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DELITO de blogue a livro

por Pedro Correia, em 18.11.17

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Quase a entrar no décimo ano de publicação ininterrupta, o DELITO DE OPINIÃO passa enfim de blogue a livro. Está pronta a nossa primeira antologia de textos escolhidos pelos autores que entenderam participar nesta colectânea, com estilos e temas muito diferentes - afinal aquilo que fez e faz a identidade muito própria deste blogue, que resiste de boa saúde ao "fim da blogosfera" que alguns se apressaram a decretar urbi et orbi num anúncio que nós por cá desmentimos todos os dias.

Como a nossa série dos  blogonautas convidados bem demonstra: noventa já passaram por cá desde Março e vários outros estão a chegar.

Como as estatísticas deste blogue confirmam: ultrapassámos já um milhão de visualizações desde o início do ano ainda em curso.

 

O sistema que adoptámos para este livro, com 260 páginas e chancela editorial da Book Builders, é o da subscrição. Ou crowdfunding, como agora se diz em "português técnico". Isto implica a existência de um número prévio de leitores inscritos, fazendo reserva de exemplares, para que a obra entre no mercado.

Esperamos um número mínimo de 160 subscritores, que passam a figurar como "apoiantes do DELITO" nesta iniciativa que a partir de agora deixa de ser só nossa e se torna também vossa.

Contamos portanto com a vossa adesão para muito em breve passarem a ler-nos também em livro. O complemento natural ao blogue.

 

Prometo ir dando mais novidades sobre esta iniciativa. Entretanto podem desde já aderir, enquanto leitores "delituosos", na loja virtual da Book Builders. Para garantir o acesso a esta nossa primeira antologia. E abrir o caminho a que apareçam outras. Esperando que gostem tanto de nos ler em livro como já demonstraram gostar de nos ler em blogue.

 

 

ADENDA: neste momento há seis projectos em votação: qualquer deles pode ir por diante. O vosso apoio é fundamental para que o nosso avance. O mecanismo de apoio é simples: basta seguir o link e depois a página da Bookbuilders encarrega-se de explicar os passos necessários.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.11.17

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Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato, de Ana Margarida de Carvalho

Romance

(reedição Teorema, 2.ª ed, 2017)

"A autora escreve de acordo com a antiga ortografia"

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 18.11.17

A felicidade é frequentemente presunçosa. Presume demasiadas vezes que o bem que tem é uma questão de mérito, desvalorizando os factores aleatórios que o favoreceram. Ao mesmo tempo julga negativamente a infelicidade dos outros, procurando associá-la a questões de competência.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (232)

por Pedro Correia, em 18.11.17

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

A TVI votou nele como blogue do ano. É a Bumba na Fofinha, escrita e produzida por Mariana Cabral.

 

Há resistentes na blogosfera. Um deles é o Pedro Rolo Duarte: esta semana cumpriu-se uma década do blogue que tem o seu nome. Muitos parabéns.

 

Carmo e a Trindade também resiste. Há onze anos.

 

Chic' Ana, o blogue com mais comentários do universo Sapo, entrou de licença sabática. Ou licença materna, melhor dizendo. É um excelente motivo para justificar esta pausa.

 

Já vem tarde o agradecimento à Cristina Nobre Soares. Mas mais vale tarde que nunca. Estas palavras que ela nos dedicou no blogue A Equipa, do Sapo, tocaram-nos fundo.

 

A blogosfera ficou mais pobre e mais triste com o fim do Tempo Contado. Saborosos pedaços de literatura em forma de blogue, assinados por J. Rentes de Carvalho.

 

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Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.11.17

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Quando Éramos Órfãos, de Kashuo Ishiguro

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Romance

(reedição Gradiva, 2.ª ed, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 17.11.17

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Camila Vallejo

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Canções do século XXI (231)

por Pedro Correia, em 17.11.17

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querido, mudei a casa

por Patrícia Reis, em 16.11.17
Na secretaria da existência surgem coisas distintas, pois ele é impostos, modelos com nomes estranhos para preencher, dados que nos solicitam a todas as horas e em todos os sítios, assinamos de cruz, dizemos que aceitamos as condições e seja o que Deus quiser. Despachar.
 

De repente, quando é preciso fazer obras, a vida muda totalmente. Ao fim de dois meses fora de casa, regresso com alguma melancolia e apreensão. Estava eu cheia de energia para limpar e arrumar, abrir caixotes, seleccionar e mandar para o lixo, quando percebi que, afinal, ainda não está bem tudo pronto. Portanto, tenho de esperar para tirar as coisas do caixote. E não posso usar a cozinha. Apenas o frigorífico. Um dia, talvez, consiga usar o resto.

Há pó laranja por todo o lado (já disse que a cozinha está laranja? Pois, mas, por favor, não tirem conclusões políticas desta opção estética!), uma penumbra de pó acinzentado que cobre tudo e vários sacos com ferramentas diversas, algumas com aspecto terrífico, outras simplesmente incompreensíveis, há garrafas de água e papelões, cartões e plásticos.

Tudo se atrasa, obras são uma loucura, tu não te metas nisso. Ouvi eu estes meses, já com a obra começada e, consequentemente, sem hipótese de desistir. E uma cozinha parte-se num instante, fica mesmo como um cenário de guerra em meia dúzia de horas, o pior é a reconstrução. Para colocar armários e pedra, cubas e máquinas, ah, isso é todo um processo estranho e estamos sempre quase, mas falta o quase e o quase é avassalador. A vida é dominada pelo quase.

E o que dizer daquele dia em que se visita a obra e – surpresa! – não há lugar para a máquina da roupa? A solução é simples, parte-se um pouco aqui, um pouco ali, e o quase foi-se.

O desespero é de tal ordem que considero nunca mais desencaixotar seja o que for. Quando isto terminar, vou deixar a cozinha impecável, super limpa, com os mega armários vazios por incapacidade de os encher. A minha cozinha cabe em trinta caixotes, a minha cozinha não tem 15 metros quadrados, nós acumulamos tanto que é quase anedótico.

Espreitando para dentro de um caixote descubro uma coisa verde de plástico que não sei para que serve. Do outro lado, está um livro de cozinha, em mandarim, oferta de uma amiga cheia de graça e boa disposição. Que grande chuto na tola! E ainda não sei qual é a conta final desta magna obra, mas não digam à minha mãe que ela é capaz de ter um ataque e deserdar-me (ela tem uns tachos de cobre maravilhosos que cobiço há anos, mas que nunca caberão no paraíso reformulado que é a minha bela-quase-cozinha-laranja). Para quê pensar no que isto vai custar? Prefiro admirar a minha existência e abrir uma pilha de correio.

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Qual é a tua desculpa?

por Rui Rocha, em 16.11.17

Ao fim de sete ou oito de negação, já consegues encarar a realidade. Deixaste-te enganar pelo Sócrates. Acreditaste nas teorias da conspiração, leste os postes do Peixoto com devoção, ouviste embevecido o Galamba, admiraste a sagacidade do surfista prateado Adão e Silva. Não chegaste a participar em manifestações públicas de desagravo, mas sozinho na tua casa de banho também tu entoaste "Sócrates sempre" enquanto sentias um arrepio angustiado pelos atropelos ao estado de direito ao folhear o primeiro livro. Tudo bem. Demoraste muito mas enfim. O tipo é bom naquilo. Orquestrou bem a coisa. Também há quem acredite nos mails do Príncipe da Nigéria. Estavas indefeso e não imaginavas que fosse possível chegar a tal grau de manipulação. Escrevia bem o sacana do Peixoto. Tão modernaço, o Galamba. E o Adão e Silva? Uma vez até citou o Rawls e o caralho. Tudo bem. Mas e quanto ao Costa? Qual é a tua desculpa?

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Música recente (147)

por José António Abreu, em 16.11.17

Wolf Parade, álbum Cry Cry Cry.

A prova de que continuam a surgir bons álbuns de rock, ainda que possam não dispensar o uso de sintetizadores. Nas últimas semanas, até tenho andado ligeiramente viciado no tema "Lazarus Online".

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Um homicídio "por engano"

por Pedro Correia, em 16.11.17

Um homicídio foi ontem notícia. Mas com uma diferença em relação àquilo que é habitual sabermos: este foi cometido por um elemento de uma corporação policial. A notícia foi divulgada ontem, à hora do almoço, nos telediários de três canais em sinal aberto, cada qual à sua maneira.

Transcrevo aqui as diferentes versões e proponho aos leitores que me indiquem qual entendem ser a mais correcta e porquê. Podendo, naturalmente, comentar outros aspectos relacionados com este crime.

 

SIC, 13.16: «A PSP matou uma mulher por engano durante a madrugada passada em Lisboa. A polícia confundiu o carro da vítima com uma viatura em que fugiam os assaltantes de um multibanco. Este desfecho trágico aconteceu na Segunda Circular.»

 

TVI, 13.18: «Uma mulher foi morta esta manhã durante uma perseguição policial em Lisboa, numa operação destinada a capturar elementos de um gangue que de madrugada tinha assaltado um multibanco em Almada. A vítima mortal não estava relacionada com o crime cometido na Margem Sul do Tejo.»

 

RTP, 13.19: «Uma mulher morreu esta madrugada, em Lisboa, depois de baleada pela polícia. Seguia num carro que não parou numa operação policial que os agentes da PSP tinham montado para deter os assaltantes de um multibanco. Sabe-se agora que a mulher que morreu não tinha nada a ver com o assalto.»

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.11.17

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Viagem à União Soviética, de Urbano Tavares Rodrigues

Prefácio de José Neves

Crónicas

(reedição Cavalo de Ferro, 4.ª ed, 2017)

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 16.11.17

 

Mortos pelo Estado, mortos por nós. Da Helena Garrido, no Observador.

 

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O que me ficou do jantar no Panteão

por João Pedro Pimenta, em 16.11.17

É claro que fazer jantares no Panteão é patético e de gosto duvidoso. É evidente que fait divers destes dão cada vez mais azo a oportunismos polí­ticos, sejam do Governo ou da oposição (a última pérola neste sentido é de Gabriela Canavilhas, uma das mais notórias yes women do PS). E é cristalino que é deste tipo de coisas que se alimentam as sempre insaciáveis redes sociais, sendo que esta polémica partiu precisamente de um blogue - o de Seixas da Costa.

 

Mas duas coisas me ficaram: uma delas é, como escreveu o Rodrigo Adão da Fonseca, que os nossos governantes e os nossos organismos públicos reagem crescentemente sob a pressão das tais "redes sociais" e respectivos estados de humor, sobretudo quando estão "indignadas", o que nos leva a uma caótica e degenerada noção de "democracia directa"; a outra é que se os tais web summiters, ou lá como lhes chamam, não perceberam minimamente onde estavam, é porque a sua visão somente apontada à tecnologia, a um certo tipo de empreendedorismo, e ao culto da "informalidade" faz tábua rasa de qualquer conceito de sacralidade e de respeito pelo passado e pela memória. Ou seja, um caldo de economicismo e de modernidade a todo o custo baseados na tecnologia, que recorda os "progressistas" do século XIX, que não hesitavam em derrubar os traços medievais existentes, como castelos, palácios ou igrejas (e o nosso país bem sofreu com isso), para construir as suas particulares visões de futuro e de "civilização". Bem vistas as coisas, não admira que as suas reuniões se tenham vindo a fazer em Portugal.

 

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Canções do século XXI (230)

por Pedro Correia, em 16.11.17

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Questão de acento

por Pedro Correia, em 15.11.17

Porque persistirão os nossos canais televisivos em escrever Zimbabué se todos os jornalistas pronunciam Zimbábue?

Custará assim tanto transferir o acento para a sílaba tónica?

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Já li o livro e vi o filme (207)

por Pedro Correia, em 15.11.17

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  O PRIMO BASÍLIO (1878)

Autor: Eça de Queirós

Realizador: António Lopes Ribeiro (1959)

Filmar Eça é tarefa gigantesca e quase inglória para qualquer cineasta: a película costuma ficar muito aquém do livro. Foi o caso desta adaptação demasiado teatral e passadista. Com António Vilar, Ribeirinho e João Villaret no elenco.

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Convidado: JOAQUIM A. RODRIGUES

por Pedro Correia, em 15.11.17

 

Há sempre qualquer coisa

 

Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está p'ra acontecer” no mundo.

 

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia.
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.
 

 

 

 

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

 

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.
A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

 

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.
 
 
Nota:
Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím,
e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

 

 

Joaquim Alexandre Rodrigues

(blogue OLHO DE GATO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.11.17

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Rússia: Uma Parte do Todo, de José Milhazes

Ensaio

(edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016)

"Este livro não está redigido segundo o novo Acordo Ortográfico"

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Canções do século XXI (229)

por Pedro Correia, em 15.11.17

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Alberto Luís

por Patrícia Reis, em 14.11.17

Morreu Alberto Luís, advogado, marido de Agustina Bessa-Luís. Casados desde 1945, eram um casal especial. A Agustina gosta de contar que colocou um anúncio no jornal para encontrar um marido, uma "pessoa culta". Tinha decidido que aquele que, ao abandonar a sala onde a entrevista se faria, olhasse para trás, seria o escolhido. Alberto Luís foi à entrevista com uns amigos, também candidatos (diz-se que teria sido uma aposta) e olhou para trás. Casaram. Durante anos e anos, Alberto Luís foi quem passou à máquina os textos de Agustina, ela que tem uma letra miúda e escreve a azul.

Na Egoísta fizemos um número especial dedicado

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 à Agustina do qual me orgulho muito. Alberto Luís foi incansável na ajuda que me prestou então. Publicámos os pequenos desenhos, retratos, que foi fazendo da escritora. Chamava-lhe sempre Maria Agustina. Eu gostei de os ver juntos das poucas vezes que tive esse privilégio. Que descanse em paz.

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Costa, o farolzinho da solidariedade

por Rui Rocha, em 14.11.17

Quer dizer então que o Costa, o príncipe da política, o estadista das emoções, esse ser empático e altruísta, o farolzinho da solidariedade, o alfa e o ómega do humanismo, bem como a maioria que suporta o seu goverrno, os de esquerda, os das pessoas, os dos direitos, dos progressos e das conquistas, das indignações, do diabo a quatro, aprovaram um regime de compensação pela tragédia de Pedrógão que deixa de fora os feridos graves, seres humanos que ficarão indelevelmente marcados para toda a vida por consequência da incúria de um Estado que os deixou abandonados à sua sorte? Pois muito me contam.

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prostituta por acaso

por Patrícia Reis, em 14.11.17
Diferentes religiões cristãs insurgiram-se publicamente. O uso indevido da Bíblia e das suas narrativas para cumprir acórdãos de justiça é, no mínimo, um abuso.
 

Volto ao caso do acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre a mulher violentada pelo amante e pelo marido. O entendimento radical que se pode fazer da Bíblia é também algo que está datado. Estamos numa outra era. Entendemos melhor a Bíblia, as questões dramáticas da tradução, das diversas traduções (excelente trabalho de Frederico Lourenço, acaba de sair o terceiro volume da sua tradução a partir dos textos gregos). Sabemos hoje factos históricos que colocam em causa muito do que tomámos por certo ao longo de séculos.

A iniciativa de reunir várias vozes de líderes cristãos partiu da academia, da Universidade Lusófona, onde existe um mestrado - há 20 anos – dedicado às Ciências da Religião. O mestrado é um espaço de aprendizagem e de estudo, de partilha e aquisição de conhecimento e, nessa perspectiva, inscrevi-me há um ano e pouco, tendo cumprido os dois primeiros semestres. Aprendi muito, li o que de outra forma não leria, reanalisei os meus mitos, conferi histórias e, sobretudo, entendi a enorme importância da religião na história da Humanidade, mesmo para quem se diz ateu ou agnóstico. Porque a religião não é exclusivo do intelecto, é da dimensão do emocional.

Eli Wiesel, ele que recebeu o prémio Nobel da Paz, escreveu: “Podemos não ser a favor de Deus ou contra Deus, mas não podemos ser sem Deus”.

Ora, a Bíblia, que reúne textos importantes para as três religiões monoteístas, nunca foi a melhor plataforma para ajudar a causa das mulheres. Pelo contrário. Mas existem crenças colectivas extraordinárias que não correspondem à verdade e uma delas, exemplo máximo de como um texto sagrado pode ser desvirtuado e usado para manipular as mentes, é a questão de Maria Madalena.

Se perguntarmos,  numa sala cheia de pessoas de diferentes proveniências e condições sócio-económicas, qual a profissão de Maria Madalena, a resposta é: prostituta. Não há qualquer dúvida sobre esta matéria, é fazer o teste. Eu fiz, este ano, na feira do livro do Porto, numa conversa com José Luís Peixoto sobre o Sagrado e o Profano.

Ora, não há nada da Bíblia que nos indique claramente que esta mulher exercia a mais velha profissão do mundo. Nenhum versículo, nenhum evangelho. Há uma mulher, Maria Madalena, liberta de demónios (Lucas 8:2) que podem ser interpretados de várias formas; que acompanha Jesus, que esteve perto da cruz (Mateus 27.56; Marcos 15.40; Jo 19.25), que pode ser entendida como discípula até por ser aquela a quem Jesus aparece depois de ressuscitar (Mateus 28.9; Marcos 16.9; Jo 20.11-18).

Para o comum dos mortais, em Portugal ou em outro país, em pleno século XXI, Maria Madalena era uma prostituta. Porquê? A Igreja encarregou-se de dividir as mulheres em três figuras centrais: Eva, a tentadora demoníaca; Maria, a mãe silenciosa e cumpridora; Madalena, a devassa. Esta construção foi feita pelos homens e a virtude de Maria Madalena foi violada e vilipendiada ao longo dos tempos por causa de um papa: Gregório ( 540-604 d.C), que achou por bem afirmar que sabia de fonte segura que a senhora, afinal, era uma prostituta. E até hoje, o mito mantém-se.

Não é só errado invocar os textos sagrados e a religião, com o seu manancial de subjectividade e contexto histórico tantas vezes perdido, para reclamar boas acções ao nível da prática da Justiça, como  também  é terrível perceber que os homens o fazem há séculos e séculos e as maiores vítimas são sempre as mulheres.

Por isso, esta iniciativa do departamento de Ciências da Religião da Universidade Lusófona não é de somenos, é uma grande conquista. São as religiões de inspiração cristã em defesa das mulheres. Este gesto que, para muitos, pode ser simbólico, é uma porta que se abre com a força de uma ventania a que podemos chamar justiça.

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Música recente (146)

por José António Abreu, em 14.11.17

Zola Jesus, álbum Okovi.

Zola Jesus, que se identifica como Nika Danilova mas se chamará realmente Nicole Hummel (Fernando Pessoa apreciaria), continua a produzir temas que, indo beber a experiências pouco simpáticas (depressão, gente próxima dela a quem foi diagnosticado cancro ou que tentou suicidar-se), parecem negros e depressivos, mas se revelam afinal bastante reconfortantes.

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Cem anos de mentiras

por Pedro Correia, em 14.11.17

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«Foi a União Soviética que, na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos a besta nazi-fascista e os seus exércitos, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota.»

Esta foi a tese propalada no passado dia 7, em que se assinalou o centenário da chamada Revolução de Outubro, pelo secretário-geral do PCP no Diário de Notícias. Tese repetida ipsis verbis dois dias depois no editorial do semanário Avante!, órgão central dos comunistas: «Foi a União Soviética que na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos, os exércitos nazi-fascistas, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota e para a profunda alteração da correlação de forças internacional, dando origem a uma nova ordem mundial, que inscreveu na Carta da ONU o respeito pela soberania dos povos, o desarmamento, a solução pacífica e negociada de conflitos entre estados e abrindo caminho a grandes avanços sociais e de libertação nacional.»

 

Assumidas como evidência histórica, estas palavras constituem uma homenagem explícita a Estaline, que comandava com mão de ferro a URSS na II Guerra Mundial e no ano da fundação da ONU, embrião de "uma nova ordem mundial" (há quem prefira chamar-lhe Guerra Fria). Tais ditirambos têm, no entanto, o inconveniente de partirem de uma premissa errada. São mentiras, enunciadas como verdades no espaço mediático.

A mentira, aliás, é uma componente essencial do projecto leninista, que o PCP assume como elemento estrutural do seu pensamento político.

 

A URSS e os seus filhotes ideológicos (PCP incluído) fizeram tudo, durante dois anos, para sabotar o esforço de guerra, nomeadamente nas fábricas de armamento. Não apenas na Europa, deixando o Reino Unido então liderado por Winston Churchill isolado no combate aos sanguinários esquadrões nazis, mas nos próprios EUA, em que os simpatizantes e militantes comunistas foram isolacionistas até 22 de Junho de 1941, quando Adolf Hitler accionou a Operação Barbarossa, invadindo território soviético.

Durante dois anos, portanto desde o Verão de 1939, os diversos partidos comunistas tinham funcionado como "pregoeiros da paz", entoando insistentes loas à neutralidade face ao Eixo nazi-fascista. Chegando-se ao ponto de, na França ocupada pelas divisões hitlerianas, o Partido Comunista ter pedido autorização formal à tropa ocupante para continuar a publicar o seu jornal, L' Humanité, na mais estrita legalidade.

No Portugal salazarista, oficialmente neutral, o próprio Álvaro Cunhal escreveu um célebre artigo, publicado em Março de 1940 no jornal O Diabo, intitulado "Nem Maginot nem Siegfried", advogando a equidistância entre verdugos e vítimas. «Haverá alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?», questionava o futuro líder do PCP nessa prosa.
É um artigo infame, redigido seis meses depois da invasão e anexação violenta da Polónia. Um artigo que devia cobrir de vergonha os comunistas portugueses.

 

Nunca a URSS estalinista esteve isolada "durante três anos" no combate a Hitler e Mussolini. Pelo contrário, o pacto germano-soviético forneceu uma espécie de livre-trânsito às hostes nazis para ocuparem mais de metade da Europa entre 1939 e 1941.

Isolado, sim, esteve o Reino Unido, até ao segundo semestre de 1941 - e sobretudo até à entrada dos EUA na guerra, logo após o bombardeamento de Pearl Harbor pelos japoneses, aliados de Hitler, e à declaração de guerra de Berlim a Washington, a 11 de Dezembro desse ano.

Diga o PCP o que disser, tentando distorcer o sucedido, "os factos são teimosos". Nisto tinha Lenine muita razão.

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Desleixo ou desinteresse

por Alexandre Guerra, em 14.11.17

Vinte e três Estados-membro da UE assinaram ontem a notificação conjunta para a instituição da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), um passo muito importante na tua almejada política de Segurança e Defesa europeia comum e pela qual Portugal se tem batido. Mas, com bastante surpresa, constatou-se que o nosso País não esteve no grupo fundador, ainda por cima sendo este um instrumento previsto pelo Tratado de Lisboa. É certo que se pode juntar mais tarde e que para já estamos apenas a falar de uma notificação, mas a verdade é que para a História, Portugal não esteve no grupo da frente, rompendo com a boa tradição da diplomacia portuguesa, de ter sabido sempre posicionar-se na vanguarda do projecto europeu. E que ilações se pode tirar disto? Das duas uma: ou desleixo nacional, por não se terem cumprido uns prazos quaisquer (segundo as justificações do próprio chefe da diplomacia nacional), ou desinteresse. Em qualquer dos casos, é lamentável que a diplomacia portuguesa, historicamente sempre de grande qualidade, desta vez não tenha percebido onde Portugal devia estar.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.11.17

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O Lobo e a Hiena, de Rui Manuel Silva

História

(edição Alêtheia, 2017)

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Canções do século XXI (228)

por Pedro Correia, em 14.11.17

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O grau zero do jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.17

É precisamente fazer uma notícia a questionar se alguém cortou o cabelo e depois chegar à conclusão de que apenas tem um penteado diferente. Não haverá nada mais importante para noticiar do que os penteados das cabeças reais como, por exemplo, as vítimas dos fogos, da legionella, as negociações do Brexit, etc., etc? É por isso que eu sou convictamente republicano.

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«Há aqui alguns telefonemas em que o próprio engenheiro Sócrates diz que vai começar a dar umas coisas para o António (…) colocar no próprio blogue.»

 

«O João Galamba telefona-me e diz… estava um bocadinho com os copos…. bocadinho com os copos e… diz-me assim: “Olha, estou aqui a olhar para uma pessoa e vou-te passar a pessoa”. E passa-me o engenheiro Sócrates.»

 

«Eu não fiz nenhum trabalho ao José… ao engenheiro José Sócrates. Eu não fiz nenhum trabalho ao engenheiro José Sócrates, aliás… (…) isso não é trabalho (…).»

 

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Convidado: AUGUSTO MOITA DE DEUS

por Pedro Correia, em 13.11.17

 

Aprender e compreender

 

Há assuntos delicados de abordar e um deles é o racismo, tema que tem ganho crescente notoriedade na opinião pública nacional em tempos recentes, nomeadamente através de uma série de artigos no Público, bem como devido a notícias como a da polémica em torno da estátua do Pe. António Vieira, ou o caso dos seguranças do Urban Beach. É um tópico que continua na ordem do dia nos EUA, mesmo através de ângulos surpreendentes. Veja-se a revelação recente de campanhas especiais de agitação da opinião pública americana envolvendo Pokemons Go, orquestradas a partir de São Petersburgo. Para além de delicado, este é um tema arriscado, pois ao falar pode-se desencadear o tipo de reacções que se pretendem minorar, numa espécie de efeito boomerang. Mas falar é importante. Compreender é fundamental.

 

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Existe racismo em Portugal? Claro que sim. Como o combater? Pelo desenvolvimento duma cultura de hiper-consciencialização racial? Será que não pode dar-se o azar de termos uma espécie de gato de Schrödinger, em que ao abrir a caixa de Pandora da polémica racial, podemos estar a matar o dito gato? Nos EUA faz-se a categorização das etnias (African American, Hispanic, White, Native American, etc) e isso até pode ter uma boa intenção subjacente, mas tais medidas consciencializam algo que deveria ser tão irrelevante e opaco para a nossa interacção mútua quanto o nosso grupo sanguíneo.

 

Há medidas de carácter proactivo que podem ser tomadas? Claro que sim, mas de preferência atacando os problemas na raiz e não de uma forma superficial, skin deep. Veja-se por exemplo as condições de aprendizagem das populações mais desfavorecidas. Não sou sociólogo, mas é óbvio que há desigualdade de oportunidades para a generalidade das populações de certos bairros, independentemente da origem étnica (com diferentes incidências, admita-se). Trata-se na base de uma questão em larga medida de natureza económica. Esses miúdos têm acesso a boas condições de estudo, apoio escolar, ou um ambiente em casa que favoreça a aprendizagem? É também um problema de organização escolar, visto que os estabelecimentos de ensino desses bairros têm de lidar com problemas complexos (de segurança, por exemplo), que dificultam o cumprimento da sua missão educativa.

 

Mas existe também um problema de compreensão e de crença: não tenho estatísticas para citar, mas tenho fortes suspeitas que, a montante, professores das escolas dos bairros desfavorecidos frequentemente deixam de acreditar nos seus alunos, esquecendo-se que cada nova geração de crianças e jovens que recebem no início do ano é… isso mesmo, nova, uma multidão de pedras preciosas em bruto, cada uma delas um potencial caso de sucesso escolar e pessoal. A educação é uma batalha que se trava corpo-a-corpo, aluno-a-aluno. Cada aluno é diferente, não se podendo generalizar a partir de eventuais maus resultados anteriores. Por outro lado, a jusante, quando aparecem jovens que têm propensão para os estudos, o que sucede? O que dizer da pressão de grupo sofrida para que esses jovens não se destaquem nas notas? Noutros casos, em especial no caso das raparigas, será que é fácil estudar quando ao fim dum dia de escola, a tarefa principal é cuidar dos familiares mais novos? Quem defende e ajuda estes jovens?

 

O que nos traz de volta à questão económica, que condena certos bairros ao ostracismo social, o que obviamente entronca no racismo, pois a percentagem dos grupos étnicos varia de bairro para bairro e as decisões respeitantes a esse tipo de profiling já foram tomadas infelizmente há muitos anos atrás. Neste respeito é contudo útil observar certas subtilezas. Hoje em dia dizer uma piada racista suscita uma reacção imediata das redes sociais e da opinião pública em geral, e bem. Mas o que dizer daquelas graçolas que dão uma conotação negativa a certas zonas economicamente mais deprimidas? Por que isso não é igualmente denunciado? Há uns tempos alguém dizia que a Madonna numa certa foto parecia uma cabeleireira da Damaia. Se fosse uma cabeleireira de Oeiras, já não teria piada, certo?

 

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A questão não é censurar o humor, mas sim compreender porque é que para algumas pessoas isso sequer tem graça. Aliás, um caso ainda mais notável eram as constantes chalaças em torno do facto de Pedro Passos Coelho morar em Massamá e passar férias na Manta Rota. Se ele morasse na Quinta da Marinha e fosse a banhos na Quinta do Lago, isso nem sequer era assunto.

 

Em suma, na questão do racismo é preciso atacar as causas de fundo, económicas, educacionais. Dar oportunidades e mudar mentalidades. Urge aprender e compreender.

 

 

Augusto Moita de Deus

(blogue 31 DA ARMADA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.11.17

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Revoltada, de Evgénia Iaroslavskaia-Markon

Prefácio de Olivier Rolin

Posfácio de Irina Figué

Tradução de Nonna Pinto

Autobiografia

(edição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Canções do século XXI (227)

por Pedro Correia, em 13.11.17

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Fotografias tiradas por aí (384)

por José António Abreu, em 12.11.17

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Matosinhos, 2016.

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Catalunha, uma reflexão sistémica

por Alexandre Guerra, em 12.11.17

A questão da Catalunha tem suscitado inúmeras análises, muitas delas com pertinência e qualidade, outras, nem tanto, visto serem motivadas por preconceitos ideológicos, onde se esgrimam argumentos cuja validade pouco interessa para a compreensão daquele problema. Então o que há a acrescentar ao que se tem escrito e dito? Na verdade, não é tanto aquilo que se pode acrescentar em termos de informação, mas sim a forma como se pode ler tudo o que está em causa, partindo-se de uma abordagem sistémica à luz da história. Muitas vezes, fazendo-se esse exercício, que é uma prática comum para quem estuda Relações Internacionais, chegam-se a modelos que nos permitem, dentro de um certo limite, encontrar algumas respostas ou antecipar dinâmicas de um conflito ou de uma crise. De pouco serve recuar um, dois ou até cinco anos para se chegar a um racional sólido. Esse, aliás, tem sido um dos vícios na forma como a questão da Catalunha tem sido abordada, gerando, por vezes, equívocos. Neste caso, é importante recuar um pouco mais atrás, à altura em que surge a consciência política das massas trazida pela Revolução Francesa, depositando no Povo e na Nação a legitimidade do Estado. Essas sementes florescem em força com os nacionalismos do século XIX, apesar da tentativa de controlo sistémico promovido no célebre Congresso de Viena de 1815 (que marca politicamente o início do século XIX), no qual se definiu o “direito das nações se organizarem politicamente como Estados soberanos (embora sempre sob a vigilância dos grandes impérios)”.

É importante notar que o nacionalismo catalão nunca fez parte deste jogo dos nacionalismos exacerbados europeus. No entanto, um pouco por toda a Europa, com mais ou menos intensidade, o choque entre os resquícios do absolutismo do antigo regime e as sementes da Revolução Francesa faziam-se sentir no confronto entre Estado absoluto versus Estado nação. E, de certa forma, com contornos específicos, foi a isso que se assistiu durante o século XIX também em Espanha. E aqui, a história dos nacionalismos acaba por surgir no final do século XIX, altura em que se assiste à emergência dos chamados nacionalismos periféricos, assentes, sobretudo, no desenvolvimento económico, mas também nas nuances étnicas, culturais e linguísticas de algumas regiões espanholas face a Castela. O País Basco e a Catalunha, as duas regiões mais avançadas no final do século XIX em Espanha, são os projectos mais evidentes, no entanto, com vocações completamente diferentes. Aqui, neste texto, interessa apenas o nacionalismo catalão, claramente “o arauto da modernização e do progresso contra o conservadorismo do regime de Madrid”, escreveu Maria Regina Marchueta na obra “Os Nacionalismos Periféricos em Espanha (Edições Duarte Reis, Lisboa 2002. Pref. Adriano Moreira)”, a sua tese de doutoramento do ISCSP e de leitura obrigatória para quem gosta deste tema.

A verdade é que até finais do século XIX, e ao contrário do que muito se tem escrito e dito, a questão dos nacionalismos em Espanha não existia, quer em termos conceptuais, quer em termos políticos. Madrid iniciou esse papel, já que a Catalunha perdeu muito do seu poder com a decadência do comércio no Mediterrâneo, ao mesmo tempo que Castela assumiu a “sua função directora, de perfil militar e religioso”, orientando o seu projecto histórico numa lógica religiosa de Reconquista. “O nacionalismo espanhol, ainda inexistente esta época, seria o resultado de um processo gradual, que se ia completando à medida que recebia as contribuições da implantação do sistema nacional de educação primária, da ampliação territorial do recrutamento militar, da extensão dos meios de comunicação e do próprio desenvolvimento da organização do Estado”, lê-se no livro de Marchueta.

Neste quadro e receando tornar-se “um mero apêndice de França”, a Catalunha “aposta então pela Espanha imperial, oferecendo-lhe, como contrapartida, uma armadura ideológica ao seu deficitário conceito e nação, ainda demasiado preso, quer de uma concepção política teológica, quer da visão racionalista dos direitos naturais”. Se, por um lado, Madrid vai construindo uma ideia de Nação “através da captação das forças vivas das províncias”, por outro, vê reforçada essa construção com a reacção acérrima às invasões napoleónicas por parte das regiões. É importante constatar que a independência nunca foi um objectivo da Catalunha, que optou sempre por gerir os seus interesses sempre dentro do Estado espanhol. Porém, que não haja ilusões, esta construção da nação espanhola é forçada, precisamente, pelos interesses, o que não quer dizer que não seja concreta nem efectiva. E também não quer dizer que as diferentes sensibilidades não subsistam. É precisamente neste período que a esquerda republicana se começa a instalar na Catalunha, claramente defensora de um federalismo regional, muito por oposição ao carlismo conservador enraizado nas populações mais rurais (ideias que irão, décadas mais tarde, estar em confronto na sangrenta Guerra Civil).

Maria Regina Marchueta identifica a “independência de Cuba, a rebelião das Filipinas e a derrota frente aos EUA” como factores “reveladores da extrema debilidade de Espanha” e que “supuseram um rude golpe na consciência colectiva do país”. Além disso, “a Catalunha, firme na convicção de ser a sede da riqueza nacional, denunciará o falhanço da política centralizadora de Madrid”. E é precisamente nos finais do século XIX que surgem os primeiros teóricos que dão corpo doutrinário ao nacionalismo catalão. Talvez o mais importante seja Eric Prat de La Riba, que no seu livro “La Nacionalitat Catalana” formulou o catalanismo como a afirmação da identidade histórica, cultural e económica da Catalunha, mas sempre dentro do Estado espanhol. O catalanismo propôs-se também a ser um movimento regenerador face ao poder conservador de Madrid.

Não obstante os devaneios de um ou outro aventureiro (e Carles Puigdemont pode ser incluído nessa categoria), se olharmos para a história política da Catalunha, constata-se que a independência nunca foi a questão central nem reclamada por aquela região, mas sim a autonomia ou o federalismo. Muito se tem falado na Constituição de 1978 e no Estatuto de Autonomia, mas, na verdade, foi a Constituição espanhola de 1931, com a implantação da curta e turbulenta II República, que abre caminho para a solução do problema regional. “A Constituição da II República constituía, assim, o original precedente da organização territorial do Estado, mercê do reconhecimento da realidade histórico-cultural da Espanha”, escreve Marchueta. É aqui que se institui a Generalitat e que em 1978 é recuperada. Entretanto, em 1932 era aprovado o Estatuto catalão, em 1933 o basco e em 1936 o galego. O que aconteceu a seguir, com a Guerra Civil e o franquismo, acabou por oprimir os nacionalismos periféricos e adormecer a esquerda republicana. A própria ideia de nacionalidade espanhola ficou associada ao projecto do Estado franquista.

A Constituição de 1978 pode ser vista, de certa forma, como uma solução inevitável para descomprimir a pressão exercida durante décadas sobre os nacionalismos periféricos. Poderá nunca ter criado as expectativas que a Constituição de 1931 provocara nos movimentos nacionalistas, já que estávamos perante um documento progressista elaborado num regime republicano, mas a verdade é que a Lei constitucional de 78 permitiu arrumar os nacionalismos periféricos dentro do Estado espanhol até hoje e, diga-se, sempre com uma certa ordem sistémica. E no que à Catalunha diz respeito, Jordi Pujol foi uma figura central na gestão desse equilíbrio, entre o projecto nacionalista moderado e conservador e o Estado espanhol. Pujol personalizou aquilo que tantos outros líderes catalães foram fazendo ao longo da história daquela região: gerindo os interesses e cinismos de uma nação, que nunca se viu verdadeiramente empenhada em lutar por ser um Estado independente, mas também que nunca aceitou ser um elemento passivo na construção do Estado nação espanhol. Uma das virtudes do actual modelo de autonomia é que tem permitido, precisamente, a coabitação entre diferentes correntes nacionalistas na Catalunha e o relacionamento estável com Madrid. E isso, com mais ou menos questão pelo meio, tem funcionado dentro daquilo que seria expectável num país como a Espanha.

Perante o que aqui foi escrito, ou Carles Puigdemont não fez a devida leitura histórica ou assumiu que o “seu” povo lhe iria dar o projecto de nação independente. Ora, o que hoje já se pode assumir com toda a certeza (e era óbvio), é que o povo catalão, no seu todo, não se revê nesse projecto de nação protagonizado por Puidgemont. Nem de perto nem de longe e quando assim é, não há processo de auto-determinação que chegue a bom porto. O princípio da nação independente assenta, antes de mais, numa vontade popular imensa e massificada em partilhar uma ideia comum. Esse desejo ardente e quase irracional do povo assumir os desígnios do seu futuro, ao ponto de dar a vida por isso, é uma espécie de combustível para qualquer processo disruptivo e de independência. A questão é que os ímpetos independentistas nacionalistas nunca pulsaram com essa intensidade na história catalã, mesmo em períodos difíceis e turbulentos. Se assim foi – e sem que as relações de força entre Madrid e Barcelona estivessem a viver momentos particularmente especiais –, por que razão achou Carles Puigdemont que a História lhe teria concedido o privilégio de estar a viver um tempo especial? Uma coisa é certa, são muitos aqueles que, consumidos pelo seu ego ou até mesmo delírio, se consideraram predestinados para fazer algo de grandioso e acabaram na sarjeta da História… ou em manicómios.

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Leituras

por Pedro Correia, em 12.11.17

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«A felicidade não é coisa fácil de se contar. É também uma coisa que se vai gastando, sem que ninguém dê pelo desgaste

Henri-Pierre RochéJules e Jim, p. 182

Ed. Relógio d' Água, Lisboa, 1990. Tradução de Ana Luísa Faria

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 12.11.17

«Assertivo e com ele me identifico, ou não fosse o Cântico Negro o meu guião de vida.
A sociedade actual vive para a crítica severa e imediata, condenando quem opina, o que é diferente de opinar de forma diversa. Por vezes, depois de remoer o texto, também eu opino condenando, apenas quando a crítica é pessoal e não encontro algo que a justifique. Acredito que soe a vingança, mas é sobretudo alertar para que o autor do texto repense o mesmo e o esclareça. Não creio que alguma vez o tenha feito consigo, pelo que esta parte lhe seja estranha.
Declaração de interesses: não votei em Bruno de Carvalho. Mas olho para a forma como a imprensa o trata, transformando-o no maior saco de pancada de que há memória, e pergunto-me: Já pensaram se fossem vocês a ver exposta a vida privada e a pública, sempre com comentários negativos, como reagiriam?
"Todos falam dos rios que correm que são violentos, mas ninguém nota nas margens que os comprimem." Velha frase sempre actual.
Estarão as pessoas disponíveis para ler, e ler com atenção? A avaliar pela forma como respondem ao que o outro diz, não. Opinam ou vomitam a primeira imagem que o espelho lhes reflecte? Debatem ideias? Talvez não as tenham e, por isso, o comentário fácil, quantas vezes ofensivo.
Diferente é ter opinião diferente, o que só enriquece a opinião de todos, acabando com uma visão monolítica da coisa, e oferecendo algo mais próxima da inatingível verdade. Isso não significa desrespeito pela opinião do autor do texto, antes oferece uma outra visão da coisa. Infelizmente há muitos autores que não gostam que alguém opine de forma diferente, como se ter uma visão diferente significasse a recusa da sua opinião ou fosse ofensivo.
Permanentemente insatisfeito com o politicamente correcto, "sempre que me dizem para ir por ali, ergo-me e digo não, não vou por aí".
Obrigado, pensava que estava só.»

 

Do nosso leitor Orlando Teixeira. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.11.17

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Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís

Prefácio de António Lobo Antunes

Romance

(reedição Relógio d' Água, 7.ª ed, 2017)

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 12.11.17

A poucos dias da passagem do 54.º aniversário do assassínio de John Kennedy, recomendo a leitura deste blogue norte-americano que reúne textos e documentos sobre aquele magnicídio que mudou a América e chocou o mundo. JFK Lancer não esconde ao que vem: os seus autores estão convictos de que houve uma conspiração para matar Kennedy e que o crime nunca foi devidamente investigado. Convicção reforçada pela recente decisão do Presidente Trump de tornar públicos 3.100 documentos que tinham permanecido secretos até agora.

Recomendável, portanto, aos apaixonados de História e a todos os amantes das teorias da conspiração. Aqui fica, como nosso blogue da semana.

 

Leitura complementar:

O fim do sonho em seis segundos

Claro, conciso e compreensível

A última manhã de John Kennedy

No centenário de John F. Kennedy

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Canções do século XXI (226)

por Pedro Correia, em 12.11.17

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Frases de 2017 (46)

por Pedro Correia, em 11.11.17

«O país está velho, está pobre, está só e em muitas circunstâncias entregue a si próprio.»

Adalberto Campos Fernandes, ministro da Saúde

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Enviei para o Panteão

por Rui Rocha, em 11.11.17

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a ver se me ralo

por Patrícia Reis, em 11.11.17

Há muitos anos, aprendi com a Inês Pedrosa, e depois com outras pessoas, que é muito fácil levar porrada quando se escreve publicamente, se dá rosto e nome, se tem opiniões e, enfim, estamos disponíveis para as partilhar. Não se trata de ganhar palmadinhas nas costas, disse-me ela, o que é importante para ti, pode ser para outras pessoas. E depois falou-me da porrada que iria levar, da quantidade de fel que as pessoas destilam, e tantas vezes no anonimato, mas que isso não tinha qualquer importância.

A Inês é minha irmã e poucas pessoas têm levado pancada como ela. Vive com uma dignidade incrível, uma cabeça genial, uma capacidade excepcional de ser excepcional. É uma lição para mim. Há quase trinta anos que aprendo com ela e, muitas vezes (mesmo muitas vezes!), concordamos que discordamos, mas respeitamos a opinião de cada uma. Ela continua a levar porrada de forma idiota por pessoas que não pretendem construir nada, apenas destruir. E eu estou na mesma situação.

E serve o presente texto para dizer que podem continuar a ser assim, a ver se me ralo. Creio que ela tão pouco se rala. Tragam lá os vossos archotes e as vossas acusações, o vosso moralismo e preconceitos, descrevam a minha ignorância ou o que vos aprouver, vivemos em democracia, podem fazê-lo à vontade, mas depois não me digam que serve para estimular debates, porque a troca de ideias implica respeito e o respeito implica educação e a educação implica elegância. Na minha opinião, claro.

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Leituras

por Pedro Correia, em 11.11.17

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«Sessenta anos de opressão haviam reduzido Portugal à mísera situação de colónia de Castela, apagando-a do mapa da Europa como nação independente. Mesmo os países que outrora o procuravam por aliado e o tratavam de igual para igual tinham passado a considerá-lo mera colónia de Espanha. E essa ideia arreigou-se tão profundamente nos hábitos dos outros povos europeus que, ainda hoje, para muitos deles, esta faixa ocidental da Península se lhes afigura uma província espanhola e endereçam a sua correspondência para Lisboa, Porto ou Coimbra com a designação de Espanha, como território nacional a que essas cidades pertencessem. Portugal era nesses tempos uma colónia que possuía colónias, situação aparentemente paradoxal que correspondia à verdade dos factos.»

Mário DominguesD. João IV, p. 97

Ed. Romano Torres, Lisboa, 1970

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.11.17

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Quase Outros Poemas, de Jorge Reis-Sá

Poesia

(edição A Casa dos Ceifeiros, 2017)

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 11.11.17

 

Para bom entendedor meia palavra não basta.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (225)

por Pedro Correia, em 11.11.17

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Leninismo: um vírus totalitário

por Pedro Correia, em 10.11.17

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Há cem anos, Lenine fundou um dos mais tenebrosos regimes políticos de todos os tempos. Um regime que nasceu da mentira, alimentou-se do terror e mergulhou a Rússia em décadas de opressão.

Um século depois, desfeitos todos os mitos, dissipadas todas as dúvidas, há quem permaneça cego perante esta clamorosa evidência: o comunismo nunca foi a força libertadora que anunciara aos povos nem inaugurou uma página redentora na história da humanidade. Pelo contrário, trouxe novas guerras em prolongamento directo das anteriores - tão velhas como o mundo. Impôs antigas grilhetas em novos escravos. Impulsionou os cavalos do apocalipse, guiados pela máxima de Estaline, o mais pérfido discípulo de Maquiavel: "O homem é o problema. A morte resolve todos os problemas."

Resta, portanto, um último equívoco ainda por esclarecer em definitivo junto de alguns espíritos: o da origem do mal. Alguns persistem em encarar com benevolência o leninismo – pouco mais do que uma técnica de conquista do poder por via insurrecional – enquanto reservam as críticas aos seus derivados de diversos matizes: o estalinismo, o trotskismo e o maoísmo. Supostas perversões do sistema.

 

Acontece que o regime de terror começa com Lenine, nos dias iniciais da chamada Revolução de Outubro de 1917 – que foi um golpe de Estado clássico – e sem camuflagens de qualquer espécie. Basta ler as primeiras proclamações bolchevistas logo após a conquista de Petrogrado. Está lá tudo: o tom intimidatório, os pontos de exclamação sem permitirem contraditório, a linguagem bélica com a meticulosa utilização de verbos como “esmagar” e “liquidar”.

E a mentira, sempre a mentira como senha de identidade de um regime que prometia a paz e trouxe a guerra, que prometia o pão e trouxe a fome, que prometia a liberdade e trouxe uma tirania ainda mais implacável e cruel do que a da dinastia Romanov, derrubada oito meses antes num levantamento popular que instaurou em solo russo uma frágil democracia, cedo varrida pelos batalhões bolchevistas que mandavam dar “todo o poder aos sovietes”.

De tudo isto nos fala Manuel S. Fonseca nesta sua Revolução de Outubro, que nos transporta aos dias fundacionais do “socialismo real”, etapa após etapa, em minuciosa cronologia que acompanha o percurso biográfico de Vladímir Ilítch Uliánov – o verdadeiro nome de Lenine (1870-1924) – desde os primórdios na região do Volga natal até à morte em Gorki, quando já a doença o retirara da vida pública, passando pelo seu atroador percurso como senhor absoluto do Kremlin onde fora entronizado como czar vermelho entre manifestações de indecorosa idolatria que já prefiguravam o culto da personalidade com dimensões demenciais no subsequente reinado de Estaline, herdeiro ungido.

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Manuel Fonseca, editor e um dos melhores colunistas da imprensa portuguesa (imperdíveis, as suas crónicas de sábado em cada edição do Expresso), militou num sector da esquerda extrema nos dias da juventude mas revisita hoje os primórdios da autocracia soviética sem qualquer traço de complacência perante o regime que em Outubro de 1917 “pôs fim ao pluralismo da esquerda e à extraordinária democracia participativa que a Revolução de Fevereiro criou na Rússia”. Porque estava contaminada pelo “vírus totalitário”, autêntico pecado original.

O autor chega ao ponto de se interrogar nesta obra valorizada pelo excelente grafismo e muito enriquecida com dezenas de fotografias centenárias: “E se a vitória bolchevique foi, afinal, a vitória da contra-revolução, esse lobo contra o qual os revolucionários tanto gritaram ao longo de 1917?”

A formulação desta pergunta já contém implícita a resposta, fornecida parágrafos adiante com a lucidez de alguém incapaz de ficar indiferente às lições da História: “Em vez de ser, como Lenine anunciara em O Estado e a Revolução, a pátria do controlo operário da produção e da autogestão, uma pátria sem polícia, exército ou Estado, a Rússia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi, depois de Outubro e por quase meio século, com Estaline, o palco de uma carnificina insensata, aleatória e psicótica. O exercício do poder de Lenine e dos bolcheviques gerou uma das grandes catástrofes do século XX, substituindo a revolução pelo gulag.” 

............................................................... 
 
Revolução de Outubro, de Manuel S. Fonseca (Guerra & Paz, 2017). 159 páginas.
Classificação: ****

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