Sexta-feira, 28, ao nascer do sol. Estou na gare das Lages.
— A que horas é o próximo TGV para Lisboa?
— Hoje não vai haver — responde-me o funcionário. — Se fosse amanhã...
— Aos sábados há? — indago.
— Não tem havido, mas nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.
Saio da estação chateado. «Seis séculos depois de Gonçalo Velho Cabral e de Cristóvão Colombo, isto está tudo na mesma.» Atravesso a rua e entro na agência de viagens. «Avião para Lisboa?» Dizem-me que vai haver um.
— Tem algum tour a propor-me para uma ida-e-volta rápida? Queria ir hoje e voltar amanhã.
— Assim por tão pouco tempo... Deixe-me ver o que é que se arranja... Tenho aqui qualquer coisa... Olhe, só se for um encontro com um blogue, que inclui um jantar com vista nocturna para o Tejo, um belo quarto na avenida de Roma e um lauto almoço amanhã no Campo Pequeno.
— Parece tentador — respondo. — Esse serve-me.
Sigo para para o aeroporto.
Lisboa, início da tarde. Desço do aeroplano. Olho em volta e parece-me tudo novo, mas mal amanhado. «Será Alcochete?» Não é. No terminal 1, alguém chama por mim. «Pedro?» Era mesmo ele, o meu compadre, sempre pontual.
Seguimos para casa. Ele vai trabalhar e eu deixo-me ficar preguiçosamente no sofá. Pego no livro que o Pedro Correia acaba de me oferecer e leio três contos do avô dele. Depois vou à janela e o sol chama por mim. Pego no telefone e ligo para o 'Pau Para Toda a Obra'.
— João?
— João?!? Mas...?
— Vamos beber um copo?
— 'Bora já — responde-me o Severino, ainda incrédulo.
Perto das 20 estou no DN. Seguimos, o Pedro e eu, para o Museu do Oriente. Sob o olhar protector de uma divindade indiana, os primeiros dois a chegar já nos esperam. Subimos os quatro até uma mesa imensa virada ao rio. Vão chegando os outros.
— Bebem alguma coisa antes? — pergunta um empregado.
— Um gin tónico — peço.
Ele desaparece e volta. «Gin tónico não está incluído.» Pergunto então o que está incluído e peço um Martini seco com limão.
Já chegaram quase todos. Ninguém acredita que um gajo voou dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte. Sempre julguei que fossem mais inteligentes, mas percebo que é só fama: pois se eu voei dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte, não acreditam porquê? Mas sei como resolver o caso: dedais variados de louça regional-autonómica sugestivamente decorados, para "todos e todas" como diria o Louçã, não só não distinguem géneros como é quanto basta para acreditarem, «cambada de materialistas».
Ao meu lado, o único lugar vazio. O «tinto ou branco», ambos muito decentes, vem ao nosso encontro e nós levantamo-nos para ir ao encontro do buffet. Se quiserem a companhia do rio, do sol a pôr-se sem pressas, da noite intimista a marcar o tempo e das luzes a tomar conta da ponte (da "primeira travessia", está claro, porque a "segunda" é longe e as luzes da "terceira" parecem uma árvore de Natal sempre a piscar: aparecem e desaparecem conforme o ministro que abre a boca), então o restaurante do Museu do Oriente é muito recomendável.
Se, pelo contrário, estão à espera de encontrar um serviço de cozinha de luxo asiático, esqueçam: o buffet é modesto e sem qualquer toque de exotismo ou esforço estético que o torne atraente aos olhos-que-também-comem. Só que tudo isto é compensado pelo ambiente, serviço de mesa e justiça na conta final. Assim, o saldo é positivo.
A notável animação dos primeiros momentos não esmorece com o desenrolar da festa. A mesa é comprida, mas também é larga, o que favorece muito os diálogos que se cruzam e até possibilita que algumas conversas consigam ser comuns aos 16 delituosos. Mais perto de mim, a frescura da Ana Cláudia Vicente impõe-se sem dificuldade. Mais longe, a Ana Margarida Craveiro espalha alegria pelos olhos. Lá ao fundo, a Ana Sofia Couto representa a serenidade, atravessada de quando em quando por surpreendente determinação. Organizadora do "evento", a competência da Ana Vidal só peca pelo esquecimento imperdoável (roam-se as cuscas todas) do fotógrafo. Por fim, aparece tarde e a más horas (por razões tão válidas quanto os atrasos permanentes de Sócrates) o André Couto, que rompe a noite e logo se integra com a mesma animação que já nos contagia há muito. A meio de um dos lados, o António Manuel Venda espelha um discreto e permanente sorriso enigmático, talvez fruto da experiência próxima com o seu javali. A boa onda ao vivo está acolá no homem que toca a quatro mãos, o Zé Bandeira, sobre o qual nunca consigo concluir se escreve bem como desenha ou se desenha bem como escreve. Sem estar sentado com um compêndio à frente, o José Gomes André é a enciclopédia ambulatória de serviço. O mais sóbrio é o João Campos (John, o benjamim do grupo), que conhece a Europa a palmo e não é capaz de trocar este repasto por nova-partida-nova-viagem. A Leonor Barros, vestida de negro a preceito, podia ser a fadista da noite, porque quando abre a boca parece logo que é para cantar, mas tinha de ser o fado-corrido, porque é incansável a dar atenção a tudo. Polémico q.b., o Luís M. Jorge larga ideias inovadoras e bem recebidas. O Paulo Gorjão é a alma poética do fingidor, austero na escrita e efusivo na oralidade. O Pedro Correia é o dono, o patrão, o padrinho perante quem todos se calam quando abre a boca, mesmo que seja para meter uma garfada. Sempre cavalheiro e discretíssimo, o Sérgio de Almeida Correia dá nas vistas por deixar o Algarve para estar presente em todas. Se fosse preciso atear o fogo (que não era) a todas aquelas almas, encarregava-se a Teresa Ribeiro, risonha esfusiante e saltitante imparável em torno de todas as coisas.
Olho atentamente para o gang delituoso e pergunto-me: «Que faço eu aqui, além de me babar todo?» Cheio de Anas, de abraços e de carinhos por todos os lados, entre tantas beldades talentosas e tantos gurus de primeira água, sinto que este meu primeiro encontro com a quadrilha me tolhe a lucidez. Não me atreverei a estar no próximo jantar. Como? Depois do Verão, os jantares passarão a ser mais regulares? Nunca mais faltarei.
Quando as luzes se apagam, a Ana Vidal reúne alguns guarda-costas noctívagos e resistentes e ainda vamos ver se as docas continuam no sítio. À frente do último copo, apuram-se alguns pontos da agenda de trabalho que tinha estado basicamente em cima da mesa, parte dos quais estamos certos de que serão em breve janelas de oportunidade para os nossos estimadíssimos comentadores e leitores habituais, muito lembrados ao longo da noite.
Com falta marcada ficam quatro: o Adolfo Mesquita Nunes (falta justificada por ausência em terras nórdicas, lá para os lados onde nascem as nuvens que levam as companhias aéreas à falência), a Cristina Fereira de Almeida (falta injustificada, com os voos já normalizados), o J.M. Coutinho Ribeiro (falta injustificada, com quase três autoestradas Porto-Lisboa) e a Marta Caires (falta justificada, com o meu voto de vencido e a Madeira ali tão perto).
Têm razão os autores dos nossos blogues de estimação: roam-se de inveja, que o DELITO DE OPINIÃO é o máximo. Nem seria de esperar que não fosse, uma vez que o DO está no pelotão da frente quanto à lei da paridade. As nossas inspiradas meninas têm o duplo dom de ser também o motivo da nossa inspiração colectiva. Se as vissem melhor, iam perceber.
Adolfo Mesquita Nunes (perfil)
Ana Margarida Craveiro (perfil)
Helena Sacadura Cabral (perfil)
José Maria Gui Pimentel (perfil)
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