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A pressão do estrelato

por Ana Vidal, em 07.01.10

 

Deixo esta perturbante notícia à atenção das famílias portuguesas que, seguindo o rastilho que alastrou no mundo inteiro com a moda dos concursos de talentos, acreditam firmemente ter em casa o artista do século e empurram os seus rebentos para uma pressão brutal que eles não têm ainda capacidade para aguentar. Salvaguardadas as devidas diferenças culturais, uma criança é uma criança, em qualquer parte do mundo. Atirá-la de repente para uma competição desenfreada (em que as expectativas, da própria e da família, são desmesuradas e quase sempre infundadas), juntar a este explosivo cocktail  o ingrediente fatal da exposição mediática, pode resultar numa tragédia como esta. Ou pode, pelo menos, criar inseguranças e frustrações difíceis de gerir no futuro. Até as crianças que tiveram de facto êxito e começaram cedo uma carreira artística - os exemplos são inúmeros -  confessam ter dificuldades em lidar mais tarde com a perda da ribalta, que acontece quase sempre nesses casos. Era bom que pensassem um bocadinho nisto todos os entusiastas desta histeria colectiva dos geniosinhos do palco travestidos de adultos.

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22 comentários

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De Leonor Barros a 07.01.2010 às 13:16

Acho absolutamente desprezível que se exponham as crianças a situações destas. Ainda não percebi a orgânica desses concursos infantis.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 16:32

Não é difícil de perceber, se pensares bem: com estes e outros reality shows, faz-se espectáculo a um preço baixíssimo, as audiências sobem e o pagode ainda agradece. Contratar artistas já feitos custa dinheiro às televisões, e estes (os desconhecidos que concorrem em massa) não só não representam custos como ainda pagariam para aparecer na televisão, se fosse preciso. É o que temos, infelizmente...
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 07.01.2010 às 13:21

Essa matéria tem-me ocupado bastante tempo na minha vida profissional e até já relatei no DO e no CR algumas situações. As frustrações de crianças/jovens provocadas por paizinhos arrependidos de os terem lançado para o "estrelato", é um problema que por cá se esconde, mas existe. Também nos EUA uma criança tentou o suicído, há uns anos, por naõ suportar a pressão a que os pais a obrigavam, por insistirem que ela se devia tornar uma estrela. Por cá há também um caso antigo de uma pequena cantora foi vítima da exploração dos pais, que lhe arruinaram o futuro.
Também no desporto há crianças que são obrigadas pelos pais a treinar diariamente longas horas e chegam a ser vítimas de maus tratos, por não obterem o rendimento desejado pelos progenitores. No mundo do ténis ( especialmente feminino) há muitas histórias degradantes nesta matéria.
Muito oportuno este post, Ana.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 16:33

Infelizmente é cada vez mais oportuno, Carlos. A coisa não promete melhorar.
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De João Carvalho a 07.01.2010 às 15:32

Muito bem, Ana. É preocupante, não é de agora e tem alastrado de forma terrível. Além do mau gosto, é perigoso e pode ser fatal.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 16:35

Exactamente. E "fatal" pode não representar só a morte física mas a morte de muitas ilusões, cedo de mais.
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De Lúcia a 07.01.2010 às 15:59

Tiraram-lhe o doce da boca. Ela frustrou-se. E tudo é tão profundamente lamentável... calculo que os pais da menina estejam numa agonia horrível. Falharam nas decisões? POis foi. E saiu-lhes caro. Muito. Lamento, também por eles.

A banalidade com que estes concursos aparecem deixa-me, ainda assim, parva. Os próprios pais que entram nestas corridas terão apoio que deveriam? Saberão ao que poderão expôr os miúdos? Há toda uma educação a fazer aí, também.

Eu, mãe de dois, uma canta bem, com aulas de canto e tudo, jamais me senti atraída por esta forma de exposição. Mas o que sinto decorre, também, daquilo que sei, que estudei, que a vida me proporcionou compreender. Muitos destes pais não reflectem porque não sabem; não tiveram ocasião de estudar ou perceber. E não há ninguém que lhes puxe a manga do casaco, os leve para uma sala e lhes explique os prós e todos os contra deste tipo de iniciativas para a qual empurram os filhos. Tomariam, depois as decisões. De forma esclarecida.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 16:39

Tem muita razão, Lúcia. Não há ningém que faça esse trabalho prévio com os pais, que eu saiba. A preocupação principal é sacar-lhes um termo de responsabilidade que autorize a participação das crianças, e isso é fácil porque eles não querem outra coisa. O neon da "oportunidade", que eles abraçam agradecidos, esconde a perversidade que está por detrás de tudo isto. Sobretudo para pessoas menos esclarecidas, como diz. É triste.
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De Maria a 07.01.2010 às 19:26

É isso, mais uma vez, o que se usa dizer, uma questão de falta de “cultura” sobre o assunto.
Já está quase tudo dito, Ana, e estou de acordo ,mas ainda assim conto um episódio que se passou com o meu filho mais novo (17 anos) no ano passado, por ser menor, trouxe-me da escola um papel/declaração a pedir autorização à sua participação na gravação de um vídeo durante a aula de história e assim figurar num programa de Maria Elisa para a RTP 2. Comecei por estranhar que o papel não trouxesse as credenciais da produtora (que era externa à RTP) – liguei para a Escola – a própria professora não sabia, julgava ser da própria RTP e, presumo, por saber ou talvez não que o meu filho já tinha participado em filmes (realizados pelo pai dele) estranhou o meu rigor. Tive que lhe explicar que eu ao dar autorização num papel não, devidamente, identificado, sem nome nem morada e contribuinte da produtora, seria o mesmo que autorizar que toda a liberdade para fazerem o que quisessem com as imagens. Liguei para a RTP para saber o contacto da produtora e contei o sucedido, tive logo acesso ao director do programa que me pediu mil desculpas mas que a produtora tinha recentemente mudado de nome, bla, bla, bla. Em suma ao perceberem que eu estava por dentro do assunto redobraram-se em justificações e enviaram-me um outro documento, conforme manda a lei;))
Esse é mais um assunto na ordem do dia e muito sério que Ana, sempre atenta, nos trouxe hoje – é um assunto que me toca muito também por estou por dentro duma certa maneira.

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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 19:49

Muito útil este seu testemunho, Maria. Só posso esperar que muitos pais o leiam. Obrigada.
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De Maria a 07.01.2010 às 20:22

Afinal percebeu-se e ainda bem. Sou tão insegura a escrever;))
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 20:36

Que ideia! :-)
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De Maria a 07.01.2010 às 19:58

Vejo que o meu comentário não está claro até parece não ter nada a ver com o assunto do post , Ana. O que eu pretendi mostrar ao contar o "episódio" foi que para além dos pais há muita mais gente a tratar de ânimo leve a "exposição" das crianças e dos jovens a esses "meios", sem pensar nas consequências...No fundo gostaria que esse assunto fosse mais debatido e melhor regulado.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 20:36

Eu achei-o claríssimo, Maria. E também eu gostaria de ver este assunto mais debatido.
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De José Rei Amorim a 07.01.2010 às 18:55

Estando este assunto já suficientemente esclarecido do ponto de vista da Ciência e do bom senso, é surpreendente como continuam as televisões a incorrerem nos mesmos erros do passado, ao criarem modelos de participação das crianças completamente alheios ao seu Universo simbólico, estético e emocional. Ainda por cima os promotores, os ideólogos, os apresentadores é gente que gosta de passar por muito moderna e culta.
Porém é só fachada: trata-se infelizmenrte de gente ignorante e sem escrúpulos que se está a borrifar para os danos que estão a promover não só naquelas crianças que lá aparecem como em muitas outras que ficam presas aquela dimensão de exposição e competição desadequada à sua idade e desenvolvimento.
Será que essa gente é mesmo ignorante ou é cínica - já os vi acho eu a defender estes pontos de vista quando é isso que rende! É bom que se comece a dizer que as coisas têm culpados -não podemos continuar nesta responsabilização nilista pós moderna.
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 19:54

Importante é que se fale e se discuta isto abertamente. As televisões regem-se por audiências e estes programas são, infelizmente, recordistas nesse aspecto. Cabe aos pais e às famílias estarem mais esclarecidos e decidir com todos os dados, ao menos.
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De fugidia a 07.01.2010 às 22:22

Perturbam-me sempre estas e outras notícias...
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De Ana Vidal a 07.01.2010 às 23:41

A mim também, Fugi.
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De Pedro Correia a 08.01.2010 às 00:33

Sucesso fácil, imediato, instantâneo. Ilusório. É o que está a dar. Os órgãos de informação têm muita responsabilidade nisto porque abdicam da responsabilidade social que lhes cabe no frenesim de fabricar novos ídolos com prazo de validade cada vez mais curto.
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De Ana Vidal a 08.01.2010 às 01:19

Responsabilidade social: aí está uma coisa que as televisões deveriam ter em conta, dado o grau de influência que têm numa população com o nível de iliteracia da nossa. Mas a única coisa que conta são as audiências.
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De Teresa Ribeiro a 08.01.2010 às 12:57

Responsabilidade social dos media, aí está um excelente tema de debate. Cheio de minas e armadilhas, mas muito interessante e necessário. Concordo com tudo o que afirmas, Ana. De resto, não há como não concordar.
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De Ana Vidal a 09.01.2010 às 02:15

Um terreno minado, é verdade. Mas ainda assim acho que vale a pena correr o risco, com alguns cuidados para evitar manipulações abusivas.

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