Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
por Luís M. Jorge | 16.11.09

 

Na semana passada, os colegas do Delito de Opinião quiseram ir jantar ao Clube de Jornalistas. Como poderia recusar o convite? Adoro jornalistas. Já gostava deles quando não trabalhavam para o Governo, nem namoravam com primeiros-ministros, nem roubavam emails uns aos outros, e a passagem dos anos, o frisson das ligações perigosas, o perfume dos escândalos só transformou essa benevolência em ardor. Tenho amigos entre assessores políticos e profissionais da imprensa (perdoem o pleonasmo), e algumas das boas refeições que até hoje recordo foram incluídas na factura de um ou outro semanário. O mesmo não ocorreu com esta, que me obrigaram a desembolsar.

 

Apesar desse faux pas, a noite foi agradável. Mal atravessei a porta vi o Mário Zambujal, que ainda está vivo, e tão lúcido como o António José Saraiva. Na salinha dos cocktails cavaqueavam o Carlos Barbosa de Oliveira e a Teresa Ribeiro. O Carlos é um gentleman — a Teresa, felizmente, não. Revelou-se uma mulher elegante, simpática, com a língua afiada: fiquei ao seu lado durante o jantar.

 

O belo sexo fez-se representar com brio. A Ana, uma aventureira extraordinaire, relatou-nos como tinha explorado o Camboja, a Tailândia e o mundo perdido do grande lama Jampehl Gyatso Tangá, em Xanadu (deu-me um cone de incenso capaz de o provar). A Leonor e a Ana Margarida discorreram com tanto espírito sobre a nossa vida pública que fariam inveja à madame De Stael, se a sua pobre carcaça não estivesse sepultada em Paris. Quanto à Cláudia: ela conhece os segredos da blogosfera portuguesa, amigos. Sim, todos os segredos. Portanto, don't fuck with us.

 

Entre os homens contávamos dois políticos: o Adolfo, um sujeito demasiado estimável para alguém que apoiou Paulo Portas e espera conduzir à miséria as velhinhas do rendimento mínimo e os órfãos desamparados — e também o André Couto, um socialista que se atrasou várias horas, como é hábito entre os poderosos, mas teve a delicadeza de não recitar as oito cabalas urdidas pela justiça contra o senhor primeiro-ministro ainda em funções.

 

Nós, os cidadãos anónimos, também nos divertimos muito. O António ficou calado e o José falou sobre a América, pelos dois. Assim se confirma que em todos os blogs colectivos há um Nuno Rogeiro. Mas a grande surpresa da noite foi o Pedro Correia: eu aguardava um rapaz de chinela e calção encardido, com prancha de surf à ilharga, recém-chegado de uma das melhores praias portuguesas, e em vez dele conheci um senhor com ar de banqueiro, bon chic, bon genre, glamoroso, soigné. Passei todo o jantar à espera que aparecesse o irmãozinho.

 

Os colegas ausentes deixaram saudades mas, vendo o lado positivo, assim não faltou comida. O chef André Magalhães esteve bem: o creme de castanhas com presunto estaladiço pareceu-me excelente, o bacalhau salgado mas as migas saborosas, o naco de porco très outonal, o leite creme de marmelos um achado, os vinhos muito adequados ao preço (melhor o branco que o tinto). As castanhas assadas, infelizmente, más — despeçam o fornecedor. O espaço é magnífico, o jardim amável, a mesa redonda é ideal.

 

 Nos próximos dias publicarei aqui algumas fotos, a menos que enviem os chequezinhos ao apartado do costume. Para a Ana Cláudia é mais caro, por questões de segurança. 

 




43 comentários:
De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2009 às 11:38
A avaliar pelo menu deve ter sido um jantar bem caro. Posso saber quanto foi?


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 13:35
Só falo na presença do meu advogado.


De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2009 às 11:41
Acho vergonhoso que um restaurante de qualidade sirva o bacalhau, ou seja o que fôr, salgado. Qualquer restaurante, sobretudo um de qualidade, deve servir a comida insossa. Porque a comida insossa serve para todos, a salgada estraga um jantar.

Também acho peculiar que se sirva presunto numa entrada, e naco de porco no menu. A não ser, claro, que disponham de opções distintas para pessoas que, por motivos religiosos, não podem comer porco.


De zzeluis a 16 de Novembro de 2009 às 12:10
Delicioso. Não pelo jantar, mas pelo ambiente e os convivas. Além dos pleonasmos.


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 13:36
Obrigado, zze. Se me permite a familiaridade.


De Chloé a 16 de Novembro de 2009 às 12:18
Deliciosa descrição :-) Não vejo mal na entrada com o toque de presunto (apenas um pormenor e bem português) e no naco de porco, uma sequência que alguém terá escolhido por que gostou. O bacalhau salgado, só mesmo pelo saborosa infracção Já as tautológicas castanhas para abrir e encerrar podem ser um delírio de estação (e são mesmo!), mas devem ter deixado marcas para o dia seguinte :-)
Quanto ao resto irrevelado, para a próxima vou pôr umas "escutas" no local, hehe...


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 13:37
Ponha, ponha, ponha.


De Ana Cláudia Vicente a 16 de Novembro de 2009 às 12:38
Companhia, excelente. Leite creme de marmelos, excelente. Segredos sei-os, mas não os conto. Tenho amor à minha persona magrittiana, eh, eh. Mas que sou atenta e gosto de falar do material que passa despercebido por entre as bancas da blogosfeira, absolutamente. Beware, distraídos da bloga.

[E agora para vou ali pedir protecção a São Gabriel e São Leonardo. E saltear num instante uns cogumelos que colhi ontem ao final do dia, num esteval.]


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 13:38
Magrittiana? Você também escreve no Cachimbo? Esses cordelinhos chegam longe, Ana.


De Ana Cláudia Vicente a 16 de Novembro de 2009 às 14:01
Não, não. MagritteAna no sentido de não-notória, só.


De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2009 às 13:06
Uuuups, estou a ver que afinal os fuminhos que te dei não eram só incenso!Extraordinaire é esta tua descrição do nosso jantar delituoso. Bela estreia. Mas... o Pedro Correia, um surfista de xanata e cabelo amarelo?? LOL

Quanto ao menu (e para rimar), estava digno de... Xanadu!

Um aviso: atenção às fotografias que postas. Sem aprovação prévia, corres risco de morte...


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 13:40
Prometo comportar-me, em troca de um pequeno estipêndio. Amanhã devo enviar alguma coisa não excessivmente comprometedora.


De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2009 às 15:01
Ou as fotografias são "estupêndias", ou não haverá estipêndio...


De J.M. Coutinho Ribeiro a 16 de Novembro de 2009 às 14:43
Roído de raiva, ainda mais depois de ter sido apeado daquele estatuto que tinha. gostava de ver essas fotos do jantar em que não estive. O primeiro a que faltei e, pelos vistos o mais animado de todos.


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 15:08
Meu caro, eu não lhe chamaria destronado (nem sei bem de que trno): durante o jantar ouvi vários encómios a seu respeito.


De J.M. Coutinho Ribeiro a 16 de Novembro de 2009 às 15:13
Eles sabem eles sabem... Até me mandaram um mail a informar. Mas não se pode dizer por aqui. Aproveitaram-se da ausência do primo pobre da província...


De Leonor Barros a 16 de Novembro de 2009 às 17:37
Estarás, por acaso, a denegrir a imagem dos anteriores, Joaquim? Não terá nada a ver com a companhia ao teu lado direito da última vez, não? E claro que é imperdoável que não nos tenhas brindado com a tua presença...


De J.M. Coutinho Ribeiro a 16 de Novembro de 2009 às 18:28
Não, não, Leonor. Os anteriores muito bem e a companhia à direita mais que bem. E à esquerda e à frente. Eu é que nesse dia não estava muito animado. E neste último, a que faltei, também me custou, ora... :-)


De ariel a 16 de Novembro de 2009 às 15:03
Caro Luis, não conheço o Pedro Correia mas nunca me passou pela cabeça que pudesse ser um rapaz de calção encardido, chinela e de prancha à ilharga. Basta lê-lo para se perceber que "bon chic, bon genre, glamoroso, soigné" é a sua segunda pele.
:)))


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 15:10
Está bem, está bem — fui apanhado nas curvas com aquela série das praias, das ondas, e tal. Imaginei-o a dropar na Lourinhã.


De Pedro Correia a 16 de Novembro de 2009 às 16:00
Já um gajo não pode ir «arranjadinho» para um jantar, como diria o senhor presidente do Conselho, que leva logo com estes apodos de banqueiro, coisa que nos dias que correm tresanda a insulto...
Tiveste azar, Luís: o lombo de bacalhau que me coube em sorte estava isento de sal. Gostei muito do creme de castanhas com uma lasca de presunto e gostei pelo menos tanto da sobremesa como a Ana Cláudia.
O estipêndio será entregue no sítio do costume. Em 'cash'. Proibido falar ao telemóvel.


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 17:12
Bem, eu referia-me a um banqueiro dos bons: daqueles do Montepio, ou do BPI. Quanto ao resto, estamos conversados. Agora vou ajudar o amigo Joaquim.


De Leonor Barros a 16 de Novembro de 2009 às 17:35
As coisas que eu faço sem saber, Luis. Excelente o jantar, adorei a companhia ou não estivesse sentada à direita do nosso timoneiro e simbolicamente à esquerda do Adolfo, e o teu post. Quando é o próximo?


De Luís M. Jorge a 16 de Novembro de 2009 às 22:12
No início do ano, segundo ouvi dizer.


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