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Pérolas lexicais

por Leonor Barros, em 04.06.10

Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid–Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vinda de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.

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14 comentários

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De João Carvalho a 04.06.2010 às 22:47

Fantástico texto, Leonor. Até eu me fui encunicando todo à medida que ia evoluindo a línguagem livre e fluida do povão que já voa. Encuniquei-me, pronto.
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De Leonor Barros a 04.06.2010 às 23:24

Até agora, encunicado é a minha palavra de 2010, João. Ri-me a perder com a desenvoltura da peregrina. Com as aulas a acabar prevejo a retoma dos meus hábitos de escrita.
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De João Carvalho a 04.06.2010 às 23:49

Eis uma grande decisão.

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