Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
por Pedro Correia | 25.11.09

 

A nova tendência do direito penal, dando ênfase ao sistema garantístico, gera aberrações de toda a espécie. A revista Veja relatou recentemente o caso emblemático do jornalista António Marcos Pimenta Neves, ex-director do jornal O Estado de São Paulo, que assassinou a namorada com dois tiros de revólver - um nas costas, outro na cabeça - em Agosto de 2000. Condenado em três instâncias judiciais pelo homicídio, que ele próprio confessou em sede de audiência, o jornalista cumpriu apenas sete meses de prisão preventiva, logo após o crime.

Apesar dos 19 anos de detenção a que foi condenado em 2006 num tribunal com júri popular, e de esta sentença ter sido confirmada no mesmo ano pelo Tribunal de Justiça, Pimenta Neves "continua livre como um pássaro", na expressão da Veja. Leva "uma vida mansa e discreta, toma chope com amigos e recebe convidados para o almoço". Como se nada tivesse ocorrido. Tudo porque o caso ainda não transitou em julgado.

Quem pode pagar uma boa equipa de advogados, como Pimenta Neves pôde, protela a resolução do caso até à eternidade. O processo aguarda agora a decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, enquanto os advogados do jornalista entram com um novo processo, desta vez para anular a decisão inicial do júri, o que faria regressar tudo à estaca zero. E é aqui que a filosofia garantística, em voga no Brasil como em muitos outros países, constitui afinal um entrave à justiça. Partindo do princípio de que não há rapazes maus, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu jurisprudência que dá prevalência absoluta ao princípio da presunção da inocência.

Mesmo tendo confessado o crime, e mesmo condenado em três instâncias, Pimenta Neves continua a ser "presumível inocente". O crime de 2000 permanece sem castigo. "Ele não vai ser preso nunca", diz - também à Veja - o pai de Sandra, João Gomide, um ex-mecânico de 71 anos com graves problemas de saúde.

É bem capaz de ter razão. Há quem chame "progresso" a isto. Eu sou incapaz de lhe chamar assim.

 

Quadro: O Martírio de São Mateus, de Caravaggio

 




15 comentários:
De Luís Lavoura a 25 de Novembro de 2009 às 13:21
Dois comentários:

(1) A mim arrepia-me a ideia de que uma confissão possa de alguma forma servir para condenar alguém. Porque essa era a prática em estados ditatoriais como a União Soviética: obtinha-se a confissão sob tortura, e ala para o Gulag com o infeliz. As confissões, a não ser as depostas em tribunal - e mesmo essas! - podem ser obtidas por meios duvidosos. Condenar uma pessoa com base na sua confissão do crime é abrir a porta à utilização desses meios duvidosos.

(2) A filosofia garantística não permite ilibar toda a gente - permite ilibar os ricos, que são aqueles que têm dinheiro para pagar aos advogados. É precisamente esse o atrativo da filosofia garantística - permite fazer uma justiça de classe. Sem dúvida que tal é muito popular no Brasil, e cá em Portugal também, pelos mesmos motivos.


De Pedro Correia a 25 de Novembro de 2009 às 15:03
Totalmente de acordo com o seu ponto 2. E, em tese, também com o ponto 1. Faço notar apenas que, segundo a 'Veja' a confissão foi espontânea. As confissões sob tortura fazem parte de outro filme, que ninguém quer ver em cena.


De João Carvalho a 25 de Novembro de 2009 às 13:22
Deve ser fruto da pesada herança que deixámos do outro lado do Atlântico...


De Pedro Correia a 25 de Novembro de 2009 às 23:34
Talvez antes uma 'especificidade' local. Mas por cá não andamos demasiado longe de um cenário destes.


De João Paulo Silva Jorge a 25 de Novembro de 2009 às 16:25
Penso que o título do quadro é "O Martírio de S.Mateus", está na Capela Contarelli, Igreja de S. Luís dos Franceses, Roma.

De qualquer modo a situação descrita é efectivamente um martírio. Excelente post.


De Pedro Correia a 25 de Novembro de 2009 às 23:35
Obrigado pela sua correcção. E pelas suas palavras.


De maria videira a 25 de Novembro de 2009 às 21:13
Tantas injustiças.
Chegamos a um ponto que o problema da JUSTIÇA, não é o crime nem é o criminoso tudo se resume a quem tem o MELHOR ADVOGADO!!!
E ainda por cima ele pode ser Melhor, não porque sabe mais, mas porque PODE mais....
Já estou como diz o MPinto: FUJAM!


De João Carvalho a 25 de Novembro de 2009 às 21:28
Não é preciso que ele o diga, Maria. Lembre-se de que há uma coisa a que ninguém foge, em lugar algum: a existência de uma justiça para ricos e de uma justiça para pobres.
Variam com a capacidade financeira para escolher a qualidade do advogado e o seu empenho. Não há democracia nem lei que resolva essa injustiça.
(E não me GRITE, que fico mal dos tímpanos. Hehe...)


De maria videira a 26 de Novembro de 2009 às 21:36
Agora sem gritos!
Não me diga, que além da JUSTIÇA ser INJUSTA, e de que quem não tem dinheiro não tem o melhor advogado...ainda temos a possibilidade de arranjar um advogado que aceita o caso mas que depois não se empenha em ganhá-lo????? Isso ainda é mais deprimente. :)
xx


De NC a 25 de Novembro de 2009 às 21:36
Eu diria que alguém aqui fez mal o seu trabalho (polícia? MP?) e que a probabilidade do mérito da defesa estar sobrestimado é grande, mas será que alguém está disposto a «ler-me»? Duvido. Cá para mim ninguém vende jornais com notícias assim. Enfim...



De NC a 25 de Novembro de 2009 às 21:47
«Se fosse cidadão dos Estados Unidos, da Itália, da França, da Espanha, de PORTUGAL, da Argentina, da Colômbia ou da Costa Rica, e tivesse cometido em um desses países o crime que cometeu aqui, A PROBALILIDADE DE ESTAR FORA DA CADEIA SERIA PRATICAMENTE NULA.»

Já agora, este pedacinho da notícia talvez merecesse algum ênfase, não?

PS: as minhas desculpas pelas maiúsculas, mas não sei colocar o «bold» nos comentários


De Pedro Correia a 25 de Novembro de 2009 às 23:37
Esse pedaço do texto, naturalmente, honra a justiça portuguesa. Mas não devemos subestimar a capacidade nacional de importar aquilo que menos interessa.


De Ricardo Sardo a 25 de Novembro de 2009 às 23:17
Quando o tema é este, não posso deixar de escrever umas linhas...
Atenção Pedro, que o sistema brasileiro é diferente do nosso. Em certas matérias, é até bem mais antiquado. Se o nosso processo penal tem sofrido alterações positivas nos últimos 15/20 anos, já o brasileiro quase não evoluíu.
Desconheço o caso que nos trouxe aqui, mas certamente, mesmo sendo no Brasil, onde a corrupção reina, qualquer coisa terá corrido mal.
Mas li muitas verdades nos comentários anteriores...
Abraço.


De Pedro Correia a 25 de Novembro de 2009 às 23:38
Sem dúvida, Ricardo. A história vale por si - é brasileira, vale por si, não pretendo traçar paralelo com a realidade portuguesa. Mas convém estarmos atentos ao que se passa lá fora para não repetirmos erros alheios. Já bastam os nossos.


De Ricardo Sardo a 26 de Novembro de 2009 às 11:18
Sem dúvida!


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