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O nonsense político

por João Campos, em 31.05.10

Sugestão de leitura: este texto do Vasco Lobo Xavier, no Mar Salgado, sobre mais um nonsense político. E a acompanhar, o vídeo que se segue, retirado de um dos melhores filmes de comédia de sempre:

 

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A sorte e o desnorte

por João Carvalho, em 31.05.10

«Falando aos jornalistas antes de um almoço no Palácio de São Bento com várias associações defensoras dos direitos homossexuais e LGBT», José Sócrates disse que «a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo torna a sociedade "melhor"».

Como não consta que tenha alterado essa posição depois do almoço, pode concluir-se que os homossexuais estão duplamente com sorte. É que saber governar, resolver e ultrapassar os problemas em que o País está metido até ao pescoço também torna a sociedade melhor e, no entanto, a vida continua a piorar para a maioria dos portugueses e nem por isso estes são convidados pelo primeiro-ministro para almoçar.

A crise, porém, foi abordada. Sócrates disse também isto: "Eu sei que o País tem outros problemas e estamos empenhados neles, mas não vejo razão nenhuma para que, no meio de tudo isso, não encontremos espaço para não fazer aquilo que devemos, que é promover uma sociedade mais justa e sem discriminação."

Atentem bem no desnorte: "não vejo razão nenhuma para que não encontremos espaço para não fazer". Foi antes de almoço, sim, só que falou em 'teixeira-santês' técnico.

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Tão inimigos que eles eram

por João Carvalho, em 31.05.10

Ontem, entre Caracas e Lisboa, José Sócrates fez um stop over na Madeira. Nada de especial. Apenas saudades. Alberto João Jardim só tem olhinhos para ele, que anda tão precisado de levantar o ego.

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Deep shit - 13

por Teresa Ribeiro, em 31.05.10

Segundo Peter Mair e Richard Katz, os teorizadores do novo tipo de partido, que designaram por partido-cartel, este atingia esquerda e direita, e tinha dois traços essenciais: “conluio” entre as principais forças políticas para garantir recursos públicos; e inter-penetração com o Estado.

Para Katz e Mair, a relação com o Estado é um dos pontos mais importantes para compreender os partidos. A progressiva aproximação entre os dois, transformando os partidos numa espécie de “agentes públicos”, implicava um novo conceito de democracia que continuava em evolução e em que esta era, na prática, um serviço prestado pelo Estado aos cidadãos. Os políticos viam-se entre si como colegas de profissão e esqueciam a sociedade.

 Ao contrário dos “velhos” partidos de massas e catch-all, o novo partido-cartel deixava de ser parte da sociedade ou um seu intermediário com o Estado, mas parte integrante deste último. O objectivo era compensar os danos causados pela queda da participação partidária. A verdadeira substância da competição tenderia a desaparecer, apesar de uma maior competição formal, com maiores gastos de campanha e maior profissionalização. - escreve Nuno Guedes no estudo que fez, em 2006, para o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia - CIES - do ISCTE.

Peter Mair e Richard Katz, continua, defendem que, a meio da década de 1990, estes processos, vistos como uma espécie de solução pragmática aos problemas dos partidos, estavam ainda no início e eram bastante desiguais entre países.

Neste estudo, intitulado "O Partido-cartel: Portugal e as leis dos partidos e financiamento de 2003", Nuno Guedes recorda que, mais recentemente, Blyth e Katz aprofundaram esta teoria, explicando que os partidos-cartel (e cartel de partidos) focam-se sobretudo na progressiva diminuição da possibilidade de políticas alternativas entre os partidos, depois de se ter chegado à conclusão que era impossível continuar a trocar medidas populares por votos. Em alternativa, os partidos diminuíram as expectativas dos cidadãos, limitando o espaço para políticas realizáveis, identificando a competição eleitoral não com questões ideológicas, mas, sobretudo, de competência na gestão do país. A democracia seria a mera realização de eleições. As transferências de poderes para entidades como a União Europeia ou os bancos centrais foram algumas das fórmulas encontradas para limitar o debate político. Os cada vez mais casos de eleição directa dos líderes partidários deu-lhes uma ainda maior autonomia face ao aparelho partidário.

Para analisar Portugal, Nuno Guedes cita o investigador Farelo Lopes: PS, PSD e outros partidos integram, em graus variáveis, elementos do partido-cartel, nomeadamente, na sua relação com o Estado, ainda mais importante do que noutros países, devido à sua natural debilidade estrutural e poucos filiados, que os levaram a ocupar variadíssimos cargos no Estado, que desde o início do regime foi uma importante fonte de recursos.  

Carlos Jalali, outro investigador citado neste estudo, diz que a cartelização da política em Portugal pode ser observada não apenas através das subvenções estatais, mas também pelo monopólio da representação dos partidos, consagrado na Constituição, e grau de ocupação do Estado por quadros partidários. O sistema de partidos português tem, aliás, como principal característica, um padrão de cooperação entre os seus dois maiores partidos, com o objectivo de manter a principal dimensão de competição entre si, não se atacando em assuntos como a ocupação de cargos estatais (aspecto marcante da política portuguesa e importante fonte de recursos), numa espécie de acordo, mesmo que não explícito.  Pode ler mais aqui.

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Pela democracia e pela ditadura

por Pedro Correia, em 31.05.10

 

Jerónimo de Sousa está preocupado com a perda dos direitos sociais e laborais dos trabalhadores portugueses. E apela à luta contra a "ofensiva" do Plano de Estabilidade e Crescimento. Trata-se do líder de um partido que mantém "relações de amizade e cooperação" com o Partido Comunista Chinês, há mais de 60 anos no poder na República Popular da China, provavelmente o país do mundo que mais espezinha os direitos dos trabalhadores, além de brutalizar a população do Tibete ocupado. Comunista de nome, capitalista selvagem na prática, a China é um país que proíbe o direito à greve, a existência de partidos da oposição e a formação de sindicatos independentes do poder político. E com as condições laborais bem exemplificadas aqui. Sempre com a benévola compreensão do PCP, que combate cá o que aplaude lá - uma duplicidade que desqualifica todo o seu discurso. Não se pode pugnar pela democracia num continente e pela ditadura noutro sem perda da autoridade moral para combater o que quer que seja.

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Blogue da semana

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 31.05.10

Vale a pena ler o Teorias da Costa. De uma mulher que tem teorias sobre tudo, desde a política, ao futebol, das relações humanas, às vidas mundanas. Um pequeno senão: textos excessivamente compridos. A autora esteve já num programa televisivo por causa das suas teorias.

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Há um modelo social para Portugal? (1)

por Luís M. Jorge, em 31.05.10

Em novembro de 2005, Andre Sapir, professor da Universidade Livre de Bruxelas, analisou o conceito de modelo social europeu e apelou à sua renovação num documento que podem consultar aqui. O desafio foi suficientemente interessante para merecer destaque na imprensa económica internacional.

 

O autor começa por invocar os riscos e as oportunidades da globalização, e refuta os que defendem a existência de um modelo social indiferenciado nos países do mercado único. Para Sapir, existem quatro modelos sociais europeus, que ele hierarquiza por critérios de eficiência e equidade:

  1. modelo nórdico (Suécia, Holanda, etc.) garante os níveis mais elevados de protecção social, forte correcção fiscal dos rendimentos do trabalho e sindicatos poderosos que asseguram baixa desigualdade.
  2. modelo anglo-saxónico (GB, Irlanda). Com transferências sociais amplas, mas de último recurso, concentradas na população em idade activa, e incentivos à obtenção de emprego. Sindicatos fracos, disparidades na distribuição da riqueza e uma incidência relativamente alta de baixos ordenados.
  3. modelo continental (Alemanha, França, etc.). Segurança social extensa, focada nas pensões. Sindicatos fortes, mas em declínio.
  4. modelo mediterrânico (Itália, Espanha, etc). Concentra as despesas sociais nas pensões. A legislação desencoraja os despedimentos. Proliferação de reformas antecipadas.

Quanto à eficiência de cada um:

  1. O modelo mediterrânico, caracterizado, por altos níveis de desemprego e alto risco de pobreza, não garante eficiência nem equidade.
  2. O modelo continental, com alto desemprego e baixo risco de pobreza, garante equidade mas não é eficiente.
  3. O modelo anglo-saxónico, com desemprego baixo e risco de pobreza alto, não garante a equidade mas é eficiente.
  4. O modelo nórdico, com desemprego baixo e risco de pobreza baixo, satisfaz ambos os critérios.

Uma nota importante: o autor afirma que a equidade exige carga fiscal elevada, mas assegura que esta não prejudica a eficiência do modelo, como se comprova pelos exemplos escandinavos.

 

Para começo de conversa, fiquemos por aqui.

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"Mania de peitão"

por André Couto, em 31.05.10
Ela tem um rebolado, Por demais sensual,
Domina os olhos da gente, Com seu corpo escultural,
Na praia é uma delicia, com sua cor de jambo,
Deixa muita mulher recalcada,
E tudo que é homem babando.

-

A noite ela é uma estrela, Ofusca o brilho da lua
Não há beleza na Terra, Que se compare com a sua
Mas o que o povo desconhece, É que este tremendo ciclone
Musa da geração 2000...
...É armação de silicone.

-

Mania de peitão, Mania de peitão,
Mania de peitão, É armação de silicone.

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A definhar

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.05.10

"O problema aqui é um problema do futuro do país".

Esta pequena frase diz bem mais do que possa parecer à primeira vista.

O problema do futuro do país é, de forma mais linear, o problema deste país.

Quem a disse e a repetiu ontem em vários canais televisivos e nas rádios podia ter sido um homem que se tivesse destacado da maralha pela excelência da sua intervenção, pela coragem do discurso, pela ousadia e arrojo do seu pensamento, pela acutilância da sua intervenção política.

Mas infelizmente não é assim.

Quem disse essa frase foi a mesma pessoa que há quatro anos, quando se tratou do PS escolher um candidato presidencial, viu num homem em final de carreira, que já tinha sido presidente duas vezes e com mais de 80 anos, o futuro do país.

Nessa altura, ninguém o viu ou ouviu preocupado com o facto do PS ter como candidato um homem que aos olhos de quase todos os portugueses já então pedia descanso.

De igual modo, quando há quatro anos o PS escolheu Mário Soares como seu candidato, da mesma forma anódina e quase acéfala como agora fez com Manuel Alegre, por vontade do líder e em circunstâncias políticas atípicas, ninguém o ouviu pedir liberdade de voto para os militantes que discordavam da escolha e tiveram a coragem de apontar erro tão crasso a tempo e horas.

Escondida sob a capa de um discurso aparentemente moderno e inovador, a intervenção de Vítor Ramalho representa aquilo que os partidos portugueses têm de mais detestável: o conservadorismo, o imobilismo, a sacralização do passado. E reflecte a tendência oligárquica da política portuguesa.

Mário Soares foi um combatente, um líder de referência e é uma bandeira da democracia portuguesa. A ele o país muito deve. O país e o partido.

Mas o soarismo, que Vítor Ramalho tão bem personifica, espelhado na frase acima citada, na forma como antes condicionou o partido e hoje tenta influenciar as escolhas que livremente sejam feitas dentro dele, e que encontra eco na intervenção de homens como José Lello ou Sérgio Sousa Pinto, é uma pesada herança do passado. Um anacronismo num partido que se quer moderno.

Até poderia admitir que Manuel Alegre não fosse a melhor escolha, mas não se tendo Vítor Ramalho predisposto a avançar com uma candidatura presidencial, também seria difícil encontrar um termo de comparação.

Mas o que é triste constatar é que o PS carregue hoje o soarismo como uma canga. E isso é uma coisa execrável. Para o partido, mas também para todos aqueles que dentro dele se atrevam a pensar o futuro ou que rejeitam ser os régulos e os mainatos dos líderes que transitoriamente ocupam o poder. Chamem-se eles Soares, Guterres ou Sócrates. 

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Cem palavras que odeio (57)

por Pedro Correia, em 31.05.10

"PARABENIZAR"

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Claque cor-de-rosa

por José Gomes André, em 31.05.10

Perante a crescente impossibilidade de apresentar um candidato viável a Belém, alguma Esquerda tenderá a recorrer cada vez mais à "política do medo" para combater Cavaco. Nesta arte da mistificação, repetir-se-á vezes sem conta que Cavaco pretende subverter a Constituição, destruir o sistema parlamentar e iniciar um regime ditatorial de índole conservadora. Fernanda Câncio dá o mote: "Desde 2006 que sabemos isto: Cavaco tem a intenção de fazer um segundo mandato. E é inevitável que o seu pessoalíssimo projecto de poder implique que nessa segunda estada em Belém tente explorar todas as virtualidades da indefinição que a Constituição portuguesa prescreve para a função [...]".

 

Trata-se de um discurso tolo,  já utilizado em 2006 e desmentido taxativamente pela realidade: não se vislumbrou, nem por uma vez sequer, a intenção de Cavaco em "explorar as indefinições da Constituição" e/ou chefiar o que quer que fosse a partir de Belém. Na verdade, Cavaco tem pecado justamente pelo contrário do que sugere Câncio: o seu consulado é até agora pouco mais que pífio - Cavaco não bloqueou nenhum projecto fundamental do PS, não condicionou nenhuma política essencial do Governo e com a péssima gestão do "caso das escutas" prejudicou até severamente o PSD nas legislativas.

 

Por que combaterá então alguma Esquerda (e particularmente a Esquerda socrática-chique) a reeleição de Cavaco? Não por recear verdadeiramente "um golpe de Estado constitucional", nem tampouco por ver nela um escolho à governação socialista. Nada disso. Tal oposição surgirá porque a Esquerda socrática-chique opera como uma claque de futebol, orientando-se por "emoções" e espírito vingativo, e não por cálculo político ou análise racional. Basta ler algumas reacções na polémica do "casamento gay" para o perceber (do género "tomem, ganhámos!" ou "ficaram com azia?", como aqui ou aqui). Odeiam Cavaco, logo combatem Cavaco. Mesmo que a sua reeleição venha a ter efeitos nulos relativamente às pretensões socialistas.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 31.05.10

 

«A verdade é que a corrupção não é um exclusivo português. Na Inglaterra funciona desde há séculos o sistema do old boy, onde antigos colegas de escola fazem os jeitinhos uns aos outros. Na Holanda vejo a mesma coisa a suceder, apenas com o nome de networking.

No resto da Europa continua a haver a corrupção generalizada. É compreendida na perfeição. Apenas será mais encapuçada ou mais discreta ou, em alternativa, funcionará paralelamente a um sistema de sociedade mais eficaz, o que significa que haverá um pouco menos de recurso a ela ou que será mais praticada quando as paradas são mais elevadas (uma vez que não haverá lucro em a ela recorrer em níveis mais baixos).
A corrupção e o compadrio são ferramentas humanas, não apenas portuguesas. O problema em Portugal é estas terem sido institucionalizadas a níveis mais baixos sem sistemas compensatórios. E é isso e só isso que nos foi diferenciando de outros países mais "evoluídos".»

 

Do nosso leitor João Sousa André. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

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As canções do século (151)

por Pedro Correia, em 31.05.10

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O "ferveroso" e "ferdvrsadete"

por João Carvalho, em 30.05.10

Agora que a selecção nacional vai emigrar para África e que Scolari não está cá, é tempo de promover o optimismo lusitano através das palavras patrióticas deste «ferveroso adepto de futebol». É portista, mas isso agora não interessa. Só interessa que é um «ferveroso adepto de futebol» e, sobretudo, um «ferdvrsadete de futebol». Aqui.*

 

* — Ninguém é obrigado a ouvir mais do que os primeiros 16 segundos.

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Riam, riam...

por Paulo Gorjão, em 30.05.10

...enquanto nós, mais uma vez, morremos de vergonha.

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 30.05.10

1. Parabéns ao Nelson Reprezas. Pelo meio milhão de visitantes do Espumadamente.

 

2. "Na hora de decidir, a direita não entrega as cartas", escreve Vital Moreira. Fala do que sabe: há um ano foi copiosamente derrotado nas europeias.

 

3. Joana Carvalho Dias agora pode ser lida n' Os Tempos e as Vontades.

 

4. O que fica do que passa: um blogue a que cheguei via Activismo de Sofá. Recomendo, claro.

 

5. Já disse que gosto deste blogue? E deste?

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Passado presente (CCXXXVIII)

por Pedro Correia, em 30.05.10

 

 

Revista Jacto

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Deep shit - 12

por Teresa Ribeiro, em 30.05.10

O grande mal português é que temos, verdadeiramente, poucos homens livres. Pouca gente, poucos cidadãos, que estejam dispostos a viver a sua vida, a construir o seu caminho, sem terem de prestar vassalagem a várias formas de poder. Os arquitectos não são livres porque dependem dos interesses económicos do dono da obra. Os médicos não são livres, porque, regra geral, querem ser simultaneamente profissionais liberais e assalariados do Estado. Os advogados de sucesso não são livres, porque dependem da consultadoria dos governos e do tráfico de influências entre os negócios, o poder e o patrocínio. Os empresários não são livres porque dependem dos subsídios, das isenções fiscais e da atenção do governo nos concursos públicos. Os intelectuais não são livres, porque estão quase sempre dependentes de empregos, bolsas ou subsídios públicos, os quais acabam inevitavelmente por pagar com simples fretes de propaganda partidária. Os jornalistas, quase todos, não são livres, porque dependem do pequeno chefe, o qual reporta ao editor principal, o qual deve satisfações ao proprietário, o qual tem de prestar atenção ao humores e sensibilidades do poder da hora - Miguel Sousa Tavares, no Público, em 8 de Outubro de 2004.

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Bem podem roer-se

por João Carvalho, em 30.05.10

Sexta-feira, 28, ao nascer do sol. Estou na gare das Lages.

A que horas é o próximo TGV para Lisboa?

Hoje não vai haver — responde-me o funcionário. — Se fosse amanhã...

Aos sábados há? — indago.

Não tem havido, mas nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.

Saio da estação chateado. «Seis séculos depois de Gonçalo Velho Cabral e de Cristóvão Colombo, isto está tudo na mesma.» Atravesso a rua e entro na agência de viagens. «Avião para Lisboa?» Dizem-me que vai haver um.

Tem algum tour a propor-me para uma ida-e-volta rápida? Queria ir hoje e voltar amanhã.

Assim por tão pouco tempo... Deixe-me ver o que é que se arranja... Tenho aqui qualquer coisa... Olhe, só se for um encontro com um blogue, que inclui um jantar com vista nocturna para o Tejo, um belo quarto na avenida de Roma e um lauto almoço amanhã no Campo Pequeno.

Parece tentador — respondo. — Esse serve-me.

Sigo para para o aeroporto.

 

Lisboa, início da tarde. Desço do aeroplano. Olho em volta e parece-me tudo novo, mas mal amanhado. «Será Alcochete?» Não é. No terminal 1, alguém chama por mim. «Pedro?» Era mesmo ele, o meu compadre, sempre pontual.

Seguimos para casa. Ele vai trabalhar e eu deixo-me ficar preguiçosamente no sofá. Pego no livro que o Pedro Correia acaba de me oferecer e leio três contos do avô dele. Depois vou à janela e o sol chama por mim. Pego no telefone e ligo para o 'Pau Para Toda a Obra'.

João?

João?!? Mas...?

Vamos beber um copo?

'Bora — responde-me o Severino, ainda incrédulo.

 

Perto das 20 estou no DN. Seguimos, o Pedro e eu, para o Museu do Oriente. Sob o olhar protector de uma divindade indiana, os primeiros dois a chegar já nos esperam. Subimos os quatro até uma mesa imensa virada ao rio. Vão chegando os outros.

Bebem alguma coisa antes? — pergunta um empregado.

Um gin tónico — peço.

Ele desaparece e volta. «Gin tónico não está incluído.» Pergunto então o que está incluído e peço um Martini seco com limão.

Já chegaram quase todos. Ninguém acredita que um gajo voou dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte. Sempre julguei que fossem mais inteligentes, mas percebo que é só fama: pois se eu voei dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte, não acreditam porquê? Mas sei como resolver o caso: dedais variados de louça regional-autonómica sugestivamente decorados, para "todos e todas" como diria o Louçã, não só não distinguem géneros como é quanto basta para acreditarem, «cambada de materialistas».

 

Ao meu lado, o único lugar vazio. O «tinto ou branco», ambos muito decentes, vem ao nosso encontro e nós levantamo-nos para ir ao encontro do buffet. Se quiserem a companhia do rio, do sol a pôr-se sem pressas, da noite intimista a marcar o tempo e das luzes a tomar conta da ponte (da "primeira travessia", está claro, porque a "segunda" é longe e as luzes da "terceira" parecem uma árvore de Natal sempre a piscar: aparecem e desaparecem conforme o ministro que abre a boca), então o restaurante do Museu do Oriente é muito recomendável.

Se, pelo contrário, estão à espera de encontrar um serviço de cozinha de luxo asiático, esqueçam: o buffet é modesto e sem qualquer toque de exotismo ou esforço estético que o torne atraente aos olhos-que-também-comem. Só que tudo isto é compensado pelo ambiente, serviço de mesa e justiça na conta final. Assim, o saldo é positivo.

 

A notável animação dos primeiros momentos não esmorece com o desenrolar da festa. A mesa é comprida, mas também é larga, o que favorece muito os diálogos que se cruzam e até possibilita que algumas conversas consigam ser comuns aos 16 delituosos. Mais perto de mim, a frescura da Ana Cláudia Vicente impõe-se sem dificuldade. Mais longe, a Ana Margarida Craveiro espalha alegria pelos olhos. Lá ao fundo, a Ana Sofia Couto representa a serenidade, atravessada de quando em quando por surpreendente determinação. Organizadora do "evento", a competência da Ana Vidal só peca pelo esquecimento imperdoável (roam-se as cuscas todas) do fotógrafo. Por fim, aparece tarde e a más horas (por razões tão válidas quanto os atrasos permanentes de Sócrates) o André Couto, que rompe a noite e logo se integra com a mesma animação que já nos contagia há muito. A meio de um dos lados, o António Manuel Venda espelha um discreto e permanente sorriso enigmático, talvez fruto da experiência próxima com o seu javali. A boa onda ao vivo está acolá no homem que toca a quatro mãos, o Zé Bandeira, sobre o qual nunca consigo concluir se escreve bem como desenha ou se desenha bem como escreve. Sem estar sentado com um compêndio à frente, o José Gomes André é a enciclopédia ambulatória de serviço. O mais sóbrio é o João Campos (John, o benjamim do grupo), que conhece a Europa a palmo e não é capaz de trocar este repasto por nova-partida-nova-viagem. A Leonor Barros, vestida de negro a preceito, podia ser a fadista da noite, porque quando abre a boca parece logo que é para cantar, mas tinha de ser o fado-corrido, porque é incansável a dar atenção a tudo. Polémico q.b., o Luís M. Jorge larga ideias inovadoras e bem recebidas. O Paulo Gorjão é a alma poética do fingidor, austero na escrita e efusivo na oralidade. O Pedro Correia é o dono, o patrão, o padrinho perante quem todos se calam quando abre a boca, mesmo que seja para meter uma garfada. Sempre cavalheiro e discretíssimo, o Sérgio de Almeida Correia dá nas vistas por deixar o Algarve para estar presente em todas. Se fosse preciso atear o fogo (que não era) a todas aquelas almas, encarregava-se a Teresa Ribeiro, risonha esfusiante e saltitante imparável em torno de todas as coisas.

 

Olho atentamente para o gang delituoso e pergunto-me: «Que faço eu aqui, além de me babar todo?» Cheio de Anas, de abraços e de carinhos por todos os lados, entre tantas beldades talentosas e tantos gurus de primeira água, sinto que este meu primeiro encontro com a quadrilha me tolhe a lucidez. Não me atreverei a estar no próximo jantar. Como? Depois do Verão, os jantares passarão a ser mais regulares? Nunca mais faltarei.

Quando as luzes se apagam, a Ana Vidal reúne alguns guarda-costas noctívagos e resistentes e ainda vamos ver se as docas continuam no sítio. À frente do último copo, apuram-se alguns pontos da agenda de trabalho que tinha estado basicamente em cima da mesa, parte dos quais estamos certos de que serão em breve janelas de oportunidade para os nossos estimadíssimos comentadores e leitores habituais, muito lembrados ao longo da noite.

 

Com falta marcada ficam quatro: o Adolfo Mesquita Nunes (falta justificada por ausência em terras nórdicas, lá para os lados onde nascem as nuvens que levam as companhias aéreas à falência), a Cristina Fereira de Almeida (falta injustificada, com os voos já normalizados), o J.M. Coutinho Ribeiro (falta injustificada, com quase três autoestradas Porto-Lisboa) e a Marta Caires (falta justificada, com o meu voto de vencido e a Madeira ali tão perto).

Têm razão os autores dos nossos blogues de estimação: roam-se de inveja, que o DELITO DE OPINIÃO é o máximo. Nem seria de esperar que não fosse, uma vez que o DO está no pelotão da frente quanto à lei da paridade. As nossas inspiradas meninas têm o duplo dom de ser também o motivo da nossa inspiração colectiva. Se as vissem melhor, iam perceber.

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Giros e talentosos (31)

por Ana Sofia Couto, em 30.05.10

Um contributo para a série iniciada pela Leonor:

 

Roger Federer

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Heróis da BD (57)

por Pedro Correia, em 30.05.10

 

 

 

 

Pato Donald, de Walt Disney

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Um mandato para esquecer

por Paulo Gorjão, em 30.05.10

Duas ou três notas soltas.

1. O mandato de um Presidente da República não se destina única e exclusivamente a garantir a salvaguarda dos seus poderes. A finalidade não é essa. Os poderes do Presidente têm uma determinada função, caso contrário não teria razão de ser a sua existência. Os poderes presidenciais não existem com o fim único e exclusivo de se autopreservar.

2. O Presidente também não é apenas um garante da constitucionalidade dos diplomas aprovados. Se a única função do Presidente fosse essa então mais valia extinguir o cargo de Presidente da República e instituir que todos os diplomas fossem automaticamente alvo do crivo do Tribunal Constitucional.

3. Mais. O Presidente não existe apenas para vetar os diplomas que sabe de antemão que serão revistos após o seu veto. A leitura e a função do veto é um pouco mais fina e mais sofisticada.

4. De um Presidente e da leitura que este faz dos poderes presidenciais espera-se mais. Espera-se, em primeiro lugar, uma determinada narrativa e um desígnio. Em segundo lugar, espera-se que exista uma estratégia. Em terceiro, espera-se bom senso e senso comum.

5. A forma como Cavaco Silva conduziu o seu mandato é para mim incompreensível. Erros e mais erros, por um lado. Por outro, uma leitura dos poderes presidenciais errada, a meu ver. Uma relação com o core do seu eleitorado largamente falhada. Em suma, um mandato para esquecer.

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As canções do século (150)

por Pedro Correia, em 30.05.10

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.05.10

Ao Visto de Dentro.

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É certo que fico todo babado...

por João Carvalho, em 29.05.10

... mas não fui o único espiado. Foi o DO inteirinho. Aqui.

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Chego a mudar de calçada

por Pedro Correia, em 29.05.10

 

José Sócrates propôs dançar o tango com Passos Coelho mas optou afinal por sambar com Chico Buarque. Tudo bem? Não: tudo mal. Alguém do seu gabinete encarregou-se de divulgar aos jornalistas uma aldrabice logo desmentida pelo autor de Tanto Mar com justificada indignação: não era ele quem estava interessado em conhecer o primeiro-ministro português, mas o contrário.

A propósito desta historieta, que bem define o carácter dos envolvidos, apetece-me deixar aqui um velho samba do Chico:

 

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada do grande amor
mentira.

 

Adenda de domingo: Duas versões contraditórias podem estar correctas. É este, pelo menos, o entendimento do gabinete do primeiro-ministro. Os colaboradores mais próximos de Sócrates à imagem e semelhança do chefe.

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Prognósticos só no final do jogo

por Paulo Gorjão, em 29.05.10

A realidade encarrega-se quase sempre de inviabilizar cenários perfeitos. Não estou seguro que o surgimento de uma candidatura de direita, porventura patrocinada pelo CDS, não contribuísse para a vitória de Aníbal Cavaco Silva. Se, por um lado, essa alternativa poderia desviar votos, por outro seria um factor de mobilização para muitos dos eleitores que votaram em Cavaco Silva em 2005 e que sentem nesta altura alguma insatisfação com o mandato do Presidente da República. Claro, tudo isto é mera teoria e as campanhas podem gerar dinâmicas imprevisíveis. Isto dito, repito, parece-me precipitado o receio.

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Deep shit - 11

por Teresa Ribeiro, em 29.05.10
O seu miúdo está desempregado, mas um seu amigo é director de uma empresa. Porque não fala com ele? E a dor nas costas que não passa? Melhor será telefonar àquela enfermeira, amiga da sua irmã, para lhe marcar uma consulta no hospital. O antigo presidente da câmara, com "obra feita", recandidatou-se ao cargo, apesar de ter um processo por causa de uns negócios "esquisitos". Será que não lhe merece o voto? Mais vale ele que o outro, que fala bem mas não provou nada 

- foi assim que Luísa Meirelles começou o artigo que assinou a 11 de Outubro de 2008 no Expresso. Depois desta introdução, perguntava ao leitor se se identificava com as sugestões apresentadas para, em seguida, o tranquilizar em caso de concordância. Assegurava ela que estes são os juízos e procedimentos do português típico.

As afirmações da jornalista baseavam-se nas conclusões do recém-lançado  livro A Corrupção e os Portugueses (RCP Edições), de Luís de Sousa (politólogo) e João Triães (sociólogo). Apoiados em dados estatísticos, os autores sustentavam, nesta obra prefaciada por Maria José Morgado, que a maioria dos portugueses embora critique o fenómeno, pratica-o, embora em pequena escala. Hipocrisia? Nem tanto. O whisky no Natal para alguém que meteu uma cunha, as notinhas entaladas à pressa nas mãos de burocratas e os jantares-convívio oferecidos a candidatos autarcas são caracterizados nesta obra como "singularidades portuguesas" consideradas legítimas pela maioria da população. Nada que não se soubesse, mas a novidade é que o fenómeno foi, desta vez, objecto de estudo: segundo os investigadores 53% dos portugueses concordam totalmente que os cidadãos usem as suas ligações ou influências para ajudar parentes e amigos a conseguir emprego. Só 5,7% acham que esta atitude é condenável.

A organização da Administração do Estado, a lentidão deste e o facto de não proporcionar as mesmas oportunidades a todos revela a incapacidade que houve de construir em Portugal um Estado-Providência moderno e sustentável, sublinham os dois autores. Foi esta situação que  levou à criação de uma sociedade-providência, ou seja, à rede informal de contactos que pode garantir a sobrevivência dos cidadãos e que em jargão sociológico se chama "capital social negativo", algo que de acordo com Luis de Sousa e João Triães temos com fartura.

Este fenómeno está na raiz de um outro, identificado pelos investigadores como síndroma de Robin Hood: a tolerância relativa à corrupção, desde que justificada pela nobreza do acto. É isto que, segundo a dupla que assinou A Corrupção e os Portugueses, explica o apoio dado a autarcas como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro ou Isaltino Morais.

É também o clientelismo e a cultura secular do desenrasca que  condiciona a investigação e julgamento dos casos de corrupção em Portugal. Luís de Sousa afirma que os portugueses não os denunciam. De acordo com os dados publicados na obra, até Maio de 2008 apenas 7,3% dos casos de corrupção foram julgados e 55,5% foram arquivados por falta de provas.

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Nós merecemos melhor

por Pedro Correia, em 29.05.10

"A eleição de Cavaco Silva não foi uma batalha de valores", disse esta noite um comentador alinhado com o Presidente da República num programa de televisão, procurando justificar o injustificável. Sem perceber, este comentador só dá razão a quantos criticam a leitura minimalista dos poderes presidenciais que tem sido feita por Cavaco desde que chegou a Belém: vale a pena eleger um Presidente da República por sufrágio universal se esse escrutínio não resultar de "uma batalha de valores"? A resposta é obviamente negativa. Mas é escusado levar a novidade à tribo de incondicionais do actual inquilino de Belém. Diga ele o que disser, cale o que calar, omita o que omitir, conceda o que conceder, obtém sempre o aplauso caloroso dos membros desta tribo. Merecem o Presidente que têm. Mas nós, que somos mais, merecemos melhor.

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Adivinhem onde foi o jantar

por Pedro Correia, em 29.05.10

Foi talvez o melhor jantar do nosso blogue. Foi pelo menos o mais concorrido. Com prolongamento numa esplanada das Docas. E mais não digo porque o relato está a cargo do João Carvalho, que veio de propósito dos Açores, aproveitando o novo paradigma proporcionado por esta janela de oportunidade para participar neste incontornável repasto que estava em cima da mesa. Basicamente.

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As canções do século (149)

por Pedro Correia, em 29.05.10

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Testemunho

por Ana Vidal, em 28.05.10
Dia de abrir envelopes

Há sempre aquele momento. Aquele terrífico e intimidante momento de abrir os envelopes. Olho-os a medo, tentando estabelecer com o exterior, civilizado e inócuo, um pacto de não agressão. É inútil. A desproporção de forças é total, nada a fazer. De que forma poderia eu vingar-me? A ideia absurda deixa-me, pelo menos, um sorriso. Volto a olhá-los, tentando agora outra abordagem: a do optimismo, que sempre me salvou em todas as situações difíceis por que passei na vida. Mas não é fácil, como o foi em tempos, antes daquela vez. Daquela vez em que tudo mudou, em que nem o meu mais delirante optimismo podia iludir o que o Abre-te Sésamo revelava. Nada de tesouros, nada de pérolas e ânforas de ouro. Só uma desolada frase, composta de cinco palavras letais. Todas elas, uma por uma. As palavras também podem ser letais, mesmo sendo feitas com as mesmas letras com que se escreve uma declaração de amor. Nem o pobre "de" parecia inofensivo, no meio delas. Palavras compridas, complicadas, ameaçadoras, fúnebres. Um Requiem em cinco andamentos. Conhecia-as, não me enganaram. Sou filha de médicos, a terminologia arrevezada e áspera não tem grandes segredos para mim. Palavras bastardas de um latim que gerou outras tão bonitas, tão doces. Mas também pariu estas, afinal. Há os bons e os maus em todas as famílias. Aquelas palavras eram as ovelhas negras do latim. Abro sempre os envelopes, eu mesma. Se é de mim que falam, é a mim que têm de dar explicações primeiro. E faço-o sem testemunhas. Não quero que me vejam nos olhos o medo ou a euforia, ambos demasiado íntimos para subirem ao palco. Daquela vez, os envelopes apanharam-me desprevenida. O que traziam dentro era um violento murro no estômago, no meu estômago, que não esperava murros. Foi desde aí que nunca mais abri os envelopes com a mesma souplesse, essa alegre certeza de que estava tudo bem. Ficaram-me na memória e ficarão para sempre, gravadas a ferro e fogo, as cinco palavras que eram uma condenação explícita. Sem enfeites, sem disfarces, sem bálsamos. Só a sentença de morte, nua e crua. Mas afinal ganhei eu. Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter de abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.


(Nota: Este texto foi escrito há cerca de um ano e publicado no meu blogue pessoal. Hesitei em trazê-lo para aqui, por medo de ser mal interpretada ou acusada de exibicionismo gratuito. Mas numa altura em que está a decorrer uma importante campanha de sensibilização para o rastreio do cancro do colo do útero - aquele que mais mulheres mata por ano em Portugal, e quase sempre por falta de diagnóstico precoce - penso que poderá ser útil e encorajador o testemunho de alguém que passou por isso e está de boa saúde, onze anos depois. Só por isso o publico no Delito de Opinião, esperando que anime outras mulheres a fazerem o rastreio e a não enterrarem a cabeça na areia. Hoje em dia existe uma vacina eficaz, até. Não há desculpas para a fuga.)

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Fim-de-semana à vista, #1: uma sugestão e uma recordação

por Ana Cláudia Vicente, em 28.05.10

Em busca de um livro que há tempos me escapava tropecei no Conocer el Autor, portal ibero-americano similar ao original born in U.S.A, bem como ao congénere britânico. Do que pude ver, o da língua vizinha em nada lhes fica atrás. Aos que gostam de ouvir os que escrevem deixo a sugestão.

 

Hermanias faz 25 anos. Olhada a partir daqui, não sei se a permanência dos mores que aí eram castigados é mais cómica que trágica. Tirando o chapéu ao seu autor, aqui fica a lembrança:

 

 

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Garantias e mais garantias

por Ana Margarida Craveiro, em 28.05.10

Suponho que agora vai ter lugar a versão "o primeiro-ministro José Sócrates, oficialmente, nunca recebeu qualquer sms de Armando Vara". É que o telemóvel deve estar só em nome do José Pinto de Sousa.

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Deep shit - 10

por Teresa Ribeiro, em 28.05.10

Antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos, tínhamos ainda um mundo rural e agrícola e um país relativamente equilibrado entre o interior e o litoral, a província e as grandes cidades. Mais de duas décadas depois, o que vemos? Produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmatelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorara gerações infinitas a apurar, passando a importar todo o peixe que vem à mesa; gastámos fortunas a pagar aos agricultores para eles abandonarem os campos ou ficarem sentados a ver em que parávam as modas, sem investir, sem inovar, sem arriscar.

De caminho desmantelámos a fileira florestal tradicional, substituindo-a por um oceano de pinheiros e eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os incêndios de Verão.

Gastámos rios de dinheiros europeus que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir auto-estradas e duas megacidades onde as pontes e os terminais de transportes de toda a ordem nunca são suficientes para colher o Portugal que fugiu do interior morto.

Assim tornámos o país insustentável e não foi por falta de avisos nem de particular estupidez dos governantes. Foi claramente para servir os interesses particulares que vegetam perpetuamente à sombra o Estado, tornando impossível qualquer política que privilegie o interesse público. - Miguel Sousa Tavares, no Expresso, a 3 de Maio de 2008

 

Entre 1960 e 1995 houve uma verdadeira cavalgada: fomos o país que mais cresceu e se desenvolveu na Europa, com uma mudança demográfica completa, outra nos costumes, algo de absolutamente fantástico. De repente chegámos a 90 ou 95 e percebemos que não tínhamos inovado nem criado muito. Fizemos auto-estradas - qualquer país com um cheque na mão as faz - mas não fizemos novas empresas, novos projectos, novos produtos. E perdemos muito do que tínhamos. Demos cabo da floresta, demos cabo da agricultura, demos cabo do mar. Três coisas imperdoáveis, três erros históricos. Importamos 4/5 do que comemos.

Se não houvesse Europa e se ainda houvesse Forças Armadas, já teríamos tido golpes de Estado. - António Barreto, ao i, a 28 de Novembro de 2009

 

 

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Cem palavras que odeio (56)

por Pedro Correia, em 28.05.10

"ADAPTABILIDADE"

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Fernando Nobre

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.05.10

Cada dia que passa mostra a sua falta de perfil para o cargo a que pretende candidatar-se.

Não está em causa a qualidade do homem e do cidadão, mas a forma como aborda as questões de cada vez que lhe colocam um microfone à frente denota uma grande ingenuidade política e uma tremenda falta de preparação. Ontem foi a propósito do eventual apoio de Mário Soares à sua candidatura, depois das declarações que o antigo PR proferiu sobre o seu não apoio a Manuel  Alegre.  

O mundo está cheio de homens de boa vontade e nunca serão suficientes os que há. Maus políticos é que já temos demasiados.

Nobre podia ver isto. Não o vendo, com sorte, arrisca-se a não passar a fasquia dos 3%.    

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Um sinal de alarme ao PS

por Pedro Correia, em 28.05.10

 

O barómetro de Maio da Marktest para a TSF e o Diário Económico dá hoje as melhores intenções de voto ao PSD das últimas duas décadas e a pior de sempre ao PS sob a batuta do actual primeiro-ministro, números que só podem espantar os mais fanáticos ou os mais distraídos. É cada vez mais evidente que o País está cansado de Sócrates: "Conscientes de que vivem pior do que há cinco anos, quando o actual primeiro-ministro chegou ao poder, os portugueses cansaram-se de Sócrates. Dos trejeitos de Sócrates, das entoações de Sócrates, das promessas de Sócrates – sempre desmentidas pelos factos. Cansaram-se dos tios e dos primos de Sócrates. Cansaram-se dos amigos de Sócrates, como Armando Vara e Rui Pedro Soares. E dos amigos dos amigos de Sócrates, como Paulo Penedos e Manuel Godinho."

Palavras escritas no DELITO a 24 de Março, ainda antes do brutal pacote de "contenção" que acabou de rasgar o contrato de legislatura firmado há sete meses entre o partido do Governo e os portugueses que nele votaram a 27 de Setembro. Em ano eleitoral, com a crise já a fazer soar as campainhas de alarme em todas as capitais europeias, por cá baixou-se o IVA e aumentaram-se os funcionários públicos. Foi em 2009, no tempo das sondagens estratosféricas que parece ter sido há uma eternidade. Meses volvidos, procede-se exactamente ao contrário, traindo a boa fé dos eleitores: impostos a subir, regalias sociais a desaparecer. Em nome da mesma crise que dantes se procurava negar, com a prestimosa ajuda dos propagandistas de turno, alguns dos quais não tardaram a virar a casaca.

Sócrates, confiante na sua boa estrela e na prosa servil dos bajuladores de serviço, apercebeu-se demasiado tarde que não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo. Faria bem o Partido Socialista - todo o Partido Socialista - em acautelar-se desde já com a dimensão dos estragos, atribuindo crédito ao barómetro da Marktest, que funciona como urgente sinal de alarme. Relembro o que aqui escrevi a 27 de Abril: "Este Governo chega ao fim do primeiro semestre já cansado - evidência que os dotes mediáticos do primeiro-ministro não consegue ocultar. É demasiado fácil augurar-lhe vida curta. E quanto mais tarde este PS que Sócrates transformou numa massa amorfa perceber isto mais longa será a sua futura travessia na oposição."

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Estava à vista

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.05.10

É claro que um homem da estatura de D. José Policarpo, que não precisa de pedir licença a Roma para pensar e dizer alto e bom som o que pensa, mais dia menos dia voltaria à sua estrada. Fê-lo com a naturalidade e a inteligência de sempre, sem rodeios, de forma incisiva.

Se lermos as suas declarações e tivermos presentes as declarações, que eu quase diria premonitórias, de Pedro Santana Lopes, pode-se começar a ter o filme das presidenciais em caso de recandidatura do actual Presidente da República.

Era a prova que faltava, para quem ainda duvidava, da autenticidade do erro palmar de Cavaco Silva. Quem tem os conselheiros que tem também não pode queixar-se. O único vencedor à direita do PS foi o arquitecto Saraiva.

Nesta altura, já não sei se devo ter pena de Cavaco Silva se do seu eleitorado. Um órfão será sempre órfão.  

 

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Um novo Cavaco

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.05.10

Começa a ganhar forma aquilo que para mim já era previsível há algum tempo. Os resultados do Barómetro TSF/DE não deixam margem para discussão. Pedro Passos Coelho pode ser um jotinha, não ter a estatura de nenhum dos ex-líderes do PSD, incluindo Santana Lopes, e não possuir o passado político, académico ou profissional que o recomendem para primeiro-ministro; ou estar à espera de ser governo para iniciar o estágio que até hoje não teve. Mas a forma como tem feito os trabalhos de casa e tem sabido contornar as dificuldades, a começar pelas que lhe foram colocadas pelos correligionários do partido, indiciam o início de um novo ciclo político. Não tendo dotes de pitonisa também não sei o que o futuro nos reserva. Porém, de uma coisa tenho a certeza: se o PS não começar já a preparar o futuro, empreendendo uma verdadeira renovação dos seus quadros, pondo termo ao carreirismo das suas primeiras linhas, adoptando um novo estilo de liderança e de comunicação com o país, cortando a direito e fazendo uma marcação política cerrada, competente e séria, dificilmente passará incólume pelo turbilhão que aí vem. Um Cavaco com horizontes renovados, algum mundo e um exército disposto a "morrer" por um lugar ao sol, era o pior que poderia acontecer a José Sócrates e ao PS. E ainda falta passar o rubicão das presidenciais.

  

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Sem rede

por Ana Sofia Couto, em 28.05.10

Numa sociedade perfeita (que, como diz um poema de que gosto muito, é daquelas coisas que não há mas há – existem utopicamente, em pensamento ou ideia), o trabalho e a vida não se opõem. Num sistema demasiado imperfeito, o trabalho está mais perto da morte do que da vida. É nesse sistema que é possível que "uma empresa peça aos funcionários para assinarem documentos a garantir que não se vão suicidar". E quando nem os monges budistas podem ajudar, o melhor é colocar umas redes para travar as quedas.

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Da negação

por José Gomes André, em 28.05.10

 

Primeiro, não havia crise. Depois havia crise, mas Portugal estava imune aos seus efeitos. Em seguida, Portugal já não estava imune, mas estava preparado para enfrentá-la. Depois já não estava assim tão preparado, mas foi o primeiro país a sair da crise. Em seguida aceitou-se que a crise continuava, mas logo se afirmou que era igual em todo o lado. Depois já não era igual em todo o lado e Portugal estava muito mal, mas a culpa era do ataque especulativo.

 

A próxima frase desta rábula está por escrever, mas há uma constante manifesta em todo o processo: as autoridades políticas (e a esmagadora maioria dos "analistas") preferiram negar sistematicamente a realidade do que reconhecer a sua indiscutível evidência. Enxovalharam os críticos com epítetos que variaram entre "negativistas", "velhos do Restelo" ou o elevado "xéxés", mas nunca se dispuseram a avaliar as suas próprias incongruências. Diz-se por aí que um dia destes batem com a cabeça na parede. O problema é que já bateram e estão com um hematoma tão grande que não há curativos à vista.

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 28.05.10

 

Cristina Branco

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Propaganda pura

por José Gomes André, em 28.05.10

"Sócrates foi agraciado com a Ordem Industrial de São Paulo, a que não é estranho o esforço que tem feito para atrair grandes empresas brasileiras a investir em Portugal". Com esta intervenção jornalística absolutamente neutral se inicia esta bela "peça", na qual não falta o momento de auto-elogio socrático (sem questões, sem contraditório, sem análise crítica ou sequer factual das relações entre Portugal e Brasil) e a referência ao modo como os brasileiros investem em Portugal "mesmo num cenário de crise" (afinal de contas, importa reforçar a auto-estima nacional!). Nota ainda para o panegírico final a Jorge Sampaio, que vai tentar apresentar no Fórum Mundial para a Aliança das Civilizações (cito o jornalista) "soluções inovadoras para ultrapassar equívocos, para aproximar culturas, religiões e hábitos muito diferentes, mas não necessariamente antagónicos". Seja lá o que isso for.

 

P.S. A peça é assinada por João Pacheco de Miranda, autor desta outra maravilha propagandística destacada pelo Gabriel Silva.

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A última oportunidade?

por João Campos, em 28.05.10

No PúblicoO líder parlamentar do PSD, Miguel Macedo, afirmou hoje que os sociais democratas vão dar na sexta-feira “uma última oportunidade” ao Governo para repensar o projecto de alta velocidade ferroviária. E se o Governo ignorar esta "última oportunidade", o PSD faz o quê? Já não dança o tango?

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E correr para longe ainda é melhor

por João Carvalho, em 28.05.10

«Torna-se difícil não saltar com osche-ããã chutos*.»

(Repórter no Rock in Rio, SIC-N)

* — Xutos, talvez...

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As canções do século (148)

por Pedro Correia, em 28.05.10

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Alegre, Sócrates e Belém

por Pedro Correia, em 27.05.10

 

Em Janeiro de 2006, sem o apoio do PS e até com a hostilidade do aparelho socialista, quando a popularidade de José Sócrates estava em alta, Manuel Alegre conseguiu mais de um milhão de votos e suplantou a percentagem obtida nas urnas pelo candidato oficial do partido. Agora, que a popularidade do primeiro-ministro atinge os níveis mais baixos de sempre, o poeta parece tolhido, à espera de um apoio que lhe será sempre dado com reservas, condicionalismos e sem a menor sombra de entusiasmo. Como se o partido lhe fizesse um enorme favor. Acontecerá no próximo domingo, dizem. Se não chover.

Confesso não entender por que motivo o autor de Senhora das Tempestades aguarda com infinita paciência o veredicto de um líder político cuja palavra não se traduz em votos. Se fosse esse o caso, Mário Soares teria pelo menos forçado Cavaco Silva a disputar uma segunda volta há quatro anos. Todos sabemos o que aconteceu: Soares, com o apoio expresso de Sócrates, não conseguiu melhor do que um humilhante terceiro lugar, recolhendo apenas 14% dos votos, o que deu imenso jeito a Cavaco.

Sócrates, cada vez mais confinado a um reduto de fiéis, precisa hoje mais de Alegre do que este precisa de Sócrates. Confrontado com as declarações hostis de alguns elementos de terceira linha do PS, que não ganhariam sequer uma eleição para a junta da freguesia onde residem, o autor de Praça da Canção deveria revelar-se agora como se mostrou em 2006: acima dos partidos, com a frontalidade de sempre, falando directamente aos eleitores sem necessidade de qualquer intermediário oriundo das sedes partidárias. Se fizer isso, amplia sem dificuldade a votação de 2006; se aparecer colado a um primeiro-ministro tão desacreditado como o actual, ficará com uma nova derrota antecipadamente garantida a pesar-lhe no currículo.

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Deus existe, eu não

por Bandeira, em 27.05.10

José Bandeira

O editor pedira-me algo entre um mínimo de 12 000 e um máximo de 20 000 caracteres. Pelos números, não precisei de muito tempo para deduzir que não estava a falar de bonecos. Comecei o texto alguns dias atrás. Até à madrugada de hoje, pelas duas da manhã, havia sangrado apenas 4718 caracteres. Parecia-me pequenito, o número, para tanto texto. Mas sei como o tamanho dos tipos de letra e das entrelinhas, o nível de zoom, o grau de embriaguez e pormenores técnicos do género alteram a nossa percepção das coisas. Não é o mesmo que escrever num linguado de 80 por 25 (preferia não revelar a minha idade desta forma, mas nada a fazer). Percebi que, tendo em conta os outros compromissos, todos eles inadiáveis, iria ser muito difícil cumprir os prazos sem passar algumas noites em claro. E fui tomar um ansiolítico com um pingo de uísque irlandês e duas pedrinhas de gelo: a situação exigia-o e eu sou, acima de tudo, um profissional.

Hoje chegou-me, por e-mail, um texto de um autor amigo. Destina-se a publicação no mesmo livro e está sujeito às mesmíssimas regras que o meu. Antes sequer de o ter lido, deu-me ideia de ser demasiado pequeno, liliputiano até: mais ou menos 60 Kb, era o que pesava o anexo.

 

Estremeci com a ideia de contactar o desacautelado autor e, correndo o risco de lhe provocar uma síncope, dizer-lhe que seria necessário abandonar por completo os animais de estimação, a família, o mundo e, o que é pior, as sessões de hidroterapia para escrever, em dois ou três dias, seis ou sete vezes mais do que as 2544 palavras que ali se viam. Mas entretanto li o texto e a inveja falou mais alto. “Que se dane”, pensei—

 

Espere. “Palavras”?

Olhei de novo. À frente do número 2544 estava claramente escrito “palavras”. Pus-me branco, depois verde cinza e por fim de uma cor indeterminada que associo a algo saído da conduta muscular membranosa que vai da faringe ao estômago e a que alguém não tão mete-nojinho quanto eu daria o nome de “esófago”. E no entanto, eu podia jurar que, no local onde agora lia “palavras”, dantes se lia “caracteres”.

 

Abri o meu texto. Lá estava: 4718 palavras. Cliquei em “palavras” e abriu-se uma janelinha informando-me, entre receitas de sopa de peixe, previsões sobre o fim do mundo e outras coisas utilíssimas que o Word traz, que o meu texto ia já em 27 267 caracteres, espaços incluídos, que espaços também são uma espécie de gente e ocupam—aah—espaço.

 

Respirei como há dias não respirava, na sequência certa, inspira–expira, inspira–expira, sabe como é. Tratei do IRS, fiz umas festas à gata, peguei na tesoura e coloquei a impressão do texto à minha frente. E agora chegue-se para lá, melindroso leitor, cubra os olhos, cubra os olhos que isto vai ser um massacre.

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Coisas de mulheres

por Ana Margarida Craveiro, em 27.05.10

Ainda estou à espera do primeiro anúncio a rímel com promessas de volume estonteante e multiplicação de cílios longos que não implique uma modelo/actriz com pestanas falsas.

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