamos a respirar de alívio na altura em que os créditos começam a passar. Um filme mau não  faz respirar de alívio, não deixa ninguém a pensar sobre ele nos dois ou três dias seguintes, não faz tentar perceber qual a distância que separa a realidade da alucinação. Pode não ser uma obra-prima é certo, longe disso, mas como mera espectadora (porque de especialista em cinema não tenho nada) acho que não merece, de todo, o desprezo que tenho lido em algumas críticas.

E já que vim ao Delito falar sobre o que não sei, correndo o risco de ser contrariada com argumentos cinematográficos de peso, com referências aos grandes clássicos ou a realizadores do cinema mudo francês, aproveito para sair sem fazer muito barulho, não esquecendo a devida vénia a "Sua Majestade", Colin Firth, pelo seu "discurso".

 

Catarina Reis da Fonseca

 

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Da rua

por Adolfo Mesquita Nunes, em 25.02.11

Não estou, nem de perto, entre aqueles que evitam a esperança do que se passa no mundo árabe nos dias que correm. Mas se há caminho que não percorro, nem aqui nem noutros casos, é na leitura unívoca da rua. As manifestações espontâneas de rua abarcam milhares ou milhões de vontades, muitas delas incompatíveis e não é possível dar-lhes uma única orientação. Aliás, momentos como este, se acaso se eternizam, derivam sempre em ditadura, porque um Estado não consegue cristalizar permanentemente essas reivindicações, e estas quando se colam a um regime, morrem, confundindo-se com ele perdendo a sua razão de ser. 

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A imparável revolta no mundo árabe

por Pedro Correia, em 25.02.11

«Radical Islamists have long been the Arab world's presumed revolutionaries, but these fights do not belong to them. In a region that had rotted under repression, a young generation has suddenly found its voice. Pushing ahead of their elders, they have become intoxicated with the possibility of change. As with Europe's triumphant overthrow of communismo in 1989, or even its failed revolutions of 1848, upheaval on such a scale can transform societies.»

Editorial da Economist

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"Querido Muammar, sé que estás pasando por las dificultades que te está creando una contrarrevolución que no has liquidado. Error mayor. Yo te lo recalqué, cuando en Margarita te entregué la réplica de la Espada de Bolívar que camina por la América Latina, para que la pusieras a lo mismo por allá. Y te dije: no olvides que tu revolución como la mía dependen de nosotros y que el imperio y aliados andan buscando cómo acabarnos por la vía del magnicidio o el golpe de Estado. Te advertí que tenías que ponerte pila y copiarte de mí la idea de mantener un aparato supuestamente democrático que te librara de la acusación de dictadores como Ben Alí o Mubarak. Yo, desde un inicio, me hice pasar por un demócrata que venía a introducir cambios en una situación de grave crisis. Y así me gané al reformismo. Pero yo iba por el cambio del sistema y con esto me embolsillé a los radicales. Y sin mayores aspavientos, gané espacios y hoy soy materialmente el dueño de quienes algunos por ahí califican de expaís. (…) De modo que nadie me puede acusar de dictador, porque además, siempre he ganado con la ayuda de las negociaciones adelantadas con "las oposiciones". Por eso hoy avanzamos tranquilos hacia la construcción de un socialismo cada vez más profundo, concreto y trascendente. ¡Eh! Y no olvides, hermano Muammar, que sólo la revolución paga dividendos. En un inicio sabíamos que el socialismo sólo lo puede imponer la dictadura del proletariado, si lo hay. Pero nosotros superamos a Marx y a Engels y demostramos que unos golpistas militaristas revolucionarios como nosotros, podían convertirse en una vanguardia que está y seguirá vigente. Por eso yo metí a socialistas a todos mis compañeros militares. Y a eso le sumé mis otros tarifados en misiones, consejos comunales, cooperativas, milicias, comunas. Y si alguien se me alza le aplico la fuerza del Estado para controlarlo. Así tengo asegurado mi mando-poder hasta que me dé la gana por la vía del fraude-trampa, la compra-venta de votos y el quiquirigüiqui que hacemos con las oposiciones.¿Eh? Por todo esto te digo que debes declararte en emergencia y liquidar la contra que está ligada al imperio y sus aliados para atacarte. No puedes dejar que las protestas tomen más cuerpo. Recuerda mi 11 de abril del 2002. Me dejé de tontería. Apliqué la violencia a tiempo y mira donde estoy. Insisto: tienes que salvar tú revolución a como dé lugar. Tú y yo somos el todo de nuestros procesos. Si morimos, se acabarían nuestras revoluciones, Fidel siempre lo dice. Tú y yo, más allá de ser presidentes, como bien lo dijiste, somos los líderes, los salvadores, los mitos, símbolos, guías de la revolución. Los gloriosos hijos de Bolívar y Fidel (…)."

 

* Excertos da carta ficcional de Chávez a Khadafi hoje publicada por Agustin Blanco Muñoz no jornal El Universal (Venezuela)

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