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Isto é Portugal (2)

por Joana Nave, em 07.03.15

_DSC1432.JPGMonserrate | Portugal

 

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As canções do século (1892)

por Pedro Correia, em 07.03.15

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Stasi (Ministerium für Staatssicherheit)

por José António Abreu, em 06.03.15

Varoufakis vai combater fuga aos impostos com uma rede de informadores «civis» munidos de câmaras de vídeo. Felizmente é uma ideia da esquerda.

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Quem havia de dizer...

por Rui Rocha, em 06.03.15

Sócrates e PPC detidos no Estabelecimento Prisional de Évora.

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Maria do Rosário Pedreira

por Patrícia Reis, em 06.03.15


O meu amor não cabe num poema

O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.

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Meia dúzia de notas

por José António Abreu, em 06.03.15

1. Não abordei até agora o caso da falta de pagamento das contribuições devidas por Passos Coelho à Segurança Social entre 1999 e 2004 porque não vejo razões para defender quem não cumpre as suas obrigações nem para atacar quem, apesar de tudo, incorreu no que classifico como um delito menor, partilhado por muitos milhares de portugueses (desconhecendo a obrigação, eu próprio andei uns meses sem pagar as contribuições em 1993/94 e conheço várias pessoas que fizeram o mesmo, uma das quais durante dois anos - sem que nenhuma tenha sido alertada para a falha pelos serviços da Segurança Social).

 

2. Não, não é necessário ter um passado impoluto para, sendo governante, exigir um módico de cumprimento aos restantes cidadãos - até porque ninguém o tem. É necessário assumir os erros cometidos e mostrar que se aprendeu algo com eles. A reacção de Passos, atabalhoada, revela uma de duas coisas: ou está convencido de que reacções sinceras, não preparadas por spin doctors, o beneficiam (até por contraponto às contínuas encenações do primeiro-ministro que o antecedeu) ou necessita de despedir os spin doctors actuais e arranjar outros (melhores; muito, muito melhores). A reacção pública aconselha a segunda via.

 

3. Que muitas almas tenham visto na defesa de Passos Coelho uma alusão a Sócrates é normal. Que, por Sócrates estar preso, Passos estivesse impedido de afirmar nunca ter usado o cargo para benefício pessoal seria aberrante. Passos terá culpas pela situação em que se encontra mas não pelo facto do Ministério Público estar precisamente a acusar Sócrates de usar o cargo para, beneficiando empresas, ganhar milhões.

 

4. A discussão tem pelo menos dois méritos que ultrapassam a simples questão dos actos passados de um cidadão que chegou a primeiro-ministro. Um deles é permitir um princípio de debate em torno da hemorragia legislativa nacional (que potencia falhas e litígios), bem como da relação dos serviços do Estado com os cidadãos (antes, errática e autoritária; hoje, assertiva e autoritária). Que o governo apenas tenha executado mudanças superficiais nestas áreas (redução dos escalões do IRS, reforma do IRC, corte de subsídios) deveria dar azo a crítica. É, porém, necessário reconhecer que nem o aperto orçamental dos últimos anos nem a circunstância de, durante eles, ter ficado provado ser apenas constitucional aumentar taxas e impostos propicia abertura para tentar uma relação mais adulta com os cidadãos.

 

5. O outro mérito é invalidar o argumento de que há uma relação directa entre os descontos que se fazem e a pensão que se recebe, expresso frequentemente na ideia de que «a minha pensão não pode ser cortada porque o dinheiro é meu». Se assim fosse, ninguém para além do próprio seria penalizado pela falha de Passos Coelho e ela seria vista como pouco grave. Fica pois assumido que a lógica da Segurança Social não é particularmente diferente da que rege o sistema fiscal: as pessoas são forçadas a contribuir por razões comunitárias e até distributivas (se não entre escalões sociais, pelo menos entre as gerações no activo - sem garantias quanto aos valores que receberão - e as não activas - que beneficiam mais do esforço das activas do que da contribuição efectivamente realizada). É uma noção importante, a manter presente quando se voltar a discutir a reforma do sistema - e o Tribunal Constitucional tiver de se pronunciar sobre o assunto.

 

6. Finalmente, desejo exprimir solidariedade para com o PS. Não deve ser fácil ter o líder na prisão.

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Passos Coelho é um sacana que deve ser julgado sem piedade na praça pública. Sobre Sócrates, ah bem, sobre Sócrates não se pode emitir qualquer opinião porque tem direito à presunção de inocência.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 06.03.15

DO BRASIL N 250[1].jpg

 

 Do Brasil - Fascínio e Miragem, de Eduardo Lourenço

Organização e prefácio de Maria de Lourdes Soares

Ensaio

(edição Gradiva, 2015)

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é um livro, pá

por Patrícia Reis, em 06.03.15

A miúda sentou-se no recreio, tirou o livro da mochila, instalou-se contra uma parede e assim . . .

http://expresso.sapo.pt/e-um-livro-pa=f912698

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 06.03.15

 

Esperanza Pedreño

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Porque não se cala?

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.03.15

401620.jpg

Por distracção ainda podia passar, mas "por falta de dinheiro"? Francamente, não acredito que vivesse acima das suas possibilidades.

Já chega, homem. Poupe-nos a mais explicações e a mais cartas do cárcere. Para miséria já basta assim.

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"O começo do novo governo do Primeiro-Ministro (PM) Manuel Valls continua não sendo fácil, com a demissão do Secretário do Comércio Exterior, o deputado socialista Thomas Thévenoud, após descoberta de atrasos nas suas últimas três declarações de imposto de renda pela Alta Autoridade pela Transparência da Vida Pública (HATVP).

(...)

As leis chamadas de leis de transparência da vida pública obrigam os políticos de alto escalão franceses, atualmente cerca de 8000 pessoas, a passarem por uma fiscalização detalhada dos seus bens, suas rendas e suas ligações comerciais nos últimos 5 anos, incluindo as de seus esposos(as), antes de entrar em nova função, para determinar se existirão conflitos de interesse. Thomas Thévenoud foi um grande apoiador destas medidas, e não é difícil encontrar vídeos de seus discursos na Assembleia pregando a transparência e o sacrifício patriótico no pagamento dos impostos. Em um discurso de 17 de junho de 2013 afirmou que “a República exemplar é aquela na qual os ministros tornam público o seu patrimônio”, enquanto em um outro de 22 de julho do mesmo ano disse que a transparência é “a única solução para renovar a ligação de confiança dos nossos compatriotas (com o governo)”. Aqui e também no L'OBS

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Isto é Portugal (1)

por Joana Nave, em 06.03.15

_DSC0044.JPGZambujeira | Portugal

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As canções do século (1891)

por Pedro Correia, em 06.03.15

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Não percebo o Regulamento das Prisões

por Rui Rocha, em 05.03.15

O mesmo normativo que proíbe um recluso de usar um cachecol do Benfica permite, em contrapartida, que este enfie um barrete.

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Civilização

por Luís Naves, em 05.03.15

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A revista The Economist afirmava na sua capa da semana passada que, em 2020, 80% dos adultos terão um supercomputador no bolso, ou seja, um smartphone. Este número traduz a extensão do processo a que chamamos globalização e que consiste numa vaga particularmente intensa de unificação da humanidade. Não há canto do mundo imune aos efeitos das tecnologias que caracterizam o nosso tempo. As pessoas de hoje inserem-se em redes complexas e sobrepostas, onde se transmitem tremendas quantidades de informação. A internet transformou-se numa imensa biblioteca dominada pela língua franca, o inglês, que talvez acabe por absorver partes de espanhol e mandarim. Nas últimas três décadas foi criada a infra-estrutura que permitirá agora acelerar a mais veloz transformação a que a humanidade já assistiu. O planeta está a unir-se como nunca antes foi possível.

As paisagens urbanas de Blade Runner, o visionário filme dos anos 80, começam a ser relativamente comuns. Já não nos parece estranha a fusão de elementos asiáticos e ocidentais no interior de megacidades com uma profusão de estilos de arquitectura e de raças. A cultura contemporânea é mestiça, consistindo numa amálgama cada vez mais agregada de ideias com diversas proveniências. Vistos a certa distância, todos os processos são de junção, das raças à economia, da linguagem às obras de arte, da gastronomia ao comércio. Está a ser criada a primeira civilização perfeitamente global, onde se aglutinam valores dominantes comuns, e não seria espantoso que dentro de cem anos houvesse uma moeda única planetária, o embrião do governo mundial, até um sistema judicial idêntico para todos os humanos, pois há esboços destes desenvolvimentos, sobretudo na União Europeia que, ao contrário do que muitos pensam, não está em declínio nem a implodir, mas será provavelmente o principal modelo político do futuro.

Claro que há movimentos fundamentalistas, sociedades em fragmentação, Estados falhados, tiranias e autoridade, crises capitalistas, demasiados países sem tolerância para a diferença, mas trata-se de reacções à mudança. Alguns grupos tentam travar o que consideram ser maléfico, contestando a ciência, o humanismo ocidental ou os direitos das mulheres, mas os seus esforços estão condenados ao fracasso: a democracia e a justiça, o consumo, a busca da felicidade ou o casamento romântico são ideias demasiado poderosas, difíceis de arrumar numa gaveta.

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Crónica de Rui Cardoso Martins no Público

por Patrícia Reis, em 05.03.15

Crónica: I Comissão de Inquérito Sentimental ao "caso PÚBLICO"

Não tenho memória de tais felicidades

O senhor director-por-um-dia que me desculpe, mas ele vive em Londres e eu hoje faço como se faz em Portugal (se o assunto nos compromete a vida): esqueço, limpo, oblitero, faço delete, apago da memória, não tenho nada presente... O João Maquê?

Preciso de ajuda. No PÚBLICO eu vivo neste e noutro Tempo e ainda num terceiro mais puro que inventei na juventude (oh céus, a lamechice é contra o Livro de Estilo). Estou no aquário da directora Bárbara Reis, um vidro voltado para o Tejo em Alcântara, outro vidro para a redacção. Na secretária mais perto, um senhor de óculos, cabelos e bigode brancos, ao telefone. Ao tomar notas, curva-se sobre a caneta como um carpinteiro que escava, a golpes de formão, um pedaço de madeira verde. Se o tronco ganhar vida, transforma-se num menino mentiroso com o nariz a crescer? Para quem já viu a sua oficina, este homem parece um Geppetto a trabalhar.

— O que é que o Cerejo anda agora a fazer?

— O primeiro-ministro. Passos Coelho esteve vários anos sem pagar a Segurança Social.

— Não!

— Pagou agora à pressa por causa disto. A notícia sai amanhã.

Ainda há espaço no jornalismo para "contos de crianças”, como diz o outro. Notícias frescas para publicar em jornais novos de 25 anos. Na outra ponta da linha, fisgado na sua língua-de-madeira, um primeiro-ministro estrebucha e ensaia, para a semana seguinte (agora já estamos nela), a amnésia nova de cada dia que nos dá hoje: “Eu não tinha consciência de que essa contribuição era devida durante esse período”.

Estamos no domínio do inconcebível, não é? Sim, no domínio do jornalismo. Por longos anos, a directora Bárbara Reis foi a funcionária mais nova do jornal, começou aos 19.

— Eu acredito que... isto é dizer o costume mas... eu acredito que fazemos o que fazia Heródoto: procurar informação, verificá-la, dar-lhe um sentido. E dizer: “Isto foi o que ouvi destas pessoas, não tenho a certeza se é verdade.” Mas procurar a verdade.

Estamos no gabinete da direcção da quarta sede — em um quarto de século — do jornal PÚBLICO. Agora volta para trás, para trás cabeça, e sobe aos prédios novos da Quinta do Lambert, no outro lado de Lisboa, junto ao Campo Grande. O complexo de cor creme no topo. Há um cão rafeiro à porta que se chama Sonae. Ou o jornal o adoptou ou ele adoptou o jornal. Tem uma companheira, a Belmira. Conheceram-se ali à porta (os ambientes de trabalho intensos, os projectos novos, despertam níveis emocionais extremos, há estudos sobre o assunto). Mas os dois cachorros não guardam a primeira casa do PÚBLICO, nem é preciso: nós estamos vigilantes.

Temos um exército de computadores Macintosh, uns tijolos ultramodernos que não há em mais nenhuma redacção do mundo. Aliás, temos duas redacções magníficas, uma é no Porto, vamos fazer duas edições diárias, Norte e Sul. Temos um accionista que não vai interferir no conteúdo. Temos jornalistas de prodigiosa experiência, temos estagiários maçaricos (eu, etc.) com inaudito sangue na guelra. Temos gente ponderada e temos muitos doidos. Temos jornalistas que conhecem políticos e banqueiros e não traficam informações falsas nem favores. Temos críticos de arte e música e cinema e literatura que sabem disso tudo e, além disso, sabem escrever sem peneiras, assim se tivesse continuado. Temos um bar lá dentro servido por brasileiros que levantam o mindinho a segurar no copo. Temos fado vadio às vezes, esfolado por um senhor dos Anjos.

Temos “bom gosto” (como dizia o Vicente, o certo é que existe). Temos um Livro de Estilo cheio de sintaxes e éticas. Temos secretárias que são mães para os aflitos, irmãs para os cansados e polícias para os faltosos. Temos técnicos que conhecem a tecnologia. Temos cronistas que sabem da crónica e, se não sabem, que aprendam. Temos correspondentes que contam o que se passa lá onde eles vivem nos outros lados da Terra.

Temos repórteres, homens e mulheres, para arriscar a vida nos cumes e vales e guerras e pazes do mundo, voar até onde se passam as coisas. Temos repórteres para descer aos bairros pobres de Portugal, os mercados, os tribunais. Temos fotógrafos com teleobjectiva, grande angular e lente macro, que apanha as patas das formigas. Temos paciência e meios para ditar ao telefone, vírgula a vírgula, um texto de cinco páginas desde a Austrália, se o fax e o telex falharem.

Temos pouco sono. Temos muito sono. Não temos sono. Temos um copo de whisky na secretária, temos um chá. Temos fumadores e (não) temos sala de fumo. Temos bigodes feios e temos belas pernas com saias, e longas pestanas lá em cima. Temos encaracolados que um dia vão dar carecas. Temos um bife de véspera do Snob no escuro vermelho do estômago. Temos gravatas italianas e temos pelintras em calções a fazer perguntas matinais a ministros. Temos mulheres a dirigirem secções e a ensinar homens como é que se faz um jornal. Temos, na redacção, mulheres e homens a apaixonarem-se em open space. Temos divórcios em marcha.

Temos felicidade e lágrimas guardadas nos garrafões do Tempo.

Temos uma “sala de telex”. Temos até escondida na cave, como numa comédia a preto-e-branco, uma artista da rádio-TV em potência, uma “menina dos telexes” que trabalha a cantar. Na 1ª Guerra do Golfo (1991), ela irá rasgar rolos de papel com as notícias das bombas e dos ataques e correr para o director de fecho da 3ª edição do dia nas bancas (!), e agora à “menina dos telexes” chamamos Maria Rueff.

 
Os vários logótipos do PÚBLICO, incluindo esboços que foram feitos antes da escolha do "logo" original

Temos um título e um cabeçalho forte, desenhado numa elegância azul (mas chegou a ser vermelha, Henrique Cayatte). Ensaiámos tudo, tudo, páginas, capitulares das entrevistas, títulos, entradas, itálicos e bolds em tantos “números zero”.

O Muro de Berlim caiu há dias, é Novembro de 1989, bebe-se champanhe no betão demolido da Europa e nós estamos lá, na passagem de ano. Vamos fazer um jornal para os próximos 25, 50, 100 anos. Dar o que prometemos a Portugal, sermos melhores do que os nossos iguais no mundo, até onde nos for possível, que haja saúde e dinheiro.

Vamos fazer... mas, ahhh, afinal não é para hoje... Dia 2 de Janeiro de 1990: o jornal não sai para as bancas. As máquinas falharam. Pedimos desculpa por esta interrupção, o PÚBLICO segue dentro de dois meses. Pelo menos vamos rezar por isso a todos os santinhos mediáticos.

Onde é que meteste o whisky?

O (extinto) O Independente inventa-nos um gémeo. Estamos a trabalhar para o BONÉCO, e assim se mantém o treino no “jornalismo de referência”. Há seres que acreditam em confrontar sempre o acusado com a própria acusação, curiosa novidade da altura, e sempre em desuso.

— O pior dia foi quando não saiu. A maquinaria ainda não estava preparada...

Vicente Jorge Silva, autor da ideia do PÚBLICO e seu primeiro director, até 1996. Jornalista, cronista, cineasta. Estamos a jantar no Bairro Alto. Há 25 anos, Vicente passa pela aventura de comprar e de pôr a funcionar uma tecnologia nova israelita, o scitex. Salva-se o jornal. Mas barato é que não é.

— Quando a gente pensa que aquilo na época custou 350 mil contos [1,750 milhões de euros] e agora podia ser feito por um processador, um computador normal...

Vicente é a cara do PÚBLICO, a “capa” original. Não é só nostalgia:

— Acho que a melhor capa foi a “Liberdade, Ano Zero”. Tenho aquilo emoldurado em casa. Mostrava que nós tínhamos um espírito bastante democrático. Não era a liberdade do “mundo socialista” contra o “mundo capitalista”. Quando os nossos repórteres iam para a Alemanha, a Roménia, descobrir o mundo a mudar. Enfim, foi uma capa falhada porque não saiu. Mas tinha tudo a ver com o espírito do jornal. Uma certa pureza inicial.

Vicente agora lê o jornal todos os dias, mas às vezes aborrece-se “de morte”. Tem de dizer uma coisa: “O jornal é mais permeável a jogos de influências, nomeadamente na área cultural!”  Mas basta, “ainda é o jornal mais bem feito que há”.

— Foram os melhores tempos da minha vida, uma coisa criativa, as pessoas gostavam umas das outras, eu era o director sem hierarquia... mas com respeito. E podíamos pôr a pata na poça mas éramos respeitados.

— Sim.

— Eu era uma pessoa colérica, agora nem me reconheço aos gritos na redacção... Como é que eu era?

— O Vicente entrava aos gritos de braços no ar.

— Pois era...

— Mas as pessoas gostavam de si.

— E eu gostava das pessoas. Se você respeitasse, hum, digamos, os cânones da comunidade, você escrevia o que quisesse.

Depois da Bárbara e do Vicente, o último da trilogia essencial do PÚBLICO: José Manuel Fernandes. Estou de novo no Bairro alto, nas instalações do jornal online Observador. O José Manuel é o publisher, ligado directamente à redacção. Uma sala de azulejos setecentistas, com cenas de caça, onde o jovem Pinto Balsemão terá administrado o Diário Popular. Por acaso, um jornal de que fiz a reportagem de encerramento. E ali perto também fiz o triste enterro do Diário de Lisboa. Ah, e ainda me enviaram para coveiro d’O Diário. Vi qualquer coisa da destruição de jornais e não é bonito ser gato-pingado de tantos sonhos no papel, de tantos profissionais a chorar. [Se me permitem também vi, ao serviço do PÚBLICO, destruição a sério na Sarajevo em guerra, até que um dia fui literalmente trabalhar para o BONÉCO e fazer o Contra-Informação...]. É bom ver que o jornalismo voltou ao Bairro Alto, desta vez na plataforma digital. E novidades de José Manuel Fernandes, que um dia foi convidado para director, por telefone-satélite, em pleno bombardeamento na Guiné-Bissau?

— Gostei muito. Foram os melhores anos da minha vida.

Bolas, isso é que todos dizem! Outra coisa. José Manuel Fernandes esteve no centro da famosa “esquizofrenia” do jornal, com a invasão do Iraque por George W. Bush e Tony Blair (Março de 2003). A maior parte da redacção a pensar (e a escrever) contra o que escrevia (e naturalmente pensava) o seu director. E os leitores baralhados com tal amplitude ideológica, escancarada.

— Penso que as pessoas lá dentro sabiam como eu trabalhava. Acho que cá fora isto é raro. Pode parecer um bocado presunção... as ideias ganham-se pelos argumentos, não por imposição. Era melhor dar argumentos sem rodriguinhos do que fingir que estava tudo bem. E que era possível conviver com opiniões distintas.

Pensa que o jornal é hoje “mais monolítico, não é por ter dois ou três berloques na opinião que fica plural”. A ideia que o José Manuel tem sobre este seu passado na direcção é, por assim dizer, menos monolítica do que já foi. Orgulha-se dos 25 anos do 25 de Abril, quando entregou aos jovens todo o jornal, sem saber nada, só já o viu impresso e trazia na capa uma bebé em chão de cravos vermelhos. Mas já não vê nenhum “25 de Abril em Bagdad” no derrube de Saddam, o marine que coloca a bandeira norte-americana na estátua que cai, como uma árvore, os homens que batem chinelas no rosto de bronze do ditador.

— Com o tempo que passou, e sabendo o que sei agora, aquilo não tinha o significado que lhe atribuí. Se eu soubesse o que sei hoje, não o teria escrito. Mas eu não sabia.

Bárbara Reis, quando foi convidada, voltou ao princípio do Tempo:

— Amanhã sou directora do PÚBLICO, tenho de ligar ao Vicente! É o nosso fundador, tenho de lhe ligar. Foi bastante ridículo, porque quando lhe liguei não consegui dizer nada. Só chorei.

O pior:

— O dia em que despedimos 50 colegas. Não há maneira não errada de fazer isto. É tudo tão mau e tão difícil, mas tentámos da melhor maneira que sabíamos.

A Bárbara acredita no “mecenato puro e duro” e em “co-produtores” para as grandes reportagens. O PÚBLICO aposta no online (20 anos, já), no data journalism, as novas tecnologias “permitem agarrar em milhões de dados e encontrar forma de retirar informação, uma leitura, um padrão.”

Ao mesmo tempo vemos ali, atrás do vidro, na redacção, o jornalista José António Cerejo a entalar — artesanalmente — mais um primeiro-ministro que tem problemas com a Segurança Social, com a verdade e com a língua portuguesa.

— Eu acredito que o PÚBLICO vai durar para sempre. Não sei é como vai ser. Dizer ‘dantes é que era bom’ é uma ideia bacoca.

Mas são 25 anos um bocado metido nisto. Ou quase nada. Aliás nada. Agora até acho que esqueci tudo, caros leitores, vejam só o que me aconteceu.

Escritor, jornalista na fundação do jornal

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 05.03.15

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 Manhã, de Adília Lopes

Poesia e prosa

(edição Assírio & Alvim, 2015)

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As canções do século (1990)

por Pedro Correia, em 05.03.15

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Calvin and Hobbes (6)

por Joana Nave, em 04.03.15

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Quem se lembra das famosas "línguas de perguntador"? Os pratos recheados de alimentos desconhecidos, aromas intrigantes e a inevitável pergunta, antes de arriscar a primeira garfada: "- O que é isto?" 

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Sophia de Mello Breyner Andresen

por Patrícia Reis, em 04.03.15

 

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

 

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Coisas que me apoquentam

por João André, em 04.03.15

Há coisas que não entendo muito bem. Se um privado pedir dinheiro para comprar uma casa, ela é usada como garantia. Se não se puder pagar a dívida, o banco pode ir buscar a casa e, caso o seu valor tenha caído, o privado ainda continua a dever dinheiro. Coprar a casa é um investimento que pode correr mal, portanto.

 

Se uma empresa pedir dinheiro para expansão e a coisa correr mal, o banco não só pode pedir a execução dos bens para pagar a dívida como pode ainda perseguir os indivíduos da empresa para ser ressarcido do montante. O empréstimo é portanto um investimento que pode correr mal.

 

Se um país pedir dinheiro emprestado ("emitir dívida", no jargão engana-parvos) tem de o pagar de volta. Se a sua economia não crescer o suficiente para pagar essa dívida, fica com uma maior que anterior (pede dinheiro para pagar a dívida anterior). Pedir esse dinheiro é mais um investimento que pode correr mal.

 

Se um banco emprestar dinheiro a privados, a empresas ou a países, o dinheiro tem que regressar, seja por que via for (por dívida ad aeternum, reemissão de dívida, compensação por estados, etc). Ou seja, apesar de um banco emprestar dinheiro com a esperança de receber mais que aquele que emprestou - faz, por definição, um investimento - não partilha quase qualquer risco, este é eliminado por via da obrigação quase absoluta do endividado.

 

Não contesto que uma dívida deve ser paga (se não o for sofrem-se as consequências de se perder credibilidade, por exemplo). Mas, coisa que me apoquenta: sou só eu que tem a impressão que há aqui qualquer coisa que não bate certo?

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Questão de idade?

por Helena Sacadura Cabral, em 04.03.15

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Se um homem mais velho casar com uma mulher mais nova, toda a gente considera normal. Se, ao invés, uma mulher mais velha casar com um homem mais novo, muita gente ainda fica surpreendida. E, até, nalguns casos, chocada. Porquê? O que é que justifica a reacção negativa?

Em certos países esta opção é já bastante comum entre as chamadas “famosas”, que não costumam preocupar-se muito com a diferença etária, dado o estatuto especial de que gozam. Todavia, longe dos holofotes, muitas mulheres não hesitam e namoram rapazes mais novos. São elas que conhecem as vantagens e os inconvenientes que a diferença de idade pode trazer a um relacionamento. 

Do ponto de vista sexual, na cama, a diferença de idade não importa muito, dizem os clínicos. Quem já passou por isso, limita-se a afirmar que “que basta ambos quererem e tudo será muito bom”.

O problema pode surgir no dia a dia em que as coisas não são assim tão simples". Hoje já muitas mulheres de 40 anos preferem homens que tenham, no máximo, a mesma idade delas.  Porque são independentes e entendem que não têm por missão ficar em casa a aturar as vicissitudes de um marido mais velho.

Ora é aqui que reside o cerne da questão. Antigamente o homem mais velho era o garante da sobrevivência da mulher. Para muitas, para cada vez mais isso já não é válido. Ora se assim é, que justificação pode haver para censurar uma relação em que o homem seja mais novo que a mulher?

Acresce que se a menopausa pode trazer ao sexo feminino problemas clinicamente solúveis, eles não são, nos dias que correm, menores nem maiores do que aqueles que surgem no sexo masculino da mesma idade...

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Escaqueirávamos museus...

por Luís Naves, em 04.03.15

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Entre outras passagens fantásticas, encontrei num livro a referência a uma das mensagens mais antigas da humanidade. Não há ali grandes ideias filosóficas nem se trata de um testemunho incrível sobre o passado, nem sequer de algum poema sublime. Numa simples tábua de argila cozida pode ler-se, em escrita cuneiforme, o seguinte texto: “29086 medidas cevada 37 meses kushim”. Segundo a interpretação dos peritos, no documento diz-se que foram recebidas 29086 medidas de cevada ao longo de 37 meses, segue-se a assinatura do funcionário. Assim, Kushim seria contabilista sumério e um dos primeiros nomes registados pela História. Ele anotava cuidadosamente a colecta de impostos obtida há 5 mil anos na cidade de Uruk, mais tarde engolida pela areia do deserto iraquiano.

De uma civilização posterior da mesma região, a Mesopotâmia, foram entretanto destruídos no museu de Mossul artefactos com mais de 3 mil anos, para efeitos de propaganda do grupo extremista Estado Islâmico. Como se refere aqui, entre as estátuas destruídas havia reproduções, mas também objectos assírios originais, perdidos para sempre. O Estado Islâmico vende antiguidades no mercado negro, para comprar armas, e deverá estar a preparar novas atrocidades, visando corpos em carne e osso, pois entretanto capturou centenas de reféns cristãos.

Daqui a cinco mil anos talvez não sobre muita coisa do nosso tempo e seria bem estranho que, perante esse improvável vazio, se encontrassem por sorte apenas as sensacionais imagens de uns loucos a destruir estátuas antigas, sem motivo aparente, ou a mensagem enigmática de algum funcionário das finanças a contabilizar a receita do IVA. Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.

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Entretanto, na Rússia

por Bandeira, em 04.03.15

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(José Bandeira/DN)

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"Quantidade moderada de café pode prevenir a obstrução das artérias, defende estudo realizado por cientistas sul-coreanos com mais de 25 mil homens e mulheres.

O consumo de três ou quatro cafés por dia poderá reduzir o risco de enfarte por obstrução arterial, segundo um estudo realizado por cientistas sul-coreanos publicado hoje na revista especializada britânica Heart.

A equipa de cientistas, do Hospital Kangbuk Samsung, em Seul, concluiu que uma quantidade moderada de café reduz a presença de cálcio nas artérias coronárias, um elemento considerado responsável pela aterosclerose.

Os cientistas disseram que, no entanto, serão necessárias mais investigações para confirmar este estudo e determinar a explicação biológica dos supostos efeitos do café para prevenir a obstrução das artérias.

A investigação foi realizada com base numa amostra de mais de 25 mil homens e mulheres sul-coreanos com idade média de 21 anos e sem sintomas de doenças cardiovasculares.

A aterosclerose, que consiste na acumulação de lipídeos na parede vascular, pode causar o estreitamento e endurecimento das artérias, formando perigosos coágulos de sangue capazes, em última instância, de desencadear um derrame cerebral ou enfarte."

 

 

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De novo o eixo Espanha-Portugal.

por Luís Menezes Leitão, em 04.03.15

 

Passos e Rajoy queixam-se de Tsipras à UE.

 

Juncker acusa Portugal e Espanha de terem sido muito exigentes com a Grécia.

 

É o que se chama ir buscar lã e sair tosquiado.

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Mia Couto

por Patrícia Reis, em 04.03.15

 

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

 

in IDADES CIDADES DIVINDADES (Ed. Caminho, 2007)

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 04.03.15

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 Horizonte Cerrado, de Alves Redol

Romance

(reedição Caminho, 5ª ed, 2015)

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A utilidade das filas

por José Maria Gui Pimentel, em 04.03.15

Volto a um tema que já aqui abordei: a estranha teimosia das filas. No caso, referia-me a filas em restaurantes, mas o mesmo fenómeno estende-se a outros estabelecimentos comerciais e parece (-me), pelo menos em Lisboa, estar mesmo a aumentar.

Voltei a 'tropeçar' neste tema ao ler um texto recentemente publicado no New York Times, da autoria de Tyler Cowen, um dos autores do blog de economia Marginal Revolution. Neste artigo, Cowen tenta reabilitar o estatuto da espera em filas, argumentando que estas são, em última análise, vantajosas para os consumidores (como um todo). 

Especificamente, o autor sugere que, em muitos casos, os retalhistas usam as filas para segmentar os consumidores, entre aqueles que não se importam de pagar mais (e saltar a fila) e aqueles com menos poder de compra, mas muitas vezes também com um menor custo de oportunidade do tempo, que não se importam de esperar. Em concreto, a existência de filas dispensa investimento no alargamento do espaço, o que por seu lado permite não aumentar os preços. Mesmo que esta segmentação seja pouco exequível em muitos casos (não me lembro de ver um restaurante com 'primeira classe', por exemplo), a existência de filas poderá continuar a ser vantajosa, uma vez que os clientes mais predispostos a esperar tenderão a ser aqueles com mais actividade nas redes sociais, sendo, portanto, muito valiosos para os retalhistas. Ora, sem a possibilidade do recurso a filas, estes consumidores ficariam fora do mercado.

Mas não é tudo. Partindo desta linha de raciocínio, Cowen aproxima-se das hipóteses já exploradas Gary Becker num paper antigo. Por um lado, a possibilidade de a existência de filas ter, em si mesma, valor para os retalhistas, por se traduzir publicidade gratuita. Por outro lado, a possibilidade de as mesmas filas conferirem também utilidade aos consumidores, a quem o serviço parecerá mais valioso e exclusivo. 

Finalmente, Cowen destaca ainda dois factos que importa ter em conta no fenómeno do (aparente) aumento do recurso a filas no mundo capitalista. Por um lado, a espera é cada vez mais tolerável, dada a profusão de smartphones e outras distracções. Por outro lado, e pelo menos por enquanto, é muito raro ver filas no acesso a bens ou serviços essenciais.

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Não vale a pena perder mais tempo

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.03.15

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Para mim não foi um mero esquecimento. Passos Coelho em 1999 não pensava que viria a ser primeiro-ministro. Nunca lhe passou pela cabeça que o PSD e o PS lhe proporcionassem essa oportunidade. Por isso, na altura fez aquilo que lhe dava mais jeito. Como quase todos, aliás, de acordo com um padrão comportamental que se instalou em Portugal e fez escola. É que, como bem se recorda, entre 1999 e 2004 o primeiro-ministro "era apenas trabalhador independente e, por essa razão, tinha de apresentar o modelo B da declaração de IRS e preencher o anexo H. Ora, nesses anos, no quadro 9 do anexo H os contribuintes tinham de preencher o valor pago em "contribuições obrigatórias para a Segurança Social". Obrigatórias."

Não quis assumir a sua opção, preferiu desresponsabilizar-se, alegar esquecimentos, enfiar os pés pelas mãos com explicações canhestras (desconhecia, não sabia que devia pagar, não fora notificado, esqueceu-se, estava convencido que era opcional, a culpa foi da Segurança Social, estava prescrita, só soube em 2012, pensou pagar quando deixasse o Governo, demorou mais três anos para pagar, o valor não bate certo, enfim...).

Para qualquer português teria sido muito mais compreensível que tivesse dito que ao tempo era normal que muitos procurassem "poupar" o que fosse possível com o Fisco e a Segurança Social, embora não fosse o mais correcto, e que ele não era diferente dos demais, acrescentando que se soubesse como teria sido o dia de amanhã teria declarado tudo e realizado os pagamentos como qualquer outro contribuinte. Não quis fazê-lo. Problema dele e de quem o julgará nas próximas eleições.

Nada do que se disse ou ficou escrito faz dele um vigarista ou um malandro. Que fique bem claro. Mas era-lhe exigível como cidadão e político que tivesse tido outra atitude? Era. Perguntar-se-á também se andou a gozar connosco? Andou. E quis fazer dos outros parvos? É claro que sim, pois que de outra forma não teria metido os pés pelas mãos.

Certamente que o que aconteceu e agora se conheceu não contribuirá para melhorar a sua imagem ou reputação, nem a do partido que lhe desculpa a inépcia. E que sendo primeiro-ministro agrava as suas responsabilidades e retira-lhe autoridade para exigir aos outros o que não impõe a si próprio. Paciência. Mas uma coisa é certa: da imagem de trapalhão, chico-esperto e desleixado não se livrará. Só que sendo primeiro-ministro num país de trapalhões, chicos-espertos e desleixados, onde toda a gente está sempre pronta a tolerar, desculpar e compreender as trapalhadas, "golpadas no sistema" e desleixos dos outros, porque também se habituou a ver os outros tirarem partido de um sistema que é por natureza injusto e desonesto para com os fracos e condescendente para com os poderosos, não sei se isso fará alguma diferença.

Quanto à campanha eleitoral que aí vem não antevejo nada de bom. A amostra dos últimos dias, o nível da argumentação a que se chegou, a repescagem de casos passados e há muito enterrados - não era o caso deste - como arma de arremesso político, a utilização das redes sociais para atirar pazadas de lama sobre os adversários políticos, tentando meter tudo no mesmo saco, desculpando erros próprios com os erros dos outros, trazendo permanentemente à baila os casos de outros trapalhões, alguns porventura mais do que meros trapalhões, alguns já julgados nas urnas e nos tribunais, outros entretanto entregues à justiça e com os arguidos já detidos, não augura nada de bom. Temo que a desinformação, a cegueira partidária, a desonestidade intelectual das camarilhas e a falta de honestidade ética e política dos actores continue a fazer o seu caminho. Como até aqui. Não até à vitória final, mas até à abstenção final. Ou, quem sabe, até que o desespero dos portugueses trabalhadores, honestos, sérios e que cumprem as suas obrigações sem esquecimentos, enquanto os trapalhões vão engrandecendo e comendo-lhes as papas na cabeça, os leve a dizer basta.   

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O amor não tem idade

por Joana Nave, em 04.03.15

O título poderá sugerir o amor entre duas pessoas de idades distintas. Claro que o fosso geracional também é um tema muito interessante, até porque a idade que é declarada na nossa certidão de nascimento pouco ou nada tem a ver com a idade da nossa alma, e essa sim evolui a diferentes ritmos e pode afastar ou aproximar pessoas da mesma ou diferente idade. Porém, hoje estou centrada nas pessoas da mesma geração, da mesma idade, ou próxima, vá, que passeiam num centro comercial qualquer.

São um casal, não resta qualquer dúvida. São de estatura baixa, os cabelos brancos como a neve, usam óculos com lentes de fundo de garrafa, vestem-se de cores sóbrias, com tecidos quentinhos. Movem-se devagar, gestos lentos, susurros.

No entanto, o que me faz reparar neles é o braço do homem que torneia as costas da mulher, segurando-a com firmeza, ainda que as mãos estejam fracas, engelhadas e deformadas pela artrite. O braço do homem envolve a mulher e fá-la caminhar. Não são efusivos, não se fazem notar, quase que passariam despercebidos no frenesim que os rodeia, entre pessoas sempre apressadas para encher as suas vidas com mais coisas, que nunca hão-de ser suficientes para lhes trazer uma felicidade plena.

E o casal de velhinhos de cabelo branco destaca-se no meio da multidão. Neles detenho o meu olhar, abrandando o meu passo apressado, próprio dos outros, dos que não são o casal de velhinhos, que avança com doçura, como se caminhassem sobre nuvens fofas. E é neste momento que dou por mim a esticar o canto dos lábios para constatar, com uma imensa alegria, que o amor não tem idade.

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As canções do século (1889)

por Pedro Correia, em 04.03.15

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 04.03.15

Ao Luís Graça & Camaradas da Guiné.

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Onde estão os descontentes?

por Luís Naves, em 03.03.15

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Em texto anterior tentei defender a tese de que o próximo ciclo político deveria concentrar-se na crise social e nas dificuldades dos mais vulneráveis. O país concluiu a parte difícil do ajustamento, mas agora é a vez das pessoas. Não vale a pena ter ilusões: a campanha eleitoral será imprópria para discussões sérias e haverá quem prefira discutir minuciosamente todas as pequenas distorções da realidade. A esquerda que agora aplaude a resistência grega terá más surpresas e a maioria de direita tenciona chegar às próximas eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo.

O que surpreende nas sondagens é a ausência dos descontentes. Onde vão votar os mais de 2 milhões de portugueses que se abstiveram nas europeias do ano passado e que não costumam faltar nas legislativas? Os inquéritos de opinião não os conseguem detectar, exceptuando ligeiras oscilações entre PS e coligação e também transferências de voto entre Bloco e PCP, parecendo espantoso que os novos partidos anti-sistema somem apenas 4,5% das intenções de voto. Coligação e socialistas conquistam 70% do eleitorado, ou seja, Portugal prepara-se para votar na continuidade ou no passado recente.

O contraste com a Europa é extraordinário. Na Grécia, os radicais anti-partidos-do-costume conquistaram o poder. Entretanto, enfiaram a viola no saco e preparam-se para negociar o terceiro resgate, mas houve uma insurreição nas urnas, tal como se ameaça na França, onde as sondagens para as regionais de 29 de Março colocam a Frente Nacional em primeiro lugar, com 30% dos votos, mais um ponto do que o centro direita da UMP e dez pontos percentuais à frente do PS, que se prepara para uma humilhação histórica. A abstenção será elevada, mas estas eleições podem mudar a política local. O mesmo se aplica a Inglaterra, onde os partidos não-tradicionais podem alterar o equilíbrio parlamentar. Em Espanha, dá-se o mesmo fenómeno: os descontentes da direita preferem os Cidadãos e os da esquerda optam pelo Podemos, mas os dois, somados, podem atingir 40% do eleitorado, o que acabará com a hegemonia da dupla PSOE e PP. Isto, no fundo, foi o que já aconteceu na Grécia, embora numa escala mais calamitosa para os partidos tradicionais. Até na Alemanha há descontentes: a CDU foi esmagada nas recentes eleições de Hamburgo, com a formação anti-euro (AfD) a recolher 6,1% dos votos e os dois partidos da grande coligação a perderem mais de 8 pontos. Nos países do sul, as insurreições são de um terço do eleitorado, mas Portugal é a grande excepção e não existe razão clara. O sistema eleitoral parece imune ao descontentamento ou então o que vemos nos números será volátil.

Isto, claro, não acaba aqui: a má discussão dos assuntos sérios facilita uma campanha eleitoral cheia de demagogia, pessimismo e golpes baixos, o que favorece as formações que contestam o sistema partidário vigente. Para os grupos políticos tradicionais, o pior cenário será um mau resultado em Outubro, que os obrigue a formar um bloco central instável, com a oposição totalmente dominada por radicais.

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Não passa despercebido o entusiasmo com que certa esquerda embarca no delírio do Homem Providencial. O fenómeno não é exclusivo de uma determinada geografia ou de um certo momento histórico. Encontra-se a propósito de ditadores sanguinários, dos mais vulgares trambiqueiros ou de políticos correntes (se estes não forem o mesmo que aqueles) que acabam por ver as suas qualidades exacerbadas em favor não se sabe de que desígnios insondáveis (ou sabe-se). Vimos isto com chineses e norte-coreanos, com africanos e europeus, com Castro, com Obama, com Hollande, com Sócrates, com a dupla Tsipras & Varoufakis e até, por amor de Deus, com António Costa. E, se quisermos entrar no lado mais galhofeiro, com esse inesquecível arauto das bandeiras da esquerda que foi o meteórico Artur Baptista da Silva. E não quero com isto dizer que uns e outros e tantos outros sejam comparáveis. Afirmo, apenas, que o mecanismo de descolagem da realidade de certa esquerda que os vê estratosféricos é, esse sim, semelhante. Ora, pela sua recorrência, o fenómeno deve ter uma explicação. Na verdade, creio que tem duas. Uma que se aplica à ilusão da esquerda pelos homens providenciais totalitários e outra que explica o desvelo da esquerda por supostos homens providenciais em democracia. Comecemos por esta última. A benefício da compreensão do que afirmo é importante salientar que o modo natural da esquerda é a revolução. Ora, a democracia, concretizada em actos eleitorais periódicos, é a antítese da revolução. A sucessão de lideranças, de propostas políticas, a alternância, o consenso, o debate, acabam por confluir para soluções tipicamente evolutivas ou involutivas (mas sempre na continuidade) e não revolucionárias. Privada em democracia do seu ecossistema revolucionário natural, certa esquerda entrega-se nos braços do Homem Providencial (que tudo pode, que tudo sabe, que apresenta a única mensagem verdadeira) para sublimar a frustração, a angústia existencial que a contenção e equilíbrio de um sistema democrático lhe provoca. Em regimes totalitários, a coisa tem a mesma natureza, com as devidas adaptações. Aí, a angústia decorre também da ausência da possibilidade da revolução. Ou melhor, o líder totalitário, que assume em teoria e na prática o dom da infalibalidade, é o melhor sucedâneo da revolução na impossibilidade desta (melhor do que a democracia, já se vê), valendo por aquela em forma de Homem Providencial. Vale isto por dizer que a fixação de certa esquerda em elevar seres humanos banais, ou muito pior do que isso, à categoria de santinhos milagreiros, não é um sinal de infantilidade intrínseca ou de uma visão pueril da realidade. É, mais do que isso, um sinal de desconforto e inadaptação do adn revolucionário à essência do ambiente democrático. 

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Excertos (20)

por Patrícia Reis, em 03.03.15

«Quando me dirigia para o autocarro, uma mulher de 30 anos magros e trigueiros, deteve‑me com esta pergunta, perto do Café Biarritz:
– Sabe‑me dizer onde fica a rua Alexandre Ferreira?
– No Lumiar, minha senhora.
– Mas disseram‑me que era aqui, em Alvalade.
– Não, não é.
Teimou, renitente:
– Mas disseram‑me que…
Como percebi que não estava disposta a acreditar em mim, com cara de mau informador, resolvi empregar um argumento decisivo:
– É que eu sou filho de Alexandre Ferreira.
– Oh! Que coincidência!... – exclamou a mulher, pasmada.
Acreditou logo, claro. E à despedida apertámos as mãos – ela vagamente vaidosa de conhecer o filho do nome de uma rua.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns VII - RASTO CINZENTO (11 de Junho)

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Antologia da memória

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.03.15

E depois há muitos que deviam pagar os seus impostos e não pagam, porque não declaram as suas actividades"

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 03.03.15

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 Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov

Tradução de Telma Costa

Romance

(edição Relógio d' Água, 2014)

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Puxem uma cadeira...

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.03.15

... enquanto esperam por uma declaração do Presidente da República sobre a ignorância crassa de um primeiro-ministro, que antes foi deputado e administrador de empresas, relativamente às suas obrigações enquanto cidadão, a forma vergonhosa como pretendeu fugir às sua responsabilidades, imputando a culpa a terceiros, e, já agora, sobre a má moeda e mais um ultrajante golpe na precária saúde das instituições da democracia portuguesa.

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