Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Rasgos (28)

por Ana Vidal, em 31.01.11

 

AULA DE DESENHO

 

Estou lá onde me invento e me faço:

De giz é meu traço. De aço, o papel.

Esboço uma face a régua e compasso:

É falsa. Desfaço o que fiz.

Retraço o retrato. Evoco o abstrato

Faço da sombra minha raiz.

Farta de mim, afasto-me

E constato: na arte ou na vida,

Em carne, osso, lápis ou giz

Onde estou não é sempre

E o que sou é por um triz.

 

(Maria Esther Maciel)

Imagem: Escher

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O ministro que ainda não se demitiu

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

Por uma absurda – e imperdoável – falha do sistema informático, muitos portugueses não puderam votar na eleição presidencial. O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, veio pedir desculpa. Mas se houvesse um verdadeiro escrutínio público dos governantes em Portugal, o ministro não pedia desculpa: pedia a demissão. Já decorreu uma semana e as explicações que deviam ter sido dadas com urgência vão tardando. Vai-se acentuando a convicção de que nunca se saberá ao certo quantos milhares de portugueses se viram impedidos de exercer o direito de voto, que é sagrado em democracia. Nem jamais se saberá, por maioria de razão, até que ponto este facto gravíssimo poderá ter desvirtuado os resultados eleitorais.

Longe vão os tempos em que, num Governo socialista, a culpa não morria solteira. Basta lembrar o gesto digno de Jorge Coelho, então ministro das Obras Públicas, na trágica noite em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. Aconteceu só há uma década mas parece ter ocorrido há uma eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um Sporting mais levezinho

por Rui Rocha, em 31.01.11

A notícia já é oficial. O Sporting vendeu os direitos desportivos de Liedson ao Corinthians. Do ponto de vista financeiro, é uma boa notícia para o clube leonino. Os cofres de Alvalade ficam aliviados de um ordenado que já não tinha justificação no rendimento desportivo. Por isso, mesmo que o encaixe financeiro não seja entusiasmante, deste ponto de vista o Sporting ficará sempre a ganhar. Assim, o amargo de boca que a notícia provoca não tem explicação matemática. Para os sportinguistas, a notícia é dolorosa devido às circunstâncias actuais do clube. O retrovisor passa a devolver a imagem da última grande contratação do Sporting. De um jogador que, apesar de alguns sobressaltos disciplinares, teve um desempenho claramente acima da média. É certo que essa imagem está colada a épocas sem conquistas relevantes.  Com Liedson alimentámos a esperança numa glória que nunca chegou a ser. Todavia, se nada ganhámos de relevante, sentimos em algumas ocasiões que estivemos lá muito perto. E que Liedson podia fazer acontecer. É o fim dessa proximidade que esta transferência certifica. A saída de Liedson retira-nos de campo a evidência do êxito que podia ter sido. Sendo pouca coisa, o sucesso que quase aconteceu no passado dá-nos bem mais conforto que um futuro que pode não chegar a ser.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A degradação do debate político

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

 

Na primeira sessão parlamentar que registou a presença do chefe do Governo desde a eleição presidencial, na passada sexta-feira, José Sócrates confirmou a falta de nível de que já deu mostras noutras ocasiões. Depois do 'porreiro, pá', com que brindou Durão Barroso na cimeira de Lisboa e do 'manso é a tua tia' dirigido a Francisco Louçã em São Bento, saiu-lhe agora de forma bem audível um 'Eh pá' em pleno hemiciclo.

Ouço os relatos desta sessão nos telediários e interrogo-me: como querem estes políticos ser respeitados se não se dão minimamente ao respeito?

A tentativa permanente de amesquinhar os adversários, a necessidade imperiosa que sente de mostrar que ainda é um 'animal feroz' (expressão que se lhe colou à pele e diz muito dele), a tentação contínua que revela de confundir as funções institucionais com as de comentador político, regressando aos tempos em que fez tirocínio para secretário-geral do PS num estúdio televisivo ao lado de Santana Lopes - eis características de Sócrates na Assembleia da República, sessão após sessão. Características que contribuem para degradar a qualidade do debate político em Portugal. E depois alguns destes políticos (a começar por ele) ainda se queixam de que os cidadãos andam indiferentes à política...

Andam indiferentes? Ainda bem. É um acto de cidadania mostrar indiferença e até desprezo por esta política e estes políticos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O primeiro TGV no percurso...

por João Carvalho, em 31.01.11

... Caia-Poceirão, que transporta milhares e milhares de pessoas de Madrid cheias de pressa para chegar às praias de Lisboa...

... e Poceirão-Caia, que transporta milhares e milhares de pessoas de Lisboa cheias de pressa para chegar a horas de jantar em Madrid.

 

Imagens

— Um simpático casal de veraneantes (no topo) acena

aos que chegam de Madrid

— No interior do TGV ninguém quer saber da paisagem

nem dos casais que acenam: lêem-se revistas e bebem-se

uns aperitivos, que Madrid é já ali

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Leitura recomendada

por José Gomes André, em 31.01.11

 

À "constitucionalista" Isabel Moreira, para quem "não há direitos absolutos, nem um". Pobre país, com uma elite intelectual tão desinformada...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Convidado: ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

Infortúnios da linguagem

 

Há palavras portuguesas (ou aportuguesadas) que me irritam de duplicidade, outras que me ofendem pela sua sonoridade, outras que me assinalam o seu utilizador como um perfeito cretino – e por aí fora. Não é certamente uma fatalidade nacional, mas é aqui que vivo e é aqui que as sinto activas, saltitantes, a rabear de boca em boca, de jornal em noticiário, de político em intelectual – seja lá o que esses alargadíssimos conceitos queiram abraçar.

Existem duas que se diz possuírem um significado específico mas que têm outro muito mais adequado e compreensível. Fazem parte do léxico político, mas sujeitam-se a transvases popularicados pelo jornalismo enfatuado e desnutrido e pelos seus principais attachés de presse – os analistas profissionais.

O primeiro é um vocábulo de sonoridade ofensiva e, tanto quanto julgo saber, um anglicismo recente.

Procrastinação – que, no fim de contas, é uma actividade muito próxima da auto-castração (por requisito próprio ou a mando de outrem).

Esta coisa horrorosa podia perfeitamente ser substituída de forma muito mais eficaz em termos de comunicação directa com o povo que se quer conhecedor dos seus líderes – e não exactamente escondido da realidade dos factos, esse semáforo das ditaduras – por termos que todos entendemos à primeira. Tais como o absolutamente nacional empata fodas ou mesmo pelo mais nortenho, regional e humilhante, caga na saquinha – adjectivos todos eles consequentes com o espírito da coisa.

Resolvido o problema da política empata fodas (ou caga na saquinha) e respectivas caixas de ressonância, marra-se logo na primeira esquina com a advocacial inverdade – que realmente não quer dizer aquilo que supostamente quer dizer.

Inverdade utiliza-se habitualmente como forma vagamente polida de chamar ao outro barreteiro – gajo que mete garrunços, trapaceiro, que falseia dados ou os manipula com fins ínvios ou inexplicáveis. Um mentiroso puro e simples, portanto.

Mas o que de facto acontece quando alguém recorre à macia inverdade é que no íntimo, acossado pelas acusações, apenas consegue esbracejar mentalmente um alto lá que isso não foi bem assim!... E lá sai a inverdade!...

Poupo-me a mim e aos que ainda não se fartaram de me ler de citar exemplos da flagrância oculta de tão estúpido vocábulo.

Para acabar (que já chateia), lembro um acontecimento que é feliz no seu sentido específico mas que sai cá para fora deturpado de forma exemplarmente nacional. E parva.

O episódio que me tornou a sua visibilidade insuportável gira à volta da magnífica Livraria Lello, no Porto.

Nada que já não tivesse sido constatado pelas mais variadas publicações: a Lello foi considerada pela editora australiana Lonely Planet como a terceira mais bela do mundo.

No entanto muitos jornais, noticiários e edições on-line fizeram as suas chamadas à primeira página, em alegre e levíssimo disparate, afirmando que a livraria portuense tinha sido considerada como a terceira melhor do mundo. Depois, no miolo, a verdade vinha ao de cima como o velhíssimo azeite. Logicamente.

A única coisa que então me apeteceu fazer quando vi isto – na SIC-Notícias, por exemplo, mas também em jornais ditos de referência – foi escrever aos editores todos de Portugal a dizer-lhes que este país nunca em dias da vida poderá ter a terceira melhor livraria do mundo porque as cem primeiras estão e vão continuar a estar em cidades muito concretas que toda a gente sabe, incluindo eles, quais são.

Não lhes escrevi porque para eles não lhes basta a Lello ser belíssima.

Porque são burros e pretensiosos.

 

António Eça de Queiroz

Autoria e outros dados (tags, etc)

Barry, John Barry

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

"The thing about John that I will always remember was he never changed."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para variar

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

De vez em quando, uma boa notícia

Autoria e outros dados (tags, etc)

O estado de desenvolvimento de uma democracia deve ser aferido a propósito de situações concretas. As anomalias no processo eleitoral são uma boa oportunidade para testar a nossa realidade democrática através  de indicadores como:

utilidade dos inquéritos - numa democracia madura os inquéritos fazem-se para determinar aspectos a corrigir e a melhorar. Numa democracia incipiente, os inquéritos permitem diferir as decisões no tempo e diluir os factos em insondáveis meandros técnicos, com o evidente propósito de branquear as situações.

entendimento sobre o conteúdo da responsabilidade política - numa democracia meramente formal, os decisores políticos utilizam os inquéritos e as questões técnicas para se eximirem das suas responsabilidades políticas. Numa democracia avançada, os decisores políticos lançam inquéritos e, ao mesmo tempo, avaliam as consequências e a gravidade dos factos ocorridos, não fazendo depender a responsabilidade política das conclusões dos inquéritos.

valor do discurso desculpabilizante -  em qualquer democracia, a liberdade de expressão reconhecida aos cidadãos permite-lhes proferir as maiores barbaridades. Num regime democrático, pode dizer-se que os eleitores não votaram em 23 de Janeiro por falta de pachorra. E pode referir-se ainda que na década de 70 do século passado as filas para votar eram de horas. Ou ainda que as pessoas não reclamam quando esperam para comprar bilhete para um concerto dos U2 ou para ir de férias ao Brasil. O que distingue uma democracia avançada é o valor reconhecido a este discurso. Que é, em rigor, nenhum. Pois a sua consequência é a completa falta de exigência da sociedade face a quem gere a coisa pública. Colocar o discurso na comparação com o que acontecia há trinta e tal anos ou com decisões individuais mais ou menos sensatas partilha com a batata da mesma lógica. A coisa e os processos públicos são nossos. Devemos exigir que corram bem. Sob pena de termos que admitir calados que a má gestão pública imponha, a cada ano, um aumento de impostos ou um corte de salários. A diferença está em que, numa democracia avançada, o discurso desculpabilizante pode ser proferido. Mas, a falta de pachorra para o aturar é tal que, apesar de não existir censura, só os tontos encontram topete para o fazer. O que, em rigor, os define.

A forma como o processo começou não permite já obter uma aprovação com distinção. O inquérito da Universidade do Minho é útil para prevenir acontecimentos idênticos no futuro. Infelizmente, chego à conclusão que deveriam ter sido solicitados mais dois estudos. Um sobre o sentido da responsabilidade política e outro sobre a exigência de rigor na coisa pública. Espero que, à falta destes dois instrumentos, não cheguemos a resultados completamente medíocres.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.01.11

A passadeira vai desenrolar-se para recebermos hoje, com todo o gosto, o António Eça de Queiroz. Do blogue É Tudo Gente Morta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 31.01.11
  
  
«Sou sócia há 25 anos, era criança quando o Sporting começou o jejum de 17 anos e há de facto algumas semelhanças entre esse período e a actualidade. Desde logo, a falta de competitividade do futebol. Este está no ponto mais baixo dos últimos 25 anos, sem dúvida. O mais aflitivo é a diferença de potencial financeiro do plantel. Os rivais vendem jogadores por 20 ou 25 milhões de euros e nós neste momento não conseguimos vender um único jogador nem por 5 milhões de euros! Assim é impossível ser competitivo. Se este ciclo não for invertido, vamos estar muito mais anos sem ganhar o campeonato. Depois, há também um vazio de liderança. O Sporting há muito que não tem um presidente à altura da sua grandeza e prestígio.

Mas o problema não é só os dirigentes. Acrescento:

- Falta de cultura desportiva. Não se apoia os atletas do clube, nem se respeitam os mesmos e a equipa técnica. Os sportinguistas em geral não proporcionam um ambiente fervoroso em favor do clube, nem intimidativo para o adversário, a não ser em jogos grandes, especialmente contra o Benfica, em que até ao maior "queque" salta a tampa.


- Falta de cultura competitiva. Há adeptos para quem está sempre tudo bem. Tanto faz ganhar 2-0 como perder 5-0, aplaude-se na mesma. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
- Uma "nova" geração de adeptos que está "viciada" na internet, e que é imediatista, intolerante e não sabe dar o valor a nada. É tudo "fácil" e a estrutura do Sporting tem sempre todos os defeitos. Quem escreve num blogue (sem desrespeito para o Delito de Opinião), no facebook, ou noutra coisa qualquer, é que "sabe".
- A oposição profissional. Gente oportunista e irresponsável, que nunca aceita o resultado das eleições, e que se serve da desestabilização que os nossos adversários criam contra o Sporting para os seus propósitos de atingir o poder no clube a todo o custo. São também responsáveis pelos inêxitos no futebol, porque contribuem para criar um ambiente difícil que inferioriza o Sporting na sua casa.
- A Juventude Leonina. Aqueles "rapazinhos", alguns já quase com idade para ser avós, precisam de ser postos na ordem. Claque apoia, não interfere na gestão.

Temos de mudar, de alto a baixo, porque assim não somos um clube talhado para ganhar com regularidade.»
 
Da nossa leitora Vera. A propósito deste texto do Filipe Moura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (396)

por Pedro Correia, em 31.01.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ligação directa

por Pedro Correia, em 31.01.11

A Ronda dos Dias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

[Só para gente sem sono às 05h00]

por Fernando Sousa, em 30.01.11

 

Alguns reféns mais poderão ser libertados nas próximas horas na Colômbia mas isso não vem em lado nenhum. Depois de Ingrid e Clara a coisa já não dá pica. E de repente lembro-me da mais memorável das madrugadas que passei lá fora, na Rádio Caracol, no programa Las voces del secuestro. Uma noite impressionante. Miúdos e mulheres a mandarem de um estúdio de Bogotá horas de beijos sabiam lá para onde! A ideia partiu de Herbín Hoyos, jornalista, antigo refém e um audaz encantador de serpientes. É feito por profissionais voluntários, depois das suas horas de trabalho e sem remuneração, todos os domingos, da meia-noite (05h00 em Lisboa) às 06h00. Isto desde 1994. Tudo o que querem é levar as vozes de miúdos e mulheres a pais, irmãos ou maridos nas mãos dos grupos armados. Mas tudo isto, claro, para quem não tiver sono daqui a pouco...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Psst, com licença...

por Ana Vidal, em 30.01.11

Ao jornalista da SIC N que pergunta ao mui douto Rui Santos se "acha normal uma atitude tão irritada de Jesus", em vez do interminável arrazoado do filósofo do esférico - que o deixou exausto e baralhado - respondo eu, de uma maneira muito mais simples: Claro que sim, homem! Já não se lembra do que aconteceu com os vendilhões do Templo?

 

Ó p'ra mim a falar de futebol!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temos os melhores professores

por João Carvalho, em 30.01.11

Acabámos de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa prestar uma homenagem aos professores que o primeiro-ministro e a ministra da Educação não tiveram o cuidado — e até a lisura — de fazer em devido tempo. Embandeiraram em arco sobre a qualidade do ensino e a melhoria de qualidade dos alunos portugueses na avaliação apresentada pelo badalado Relatório PISA (Programme for International Student Assessment), mas esqueceram-se (?) de dar conta de outro dado focado no documento: os professores portugueses são os docentes mais cotados pelos alunos nos vários parâmetros considerados, entre os 33 países avaliados para aquele relatório.

É com gosto que aqui contribuímos para este este gesto de justiça a que assistimos agora. O primeiro-ministro e a ministra da tutela podem limpar as mãos à parede com o mau papel que quiseram assumir, mas é possível que, mesmo tarde, o DELITO ajude a ampliar aquilo que é devido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até tu, Isabel?!

por Laura Ramos, em 30.01.11

Leiam e pasmem, como eu pasmei.

(Sra. Ministra: - Eu também quero! Também eu tenho um curso destes, conferido pela vetusta Universidade da Pensilvânia. Também eu fui 'raised in' Philadelphia. É que ou há moralidade... ups, pois... já me esquecia: disso é que já não há!)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Allende suicidou-se, e pronto!

por Fernando Sousa, em 30.01.11

 

Allende suicidou-se, e pronto. Qualquer que seja o resultado das investigações do juiz Mario Corrazo, nada alterará isso. Primeiro pelo peso das declarações da única testemunha da morte, um dos seus médicos pessoais, segundo porque as verdades que acompanham os mitos são, por natureza, indestrutíveis, terceiro porque, mesmo que se provasse que fora morto pelos prussianos que assaltaram La Moneda, a justiça chilena, demasiado pútrida, jamais encontraria os culpados, se os encontrasse nunca os processaria, se os processasse nunca os julgaria, se os julgasse nunca condenaria, e se os condenasse eles jamais cumpririam qualquer pena. Estamos portanto perante um caso encerrado antes de aberto – aliás aberto só por o nome do antigo Presidente constar na lista dos mais de 700 casos nunca investigados. O que está a acontecer é apenas uma performance político-jurídica. Allende suicidou-se porque tinha jurado que nunca aceitaria o exílio e que só abandonaria o cargo, para que fora livremente eleito pelos chilenos, com os pés para a frente – que foi o que aconteceu, no dia 11 de Setembro de 1973, pelo 80 da Morandé, a modesta porta de serviço do palácio por onde entrava e saía sempre. De qualquer modo se não se tivesse suicidado teria sido morto, leia-se neste sentido a Interferencia Secreta, de Patricia Verdugo, ou ouça-se o registo rádio da conspiração. Mas admitindo, por absurdo, que se descobriria que fora morto, à performance seguir-se-ia o teatro. O que é a justiça chilena, está bem ilustrado no Livro Negro da Justiça Chilena, de Alejandra Matus – que aliás teve de se exilar para não sofrer algum inesperado acidente. Ela não é toda igual, evidentemente, tem pessoas como Hugo Gutiérrez, o juiz Tapia, o próprio Corrazo, um juiz com provas dadas, e outros. Mas é só um pequeno grupo de gente asseada contra um esquema sujo, para mais agora com o poder ocupado pela mesma direita que há anos tenta branquear as atrocidades do regime militar e fazer dos tribunais, magistrados e leis uma paródia. Allende suicidou-se, e pronto. Viu-o Patricio Guijón; assegura-o outro dos seus médicos, Óscar Soto Guzmán, no livro El Último dia de Salvador Allende e nas declarações que voltou a fazer; garante-o Isabel Allende, numa entrevista que me deu, em 1998, em Santiago, e noutras; afirmou-o a antiga secretária, Miria Payitas; declarou-o Carlos Altamirano; reconheceu-o até Patrício Aylwin, mesmo da forma no mínimo despudorada que usou: “El suicidio de Allende podría explicarse por el curso frívolo y de autoengrandecimiento en el que se había embarcado el Presidente”. Esperemos então pela confirmação do suicídio. A justiça de que a justiça chilena é capaz, para não falar de como deixou escapar Pinochet, está aí, na maneira como está a tratar os assassinos de Victor Jara, um dos primeiros a cair nos primeiros dias do golpe, a mesma que afagou, como afagou, os que mataram Jécar Neghme, o último a ser abatido, por militares que agora andam tão libres como a pomba Libre da canção de Nino Bravo, nos últimos da ditadura. Salvador Allende suicidou-se, e pronto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Grandes momentos de reportagem

por João Carvalho, em 30.01.11

1. As reportagens (da SIC e não só) no aeroporto da nossa capital a quem regressa apressada e assustadamente do Egipto incluem uma pergunta que parece ter-se tornado obrigatória: "O que é que sente agora em Lisboa?" A pergunta, insistente à exaustão, é tão inteligente que me cai o queixo de espanto.

 

2. Sobre reportagens, é caso para não deixar passar em branco a presença do Enterprise ancorado no Tejo. Vi na SIC-N a reportagem do Mário Crespo feita no interior do monstro de guerra norte-americano, um trabalho que achei à altura do que seria de esperar. Já com o que vi na RTP passei-me todo.

 

2.a) O melhor que um repórter e uma câmara da estação pública fizeram foi ir à margem do rio mostrar o porta-aviões lá ao fundo (que o esforço do zoom deixou a ideia de que tanto podia ser uma traineira como um cacilheiro) e — surpresa das surpresas — pôr-nos a ouvir a populaça que encontraram no local, desde o miúdo com binóculos a dizer que o navio é "um bocado grande" à mulher de meia-idade a explicar que "é grande mas não fico admirada, já vi tanto na vida", passando pelo pescador que lançava a cana à água e respondia que "não, ele não me estraga a pesca que isto também já não dá nada". Como devem ter reparado, o repórter da RTP só abordou o pescador para tentar encontrar um culpado, que a vida é mesmo assim: com peixe ou sem peixe, o jornalismo precisa desesperadamente de um Bibi responsável pela fuga do chicharro. Pois se o homem, coitado, estava ali a esforçar-se tanto e nem conseguira apanhar uma lata de atum, não é verdade?

 

2.b) Curiosamente (ou não), entre tantos detalhes debitados e papagueados repetidamente como se fosse um guião, não ouvi falar no incêndio a bordo ocorrido no Havai, há 42 anos, nem que este é o oitavo Enterprise dos EUA, etc., etc. pardais-ao-ninho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Decorreu hoje a Comissão Nacional do PS. Entre outros assuntos, foram analisadas as consequências das eleições presidenciais. O porta-voz Fernando Medina esclareceu os portugueses nos seguintes termos:

Fernando Medina 1 - o PS viu na vitória de Cavaco "a leitura de que há um forte sentimento de estabilidade política na sociedade portuguesa", que é também um desejo de estabilidade política ao nível do Governo".

Fernando Medina 2 -  A derrota de Alegre não pode ser entendida como uma derrota do PS, porque "são eleições unipessoais" e "qualquer leitura de extrapolação para eleições legislativas é abusiva".

Se bem vejo, as leituras são então unipessoais no que diz respeito à derrota e extrapoláveis em relação a tudo o que vá de encontro aos interesses do PS e do Governo. É assim, não é? Tudo isto dito, com total naturalidade, em menos de 20 segundos. Ficamos todos mais esclarecidos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da Semana

por Laura Ramos, em 30.01.11

 

Esta semana a responsabilidade é minha. E escolho o Ângulo Morto.

 

Vou confessar-vos: tenho simpatia por blogues pouco assíduos.

Compreendo a tentação, seguida da armadilha do tempo que não estica e – precisamente – não contemporiza connosco.

Trata-se de um sítio fresco e luminoso que visito há muito (que não muitas vezes, et pour cause).

O autor, solista (e não sulista), trânsfuga amigável do Mar Salgado, é um veterano da blogosfera que, na substância, está mais do lado do gosto oficial do que propriamente do meu.

Mas isso é o que menos interessa.

 

Para que me percebam, deixo-vos esta peça deliciosa:

 

«Dá-se uma volta por aí, por todo o lado onde se publica opinião, e a conclusão é assustadora: somos agora 10 milhões de Vascos Pulidos Valentes. (...)
Ninguém sabe o que fazer, mas todos têm a certeza de que o que se faz e o que se pretende fazer é risível.

Cada português sofre de uma aflição profunda: à sua volta vê apenas burros, incompetentes e oportunistas.

Está inexoravelmente sozinho e, assim, não vale a pena.

Se ao menos mais alguém se desse conta disto.»

 

Indeed: some boys tend to act like queens.

 

Espero que gostem da visita guiada de hoje.

E tenham um bom domingo, com este sol glorioso...

Let's be weather's kings for a day!

 

Adenda: E não percam as músicas «no prato», como pude eu esquecer-me desse detalhe essencial...


Autoria e outros dados (tags, etc)

A intervenção, pela Deolinda

por Ana Margarida Craveiro, em 30.01.11

 

Roubo descaradamente a letra ao Aventar (obrigada!):

 

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!


Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ter ou não ter pachorra

por Ana Sofia Couto, em 30.01.11

Ninguém foi impedido de votar. Os eleitores não tiveram pachorra para esperar.

João Soares, no programa "A Torto e a Direito", ontem à noite.

Autoria e outros dados (tags, etc)

À espera de resposta urgente

por Pedro Correia, em 30.01.11

"Enquanto eleitora, exijo saber quantas pessoas foram impedidas de votar. Porque enquanto esse número não me for revelado nunca poderei acreditar verdadeiramente no resultado eleitoral que me foi apresentado. Questionarei sempre se poderia ter havido uma segunda volta. Questionarei sempre o meu presidente da República."

Nada mais certo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Se não beber... (17)

por João Carvalho, em 30.01.11

... tente conduzir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Heróis da BD (91)

por Pedro Correia, em 30.01.11

 

 

 

 

Conan, de Robert E. Howard

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Multilateralismo sem músculo

por Paulo Gorjão, em 30.01.11

Se alguém me perguntasse no princípio de Dezembro se acreditava que Laurent Gbagbo ainda estaria no poder na Costa do Marfim em Fevereiro, teria dito que era possível, não sei se era provável, mas que a sua situação seria precária. Em retrospectiva, não me teria enganado quanto à sua precariedade, embora a actual situação se possa arrastar por muito tempo, porventura durante meses e até anos. O que me surpreendeu no último mês e meio foram os resultados desta crise na CEDEAO e na União Africana (UA). Uma e outra inicialmente assumiram posições determinadas e muito veementes, não admitindo negociar e exigindo o afastamento imediato de Gbagbo, nem que para isso se tivesse de recorrer ao uso da força. Dois meses depois das eleições de 28 de Novembro, mais do que fazer prevalecer os resultados das eleições na Costa do Marfim, uma e outra procuram evitar que a crise não as contamine, abrindo fissuras difíceis de sarar. Quem diria, em retrospectiva, que a retórica e as posições públicas assumidas nos primeiros dias de Dezembro, dariam lugar no final de Janeiro a um exercício de controlo de danos muito para além da situação na Costa do Marfim. A realpolitik africana a isso obriga.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tão estúpida, a morte

por Ana Vidal, em 30.01.11

Há três categorias de homens:

os que contam a sua história,

os que não a contam,

e os que não a têm


(Max Aub)


O Zé Pedro tinha uma história. Uma história espantosa, quase inacreditável. E contou-a. Num livro que, espero, venha a ser publicado em breve.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perguntemos, então

por João Campos, em 30.01.11

Já que Vital Moreira dá o mote, continuemos. Pergunta o eurodeputado, e bem, para que serve a inutilidade do número de eleitor hoje em dia; e eu pergunto, se me permitem: para que serve o número de contribuinte, o número de utente e o número da segurança social hoje em dia, se um único número, o de identificação (o do BI) seria suficiente por ser, enfim, único? É que ao contrário do que pensam muitas cabeças socráticas e simplexes, fazer um cartão que agrega cinco (quatro?) números diferentes não reduz a burocracia - apenas acrescenta mais uma camada de burocracia, a tal da simplificação (palmas para a ironia). Verdadeira simplificação seria acabar com a carrada de números únicos que existem, e juntar tudo num só. Até ser dado esse passo - se algum dia for dado, e duvido que seja -, tudo o resto são tretas para português ver.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções do século (395)

por Pedro Correia, em 30.01.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 29.01.11

1. Lutz Brückelmann de regresso à blogosfera. Continuando Quase em Português.

2. Quatro anos de vida: muitos parabéns à Menina Limão.

3. Pode ser-se Gira aos Quarenta. E mais um.

4. Plano de Cuidados: sobre saúde e não só.

5. Selva Urbana - o blogue do António Mateus.

6. E que tal navegar nas Ilhas Selvagens?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

EdF, nova unidade de medida

por Ana Vidal, em 29.01.11

Não é a primeira nem a centésima vez - e não será certamente a última - que ouço quantificar a área de qualquer coisa em estádios de futebol. Acabo de saber, por um solícito repórter da SIC N, que o novo hospital de Braga terá o tamanho de treze estádios de futebol. Ainda não estou bem familiarizada com esta nova unidade de medida nacional, mas presumo que isto queira dizer "grande".

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Manuel Salgado, vereador do urbanismo de Lisboa, fez o mundo saber que o Qatar manifestou "receptividade positiva" à compra de terrenos em Lisboa proposta pela edilidade de que António Costa é Presidente. Menos mal. Imagine-se que a receptividade tinha sido negativa ou, por absurdo, neutra. De uma carga de trabalhos já ninguém nos livrava. A demonstrar, todavia, que uma desgraça nunca vem só, eis que o expedito jornalista que redigiu a notícia do Jornal de Negócios situou o receptivo e positivo Qatar nada mais, nada menos, que em África. E, como (bem se diz) não há duas sem três, Manuel Salgado revelou  ainda que "foi efectivamente afirmado pelos responsáveis da empresa estatal que contactámos, que tinham interesse em investimentos que fossem emblemáticos aqui na zona ribeirinha de Lisboa”. Digo eu que o negócio tem pernas para andar, uma vez que o objectivo do vereador  é vender pequenos terrenos nas zonas de Benfica e de Entrecampos. Essas mesmas pernas que a freguesia de Benfica vai ter que usar para se deslocar para junto do Tejo. Santa Maria de Belém, Alcântara e Prazeres que se ponham à tabela. Depois de tudo isto, temo que os países da Europa que a notícia afirma estarem a ser contactados pela autarquia com idêntico objectivo possam  situar-se algures entre o México e o Chile. O leitor, ainda com a boca aberta de incontido espanto, pode apreciar tudo isto e muito mais rigorosamente aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Carnaval é todos os dias

por Paulo Gorjão, em 29.01.11

Hoje ficámos a saber que Augusto Santos Silva "teve a honra e o orgulho de trabalhar" com Aníbal Cavaco Silva. Mais. Ficámos igualmente a saber que "o Governo sempre teve as melhores relações" com o Presidente da República. Perante tal descrição idílica -- o leitor por esta altura já deve estar a escutar o chilrear dos passarinhos e lá ao fundo o som de uma cascata --, confesso que não percebo as preocupações expressas recentemente pelo mesmo Augusto Santos Silva, apontando claramente para um Presidente com quem seguramente não seria um orgulho trabalhar e com quem não se teria as melhores relações. Até a hipocrisia deve ser exercida com limites. Se outra razão não existisse, por motivos de eficácia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Europa e os Estados Unidos gostam de afirmar-se campeões da democracia. Trata-se, todavia, de uma proclamação com validade limitada no espaço. A mesma voz que enaltece os valores da liberdade ocidental tem apoiado velhos regimes autocráticos instalados na margem sul do Mediterrâneo. A submissão das massas populares dos países em causa facilitou, ao longo dos anos, a permanência dessa contradição, permitindo um silêncio complacente nas intervenções públicas sobre o assunto. Com a relação entre Israel e a Palestina a dominar a agenda americana e a Europa sempre incapaz de se articular em torno de uma diplomacia coerente, a democratização dos regimes do sul da bacia mediterrânica podia e devia esperar. Pelo meio, admite-se, alguma pressão diplomática inconsequente, em surdina, no aconchego dos gabinetes. A faísca tunisina veio, no entanto, alterar o estado de adormecimento dos povos vizinhos de tal forma que a questão já não será qual o próximo regime a abanar (ou a cair), mas qual dos regimes autocráticos ou militarizados da região será capaz de sobreviver. Perante a crise egípcia, que parece caminhar resolutamente para o precipício de um banho de sangue, a Europa vai sussurrando a várias vozes uma cantilena imperceptível. A administração americana, por seu lado, opta ainda por uma posição ambígua de apelo à implementação de reformas como contrapartida para estancar a violência. Obama devia saber que a vertigem revolucionária no Egipto não tem ouvidos para ecos longínquos e que as únicas vozes que têm uma remota possibilidade de ser ouvidas são as transmitidas pela Al-Jazeera. E que mesmo em relação a estas é duvidoso que se consigam sobrepor aos gritos que circulam nas redes sociais das mil e uma noites dos jovens egípcios. São estes que já não se contentam com medidas pontuais como subsídios ao preço dos cereais ou com a substituição de um governo para que tudo fique na mesma. O jogo que se iniciou nas ruas de Tunis e que agora se disputa nas do Cairo é um mata-mata. Ou morre o regime (agora ou mais logo) ou morrem milhares nas esquinas da revolução. Por uma vez, a diplomacia ocidental, acostumada aos interesses dúbios, à ambiguidade e à duplicidade, vai ter que tomar partido. Ou está do lado do esmagamento da rebelião pelos actuais detentores do poder no Egipto e nos estados que se seguirem no dominó da revolução, ou está do lado oposto. As meias tintas não são, neste caso, terra de ninguém. Pelo contrário, são o exacto local onde está o pasto que pode alimentar o incêndio do fundamentalismo islâmico. E as colunas de fumo que se levantam dos subúrbios do Cairo são o sinal evidente de que o tempo para decidir é, nem mais nem menos, o que resta até ao jovem militar Samir premir o gatilho da arma que tem apontada a Khalil, o não menos jovem universitário que, empurrado pelo twitter, acabou de chegar a uma avenida do centro do Cairo para lutar pela liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Passos Coelho no Conselho de Estado?

por Paulo Gorjão, em 29.01.11

António Capucho afirma que faria sentido Pedro Passos Coelho ter lugar no Conselho de Estado (DN, 29.1.2011: 15). Talvez faça sentido, mas não me parece imprescindível. Em todo o caso, convém lembrar -- caso seja necessário -- que o lugar não é de Capucho e que ele não o pode 'entregar' ou oferecer a quem ele quiser. Nem me parece que as suas declarações públicas, que parecem querer condicionar as escolhas do Parlamento e/ou do Presidente da República, sejam um contributo eficaz. Acresce que, estando Aníbal Cavaco Silva a poucas semanas de iniciar um novo mandato presidencial, os cinco escolhidos pelo Parlamento e pelo Presidente da República no mandato que agora está a terminar não transitam automaticamente para o mandato seguinte. Na prática, se Passos Coelho quiser estará no Conselho de Estado muito em breve. Com ou sem o lugar 'entregue' por Capucho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fast feelings

por Teresa Ribeiro, em 29.01.11

- Já soubeste?

- Claro, já toda a gente sabe.

- Que horror!

- Estou em choque.

- Quantos anos é que ele tinha?

- Acho que ainda não tinha feito 40.

- Diz que foi morte imediata.

- Antes assim, coitado.

- Desde que soube, ontem à noite, que ele não me sai da cabeça.

- Também. Nem dormi como deve ser.

- Afinal, pelas minhas contas, convivemos diariamente durante mais de dez anos.

- Tinha família?

- Acho que sim, um ou dois filhos.

- Por acaso tinha ideia de que vivia sozinho.

- Pois, acho que sim. Acho que estava separado.

- Coitado.

- Não consigo olhar para aquela secretária vazia.

- Nem eu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como sobreviver longe da política

por Pedro Correia, em 29.01.11

 

Há poucos dias, Jimmy Carter festejou uma efeméride muito pessoal: tornou-se o segundo ex-presidente dos Estados Unidos com maior longevidade desde que cessou funções na Casa Branca. Foi a 20 de Janeiro de 1981 que o democrata Carter passou o testemunho ao republicano Ronald Reagan, tornando-se naquilo que vários analistas, não sem ironia, o vêm classificando nos anos mais recentes: o melhor ex-presidente norte-americano de sempre – um título de algum modo confirmado pela atribuição, em 2002, do Prémio Nobel da Paz devido às suas acções de cariz humanitário em alguns dos mais atribulados cenários do globo.

Carter, hoje com 86 anos, só se vê ultrapassado em longevidade pós-presidencial pelo republicano Herbert Hoover, que ocupou a Casa Branca entre 1929 e 1933, tendo sido copiosamente derrotado neste último ano por Franklin Roosevelt. Foi, diga-se a verdade, um dos presidentes mais azarados da história dos EUA: estava há sete meses em funções quando a Bolsa de Nova Iorque entrou em colapso, dando início à Grande Depressão. Incurável optimista, prometeu sucessivas vezes aos americanos que os tiraria da crise – e viu sempre estas promessas frustradas. Mas, tal como Carter (que apenas permaneceu um mandato na Casa Branca e foi derrotado por Reagan na eleição de 1980), Hoover foi um dos melhores ex-presidentes americanos. Desempenhou diversas missões internacionais, colaborou com o presidente Harry Truman apesar de se tratar de um notório adversário político e manteve grande protagonismo nas convenções do Partido Republicano – a última das quais em 1960. Já antes de ascender à presidência, no início da década de 20, se distinguira ao liderar uma campanha humanitária nos EUA para envio de víveres destinados à Rússia soviética. Morreu em 1964, aos 90 anos – 31 anos após abandonar a presidência.

O terceiro chefe do Executivo norte-americano que viveu mais tempo depois de deixar a Casa Branca foi outro republicano, Gerald Ford (presidente entre 1974 e 1977). Morreu em Dezembro de 2006, aos 93 anos – a escassas semanas de completar três décadas como ex-presidente. Também ele, curiosamente, deixou a Casa Branca na sequência de uma derrota eleitoral (contra Carter, em 1976). Ter azar na vida política prolonga a vida biológica? Se não é, parece.

 

Imagem: Carter e Reagan no debate da campanha de 1980, ganho pelo republicano

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Frases de 2011 (3)

por Pedro Correia, em 29.01.11

«Esta caneta que uso foi-me oferecida. Mas não sei dizer quem ma deu.»

Jorge Sampaio

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

As canções do século (394)

por Pedro Correia, em 29.01.11

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os filmes da minha vida (27)

por Pedro Correia, em 28.01.11

  

UMA ESTRELA FORA DO SEU TEMPO

 

Há certas actrizes que nos parecem deslocadas da sua época. Senti sempre que era esse o problema com Susannah York. Esta inglesa nasceu para o cinema numa altura em que as deusas do celulóide eram vistas como uma relíquia do passado. Naquela década de 60, interessava “desmistificar” a mulher, torná-la “igual” aos homens, "libertá-la" de toda a encenação e todo o artifício. Carole Lombard, Ingrid Bergman, Rita Hayworth, Ava Gardner, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e tantas outras rainhas dos anos dourados de Hollywood davam lugar à mulher banal, destituída de glamour, despojada daquele brilho cintilante que todas as estrelas irradiam. Era o tempo da Sally Field e da Jill Clayburgh e da Glenda Jackson e da Sarah Miles e da Karen Allen: figuras banais, rostos banais, que poderíamos ver a qualquer hora num restaurante de bairro ou num transporte público.

A mulher destituída de aura hollywoodesca era uma mulher “libertada”, uma mulher “consciente” – dizia-se então. E até actrizes inegavelmente belas desse período, como Jane Fonda e Julie Christie, pareciam pedir desculpa aos espectadores, em sucessões contínuas de filmes urbano-depressivos, por serem tão bonitas. Nesses tempos carregados de ideologia, havia uma conotação implícita entre beleza e classe dominante, que devia ser derrubada pelas massas oprimidas. Muito sofreram algumas mulheres desses tempos. E muitos homens também...
Susannah York nada tinha de banal. Bastava vê-la surgir em cena para se perceber que era impossível permanecer indiferente ao fulgor daqueles olhos azuis, à sedução daqueles lábios volumosos e ao fascínio daquela voz quente e bem timbrada. Desempenhou papéis memoráveis em dois filmes galardoados com o Óscar: Tom Jones (1963) e Um Homem para a Eternidade (1966), ambos de produção britânica. Entrou numa das películas norte-americanas mais aclamadas da década de 60: Os cavalos também se abatem (1969). Fez de mulher de Marlon Brando no mega-sucesso Super-Homem (1978). Contracenou com Alan Bates num perturbante filme de culto: O Uivo (1979). Trabalhou também na televisão: lembro-me bem dela na versão britânica da série Dear John.
Filmar com Fred Zinnemann, Sydney Pollack, Richard Donner, Tony Richardson e Jerzy Skolimowski, entre outros nomes grandes da realização, é suficiente para garantir a alguém um lugar em qualquer enciclopédia do cinema. Mas fiquei sempre com a convicção de que Susannah York podia ter ido muito mais longe do que foi, tornando-se um verdadeiro ícone da sua época. O problema não foi dela, mas dos ventos dominantes daqueles dias que mandavam derrubar todos os ícones em nome da idolatria do cidadão comum. Um problema insolúvel para quem era incomum, como Susannah York. Tivesse ela nascido dez anos mais cedo ou vinte anos mais tarde, nada decorreria como decorreu. Nem, como sucedeu há dias, se despediria da vida – depois de se despedir do cinema – perante a lamentável indiferença de um público cinéfilo que em muitos casos não chegou sequer a saber quem ela foi.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pérolas e galhardetes

por Ana Vidal, em 28.01.11

"Eu acho que o senhor primeiro-ministro, sem se dar conta, acabou de demitir o ministro da Administração Interna."

(Paulo Portas para Sócrates, hoje no parlamento)

 

"Não é por usar um chapelinho e um casaquinho de agricultor que se tem mais sensibilidade para a agricultura"

(José Sócrates para Paulo Portas, hoje no parlamento)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um desabafo sem ambições artísticas

por Fernando Sousa, em 28.01.11

 

Por instantes o mundo, sepultado na rotina, pensou numa performance numa pobre língua de areia na praia de Biscayne, em Miami, da autoria de um génio, anónimo, em quem se poderia rever. Mas eram só as sobras de um projecto que não deu, de uma festa de arromba, e, por fim, de um desabafo sem ambições artísticas. Nenhuma inspiração súbita, nada de surrealista, nada de ruptura. Nicholas Harrington, 16 anos, já contou a história. O piano, incendiado durante os copos na garagem, e levado a banhos, já foi removido, a navegação não corre riscos, a arte também não, a paisagem foi reposta. A vida continua. Não há motivo para preocupações.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mas está tudo doido?

por Ana Margarida Craveiro, em 28.01.11

O Nuno Gouveia explica aqui o que deveria ser óbvio e evidente para toda a gente: os presentes que um titular de cargo público recebe não são pessoais. E Luís Menezes Leitão apresenta citações fantásticas do mui moral ex-Presidente Sampaio:

 

Temos então que um antigo Presidente da República, que ocupou o cargo simbolicamente mais importante do Estado, se gaba de durante o seu mandato ter recebido "prendas de Natal" que "não cabiam em três salas". E acrescenta que "nunca comprei uma caneta ou um relógio mas nunca me senti minorado na minha honestidade por causa disso". E exemplifica dizendo: "Esta caneta que uso foi-me oferecida. Mas não sei dizer quem ma deu".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Publicidade a quanto obrigavas (8)

por Ana Vidal, em 28.01.11

 

Não se deixe ir na conversa delas... mentem muito, as malvadas.

Ideias curtas e cabelos compridos, já se sabe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mínimas

por Bandeira, em 28.01.11

O lado bom do pior momento das nossas vidas é que só acontece uma vez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Convidado: EDUARDO LOURO

por Pedro Correia, em 28.01.11

 

Figuras e representações

 

Em meados dos anos 30 do século passado Peter Drucker (1909-2005) – ilustre economista e grande teórico da gestão moderna – trabalhou numa sociedade financeira da City londrina liderada por Ernest Freedberg, então já quase octogenário, a roçar o excêntrico e um banqueiro dos antigos. Que, imagino, o impressionou fortemente, ou não lhe tivesse dedicado todo um capítulo das suas memórias (Memórias de um economista – Um homem entre dois mundos, edição da Difusão Cultural), onde descreve as mais variadas peripécias e histórias de impressionante sagacidade e de ímpar instinto empresarial.

Li estas suas Memórias há já há alguns anos – mais de uma dúzia – e uma dessas histórias nunca mais me saiu da cabeça. Conto-a, de memória, em poucas linhas:

Um dia apareceu-lhe um tipo, recomendado pelo vice-governador do Banco de Inglaterra, com uma proposta de parceria irrecusável. Para além desse cartão de visita era portador de insuspeitas referências e trazia já em carteira os maiores bancos da City. O Sr Freedberg, contra a opinião de todos os seus sócios – extasiados por um negócio fantástico que por nada queriam perder – recusou a proposta. O homem é um aldrabão, sentenciou!

Passados três meses o tipo desapareceria com meio milhão de libras sacados aos tais maiores bancos da City. Logo perguntaram ao Sr Freedberg como é que tinha intuído a aldrabice do homem. Explicou que era óbvio: o tipo vinha preparado com respostas para todas as perguntas, coisa que os homens honestos não fazem nem precisam de fazer.

 

 

 

Os tempos mudaram e hoje já ninguém pensa assim. Ninguém quer pensar assim.

Hoje exigem-se respostas prontas para todas as perguntas. Prontas, na ponta da língua, mas também as melhores respostas, num formato alcunhado de desempenho em que o que conta é a imagem. É da imagem que se projecta, e da sua capacidade de impressionar, que hoje se faz a vida. Que se faz ou não faz vida!

Hoje percebe-se que, muito mais importante do que o que se é, é a impressão que se deixa. É a importância do imediato, do sound byte. O drama da oportunidade única e imperdível – e logo a primeira – para causar uma boa primeira impressão!

Percebe-se que, por isso, tenha surgido uma nova indústria de transformação de pessoas, afastando-as do que são para as aproximar daquilo que querem parecer que são. Uma indústria que, a partir da opinião do Sr Freedberg, mais não seria que uma fábrica de aldrabões: necessariamente uma actividade muito pouco abonatória.

Prolifera em todas as áreas de actividade mas é na política que encontra o ambiente mais favorável. Que a democracia – o pior dos sistemas à excepção de todos os outros, na sábia opinião de Churchill –, vivendo de simbolismo e de representação, promove sem paralelo projectando muitas vezes o pior de gente medíocre no melhor da melhor gente.

 

 

 

Aí esteve a campanha das presidenciais a ilustrar tudo isto, transformando gente sem ideias e sem qualquer tipo de interesse em candidatos ao mais alto cargo de representação da pobre democracia portuguesa. Passeando pelo país como meros animadores de rua – uma palhaçada aqui, uma graçola ali ou um pé de dança acolá – e brindando-nos com autênticos tesourinhos deprimentes: os impropérios de um, que brinca com um submarino na mão, os saltos para cima do tejadilho do carro de um outro, de mãos dadas com uma senhora que só tem uma reforma de 800 euros, sempre a abanar a cabeça ao jeito daqueles cãezinhos que decoram o vidro traseiro de muitos dos carros que enchem as nossas estradas ao fim de semana. A pretensa superioridade moral dos que acham não ter nada a ver com este filme mas que tentam, sem êxito, seguir o mesmo guião, ou a pretensa superioridade ética dos que acham que nada têm a explicar. Ou a demagogia pura e dura que ofende a nossa inteligência ou ainda a desfaçatez de quem, estando dentro, quer fazer crer que está fora…

Pena que não sejamos todos como o Sr Freedberg! E que não possamos evitar que eles nos fujam, se não com os nossos milhões, pelo menos com um bocadinho da nossa esperança.

 

Eduardo Louro

Autoria e outros dados (tags, etc)

Belles toujours

por Pedro Correia, em 28.01.11

 

 

Fernanda Machado

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Rui Rocha, em 28.01.11

A crónica de hoje de Manuel António Pina no JN.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/10



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D