Domingo, 7 de Março de 2010
por Pedro Correia | 07.03.10

Aqui faz-se um exercício interessante, bem ao meu gosto: quais as melhores frases de abertura de livros de ficção? Há respostas para vários paladares, como seria de esperar. Esta, esta e até esta. Por mim, associo-me de bom grado à iniciativa. E digo desde já qual é a minha abertura favorita de um romance. Esta que passo a transcrever no original:
«It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way - in short, the period was so far like the present period, that some of its noisiest authorities insisted on its being received, for good or for evil, in the superlative degree of comparison only.»
É este o romance a que me refiro: História de Duas Cidades (1859), de Charles Dickens. Um livro que li na pré-adolescência e que para sempre me marcou. E a propósito de Dickens: ainda há dias, num alfarrabista de Cascais, encontrei um exemplar de David Copperfield, numa velha - e muito bem conservada - edição da Romano Torres. Trouxe-o para casa por 3,5 euros, já comecei a reler este romance com uma paixão antiga. Enquanto me questiono: por que motivo as obras deste autor desapareceram do mercado editorial português?
Boa pergunta, Pedro.
Dickens é um autor que também me ficou e a que gosto de voltar de vez em quando. Muitas vezes através das adaptações cinematográficas e televisivas.
Também gosto muito de algumas adaptações do Dickens ao cinema, Ana. Nomeadamente o 'David Copperfield', de 1935, com W. F. Fields no papel de Mr. Micawber, e a versão musicada de 'Oliver Twist' - 'Oliver', de 1968.
Dickens era muito lido no Estado Novo. Cheira-me que foi castigado por isso. Não há razão, porque é sempre uma marca muito forte que conservo de menino e moço, como para muitos de nós.
Dickens retratou a miséria, a escravatura e a exploração infantil da Inglaterra da revolução industrial. São temas que nunca perderão actualidade. Além disso, foi um dos maiores prosadores de sempre em língua inglesa e um dos construtores do romance moderno, tal como o concebemos ainda hoje. Por tudo isto, é incompreensível que só consigamos encontrá-lo hoje praticamente em alfarrabistas.
Os alfarrabistas são hoje os verdadeiros livreiros. Os outros são comerciantes de livros, só lhes interessam stocks que rodem rapidamente.
Exactamente. Cada vez penso mais nisso. Os comerciantes de livros só querem 'novidades' e 'best sellers'. Tudo o resto é enxotado, ao fim de 15 dias, para os «fundos de armazém».
Gosto desse desafio. Ler as primeiras frases é um exercício que faço com frequência quando estou indecisa nos livros.
Também eu, Leonor. Aliás sou coleccionador de primeiras frases de livros. Gosto muito das primeiras frases d' «O Processo», de Kafka, dos «Cem Anos de Solidão», d' «A Noite e o Riso», d' «A Relíquia», etc, etc. Um dia destes podemos lançar uma série destas aqui. A minha preferida de um autor português é a primeira frase do romance «Alegria Breve», de Vergílio Ferreira.
Bom repto, Pedro. Vou já pôr-me em campo, porque não faço registos de nada.
Quanto ao mercado editorial português é um bicho muito estranho. Embora não tenha a ver, quando um destes dias quis mandar vir um livro, acabadinho de publicar, de um site português, demoravam 15 dias. Se vier de Inglaterra demora metade. Assim não vão lá. Surpreendente como ainda sobrevivem.
Não fazes registos mas a memória ajuda-nos nestas empreitadas, Leonor. E dá certamente algum prazer, a pretexto disto, regressarmos a livros que nos marcaram.
Para mim é este:
Call me Ishmael. Some years ago — never mind how long precisely — having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen, and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of any funeral I meet; and especially when my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people’s hats off — then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol annd ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me.
E já agora, o que me dizem de conclusões de livros? Aquele de que transcrevi este excerto tem dois parágrafos finais que são de tirar o fôlego.
A célebre abertura de 'Moby Dick'. Excelente escolha.
Os finais de livros célebres também dão uma série muito boa, tenho a certeza.
Tens razão, Dickens passou de moda e não há nada mais injusto do que esse rótulo. Se o lermos com atenção e esquecermos os cenários e os aspectos físicos das personagens, continua tristemente actual em muitas sociedades ditas "desenvolvidas".
Concordo inteiramente contigo, Ana: Dickens continua inteiramente actual. Além de ser um excelente prosador, os temas que abordou (infelizmente, em muitos casos) teimam em não passar de moda. Ele passou, ao que parece, por motivos de ordem estética. Mas é um disparate as editoras portuguesas virarem-lhe as costas, como viram a um Zola, por exemplo: há sempre leitores para este género de literatura, mais apostada na temática social. Eu, por exemplo.
E em que é que consiste a temática social? As irmãs Brontë não eram grandes apreciadoras de Jane Austen porque se passavam num mundo restrito, convencional e alheio às realidades sociais fora desse âmbito; mas não seria este alheamento o preço que Austen pagou pela extrema perspicácia com que observou e dissecou as realidades sociais próprias desse meio restrito?
E por outro lado Austen poderia devolver a acusação: o mundo das irmâs Brontë não tinha horizontes muito mais largos que os dela; e as suas personagens, idiossincráticas ao ponto de serem quase monstros, não eram representativas, com certeza, da sociedade em que viviam.
E no entanto é impossível ao leitor ler "Sense and Sensibility", "Wuthering Heights" ou "Jane Eyre" sem formar uma certa imagem, não só do ser humano, como das sociedades que ele constrói. E neste aspecto tanto Austen como as irmãs Brontë chegam a superar Thackeray, que escreveu "Vanity Fair" com o propósito consciente de pintar um quadro panorâmico da sociedade em que vivia.
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