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Arteirices

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.09.15

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"Aquilo que digo é aquilo que sempre disse - e que tive oportunidade de dizer na comissão de inquérito ao BES (Banco Espírito Santo): que os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo com este processo. Isso cabe ao Fundo de Resolução."

 

"É verdade que há um banco público (CGD - Caixa Geral de Depósitos), que faz parte dos bancos do sistema, mas isso decorre da existência de um banco público, que é um banco igual aos outros em termos de direitos e obrigações para esta matéria. Em todas as outras questões, os contribuintes não serão chamados. E no caso da CGD é uma via indire[c]ta, que decorre do facto de o banco ser público." - Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças

 

A senhora ministra também pode dizer de dedo espetado que os alunos das universidades portuguesas não pagam propinas, que não têm que se preocupar com o seu valor porque quem paga não são eles, são os seus pais. Qualquer aluno, por muito cábula que seja, mesmo um jotinha, sabe que isso não é verdade. E se perder o ano, sendo um aluno e filho minimamente responsável, ficará envergonhado perante os pais. Porque sabe que o dinheiro dos seus pais, se não tiver sido roubado nem caído do céu, lhes custou a ganhar, saiu-lhes do pêlo para que as propinas fossem pagas e ele pudesse frequentar a universidade. E sabe que esperavam que ele também tivesse correspondido ao esforço que fizeram.

Por isso, declarações como as transcritas só são boas para serem aplaudidas nos comícios da Universidade de Verão. Lá é que a senhora ministra pode fazer dos outros parvos, ser aplaudida em cada frase que profere, dar a volta à praça e sair em ombros.

Na vida real não é assim. Directa ou indirectamente, o dinheiro vai sair do bolso de sempre. Umas vezes é pescado pela mão direita do contribuinte, de outras pela sua mão esquerda. Depende das legislaturas. Mas às vezes o dinheiro é-lhe retirado antes de entrar na conta bancária, antes de lhe chegar ao bolso, sem que lhe tenha sido perguntado se está disposto a pagar. E, às vezes, até depois do primeiro-ministro lhe ter dito que podia ficar tranquilo. É este o caso.

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As canções do século (2071)

por Pedro Correia, em 02.09.15

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 02.09.15

Ao Diário de Notícias.

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Legislativas (1)

por Pedro Correia, em 01.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Cheguei ao fim do debate desta noite na RTP informação (não valeria a pena a televisão pública tê-lo emitido em sinal aberto?) quase sem distinguir o Bloco de Esquerda do Partido Comunista. Excepto na questão do euro: o PCP faz um balanço "profundamente desastroso" da nossa integração na moeda única e o Bloco deixa claro que "a saída do euro não é a saída para a crise".

Há também um pormenor semântico, que aliás está longe de constituir novidade: ao contrário do que sucede com Catarina, Jerónimo de Sousa faz questão de iniciar sempre as frases recorrendo à primeira pessoa do plural ("a nossa análise, o nosso projecto, as nossas propostas...")

Em quase tudo o resto o secretário-geral do PCP e a porta-voz do Bloco de Esquerda não fizeram qualquer esforço em diferenciar-se neste frente-a-frente moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves. São ambos contra as "políticas de austeridade", pretendem renegociar a dívida pública, estão prontos a rasgar o tratado orçamental e nem admitem ouvir falar de possíveis alianças pós-eleitorais com os socialistas, transformados em bombo da festa neste debate. 

"O PS sempre praticou políticas de direita", sentenciou Jerónimo, sem introduzir um átomo de alteração à prédica habitual dos comunistas, campanha após campanha. "O PS, nas questões de fundo, não se distingue da direita", sublinhou a porta-voz bloquista, de olho verde mas discurso bem vermelho.

De um lado venta, do outro chove: Bloco e PCP contentam-se em ser partidos de protesto. E como se somariam a um hipotético executivo socialista se não se dão sequer ao incómodo de juntar forças numa plataforma eleitoral comum?

Jerónimo pareceu fatigado, Catarina esteve mais fresca e exibiu palavra mais solta, chegando a conceder arguta e merecida vénia ao parceiro de debate: "O Bloco é muito devedor da luta e do combate do PCP." A dado momento um plano televisivo fixou-a a mirar com ar carinhoso para o histórico comunista: parecia uma neta a contemplar o avô.

Estes pequenos apontamentos visuais proporcionados pela indiscrição das câmaras tornam-se quase sempre os aspectos mais interessantes dos debates em que os protagonistas fazem tudo para ocultar divergências, como foi o caso. No final, outra pequena diferença: Catarina, desfavorecida nas sondagens, apelou explicitamente ao voto dos abstencionistas militantes. Jerónimo nem se deu a esse incómodo: com saber de experiência feito, ele não ignora que a batalha à esquerda do PS está antecipadamente ganha pelo PCP.

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FRASES

Catarina - «O PS, para fazer um governo de direita, precisa de um partido de esquerda? Não. Pode fazê-lo com partidos de direita. Não é para isso que cá estamos, de certeza.»

Jerónimo - «Nós defendemos a ruptura com este caminho para o desastre a que a política de direita tem conduzido o País.»

Catarina - «O PS tem um alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial.»

Jerónimo - «Temos um valioso património de trabalho unitário.»

Catarina - «As pessoas estão cansadas de uma alternância que nunca lhes trouxe alternativa.»

Jerónimo - «Ninguém é dono dos votos dos portugueses.»

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Penso rápido (69)

por Pedro Correia, em 01.09.15

PSD, PS e CDS - partidos que no seu conjunto representam três quartos dos eleitores portugueses - convergem no essencial: querem cumprir as regras definidas no quadro institucional da União Europeia. Incluindo as metas fixadas no Tratado Orçamental, sem as quais o euro não sobrevive a médio prazo.
Resta-nos sempre a alternativa de não cumprirmos essas regras e darmos enfim o grito do Ipiranga (ou do Trancão, à escala lusitana), entricheirando-nos enquanto nova Albânia do extremo ocidental da Europa, como proclamam as forças eurofóbicas, minoritárias em Portugal. Sem euro, seguramente. Sem inflação nem juros baixos. E também sem Erasmus, sem livre circulação no espaço Schengen, sem Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Tudo a quanto já nos habituámos em matéria de cidadania europeia. Orgulhosamente sós, como pretendia Salazar.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 01.09.15

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Diário da Guerra aos Porcos, de Adolfo Bioy Casares

Tradução de Sofia Castro Henriques e Virgílio Tenreiro Viseu

Romance

(edição Cavalo de Ferro, 2015)

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O Multibanco é nosso

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.09.15

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Nas últimas décadas, com excepção da construção da democracia e de alguns pequenos nichos na ciência, no desporto, na literatura, na música ou no cinema, onde a criatividade e o génio lusíada se manifestam, devem ser poucas, muitas poucas, as obras verdadeiramente importantes que enquanto portugueses fomos capazes de construir e dar ao mundo. Temos alguns bons gestores, meia dúzia de empresários dignos do nome, muitos anónimos, mas raras são aquelas obras em que de facto se tenha deixado uma marca de perenidade de tal forma relevante que aqueles que, sabe-se lá porquê, têm sido os nossos modelos não hesitam admirar. A criação do Multibanco é uma dessas obras. E no momento em que passam trinta anos sobre o seu lançamento gostaria de aqui deixar uma nota de apreço a quem o concebeu e aos informáticos portugueses que têm afirmado internacionalmente a qualidade da nossa inovação, em especial no campo da segurança informática e no uso das novas tecnologias. Recordo-me de alguns amigos meus serem despertados a meio da noite por causa do sistema, dos dias e noites que perdiam a procurar as melhores soluções, a garantirem que tudo funcionaria na perfeição. Ao fim de trinta anos é mais do que justo homenagear essa gente, a maior parte desconhecidos para a generalidade dos portugueses, que além-fronteiras deixa muita gente extasiada - não há outra palavra - com a qualidade do seu trabalho. Gente que percorre o mundo a dar cursos, em Londres, em Nova Iorque, em muitos outros locais, sempre apresentando novas soluções, dando a conhecer as que têm, e contribuindo com o seu know-how para o progresso e para facilitar a vida das pessoas, que é aquilo para que as máquinas e a tecnologia devem servir.

Os portugueses que estão habituados a viajar e os que vivem fora do país não podem deixar de ter registado o avanço das nossas máquinas e a quantidade de operações que nelas se pode fazer em pouquíssimo tempo e com a máxima segurança por comparação com os equipamentos que prestam um serviço parecido noutros países. Parecido, digo eu, porque os nossos equipamentos são mais modernos, mais seguros e realizam mais tarefas. De levantamento de fundos a transferências e emissão de cheques, permitindo a realização de pagamentos da mais variada espécie, da electricidade a custas judiciais e impostos, sem esquecer a venda de bilhetes de comboio e para espectáculos musicais, quase que diria que ao Multibanco nem falar falta porque até há gravações a recordarem-nos o que temos de fazer para o cartão ou o dinheiro não ficarem esquecidos na máquina. Centros financeiros como Tóquio ou Hong Kong não têm máquinas ATM que proporcionem serviços com a qualidade dos nossos.

O Multibanco não é a panaceia para os nossos males, mas devia ser um exemplo de como em Portugal se podem fazer coisas bem feitas e úteis que a todos servem. Ganham as empresas, ganham os bancos, ganham os cidadãos. No dia em que Portugal, a sua administração pública, o seu governo, as suas instituições, funcionarem como o Multibanco e as nossas obrigações colectivas forem cumpridas com a mesma limpeza, economia, discrição e eficiência, poderemos dizer que o país funciona bem. Não sei se algum dia esse momento chegará, nem quando, porque também não sei ler nas estrelas e não acredito em novos messias. Menos ainda naqueles que temos por aí com a cara nos cartazes. De qualquer modo, entretanto, espero que não dêem cabo do Multibanco e que alguns banqueiros, para poderem continuar a circular em topos de gama alemães e a usar o cartão de crédito nos restaurantes do Guincho, não o queiram transformar em mais uma fonte de conflito à custa dos portugueses, novos e  velhos, estudantes ou reformados, trabalhadores ou desempregados, que nos centros urbanos e rurais, no litoral e no interior, dependem do Multibanco para o seu dia-a-dia e das máquinas milagrosas para tornarem os seus dias menos penosos e mais longos. 

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As canções do século (2070)

por Pedro Correia, em 01.09.15

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Rentrée

por Isabel Mouzinho, em 31.08.15

E pronto. Com a chegada de Setembro, vem também a rentrée em toda a sua plenitude. Tem que dizer-se assim mesmo, em francês, porque não há na língua portuguesa nenhuma palavra capaz de transmitir de forma tão forte e abrangente a infinidade de sentidos que ela encerra.

Gosto muito desta época em que tudo tem o sabor do recomeço, não com a alegria berrante e renovadora da Primavera, mas com os cheiros e as cores do Outono, na melancolia do fim de férias, misturada  com o entusiasmo do que principia outra vez e promete ser diferente, ou até talvez melhor.

Para mim, a vida toda, a rentrée significou quase sempre, acima de tudo, regressar à escola. E sempre foi em Setembro e não em Janeiro que senti que  começava mais um ano. Época de cadernos a cheirar a novo e de canetas por estrear, de novos projectos e de inconfessadas intenções, de algazarra e de esperança, da cabeça cheia de ideias para pôr em prática e da vontade de regressar a um mundo sempre igual e ao mesmo tempo sempre diverso, tão complexo quanto apaixonante.

Por variadíssimas razões, este ano traz consigo maior expectativa, e uma novidade que o torna um pouco mais novo que os outros. Por isso, desta vez, o conhecido e o incerto aliam-se  de forma ainda mais peculiar, o que me provoca um ligeiro friozinho na barriga, mescla de medo e de vontade em doses quase iguais, mil possibilidades em aberto, apesar de saber que haverá bom e mau, positivo e negativo, como sempre há em tudo, em todo o lado. Por ora, concentro-me nos dias por viver de um ano inteirinho em que espero conseguir misturar com natural simplicidade o que tem que ser feito e o prazer da sua realização, esquecendo por momentos, pelo menos, tudo o que também me limita, inquieta, preocupa. Ninguém disse que vai ser fácil. Mas acho que vai ser bom.

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As canções de Setembro

por Pedro Correia, em 31.08.15

Em Setembro - mês de mudança de estação e de intensos debates políticos - passarão por cá vários clássicos da canção em doses diárias: Leonard Cohen, Ella Fitzgerald, Yves Montand, Nina Simone, Frank Sinatra, Aretha Franklin, James Brown, Joan Armatrading, Tony Bennett, Gal Costa e Patxi Andion, entre vários outros.

Como sempre acontece quando muda a folha do calendário, agradeço desde já as vossas sugestões para as semanas que vão seguir-se em que diremos "até sempre" ao Verão e "olá de novo" ao Outono.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 31.08.15

 

«Só acho possível aguentar a ideia da morte com a ideia de que outros vão viver. A vida vai continuar e o que tu fizeste nesta terra tem uma consequência. No cristianismo dá-se um nome religioso - a ressurreição - a uma coisa que é verdadde, quer se queira quer não. Uma pessoa, mesmo que viva num ambiente reduzido, exerceu influência sobre as outras que cá ficam. No caso das mulheres, deram à luz, a vida ressurgiu. Como tudo renasce na natureza.»

Luís Miguel Cintra, em entrevista ao Diário de Notícias

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Play time

por Helena Sacadura Cabral, em 31.08.15

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Jacques Tati encheu muitos dias de um período especial da minha vida, os trinta anos, quando, finalmente liberta de uma série de modelos, me encontrei a mim própria, como pessoa nada modelar, mas muito mais autêntica.
Ir ver o filme Play Time - entre nós Vida Moderna - o único que, penso, nunca terei visto antes, foi uma experiência curiosa.
O Nimas é apertado, com cadeiras incómodas e não usa ar condicionado, circunstância que num país pobre já se vai tornando habitual, embora o preço dos bilhetes, 6 euros, esteja acima do que os baixos salários podem comportar.
Assim, de leque em riste e pernas quase em asana, dispus-me a um retorno aos tempos em que começara a ser feliz. Ao fim do primeiro quarto de hora, não se ouviu um riso na sala e eu temi que a coisa se prolongasse. Felizmente não. O aparecimento de Hulot, essa personagem mítica, alterou tudo e, pelo menos eu, ri com gosto, nalgumas circunstâncias.
Mas o filme vale por muito mais. Vale por um retrato de futuro, por uma crítica à vida robotizada e aos estereotipos sociais que haviam de marcar os anos que se seguiram. E vale pelo decor de interiores que qualquer arquiteto não enjeitaria.
É, sem dúvida, uma película datada. Mas, para quem conheceu aquele play time, é impressionante ver o que a vida mudou em apenas três décadas. É também por isso que vale a pena o sacrifício corporal a que somos submetidos. Que, aliás, se atenuaria se retirassem meia dúzia de filas de cadeiras e distribuissem melhor as restantes.

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"A eleição que ninguém quer ganhar"

por Helena Sacadura Cabral, em 31.08.15

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Durante o mês de Agosto o Diário de Notícias, que voltei a ler, publicou uma série de textos de ficção política que me fizeram lembrar, muito, outros que sob matérias diversas o Monde também publicou. Chamava-se "A eleição que ninguem quer ganhar" e, só título, já dizia quase tudo!

Se escrever sobre a realidade já é um exercício de “fino trato”, fazê-lo sobre o imaginário, com requintes de autenticidade, é um enorme teste à qualidade jornalística do autor.

Durante todo este tempo em que li aqueles exercícios - e com os quais cheguei a dar boas gargalhadas – admiti várias hipóteses para a sua autoria. Uma delas foi Ferreira Fernandes, nome que acabo de confirmar e que, sem qualquer sombra de dúvida, é um dos grandes da nossa imprensa.

Tão importante é, que nos quadrantes em que movo, nunca ouvi uma opinião negativa a seu respeito. Mas, a meu ver, o que nele é absolutamente excepcional é a sua capacidade de – exercendo simultaneamente a profissão e a cidadania – criticar sem liquidar e sem ofender.

Ter em Portugal, nos dias de hoje, essa enorme ousadia e vê-la publicamente reconhecida é algo que merece o maior elogio.

Bem haja, Ferreira Fernandes, pelos deliciosos momentos que, no DN, me fez e faz passar. Volte depressa!

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Culpar o bombeiro pelos fogos

por Luís Naves, em 31.08.15

Num fim-de-semana entraram na Hungria quase 9 mil refugiados, mas os noticiários continuam a referir com escândalo que este país acabou de construir “um muro” para impedir estes migrantes de entrar. Que parte da história estará a ser mal contada? Em todas as imagens que vemos da construção, o “muro” é na realidade uma vedação de arame, aparentemente não tão sofisticada com a que vemos, por exemplo, em Ceuta ou em Calais, a proteger (e bem) o eurotúnel. Claro que países que não estão na linha da frente da calamidade migratória têm mais facilidade em dar a táctica e apontar defeitos nos procedimentos.

Conheço bem esta fronteira e parece-me fazer sentido a construção de uma barreira que na realidade canaliza os refugiados para locais onde a polícia pode ser reforçada e o fluxo de entradas minimamente controlado. Está aliás a ser construído um campo no ponto onde a fronteira húngaro-sérvia tem a sua passagem mais importante (podem reler este texto de Julho). Um facto parece evidente: sem a vedação, o poder está nas mãos dos traficantes, já que as pessoas passam a fronteira a corta-mato, dependendo de redes clandestinas de passadores.

O ministro francês referido na notícia fez comentários críticos em relação aos ‘países de leste‘ e colocou tudo no mesmo saco: estas sociedades sob o choque de mudanças rápidas constituem uma espécie de sub-Europa (‘eles’ não são como 'nós'), o que é uma excelente forma de lançar um debate sobre migração em larga escala envolvendo populações que chegam do Médio Oriente. E no entanto os do leste é que são os maus da fita! O governo grego durou seis meses, acho que deviam mudar todos os governos que não lhes interessem, porque isto da democracia é uma chatice inaturável e bastava-nos o directório Merkoland. E há também aqueles para quem a culpa disto tudo é da Europa, argumento extraordinário, quando são europeus que recebem 9 mil refugiados num fim-de-semana, só nesta rota, embora haja mais uns milhares em Itália e Grécia, sem contabilizar as rotas que se dividem (muitos refugiados estarão a entrar via Roménia ou Eslovénia).

Os críticos dos muros nunca explicam como é que se devia fazer: passam todos ou só alguns? Só os sírios e iraquianos ou também os do Bangladesh e do Kosovo? E ninguém menciona o pormenor crucial de ser impossível manter refugiados em campos onde estes não desejam permanecer, pois as multidões põem-se em movimento logo que conseguem os papéis provisórios (que, vergonha, segundo li numa reportagem, estão escritos em húngaro), para não mencionar a forma como os traficantes fizeram a cabeça de muitos deles, que chegam exaustos, já sem dinheiro e desconfiados de qualquer ajuda. No fundo, estamos a culpar os bombeiros pelos incêndios, mas o paradoxo do muro devia fazer pensar os comentadores: o mito afirma que o betão impede a entrada, mas eles entram na mesma em quantidades extraordinárias.

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Frases de 2015 (34)

por Pedro Correia, em 31.08.15

«Bloco Central? Só numa invasão de marcianos...»

António Costa em entrevista ao Sol, 21 de Agosto

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Empreendedorismo 2

por Teresa Ribeiro, em 31.08.15

Foram cinco os empreendedores cujo percurso, por razões profissionais, acompanhei de perto. Ao primeiro faltou-lhe carácter. Quando o seu projecto começou a falhar não hesitou em roubar a própria empresa para se pôr a salvo antes de declarar falência. O segundo revelava o que de  pior podemos identificar no perfil de um típico self made man. Era desconfiado, intolerante e prepotente. Ao longo de décadas, foram muitos os que passaram pela sua empresa, mas poucos os que gostaram de lá trabalhar. Resistiu décadas no mercado, mas sucumbiu à crise. Está agora em processo de falência.

O terceiro foi pioneiro em vários projectos. Tinha boas ideias, mas faltava-lhe talento para a gestão. Após diversas tentativas falhadas desistiu de trabalhar por conta própria. O quarto, um homem que ganhou muito dinheiro na especulação bolsista, decidiu investir num negócio que lhe desse visibilidade e prestígio para o qual não tinha a menor preparação. Correu-lhe mal. Para sobreviver não olhou a meios e se acabou por falir não foi à falta de bajular gente com dinheiro e influência, mas nem assim escapou ao seu destino.

O quinto é, em todos os aspectos, uma pessoa extraordinária. Admiro-lhe o carácter, a perseverança, a criatividade, o optimismo e a paixão que põe em tudo o que faz, mas é um peixinho num aquário de tubarões. A ética granjeia-lhe respeito mas não o ajuda a evoluir num mercado minado por lobbies que só deixam crescer quem tem cartão partidário ou um apelido que pertença à nossa PSI 20 social. São estes D. Quixotes que dão bom nome a uma raça de gente tão diferente entre si.

Empreendedores são como os chapéus: há muitos.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.08.15

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A Liberdade do Drible, de Dinis Machado

Crónicas de futebol

(edição Queztal, 2015)

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Que confiança merece um político destes?

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.08.15

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"Não misturamos justiça com política. Uma coisa é a legitimidade institucional do primeiro-ministro ou a confiança institucional que nele se pode ter e essa continua a ser total. Outra coisa é a fiabilidade política ou o valor da confiança política"

"Os partidos não são associações criminosas nem associações mafiosas. Os partidos não podem ser responsabilizados por actos que são praticados por agentes individualmente"

"Na minha análise – e estou convencido que é também a do PSD – não existe nenhuma diminuição do primeiro-ministro. Pelo contrário, sob o nosso ponto de vista, ele merece a nossa confiança institucional"

Pode não parecer, mas o mesmo político que em 2009, quando os socialistas estavam no poder, dizia o que acima se transcreveu, caucionando a actuação de José Sócrates no caso "Freeport", é exactamente o mesmo que agora veio perguntar se "alguém acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação?

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As canções do século (2069)

por Pedro Correia, em 31.08.15

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Leituras

por Pedro Correia, em 30.08.15

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«Pensa que o mármore, mesmo o mais precioso, nada vale apenas por si próprio, e somente se valoriza quando a mão do escultor o transforma numa obra-prima. Sê como o escultor, meu amigo. Não basta amar; é preciso saber amar e é preciso, também, saber ensinar o amor.»

Henryk Sienkiewicz, Quo Vadis?, p. 95

Ed. Romano Torres, Lisboa, 1951. Colecção Obras Escolhidas de Autores Escolhidos, nº 6. Tradução de Gentil Marques

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Fotografias tiradas por aí (258)

por José António Abreu, em 30.08.15

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Esposende, 2015.

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Frases de 2015 (33)

por Pedro Correia, em 30.08.15

«Alguém acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação? Alguém acredita que o maior banqueiro do País estaria sob investigação?»

Paulo Rangel, na "Universidade de Verão" do PSD

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E o sonho tornou-se realidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.15

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Já tinha caído a noite no circuito de Suzuka, nos arredores de Nagoia, quando o Nissan GTR-GT3 com o número 10 cortou a meta. Depois de uma corrida cheia de peripécias, de uma recuperação espectacular, em que chegou a estar em 26.º lugar ao fim de vinte minutos de prova, apesar de ter partido da 2.ª posição da grelha, e em que a chuva apareceu por várias vezes, a última das quais a cerca de dez minutos do final quando os carros circulavam com pneus para piso seco e a vantagem sobre o BMW Z4 era inferior a um segundo, os três pilotos do Gainer Tanax Racing Team levaram o carro à vitória nos 1000 Km de Suzuka, categoria de GT300.

Trata-se de mais um resultado fantástico para os portugueses de Macau e o automobilismo nacional e, em especial, para o André Couto, que está de parabéns e de quem aqui dei notícia depois da prova de Fuji 300.

Com este resultado, o André reforçou a liderança do campeonato japonês, no qual soma 69 pontos, e tem agora nos lugares imediatos os outros dois pilotos da sua equipa, Katsumasa Chiyo e Ryuichiro Tomita, respectivamente, com 54 e 40 pontos.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.08.15

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D. Dinis e o Segredo do Templário, de Renato E. Proença dos Santos

Romance histórico

(edição Arandis, 2015)

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.15

Detesto blogues cuja escrita é feita em fundo escuro. Já encontrei um ou outro interessante mas não os recomendo porque a leitura é difícil. Para escuridão já me basta aquela de que um dia não poderei fugir. Daí a minha tendência para blogues com fundos claros. Em relação ao que aqui trago hoje devo dizer que só cheguei até ele há pouco tempo e graças a uma frase citada por Pedro Rolo Duarte. Gostei do estilo, da sobriedade, em especial da limpeza. É o marginal ameno de Nuno Costa Santos. Os blogues claros são mais fáceis de ler, mais luminosos, e fazem-me recordar a luz do meu país. 

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As canções do século (2068)

por Pedro Correia, em 30.08.15

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Divagações de praia 2

por Teresa Ribeiro, em 29.08.15

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O meu pai era um homem de hábitos. As suas rotinas eram cultivadas com cuidados de jardineiro e nem as férias lhe alteravam o seu modo de vida circular, feito de perpétuos regressos. De manhã, praia, à tarde mata, à noite a esplanada no centro da vila. Parava no mesmo café, de preferência sentado à mesma mesa, para ser atendido pelo empregado do costume e sempre, sempre na Caparica, a praia da sua vida, que conheceu eram os dois tão novos. Ele ainda com a barba mal semeada, ela também uma mocinha púbere, de beleza selvagem, com dunas a perder de vista e uma mata cerrada onde consta que os foragidos da cadeia da Trafaria se iam esconder para nunca mais serem vistos.

O seu conservadorismo extremo exasperava-me, o amor pela rotina confundia-me. Mas como tantas vezes acontece com os filhos, nem sequer tentava percebê-lo. Gostava de coleccionar tudo: moedas, selos, canetas, isqueiros, agendas, cinzeiros, búzios, caixas de fósforos, canivetes, porta-chaves, canecas, miniaturas de monumentos, postais. Sim, era um exagero. Aquele prazer em ter revelava um Tio Patinhas obcecado não por dinheiro, mas pelo acto de colectar em si mesmo. Como se tivesse medo que algo lhe fugisse, que as coisas lhe fugissem.

Infantilizou-me. Em vez de me emendar, esforçava-se para que eu perpetuasse os disparates que dizia em pequena. Fez o mesmo com os netos. Era uma forma de nos reter, de iludir a passagem do tempo para continuar a ter-nos como só se têm as crianças.

Quando eu viajava, sofria. E se o avião caísse? E se o mundo me tragasse? Não percebia a minha paixão por viagens. Dizia que para viajar bastava-lhe passar os olhos pela colecção de postais. Numa ocasião regressou mais cedo de uma viagem de serviço a Paris, que não conhecia, só porque estava de chuva e não tinha levado chapéu. Um excêntrico, o meu pai.

Tinha cinco anos quando o meteram num navio. Fez Luanda-Lisboa na companhia de uma estranha. Nesse tempo não se tentava explicar nada às crianças. Deixou para trás os pais, os irmãos e a terra onde nascera sem perceber o que se estava a passar. Havia uma razão plausível, mas não a conheceu em tempo útil.

Foi esta a sua viagem inaugural. Dos cafezais a perder de vista para um apartamento do bairro das colónias, em Lisboa. Só voltaria a ver os pais aos 18 anos e Angola muito mais tarde, já adulto. 

Nunca me falou, nunca falava disto, soube-o pela minha mãe. Há cinco anos, quando um avc lhe fez as malas e lhe deu uma guia de marcha para não mais voltar, na consulta da urgência, quando lhe perguntaram "onde mora?", respondeu: "No Uíge".

Faria este mês 87 anos.

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Frases de 2015 (32)

por Pedro Correia, em 29.08.15

«A ideologia do PS e do PSD é mandar.»

Pedro Ayres Magalhães, em entrevista ao DN

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.08.15

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O Pai é Badocha, de Jim Gaffigan

Tradução de Jorge Lima

Crónicas

(edição Sinais de Fogo, 2015)

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Em Belém não há só pastéis

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.15

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Não podia passar de hoje.

Toda a gente sabe que não sou adepto do Belenenses. Muito menos do seu treinador, que nos seus tempos de jogador entrou nas primeiras páginas por algumas atitudes que mereceram censura, reprovação e castigo. Todos temos momentos melhores e menos bons e não é o facto de à partida não simpatizarmos com esta ou aquela pessoa que nos pode impedir de ver o que de bom possa fazer. E publicamente reconhecê-lo. Por isso mesmo este espaço é hoje dedicado ao Belenenses, ao clube da Cruz de Cristo. Porquê? Muito simples. Porque o Belenenses, com um orçamento que está a anos-luz dos orçamentos dos outros clubes, depois de várias épocas de sofrimento, fugiu à extinção, foi reestruturado, estabilizou na primeira divisão, e com uma equipa só com jogadores portugueses, num plantel que terá, salvo erro, apenas dois estrangeiros, qualificou-se para a Liga Europa. A mesma para onde vai o "milionário" Sporting, depois de em quarenta e cinco minutos, com a eliminatória na mão e cheio de vedetas, ter sofrido três golos em Moscovo. No seu notável percurso, o Belenenses eliminou os suecos do Gotemburgo e os austríacos do Altach. O Belenenses é neste momento a prova, se ainda fosse preciso fazê-la, de que um clube bem gerido, com orçamento reduzido e jogadores nacionais, alguns deles dispensados pelos maiores clubes nacionais, pode prestigiar o futebol sem entrar em loucuras. O Belenenses, os seus jogadores e Sá Pinto estão de parabéns. Espero que tenham sucesso.

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Cenas da vida quotidiana

por Helena Sacadura Cabral, em 29.08.15

Na maioria dos países, a notícia está no anúncio de que vai ocorrer ou ocorreu alguma coisa. Em Portugal é diferente. Noticia-se algo que não ocorreu.

É assim que Pedro Santana Lopes anunciou hoje que não se candidatava a um lugar para o qual nunca se havia candidatado.

Tínhamos já uma série de candidatos a Presidentes da Republica. Inauguramos, agora, uma lista de não candidatos. Na qual a maioria dos portugueses se pode rever. É isto que eu gosto na política nacional!

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As canções do século (2067)

por Pedro Correia, em 29.08.15

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.08.15

«Quem vive num país rico é capaz de se preocupar mais com um cão ou um gato do que com um ser humano. Esta inversão de valores está a ultrapassar todos os limites. A União Europeia tem recursos para resolver o dramático problema dos migrantes. Só precisa de os usar.»

Helena Garrido, no Correio da Manhã

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Todo um programa

por Pedro Correia, em 28.08.15

"Cavaco e Passos preferem Rui Rio"

Notícia de 1ª página do Expresso, 10 de Janeiro

 

"Rio já pensa nas presidenciais mas ainda não decidiu quando avança"

Notícia do Público, 29 de Abril

 

"Rio avança para Belém"

Notícia da SIC, 29 de Maio

 

"Falso avanço fragiliza Rio"

Notícia de 1ª página do Sol, 5 de Junho

 

"Rui Rio avança no fim do mês"

Manchete do i, 8 de Julho

 

"Rui Rio avança já para Belém"

Notícia de 1ª página do Sol, 10 de Julho

 

"Rio jantou com Passos e avança antes das eleições legislativas"

Notícia do Diário de Notícias, 11 de Julho

 

"Rio já decidiu presidenciais"

Notícia de 1ªpágina do Expresso, 18 de Julho 

 

"Rio vê vantagens 'tácticas' em avançar mais cedo"

Notícia de 1ª página do Público, 20 de Agosto

 

"Rui Rio já não avança em Setembro"

Manchete do i, 27 de Agosto

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"Não vejo novelas"

por Marta Spínola, em 28.08.15

Sou, confesso, alérgica a rótulos e frases absolutistas do tipo "Não vejo novelas". Cansam-me as ideias pré-concebidas e a falta de ginástica mental. Dito isto, avancemos.

Esta é a frase que para muita gente é uma garantia de que não são ignorantes. Quem não vê novelas não é certamente burro e fala bem, pensam. Pensam mal. A música pimba, as festas na terra e o vestir mal são de novela para baixo, por isso o "não vejo novelas" coloca-as nesse patamar seguro, de quem não entra em bailaricos ou ouve Tony Carreira. Errado.
É como aquele dress code de multinacional em que "não vale calças de ganga", porque chinelos de praia, calções e tops pelo umbigo estão para lá dos jeans, então garante-se que ninguém vai mal vestido. Ui, a ingenuidade de quem pensou isto chega a ser quase fofa.

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Tentar que um conceito que é só nosso passe para o mundo resumindo-o numa tirada pateta devia ser acompanhando de um downer button de tão ridículo que é. Não temos de ser todos formatadinhos, não há um muito certo ou um muito errado nesta coisa dos gostos. Cada um de nós é como o nosso smartphone, e não há dois iguais. Ver novelas não é incompatível com beber gin, praticar paddle não implica nunca mais podermos ouvir Lionel Ritchie, ter um selfie stick não tem de impedir alguém de fazer parte da sociedade. Cada um escolhe as suas próprias aplicaç... características, gostos e manias. Ou, numa comparação mais analógica, seremos como aqueles jogos mix and match, de corpos divididos em três, em que podemos conjugar cabeça, pés e tronco das mais díspares personagens. Eu sou assim, assumo-o. Pior, gosto muito de ser assim. 

Um dia destes, num almoço, o rapaz ao meu lado disse-me: "sabes que é que vejo agora? O 'Mar Salgado'. Chego a casa sem cabeça, vejo aquilo sem pensar, e até me sabe bem". Cá está, ele não passou a ver novelas ou deixou de ser inteligente. Vê esta, sabe-lhe a descanso. É muitas vezes por aqui. O que não quer dizer que toda a gente tenha de as ver. Eu neste momento não vejo nenhuma, já vi algumas, muitas na minha infância. 
Não, pessoas, não ver novelas só faz de alguém isso mesmo, uma pessoa que não vê novelas. Se continuam a comer de boca aberta, a só saber falar dos preços das coisas, interessa pouco que conheçam o melhor gin do país. A mim pelo menos. Além disso, mal comparado, é como um suicida. Quem o faz não apregoa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.08.15

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O Tempo de Sua Graça, de Eyvind Johnson

Tradução de João Reis

Romance histórico

(edição Cavalo de Ferro, 2015)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 28.08.15

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Soraia Chaves

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Há qualquer coisa que está mal

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.08.15

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Já várias vezes me manifestei contra a facilidade com que se comercializam e se acede a armas nalguns países. Sei que o resultado é igual a zero, mas nem por isso deixarei de exercer a minha liberdade de crítica e de opinião e de me manifestar contra a situação. O que se passa nos Estados Unidos da América e que se tem vindo a agravar em cada ano que passa ultrapassa os limites do aceitável num mundo civilizado. As justificações que têm sido dadas para a continuação da bagunça, numa espécie de prolongamento do Far West pelo século XXI, são as mais bizarras, apesar dos números há muito dizerem que a situação é insustentável aos olhos de qualquer civilização digna desse estatuto.

A quantidade de casos verificados nos últimos anos, de mortes fortuitas ou deliberadas provocadas pela liberdade de acesso às armas, de atentados facilitados pelo livre mercado de armas e explosivos, há muito que devia ter obrigado à adopção de outras medidas para sua própria segurança e dos seus cidadãos. A forma como os EUA se arvoram em polícias do mundo e campeões dos direitos humanos contrasta com as cenas diárias de violência e com os constantes abusos cometidos pela suas forças policiais. Ontem ouvi uma notícia dando conta de que uma dessas cadeias comerciais especializadas no comércio de armamento deixaria de vender ao público "armas de assalto". Calculo que se tratem "apenas" de armas automáticas, metralhadoras e coisas do género, do tipo das que têm sido utilizadas nalgumas carnificinas. Será um pequeno passo dado que revólveres como o que foi utilizado há dois dias para tirar a vida a um par de jovens jornalistas devem continuar a ser livremente comercializados. O milionário Trump, com aspirações a presidente, e de cuja boca saem diariamente as maiores inanidades, diz que o problema não são as armas mas antes a falta de apoio a doentes do foro psiquiátrico. Não sei se quando o disse estaria a pensar no "Obama Care" ou se estaria a contar que os potenciais criminosos com problemas psiquiátricos ou psicológicos tivessem seguro de saúde que cobrisse os custos desse apoio. De qualquer modo, é duvidoso que se estivesse também a referir a si próprio, embora me pareça que não esteja muito longe da verdade.

Não é por nada, e não me estou agora a referir à pena de morte e ao sadismo utilizado nas execuções de alguns condenados, cujo fim se prolonga ao longo de horas, mas quando se olha para as estatísticas dos mortos e para o número de armas vendidas, e ao mesmo tempo se fica a saber que o responsável pela morte de uma dúzia de pessoas foi condenado a 12 (doze) penas de prisão perpétua, somos levados a pensar que não é só uma meia dúzia de loucos que precisa de acompanhamento psiquiátrico. Não sei se há alguma coisa de lógico na condenação de uma pessoa - presumo que o crime não o faça perder essa condição por muitas interrogações que o seu acto suscite - numa pena dessas. Ou se haverá alguma coisa que me esteja a escapar.

Perante isto, lendo as estatísticas, vendo na televisão o sentenciado vestido com a farda cor-de-laranja do estabelecimento prisional, de mãos e pés algemados perante um tribunal, embora esteja também ladeado de polícias fortemente armados e com o dobro da sua altura e volume, numa imagem que é um retrato da humilhação da própria espécie a que o juiz que condena pertence, num quadro que em nada difere dos que as cavalgaduras do auto-proclamado estado islâmico apresentam a essa mesma televisão quando exibem os seus troféus de carne e osso, sou levado a concluir que é toda uma nação que está a precisar de acompanhamento médico. A começar pelo seu direito penal e pela forma como trata os seus cidadãos, seres humanos, tratamento que por aquilo que nos tem sido transmitido difere muito pouco do estado natural que Hobbes nos descreveu no Leviathan e em que a vida mais não é do que "an egoistic quest for the satiation of desires". Ou pior, porque ali ninguém caía no ridículo de condenar o seu semelhante a doze penas de prisão perpétua. Como se uma só não fosse já suficiente para mostrar a miséria do sistema, a sua absoluta indigência, a sua total incapacidade para regenerar. Se ao menos ainda servisse para melhorar as estatísticas...

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Quando João Miguel Tavares escreve isto...

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.08.15

"Pedro Passos Coelho e Paulo Portas estão convencidos de que vão ganhar as próximas eleições legislativas. O ministro Pires de Lima e o secretário de Estado Sérgio Monteiro não estão. E vai daí, decidiram esta coisa extraordinária: avançar já com a concessão por 10 anos dos transportes colectivos do Porto (metro e STCP), dispensando novo concurso público, que é coisa sempre demorada. Como as eleições são já daqui a cinco semanas, nada como um ajustezinho directo num negócio de centenas de milhões de euros, invocando o eternamente prostituído “interesse público relevante” e concedendo às candidaturas um sensacional prazo de 12 dias para apresentarem as suas propostas, em pleno mês de Agosto.

Olhando para a privatização da TAP, e agora para esta concessão da STCP e do Metro do Porto, devemos todos lamentar, e muito, a inexistência de eleições a cada três meses, tal é o espectacular disparo de produtividade dos governos nas últimas semanas de mandato. Em finais de Junho passado, Passos Coelho garantia que, embora o executivo estivesse “na posse de todas as suas competências”, não iria haver qualquer “febre legislativa” nestes meses finais (também prometia “não confundir a actividade do governo com a pré-campanha”, como se tem visto) — mas, de facto, nada disse sobre privatizações. Não terá sido por acaso. E se a privatização da TAP já foi altamente duvidosa, tendo em conta a posição do PS sobre a matéria, esta concessão feita a pontapé e nas costas de toda a gente, incluindo das autarquias que aqueles transportes públicos servem diariamente, é uma pura e simples obscenidade.

Eu sou a favor da privatização da TAP. E também sou a favor da concessão dos transportes públicos de Lisboa e do Porto, até porque sou utente e já não aguento mais greves do metro. Mas eu ainda sou mais a favor do respeito pelas regras básicas de uma sã democracia, que incluem o pudor e o bom senso de não avançar com decisões complexas e politicamente fracturantes a um mês de eleições. Se as autarquias estivessem de acordo, se o PS estivesse de acordo, com certeza que sim, avançar-se-ia perante o consenso geral. Mas assim? Após 50 meses de mandato e com argumentos colados com aquele cuspo demagógico (cumprimento do memorando, menos custos para o contribuinte, e blá, blá, blá) que Sérgio Monteiro, homem que me parecia estimável, nos decidiu atirar à cara? Assim não, obrigado.(...) - João Miguel Tavares, Público, 27/08/2015

 

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As canções do século (2066)

por Pedro Correia, em 28.08.15

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Empreendedorismo 1

por Teresa Ribeiro, em 27.08.15

O equívoco em relação à expressão empreendedorismo, tão incensada por este governo,  é que ficou colada à ideia de sucesso. Mas em rigor um empreendedor é alguém que tem ideias de negócio e que arrisca. Pode ser um mitómano sem qualquer talento para gestão e transacções comerciais, pode ser um vigarista (os grandes vigaristas são bons empreendedores), pode ser um azarado que aposta sempre no cavalo errado.

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Aprender com os erros

por Pedro Correia, em 27.08.15

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Ouço alguns suspirar de nostalgia pelo regresso aos "30 anos gloriosos" que até 1975 mantiveram a Europa na vanguarda do crescimento económico e das conquistas sociais.

Percebo o lamento, mas há que reconhecer a realidade. As condições das décadas de 50 e 60 são irrepetíveis. Não só em Portugal (onde vigorava uma ditadura e havia condicionamento industrial com a pesada mão do Estado a ditar as regras, além de mão-de-obra barata, combustíveis ao preço da chuva, a protecção social tinha índices residuais e os mercados coloniais garantiam o abastecimento de matérias-primas), como é óbvio. Mas também no mundo.


As independências africanas, o aumento acentuado do preço dos combustíveis decretado pela OPEP em 1973 e, bastante mais tarde, a adesão da China ao acordo global de comércio, arranque simbólico da globalização, alteraram todo o cenário mundial. Tudo isto somado ao chamado "inverno demográfico" europeu, que ameaça implodir os sistemas públicos de protecção social.
É importante darmos prioridade às políticas de natalidade, que tiveram sucesso (por exemplo) na Suécia e na Dinamarca. Mas não vale a pena lutarmos contra a globalização, que para os povos outrora submetidos a opressão de vária ordem constituiu um poderoso grito libertador. Entre 1991 e 2011, cerca de 400 milhões de pessoas à escala global abandonaram o patamar extremo de miséria - aquele em que muitos ainda sobrevivem com menos de um dólar diário.

Todos os anos há largos milhões de indianos, brasileiros e chineses que transitam da pobreza para a classe média graças à globalização.
É um caminho de não-retorno.

Voltando a Portugal.
Se nos lembrarmos que o "crescimento zero" da primeira década do século XXI (abaixo de 1% podemos continuar a usar este chavão) ocorreu quando continuávamos a receber milhões de euros em fundos europeus, ao abrigo de vários programas comunitários, podemos considerar que se tratou de uma década perdida.
Mas pelo menos uma boa lição poderá ser colhida desses anos: não repetir os mesmos erros nem as mesmas receitas que nos conduziriam fatalmente às mesmas consequências.
Julgo que uma larga maioria de portugueses pensa assim. Até porque um país que não consegue aprender nada com três situações de pré-bancarrota em três décadas condena-se antecipadamente ao pior.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.08.15

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Crónica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami

Tradução de Maria João Lourenço

Romance

(edição Casa das Letras, 7ª ed, 2015)

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As canções do século (2065)

por Pedro Correia, em 27.08.15

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As canções no cinema (17)

por Pedro Correia, em 26.08.15

 

AMADO MIO (Gilda, 1946)

 

Amado mio
Love me forever
And let forever begin tonight.

Amado mio
When we're together
I'm in a dream world
Of sweet delight.

 

Rita Hayworth fez uma das aparições mais fulgurantes de sempre no cinema, incendiando plateias na década de 40. Oriunda do cinema musical, demonstrou os seus dotes de bailarina em filmes ao lado de Gene Kelly e Fred Astaire. Casou com Orson Welles, o menino-prodígio de Hollywood daquela época. O casamento durou pouco, a sua vida pessoal foi-se ensombrando. Isto reflectia-se nas aparições na tela: as fitas que protagonizava adquiriam um tom mais agreste e nebuloso à medida que o seu percurso biográfico se tornava menos solar.

Já estava separada de Welles quando o todo-poderoso magnata da Columbia Pictures, Harry Cohn, lhe confiou o papel principal de Gilda, que viria a tornar-se o mais icónico da sua carreira. A bela novaiorquina filha de um imigrante andaluz explodia como femme fatale num filme de enredo labiríntico ambientado na Argentina.

Nunca a sensualidade de uma mulher fora tão espectacular como nesta película realizada por Charles Vidor (1900-1959), húngaro radicado na Califórnia que já dirigira Margarita Carmen Cansino (nome original de Rita) em Cover Girl (1944), um dos mais aplaudidos musicais rodados na Meca do Cinema durante os anos da guerra. Gilda, desancada pela crítica na estreia, figura hoje entre as obras-primas incontestadas do film noir.

Como tantas vezes acontece, os críticos – aparentemente imunes ao sex-appeal da actriz – foram incapazes de vislumbrar o sopro de génio da fogosa ruiva nesta longa-metragem em que contracenava com Glenn Ford no papel de Johnny Farrell, alguém que se apaixonava e desapaixonava com excessiva facilidade. Ao ponto de ela lhe atirar, com manifesto desprezo: “Johnny é um nome tão difícil de lembrar e tão fácil de esquecer…”

 

O filme começou a ser rodado sem um guião completo, mas Vidor conseguiu transformar essa aparente debilidade em força. Estamos perante uma espécie de pesadelo a preto e branco relatado por uma voz off (a de Johnny) que nos conduz ao bas fond de Buenos Aires, onde o pecado é virtude e todas as personagens parecem ter o destino traçado desde a hora em que nasceram.

Este reduto de códigos masculinos é perturbado pela aparição de Gilda, que se torna claramente dominante em termos visuais, subjugando os varões ao seu charme incomparável – ao ponto de alguém já lhe ter chamado “o primeiro film noir feminista”.

A beleza exótica daquela cantora de cabaré perturba os homens. É lasciva e sensual, mas ao mesmo tempo imatura e vulnerável sem deixar de ser sofisticada – complexa de mais para qualquer deles, fosse herói ou vilão.

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Os filmes negros não costumam ser associados a canções. Mas Gilda é diferente também nisto: Rita Hayworth – que tinha 27 anos durante as filmagens, no último trimestre de 1945 – não voltaria a ser tão ofuscante como quando interpreta aqui duas canções: Amado Mio e Put the Blame on Mame.

Eu era adolescente quando vi esta película pela primeira vez, numa reexibição na RTP. E jamais esquecerei aqueles vibrantes momentos musicais em que ela monopoliza as atenções, vestida por Jean Louis e fotografada por Rudolph Maté: esquecemos tudo o resto para nos fixarmos no rosto e no corpo de Rita Hayworth, mulher-furacão capaz de desencadear pulsões eróticas – e a fúria dos esclerosados censores morais – ao descalçar uma simples luva.

Put the Blame on Mame – o tema que desencadeia esse singular strip tease – deu muito que falar. Mas a minha canção preferida é a outra, Amado Mio. Ambas compostas propositadamente para este filme por uma mulher: Doris Fisher (1915-2003), em parceria com Allan Roberts (1905-1966). Ela retirou-se cedo do mundo das cantigas, mas esta dupla ainda foi a tempo de compor temas que fizeram sucesso nas vozes de Bing Crosby, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Gene Autry e os Ink Spots, como Into Each Life Some Rain Must Fall ou You Always Hurt the One You Love.

 

“Many times I’ve whispered / ‘Amado mio’. / It was just a phrase / That I heard in plays / I was acting a part. // But now when I whisper / ‘Amado mio’ / Can’t you tell I care / By the feeling there / ‘Cause it comes from my heart.”

Como esquecer esta voluptuosa canção, que sempre associarei a Rita Hayworth – a bailarina com quem Astaire mais gostou de dançar? Isto apesar de em Amado Mio ela ter sido inesperadamente dobrada pela cantora canadiana Anita Kert Ellis (decisão incompreensível do estúdio, pois a intérprete de Gilda havia sido vocalista na popularíssima orquestra de Xavier Cugat).

Para mim ainda mais incompreensível foi a contestação que o filme, ao estrear-se, mereceu nas colunas bem-pensantes da imprensa novaiorquina. “Uma fita lenta, opaca, desinteressante”, opinou o New York Times. “Maçadora e algo confusa”, bocejou o Herald Tribune. Prosa pedante e vesga de quem pretendeu reduzir Rita Hayworth à condição de pin-up ou de “rainha da jukebox”. Mais atentos aos sinais dos tempos, apesar de tudo, estavam os militares que chamaram Gilda à primeira bomba atómica norte-americana largada em tempo de paz, no atol Bikini...

 

Ao longo dos anos, noutros quadrantes e noutros contextos, fui reencontrando Amado Mio.

Em 1989 Grace Jones interpretou uma versão sincopada do tema que fez furor nas discotecas. E em 1997, no excelente álbum Sympathique, os Pink Martini voltaram a dar vida à canção que sempre nos evocará a hora do máximo esplendor da filha do imigrante andaluz – faiscante e enigmática e trágica deusa ruiva.

“I want you ever / I love my darling, / Wanting to hold you / And hold you tight. // Amado mio, / love me forever / And let forever / Begin tonight.”

Versos que a perseguiram na montanha-russa da vida tornada filme, do filme tornado vida. Primeiro na imparável ascensão ao patamar supremo da Sétima Arte, depois num declínio acelerado pelo alcoolismo. Já retirada do cinema, incapaz de memorizar textos num prenúncio do Alzheimer em que viria a afundar-se, legou-nos esta melancólica confissão: “As únicas jóias da minha vida foram os filmes que fiz com Gene Kelly e Fred Astaire.”

Voltava ao início de tudo: à magia do ecrã iluminando a vasta sala escura. Gilda uma vez, Gilda para sempre: o cinema tem o dom de transformar o efémero em eterno. Forever and ever.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.08.15

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Obras Completas, volume I e II, de Rolão Preto

Organização e introdução de José Melo Alexandrino

(edição Colibri, 2015)

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Mas é preciso um parecer?

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.15

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A gente sabe que no afã das distribuição de prebendas e das privatizações em cima do joelho, só para cumprir calendários em fim de ciclo e contentar os amigos, há muita coisa que passa despercebida. E também sabemos, por exemplo, que em casos como o da RTP a aquisição dos direitos para a transmissão dos jogos da Liga dos Campeões foi apenas um pretexto para correr com Alberto da Ponte, pois esses mesmo jogos, entretanto, já foram apresentados como um trunfo à beira das eleições. É claro que com o futebol ninguém se chateia, mas a situação deste cavalheiro que o ex-ministro Relvas promoveu inicialmente para um instituto público ultrapassa os limites do decoro, e revela o opróbrio em que medra a reforma do Estado que a coligação PSD/CDS-PP prometeu aos portugueses quando estes correram com José Sócrates.

O problema não é a competência do presidente da PT Portugal ou a legalidade da situação, mesmo que uma "entidade externa", como muitas outras que o governo de Passos Coelho contratou por ajuste directo para não perder tempo, venha dizer que é legal.

Qualquer pessoa decente facilmente compreende que o problema é de moralidade, de ética, de coerência com aquilo que se apregoou e com a agenda que se impôs aos portugueses à revelia do seu contrato eleitoral.

Porque só num Estado doente, em fase terminal de desmantelamento, corroído pelo clientelismo, sem gente às direitas, e com primeiros-ministros e políticos sem estatuto, dependentes desse mesmo Estado, dos partidos e dos empresários que vivem à sombra de ambos, é que se fica à espera de pareceres (pagos com o dinheiro que se desviou da sua segurança social, educação e saúde) para se acabar com o deboche.

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As canções do século (2064)

por Pedro Correia, em 26.08.15

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Para Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.15

 

Querido Eduardo

O verão tem sido estranho. Calor ou frio, dá para tudo, a dona Idalina, na aldeia, diz-me que estamos protegidos pela Nossa Senhora do Cabo Espichel. Talvez seja. MM assegura que Lisboa se torna afável em Agosto, embora a vida se faça em torno deste dia. Sempre este dia. Podia contar-te algumas coisas, porém suspeito que o bom já o saibas - e te alegres! - e que o mau seja de evitar. É um país cheio de inveja e coisa pouca, de muitas adversativas e hipocrisia. Este ano, com as eleições à porta e as presidenciais já firmes no horizonte, as línguas andam afiadas, o hate mail e comentários absurdos fazem a silly season com facilidade. Diria que te podias divertir com tudo isto. Mas não. Estou quase certa de que terias momentos de desalento. Há dias em que me interrogo se a bondade se desvaneceu, se a democracia é assim tão frágil, se haverá outro caminho que não este, sempre o mesmo, de ler os jornais e pasmar, de ver o facebook e pesar-me a solidão. Estou numa fase de buraco, terás de me perdoar.

Se desfiar as contas do rosário dos acontecimentos talvez fiques a ponderar que não foi má ideia partires quando o corpo decidiu que assim era. Fazes falta. Muita falta. Para pensar as coisas, para as dizer, para apresentar contraditório e bradar aos céus com a ferramenta tão inteligente da memória. Na gaveta dos bons acontecimentos, querido Eduardo, podes colocar os sucessos literários de quem amas, alguns encontros com risos e muita conversa sobreposta, sempre no intuito de dizermos o que pensamos ser importante, o que nos espanta. Não sendo um mundo novo, existem ainda algumas admirações. MM combate o horror todos os dias. Sabes como ela é. Eu procuro fazer o mesmo. Cada uma da sua maneira, é certo. E como nós, os outros que te lembram neste dia.

O tempo pesa de outra forma. A bungavília está pronta a despedir-se do verão. Já se sente o arrepio dos miúdos por saberem que a escola se aproxima. Descobriram um novo planeta, o 452b, demora 388 dias na sua rotação e, arrogantemente, designam-no como Terra 2. Mesmo que seja, assim o garantem os cientistas, um planeta mais velho do que o nosso, o pobrezinho é o segundo. Achas que alguém nos escuta ali, no 452b? E será o b o correspondente a planeta bom, planeta benéfico ou apenas a plano b? Divirto-me com isto, o que queres tu que te diga? É já tão tarde para te dizer tanta coisa e tão cedo para o resto.

Daqui te beijo, sem longe ou distância.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 25.08.15

onde um afago rápido podia ser a salvação dela

O pai jantava no escritório, pontualmente às oito, o tabuleiro seguia nas mãos da mãe, depois de verificar que Isabelinha não trocara a ordem dos talheres, que o guardanapo estava imaculado. Não olhava sequer para as crianças. E, sempre que o fazia, o alvo era Martim. O único alvo do seu afecto que se resumia a um gesto rápido, um afago na cabeça.

 

onde se explica o papel do pai e outras inconfidências

Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar

Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade

Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.

O Martim? Ó mãe...

Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento...

Mãe, por favor.

 

Onde a fé salva do convívio triste de uma família que não o é

A conversa entre a avó e o pai repetira-se algumas vezes e Carmen percebera que a avó não aprovava o casamento do filho. Não era apenas a conversa, era a impossibilidade de ir a casa dos pais, de preferir o almoço de Natal no hotel mais afamado de Coimbra a pretexto de que a consoada era um momento de pré reflexão para a missa do galo. Carmen fez a catequese, primeira comunhão, crisma. Não questionou. A avó ficava encantada com o seu silêncio, era uma menina dócil, uma jovem agradável, uma adulta pronta para ir para Lisboa, com boa cabeça. O contrário do irmão, já se sabe, mesmo que Martim não estivesse preocupado com nada.

 

onde se relata o sucesso de Martim, o irmão marialva

Com o dinheiro herdado do avô, o mesmo que podia aceder aos 21 anos, tal como a irmã, montou um negócio nocturno. Era assim que lhe chamava a avó: negócio nocturno, um bar com uma pista de dança cujo sucesso foi imediato. Depois deste bar, Martim abriu mais nove pelo país e tornou-se um empresário de sucesso, sempre desprezado pela família ​por falta de canudo e de estabilidade. Carmen explicara a Carlota o marialva que era o irmão

Ele sabe as regras. Tu para quebrares as regras tens de as saber e ele sabe, ignora por opção. Sempre escolheu a liberdade acima de tudo.

E tu escolheste o quê?

Escolhi não fazer barulho. Depois vim para Lisboa.

Aqui também não fazes muito barulho, Carmen, tens a melhor média da turma...

Isso não quer dizer nada.

És certinha.

Sou. Não faz mal.

 

onde a história de vida não interessa

Carmen revive tudo isto sem conseguir perceber onde a vida, aquela vida, terminou. Quando é que se tornara uma mulher sem normas, a cobrar e a dizer a Jaime tudo o que pensava, pela simples razão de não conseguir estar calada. A avó não a reconheceria. Em noites de enlevo amoroso, chegara a afirmar como teria sido importante ter a avó viva, como ela aprovaria a pessoa de Jaime na sua totalidade. Não era verdade. Agora podia pensar assim.

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