Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
por Luís M. Jorge | 25.09.09

Há quinze dias, quando os nossos politólogos debatiam empates técnicos e os jornais não tinham por hábito revelar as fontes da concorrência, escrevi aqui o seguinte:

O PS conseguiu reposicionar-se como um partido de centro-esquerda (há um ano era de centro-direita). Esvaziou o Bloco das suas causas e carregou nas tintas da protecção social. Sócrates sobrevive a tudo: ao Freeport, aos contentores de Alcântara, ao ódio da administração pública e ao desvelo dos administradores da Prisa. Com Cavaco Silva apardalado (as escutas em Belém deixarão marcas), o primeiro-ministro arrisca-se a que ainda o confundam com um pilar do regime. Quanto às eleições: ganhas, evidentemente. Podemos esconder as carteiras.
O PSD não é um partido, é uma associação recreativa. Nunca uma boa promessa (a política de verdade) se transtornou tão velozmente em ópera bufa. Manuela Ferreira Leite leva um vigarista de bairro com o bracinho ao peito para a Assembleia da República, mete Santana num espectáculo de robertos e vai bater palminhas ao Bokassa dos ananases. Ao redor da líder, afiam-se os cutelos. O cangalheiro tira notas. Os últimos apoiantes buscam sem glória alguma coisa que faça sentido. O pano cai no fim do mês.

Encorajado por esta admirável presciência que as sondagens de ontem confirmam, resolvi agora abusar dela e alongar-me sobre o futuro do PSD. Os barões do Partido Social-Democrata disseram nesta campanha que nos os últimos quatorze anos só governaram três. Para eles isto é uma declaração de virtude, para mim é uma confissão de fracasso. A um partido que perde repetidamente com o seu adversário não fica bem invocar derrotas humilhantes para legitimar a aspiração de uma vitória. Votem em nós porque somos falhados é capaz de não ser um bom argumento para levar hordas às urnas no dia 27.

 

E é bem verdade que o PSD nos revelou mais uma vez a sua condição miserável. Escolheu um líder mal atamancado, fez uma campanha amadora, ornamentada de momentos embaraçosos e executou o arremedo de estratégia que concebeu a desoras com a alacridade e a inconsciência de um pirómano. Agora que Manuela Ferreira Leite se prepara para abandonar o ceptro (ou melhor, o fardo) que carregou com a sua irritável inépcia, abrem-se alas para o meigo depositário das loucas esperanças social-democratas: Pedro Passos Coelho.

 

E quem é este Passos Coelho? Um homem que nunca se distinguiu na academia, nas empresas, nem sequer em cargos ministeriais, que se exprime por truísmos e se apoia em barões; um tipo plano, sem densidade, sem brilho, tão cinzento como um dia de chuva, mas muito menos proveitoso. É este homem que se prepara inspirar o PSD com as suas ideias. E é a este homem, sem provas dadas, sem mérito visível, sem nada que ultrapasse uma vulgaridade burocrática que o PSD nos vai tentar convencer entregar os destinos do país.

 

A isto chegou o partido de Francisco Sá Carneiro.




10 comentários:
De Carlos Pimentel a 25 de Setembro de 2009 às 22:38
Caro Luís,

Devo dizer que discordo da sua opinião sobre Passos Coelho. Estou convencido que, com ele, o resultado eleitoral que perspectiva poderia ser significativamente diferente. Não se terá distinguido, até ao momento, nas diversas áreas que o Luís enumerou. No entanto, convido-o a fazer o paralelo com Sócrates; mesmo enquanto ministro do Ambiente, em que é que o futuro primeiro-ministro do país (que será reeleito também com o meu voto), se havia destacado?


De plaid a 26 de Setembro de 2009 às 00:27
Pedro Passos Coelho é o Sócrates do PSD.


De Nuno B.S. a 26 de Setembro de 2009 às 01:15
Penso que Sócrates, ainda assim, foi um bom ministro do Ambiente, que se notabilizou como um dos melhores do Governo de António Guterres, nomeadamente através do "Polis". E demonstrou seriedade e firmeza (que valem votos) na questão da co-incineração. E foi um dos "mentores" do Euro 2004, que, concorde-se ou não com ele, o povo adorou... Acho que há muitas diferenças.


De Luís M. Jorge a 26 de Setembro de 2009 às 07:17
Carlos:

não sabemos isto:
"Estou convencido que, com ele, o resultado eleitoral que perspectiva poderia ser significativamente diferente"

quanto a isto:
"Sócrates; mesmo enquanto ministro do Ambiente, em que é que o futuro primeiro-ministro do país (que será reeleito também com o meu voto), se havia destacado?"

Sócrates tinha apesar de tudo alguma experiência governativa e um bom percurso parlamentar.
Mas nem é esse o problema:

o problema é que o PSD ainda não compreendeu que deve arranjar gente decente e altamente capaz para mandar no partido e propôr ao país.

enquanto nos venderem tipos só com "imagem", sem substÂncia, a coisa é capaz de não resultar,


De Luis a 26 de Setembro de 2009 às 00:50
Conclusão, MFL não presta e Passos Coelho também não.
MFL tem currículo mas não tem carisma, Passos Coelho tem carisma mas não tem currículo .
Graças a Deus Sócrates tem grande currículo e um passado completamente esclarecido, sério e honesto, até é licenciado veja-se lá...


De Luís M. Jorge a 26 de Setembro de 2009 às 07:17
Falhou o sarcasmo, luís: eu não apoio o Sócrates.


De Nuno B.S. a 26 de Setembro de 2009 às 01:20
Concordo com a sua análise. Um partido e uma líder que baseiam a sua campanha (e agora ainda mais insistentemente) na ideia de que o governo e partido do governo criam medo nas pessoas está, de facto, muito baralhado ou perdido. Em reacção às últimas sondagens que lhe são desfavoráveis chega a insinuar que as pessoas têm medo de dizer que vão votar no PSD em vez de PS. É das coisas mais primárias que já vi na política portuguesa.


De Luís M. Jorge a 26 de Setembro de 2009 às 07:18
Primário é a palavra. E anda esta gente a falar em meritocracia.


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2009 às 10:51
Nenhuma campanha inteligente deve ser feita a partir da diabolização da figura do adversário. Entre muitos erros, este foi um dos maiores. E ninguém se lembrou que Cavaco beneficiou disso no passado.


De Luís M. Jorge a 26 de Setembro de 2009 às 11:49
Eu diria antes:

"Nenhuma campanha inteligente deve ser feita APENAS a partir da diabolização da figura do adversário."

Acho que a diabolização é necessária (a partir das minhas leituras de branding, mas é uma longa conversa), mas não é suficiente. Ainda por cima quando está marcada por contradições internas.


Comentar post

Autores
Pesquisa
 
Setembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9





Ligações
Arquivo
2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


Visitas