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Eles andam aí

por Ana Vidal, em 24.02.10

 

 

Deixo aos meus colegas de blogue, bem mais versados do que eu em matéria de política, a análise exaustiva da entrevista que deve ter registado as mais altas audiências da SIC (e de qualquer outro canal televisivo) nos últimos tempos. Quanto a mim, vi-a com outros olhos e ainda não me refiz do choque. Do choque de ter confirmado, definitivamente e sem sombra de dúvida, uma desconfiança que já me atormentava há algum tempo: estamos a ser governados por um alien. Não pode ser humano alguém que aguenta há tanto tempo o que Sócrates tem aguentado de acusações ao seu carácter (sobretudo se está inocente, como afirma) sem um tremor de voz, um franzir de sobrancelhas, um humedecimento de olhos, uma transpiração de mãos, sei lá... qualquer sinal de que "sente", além de pensar. À nossa frente não esteve apenas um animal feroz, esteve sobretudo uma criatura que não deprime nunca, que é totalmente impermeável a ataques, por mais graves que sejam, e de uma frieza e capacidade de resistência que fariam empalidecer de vergonha qualquer mártir cristão e transformar a Joana d'Arc num calimero. Por baixo do impecável fato escuro e da gravata monocórdica só pode haver um mutante, daqueles que parecem quase, quase humanos, não fora o chip que os comanda não incluir o ficheiro das emoções. Se lhe picarmos a pele com um alfinete, aposto que não sai nem um pingo de sangue. Diz exactamente o que está programado para dizer, sem espaço para o menor improviso ou jogo de cintura espontâneo. Se lhe sai uma pergunta fora do alinhamento, rebobina e recomeça do princípio, com toda a calma. É uma máquina imperturbável. Miguel Sousa Tavares, entusiasmado ao princípio por achar que lhe arrancaria uma qualquer reacção que traísse desconforto, tristeza ou  hesitação, foi desistindo aos poucos até desanimar completamente, ao perceber que falava com um muro de cimento armado. Esta entrevista teve em mim um efeito revelador. Percebi finalmente, com enorme apreensão, qual é o grande trunfo de Sócrates: nada o demove porque nada o comove. E não sei o que se passa convosco, mas a mim preocupa e assusta saber que o país está entregue a uma espécie de robocop em versão Armani.

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55 comentários

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De Pedro Correia a 24.02.2010 às 01:18

Brilhante. O teu texto, não o Robocop.
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:37

O Robocop é brilhantemente assustador.
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De teresinha a 24.02.2010 às 01:23

Ana:
Subscrevo o comentário do Pedro. :))
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:37

Obrigada, Teresinha.
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De Nicolina Cabrita a 24.02.2010 às 01:44

«robocop em versão Armani».

Fantástico! Adorei. Esta vai ficar-me na memória. Muuuuuuito bem visto!

P.S. Devo ter sido um dos poucos portugueses que estava à espera deste resultado e por isso achou melhor ficar a trabalhar, em vez de assistir. E confesso que ainda não percebi bem se devo alegrar-me com esta minha capacidade premonitória ou atirar-me da janela...
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:42

Eu também não esperava outra coisa, Nicolina. Mas apesar de tudo foi um documento digno de se ver, sociologicamente falando. E não se atire da janela, a não ser que tenha uma piscina em baixo...
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De Nicolina Cabrita a 24.02.2010 às 15:21

Sociologicamente falando teve, seguramente, interesse (aliás, o seu texto demonstra-o), e fosse o entrevistador outro e eu talvez tivesse assistido. Desde que ascendeu ao Olimpo dos «best seller», o Miguel Sousa Tavares enerva-me um bocadinho...

Quanto à piscina, registo, grata, a preocupação... :-)
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De João Carvalho a 24.02.2010 às 02:28

Muito, muito bem. Digam-me agora que não há uma escrita feminina. Há o olhar feminino e a interpretação introspectiva feminina desse olhar, do que resulta esta escrita.
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De Antonio M P a 24.02.2010 às 12:01

Era exactamente para dizer isso que eu vinha aqui comentar, João Carvalho. Sim, este é um olhar que não se fica pela pele das coisas, pela racionalidade do discurso, que chega ao íntimo da pessoa. É um olhar feminino no melhor sentido - para o caso de haver um mau sentido.
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:52

António,

Talvez as mulheres, melhor do que os homens, captem estas nuances de expressão (ou, neste caso, de ausência delas) que definem um perfil. E este perfil impenetrável não me deixa nada tranquila.
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:45

Comento o que mais me impressionou na entrevista, João. Tudo o resto é "mais do mesmo", uma pose estudada ao milímetro para português ver e votar. E ganhou votos, podes crer.
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De teresinha a 24.02.2010 às 03:04

Claro que há uma escrita feminina, um olhar feminino, um sentir feminino, um amar feminino, etc, etc. E, por regra, é nesse toque feminino que reside o mérito do destaque e referência.
(fala uma mulher com orgulho nisso, eheheheheh)
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De João Carvalho a 24.02.2010 às 09:25

Também não é preciso exagerar. Eu queria dizer "talvez". Hehe...
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 24.02.2010 às 04:40

Sabes, Ana, o teu pensamento é correcto e tem afinidades com outros que eu conheço. Sócrates é mais ou menos como aqueles desportistas que são fisica e psicologicamente dotados e, à custa de muito laboratório, são transformados em máquinas vencedoras. Depois, infalivelmente, descobre-se uma história de doping no percurso.
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De pedro a 24.02.2010 às 09:15

a competência e auto controle perante grandes adversidades assustam-na?
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 13:11

De forma nenhuma, Pedro. Pelo contrário, aprecio muito ambas. Mas o que vejo em Sócrtates é uma coisa completamente diferente: uma ausência de emoçõoes que o torna impermeável a quase tudo, repito. E isso, sim, assusta-me. A inteligência emocional é um elemento fundamental no carácter de qualquer pessoa (como descobriu e provou, e muito bem, o nosso António Damásio), e mais ainda no de um líder.
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De António M P a 25.02.2010 às 02:26

Calma, Ana. Se vamos buscar o António Damásio não falta muito que estejamos a chamar psicopata ao nosso Chefe, digo, ao nosso Primeiro. E que haveriamos de chamar depois a personagens tão inimputáveis como Alberto João, tão vazias como Cavaco Silva, tão ardilosas como Paulo Portas, tão inverosímeis como Manuela F Leite, tão trapaceiras como Pacheco... e tão malcriadas como eu próprio?!
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De Ana Vidal a 25.02.2010 às 11:01

Ora, António, não se preocupe. A língua portuguesa é fértil em adjectivos, como você mesmo acabou de provar! Só não vejo onde está a sua má criação...
:-)
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De João Carvalho a 24.02.2010 às 09:24

Joaquim? És tu? Hehe...
Queres, pois, dizer: um político "dopado"?
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:56

Acho que é isso mesmo, Joaquim. Mas, até que o dopping seja desmascarado, ganham todas as competições...
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De helena soares a 24.02.2010 às 08:29

Escreve muito bem, mas com o que diz não concordo. O que eu vi foi o contrário, é que José Sócrates nosso PM, é um homem terrivelmente controlado, mas muito muito nervoso e emotivo.
Declaro que não voto PS nem nunca votei que me lembre
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De João Carvalho a 24.02.2010 às 09:22

«Terrivelmente controlado, mas muito muito nervoso e emotivo»?
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 13:00

Cara Helena, um homem "muito nervoso e emotivo" é, por definição, incapaz de ser "terrivelmente controlado". Não lhe parece?
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De helena soares a 24.02.2010 às 08:32

O seu artigo está bem escrito, mas a sua análise não é correcta. O PM é um homem emotivo e nervoso mas controla-se bem que é uma qualidade que se deve enaltecer.
Outra coisa é a questão de saber se mente bem ou mal. Mente muito bem., quase perfeito
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 12:57

E acha, Helena, que a mentira quase perfeita também é de enaltecer?
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De Luís Reis Figueira a 24.02.2010 às 10:53

Muito bem, mais uma vez, Ana, esta sua análise sobre o nosso 'cyborg' PM. Realmente, esta criatura tem qualquer coisa de metálico e mecânico, de frio, de não-humano, que nos faz arrepiar. Ele é um 'cyborg' e os que o rodeiam são uns 'cyboys'.
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 13:03

Bem visto. Um regimento de "cyboys" que nem sempre estão à altura do general, diga-se. Mas ele protege-os, apesar de tudo.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 24.02.2010 às 12:36

Exactamente, Ana.
E o MST não é ingénuo nenhum. Sabia perfeitamente quem ia entrevistar e que dali não sairia informação alguma ou qualquer esclarecimento.
O "timing" era perfeito e conseguiu o objectivo.
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De Ana Vidal a 24.02.2010 às 13:05

Também me parece, Ana. MST foi incisivo mas diplomático, muito longe da agressividade desabrida a que já nos habituou quando se trata das suas "causas". E foi esmorecendo ao longo da emtrevista, a ponto de parecer quase desinteressado no fim.

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