Robbie Williams
(que a vida, felizmente, não se esgota na nossa baixa política)
1. Fui à livraria do costume - há muito tempo que lá não ia - encomendar um livro, já que a leitura actual (ver ponto 2) promete estar concluída em breve. O livro em questão é Atlas Shrugged, de Ayn Rand - dizem-me que é melhor que The Fountainhead, e eu estou céptico. Acho The Fountainhead difícil de bater, mas daqui a três semanas começo a tirar a prova dos nove. Adiante, que o post não é sobre Ayn Rand. Pedi à menina que me atendeu na loja - uma cara nova, não trabalhava lá da última vez que lá fui - que visse se era possível encomendar o Atlas Shrugged (dei-lhe um post-it com o título e o nome da autora). O diálogo prosseguiu conforme vos conto de seguida (juro):
Ela: Com dois "g", tem a certeza?
Eu: Sim, com dois "g" (enquanto a dúvida me assaltou e fiz contas de cabeça, por assim dizer).
Ela: Pretende em que formato?
Eu: Paperback, de preferência.
Ela: Temos duas edições disponíveis em paperback.
Eu: Quais são os preços?
Ela: Uma custa seis dólares e a outra... vinte e seis. Procura alguma edição específica?
Eu: Não, é indiferente. Encomende-me a de seis dólares, então.
Ela: Essa é de 2003... a outra é de 2005(2007?). Se calhar prefere a de 2003, se é um atlas é capaz de querer o mais actual...?
Eu: Erm... não, não. Sabe o que é, Atlas Shrugged é o título do livro, não é um atlas.
Ela: Ah. Ah. (riso). Pronto, está certo. (Pausa) Olhe, afinal a edição de seis dólares não se encontra disponível...
Eu: Não há problema. Encomende-me então a de vinte e seis, por favor. Isso dá quanto em euros?
Ela: Cerca de vinte e três.
Eu: Certo. Obrigado. Chega daqui a duas, três semanas?
Ela: Sim, duas ou três semanas.
2. A minha leitura actual é Drácula, de Bram Stoker, que encontrei em edição paperback na Fnac pela módica quantia de quatro euros e vinte e oito cêntimos, com o bónus de incluir também alguns contos adicionais de Bram Stoker. Perguntou-me uma colega de trabalho se estou a ler Drácula por causa, e cito, "desta moda agora dos vampiros". Sim, respondi-lhe, mas ao contrário. É que este, ao contrário dos que por aí andam a provocar histerias adolescentes em adolescentes e não só, é mesmo um clássico. Sem dúvida - um clássico e um grande livro, com vampiros que gostam realmente de sangue. Se pensar que 2009 foi essencialmente um ano de releituras de fantasia e ficção científica (excepto Ayn Rand e Douglas Adams), começo 2010 mesmo muito bem. Em Drácula, as descrições são notáveis - as cenas de Jonathan no castelo do conde provocam mais arrepios na espinha que qualquer filme de terror que tenha visto - e a estrutura narrativa em forma de notas de diário, memorandos e cartas funciona surpreendentemente bem. Ainda não terminei, e tem sido difícil evitar consultar a internet para saber imediatamente o que vai acontecer a seguir (não contem).
3. A seguir é necessário arranjar ou as Nine Stories, de Salinger (disseram-me na Fnac que está esgotado, o que é uma vergonha quase tão grande como eu ainda não as ter lido), ou Dune, de Herbert (note to self: rever o filme em breve). Mas a Fnac tem agora uma edição muito interessante do The Hobbit, de Tolkien, e eu ando a resistir-lhe há demasiado tempo. Eu e a minha queda para as releituras. Com esta até tenho desculpa, espero: não li no original. Ainda.
As fotos são daqui, tiradas por António José Lourenço há poucos dias.
Após (mais) uma derrota das antigas e se bem percebi, o treinador do Sporting apareceu a dar aquelas explicações repetidas à exaustão que já toda a gente conhece e, mais ainda, a elogiar «a entrega dos jogadores». Fiquei sem saber se ele estava a referir-se à entrega aos adversários, mas não tenho nada com isso.
José Sócrates está politicamente morto. Só falta saber quando é que Aníbal Cavaco Silva assina o atestado de óbito político.
O nível do debate não deixa de baixar. De um certo ponto de vista, isto já não surpreende, o que nos deveria deixar a todos envergonhados.
Vamos lá ver uma coisa. O Sol até podia estar a cometer uma ilegalidade ao publicar as escutas, e a violar o segredo de justiça. Podia, e eu acharia essa ilegalidade legítima. Porque o que essa ilegalidade revela é um crime muito pior. Esquecendo as questões juridico-criminais, o que o jornal Sol trouxe à luz foi um crime político contra o Estado de Direito. Foi uma tentativa de controlar meios de comunicação social, que põe em causa a qualidade da nossa democracia. Face a esta enormidade, a violação de qualquer segredo de justiça é um delito menor.
Não há formalismos que salvem a face do primeiro-ministro. Não basta matar o mensageiro, e voltar a atacar verbalmente a comunicação social. O seu poder pode e deve ser fiscalizado pelos órgãos competentes; o seu eventual abuso de poder pode e deve ter consequências. A estabilidade não é uma desculpa para esta machadada no Estado de Direito. Nem tudo pode ser sacrificado em nome de uma paz podre, sob pena do descrédito total.
O país precisa de uma resposta: José Sócrates é culpado deste crime político, ou não?
José Medeiros Ferreira já tinha deixado isso claro. Ana Gomes fez ontem o mesmo no seu blogue. E António Vitorino também, nas Notas Soltas na RTP.
Alguns excertos da emissão de ontem:
- "Em muitos casos, o Governo dá-se mal com algum tipo de crítica da comunicação social."
- "O que se tratou foi de um processo de aquisição da PT numa participação na Media Capital. (...) O primeiro-ministro deu uma resposta incorrecta quando disse na televisão que não sabia de nada."
- "A golden share na PT é um instrumento perigoso e vulnerável para o Estado português."
- "A PT é uma empresa cotada. Tenho muita dificuldade em aceitar que uma empresa com essas responsabilidades possa enveredar por um negócio para acabar com o Jornal Nacional [da TVI]. É talvez o Jornal Nacional mais caro da história da humanidade."
ADENDA: Assinalo também, com satisfação, as palavras de Vera Jardim na Rádio Renascença: "Este clima não é sustentável." No momento actual, mais que nunca, importa falar claro.
Washington acaba de apanhar um nevão como não há memória. A 14 de Janeiro de 1939, a limpeza do manto de neve na escadaria do Capitólio fazia-se com a paciência e o vagar de outros tempos. Por isso é que tem hoje o sabor nostálgico das memórias.
“Chego a concordar que a Censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (...). Eu próprio já fui em tempos vítima da Censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários".
(António de Oliveira Salazar em entrevista a António Ferro (1933)
Estes também tiveram pensamentos revolucionários e viu-se o resultado.
A defesa do primeiro-ministro está agora reduzida a um só argumento: as formalidades do Direito devem protegê-lo do escrutínio dos cidadãos. Este tema foi ontem desenvolvido em dois posts, de João Pinto e Castro e Isabel Moreira.
O primeiro sujeita Kant a tratos de polé e desemboca numa inesperada tontaria a sugerir que somos herdeiros de Hitler e Estaline. Há respostas à altura do doutoral desabafo (embora mais educadas) neste e neste blog, cuja leitura se recomenda.
O post de Isabel Moreira seria respeitável se fosse honesto, mas não é. A autora assume uns ares de rigor científico enquanto proclama a impunidade do primeiro-ministro: acho de gargalhada a ideia de sócrates ter tentado fazer o que se diz que tentou fazer, escreve a certa altura.
No seu texto explica-nos que quando defende valores como o respeito pela lei, pela privacidade, pela intimidade de cada um, está também a defender todos nós, esta coisa que se chama a cidade e a democracia, pois, acredita ela, não há liberdade sem lei.
A seguir, no entanto, estraga tudo ao lamentar que não se possa fazer nada quando fica demonstrado que Belém tem uma tramóia montada contra o Governo.
Eis o problema do post, leitores: a tramóia da presidência que ela refere só ficou demonstrada pela divulgação de e-mails privados no jornal em que a Isabel Moreira publica os seus artigos de opinião.
Ora, quando o assunto foi discutido a autora não invocou valores, como o respeito pela lei, a privacidade ou a intimidade de cada um para proteger a pólis, a democracia ou os cidadãos.
Não o fez antes, e não o faz agora. Ao invocar o caso Fernando Lima, uma tramóia que segundo os seus altos critérios devia ignorar, Isabel Moreira revela-nos os limites da sua doutrina e, muito pior, da sua boa-fé.
É conveniente recordar a alguns colegas da blogosfera que Manuela Ferreira Leite foi derrotada nas urnas, há pouco mais de quatro meses, por José Sócrates. Perdeu, entre outros motivos, porque fez uma péssima campanha, centrada na "asfixia democrática", algo que os eleitores não entendem num país onde o primeiro-ministro é alvo diário das mais duras críticas em todas as plataformas informativas. Passado este tempo, o PSD não conseguiu ainda arrumar a casa - como conseguirá convencer os portugueses de que é capaz de arrumar o País? E o pior é que o País anda a necessitar com urgência de ser bem gerido: sabe-se agora que Portugal se despediu de 2009 - um ano para esquecer - com a quinta taxa de desemprego mais alta entre os países da OCDE. Logo atrás da Espanha, Eslováquia, Irlanda e Hungria. O desemprego afecta já directamente 10,4% da nossa população.
Isto significa que hoje, tal como no Verão passado, não é preciso inventar nada para fazer oposição com eficácia. Basta seguir o mote proclamado por James Carville, o super-assessor de Bill Clinton na campanha presidencial de 1992: "É a economia, estúpido." O mote deu resultado: Clinton derrotou George Bush (pai) nessa eleição. Enquanto não perceber isso, enquanto permanecer enredado em "asfixias", o PSD continuará a somar derrotas.
Relembro uma cena passada há uns meses, que ilustra bem como algumas pessoas encaram a liberdade de expressão em Portugal.
Uma jornalista em reportagem disse ao PM : “você não morde, mas rosna e muito…”
Para mim, que sou cota, trata-se de um caso de imbecilidade, de uma jornalista que desconhece totalmente o que é o jornalismo e o desacredita. Daí não vem mal nenhum ao mundo e, provavelmente, até houve quem se risse muito e aplaudisse a coragem. (Pessoalmente apenas fiquei envergonhado por saber que há jornalistas deste quilate a trabalhar em redacções, mas isso explica bem algum jornalismo que por cá se vai fazendo). Adiante…
Imagine-se, agora, que a mesma jornalista escreve num artigo “O PM rosna e muito”.
O editor tem, obviamente, o dever de lhe cortar essa passagem. Poderá ela queixar-se de estar a ser censurada? É evidente que não… Quando não há bom senso e as pessoas não sabem gozar a liberdade de que usufruem, correm o risco de cometer abusos que, obrigatoriamente, deverão ser cortados cerce. O jornalismo não é para idiotas que pretendem ser protagonistas, mas para profissionais que prezam o rigor e a verdade. O resto é folclore.
Estás como o Baudelaire: os anos não passam por ti.
Parabéns a Você,
Nesta data querida
lá-lá-lá-lá... Feliz aniversário, Ana.
Adenda — Trata-se de uma antecipação infeliz. Enquanto uns fazem anos de frescura, outros há a quem a idade não perdoa. Sorry. A propósito, Ana: parabéns por mais estes 363 dias...

O que há de inebriante no mau gosto
é o prazer aristocrático de desagradar.
(Baudelaire)
Ao Regionalização.
Estradas de Portugal, Metropolitano de Lisboa, Rede Ferroviária Nacional, Transtejo e CP: cinco empresas públicas que mantinham "relações contratuais" com Manuel Godinho, o empresário da sucata. Relações pautadas por "irregularidades", como agora vem reconhecer o ministro das Obras Públicas. Siga a marcha.
Estava aqui a lembrar-me das gravações que provavam a ligação de Nixon ao assalto à sede dos Democratas, naquela investigação jornalística muito maçadora para o Presidente dos EUA a que hoje chamamos caso Watergate e que bem pode ser considerado jornalismo de buraco de fechadura.
A vida pública caiu tão fundo que tudo o que se ponha a circular já ninguém estranha: rapidamente se propaga e logo começa a constar como verdade. Vejam bem que várias pessoas, em poucos dias, me fizeram chegar que há uma deputada pelo PS que, por ter residência em Paris, não só recebe passagens aéreas de ida-e-volta uma vez por semana como ainda anda a receber ajudas de custo diárias da Assembleia da República. Diz-se cada coisa por aí.
Até quinta, camaradas.
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Já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá. É Hugo Chávez, claro - who else? Ele diz-se inspirado por Simón Bolívar. A mim parece-me, muito mais prosaicamente, um discípulo de Vasco Gonçalves.
Diogo Noivo, "Islamist Terrorism in Algeria: From GIA to AQIM" (IPRIS Viewpoints No.11, February 2011).

A petição pode ser assinada aqui.
Porque fui ver o 'Invictus' este fim-de-semana e as imagens do filme de Clint Eastwood têm cheiro e memórias.
Tinha 27 anos quando aterrei no Aeroporto de Joanesburgo. Os sonhos estavam em desalinho, queria a vida de um só golpe e, no passaporte, o visto de emprego concedia-me seis meses para os arrumar. Ainda hoje penso por que motivo desembarquei naquela cidade violenta e de ruas vazias com este objectivo, mas somos insondáveis como os desígnios de Deus.
Para que Paulo Rangel possa ver a figura ridícula que está a fazer? Porquê ficar pelo PE e não ir mesmo ao Conselho de Direitos Humanos da ONU?
Californian
Cabriolet
Hillman Minx (Grã-Bretanha, 1955/56)
Os acontecimentos da semana que passou - a manchete do Sol, as declaracões que alumiaram a nossa economia (trocadilho rasco, eu sei), o affair Crespo - confirmam a (certeira) tese do Luís M. Jorge: a indiferença é o derradeiro legado de José Sócrates. E essa indiferença vive desligada do muito que se tem escrito nos media e nos blogues. No fundo, todos estes escândalos foram, individualmente, "apenas mais um", dos muitos a que temos assistido nos últimos anos. A capacidade de nos indignarmos, essa, esgota-se num encolher de ombros e na utilização de um "eles" absolutamente impessoal. Eles são todos iguais, diz-se. Comem tudo. No início da semana passada, uma amiga perguntava-me o que pensava eu do caso Crespo. Nada, respondi-lhe. Aconteceu antes, ainda que em lugares menos gourmet. Dir-lhe-ia o mesmo sobre a primeira página do Sol: não vimos todos já este filme? Encolho os ombros. A indignação já não serve de muito, verdade seja dita. Eles, como se diz, vão continuar todos exactamente onde estão. Os casos vão ser esquecidos em breve, como se esqueceu a licenciatura duvidosa (um caso a que não foi atribuída a importância devida), a Cova da Beira, o apartamento à Castilho, o Jornal das Sextas, e todos os pequeninos atritos que eles foram tendo com este e aquele. As escutas, com ou sem indícios criminais, serão metodicamente destruídas - pelo fogo ou pelo passar do tempo e da memória. Quanto a nós, continuaremos a caminhar alegremente e lindamente para a bancarrota (até ao final do ano, tenho outra grade de "minis" apostada). O buraco em que Portugal se enfiou é político, é económico, é tudo e mais alguma coisa - e todos nós, todos os dias, o tapamos (e nos tapamos) um bocadinho com a nossa indiferença e encolher de ombros.
Se nos indignamos não estamos indiferentes, diz-me a minha amiga. É quase verdade. Só que a nossa indignação, infelizmente, conta muito pouco. Viu-se em Setembro. Ou algum dos casos que aconteceu de Setembro a esta parte foi uma surpresa para alguém?
O PSD, que gosta muito de espadeirar contra a “asfixia democrática”, serve-se agora de Mário Crespo – um jornalista que já foi muito criticado pelos sociais-democratas quando transformava o seu espaço informativo na SIC Notícias numa parada de ministros – para bradar contra a liberdade de informação em perigo.
Numa altura em que Portugal está a ser rigorosamente escrutinado lá fora e as agências de rating, contando com o apoio de Almunia, procuram desacreditar-nos, Cavaco Silva falou. Em defesa do bom nome do país.. Foi um discurso para fora, mas também para dentro. Um aviso àqueles que, cá dentro, na defesa de interesses meramente partidários, insistem na política do pântano.
Mas há outra razão para ter escolhido o PR para figura da semana. A visita à Beira Baixa foi um momento importante para lembrar ao país que há gente, no inetrior, a desenvolver trabalhos de que nos devíamos orgulhar. Uma comunicação social que não sai de Lisboa e apenas olha para o umbigo, devia prestar atenção às palavras de Cavaco. No entanto, parece estar mais interessada em massajar o ego de alguns cromos. Como o desta semana
Aquilo que nos últimos dias se tem dito e escrito, e em especial transcrito, não pode deixar de ser visto e devidamente enquadrado à luz dos exemplos que ao longo dos anos nos têm chegado.
A utilização que tem sido feita do aparelho de Estado, das maiores e melhores empresas do país e dos partidos para a promoção de interesses privados, vaidades pessoais e distribuição de caramelos, não pode ser dissociada de tudo o que está a acontecer.
A transcrição das escutas à revelia do poder judicial, o relato escabroso de conversas privadas, a manipulação e utilização da comunicação social como meio para se atingir fins que de outra forma dificilmente seriam alcançados, não são nada de novo neste país e não começaram com nem por causa do actual primeiro-ministro.
A descredibilização do poder político é, também ela, indissociável do abastardamento da função legislativa, de um nepotismo disfarçado que invadiu todos as sectores da nossa vida pública, do recrutamento político ao empresarial, que tomou conta de vastas áreas da actividade bancária e que só não minou de vez a credibilização e o prestígio das Forças Armadas porque esta instituição, com todos os seus defeitos, e apesar do conúbio de algumas das suas elites com as negociatas privadas, soube manter-se de certa forma impermeável ao que em seu redor ia acontecendo.
O que hoje acontece em Portugal não é diferente do que aconteceu, numa escala mais reduzida, na Macau dos anos oitenta e noventa do século passado. A interferência do poder político na comunicação social sempre foi uma constante. A aquisição e venda de jornais, a detenção de jornais por membros da classe política afecta ao poder, a instrumentalização da rádio e das televisões, o silenciamento dos opositores ou das simples vozes discordantes, sempre foram normais. Ainda esta semana José Pedro Castanheira o recordava nas páginas da Revista Única. Nomes como os de Fernando Lima ou Afonso Camões fizeram parte desse universo logístico de que o poder se serviu para fazer passar a sua mensagem. Por vezes sem qualquer suor, mas com muito sangue e algumas lágrimas.
E o que se passou na comunicação social, que inclusivamente envolveu a instrumentalização e contratação de jornalistas e a realização de vultuosos investimentos, sob a forma disfarçada de publicidade e de cadernos promocionais em jornais nacionais fora do território, bem como o financiamento da produção de programas televisivos, aconteceu também com empresas públicas, participadas e nalgumas privadas.
Muitos do que hoje falam contra o controlo da comunicação social em Portugal foram então instrumentos do poder político em Macau e mantiveram-se silenciosos quando a Amnistia Internacional chamava a atenção para o que se estava a passar.
Como tudo o que é ruim, essa mesma gente, e outra do mesmo jaez, tendo conquistado posições de poder e influência, metastizou-se em Portugal, penetrou a sua sociedade civil, tomou conta dos partidos e das instituições, apoderou-se do aparelho do Estado, e nele vão medrando independentemente de quem transitoriamente está no poder.
Falar alto em restaurantes não é pior do que ter o telemóvel a tocar nesse mesmo restaurante, em cerimónias públicas ou no cinema, e nesses locais atendê-lo permitindo que o vizinho do lado ouça o que se está a dizer, incomodando tudo e todos com tais modos e displicência.
Quando se olha para as notícias e se recorda, por exemplo, as agressões de um jogador de futebol a um seleccionador nacional, ou as agressões destes, verbais e físicas, a jogadores, jornalistas e até simples comentadores televisivos, e a forma como depois a hierarquia reage, desculpando, ignorando, tolerando e protegendo, não há que estranhar a publicação de escutas, o arquivamento de processos, o ror de anos que demora a instrução de alguns até se atingir a prescrição ou que haja membros da magistratura ou das forças armadas metidos nos negócios da bola, da comunicação social ou na aquisição de equipamentos. O "comissionismo" e a cobrança de favores são desde há muitos anos as actividades mais rentáveis deste país, e com profissionais em todas as áreas da nossa vida pública.
Por tudo isto é que quando há dias vi o último filme de Clint Eastwood, dei comigo a pensar no quão fácil seria mudar este país. Portugal não tem um Nelson Mandela, não tem um François Pineaar, e muito embora tenhamos os Lobos e Tomás Morais, a nossa tradição na oval não nos permite sonhar que eles tenham a capacidade aglutinadora dos Springboks, por muito grande que fosse a sua vontade.
Clint Eastwood, que não perde uma oportunidade para nos continuar a dar com a mestria só ao alcance dos génios verdadeiras lições de vida, voltou com Invictus a colocar o dedo na ferida.
A única liderança capaz de se afirmar e de poder levar um povo a lutar contra a adversidade, a contrariá-la, a rasgar novos caminhos contra a razão que outros quiseram dar ao seu próprio destino, forçando-o, como cantava o poeta, em cada esquina, em cada cruzamento, é aquela que se impõe por si, a que se impõe pelo exemplo, pelo trabalho, pela coragem, pela perseverança, mas também pela sua liberdade, independência, espírito crítico e capacidade de introspecção. É verdade aqui como é verdade em Carmel, em Itália, em França ou noutro lugar qualquer.
Enquanto não tivermos a humildade de reconhecermos isto, de nos convencermos, e aos que nos rodeiam, que não existe outro caminho; enquanto não tivermos elites que assim pensem e gente a comandar os destinos das instituições deste país com esse espírito, não servirá de nada andarmos para aqui a escrever, votarmos de quatro em quatro anos ou desfilarmos pela Avenida da Liberdade em defesa da liberdade de expressão e pelo direito à livre opinião. Porque os que hoje clamam por esses inalienáveis direitos, tirando os bem intencionados que sempre aparecem nestas ocasiões, são os mesmos que ontem silenciaram e ignoraram quando os mandaram como correspondentes para Nova York ou Bruxelas ou lhes deram um contrato em Macau; são os mesmos que confundem tolerância com subserviência; são os que hoje bajulam para amanhã recriminarem quando lhes tirarem o prato de lentilhas. Não sejamos hipócritas: Crespo, Moniz ou Moura Guedes não são melhores do que o José Saramago que foi director do DN ou do que o Fernando Lima que foi director do Centro de Informação e Turismo do Governo de Macau, chefe de gabinete de Martins da Cruz, director do mesmo DN ou é assessor político do Presidente da República. Da mesma maneira que o Carlos Queirós que em Moçambique apoiou a Frelimo e criticou os que fugiam ao regime no tempo de Samora Machel não é melhor do que o Scolari que agredia jogadores ou daquele outro que ainda agora ofendeu um comentador televisivo em pleno espaço público e à vista de todos para depois se desculpar dizendo que tudo não passou de uns empurrões, aparentemente "normais" porque o agredido era seu conhecido há mais de vinte anos.
Em causa não está uma qualquer cultura de tolerância. Nem a democracia ou a liberdade é posta em risco porque meia dúzia de atabalhoados, cretinos e almas servis a isso se predispõem.
Em causa continua a estar, como sempre esteve, o haver gente capaz de liderar pelo exemplo, o de haver gente capaz de dizer "sou senhor do meu destino, capitão da minha alma", sem para isso ter de descer a Avenida da Liberdade, ir para a rua defender o República ou a Rádio Renascença, assinar manifestos, dar palmadinhas nas costas do primeiro que lhe aparece ou ter de se esforçar para ser entrevistado durante o primetime teelvisivo para se poder afirmar entre os seus. E de haver dentro dos partidos quem esteja disponível a ser escolhido pelo exemplo, não iludindo o passado ou as fraquezas; e quem esteja disposto a escolher pelo exemplo. E não pela manjedoura ou pelo clã.
As coisas são bem mais simples e muito menos maquiavélicas do que aquilo que possam parecer.
O buraco e a fechadura. De Fernando Penim Redondo, no Dote Come.
Cabeça fria. Do Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado.
Uma dúvida. De Rui Albuquerque, no Portugal Contemporâneo.
A noite em que o George Clooney jantou lá em casa. De Carla Romualdo, no Aventar.
Nas nuvens. Do Sérgio Lavos, no Arrastão.
Invictus. Da Daniela Major, na Câmara dos Lordes.
Carrossel. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.
Longa vida para o presidente Mao? Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.
Não se compara o incomparável, eu sei, mas... Do João Tunes, na Água Lisa.
Reclamação contra a preguiça. De Luís Januário, n' A Natureza do Mal.
Leitura portátil (5). Do Luís Naves, no Albergue Espanhol.
A gastronomia alentejana e a (injusta) hegemonia do Fialho. De André Miguel, no Crónicas da Planície.
Um seleccionador com perfil governamental. Do Filipe Tourais, n' O País do Burro.
Com ou sem Queiroz? Do António de Almeida, no Direito de Opinião.
(em actualização)
"Em relação ao sentimento de 'desilusão' penso que haverá um aspecto que a poderá minorar, quiçá contrariar (a esperança é a última a morrer): de facto no presente penso que o cartão de cidadão (CC) é essa soma de 5 (ou 4) cartões que refere. No entanto ele não é um cartão qualquer. Ele tem potencialidades de conter muita informação e poderá no futuro servir os desígnios que refere, de flexibilidade e comodidade para variadas acções do cidadão. Poderá ser uma ferramenta imprescindível, e só por isso há o mérito de estar implementada. Todas essas funcionalidades não surgem todas de uma vez: é necessário serem pensadas e especificadas. O benefício da dúvida portanto eu dou-a quanto ao mérito do CC.
De facto há muito para fazer. Refira-se que todas as tecnologias de informação que parece estarem à distancia de uma tecla são recentes. E a verdadeira revolução estará para vir: a das mentalidades. A todos os níveis da gestão publica pensar-se 'info' significará a preocupação permanente de como se gastará menos para fazer o que é preciso. Ou para fazer mais e melhor. Mas fazer por menos. Estaremos todos à altura de fazer e de aceitar? Eu penso que vai ser moroso. E que vão ser precisos impulsos como este do CC. E, mais do que informatizar processos pensados sem essa informatização, é preciso rever os processos à imagem da nova realidade - os meios informaticos.
Não será por acaso que existe um objectivo na 'agenda de Lisboa' da União Europeia, que é o da utilização plena das tecnologias de informação."
Do nosso leitor Pedro. A propósito deste texto do João Campos.
Ao Plom du Cantal.
O jornal Público tem quatro críticos de cinema - quase tantos como os jornalistas que integram a sua secção de politica nacional. Esses críticos acabam de escolher os "filmes da década": 20 películas cada um. Lá surgem, por exemplo, escolhas tão duvidosas como Milk (de Gus Van Sant), O Tigre e o Dragão (de Ang Lee), Ocean's Eleven (de Steven Soderbergh), Uma História de Violência (de David Cronenberg), Miami Vice (de Michael Mann), Inteligência Artificial (de Steven Spielberg), Plataforma (de Jia Zhang-ke) e The Brown Bunny (de Vincent Gallo).
Há quem diga que gostos não se discutem. Nada mais errado: se existe algo que pode e deve ser discutido são precisamente os gostos de cada um. Nenhum destes filmes, na minha modesta opinião, merecia sequer figurar na galeria das melhores produções dos anos em que surgiram - quanto mais numa lista de filmes da década. Lá surgem também, nessas escolhas, os inevitáveis filmes portugueses, numa clara demonstração de que os críticos cá da paróquia continuam sem perceber que o cinema português não tem categoria para ser comparado com produções internacionais. Pôr filmes como O Quarto da Vanda, Juventude em Marcha e Ne Change Rien (de Pedro Costa, cineasta aqui representado por nada menos de três obras como se fosse um dos grandes génios mundiais da Sétima Arte) a par de Fala com Ela (de Pedro Almodóvar), Lost in Translation (de Sofia Coppola), Cartas de Iwo Jima (de Clint Eastwood), Disponível para Amar (de Wong Kar-wai), Longe do Paraíso (de Todd Haynes) e A Última Hora (de Spike Lee) é intelectualmente inaceitável.
Incompreensível é a ausência de películas como Mystic River e Million Dollar Baby (de Clint Eastwood), O Pianista (de Roman Polanski), O Quarto do Filho (de Nanni Moretti), A Criança e O Silêncio de Lorna (de Jean-Pierre e Luc Dardenne). Sem esquecer uma fabulosa longa-metragem no nosso idioma: Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Lamentavelmente, os críticos portugueses costumam esquecer-se do cinema brasileiro. Mas, queiram ou não, ele existe.
Pior ainda é a omissão pura e simples, nestas listas, daquele que é para mim o melhor filme dos últimos dez anos: A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006), de Florian Henckel von Donnersmarck. De tal maneira que me questiono se algum dos quatro críticos do Público chegou a vê-lo.
Talvez lhes tenha passado ao lado enquanto reviam pela enésima vez uma das fitas de Pedro Costa que tanto pareceram deslumbrá-los.
Tenho andado a tentar entender e cheguei a algumas conclusões. Ele há as cabalas e os contextos. Sempre achei que eram coisas muito diferentes, mas agora sei que não é bem assim: as cabalas são respostas reservadas a gente de topo e os contextos são respostas permitidas aos outros que estão perto do topo sem estar no topo.
No fundo, cabalas e contextos não diferem muito, excepto na pose teatral que acompanha ambas e, sobretudo, no tempo do arremesso. As cabalas têm de ser mais rápidas, têm de estar na ponta da língua, ao passo que os contextos podem surgir mais tarde, mais reflectidos e menos indignados.
Já só me falta entender por que raio as cabalas servem para umas vezes e são postas de lado outras vezes, enquanto os contextos estão sempre aí na crista da onda. Vou continuar a procurar a explicação, mas confesso que me sinto perdido com estas modernices. É que eu sou do tempo em que a difamação só tinha uma saída: luva ao chão para um duelo. Nem cabalas nem contextos, que são respostas medricas próprias de quem virou a cara para não ver a luva atirada.
Quem deve perceber disto é o Carlos Queiroz. Não quer calar a imprensa nem tem espada, mas abafa opiniões não autorizadas e distribui uns safanões. Não há cá cabalas ou contextos.

Sōkrátēs Sócrates
Sōkrátēs buscava o Conhecimento. O seu método para alcançá-lo era o diálogo e a humildade de formular todas as perguntas.
Sócrates prefere o Desconhecimento. O seu método para alcançá-lo é o monólogo e a arrogância de calar todas as perguntas.
Um pensamento de Sōkrátēs - Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente, responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir imparcialmente.
Um pensamento de Sócrates - Quatro características deve ter um juiz: não ouvir escutas, responder obedientemente, ponderar nos riscos que corre e decidir se quer continuar a ter emprego.
Sōkrátēs provocou uma ruptura sem precedentes na Filosofia grega.
Sócrates provocou uma ruptura sem precedentes na Auto-Estima portuguesa.
Sōkrátēs tinha um lema: Só sei que nada sei.
Sócrates tem um lema: Eu é que sei.
Sōkrátēs auto- intitulava-se "um homem pacífico"
Sócrates auto-intitula-se "um animal feroz".
Sōkrátēs foi condenado à cicuta.
Sócrates foi condenado pelas escutas.
Sōkrátēs deixou-nos incontáveis dádivas.
Sócrates deixa-nos incontáveis dívidas.
ADENDA / CONTRIBUTOS:
Sōkrátēs usava uma longa barba atestando a sua honra.
Sócrates bem pode começar a pensar em 'pôr as barbas de molho'.
(Luis Reis Figueira)
Sōkrátēs - filosofou porque não havia futebol.
Sócrates - ainda por cima é do Benfica.
(Zé Luís)
O tempo de Sōkrátēs é o da sua grande Atenas.
Sócrates detesta o tempo de Antena dos outros.
(José Ricardo Costa)
Sōkrátēs fez a gosto a sua Escola.
Sócrates fez a sua escola em Agosto.
(P. Duarte)
Imagine dois homens num mesmo local com um fito comum. Um deles bem parecido, grisalho e de olho claro. O outro nem tanto. As idades aparentemente aproximadas. O primeiro homem troca umas palavras com o segundo, o segundo com o primeiro e eis se não quando o primeiro pega-se de razões com o segundo, ah como gosto desta expressão, o segundo não se ficou e depois de ter levado um soco chega-lhe também, que um homem não é de ferro, diz ele Ainda tentei dar-lhe dois pontapés. E desengane-se, também gosto desta expressão, se pensa que tudo isto se passou algures no Portugalinho rural, provinciano e incivilizado, num desses locais remotos onde os diferendos se resolvem de arma na mão ou ao soco e pontapé. Os dois homens encontravam-se à espera de embarcar no voo para Varsóvia no Lounge Vip do Aeroporto Internacional de Lisboa, se é para haver bordoada há que escolher um local com estilo, e eram o Seleccionador da nossa mui heróica equipa de rapazes viris que levará como bandeira a alma lusa por terras sul-africanas e um comentador do desporto viril de vinte e dois homens e uma bola. Quando questionado acerca da ocorrência, outro belo eufemismo, o primeiro homem diz que conhece o segundo há vinte anos e que é normal isto acontecer, haver assim uns empurrões. Segunda-feira logo pela manhã vou encostar-me carinhosamente aos meus colegas e amigos seleccionados com critério pelas duas décadas em que travamos conhecimento. E são uns quantos. Há que estar dentro da normalidade.
Esta, sim, é a pergunta dos 50 milhões. Se o governo é tão mau como a oposição diz, se nos está a conduzir para o abismo e é o responsável por todos os males do pais, por que razão ninguém apresenta uma moção de censura na AR?
Há um célebre Rolls-Royce Phantom V, de 1965, que foi despachado a 3 de Junho desse mesmo ano para John Lennon e que, como tal, chegou a circular pelas ruas de Liverpool.
Uma dúvida parece estar ainda por esclarecer: Lennon teve um ou dois Rolls? Para uns, o carro começou por ser preto e passou a branco pouco tempo depois. Para outros, era branco de origem. Para alguns, foram dois carros: o que teve a matrícula FJB111C (originalmente preto ou branco, ou preto e depois branco) e um que foi matriculado como EUC1000 (o Pantom V branco que aparece repetidamente neste vídeo dos Beatles Ballad of John and Yoko).
Branco (ou já branco), o Rolls FJB111C recebeu um rádio-telefone Sterno ainda em Dezembro do primeiro ano e, em 1966, um equipamento de som com microfone e amplificador, um televisor Sony, um telefone e uma caixa frigorífica, ao mesmo tempo que o assento traseiro era modificado para poder converter-se em cama dupla.
Por essa altura, o motorista e o carro foram para Espanha, onde Lennon participava na filmagem de How I Won the War (de Richard Lester), e há quem garanta que o Rolls estava pintado de preto baço, grelha e restantes cromados incluídos. Estaria? O certo é que o luxuoso Phantom V estava para ser alterado profundamente. Os Beatles estavam a braços com um trabalho de fôlego (o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, logo seguido do Magical Mystery Tour) e John deixava-se contagiar pela pop art da época que também marcava a imagem musical dos Fab Four: que tal o carro ser psicadélico?
Da ideia à realidade foi um passo. Em 1967, uma limousine de prestígio transformava-se neste brinquedo de ricos. Os ingleses não acharam graça ao resultado e Lennon, magalómano e sempre a dar nas vistas, foi afrontado por uma Lady de tradição na Baixa londrina, segundo se conta, que esmurrou o carro ao atirar-lhe um guarda-chuva, revoltada por aquele atentado a um símbolo britânico: «You swine! You swine! How dare you do this to a Rolls-Royce!?»
Nesse ano de 1967, John tinha apresentado a ideia à firma J.P. Fallon, que se dedicava à transformação de carroçarias e que levou por diante o desenho de Steve Weaver e a habilidade de Marijke Koger (conhecido como "O Louco", homem de origem cigana da Holanda e pintor de motivos psicadélicos). O trabalho custou duas mil libras para uns e 290 libras para os outros – a pintura ficou a cargo dos ciganos artistas.
Os Beatles utilizaram o carro no seu período de maior popularidade, entre 1966 e 1969. Em 1970, John e Yoko embarcaram-no para os EUA. Após várias peripécias, foi doado ao Cooper-Hewitt Museum, que que só o expôs algum tempo pelo elevado custo do seguro.
Já em 1985, o museu nova-iorquino decidiu leiloá-lo através da Sotheby's, que apontava para 200 mil ou 300 dólares e que viu o carro sair por 2,299 milhões de dólares para Jim Pattison, o patrão da Ripley International Inc. e fundador do Ripley’s "Believe It Or Not" Museum, que conseguiu registá-lo na Carolina do Sul com a matrícula LENNON e o juntou à colecção de insólitos.
Emprestado para a Expo'86 em Vancouver, o Rolls foi transferido para a participada canadiana Jim Pattison Industries, após o que foi para o Transportation Museum of British Columbia e, finalmente, para o Royal British Columbia Museum, em Victoria, onde foi restaurado e é mantido sob alçada do Canadian Conservation Institute.
Liverpool nunca mais viu a limo psicadélica. Mas foi pior nunca mais ter visto Lennon.

A ler aqui um interessante artigo da nossa Marta Caires sobre uma figura feminina da História Universal que tem inspirado artistas, filósofos e cientistas de todas as épocas, e que é a personagem principal do último filme de Alejandro Amenábar: Hipátia de Alexandria.
Questiono-me durante quanto tempo, a partir de hoje, José Sócrates permanecerá sem uma oposição audível no Partido Socialista.
ADENDA - José Medeiros Ferreira demonstra que nem todo o PS está petrificado e paralisado pela vontade do "chefe". Ainda bem.
O Primeiro-Ministro tem todo o direito de processar o "Sol" e o "Correio da Manhã" por terem publicado as escutas que se julgavam convenientemente apagadas e longe da cobiça dos voyeuristas que usam "buracos de fechadura" para fazer jornalismo, tem todo o direito de exigir que sejam feitas averiguações para que se descubra afinal como é que de mãos fiéis e leais as conversas ditas privadas se propagaram como uma peste contagiosa pela opinião pública, tem o direito de processar Mário Crespo por calúnias, injúrias, atentado ao seu bom-nome e falsos testemunhos, tem o direito de se defender, processar, exigir que se averigúe. Mas como Primeiro-Ministro tem o dever de esclarecer os cidadãos deste país sobre o plano salazarento, despótico e abjecto de silenciar a comunicação social, correr com os inconvenientes que ousam atentar contra a sua opinião. Negá-lo, por exemplo, desmenti-lo e tranquilizar-nos a todos, restituindo ao país a dignidade de que são feitas as sociedades democráticas. Ou admiti-lo e demitir-se. São assim os homens de carácter. Até agora, silêncio.
Sócrates diz "só me faltava" (comentar a divulgação de escutas de conversas privadas) como se lhe estivessem a pedir um gesto de educação menos primorosa. Mas a evidência, a fotografia da evidência, da forma como Sócrates se serve do poder e do país não revela estes pudores. Vêmo-lo em sandálias havaianas e camisolas de alças pelos corredores dos ministérios e das empresas de capital público, a coçar os sovacos, a fazer apostas sobre o tempo que levará a derrubar este, o custo de comprar aquele, a necessidade de controlar o outro. Ouvimo-lo em concursos de arrotos, a empurrar os amigos e aos risinhos como num balneário de adolescentes depois de mais uma conquista, de preferência na comunicação social. Já vimos demais. Não lhe estamos a pedir, engenheiro, que coma com os cotovelos em cima da mesa; estamos à espera que explique o canibalismo do menu.
O interesse público é um conceito elástico. Justificou a publicação das manobras de Fernando Lima. Agora justifica a divulgação de conversas que deveriam estar sob segredo de justiça. O curioso nesta história é que os indignados com a divulgação no primeiro caso não são os mesmos no segundo e vice-versa. O interesse público, coitado, é um dano colateral no meio de tudo isto. E o tudo isto é o jogo político, puro e duro.
Na última semana, Portugal viveu uma tormenta política da maior gravidade. Confirmaram-se os piores cenários sobre uma situação económico-financeira à beira do colapso. O parlamento está atolado numa guerrilha política. E descobriu-se que o primeiro-ministro, verdadeiro farrapo moral, anda envolvido há meses em actividades repugnantes, conspirando com outros actores políticos para comprar jornais com fundos de uma empresa pública. Neste contexto, de que fala o círculo tradicional de apoiantes do Governo?
No "Expresso", Clara Ferreira Alves debruça-se sobre a guerra do Afeganistão, Inês Pedrosa discorre acerca das "burkas" em França e Miguel Sousa Tavares analisa o papel de Lula na política brasileira. Eduardo Pitta acusa a Aletheia, de Zita Seabra, de ser um offshore do BPN (não se riam). No Jugular, fala-se de cinema e de Berlusconi, e publicam-se ataques pessoais a uma conhecida personalidade blogosférica. E no "Expresso da Meia-Noite", até João Marcelino e Luís Delgado confessaram a sua desilusão com este Governo (!).
A Sócrates, restam os apparatchiks, a namorada e o Pedro Marques Lopes. É sintomático.
Zé Carioca, de Walt Disney

Tchao.
O Presidente da República tem de pôr a uso a alínea g) do artigo relativo às suas competências (133º):
E o PS tem obrigação de apresentar um substituto para José Sócrates. Pelo fim da vergonha. Já é tempo de reconhecermos que o poço tem de ter um fundo.
1. A Menina Limão festejou três anos bem vividos. Muitos parabéns.
2. Seis anos de Água Lisa. Parabéns ao incansável João Tunes.
3. Coração Duplo: um blogue de Filipa Melo que vale a pena acompanhar.
4. Cinema is my Life: um novo blogue sobre cinema. Sobre todo o cinema. Já estou na primeira fila da plateia.
5. Alegre Cavaqueira: o primeiro blogue aberto já a pensar nas próximas presidenciais. O nome foi bem escolhido.
6. Renasceu a Bloguítica, do nosso Paulo Gorjão. Politique d' abord. Num ano em que a política vai dominar todas as atenções.
7. Henrique Burnay reactivou o seu blogue, Bruxelas.
8. Centenário da República, numa perspectiva monárquica. Merece leitura, concorde-se ou não.
Fui ontem ver Um Profeta, um filme de Jacques Audiard. A história - «uma história de aprendizagem», como diz o Luís Miguel Oliveira - gira à volta de Malik El Djebena, um 'árabe, analfabeto, de aparência frágil e desprotegida', que é condenado a seis anos de prisão. Mas a razão por que escrevo este pequeno texto não é o filme, propriamente dito. A razão prende-se com uma questão em que pensei num momento do filme: o momento em que Malik entra na prisão - uma prisão francesa - e lhe é feito um interrogatório. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco. O objectivo do interrogatório é perceber se o prisioneiro é praticante de alguma religião, e se o seu modo de vida é determinado por essa prática (por exemplo, nas restrições alimentares). Ora, o que eu pensei, ao ouvir o interrogatório, é que a humanidade pode ser um pouco melhor do que imaginam pessoas como o físico da mais recente comédia de Woody Allen. Apesar de todos os nossos defeitos, aceitamos que "prender" não é sinónimo de "privar alguém de toda a liberdade".
Parece que José Pacheco Pereira está muito preocupado com a asfixia democrática. Também eu. Ainda não me esqueci de como as listas de deputados do PSD foram expurgadas das vozes mais incómodas. Cada um vai silenciando o que pode à sua escala. Isso, de facto, é preocupante. E os double standards também.
Tenho desenvolvido a ideia de que não só Sócrates prefere Cavaco a Alegre como também Cavaco está empenhado, neste ano, em crescer eleitoralmente pelas bandas do Partido Socialista para assegurar a sua reeleição.
As declarações de Cavaco Silva, alinhadas com o Governo, desmentindo as considerações de Almunia e das agências de rating demonstram isso mesmo. Não saberemos nunca se Cavaco efectivamente disse aquilo que pensa, mas sabemos já que aquilo que disse só ajuda a sua reconciliação com o povo socialista, confirmando a vontade de Cavaco de ser reeleito.
A questão que agora se coloca, perante a revelação das escutas, é se essa vontade é maior do que o sentido de Estado que dele se esperaria.
De hora a hora, ouço repetidamente na SIC-Notícias Jorge Lacão a perorar sobre a consciência e as preocupações e as boas intenções e a boa governação que se contrapõem às maldades que andam por aí a dizer-se. Acho notável o exercício e fluidez de Lacão, que só peca por não se ter lembrado de aproveitar o tempo de antena para esclarecer a sua posição no caso recente em que foi dado como um dos protagonistas.
A coragem política afere-se em pequenos gestos e nas posições que se assume politicamente. Pedro Passos Coelho perde votos nas eleições directas ao dizer isto. Independentemente do custo, disse-o. Esta frontalidade e esta disponibilidade para dizer o que tem de ser dito independentemente do custo é algo que valorizo. É por esta e por outras que Passos Coelho incomoda muita gente. Ele tem a coragem política de romper com os interesses instalados.
Bater no fundo pode até ser desejável, se significar um renascer das cinzas e uma natural subida, por não ser possível descer mais. Infelizmente, até nisto Portugal parece ter descoberto uma originalidade: a de estar sempre a bater no fundo, repetidamente, como uma bola de borracha incapaz de estabilizar por causa da lei da gravidade. Da gravidade do que se passa lá no fundo, sobretudo.
Felizmente que em democracia, por mais pequeno que um país seja, nunca se consegue metê-lo inteiramente no bolso.
Doris's Place, em Hackney (Grã-Bretanha)
O Dori's Place é uma pequena moradia recente, projectada pela Peter Barber Architects, que teve em vista o aproveitamento integral e maximizado de uma área minúscula. A construção assenta numa base cujas frentes opostas rondam os 4,5 metros e ergue-se em três pisos: rés-do-chão e dois andares, sendo o de cima parcial e descontínuo.
Embora lhe chamem "arte grega", tem todo o ar contemporâneo de uma casa urbana, com a sua fachada branca, cobertura elíptica e janelas irregulares. Possui um terraço descoberto ao nível do segundo andar interrompido, onde Doris (com Marian Lewis) junta os amigos quando pode. Estranhamente, a varanda avançada no andar de cima tem um piso transparente, o que não pode seguramente transmitir conforto a quem a utiliza e que deve constrastar com o mobiliário, descrito como quente e acolhedor.
Esta casa constitui uma espécie de unidade-cobaia a servir de exemplo para a criação de moradias numa zona urbana de grande densidade e que precisa de ser regenerada, de modo a integrar 650 quartos por hectare para agregados familiares numa área residencial, precisamente em Hackney, que fica a norte de Londres e tem fama de grande criminalidade.
Sejamos francos quanto ao projecto: o resultado é inovador, aproveita o espaço como um bem precioso nos meios urbanos e possui um certo charme. Por isso, seria injusto chamar-lhe um mal-amado típico. Apenas a vizinhança, nas suas casinhas tradicionais de bairro antiquado, ainda olha de soslaio para o que insiste em considerar uma aberração, um vírus intrometido.
Portanto, é muito capaz de se justificar que esteja na curta lista de candidaturas aos Prémios RIBA, instituídos pelo prestigiado Royal Institute of British Architects. Mesmo com os sérios inconvenientes que a descontinuidade da habitação implica...
Pior que haver políticos que desgovernam as contas públicas, levando o País a tornar-se na chacota das principais instituições financeiras internacionais, é haver políticos que conspiram, traficam influências, mentem por cálculo ou vocação e degradam irreversivelmente a imagem das instituições. Não sei se a situação actual envergonha alguns dos protagonistas dos mais recentes episódios tornados públicos. Eu, como português, sinto-me envergonhado.
Ao Abencerragem.
Pode ler-se aqui, «O Parente da Refóias», escrito na linguagem da Serra de Monchique e devidamente lincado para um glossário.
EVA MARIE SAINT
Era uma daquelas louras "frígidas" que Hitchcock tanto gostava de evocar e de enaltecer como exemplo supremo de diva do cinema. E foi precisamente com o mestre britânico que fez um dos seus melhores filmes: Intriga Internacional (1959), ao lado de Cary Grant - película que acaba, sugestivamente, com um longo beijo enquanto o comboio em que viajam entra num túnel a alta velocidade...
Mas o filme dela que mais me tocou foi Há Lodo no Cais (1954), de Elia Kazan. Aqui não é vamp, longe disso: é uma mulher frágil, quase etérea, de olhar triste e magoado, pertencente à classe trabalhadora. Anda ali, pelos tristes terraços de Hoboken, em busca de um sentido para a vida. Que parece encontrar, sabe-se lá porquê, ao tropeçar em Marlon Brando.
(Raros Óscares foram tão merecidos como o que ela ganhou neste filme.)
Eva, a primeira mulher. Símbolo de todas as mulheres no cais de Kazan - um dos melhores desempenhos femininos da história do cinema. Daqueles que jamais passam de moda. E até eu, que prefiro morenas, dei por mim a gostar de louras.
Nasceu a 4 de Julho de 1924 (tem 85 anos).
A irresponsabilidade sob a forma de lei. Será mais uma a juntar a tantas outras. Para iniciar a comemoração do centenário da República não está nada mal.
O Tribunal de Contas exigiu a devolução das verbas indevidamente gastas pelos partidos na Madeira, destinadas ao funcionamento do Parlamento regional. São uns 5,7 milhões de euros, abusivamente desviados do objectivo exclusivo e utilizados em cartazes e campanhas partidárias, bem como para pagar a empregados dos partidos e a pessoas que frequentaram comícios.
Convenhamos que, se é manifestamente inoportuno o problema da alteração da Lei das Finanças Regionais, esta cobrança a bem do rigor das contas madeirenses é de uma oportunidade indesmentível.

Os jornais também servem para avivar a memória. Principalmente de uns quantos que a usam com filtro selectivo, por onde apenas passa a informação que o neurónio partidário regista.
Noutro local onde a canalha anónima e heterónima, que à falta de argumentos recorre à difamação e à calúnia, não entra (não sou tão magnânimo como alguns companheiros do DO e corto o pio a quem não se sabe comportar e recorre sistematicamente à calúnia) já aludira a dois dos casos que aqui são recordados. Esta crónica lembra mais uns quantos, sendo a sua leitura especialmente aconselhada a todos aqueles que reduzem a democracia e a liberdade de expressão a uma questiúncula futebolística. Não creio que o seu comportamento mude, mas sempre lhes fará bem a leitura para perceberem como são ridículos.
Já agora, também podem ler o Vasco Pulido Valente
Adenda: O maior erro de quem pretende manter o anonimato é utilizar, na escrita, frases que são a sua imagem de marca na oralidade. Outro, é deixar vestígios que permitam seguir-lhe o rasto, até ser identificado.
"O que está em causa não é a aversão a Jardim. No actual estado do país, mudar a lei é abdicar de princípios básicos de rigor fiscal e de equidade territorial. Mais importante do que as finanças da Madeira é a agonia do interior. Mas aí não há um Jardim para causar alvoroço" - Manuel Carvalho, no Público.
Há por aí um caso que promete aquecer. Normalmente, o melhor é esperarmos sentados. Mas, já agora, aguardemos num confortável sofá — como este modelo jornal-de-sexta — por causa das demoras.
Receio bem que este nosso "braço de ferro" com a Grécia para ver quem fica mesmo no fundo da Europa acabe como a final do Euro 2004.
Duvido que alguém saiba neste momento qual vai ser o resultado da posição tomada pelos partidos que formam maioria no Parlamento contra o partido que venceu as eleições de 27 de Setembro, em matéria de alteração à Lei das Finanças Regionais. Refiro-me ao seu resultado em termos práticos, isto é, às consequências internas e externas. O actual clima de guerrilha já era previsível em Setembro, em especial a partir do momento em que se tornou irreversível a vitória eleitoral do PS, contra tudo aquilo que em que PSD, CDS, BE e PCP tinham apostado. Mesmo com um José Sócrates acossado, mesmo com um PS fragilizado, aqueles que apostaram em derrubar o primeiro-ministro por via das urnas e falharam, clamaram depois vitória por lhe terem retirado a maioria absoluta. Os resultados dessa "vitória" começaram rapidamente a dar sinais, tendo atingido o seu ponto mais alto com a reunião do Conselho de Estado da passada quarta-feira. A negociação do orçamento, o acordo precário a que se chegou, com a sua viabilização negociada e contrariada por parte do PSD e do CDS/PP, foi apenas o motivo para esses mesmo partidos darem uma no cravo e outra na ferradura. Não valia a pena afrontar o Presidente da República depois do que ele tinha dito. Os episódios marginais, como a pindérica novela com Mário Crespo ou a divulgação das escutas do processo Face Oculta, mais não serviram do que para apimentarem o debate. Não passam disso mesmo, de episódios que fazem parte de uma luta política que à esquerda e à direita ignora, com cada vez mais frequência e total ausência de razão, a carga negativa do discurso que vai para o ar, o seu baixíssimo nível e a indecência argumentativa de alguns dirigentes. De toda esta marginalidade mediática, onde campeia a euforia e a contra-informação, e que nada acrescenta à estética ou á ética, ressalta uma constatação: a de que está em curso um processo de regionalização fraudulento. O bloco parlamentar que contra natura e que contra tudo o que era recomendável nas actuais circunstâncias políticas e económicas quer impor aos portugueses, neste momento de particular gravidade, de "pântano", como diz o deputado Guilherme Silva, a alteração da Lei das Finanças Regionais, não o faz apenas para satisfazer as clientelas madeirenses do Sr. Jardim e assim enfraquecer o todo nacional, criando dificuldades acrescidas ao país e aos portugueses, remetendo-nos para um buraco lodoso ao lado da laxista Grécia. Fá-lo no âmbito de uma estratégia há muito prosseguida pelo líder madeirense de conseguir por meios ínvios aquilo que os votos regionais sozinhos não conseguem. Há muito que a Madeira de Alberto João Jardim deixou de se comportar com uma região autónoma à luz da Constituição da República. Duvido mesmo que alguma vez como tal se tenha comportado. E se por momentos no passado deu a entender que ainda fazia parte do todo nacional, fê-lo por razões de conjuntura. As mesmas razões que hoje únem a oposição parlamentar em torno da alteração à Lei das Finanças Regionais. Eu até posso aceitar que a última alteração não foi a mais adequada e que importaria corrigir o que ficou menos bem. Mas o problema é que a alteração hoje pretendida não resolve nada. E o momento é demasiado crítico para jogos florais. Não são mais 50, 80 ou 400 milhões que resolvem o despesismo madeirense ou saciam a gula do Sr. Jardim. A alteração à lei é tão-só um pretexto para o agudizar da crise, para enfraquecer o governo e precipitar novas eleições. É essa lei como poderia ser outra qualquer porque para o caso qualquer coisa serve. No momento em que importava unir o país para fazer frente às dificuldades que temos de enfrentar, corrigir o rumo, controlar o défice das contas públicas e tentar minorar o problema do desemprego, canalizando verbas para onde elas podem ser úteis, há quem insista em divertir a populaça, promovendo a existência de um estado regional fraudulento. Fraudulento porque criado à margem dos mecanismos legislativos que prevêem o processo de regionalização, feito à revelia dos portugueses e das populações que nas diversas regiões do território continental também gostariam de ter a sua própria região, usando para tal a Lei das Finanças Regionais. Alberto João Jardim conseguiu criar com a sua gente uma verdadeira "Região" dentro do Estado unitário, contando com a conivência das sucessivas direcções nacionais do PSD que não se importaram de ser regularmente enxovalhadas para poderem contar com os seus votos. Não admira, por isso mesmo, que à saída da reunião do Conselho de Estado, ante a perspectiva de não conseguir abrir os cordões à bolsa, o Sr. Jardim se tivesse virado para os jornalistas que estavam em Belém e lhes tivesse desejado um bom Carnaval. O Carnaval é a única preocupação de Alberto João Jardim. A única coisa que o põe fora de si. É que ele sabe que mesmo com o Bloco de Esquerda e o PCP a apoiarem o seu amigo Guilherme Silva, com o Mário Crespo aos berros, com Pacheco Pereira irado, com Passos Coelho a publicar livros, com Manuela Moura Guedes constituída assistente em todos os processos e mais alguns ou com as escutas a Vara escarrapachadas nos jornais, daí nunca virá dinheiro algum. E sem dinheiro não haverá Carnaval. Para haver Carnaval era preciso haver música, máscaras e bailarinas. E alguém teria de pagá-las. Jardim sabe isso. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, como é normal, não percebe. E Paulo Portas é cínico.
Excelente artigo de Paulo Pinto Mascarenhas no i, evidenciando a forma como este Governo apenas consegue responder às críticas de que que é alvo através da desqualificação dos seus adversários. Agora até já os ouvimos insinuar que Almunia tem algo contra Portugal para proteger Espanha e que as agências de rating têm especial prazer em desdizer o paraíso que os socialistas por aqui vêm construindo. Para quando uma acusação de campanha negra contra o acossado primeiro-ministro montada pelas agências, o próprio Durão Barroso e até quem sabe o PPE europeu e todos os bancos e empresários do Mundo?
A oportunidade de aparecer numa fotografia ao lado de Barack Obama converteu o mais laico dos dirigentes europeus ao proselitismo religioso. José Luis Rodríguez Zapatero compareceu no "pequeno-almoço da oração", em Washington, ao lado de dirigentes religiosos norte-americanos e do inquilino da Casa Branca, com quem teve oportunidade de conversar a sós durante breves minutos. Demonstrando conhecimentos bíblicos, citou o Deuteronómio: "Não explorarás o trabalhador pobre e necessitado, quer seja um dos teus irmãos quer um dos estrangeiros que estão na tua terra, numa das tuas cidades. Entregar-lhe-ás o seu salário todos os dias, antes do pôr do sol, porque ele é pobre e espera o salário com ansiedade. Teme que ele clame contra ti ao Senhor e isso te seja imputado como pecado." Fê-lo no único idioma que conhece, o castelhano, "língua em que se rezou pela primeira vez ao Deus do Evangelho nesta terra [América]". E aludiu a Espanha, "uma nação forjada na diversidade" , mas "acima de tudo cristã".
Diz precisamente o Evangelho que "há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por mil justos que não necessitam de arrependimento". Resta saber se os mais de quatro milhões de desempregados espanhóis, correspondentes a 19,7% da população activa do país, têm fé neste primeiro-ministro que vai a Washington proclamar que devem receber "o seu salário todos os dias". Para eles, não há salário. Para muitos deles, não existe sequer esperança de obter um novo emprego a curto prazo, com a economia espanhola a bater no fundo graças a este primeiro-ministro recém-iluminado com a fé divina mas notoriamente incapaz de fazer milagres.
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