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Por estes rios acima

por Pedro Correia, em 31.10.09

Depois da série das praias portuguesas, que aqui publiquei este Verão, vem agora aí a dos rios. Começa amanhã e vai prolongar-se por todo o mês de Novembro. Trinta rios de Portugal.

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A viajante que detesta ser turista

por Pedro Correia, em 31.10.09

  

 

Poucos lugares no mundo são tão fascinantes como Istambul, onde a Europa acaba e a Ásia começa. Maria Filomena Mónica, no rasto de tantos milhares de viajantes, passou por lá há quatro anos e regressou rendida aos encantos da antiga Constantinopla, cuja conquista pelo otomanos, em 1453, marcou o fim da Idade Média.

Abundam os lugares-comuns sobre a Turquia. Antes de embarcar, Filomena Mónica não foi imune a eles. Mas a realidade que viu era bem diferente: “O trajecto até ao hotel deixou-me boquiaberta. A marginal, ao lado do Mar de Mármara, está cheia de árvores, há ruelas para os joggers, e por todos os lados se vêem parques infantis. O trânsito é infernal, mas as bermas das ruas estão tratadas e os passeios limpos. Onde as vias sujas que imaginara? Onde os becos imundos? Onde os cães escanzelados? Afinal, do ponto de vista sanitário, o Oriente não era tão mau quanto supusera.” Palavras da socióloga no seu mais recente livro, Passaporte.
Istambul sempre foi uma confluência de culturas – e daí o fascínio singular desta cidade carregada de um peso histórico proporcional à sua valia geográfica que seduziu povos das mais diversas latitudes.
Sem vocação para turista, a autora deixou-se hipnotizar pela paisagem irrepetível:“Só quando fui passear de ferry no Bósforo, partindo de Eminönü, na parte baixa da cidade, até ao porto de Anadolu Kavagai, já na Ásia, à entrada do Mar Negro, Istambul me conquistou. A saída, com a linha do horizonte recortada por milhares de cúpulas, é espectacular, como espectacular é o tráfego no qual somos mergulhados. Não recordo um local onde, como sucede no Bósforo, nos possamos cruzar, ao mesmo tempo, com petroleiros, ‘cacilheiros’, vasos de guerra da NATO, iates de milionários, graneleiros e fragatas de pescadores.”
 
É a polémica de momento nas principais chancelarias europeias – uma polémica que promete arrastar-se por vários anos. Deve ou não a Turquia aderir à União Europeia? De todos os argumentos invocados, há um que merece especial ponderação: a entrada deste imenso país que se espraia por dois continentes alargaria a configuração geográfica da Europa a limites nunca antes imaginados, fazendo a UE expandir-se para os confins da Ásia Menor. Franqueada a entrada à Turquia, porquê parar aqui? Porque não prosseguir até à Síria, ao Iraque, ao próprio Irão?
A Europa não é um clube cristão nem uma realidade monolítica do ponto de vista histórico. Mas a geografia tem um peso inultrapassável. Para o melhor e para o pior. Eça de Queiroz, que Filomena Mónica cita, apercebeu-se disso também ao navegar para Oriente: “A Humilde Porta vive num estado de humilhação permanente. A Europa tem-na tratado como um seu subalterno, dependente e inconsciente.” Palavras escritas em 1877 mas que podiam datar de hoje.
 
Neste livro de viagens escrito por alguém que confessa ter perdido o gosto por galgar fronteiras, Maria Filomena Mónica fala-nos de várias viagens. Visitou a Andaluzia - e deteve-se, maravilhada, na mesquita de Córdova. Ficou indiferente às pirâmides do Egipto mas adorou subir o Nilo. Voou a Macau e Hong Kong. Revisitou Oxford três décadas depois de ali ter estudado. E fez várias viagens na nossa terra - a Lisboa, ao Porto, a Évora, a Fátima, aos confins do Barroso e ao Algarve em pleno Agosto.
Todas as reportagens merecem ser (re)lidas.
 
 

Passaporte, de Maria Filomena Mónica (Alêtheia, 2009). 252 páginas.

Classificação: * * *

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Belém na luta pela liderança do PSD

por Paulo Gorjão, em 31.10.09

aqui tinha referido os cálculos à volta de Belém e as suas ramificações no PSD. O jornal Expresso pega hoje no assunto. Seguramente por coincidência, no pior momento de popularidade de Aníbal Cavaco Silva, eis que surge Alexandre Relvas a liderar uma iniciativa que, objectivamente, procura desviar as ambições de um eventual candidato a Belém para um alvo diferente, i.e. a liderança do PSD...

O argumento de que Pedro Passos Coelho daria um "apoio necessário" e não um "apoio efectivo e verdadeiramente mobilizado" à (re)candidatura presidencial de Cavaco Silva é treta, pura e dura. O argumento não tem pés nem cabeça. Sejamos claros: alguém consegue imaginar o que é que Passos Coelho teria a ganhar em fragilizar a candidatura presidencial de Cavaco Silva?

A verdade é que não interessa quem é o líder do PSD. Seja quem for, se quiser e se não houver melhor alternativa, Cavaco Silva será sempre o candidato apoiado pelo partido. O que varia na equação é a existência, ou não, de uma alternativa. É por isso que é importante que Relvas apareça agora a [1] sinalizar a Marcelo Rebelo de Sousa que Cavaco Silva pretende recandidatar-se e [2] a desviar as suas atenções para o PSD. O resto é música de embalar...

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Capitalismo selvagem

por Teresa Ribeiro, em 31.10.09

Também é isto.

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Pregar aos chicos

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.10.09
António pregou aos peixes. Este senhor prega aos chicos. O primeiro chegou a Santo. O segundo não aspira a tal, mas tem tudo para isso. A única diferença entre um e o outro é que enquanto o primeiro pregou para os peixes, que o escutaram, o segundo prega para chicos que não percebem o que ele diz porque sofrem de iliteracia. É que apenas aprenderam a conjugar dois verbos na perfeição: sacar e safar. Em mais de trinta anos de democracia este país não viu outra coisa que não fosse uma cultura de chico-espertismo. Uma criança não vai para a escola para aprender. Vai para sacar uma notas que depois lhe permitam safar-se lá fora e assim continuar a sacar outras notas que depois lhe permitam continuar a safar-se. E é assim pela vida fora até à hora da reforma. Alguns há que conjugam esses verbos tão bem que mesmo depois da reforma continuam a conjugá-los: a sacar e a safar-se. De caminho também sacam algum para os filhos e para a família e ajudam os amigos a safarem-se. Na actividade privada ou em empresas públicas, na tropa ou na banca, com os subsídios à agricultura ou os fundos europeus. Sem esquecer a política, onde uma multidão de chicos entra e sai para sacar e safar-se. Do general ao trolha, do banqueiro ao arrumador, do taberneiro ao escritor. É certo que há um tratado que continua por escrever, mas escrever para quê se já todos o leram. Nas entrelinhas. No recato de um gabinete, numa chamada telefónica, num piscar de olhos cúmplice. E alguns há que dominam esse tratado na perfeição. Pouparam o tempo da leitura e safaram-se. Na política houve quem atravessasse todo o arco a safar-se. Da esquerda à direita, de Lisboa a Bruxelas. Um discurso aqui, uns votos ali, um saquezito aqui, uma safadeza ali, uma peúgas para mim, uns bilhetinhos para ti. Ernâni Lopes é um homem bom. António também era. Os homens bons são homens decentes. Pena é que na casa dos chicos ninguém os aponte como exemplo. Se este país fosse educado na seriedade, no trabalho e na honestidade não existiria. Seria um país de homens bons, um país decente. Um país de Ernânis. Não teríamos espertalhões. Não haveria chico-esperto que se safasse, que conseguisse sacar alguma coisa. Os tribunais não serviriam para nada. Nenhum magistrado se safaria. Na carreira, evidentemente. O Conselho Superior de Magistratura seria um corpo espúrio do regime. O Millennium não pagaria dividendos. O Porto nunca teria sido campeão. O Colégio Militar não existiria. Portugal, muito provavelmente, também não existiria como país. Como Camões, Sena ou Cardoso Pires também nunca teriam existido. Eles ainda são hoje, para os sucateiros deste país, para os árbitros, para os senhores que mandam na bola e nos bares de alterne, o exemplo do fracasso. Já de Saramago não dizem o mesmo. Do Diário de Notícias ao Nobel, lá se foi safando: safou-se do PREC, de Cunhal, do PCP, do Ribatejo, das portuguesas e de Portugal. Até chegar a Estocolmo. Escrevendo, ora com vírgulas, ora sem vírgulas, lá se foi safando e sacando os respectivos direitos de autor. Medina Carreira também nunca teria existido, embora haja quem diga que este senhor não existe de todo e que não passa de um fantasma da República. E Cavaco Silva também não seria Presidente da República. Nem José Sócrates primeiro-ministro. Nem eu estaria onde estou. Nem este blogue (nem muitos outros mais) teria conhecido as luzes da blogosfera. Ernâni Lopes, que sabe de economia como poucos, devia meditar nisto. Ele faz-me lembrar alguns juízes, alguns advogados e alguns políticos que vivem fora do mundo. Os gatos fedorentos não existem por acaso. Sacando e safando-se. A mim ninguém me ensinou a conjugar o verbo sacar. E o safar ainda menos. Tenho pena. Por mais que tente nunca conseguirei aspirar a ser um sucateiro respeitável. Ou um "advogado de sucesso". A mim limitaram-se a dizer-me que a decência não pode ser cabulada. A decência não se ensina. Transmite-se. E para isso é preciso tê-la. Como aos tomates. Ernâni Lopes devia ter percebido isto.

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Um conselho amigo

por Paulo Gorjão, em 31.10.09

Não me parece boa estratégia que Marcelo Rebelo de Sousa utilize o seu programa na RTP para comentar e esclarecer temas que tenham que ver com a sua própria pessoa e o seu envolvimento activo na vida partidária do PSD. Cada vez que o fizer estará a dar argumentos a quem quer acabar com o seu programa, precisamente com a justificação de que o programa serve a sua estratégia pessoal e partidária.

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Da desfaçatez...

por Paulo Gorjão, em 31.10.09

José Eduardo Martins -- declaração de interesses: pessoa que estimo -- atirou-se a António Nogueira Leite relembrando o seu passado. Por momentos temi o pior e que uma vez mais José Eduardo Martins perdesse a cabeça e recorresse ao insulto fácil. Mas, vá lá, desta vez não houve filho disto e daquilo... Enfim, nestas coisas dos passados, acho que um pouco de prudência -- também a pensar no futuro -- não ficaria mal a ninguém. José Eduardo Martins deveria ter alguma contenção para não ouvir coisas que certamente não gostaria de ouvir sobre o seu próprio passado. Adiante. José Eduardo Martins seguramente já se arrependeu de mais um excesso, fruto de ter o coração ao pé da boca.

P.S. -- A cereja no topo do bolo, o legado final de Manuela Ferreira Leite, é também este. Além dos 29%, a líder do PSD ao prolongar a transição durante meses arrasta no tempo uma luta fratricida da qual ninguém sai a ganhar, antes pelo contrário. Do princípio até ao fim, Ferreira Leite deixa um péssimo legado ao seu partido.

 

Adenda

Ler também "Tantos a falar para dizer o mesmo de sempre", "Às vezes convém lembrar o óbvio" e "Contado ninguém acredita...".

 

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Passado presente (CLXXVI)

por Pedro Correia, em 31.10.09

  

 

 

Gazcidla

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Ler

por Pedro Correia, em 31.10.09

A quieta melancolia... Do Tomás Vasques, no Hoje Há Conquilhas.

PSD (II). Do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.

O labirinto do PSD. Do Luís Naves, no Corta-Fitas.

PSD Investimentos. De Rui Albuquerque, no Portugal Contemporâneo.

O líder 'redentor' do PSD. De Luís Rocha, no Blasfémias.

XVIII Governo. Da Luísa, no Nocturno.

Face oculta... De Ana Paula Fitas, n' A Regra do Jogo.

Tudo menos isso. Da Helena Matos, no Blasfémias.

Elites de Portugal (17). Do Jorge Ferreira, no Tomar Partido.

Valentina. De Cristina Nobre Soares, no Deserto do Mundo.

Obrigado. Do Tiago Moreira Ramalho, no Corta-Fitas.

Até que enfim. De Nelson Reprezas, no Espumadamente.

A natureza humana num livro. Do João Sousa André, na Estação Central.

Richard Zimler e a brutalidade. De Jorge Costa, n' O Cachimbo de Magritte.

Os argumentistas e a liberdade individual. Da Ana Gabriela, no Rio Sem Regresso.

Nos vinte anos da queda do muro, revelações do arquivo da Stasi. De Irene Pimentel, na Jugular.

Pela democracia, fim ao embargo. Do João Tunes, na Água Lisa.

Yes, they have no bananas. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Perfeitinhos eram o bigodinho do Hitler e a careca do Mussolini. De Bernardo Pires de Lima, na União de Facto.

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A onda gigante (5)

por Paulo Gorjão, em 31.10.09

Sabe qual é o maior apoiante da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à liderança do PSD? O apoiante número um? Aquele que mais ganha em desviar as suas atenções de outras candidaturas potenciais a cargos alternativos?

Ora, a resposta é muito fácil. Basta, aliás, pensar em quem marcou presença na primeira fila a organizar a onda. Ou devo dizer, antes, o ultimato?

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 31.10.09

Às Viagens Lacoste.

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A onda gigante (4)

por Paulo Gorjão, em 30.10.09

Tenho de apresentar aqui um pedido de desculpas aos meus leitores porque, na verdade, tenho estado a desvalorizar inadvertidamente a onda. Qual onda pífia, qual quê, a onda é muito maior do que tenho estado a referir. Além de Macário Correia inclui também Guilherme Silva. É uma onda de impor respeito.

Vamos lá ver se o Expresso amanhã dá uma ajudinha, antes de atingir a costa...

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Passado presente (CLXXV)

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Cine-Teatro Monumental, Lisboa

1951-1984

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A onda gigante (3)

por Paulo Gorjão, em 30.10.09

Quase 24 horas depois, começo a pensar que o melhor seria alterar o título de "onda gigante" para "onda pífia"...

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A derrota e a vergonha

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Às 8 da manhã do dia 21 de Junho de 1942, as tropas britânicas sitiadas na fortaleza de Tobruk, no norte de África, rendiam-se às divisões comandadas por Erwin Rommel, após terem sofrido baixas consideráveis. No seu quartel-general da Alemanha, Hitler rejubilou, entregando a Rommel o bastão de marechal. Ao receber a má noticia em Washington, onde conferenciava com o presidente Roosevelt, Churchill desabafou: “A derrota é uma coisa, a vergonha é outra.” Os britânicos tinham sido derrotados mas não deviam envergonhar-se. Tinham-se batido até ao limite das suas forças. Um ano mais tarde, recuperariam Tobruk.

A que propósito me lembrei deste emblemático episódio da II Guerra Mundial? É que ele constitui uma exemplar lição de vida. A desonra é perder sem sequer dar luta. Vale para todas as épocas e para as mais variadas circunstâncias – e também na política, que é a continuação da guerra por outros meios.

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A onda gigante (2)

por Paulo Gorjão, em 30.10.09

Estou aqui com uma dúvida: o apoio de Macário Correia a Marcelo Rebelo de Sousa -- ele que também apoiara Manuela Ferreira Leite em 2008 -- inscreve-se ainda na onda, tipo retardatário não convidado para fazer parte do clube, ou é a consequência visível, o efeito prático, da onda...?

 

Adenda

Ler também "Os votos que estão em disputa".

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O perigo do timing

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.10.09

Bastaram duas palavras, depois do visado ter dito mais de uma dezena de vezes que não era opção, para as hostes do PSD entrarem em acelerada ebulição. Paulo Rangel e José Luís Arnaut, de forma previamente ajustada ou por mera coincidência, mas num tom suficientemente grave e sério, vieram promover, e de antemão apoiar, a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à liderança do PSD. Não sendo parvos, e tendo ambos lido Pavese, estarão de acordo em que não se trata de pedir ao prof. Marcelo que volte a um lugar onde foi feliz, mas simplesmente de reunir e dar-lhe as condições que ele gostaria de antes ter tido para poder disputar com hipóteses de sucesso o lugar de primeiro-ministro sem ficar à mercê de uma qualquer vichyssoise mal digerida. Durando 4 anos, como seria desejável para o país, ou apenas 2, como será necessário para que o PSD entretanto não se evapore, qualquer um deles sabe que vai ser muito difícil, se não houver escândalos nem uma operação do tipo Freeport, apear José Sócrates e o PS. Lançar agora Marcelo deixa Pedro Passos Coelho numa posição mais difícil para conseguir o resultado que Manuela Ferreira Leite lhe tirou. Reduz-lhe a margem de manobra e, pela rápida multiplicação de vozes da ala barrosista, vem aí um tsunami interno. O timing não é ingénuo e aponta para a concretização de uma estratégia anterior ao ciclo eleitoral. Não sei mesmo até que ponto Marcelo Rebelo de Sousa não estava já ao corrente destas movimentações. Sem se tirar o tapete a Manuela, que apesar de tudo venceu duas eleições, faz-se avançar Marcelo. Aproveita-se a actual calmaria e o defeso constitucional de seis meses para organizar as tropas, distribuir tarefas e, sem pressas, preparar o partido e ir tecendo a teia. Marcelo é um homem politicamente bem preparado, um académico reconhecido intra e extramuros, tem carisma, capacidade de liderança, inteligência, cultura e argúcia. Vai ser exigente na escolha dos colaboradores e se necessário cederá estrategicamente a alguns lobbies regionais (desde logo ao do Algarve, embora se detestem reciprocamente). É vaidoso. Mas José Sócrates também é. E embora continue a pensar que José Sócrates é no actual contexto o melhor primeiro-ministro a que podíamos aspirar (também tenho a consciência que o Benfica de hoje não é igual ao de Koeman ou Fernando Santos) era importante que não se perdesse a visão, a profundidade de análise e a noção de futuro. Neste cenário, seria bom que o PS, que sobreviverá muito para lá de José Sócrates, do XVIII Governo Constitucional e da confusão da Operação Face Oculta, começasse já a olhar um pouco mais para a frente. Arrumada, por agora, a questão da governação, e antes das primeiras picardias parlamentares, enquanto a  Europa se vai definindo e não começa a aplicação aligeirada do Tratado de Lisboa, importa começar a pensar, não necessariamente na sucessão de José Sócrates, como eu gostaria, mas nas perspectivas que importa trabalhar. A marcação terá de ser cerrada e não são admitidos erros. Nem na governação nem no PS. Daí a importância e o perigo do timing. Na decisão e na execução.

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Uma polícia com paredes de vidro

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.10.09

A forma como têm surgido as notícias na comunicação social relativas à Operação Face Oculta (ainda um dia há-de haver alguém que me explique a escolha de nomes tão bizarros para as operações da PJ), para além da evidente curiosidade que o assunto desperta, faz-me pensar que pelo menos por uma vez a investigação da PJ não se limitou a aguardar sentada, ao contrário do que aconteceu noutros processos que deram em nada, a transcrição de escutas telefónicas. Até agora, os relatos da imprensa e as imagens das televisões têm todos muito "molho". A ascensão, queda, morte e ressurreição de um caixeiro que chegou a banqueiro, condimentada com a generosidade de um grupo empresarial de Aveiro [é pena que uma terra com a tradição liberal, republicana e democrática de Aveiro seja hoje mais conhecida pelas proezas dos seus figurões do que pela sua história, excelente gastronomia e simpatia das suas gentes] e a ambição de um rapazinho nado e criado numa jota e que, por acaso e só mesmo por acaso, é filho do "patrão" das REN, tem todos os condimentos para servir de guião a uma novela policial. Condimentos, refeições abundantes, carros topo de gama, gente obscura que se move com facilidade nos meios políticos e empresariais, membros do Governo que não se deixam corromper, pagamentos em dinheiro e tipos com ar parolo, com os bolsos cheios e ávidos de promoção social, é coisa que parece não ter faltado. Para já só faltam as louras, mas com sorte elas ainda hão-de aparecer. Como assinalava ontem o João Gobern na sua revista da imprensa diária, agora o importante é saber se tudo isto tem consistência, se desta vez a PJ fez o trabalho de casa bem feito e se de uma vez por todas será possível começar a agarrar na maltosa que se apoderou dos partidos, dos negócios com as empresas do Estado e da vida pública, e que à custa deles ganhou educação, estatuto, notoriedade, posição, uma carreira e um pé-de-meia, atropelando todos os valores que lhes permitiram guindar-se às posições que ocupam. Para já, a única certeza, atendendo à pormenorização dos relatos das operações e ao detalhe das vigilâncias, é que a PJ tem paredes de vidro. E nem sequer é fosco. 

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A notícia

por Teresa Ribeiro, em 30.10.09

Não sabemos nada dele. Pode ser apenas um palerma, mas como o estado de paixão nos limita o discernimento, merece que lhe demos o benefício da dúvida. Nesse caso poderá ser apenas um homem loucamente apaixonado. O que faz dela, a mulher de quem menos sabemos ainda, uma falsa, a pérfida encarnação do anjo azul, versão tropical. São mulheres assim que nos dão má fama.

Se fosse ao contrário, seria notícia? Talvez. Mas não seria a mesma notícia. Suscitaria menos dúvidas quanto ao perfil dele e dela e a aura romântica desaparecia da história. O tom seria de comiseração.

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Passado presente (especial)

por João Carvalho, em 30.10.09

 

Era suposto já não haver...

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Emanuelle Béart

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Um pedido

por António Manuel Venda, em 30.10.09

«Peço-lhe que me responda com honestidade!»

Uma jornalista da TVI, esta noite, na entrevista a José Eduardo Bettencourt, o deplorável presidente do meu clube (logo a seguir a uma pergunta que lhe fez)

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.10.09

Ao Womenage à Trois.

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Passado presente (CLXXIV)

por João Carvalho, em 29.10.09

 

Carta de Gelados Olá (1980) – tentem ver alguns preços em escudos

(com a colaboração da nossa comentadora MACarvalho)

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De Portugal inteiro (49)

por Pedro Correia, em 29.10.09

Louletania (de Loulé)

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A onda gigante

por Paulo Gorjão, em 29.10.09

A propósito da onda que se espera esta semana, lembrei-me de uma outra onda que gerou o pânico no Algarve no Verão de 1999. Curiosamente, Marcelo Rebelo de Sousa demitira-se da liderança do PSD nesse ano em Março. A onda de 1999 tem um traço em comum com a de 2009: a sua natureza. Ambas não passam de miragens...

Um pouco mais a sério. Alexandre Relvas, José Luís Arnaut, Nuno Morais Sarmento e Paulo Rangel são grandes amigos de Pedro Passos Coelho. Disfarçam bem, mas são de certeza absoluta. Só assim se explica que todos eles -- todos -- participem activamente neste número. Quando Marcelo Rebelo de Sousa os deixar de mão a abanar, todos eles serão responsáveis por, objectivamente, ter tornado o candidato que emergir no seu campo numa segunda escolha.

 

P.S. -- Duas notas finais. Primeiro: vejo que, aparemente, José Pedro Aguiar-Branco se colocou à margem deste filme. Segundo: Rangel deixa o caminho aberto a Marcelo. Adoro este título. Como se Marcelo necessitasse que lhe abrissem o caminho...

 

Adenda

Curioso que Sarmento apareça também ele neste número. Ele que queria tanto discutir ideias e não pessoas. Enfim, também sabe contar espingardas...

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Passado presente (CLXXIII)

por Pedro Correia, em 29.10.09

  

 

Laranjada Schweppes

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Breve evocação

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.10.09

"Whatever you do will be insignificant, but it is very important that you do it" - M. Gandhi

 

Ontem, no mesmo dia em que era divulgado um relatório sobre a banalização da violência entre os jovens, do qual a edição de hoje do Público faz eco, vi a minha tarde abruptamente cortada pela notícia, esmagadora, avassaladora, da morte às mãos de um pretenso esquizofrénico de uma pessoa amiga e do seu irmão. Mais do que a morte em si, que a todos um dia nos alcança sem aviso prévio, foi a brutalidade do acto, a sua frieza, que me deixou desconcertado. Que pode levar um homem a degolar um seu semelhante, a desferir repetidos golpes de arma branca contra quem não tinha outro meio de defesa do que as próprias mãos, e depois seguir calmamente o seu caminho deixando as vítimas a esvaírem-se em sangue? Conheci o Pedro há quase três décadas, namorava ele com a mulher com quem veio a casar e que lhe deu dois filhos. Depois, com o correr dos anos, fomos perdendo contacto e, ultimamente, tirando uma das últimas vezes em que ele estivera pelo Algarve, raramente nos encontrávamos. Ia sabendo dele por amigos comuns e alguns familiares que amiúde com ele se cruzavam. Quando ontem soube o que tinha acontecido, senti desabar sobre os mais indefesos toda a injustiça do mundo. Dir-me-ão que se tratou de um acto isolado, de um gesto tresloucado. Mas eu não acredito que haja loucura que justifique a violência. As mãos que lhe permitiam cuidar das flores com o mesmo desvelo e a prazenteira amabilidade com que falava a todos os que encontrava nada puderam fazer perante tamanha violência. Sei que de nada servirá, que não haverá conforto que possa valer a quem perdeu os seus em circunstâncias tão inauditas, mas lá, onde estiverem, o Pedro e o irmão podem ter a certeza de que por aqui continuará a haver quem faça da luta contra a violência uma bandeira. Para que ainda que por breves instantes continue a valer a pena tomar um café com um amigo ou fazer uma onda no Guincho. Para que as estrelícias, as margaridas, as gerbérias, as rosas, em suma, para que todas as flores de que eles tanto cuidaram nos últimos anos possam continuar a nascer, a florir e a morrer. Em Cascais ou em qualquer outro lugar. Livres e ternas.

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PSD: como perder ganhando

por Pedro Correia, em 29.10.09

Muitas vezes o caminho mais rápido para a derrota é a vitória. Tenho pensado nisto a propósito da vitória eleitoral do PSD em Junho, nas europeias. Foi uma vitória que fez mal ao partido. Apesar de ter sido pouco expressiva, criou um ambiente de euforia na direcção social-democrata e entre os seus apoiantes mais acérrimos que lhes fez perder todo o discernimento. Pensaram que a partir daí eram favas contadas: bastava o inegável descontentamento existente no País contra o Governo socialista para que isso se traduzisse automaticamente em votos no PSD em Setembro. Os blogues que apoiavam Manuela Ferreira Leite foram a melhor confirmação deste prematuro estado de euforia, nada condizente com a realidade: já se profetizava, com inabalável convicção, o novo poder laranja. Alguns lançaram até anátemas internos contra aqueles que, nas hostes sociais-democratas, não seguiam a ‘linha justa' e teimavam em criticar a líder pela desastrada escolha dos temas prioritários da campanha e pelos erros cometidos na formação das listas eleitorais.

Quem tinha razão eram os críticos, sabe-se agora. Aqueles que não se iludiram com o bom resultado do PSD em Junho e alertaram em devido tempo contra os excessos de euforia e a necessidade de unir primeiro o partido para depois conquistar o País. A ‘linha dura’ de Ferreira Leite fez orelhas moucas a tais conselhos, escutando apenas as vozes acríticas dos incondicionais. Os resultados estão hoje à vista. 

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Crianças quê?

por João Carvalho, em 29.10.09

Espero não estragar a bem apanhada série do Pedro Correia sobre expressões intragáveis, mas não resisto a dar conta de uma que mexe comigo e que se ouve cada vez mais: «crianças institucionalizadas». Deve ser outro tique que entrou no 'linguajar da moda' – e, como se sabe, há palavras e expressões que, ditas hoje em dia por meia dúzia de cabecinhas com direito a tempo de antena, passam a ser ditas pela carneirada toda.

Chamar «crianças institucionalizadas» às crianças que a vida largou ao abrigo do Estado e de instituições de protecção de menores é mais do que consagrar uma chancela estúpida: é recorrer a uma definição execrável e espalhar um estigma de muito mau gosto. Ainda pior quando é usada tantas vezes por mulheres, até por mulheres que são mães e que também são responsáveis por instituições dessas. Será que estas também são "mulheres institucionalizadas"? E os velhos que acabam colocados em lares e instituições do género também são "idosos institucionalizados"? E os pobres que se lavam, se vestem, comem e dormem em instituições de apoio à pobreza chamam-se "carentes institucionalizados"?

Passo-me com esta gente, que devia ser afastada e reenviada para o anonimato. Não o dizem por mal? Então parem um momento e habituem-se a pensar, antes de abrir a boca para debitar o mesmo que ouviram aos outros geniozinhos bacocos.

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Novas Oportunidades

por Pedro Correia, em 29.10.09

 

Há seis meses, já em campanha contra Isaltino Morais em Oeiras, Marcos Perestrello acusava-o de saltar de poleiro político com excessiva facilidade. "Foi presidente de câmara, depois decidiu-se pelo Governo e voltou à câmara", sublinhava com razão o jovem socialista, revelando a ambição de vir a liderar o concelho. Azar: Isaltino derrotou-o a 11 de Outubro. Os eleitores socialistas de Oeiras esperariam que o cabeça de lista do partido, apesar de derrotado, assumisse o mandato autárquico para que foi eleito, tornando-se vereador. Era natural que esperassem isso dele: a 12 de Outubro - há 17 dias apenas - o próprio Perestrello garantia "assumir-se" desde logo como vereador da oposição, prometendo que não iria "perder de vista os interesses de Oeiras". A promessa, apesar de tão categórica, durou menos de três semanas: ei-lo com o pomposo título de secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, como braço direito de Augusto Santos Silva, pronto a fazer agora aquilo que há seis meses criticava em Isaltino. Adeus câmara, olá Governo. Este é o lado doce das derrotas eleitorais nas hostes socialistas: há sempre uma gamela de reserva para atenuar as mágoas políticas, seja na longínqua Bruxelas seja na Avenida Ilha da Madeira, em Lisboa, com uma bonita vista para o Tejo. Talvez seja a isto que chamam Novas Oportunidades. Contra os canhões, marchar marchar. E Oeiras que fique entregue a Isaltino.

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 29.10.09

Às Boas Intenções (da Alemanha)

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Contemporaneidades

por Leonor Barros, em 28.10.09
A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego, para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS. A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem. A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa... A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é e mai nada. E o amigo do marido da Maria filha da velha Atão tu não lhe dissestes que a tu mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai… A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente. E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

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Só que lá não há sondagens...

por João Carvalho, em 28.10.09

«O actual presidente deverá ser reeleito, de acordo com as sondagens.»

(Rodrigo Guedes de Carvalho sobre as eleições em Moçambique, no Jornal da Noite, SIC)

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De Portugal inteiro (48)

por Pedro Correia, em 28.10.09

Expresso da Linha (de Oeiras)

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Nada como um espirro dos antigos

por João Carvalho, em 28.10.09

As autoridades de Saúde norte-americanas – ao que dizem – rejeitaram a vacina anti-gripe A que Portugal encomendou e está a aplicar. A Alemanha parece que está a fazer o mesmo que os EUA.

No hemisfério Sul, onde já é Primavera, a gripe A não teve maiores efeitos do que as gripes sazonais comuns. A OMS, porém, insiste na ideia de pandemia e corre por aí o aviso de que a gripe A pode afectar um-terço da população europeia. Talvez algo como a ainda recente "gripe das aves", que ia varrer um-quarto da população mundial?

Em Portugal, as nossas autoridades de Saúde andam a esclarecer que quaisquer eventuais efeitos provocados pela vacina são sempre preferíveis à gripe A, sem que esclareçam de facto que efeitos podem ser esses.

♦ ♦ ♦

Tal como há uns meses se adivinhava, a pior epidemia é a da informação e contra-informação em torno de tudo isto, é a da "guerra" entre os laboratórios multinacionais, é a da primazia das grandes distribuidoras farmacêuticas, é a dos interesses obscuros envolvidos. Isto, sim: é epidemia e gera alarme.

Há necessariamente muita coisa escondida por baixo do que vem à superfície. Nada melhor do que darmos um belo espirro dos antigos, colectivo e com a boca destapada, para ver sair da toca quem se esconde.

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Velhas descartáveis

por Leonor Barros, em 28.10.09
Esta é a história da Maria Odete. Maria Odete não foi sempre assim. Muito antes deste mal que lhe afligia os humores e a fazia espojar-se no chão como uma égua relinchante, tempos houve em que Maria Odete era mulher pujante, equilibrada em saltos vertiginosos, prazeirosa em ostentar roupas, ouros refulgentes e carros vistosos na proporção dos restantes acessórios. Maria Odete casara-se num ímpeto desconhecido, atribuído aos repentes que dão às mulheres fêmeas obedientes e submissas, as peças imprescindíveis aos machos dependentes e incapazes, acessórios tão preciosos na cozinha como a máquina de lavar roupa, um gadget mais valioso que qualquer robot de cozinha. E assim foi. Ao macho fazia jeito uma fêmea que lhe ajeitasse o lar, à fêmea fazia falta um macho, a idade talvez assim ditasse, ou um macho apenas que a fizesse resfolegar de prazer e lhe oferecesse roupas e carros para alardear na cara da vizinhança e demais conhecidos. E depois vieram filhos, feitos como os filhos são mas sem a própria Maria Odete saber como foi. Dizia-se àquele tempo que Maria Odete tinha as miudezas encarquilhadas e, por conseguinte, Maria Odete admirou-se quando se viu inchar como se tivesse deglutido uma melancia, a pança que nem um balão, as mamas hirsutas e superlativas. Teria sido num desses dias em que o marido veio da obra, a fornicação aliviava-lhe os nervos fracos e era cumprida num ritual terapêutico. Resfolegaram em uníssono, livres, e, sabendo-se incapaz de gerar fruto, resfolegaram ainda mais sofregamente, libertando odores e secreções, entregues ao prazer supremo da carne que não geraria fruto. Mas o Senhor foi amigo e para salvar Maria Odete deste pecado original, a pobre acorria com frequência às confissões do prior da freguesia, plantou-lhe no ventre o que seria a sua primeira filha. E agora ali estava Maria Odete, divorciada do marido das fornicadelas terapêuticas, com dois filhos adultos. A filha tinha ido buscar as crianças à escola quando o telefone tocou. Uma maçada, logo naquele momento em que o Bernardo lhe pedia colo e a Margarida a desafiar decibéis numa birra descomunal. Era a mãe. Mal falava. Acorreu a casa da progenitora. Encontrou-a estiraçada no chão da sala, em cima da carpete de Arraiolos, a revirar os olhos num leve estertor e a espumar pela boca que mais parecia ter engolido o frasco do detergente da louça. Chamou-a três vezes Mãe, ó mãe p’amor de deus, não se ponha assim. A mãe nada, nadinha, népia, nicles. Ó mãe continuou Ó mãe. Maria Odete ficou dois dias no hospital. Enquanto isso, os filhos decidiam das suas vidas e da vida da mãe. A filha tinha as crianças para cuidar, o filho vivia numa casa pequena, logo o que fazer com a espumacenta mãe sobre os Arraiolos da sala da casa numa zona nobre da capital lusitana? Mesmo antes de saber o veredicto final e do parecer clínico, - não seria por acaso algo passageiro? - decidiram metê-la num lar mediante o seu julgamento de filhos dedicados. Que era o melhor. Que não podiam. Maria Odete saiu do hospital pelo seu pé, - velha não era e estava recuperada de algo que não se soube o que foi - e voltou à sua casa. Logo agora que já estava tudo tratado com o lar lamentaram os filhos Ó mãe, sente-se mesmo bem? Ó mãe, veja lá, parece que a vi cambalear… Maria Odete perguntou-se para que serviam os filhos afinal mais céleres a descartar-se dela do que em ir vê-la ao hospital, mais rápidos a arranjarem-lhe um lar do que a saber o que tinha. E a história da Maria Odete é esta. Apenas um dos rostos visíveis e apenas uma das Maria Odetes que outrora foram mulheres e mães e agora são apenas velhas descartáveis à mercê do egoísmo dos filhos.
 

No Dia do Idoso

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Escrever direito por linhas tortas

por Pedro Correia, em 28.10.09

  

 

“Os últimos serão os primeiros.” Quem não usou já esta expressão? O que poucos sabem é que se trata de uma frase bíblica – vem no Evangelho Segundo São Mateus (19-30) e no Evangelho Segundo São Lucas (10-31). Inúmeras expressões que utilizamos neste quotidiano laico e secular, tal como a maioria dos nossos nomes próprios, têm a sua origem no livro sagrado do cristianismo. Expressões tão vulgares e tão diversas como “a carne é fraca” (São Mateus, 26-41, e São Lucas, 14-38), “ninguém é profeta na sua terra” (Evangelho Segundo São João, 4-44), “lançar pérolas a porcos” (São Mateus, 7-6), “nem só de pão vive o homem” (Deuteronómio, 8-3, e São Mateus, 4-4), “quem semeia ventos colhe tempestades” (Oseias, 8-7), “meter foice em seara alheia” (Deuteronómio, 23-26), “dois pesos e duas medidas” (Provérbios, 20-10), “separar o trigo do joio” (São Mateus, 13-30) e “olho por olho, dente por dente” (Êxodo, 21-24, Deuteronómio, 19-21).

 

De facto, a nossa linguagem comum está cheia de expressões colhidas na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o que se confirma também nestes exemplos, que estão muito longe de serem exaustivos: “bode expiatório” (Levítico, 9-15), “dia da ira” (Sofonias, 1-13), “choro e ranger de dentes” (São Mateus, 8-12, 13-42, 22-13, 24-51), “pedra sobre pedra” (São Lucas, 13-2), “voz no deserto” (São João, 1-23). Ou ainda as designações “sal da terra” e “luz do mundo”, popularizadas no Sermão da Montanha e que originaram, respectivamente, o título de um célebre filme de Herbert Biberman e um dos melhores contos de Ernest Hemingway.

E quem não conhece expressões como “crescei e multiplicai-vos” (Génesis, 1-22 e 1-28), “nada há de novo debaixo do sol” (Livro do Eclesiastes, 1-9), “lobos disfarçados de cordeiros” (São Mateus, 7-15) ou “lavar as mãos como Pilatos” (São Mateus, 27-24)? Ou adágios tão conhecidos como “ninguém pode servir a dois senhores” (São Mateus, 6-24), “pelos frutos se conhece a árvore” (São Mateus, 7-20 e 12-33), “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (São Mateus, 22-21, Evangelho Segundo São Marcos, 12-17 e São Lucas, 22-21) e “quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra” (São João, 8-7)?

 

A Bíblia é ainda um riquíssimo viveiro de aforismos que nada têm a ver com o “manual de maus costumes” de que há dias falava José Saramago para promover o seu romance Caim. Aqui ficam alguns: “A maldade é a mãe da fome” (Tobias, 4-13), “a sabedoria vale mais que as pérolas” (Livro de Job, 28-18), “quem ama a violência odeia-se a si mesmo” (Os Salmos, 11-5) ou “o que perturba a sua casa herdará ventos” (Provérbios, 11-29). Este deu origem ao título de uma excelente longa-metragem de Stanley Kramer, protagonizada por Spencer Tracy.

Na verdade, não é possível compreendermos grande parte do último milénio da arte ocidental, nas suas mais diversas expressões, sem conhecermos a Bíblia. Isto inclui os próprios livros de Saramago, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou o seu mais recente romance. Afinal “Deus escreve direito por linhas tortas” (Génesis, 50-14).

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Três notas

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.10.09

1 - Certamente que alguém já o disse ou escreveu. Muitos terão visto. Mas creio que nunca será demais sublinhar a presença e a postura assumida por Manuela Ferreira Leite na tomada de posse do XVIII Governo Constitucional (que tomou posse num dia cuja soma dá 8 e onde 8 ministros experientes se juntaram a outros 8 mais novatos, sublinhando os muitos e auspiciosos oitos que rodearam o seu aparecimento num ano 9, como diriam os meus amigos chineses). Ao contrário de outros dirigentes, cuja ausência não passou despercebida, a actual líder do PSD fez questão de estar presente e de deixar comentários adequados à ocasião. A democracia é um exercício constante, a procura de um equilíbrio muitas vezes difícil de manter no vaivém dos debates e da guerrilha política, mas há alturas em que é fundamental que venham à superfície os valores que distinguem um exercício puramente formal de uma verdadeira democracia. O sucesso de um governo saído de eleições livres e democráticas virado para a resolução dos problemas do país será também o sucesso do país. Ferreira Leite percebeu-o e fez questão de assinalá-lo. Outros, mesmo do seu próprio partido, têm mais dificuldade em assimilá-lo.

 

2 - A primeira e mais comum reacção da maior parte dos comentadores políticos à composição do novo Governo foi a de realçar a experiência e o bom desempenho dos que transitaram, questionando as novas escolhas. Antes de os verem fazer qualquer coisa, inclementes, apontaram aos novos ministros a pecha da falta de experiência política, a falta de "peso político", os perfis "demasiado técnicos", a inexperiência governativa. Se fossem todos velhos e experientes correligionários do partido, certamente que esses mesmos críticos não se cansariam de destacar a falta de renovação. Como entrou gente nova, as cassandras vieram logo falar na falta de experiência. Como se o exercício da política não fosse ele próprio um exercício permanente de intervenção cívica e de aprendizagem, de gestão e execução de um programa, e um governo não fosse um conjunto de pessoas com diferentes origens, formações e apetências, trabalhando para um objectivo comum, partilhando saberes e cultivando a entreajuda entre os seus membros.

 

3 - A escolha de Pierluigi Bersani para a liderança do Partido Democrático italiano, em especial depois de um inédito processo de escolha que mobilizou mais de 2 milhões de italianos, entre militantes, simples simpatizantes e estrangeiros residentes em Itália, dando-lhe uma confortável vitória, pode representar o vento de mudança e de esperança de que a Europa necessita. A forma como a sua eleição ocorreu é uma achega importante para a renovação da participação política e uma efectiva escolha dos melhores fora dos estreitos e usurpadores canais do caciquismo partidário.

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.10.09

  

 

"A Humanidade divide-se entre aqueles que sabem amar e aqueles que não sabem."

Rosa Montero, Instruções para Salvar o Mundo

(Porto Editora, 2008)

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Passado presente (CLXXII)

por Pedro Correia, em 28.10.09

 

Sonap (Sociedade Nacional de Petróleos)

1933-1975

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 28.10.09

Às Farpas da Madeira.

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A 'ménàge à trois' parlamentar

por João Carvalho, em 27.10.09

Portugal desceu de 41.º para 46.º lugar no Global Gender Gap Index, estudo que avalia a igualdade/desigualdade entre homens e mulheres em 134 países. Esta é a primeira vez nos últimos três anos que há uma descida na pontuação portuguesa.

No quadro geral das conclusões, o ranking – apresentado hoje em Nova Iorque durante o Fórum Económico Mundial – incide em quatro pontos essenciais. Nestes, Portugal atinge a igualdade de géneros nas profissões técnicas, também no acesso ao ensino secundário e superior e ainda na esperança média de vida; mas recuou no ponto respeitante à participação de mulheres na vida política (designadamente, na vida parlamentar).

Portanto, nesta matéria e para já, face à participação parlamentar feminina que resultou das recentes eleições, as coisas não estão brilhantes. A "lei da paridade" (eufemismo pelo qual é conhecida a lei da ménàge à trois que obriga a haver uma mulher para cada dois homens) afinal foi só fogacho. Como muito boa gente adivinhava, aliás.

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Mais um capítulo do caso...

por João Carvalho, em 27.10.09

... da mala preta.

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Sede própria (3)

por Paulo Gorjão, em 27.10.09

Estou sempre a (des)aprender com o Pedro Picoito. Agora fiquei a saber que criticar Luís Filipe Menezes era um "dever cívico". E ele, que leva estas coisas do "dever cívico" muito a sério, empenhou-se no seu exercício, como todos nos lembramos. Que o Pedro Picoito não perceba a contradição, ou a duplicidade de critérios, é que me espanta. Ele reclama para si, ao abrigo do "dever cívico", a legitimidade e a obrigação de criticar Menezes. Ele, claro, é que define o que é "dever cívico". Pior. Ele tem o "dever cívico" de criticar Menezes, mas os outros, se criticarem Manuela Ferreira Leite -- notem, já não se trata de exercer o tal dever cívico... -- estão a fazer fretes ao PS ou a cuidar dos seus interesses pessoais. (Sim, porque ele, puro, qual cruzado ao serviço da sua fé, não se corrompe, nem desce ao nível mundano...) Se isto não é um efeito secundário do fétiche pelo cheiro a napalm que tanto gozo dá ao Pedro Picoito...

Mais. O Pedro Picoito é que sabe o que é o "melhor para o país". Logo, a posição dele é que é legítima e, em sentido contrário, quem ousa discordar de si está condenado ao inferno. Sim, porque ele não se "arrepende" de nada, nem confunde o seu "particular messias" com o futuro do seu partido. Teologia à parte, a al-Qaeda bem que gostaria de recrutar o Pedro Picoito para as suas operações na Península Ibérica. A linguagem é a mesma. O combate entre o bem e o mal também. Estamos no domínio puro do irracional e da fé. Heresia: vou ali rezar cinco Pais Nossos e dez Avé Marias e volto já, se entretanto o Pedro Picoito não me excomungar. E como ele gostaria...

 

Adenda

Pormenores da vida das democracias consolidadas...

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