Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
por Pedro Correia | 26.11.09

 

O director de Informação da RTP, segundo leio no 24 Horas, acaba de emitir um documento interno que pretende impor normas aos jornalistas da estação pública sobre a utilização de blogues e redes sociais na Internet.

Passo a citar alguns excertos:

- "Nada do que fazemos no Twitter, Facebook ou Blogues (seja em posts originais ou em comentários a post de outrem) deve colocar em causa a imparcialidade que nos é devida e reconhecida enquanto jornalistas."

- "(...) Deverão deixar em branco a secção de perfil de Facebook ou outros equivalentes, sobre as preferências políticas dos utilizadores."

- "Ter particular atenção aos 'amigos' friends do Facebook e ponderar que também através deste dado, se pode inferir sobre a imparcialidade ou não de um jornalista sobre determinadas áreas."

- "Meditar sobre o facto de 140 caracteres de um twit poderem ser entendidos de forma mais deficiente (e geralmente é isso que acontece!) do que um texto de várias páginas, o que dificulta a exacta explicação daquilo que cada um pretende verdadeiramente dizer."

Sob uma linguagem aparentemente melíflua, o que está em causa neste conjunto de orientações assinadas por José Alberto Carvalho é uma restrição de um direito constitucional - o direito de opinião. Sendo inaceitável que os jornalistas se vejam impedidos de emitir opiniões políticas em páginas pessoais de que disponham na Internet, o facto de estas normas passarem a vigorar numa empresa pública de comunicação social constitui uma agravante. Gostaria de ver o Conselho de Redacção da RTP pronunciar-se sobre esta matéria. Infelizmente, como revela também o 24 Horas, a RTP está há seis meses sem Conselho de Redacção, o que é outro facto inaceitável.

Resta-me, portanto, aguardar uma posição da ERC, sempre tão vigilante noutras matérias. E, já agora, também dos deputados que integram a Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República.




24 comentários:
De Paulo Quintela a 26 de Novembro de 2009 às 14:44
Suponho que reconheça os mesmos direitos, nos mesmos termos, aos elementos das forças armadas, embaixadores, juízes...


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 14:58
Não entendi a analogia que faz entre funções oficiais de diplomatas ou militares com bloques e redes sociais na Internet, de carácter pessoal. Defende a compressão da liberdade de expressão?


De Paulo Quintela a 26 de Novembro de 2009 às 15:12
Defendo precisamente o contrário. Jornalistas são cidadãos e portanto habilitados a fazer uso pleno das suas prerrogativas de liberdade de expressão, não o são também diplomatas, militares e juízes no âmbito dos seus bloques e redes sociais na Internet, de carácter pessoal?


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 15:46
Inteiramente de acordo. Seria, aliás, uma inconstitucionalidade formal e material proceder de outra maneira. Há aliás embaixadores - e destaco o nosso representante em Paris, Francisco Seixas da Costa - que mantêm blogues pessoais, de grande audiência, exercendo o seu direito de expressão de uma forma que muito me agrada. Devemos insurgir-nos sempre que esta liberdade ameaça ser condicionada, como começa a suceder na RTP. Qual será o passo seguinte? A proibição de filiação partidária dos jornalistas?
Nada disto pode passar sem um firme protesto.


De Paulo Quintela a 26 de Novembro de 2009 às 16:03
Só espero que quando os que agora estão no poder saírem e forem substituídos pelo PSD ou PSD-PP, os que agora defendem estes critérios, não passem depois a defender que militares, diplomatas e juízes devem manter, mesmo nos seus blogues pessoais, um dever de reserva em nome das mesmas regras de constitucionalidade formal e material...

Quanto aos jornalistas, eles que são frequentemente desmentidos pelos factos (veja-se o caso dos 10.000 euros) e se fundam em fontes pouco investigadas (veja-se o caso das escutas a Belém) e não se coíbem de expressar nos seus jornais as pessoais opções partidárias (veja-se Helena Matos em o Público), porque diabo se não haveria de permitir as mesmas liberdades nos seus blogs privados?


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 16:37
Já vi que é homem de pouca ou nenhuma fé na esquerda: dá como certo que o PS será substituído por PSD e CDS, excluindo portanto o PCP e o BE. Os jornalistas devem poder ter as opções políticas que entenderem. Não ter opção nenhuma, como o director de Informação da RTP parece exigir nas normas agora divulgadas, é um disparate completo. Seria negar ao jornalista o exercício da cidadania.


De Paulo Quintela a 26 de Novembro de 2009 às 17:22
Faça por favor uma leitura mais aprofundada daquilo que escrevi e não limite ao jornalista os critérios que definiu.

Esquerda e direita...são conceitos demasiado redutores. Aprecio as fotos a preto e branco enquanto peças de arte mas para fazer ciência prefiro recorrer a suportes de cor.


De CPrice a 26 de Novembro de 2009 às 14:59
.. fico perplexa com este tipo de notícias. Por um lado apela-se a uma liberdade que não nos custou conseguir .. por outro escrevem-se e assinam-se documentos em tudo parecidos com aquilo de que falava o meu Pai.

"Sou pela liberdade, sou contra a opressão, e isto é simples, é humano, é evidente - disse!
E não me chateiem mais. "
Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'

é isto. Não me chateiem mais, parece-me bom argumento ;))



De Luísa a 26 de Novembro de 2009 às 15:14
Podemos aguardar sentados, Pedro? :-)


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 15:46
É muito aconselhável, Luísa.


De Carlos Dias Ferreira a 26 de Novembro de 2009 às 15:07
Pedro:

Pelos vistos vamos caminhando para o pensamento único desde que esse não diga mal do "chefe" está tudo bem pois caso contrário é melhor seguir as pisadas do J. A. Carvalho.
Uma pergunta inocente. Vivemos em democracia?
Quem quiser que responda...


De Amêijoa Fresca a 26 de Novembro de 2009 às 15:28
Um director directivo
de ideias castradoras,
não sendo intelectivo
nas razões orientadoras.

A liberdade carenciada
nesta abjecta democracia,
tem sido tão depreciada
por tanta “merdocracia”.

A bovinidade colectiva
é uma marca cultural,
de uma sociedade defectiva
para com esta elite visceral.


De Aforista a 26 de Novembro de 2009 às 15:37
Todo o capacho socretino acaba sempre por mostrar a verdadeira face.


De joao severino a 26 de Novembro de 2009 às 15:57
Na interpretação de José Alberto Carvalho as 'diatribes' dos jornalistas da RTP são graves "delitos de opinião".
Mas como o 'Delito de Opinião' é bom... as directivas do apresentador de notícias é simplesmente uma forma totalitária de exercer CENSURA.
Razão tinha uma senhora que esta manhã, no café, dizia para amiga: "Já viste, o José Alberto Carvalho agora que está velho, gordo e feio passou a puxar o cabelo para a frente para tapar a careca e a usar lentes de contacto...".


De javali a 26 de Novembro de 2009 às 16:19
Não votaram neles? Agora aturem-nos.


De João Carvalho a 26 de Novembro de 2009 às 17:52
Faltam-me as palavras...


De analima a 26 de Novembro de 2009 às 18:16
Todos nós cidadãos devemos poder, sem qualquer constrangimento, expressar as nossas opiniões. Tal como diz é um direito constitucional. O único limite está na explicitação do facto de se estar a dar uma opinião. No caso dos jornalistas, pela importância que têm na formação da opinião dos outros, importa que fique bem claro, no que escrevem/dizem, o que é notícia e o que é opinião. Desde que tal aconteça a imparcialidade relativamente aos factos estará sempre assegurada.


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 19:23
Exactamente. Nenhum cidadão pode ser condicionado no exercício da liberdade de expressão, para além dos limites definidos na lei (injúria, calúnia...)


De Chloé a 26 de Novembro de 2009 às 18:41
É patético.
Mais valeria que o jornalismo fosse exercido como nos USA, onde quem informa ou comenta é assumidamente desta ou daquela inclinação.
Jogo limpo = fica tudo muito mais transparente, é mais honesto e é sobretudo muito mais humano.


De Pedro Correia a 26 de Novembro de 2009 às 19:24
Ter uma redacção cheia de jornalistas impedidos e inibidos de exprimir opiniões políticas, mesmo a título pessoal, é algo que nos faz recuar muito no tempo.


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