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A efemeridade do poder

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.07.14

Desconheço se em Portugal as pessoas se têm apercebido da forma como as autoridades de Pequim, pela mão da poderosa estrutura do Partido Comunista Chinês, têm levado a cabo uma profunda operação de limpeza em relação àqueles elementos que tendo atingido posições de grande destaque na hierarquia chinesa, mais ostensivamente exibiam a sua riqueza, poder e impunidade.

Têm sido vários os casos, mas aquele que mais está a dar que falar é o do até há pouco tempo intocável Zhou Yongkang. Filho de uma família pobre de Jiangsu, depois de ter começado a carreira na área do petróleo e da indústria do gás, Zhou Yongkang foi vice-ministro da Indústria do Petróleo (1985-1988), subindo na estrutura até atingir o topo da China National Petroleum Corporation. A partir daí foi ministro da Terra e dos Recursos Naturais, chefe do PCC em Sichuan, tendo desempenhado vários outros cargos até se tornar no homem que dominava todo o aparelho de segurança da RPC. Zhou Yongkang foi o ministro da Segurança Pública entre 2002 e 2007, assumindo logo depois o cargo de secretário da Central Politics and Law Comission. Membro do Comité Permanente do Politburo do PCC, Zhou retirar-se-ia em 2012, após o 18.º Congresso do PCC.

Actualmente são cinco os membros da sua família que são alvo de investigações, na linha das que levaram à queda em desgraça, no curto espaço de um ano e meio, de Li Dongsheng (vice-ministro da Segurança Pública), Li Chongxi (Presidente da Divisão Provincial de Sichuan da CPC do PCC), Tang Hong (membro da unidade paramilitar de polícia do Ministério da Segurança Pública), Yu Gang (adjunto da Politics and Law Comission), Guo Yongxiang (Presidente do Círculo das Artes e Literatura de Sichuan), Ji Wenlin (vice-governador da Província de Hainão), Jiang Jiemin (Presidente da SASAC) e de Li Chuncheng (vice-secretário do PCC em Sichuan), sem esquecer Bo Xilai, antigo dirigente máximo do PCC em Chongqing, entretanto condenado a uma pena de prisão perpétua por corrupção e abuso de poder.

Mas o que há de mais extraordinário no caso de Zhou Yongkang é que se tratava de um verdadeiro czar. Hoje é o mais alto dirigente do PCC a ser visado num processo desta natureza. Não se trata, pois, de peixe miúdo. O filho, Zhou Bin, tendo-se licenciado em 1994 na Universidade do Texas, em Dallas, construiu um império à sombra das influências do pai. Zhou Bin, sem que se lhe reconheçam especiais capacidades, tornou-se detentor de vastas participações em empresas da área do petróleo, do imobliário e até da indústria cinematográfica, sendo que uma das suas empresas - Zhongxu Sunshine Energy Technology - vende equipamento à China National Petroleum Corporation.

Esta manhã, Gillian Wong escreveu um artigo no Macau Daily Times que pode ajudar a perceber melhor o que se está a passar. Para o South China Morning Post, também de hoje, que citava fontes do inner circle do PCC, Xi Jinping está à procura do seu lugar na História, ao lado dos grandes do PCC. Só que para isso acontecer terá de consolidar o seu poder e enfraquecer a resistência interna às suas reformas. Em vez de se deixar ficar quieto e sem levantar grandes ondas, como fez o seu antecessor, o actual n.º 1 decidiu marcar o caminho.

No próximo mês terá lugar o encontro de Beidaihe e Xi Jingping continua a cumprir a agenda que prometeu. Quando em 2012 assumiu o poder declarou uma guerra sem quartel à corrupção que minava o PCC e toda a sua estrutura de poder. Ao apertar o cerco a Zhou Yongkang, Xi Jingping não podia ser mais claro. Ninguém está acima da lei, não há intocáveis. E os reformados ricos não serão poupados. A mensagem vai chegar a todo o lado. Espera-se que a Portugal também.

(Nora Tam, SCMP)

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Delitos poéticos (31)

por Ana Vidal, em 31.07.14

IMPOSSÍVEL REGRESSO

 

Quando no fim
aquele tema torna, não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos perante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.


(Jorge de Sena, "Bach: Variações Goldberg", ARTE DE MÚSICA)

 

(Instalação de Rebeca Horn)

 

 

(Glenn Gould - Goldberg Variations var.26-30 & Aria Da Capo)

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Não há lados neste assunto

por Patrícia Reis, em 31.07.14

http://www.tabletmag.com/.../hamas-killed-160-palestinian...

Não aguento a violência. Se Israel isto, o Hamas aquilo? Quero é que acabe. E se Deus se zangar e chegar cá abaixo e disser: acabou-se. Era bem feita.

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As canções do século (1673)

por Pedro Correia, em 31.07.14

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 31.07.14

Ao Da Luz & da Sombra.

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e será que alguém se comove?

por Patrícia Reis, em 30.07.14

 

Quantos jornalistas portugueses estão em Gaza? Ah, esqueci-me, estamos à beira das primárias do PS e há o Ricardo Salgado. Ok. Como jornalista, com carteira e no sindicato, com contas em dia, não entendo. Alô? Está alguém a dirigir os jornais? As televisões? Quem são? De onde vêem? São jornalistas? E os donos dos órgãos de comunicação social são apenas isso: proprietários de imprensa escrita ou outra? Terão outros interesses? Devem ter.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 30.07.14

«Vladimir Putin está a cometer demasiados erros de avaliação, o que é perigoso. A tragédia do avião da Malásia mostrou os riscos da sua política ucraniana e da perda de controlo sobre os bandos "separatistas". A seguir, perdeu a oportunidade de contribuir para uma desescalada sem perder a face. Está agora confrontado com a perspectiva de sanções mais duras, que poderão constituir uma séria ameaça para a economia russa. Na sua lógica, não recuará -- isto é, calcula que não pode recuar por razões de prestígio e de poder doméstico -- e ampliará consequentemente a dimensão da crise.»

Jorge Almeida Fernandes, no Público

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Nas redes sociais encontram-se textos muito violentos contra Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, por nenhum deles ter condenado publicamente o banqueiro Ricardo Salgado. São variações de um artigo do cómico João Miguel Tavares, que insistia na mesma tecla: devido às suas ligações de amizade, os dois comentadores recusaram criticar em público o amigo banqueiro. Portugal procura um bode expiatório para os seus problemas e já escolheu aquele que serve às mil maravilhas. Quem no passado opinou que Ricardo Salgado tinha charme (rigorosa verdade) é agora insultado nas redes sociais e equiparado a traidor da Pátria. Os comentadores que evitaram falar do seu amigo, esses, embora revelassem carácter, são agora fustigados por alegada omissão. E depois surgem os heróis que ninguém viu, mas que agora reivindicam denúncias corajosas. Repito: um comentador ou jornalista que evita falar dos seus amigos revela dignidade. Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares evitaram criticar o banqueiro Ricardo Salgado, avisando que não se pronunciavam devido à ligação que tinham com ele. Compreendo: também não critico os meus amigos em público. Aliás, este problema da amizade em contraste com a verdade pode ser levado mais longe: em última análise, um comentador teria de vergastar publicamente as pessoas que ama. Toda a gente tem defeitos e, levando a tese ao absurdo, sendo a crítica um dever, o hipócrita terá a suprema obrigação de lançar a primeira pedra. Vivemos nos tempos do purgatório, ninguém pode ter amigos e há até quem se gabe de não os ter.

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Excertos (2)

por Patrícia Reis, em 30.07.14

1

  

A primeira vez que a vi, a Ginga olhava o mar. Vestia ricos panos, e estava ornada de belas jóias de ouro ao pescoço, e de  sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma mulher pequena, escorrida de carnes, e no geral sem muita existência, não fosse pelo aparato com que trajava, e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la. 

 

Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo – o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do baptismo, sendo seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu nosso senhor Jesus Cristo a sua entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o cria.

 

Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.

 

Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras palavras que troquei com a Ginga.

 

Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é pródigo, bem mais do que na mais caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.

 

Nos dias antigos, acrescentou, os africanos olhavam para o mar e o que viam era o fim. O mar era uma parede, não uma estrada. Agora os africanos olham para o mar e vêem um trilho aberto aos portugueses, mas interdito para eles.

 

José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga

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Teste Delitoratura - 6

por Teresa Ribeiro, em 30.07.14

Saiu para comprar rins para o pequeno almoço da mulher. Regressou a casa cerca de 24 horas depois, na ressaca de uma bebedeira monumental, final apoteótico de um dia em que nada de extraordinário se passou, a não ser as coisas extraordinárias que se passam num dia normal. Consegue situar este enredo?

 

Solução da pergunta anterior: Quem assim cogitava era Charles Swann em Um Amor de Swann, incluída na obra Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Vencedor: o nosso leitor Carlos Cunha.

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Evito escrever sobre questões internacionais, mas não é falta de assunto, é perplexidade. As revoluções árabes falharam quase todas, com particular estrondo no Egipto, e nasceu um califado no Iraque a na Síria (imagine-se, um recuo de mil anos). A civilização ocidental entrou numa fase estranha, incapaz de controlar os excessos ou de reduzir um sistema de consumo que ameaça a estabilidade do próprio clima do planeta. Alguns Estados caem fora do ninho e condenam-se à extinção; há milhões de pessoas sem qualquer futuro visível. E esta exclusão também ocorre dentro dos países chamados ricos, onde as desigualdades podem destruir democracias construídas com labor e sacrifício. Muitos pobres ficarão no exterior das classes consideradas humanas e, assim condenadas à pobreza e à incultura, deixarão simplesmente de existir, ignoradas por meios de comunicação obcecados apenas pelo espectáculo. O capitalismo é insaciável. Cada um fecha-se nas suas razões: estamos a construir um mundo de condomínios privados que bombardeiam faixas de gaza

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"Gorduras do Estado" (101)

por Pedro Correia, em 30.07.14

Auditoria à gestão de Mesquita Machado revela: passivo da Câmara de Braga duplicou para 250 milhões, passando a ser o segundo maior do País.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.07.14

 

 

Vinte Anos Depois, de Júlio Machado Vaz

Crónicas

(edição Relógio d'Água, 2014)

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De rastos

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.07.14

"Pasan los meses y el gobernador del Banco de Portugal, Carlos Costa, no mueve ficha. Espera que se vayan los inspectores de la UE, FMI y BCE que estaban supervisando el plan de rescate de Portugal y luego espera a junio a que el banco Espírito Santo cierre su ampliación de capital. Entonces llama a Salgado a su despacho para pedirle que se vaya del banco, él y todos los miembros de la familia. Salgado accede, pero le cuela como sustituto a su brazo derecho, Amílcar Moraes Pires. El desconcierto es total. ¿Cómo limpiar el banco con los mismos? Costa se acobarda, no se atreve a decir ni sí ni no y, en un comunicado bochornoso, afirma que son los accionistas quienes, el próximo 31 de julio, han de elegir a su dirección. Casi un mes de anarquía financiera alentada por el supervisor. Fernando Ulrich, presidente del banco BPI, lo resume: "Si querían construir la tormenta perfecta, no había mejor forma".

No era una tormenta, sino el diluvio. El desgobierno absoluto del BES, del Banco Central y de la economía del país. En siete días, el valor del banco cae un 41%. La desesperación llega a la misma familia, que tiene que vender las acciones para pagar el préstamo con que las había comprado. Pierden de su bolsillo 89 millones.

Costa tarda una semana en rectificar. Hay que salvar al BES; cortar ya con las relaciones obscenas entre el banco y las empresas de los Espírito Santo que durante años se peloteaban la deuda, cada vez más grande, extendiendo la metástasis por todos los rincones del grupo." - El Pais

 

Com uma imagem destas lá fora, será que o atento deputado jotinha, o tal que emite opiniões sem cerimónias, vai agora pedir uma comissão de inquérito à actuação do Banco de Portugal no caso BES?

 

P.S. Antes que venham os da praxe acusar-me de "socratista" e outros mimos do género, esclareço que quem agora pergunta teve em 2008 liberdade suficiente para escrever isto.

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Delitos poéticos (30)

por Pedro Correia, em 30.07.14

 

Retrato de Galileu Galilei (Justus Sustermans, 1636) 

 

POEMA PARA GALILEU

António Gedeão

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

 

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

 

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

 

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

 

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

 

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

 

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.


Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

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As canções do século (1672)

por Pedro Correia, em 30.07.14

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Não se pense que é tudo mau por aqui. Temos sol e certa tranquilidade, obesos e diabéticos, mulheres bonitas, bronzeadas, o céu azul-marinho, a brisa meio envergonhada, sopa de marisco e novela da tarde, craques de futebol comprados nos saldos, ex-banqueiros a afundar a bolsa, pessimistas no comentário matinal, jornais sem notícias e o país sem pressa, porventura está um poucochinho de calor, a procissão sai ainda do adro e requer certa paciência na calma. Aqui é tudo verde e sedoso, prolongado e contido, cheio de esperança, mas nada de especial, sempre à espera não se sabe bem de quê. Que o tempo passe, talvez, que tudo escorregue sem passar, que o comboio chegue. Há quem esteja pior, nem a dormir nem acordado, preocupado com a mera preocupação, não sendo infecção nem alergia, mas estado de alma em fase aguda. Aqui, onde me encontra o crepúsculo, posso afirmar, com a certeza típica de um enviado especial que entrevistou a sua dose de taxistas: este é o País mais banal do mundo.

 

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Ler

por Pedro Correia, em 29.07.14

Guiné Equatorial. Do Henrique Fialho, na Antologia do Esquecimento.

Ainda mais tragédias, no já suspeito Médio Oriente. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

Quem tem razão contra Quem tem razão. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Isto como leitor, porque depois ainda há os protestos de autor. Do Joel Neto, no Regresso a Casa.

Corpo a corpo. De Maria do Rosário Pedreira, no Horas Extraordinárias.

Notas sazonais. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

Já agora. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Capitalismo e justiça. Do Mr. Brown, n' Os Comediantes.

Dia Nacional do Perito. De Margarida Bentes Penedo, no Gremlin Literário.

Aqui, ali. Da Tânia Raposo, no Not quite sun, not quite the moon.

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Penso rápido (33)

por Pedro Correia, em 29.07.14

Os acontecimentos mais dramáticos da história mundial podem começar por um motivo fútil. Isto não os torna menos relevantes: uma coisa nada tem a ver com outra. Tal como alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória, à partida, nada tinham de psicopatas: eram homens comuns. Isso não os tornava menos perigosos, longe disso.
O facto é que ninguém -- mesmo ninguém -- fazia a menor ideia, naquele período tão optimista da história mundial, da tragédia que estava prestes a acontecer no início do Verão de 1914. Dois tiros fatais disparados em Sarajevo por um anarquista sérvio contra o herdeiro do trono austro-húngaro e sua esposa, a duquesa de Hohenberg, produziram uma onda de morticínios em cadeia até atingir cerca de 20 milhões de mortos.
Se alguém adivinhasse as consequências, nem Gavrilo Princip teria assassinado Francisco Fernando e Sofia a 28 de Junho de 1914 nem os imperadores e os arquiduques e os presidentes teriam desencadeado a linguagem bélica nas semanas subsequentes nem a imprensa teria incentivado os nacionalismos de turno com algumas das manchetes mais demagógicas, parioteiras e chauvinistas que o mundo conheceu até hoje.
A I Guerra Mundial não era inevitável à partida: tornou-se inevitável pela infinita estupidez humana.

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Incerteza

por Luís Naves, em 29.07.14

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente, feita de promessas que não poderão ser cumpridas. O País empobreceu e está crivado de dívidas que não consegue pagar. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados.

O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.

O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria.

No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.

Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado Providência, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, populismo ou revolução, que implicam o isolamento do País e a sua condenação à pobreza por muitas décadas.

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"Chef" mas pouco

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.07.14
"Guests at preview of Jamie Oliver's Hong Kong restaurant left starving by miserly morsels"

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Holocaustos

por Fernando Sousa, em 29.07.14

 

Houve mil holocaustos, não houve só um. Negacionismo é passar sobre todos eles. Acabei de ler um: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. Este foi também no século XX mas no Brasil, no centro “hospitalar” de Colónia, Barbacena, Minas Gerais. Milhares de pessoas, homens e mulheres, de todas as idades foram ali internadas por supostos transtornos mentais entre 1903 e o fim dos anos 80. Morreram 60 mil. A maior parte, 70 por cento, não tinha nenhum diagnóstico de doença mental. Eram epilépticos, alcoólicos, homossexuais, prostitutas, meninas engravidadas por patrões, mulheres despachadas para que os maridos pudessem viver com as amantes, brigões, pessoas só entristecidas. Sobreviviam comprimidos, metidos às centenas em armazéns, dormiam sobre palha, entre piolhos e carraças, andavam nus, eles e elas, bebiam água de esgotos, comiam mal e quase nada. Os bebés sobrevindos eram vendidos. Morriam todos os dias, às vezes da cura – era o tempo dos electrochoques. Depois eram vendidos ao quilo às faculdades. E tudo isto durante décadas, com a conivência de médicos, enfermeiros, funcionários e do Governo brasileiro. Basaglia, o psiquiatra italiano que levantou a voz contra os manicómios, foi lá em 1979:  “Estive hoje num campo de concentração nazi. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Uma das melhores reportagens da mais-do-que-premiada Daniela Arbex, que salvou milhares de pessoas do esquecimento e devolveu o nome a muitos sobreviventes. Faz-me bem saber que vive no mesmo mundo que eu. 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.07.14

 

 

O Herói Português da I Guerra Mundial, de Francisco Galope

Biografia

(edição Matéria-Prima, 2014)

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Eficácia e inovação medicamentosa

por João André, em 29.07.14

Esta notícia é, à partida, muito boa. O estado deixa de perder tempo e dinheiro com coisas que não funcionam e concentra-se nas que têm utilidade. Assim fosse com tudo. Há especialistas com reservas e dúvidas, mas tocam aspectos sobre os quais não tenho conhecimentos. Levanto apenas duas outras dúvidas.

 

1. No caso de cancros, parte dos tratamentos de quimioterapia passam por um sistema de tentativa e erro, não se sabendo muitas vezes à partida qual o medicamento que poderá ter sucesso. Segundo me explicaram no passado, alguns há que têm uma enorme taxa de sucesso em casos específicos e são completamente inúteis noutros, aparentemente semelhantes. Esperemos que a avaliação do sucesso seja competente.

 

2. Para mim preocupante é o ênfase na questão dos novos medicamentos, ditos inovadores. Em muitos casos os novos medicamentos nada têm de novo a não ser uma pequena modificação da fórmula, a qual nada traz de novo a não ser uma patente. São introduzidos porque a patente anterior está a expirar e o componente activo poderá passar a ser vendido como genérico. O novo medicamento é apresentado como sendo uma inovação mas nada acrescenta ao anterior. Esperemos bem que, ao avaliar novos medicamentos, o Sinats e o Infarmed se preocupem mais com as bolsas dos pacientes do que com as dos laboratórios.

 

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Excertos (1)

por Patrícia Reis, em 29.07.14

"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Quantos são hoje? Nunca sei às que ando, confundo tudo, perco-me sempre, os dias, as horas, às vezes cumprimento pessoas que não conheço, há uma semana ou isso entrei num antiquário, sentei-me a uma mesa D. João V e quando a senhora da loja veio, de uns armários franceses ou lá o que era, pedi-lhe que me servisse um uísque. Uma senhora com mais pulseiras que tu e anéis caros, de maquilhagem a lutar com a idade e a perder. Ficou a olhar para mim de cara ao lado. Depois perguntou-me se eu estava bêbado e depois começou a medir a distância entre ela e a porta a fim de chamar por socorro. Numa das paredes paisagens emolduradas a talha, o retrato de uma viscondessa decotada, estampas de cavalos com legendas em francês. A viscondessa usava um anel no indicador rechonchudo e tinha cara de jantar bicos de rouxinol todos os dias, servindo-se dos talheres como se cada dedo fosse um mindinho, desses que a gente enrola para beber o café. A minha irmã, pelo menos, enrola. Eu sou mais para o género de o esticar, tipo antena. Educações. Tu não enrolas nem esticas, deixas a mão inerte na minha. Não te apetece apertar-me, não tens vontade de ser terna? Gostava que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo. Segundo a minha irmã sou só parvo. A propósito de tudo e de nada"

 

(Migalhas de António Lobo Antunes)

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Música para os nossos ouvidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.07.14

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Delitos poéticos (29)

por Helena Sacadura Cabral, em 29.07.14
("Apolo e Ciparisso", Claude-Marie Dubuffe)
 
Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

Poema de Eugénio de Andrade

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As canções do século (1671)

por Pedro Correia, em 29.07.14

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 28.07.14

«Não sabia que a CPLP tem por vocação evitar o isolamento das ditaduras criminosas internacionais. Não sei, nesse caso, porque é que a Coreia do Norte não há-de fazer parte da CPLP. Uma vez que ser ditadura não impede de pertencer à comunidade e não falar português também não impede, não sei porque é que não convidamos a Coreia do Norte. Também há grandes interesses económicos da Coreia do Norte que certamente vão além de cem milhões de euros investidos no Banif. (...) Não acredito que tenhamos vendido a lusofonia por cem milhões de euros: embora o País seja pequeno, a nossa dignidade não deveria ser assim tão barata. Mas houve uma falta de pudor total. Assistimos em Díli a um dos actos mais vergonhosos de toda a nossa história diplomática. É bom que os portugueses tenham consciência disso: foi um acto que só nos pode envergonhar. Gostaria de ouvir a oposição socialista dizer que, se for governo amanhã, expulsa a Guiné Equatorial da CPLP, como deve.»

Miguel Sousa Tavares, há pouco, no Jornal da Noite (SIC)

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Um gangster na CPLP

por Fernando Sousa, em 28.07.14

A fase 1 da Guiné Equatorial acabou, vamos à fase 2: a CPLP deve expulsar o novo membro para evitar transformar-se num gang. Os motivos são os mesmos por que não deveria ter sido aceite e mais este aqui, acabadinho de me chegar: http://www.diariorombe.es/obiang-nguema-quien-quiere-perder-a-un-miembro-de-su-familia-sin-ninguna-razon/. Mas podem ver melhor aqui sem filtros: http://coupdegueuledesamuel.blogspot.pt/. Está em castelhano e francês, claro. Numa tradução livre para português poderia ficar assim: “Então, ó papalvos, vocês acham mesmo que eu ia acabar com a pena de morte? Mas que tansos!” 

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Orgulhosamente sós.

por Luís Menezes Leitão, em 28.07.14

  

Para muita gente o país arranjou uma nova causa nacional, que considera até semelhante à da independência de Timor-Leste: correr com o Sr. Obiang da CPLP. O sr. Obiang é evidentemente um patife e não pode ser admitido numa comunidade de países que até agora sempre prezou a democracia, o estado de direito e a boa governação. Trata-se de países que sempre foram geridos por grandes democratas, absolutamente insuspeitos de ceder à corrupção, palavra aliás que nem deve sequer ser portuguesa. Efectivamente, a CPLP era até agora uma comunidade de missionários desinteressados, apenas preocupados com o desenvolvimento da língua portuguesa no mundo, embalada no doce acordo ortográfico. E nessa comunidade todos os outros países se vergavam à sábia e prudente orientação de Portugal, que nunca se atreveram a pôr em causa. E muito menos  alguma vez um outro país pensou em utilizar a CPLP para fins económicos, o que claramente poria em causa os fins culturais puríssimos da organização, e que o seu líder, Portugal, nunca poderia aceitar.

 

Sucedeu, porém, uma tragédia nacional. O patife do Sr. Obiang, incapaz de falar português — até agora só conseguiu dizer "sim, sim", julgando se calhar que tal bastaria — conseguiu ser admitido na organização, contra a vontade do povo português, que o Presidente Cavaco foi incapaz de defender. Todos os outros países da CPLP quiseram admitir o Sr. Obiang contra Portugal, incluindo novos países arrivistas no mundo, como o Brasil e Angola, que não têm os séculos de história que tem Portugal e que por isso deveriam seguir obedientemente a nossa posição. Até Timor-Leste, que Portugal conseguiu sozinho arrancar das garras indonésias, nos atraiçoou, com Xanana Gusmão a andar de braço dado com o Sr. Obiang. Imagine-se que Xanana Gusmão até visitou recentemente a Guiné Equatorial, tendo sido convidado a assistir a uma reunião do Grupo de Personalidades Eminentes dos países ACP (África, Caraíbas e Pacífico), cuja sessão de abertura contou com uma intervenção do Presidente da Guiné Equatorial, não por acaso o patife do Sr. Obiang. Como é que se pode admitir semelhante traição de um combatente da liberdade à causa justa pela qual Portugal continua a combater? E como é que Xanana se atreve a participar numa reunião dos países ACP, quando se trata seguramente de uma organização de países malfeitores, ou nunca se reuniria no país do maléfico Sr. Obiang? Especialmente quando a alternativa é a maravilhosa CPLP, uma organização pura e desinteressada, onde nunca malfeitores deveriam entrar. Ai Timor, calam-se as vozes dos teus avós!

 

Isto não pode ser. Portugal tem que defender orgulhosamente só a sua posição. A Guiné Equatorial, mesmo tendo sido uma possessão portuguesa durante 300 anos, nunca pode entrar na CPLP, que tal seria uma vergonha para Portugal. Mesmo estando falidos, somos nós que mandamos na CPLP. Os outros países da CPLP têm que obedecer às posições portuguesas, sob pena de os expulsarmos também, juntamente com o Sr. Obiang, altura em que faremos a CPLP sozinhos. Assim ela manterá a sua pureza original, ficando os portugueses orgulhosamente sós. Há muitos anos que essa tem sido sempre a nossa posição no mundo.

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O murro de Obiang a Cavaco

por Pedro Correia, em 28.07.14

 

1. Prefiro manter a minha posição "idealista", como justamente lhe chama o Samuel de Paiva Pires, e não abdicar de princípios basilares, sem os quais toda a diplomacia equivale ao simples inclinar de cerviz perante os ditames de quem exibe mais músculo. Sou, portanto, incapaz de alinhar na tese de um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, claro defensor da adesão da Guiné Equatorial à CPLP (que aliás já advogava quando ocupava o Palácio das Necessidades) e agora responsável por um banco que, por assinalável coincidência, reforçará o seu capital social com dinheiro daquele país.

Considero que a língua portuguesa, falada por 250 milhões de pessoas em quatro continentes, é suficientemente importante para servir de base a um projecto transnacional. Travestir a CPLP de "comunidade de interesses", em nome do pragmatismo mais rasteiro, é desvalorizar todo o potencial congregador da cultura, também no plano económico. E é sobretudo descaracterizar de forma irremediável a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Abri-la a um país onde não se fala português, apenas porque esse país é hoje um dos principais produtores de petróleo do continente africano,  é um precedente que nos levará, num futuro próximo, a franquear as portas da CPLP à Venezuela ou à Rússia ou à Arábia Saudita.

Pelos vistos, à luz dos novos critérios dominantes, andámos equivocados todos estes anos. A concepção de diplomacia agora em voga, de pura rendição ao diktakt do mais forte, dever-nos-ia ter levado a reconhecer a anexação de Timor-Leste pela poderosíssima Indonésia em vez de nos pormos quixotescamente a defender o povo-irmão que rezava e resistia em português enquanto sofria atrocidades às ordens dos generais de Jacarta. Neste caso -- espantosamente para todos quantos veneram a realpolitik -- David venceu Golias. E a CPLP encontrou aqui uma das suas mais nobres causas, que naquele dia 20 de Maio de 2002 demonstrou ao mundo que o idealismo também compensa.

 

2. Vermos Cavaco Silva e Passos Coelho sentados à mesa onde um dos maiores torcionários de África -- que nunca falou nem falará português -- foi ovacionado como estadista modelar juntou uma desnecessária nota de humilhação à injúria que representa para milhões de democratas lusófonos a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. Em nome de interesses económicos, por ironia no país que ocupa o 166º posto mundial quanto a oportunidades de negócio.

Ainda por cima isto aconteceu numa cimeira em que os dois maiores advogados do ditador Teodoro Obiang -- a brasileira Dilma Rousseff e o angolano José Eduardo dos Santos -- nem se deram ao incómodo de comparecer em Díli, onde além da nação anfitriã Portugal foi o único país representado simultaneamente pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro. Conclusão: nem Cavaco nem Passos deviam lá ter estado. Se a única decisão que dali se esperava, como os factos comprovaram, era a entrada por aclamação na CPLP do primeiro país onde não há lusofalantes, bastaria que Portugal estivesse representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros.

Com inexplicável relutância em reconhecer esta evidência, Cavaco e Passos insistiram em deslocar-se à capital timorense, onde a Guiné Equatorial entrou como estado-membro da CPLP antes de ter havido sequer um simulacro de votação nesse sentido. Fizeram assim de figurantes numa peça onde só a ausência os teria nobilitado.

Por menos que isto, li há quatro anos no Estado Sentido que Cavaco havia levado "um estaladão" do Presidente checo numa visita oficial à República Checa. Se Vaclav Klaus lhe deu um estalo em 2010, Obiang acaba de lhe dar um murro. O problema é que esse murro não se limitou a agredir desnecessariamente Portugal: foi também um golpe de misericórdia para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

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Teste Delitoratura - 5

por Teresa Ribeiro, em 28.07.14

Ele não percebia o porquê de tanta consumição por uma mulher que afinal nem fazia o seu género. De que obra falo?

 

Solução da pergunta anterior: ele é Mersault, o protagonista de O Estrangeiro, de Albert Camus.

Vencedor: o nosso leitor Rui Dantas.

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 28.07.14

O blogue está associado ao site do autor, o jornalista e escritor Joel Neto. «Regresso a Casa» assume a forma de diário, neste caso sobre a vida no campo, em pleno Atlântico. Aqui.

 

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.07.14

 

 

Marina, de Carlos Ruiz Zafón

Tradução de Maria do Carmo Abreu

Romance

(edição Planeta, 7ª ed, 2014)

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Delitos Poéticos (28)

por José Navarro de Andrade, em 28.07.14

AO FIM

  

Ao fim são muito poucas as palavras

Que nos doem a sério e muito poucas

As que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

Que tocam nosso coração e menos

Ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

Que em nossa vida a sério nos importam:

Poder amar alguém, sermos amados

E não morrer depois dos nossos filhos.

 

Amalia Bautista (tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

 

Alberto Burri, “Rossa plastica”, 1964

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As canções do século (1670)

por Pedro Correia, em 28.07.14

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Fotografias tiradas por aí (195)

por José António Abreu, em 27.07.14

Porto, 2004.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 27.07.14

«Não me parece - nem é consensual - que o motivo [da origem da I Guerra Mundial] fosse expansionista. O Império Austro-Hungaro não tinha perfil para isso. Acredito mais que a ideia seria "eliminar" um foco de agitação política (a Sérvia) que poderia ter consequências sobre a sobrevivência do império. O que se passou depois é mais díficil (e, ao mesmo tempo, fácil) de explicar: é um pouco como naqueles filmes, com dois carros a ir na direcção um do outro a ver quem se desvia primeiro.

Neste caso, ninguém se desviou e deu no que deu.

Adicionalmente, é preciso ter consciência que uma guerra como a 1ª GM é quase impossível de se repetir: foi a consequência de uma fase transitória na teoria militar, que evoluiu fortemente em termos defensivos mas não foi acompanhada na parte ofensiva. Resultado, linhas de batalhas basicamente estáveis (ver http://www.bbc.co.uk/history/interactive/animations/western_front/index_embed.shtml para uma excelent animação) e mortandade aos milhões.

O que é mais interessante (se a palavra pode ser empregue) é que a 1ª GM foi, de longe, o acontecimento com mais impacto contemporâneo e está quase esquecida: a 1ª GM definiu a 2ª (muito por culpa dos vencedores), estabeleceu os novos alinhamentos nacionais na Europa e no Médio Oriente (o problema israelo-palestiniano "nasceu" com a queda do Império Otomano), alterou de forma irrevogável o panorama sócio-político da Europa (a título meramente de exemplo, foi responsável por "arrumar" de uma só vez com a preponderância da nobreza no Império Britânico - http://www.oldmagazinearticles.com/WW1_British_Aristocracy-Nobility_during_World_War_One_pdf) e marcou palco para todo o restante séc. XX e, pelo andar da coisa, séc XXI.»

 

Do nosso leitor Carlos Duarte. A propósito deste texto do Rui Herbon.

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Andam a gozar à nossa custa (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.07.14

O Delito de Opinião tem leitores que não deixam os assuntos morrer. Em 23 de Maio pp., pouco depois da "partida" da troika, escrevi aqui um texto em que criticava o que, em meu entender, era uma decisão contra a corrente, populista e demagógica de um autarca do PSD, que à beira de um acto eleitoral prometia um caminho pedonal em honra de uma beata. Em causa estava um investimento, dito "estruturante", cujo custo se anunciava ser de €100.00,00 (cem mil euros).

Pois bem, no passado dia 17 de Julho, um leitor chamou-me a atenção para uma notícia da insuspeita Rádio Renascença que anunciava a inauguração do caminho pedonal. O único problema é que os € 100.000,00 (cem mil euros) iniciais tinham entretanto passado, em dois meses, para € 500.000,00 (quinhentos mil), valor em que a notícia da emissora católica só incluiu o caminho.

Entretanto, um outro leitor veio dizer-nos que foi visitar a obra e ficou "maravilhado". Ainda bem. Eu é que fiquei mais baralhado com as contas.

Não creio que seja grave, como esclarece este segundo leitor, que uma Casa Memorial de alguém que pregou a pobreza pareça agora um hotel de charme. E já nem vou perder tempo a discutir a necessidade do investimento. O que me custa perceber é como é que à volta de uma obra que se anunciava antes das eleições que iria custar € 100.00,00, em Julho tenha custado, segundo a Renascença, € 500.000,00. E que para um dos leitores, pelas suas contas, entre a estrada, a renovação da casa e uma nova igreja já tenham "voado" para cima de € 1.400.000,00.

Não sei quem tem razão. Como também não sei se a obra foi feita em regime de PPP com terceiros. Mas com mais este mistério por desvendar, vamos esperar pelas próximas eleições. Pode ser que até lá apareça alguém que faça luz sobre as contas. Sobre estas e sobre mais algumas que, apesar da troika, persistem na sua pouca transparência.

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Passado presente (CCCLXXXVI)

por Pedro Correia, em 27.07.14

 

Revista Vida Mundial

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Penso rápido (32)

por Pedro Correia, em 27.07.14

Não é corrente, mas faz todo o sentido usar a terminologia "Guerra Mundial 1914-1945". Uma guerra de longa duração (três décadas) entremeada por ilusórios períodos de paz e que só terminou verdadeiramente - por macabra ironia - com o início da idade atómica.
Mesmo durante o período que se convencionou chamar paz não faltaram guerras - incluindo algumas das mais devastadoras de que há memória. A guerra russo-polaca, a guerra civil russa, a guerra greco-turca, a guerra sino-japonesa, a guerra civil espanhola.
A ilusão de que haveria uma guerra que poria fim a todas as guerras ou que seria possível alcançar uma paz perpétua semelhante à do Jardim do Éden (sem serpente...) era corrente no início do século XX e não falta literatura da época a atestá-la. Uma ilusão perigosa, pois fez baixar a guarda quando se impunha toda a precaução, em sentido inverso. O primeiro passo para fazer prevalecer a paz é nunca perder a noção de que o conflito é intrínseco à natureza humana.

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Os pescadores de gaivotas

por Rui Rocha, em 27.07.14

Pode ser, pai, que toda a poesia do mundo esteja nos peixes. Nos peixes dos poetas. A poesia dos peixes que os poetas desovam nos mares se não calhar estarem, como quase sempre, a falar dos rios. Nesse peixe da infância que vinha de enxurrada nas palavras do Ruy Bello e lhe podia ser um sável. Nos peixes em que jamais se abria o rio, o rio de João Cabral de Melo Neto. No peixe que luzia ao pé da estrada, e bem podia estar numa banheira, da criança loura de Pessoa. Lembras-te, pai, quando saímos para pescar gaivotas? Eu já sabia que se podiam apanhar peixes. Lembras-te, pai? Já antes, no Lobito, tinha uma cana. Nunca pesquei um peixe com a cana, pai. Mas sem o dominar, percebia já que existia um mecanismo de atracção entre os peixes e as canas, embora não soubesse ainda que os peixes que se deixam pendurar na cana perdem o rio dos poetas ou o mar que os poetas procuram para desovar. E sabia também que os pescadores de Espinho pescavam peixe com redes e juntas de bois que as puxavam para a praia. E que no Lobito se podiam apanhar peixes com frascos de vidro e pedacinhos de pão. Eu nunca tinha conseguido apanhar peixes com frascos e pão. Mas o Calita conseguia e eu já tinha visto. Em Espinho não. Os pescadores não tinham frascos de vidro. Ou não sabiam que os peixes gostam de pão. Ou não conseguiam apanhá-los tão bem como o Calita. E por isso precisavam das redes e dos bois. Como se apanham gaivotas, pai? Com um laço. E com uma praia para as gaivotas pousarem. E nós tínhamos a praia de Silvalde, pai. Só nossa, de Verão manhã, encoberto. Quando foi, pai? Talvez em setenta e cinco. E o avô Adriano tinha linha de pesca na mercearia para fazermos os laços. Então as gaivotas apanham-se como os peixes, pai. Com linha de pesca. Vamos, pai. Vamos pescar gaivotas. Lembras-te que fomos, pai. Não lembras? Que éramos os únicos na praia. Que a praia de Silvalde, nessa manhã, era uma praia de pousar gaivotas. E que fizemos os laços e estendemos a linha. E que as dunas eram o nosso esconderijo. Será que foi por eu estar sempre a espreitar, pai, que elas não pousaram? Que não, que elas só não pousaram porque nos esquecemos de pôr um peixe dentro do laço. E as gaivotas só caem do céu quando há peixe na praia, peixe de poetas, digo-te agora, pai, que nunca apanhei gaivotas e nem sequer pesquei peixes. Digo-te agora que te vejo, tão distante e tão sereno, escondido na duna. Na duna encoberta dessa manhã de setenta e cinco em que me disseste que as gaivotas se pescam com um laço feito da mesma linha com que se apanham os peixes.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.07.14

  

 

Gostamos Tanto da Glenda, de Julio Cortázar

Tradução de Miguel Mochila

Contos

(edição Cavalo de Ferro, 2014)

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Delitos poéticos (27)

por Teresa Ribeiro, em 27.07.14

 

 Rooms by the sea (Edward Hopper)

 

CASA BRANCA

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com o teu jardim de areia e flocos marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

 

A ti eu voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

 

Em ti renascerei num mundo meu

E a redenção virá nas tuas linhas

Onde nenhuma coisa se perdeu

Do milagre das coisas que eram minhas.

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As canções do século (1669)

por Pedro Correia, em 27.07.14

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

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100 anos (complemento)

por Rui Herbon, em 26.07.14

 

Complemento desde meu post, onde o livro e a autora são referenciados.

 

[Agradecimento à Irene Pimentel que me chamou a atenção para o vídeo no Facebook.]

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Em câmara ardente

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.07.14

"O bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique recebeu hoje com "tristeza" a notícia da adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e questionou a utilidade da organização para os cidadãos dos estados-membros"

 

A CPLP morreu pela mão de Cavaco Silva e Passos Coelho para que alguns possam fazer os seus negócios com os torcionários de Malabo, como antes já faziam com a Indonésia de Suharto. Felizmente que os povos dos países que compõem a CPLP, as suas ainda incipientes sociedades civis e o seu sentido da História não nos confundem, a nós portugueses, com aquele trio de moribundos políticos que foi a Díli fazer figura de capacho. 

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Grandes romances (14)

por Pedro Correia, em 26.07.14

 

O SONO EM VEZ DO SONHO

O Leopardo, de Giuseppe Tomaso di Lampedusa

 

«Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.»

 

Na década de 50, quando o mundo ocidental acreditava sem fissuras no dogma do progresso, um obscuro crítico literário italiano, figura taciturna e solitária, escreveu uma fascinante apologia da imobilidade que chocou os meios editoriais da época. De tal maneira que as duas principais editoras, a Einaudi e a Mondadori, devolveram o manuscrito à procedência, recusando imprimi-lo. Uma decisão de que mais tarde se arrependeriam: editado enfim por Giorgio Bassani na Feltrinelli, em 1958, O Leopardo viria a transformar-se num dos mais influentes romances do século XX apesar de remar contra a corrente. Ou precisamente por causa disso.

Fama inteiramente merecida, a que a adaptação cinematográfica, sob a direcção de Luchino Visconti, conferiu ainda maior reputação em 1963 com um elenco multinacional e a conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Visconti, um comunista que não ocultava o fascínio pela velha aristocracia ligada ao mundo rural, captou exemplarmente o espírito do romance, transpondo-o para o celulóide com inigualável brilho. Não falta quem o considere o melhor filme de todos os tempos.

Por uma daquelas dramáticas ironias do destino em que a realidade persiste em superar a melhor ficção, Giuseppe Tomaso di Lampedusa não viveu o tempo suficiente para testemunhar o êxito da sua obra. Morreu com apenas 60 anos em Julho de 1957, de cancro pulmonar, ainda antes de fixar o texto definitivo nas provas tipográficas e portanto sem jamais ter visto impresso aquele que seria o seu primeiro e único romance, escrito vertiginosamente em poucos meses, entre 1955 e 1956, à mesa de um café de província, como se uma voz interior lhe ditasse o manuscrito por imperativo de urgência.

 

O Leopardo equivale a uma notável pintura em painéis: é composto por oito blocos – «oito murais de sumptuosidade renascentista», como os classificou Mario Vargas Llosa –, cada  cada qual com um tema central representando um marco cronológico da família de D. Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, Duque de Querceta e Marquês de Donnafuga, figura tutelar da aristocracia implantada no velho Reino das Duas Sicílias derrubado pelos condottieri de Garibaldi ao serviço da monarquia “plebeia” dos Sabóias que unificou a Itália em 1861. 

Viviam-se tempos novos, sob a bandeira tricolor do Risorgimento, que prometia varrer todos os vestígios ancestrais. Tempos personificados em Tancredi Falconeri, sobrinho do Príncipe e militar integrado nas fileiras de Garibaldi. Com três filhas (Carolina, Concetta e Caterina) e um filho que sempre menosprezou por considerar fraco, Paolo, D. Fabrizio via em Tancredi o seu legítimo herdeiro. E deste sobrinho que chegará a deputado e a embaixador em Lisboa aprendeu uma inesperada lição: ceder alguma coisa é o preço que se paga para evitar cedências máximas. Em suma: a Casa de Sabóia era preferível a uma república. Ou, como diria um seu émulo nove décadas mais tarde – no tempo em que Lampedusa escreveu esta obra, quando o Partido Comunista Italiano era um dos mais poderosos da Europa – a implantação da república seria sempre preferível ao comunismo.

Mudar aparentemente tudo para que tudo permaneça na mesma, dirá o Príncipe, adaptando à sua maneira o que lhe dissera Tancredi. Conclusão: as mudanças à superfície, por mais efervescentes que sejam, não iludem a natureza imutável da essência de todas as coisas. Um princípio que contraria o determinismo histórico e as bases dialécticas do progresso humano, axiomas do marxismo. Não surpreenderam, portanto, as ferozes críticas que o romance recebeu dos intelectuais próximos do PCI e a rejeição do manuscrito pela Einaudi, onde pontificava Elio Vittorini, um dos arautos do neo-realismo italiano.

Além dos detractores políticos, não faltaram também os detractores estéticos de Lampedusa, que baseou esta singular narrativa na personalidade do seu bisavô Giulio Fabrizio Tomasi. Censuraram-lhe o estilo deliberadamente anacrónico (inspirado na tradição oitocentista, de Stendhal e Flaubert). Depreciaram-lhe as frases longas, cheias de orações subordinadas, e a peculiar pontuação, que Bassani burilou mas edições posteriores recuperaram em nome da fidelidade ao texto original.

 

Estas críticas, que Lampedusa já não pôde escutar, estiveram longe de travar o avassalador sucesso deste romance póstumo: galardoado em 1959 com o Prémio Strega, o mais prestigiado de Itália, O Leopardo não tardaria a ser um êxito editorial, cedo ultrapassando a barreira dos cem mil exemplares. Um êxito que o filme amplificou.

Nenhuma crítica, porém, ilude a força intemporal deste romance com os seus inesquecíveis episódios que cobrem meio século de vida familiar, siciliana, italiana – entre 1860, o ano do desembarque dos camisas vermelhas de Garibaldi em Marsala, enquanto em Donnafuga se reza o terço («Nunc et in hora mortis nostrae. Amen»), até 1910, quando o cardeal de Palermo põe fim à exposição das decrépitas relíquias veneradas pelas idosas filhas do Príncipe.

Pelo meio, subsistem quadros inesquecíveis naquela Sicília «embrutecida pelo sol»: a longa cena do baile, do melhor que nos forneceu a literatura; a deslocação de D. Fabrizio ao prostíbulo em Palermo; a apaixonada corrida de Tancredi e a noiva, Angelica, pelos aposentos vazios do vasto Palácio de Donnafuga; os momentos em que o senhor de Salina contempla as estrelas no seu telescópio, como se pretendesse abraçar a eternidade; a morte do Príncipe, numa idade em que se tornara «inutilmente sábio» mas inabalável nas suas convicções.

«Nunca estivemos tão desunidos como desde que estamos unidos. Turim não quis deixar de ser a capital, Milão acha que a nossa administração é inferior à dos austríacos, Florença receia que lhe roubem as obras de arte, Nápoles chora pelas indústrias que perde e aqui, na Sicília, está a preparar-se uma catástrofe. (…) Por agora já não se fala em camisas vermelhas, mas voltar-se-á a falar. Quando elas desaparecerem aparecerão outras, de cor diferente; e depois outra vez vermelhas.» (Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, 1995. Há uma tradução mais recente, de José Colaço Barreiros, numa edição da D. Quixote que não posso recomendar por mutilar consoantes supostamente "mudas".)

 

 Fotograma do filme (1963)

 

Em 2011, o Guardian incluiu-o entre os dez melhores «romances históricos» de sempre. Distinção justa, embora sob um rótulo redutor. Saga familiar sem se esgotar no tema da família, romance “histórico” que descrê da História, esta é uma obra única, que foge a todas as etiquetas e não reclama filiação em nenhuma corrente estética.

O rasto memorável do romance encontra ecos até no léxico comum. Gattopardismo (de Il Gattopardo, título original do romance) é uma palava que entrou no discurso jornalístico italiano – e já está consagrada no dicionário – para significar a adaptação a um novo contexto político, social e económico por parte daqueles que ambicionam conservar os privilégios do poder.

Poucos escritores podem gabar-se de semelhante proeza.

«A obra-prima de Tomasi di Lampedusa recorda-nos que o génio é complicado e arbitrário e que, no seu caso, opor-se à própria noção de progresso, descrer da hipótese de justiça e assumir de forma inequívoca uma visão retrógrada e arcaica da História não o impediu de escrever uma imperecível obra artística», observou Vargas Llosa sobre este romance na sua colectânea de ensaios literários La Verdad de las Mentiras.

 

Enquanto milhares de livros nos falam euforicamente do mundo em mudança, este fala-nos com indisfarçável melancolia do que permanece imune a todas as mudanças: é um retrato modelar da esterilidade do esforço humano, bem inscrita nesta frase do Príncipe de Salina: «Il peccato che noi Siciliani non perdoniamo mai è semplicemente quello di “fare”. (…) il sonno è ciò che i Siciliani voliono.»

O sono em vez do sonho.

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Últimos textos desta série:

 

O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes

A Condição Humana - Um homem é a soma dos seus actos

O Grande Gatsby - O velho novo mundo

O Som e a Fúria - Somos o que vemos

Fahrenheit 451 - Queimo, logo insisto

Martin Eden - Não há sucesso como o fracasso

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