Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
por Pedro Correia | 16.11.09

 

«Preparei mentalmente as palavras que havíamos de dizer, caso a policia voltasse. Com certeza era preciso confessar-lhes que éramos 'mergulhados'. Ou eles eram bons holandeses - e então estávamos salvos - ou eram pró-nazis e então aceitavam dinheiro!

- Tira o rádio - suspirou a srª van Daan.

- Queres que o deite ao fogão? Se nos encontrarem, já não importa que encontrem também o rádio.

- Então encontram também o diário da Anne - disse o pai.

- E se o queimássemos? - propôs a pessoa mais medrosa do nosso grupo.

Este momento e aquele em que eu tinha ouvido as sacudidelas da Policia na porta giratória, foram para mim os mais terríveis.

- O meu diário não! O meu diário só será queimado comigo!

Graças a Deus, o pai já nem me respondeu.»

Excerto do Diário de Anne Frank

 

O Diário de Anne Frank é "um livro perigoso" por estar "carregado de emoção", ser "dramático e teatral", e suscitar simpatia pelos judeus. Pensava eu que só um nazi, descendente ideológico das bestas humanas que deixaram morrer a pequena Anne no campo de extermínio de Bergen-Belsen, em 1945, poderia fazer considerações deste género sobre um dos mais comoventes relatos de que há memória do quotidiano de uma família acossada pelos horrores da guerra - neste caso, na cidade de Amesterdão ocupada pelas hordas de Hitler, entre 1942 e 1944. Mas não. Também o Hezbollah - o Partido de Deus, movimento extremista que tem espalhado o terror no Médio Oriente - pensa o pior do Diário de Anne Frank, reduzindo-o ao rótulo de mera  "propaganda sionista", como referiu a estação televisiva Al-Manar, um dos mais destacados veículos de disseminação do fundamentalismo islâmico na região.

Os protestos foram de tal maneira estridentes que bastaram para pôr fim ao estudo da obra numa escola privada de língua inglesa em Beirute, banindo-a do programa lectivo. "Estas escolas respeitáveis ensinam aos seus alunos a alegada tragédia vivida por esta rapariga enquanto sentem vergonha de lhes falar da tragédia do povo libanês, da tragédia do povo palestino, da tragédia do povo do sul sob a ocupação sionista", protestou um dirigente do Hezbollah, Hussein Hajj Hassan. Percebe-se a lógica do protesto: se o Holocausto nunca existiu, como crêem estes fanáticos, a tragédia de Anne Frank, morta aos 15 anos, só pode ser "alegada". E nem o testemunho abonatório de alguns dos mais influentes leitores deste Diário, como Nelson Mandela, os faz mudar de opinião.

Há uma linhagem histórica que une Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, aos actuais dirigentes do Hezbollah: comungam do ódio visceral aos judeus, prestam o mesmo culto à violência e partilham o gosto atávico pela censura de obras literárias. Incapazes, portanto, de entender estas palavras que Eleanor Roosevelt dedicou à obra imortal de Anne Frank: "Um dos mais argutos e tocantes comentários sobre a guerra e o seu impacto nos seres humanos que jamais li."




15 comentários:
De Álvaro Redol a 16 de Novembro de 2009 às 14:49
Há muitos Gobbels e Hussein Hassan's neste muito. Alguns até comentam nestes blogues que frequento. Só não têm poder, senão... ai dos comunistas, por uns, ai dos burgueses por outros.


De Álvaro Redol a 16 de Novembro de 2009 às 16:13
Não é neste "muito", é neste Mundo


De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2009 às 17:36
Dizer que o Hizbullah tem "espalhado o terror no Médio Oriente" é um ligeiro exagero.

O Hizbullah é um movimento exclusivamente libanês e que só atua no Líbano e em áreas do Líbano que foram ocupadas por Israel. Em geral não ataca civis mas tão-somente forças armadas adversárias. Podemos discordar dos seus objetivos e táticas, mas parece-me muito abusivo dizer que "espalha o terror", muito menos em todo o Médio Oriente.


De Pedro Correia a 16 de Novembro de 2009 às 17:57
Você há-de dizer-me qual é a sua bitola para espalhar o terror. A partir de quantos cadáveres considera esse rótulo aceitável.


De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2009 às 18:07
Terror não tem nada a ver com número de mortos. Terror é realizar ataques indiscriminados contra populações civis. Mesmo que esses ataques não causem mortos, causam terror, pois as pessoas não percebem porque motivo estão a ser atacadas, nem podem prever o ataque.

Qualquer exército causa mortos, e isso não é considerado terror, pois os ataques do exército são contra o exército adversário, têm um alvo definido.

O Hizbullah não pratica terror. Ataca exércitos adversários, tal e qual como qualquer outro exército o faz. Mata soldados adversários. Isso não é terror.


De Pedro Correia a 16 de Novembro de 2009 às 19:36
Tem razão. O Hezbollah é uma associação de caridade, que tem como principal função servir o chá das cinco.


De Carlos Pimentel a 16 de Novembro de 2009 às 18:36
1300 mortos em Gaza, só na última ofensiva, contra 13 do lado dos que ofenderam, é suficiente? Desculpa Pedro, estou de acordo, genericamente, com o post; em desacordo com esta tua resposta ao comentador anterior.


De Pedro Correia a 16 de Novembro de 2009 às 19:36
Nada justifica a morte indiscriminada de civis. Nada justifica um só atentado terrorista - na Chechénia, na Palestina, no País Basco, nas Filipinas, em Caxemira, onde quer que seja. Nada justifica uma só vítima inocente. E nada justifica a censura do Diário de Anne Frank, em nome de um anti-semitismo que tem a Alemanha nazi como parente próximo.


De Paulo Sousa a 16 de Novembro de 2009 às 22:11
O mais preocupante é ver os bloquistas na moda a defender o Hamaz de manhã porque é o David contra o Golias israelita, ao almoço fazem 'tomas' do Zé Povinho ao regime teocrático iraniano, que dispara contra o seu próprio povo quando este pede liberdade, mas que apoia o Hamaz, à tarde demonizam o grande satã americano porque pressiona intoleravelmente o Irão e apoia Israel, antes do jantar do jantar criticam a Igreja Católica porque ainda não se esqueceram da Inquisição e do seu Index...
Depois de jantar vão beber um copo, ou fumar algo, e andam a fugir dos neo-nazis.
Só mesmo fumando, e muito, uma existência assim poderá sentido.


De Levy a 17 de Novembro de 2009 às 17:03
Acha normal um país ter uma guerrilha armada, à margem do exercito regular, e que "actua" em determinadas áreas, lançando inclusive ataques contra países vizinhos? E acha normal, ter havido um acordo de desarmamento em 2006, e este pura e simplesmente ter sido rasgado? Pode não gostar de Israel, mas dai a defender o Hezbollah ...


De Luís Lavoura a 17 de Novembro de 2009 às 17:22
1) Eu não defendi o Hizbullah, só disse que não se trata de uma organização terrorista, e sim (basicamente) de um exército.

2) Claro que o Hizbullah não é "normal", mas o problema é que o Líbano não é um país normal, nem está numa situação normal. O Líbano é um país fictício, com comunidades que se degladiam, com refugiados palestinos não integrados na sociedade, e ainda por cima sujeito à agressão israelense. Todos esses fatores geram essa anormalidade que o Hizbullah é.

Se o Líbano fosse um país normal que defendesse capazmente o seu território, o Hizbullah não necessitaria de existir,


De luis a 18 de Novembro de 2009 às 17:32
Ó amigo

Aquelas cidades do norte de Israel onde caíam os foguetes antes da última invasão do Líbano, eram tudo "alvos militares"? Ou os artilheiros tinham dado forte na cerveja e ficaram vesgos, por maldição do Alá e do seu profeta ( este último, como se sabe, gostava de meninas de nove anos, mas álcool, nem vê-lo)?


De lucklucky a 17 de Novembro de 2009 às 13:41
O Hezballah é um movimento terrorista, racista mafioso e sexista. Tudo é fácilmente percebido nos seus textos e nos seus actos só quem tem palas e não quer ver.
Podemos só começar por falar nos rockets contra Haifa e muitas outras cidades e vilas do norte de Israel.
Mata e matou muitos mais Libaneses do que Israelitas.

"1300 mortos em Gaza, só na última ofensiva, contra 13 do lado dos que ofenderam, é suficiente?"

Vejo que acredita nos números Palestinianos mesmo que vários já tenham dito que eram muito mais baixos.
Talvez inclua os mais de 200 mortos nos tuneis, ou como nas manipulações estatísticas habituais do conflito que incluem no lado Palestiniano os que são mortos pelos próprios Palestinianos.
Talvez devesse perceber porque é que o Hamas usa escudos humanos e porque é que o valor da vida dado pelos Palestinanos aos próprios Palestinianos é menor que a dos Israelitas. A propósito Israel está a desenvolver um sistema de aviso contra rockets por telemóvel. As baixas Israelitas eventualmente poderão ser menores, logo aumentará a desigualdade!
Coisa terrível! Para perceber porque é que Israel tem menor número de baixas - curiosamente a mesma situação não preocupa certas almas no Afeganistão incluíndo o nosso MNE - É olhar para a sua cultura. Israel é o único país que tem um tanque com motor à frente e é o único país que emprega tanques transformados em transportes de infantaria nas principais missões, muito mais blindados que por exemplo os veículos de infantaria Ocidentais apesar de ser um país menos rico.


De zedeportugal a 17 de Novembro de 2009 às 19:14
É caso para exclamar: Meu Deus!
Uma demonstração dos perigos que advêm da cada vez mais autorizada islamização da UE e dos EUA e da também cada vez maior hostilidade para com o ideário cristão.


De António S. a 17 de Novembro de 2009 às 20:19
Interessa-me tudo o que se escreve sobre a Anne Frank, porque persiste-me uma dúvida para a qual, ainda não encontrei resposta: Diz-se e volta a dizer-se, que partes importantes do original deste "depoimento" (as de maior carga ideológico-semita, suponho... ?!), foram escritas com esferográfica, coisa que ninguém se tinha ainda lembrado de inventar nesse tempo. Humm!.. Que explicação para isto?...


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