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As inundações em Lisboa.

por Luís Menezes Leitão, em 22.09.14

 

Não tivesse Lisboa um presidente da câmara em tempo parcial, convencido de que os eleitores o escolhem para ele se dedicar a mais altos vôos, e a cidade preparar-se-ia adequadamente para a chegada das chuvas. Mas como o presidente da câmara de Lisboa tem sempre outras coisas a que se dedicar, a cidade transforma-se todos os anos num verdadeiro rio logo que chegam as primeiras chuvas. Nada que preocupe António Costa que amanhã trava um debate decisivo para ser o candidato do PS a Primeiro-Ministro e para quem isto é uma questão menor. Ainda havemos de ouvir dizer se tratou de uma manobra de São Pedro para interferir nas primárias do PS. Na verdade, São Pedro está a pôr a nu a tão afamada grande capacidade de gestão autárquica que a boa imprensa de Costa vê nele e que eu sinceramente nunca vi. Costa nem sequer pode proclamar: "Après moi, le déluge!". Em Lisboa o dilúvio surge sempre com ele.

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Alguma coisa deve recear o BCE para no início deste mês ter colocado no terreno toda a artilharia pesada. O objectivo das medidas (novo programa de injecção monetária no sector bancário e compra de activos titularizados, incluindo créditos ao sector imobiliário) é combater uma situação pré-deflacionária, em que a inflação subjacente para o conjunto da zona euro é de 0,9%, para situá-la em torno dos 2%. Mas confundir a inflação resultante de um desajustamento temporal dos factores de produção quando a economia cresce impulsionada por uma procura robusta, com a taumaturgia de que aumentando a massa monetária e desencadeando um processo inflacionário conseguiríamos espicaçar a procura, isso, lamento, é absurdo.

 

Mas o dislate é apenas aparente, porque as medidas monetaristas adoptadas em 4 de Setembro são apenas o álibi que permite a Draghi enviar a sua verdadeira mensagem: com estas medidas esgotámos todos os cartuchos de que dispomos e que são permitidos pelos estatutos do BCE para estimular a procura pela via monetária; a partir de agora toca aos políticos empreender as reformas necessárias para relançar a economia. Sem reformas estruturais profundas e corajosas as políticas monetárias por si só não nos tirarão do marasmo generalizado em que a UE se encontra. É necessária uma política concertada de reformas a nível europeu, com metas e mecanismos claros de implementação, para superar a presente situação de empobrecimento progressivo. Em Portugal fez-se alguma coisa, mas muito pouco. Qualquer tentativa de reforma esbarra na constituição ou provoca o levantamento dos "defensores" do Estado Social, quando é precisamente o imobilismo face às mudanças na sociedade e no mundo que o faz perigar.

 

Só um programa de reformas europeu poderá romper os escolhos de políticas nacionais de vistas curtas e populistas, mais interessadas em cortejar votantes que em sanear estruturas e mecanismos obsoletos. Um novo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Uma concertação indispensável para cimentar solidamente uma prosperidade que nos permita continuar a pagar o Estado Social de que beneficiamos, que constitui um dos grandes feitos da Europa e é talvez, a par do humanismo, o nosso maior património.

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Penso rápido (50)

por Pedro Correia, em 22.09.14

Os políticos que se habituam demasiado tempo a pronunciar-se sem contraditório (e há vários, e de várias cores) passam a assumir uma pose grave e senatorial, própria de quem nunca se molha e de quem se habitua a vencer sem nunca verdadeiramente ir a jogo.
Só forma, sem conteúdo. Mas é quanto basta para granjear aplausos fascinados da nata lisboeta, sempre pronta a colar mais um cromo na vasta caderneta de senadores do regime.

A propósito, muitos comentadores falam na necessidade de "renovação" da política esquecendo que a renovação terá de passar também por eles. Fazem parte do sistema, alimentam-se da pequena intriga alfacinha. Alguns estão há 20 anos ou até mais a fazer comentário político. São parte interessadíssima naquilo que comentam. E responsáveis, em larga medida, pela fuga sistemática de leitores e espectadores das páginas de jornalismo político e dos debates políticos na televisão.

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Sugestões: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.09.14

  

 

Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares

(edição Caminho, 7ª ed, 2014)

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Mia Couto

por Patrícia Reis, em 22.09.14

Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em vôo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

 

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As canções do século (1726)

por Pedro Correia, em 22.09.14

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A história das duas mulheres piratas é contada num livro primoroso publicado em 1724, The General History of the Pirates, assinado por um capitão Charles Johnson, com várias edições e também conhecido por Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1). O autor tinha tal domínio da técnica literária que existiu durante muito tempo a suspeita de ser o pseudónimo de Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe. Parece que não é assim: o livro terá mesmo sido escrito por um antigo pirata. As suas fontes não são conhecidas, mas grande parte da narrativa baseou-se em factos ou em lendas que circulavam entre os marinheiros, talvez até em histórias vividas. 

Num dos capítulos do livro do capitão Johnson apareciam os nomes de duas mulheres, Mary Read e Anne Bonny, que integravam a tripulação do temível capitão John Rackam, que assolou os mares das Caraíbas por volta de 1720. De início, toda a gente pensava que neste relato o autor deixara à solta a fantasia, mas as duas mulheres piratas existiram mesmo. Johnson conta como ambas se defenderam em tribunal mostrando os ventres inchados. A justiça britânica não executava grávidas e foi assim que elas evitaram o enforcamento.

  

 

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Blogue da semana

por Joana Nave, em 21.09.14

Esta semana convido-vos a dar uma espreitadela neste blogue: R'ROOMM. É um projecto de uma amiga muito querida, que tem um bom gosto notável, o que aliado a uma escrita inteligente e criativa, o colocam na lista das minhas visitas frequentes. Deixem-se inspirar pelas imagens, pelas palavras, pelas ideias que encontramos nestes espaços virtuais, que acarinhamos como nossos. Boas leituras!

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Parabéns, Mr. Cohen! 80 anos e um novo disco

por Patrícia Reis, em 21.09.14

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Grandes romances (22)

por Pedro Correia, em 21.09.14

 

 

O INFRA-HOMEM

O Anão, de Pär Lagerkvist

 

Há romances que nos seduzem pelo tema, que desce como um bisturi às entranhas da natureza humana. Outros que nos capturam pela depuração do estilo. Outros ainda que nos surpreendem com uma personagem que jamais se dissolverá na nossa memória.

 

O Anão, de Pär Lagerkvist (1891-1974), torna-se inesquecível por tudo isto. Livro de um autor sueco, ambientado numa corte renascentista em Itália, encerra uma mensagem de projecção universal: constitui uma poderosa alegoria do mal, concebida num tempo de falência das utopias, quando o mundo vivia mergulhado no pesadelo da guerra.

Porque Dvärgen (nome original do romance em sueco) é inseparável do ano em que foi impresso pela primeira vez. Combatia-se com ferocidade em várias frentes de guerra no planeta, incendiado pela demência nazi. Estávamos em 1944 e, sabendo isto, é impossível não associarmos este anão -- figura central e quase exclusiva do romance -- a Adolf Hitler. Com os seus rancores atávicos, a sua feroz misantropia, o seu instinto predador, os seus impulsos homicidas.

Todas as páginas são preenchidas pela presença obsessiva deste ser menor, com apenas 66cm de altura e uma estatura moral equivalente à sua compleição física. Encontramos nela reminiscências do discurso hitleriano que por sua vez nos remetem para a retórica de Nietzsche, que Lagerkvist argutamente inverte: este anão, chamado Piccolino (pequenino, em italiano), é um infra-homem como o falso super-homem de matriz ariana, gigante às avessas, grande apenas na sua impiedosa eloquência que devolve à voz humana o grunhido da besta.

«Um povo sem chefe é apenas um miserável rebanho de carneiros» (p. 126) e «nada existe mais ignóbil do que um ser humano» (p. 113), rumina o insólito narrador deste original romance sem capítulos, escrito em forma de diário de indefinidos contornos temporais e imprecisas coordenadas espaciais. Estamos em Florença ou Milão, algures no Renascimento, muito provavelmente nas décadas iniciais do século XVI. As personagens laterais desvendam-se só como silhuetas descritas pelo olhar deformado de Piccolino, émulo de Maquiavel desprovido de qualquer grandeza. Abandonado à nascença pela mãe, acabou acolhido na corte, onde requintou o instinto de sobrevivência expresso nesta frase emblemática: «Um príncipe tem sempre necessidade do seu anão.» (p. 142)

Surge-nos o príncipe, moldado provavelmente em César Bórgia: «De boa vontade diria que é um grande homem, se pudesse ser grande para o seu anão: sigo-o constantemente como uma sombra.» (p. 7). E a princesa Teodora, pretexto para o narrador exibir uma reprimida e dissimulada misoginia: «Odeio-a, desejaria vê-la morta, vê-la a arder no fogo do Inferno, com as pernas abertas e as chamas lambendo-lhe o ventre repugnante. (...) Odeio todos os seus amantes. Tive sempre o desejo de me lançar sobre eles, com o punhal na mão, e de ver o seu sangue correr.» (pp. 7/8) E Leonardo da Vinci, aqui chamado Bernardo, fugaz relâmpago civilizacional nestas páginas que podem ler-se como um tratado sobre a origem do mal.

 

Lagerkvist, um agnóstico nostálgico da fé perdida, orgulhava-se de ter crescido num lar onde havia apenas um livro: a Bíblia. Como sucede com muitos escritores influenciados pelo dogma cristão, toda a sua obra funciona como uma peregrinação dos filhos de Caim às raízes do pecado original.

A originalidade deste curto romance -- o primeiro livro que lhe deu projecção universal e, tal como Barrabás (1950), contribuiu para que fosse distinguido em 1951 com o Nobel da Literatura -- deve-se em grande parte à invocação da deformação física como espelho da degenerescência moral, sem ocultar uma visão profundamente pessimista sobre o destino da espécie humana.

Desengane-se quem aqui vier em busca de vestígios do "bom selvagem", de Rousseau: Piccolino odeia sorrisos, detesta crianças, abomina qualquer forma de compaixão e sente uma visceral repulsa por qualquer indício de amor: «Nunca fiz a experiência daquilo a que chamam amor e não tenho qualquer empenho em experimentá-la.» (p. 75) Um dia a princesa "ofereceu-lhe" uma anã: deixou-o totalmente indiferente.

 

Parábola do totalitarismo, que devastou o mundo em que o autor viveu, O Anão é uma obra-prima intemporal. Porque disseca de forma exemplar os mecanismos do poder absoluto. Porque desvenda com mestria a face oculta da natureza humana. Porque é um assombroso ensaio sobre o servilismo e a solidão. E ainda por ser escrita com espantosa contenção verbal -- própria do poeta que Lagerkvist nunca deixou de ser, além de romancista, dramaturgo e ensaísta.

Esta característica torna ainda mais impressionante a narrativa de Piccolino, que se gaba logo no parágrafo inicial de ter assassinado um semelhante para se tornar «o único anão da corte», professa uma crença inabalável num Deus vingativo e sente um prazer quase orgástico ao ouvir troar os cavaleiros do Apocalipse que anunciam a peste, a guerra, a fome e a morte.

 

Lançado em Portugal em 1955, pela já desaparecida editora Estúdios Cor, este romance regressou no ano passado às nossas livrarias, com a marca de qualidade da Antígona, recuperando a excelente tradução de João Pedro de Andrade. Foi um dos acontecimentos editoriais de 2013 em Portugal, permitindo reencontrar um título imprescindível da literatura mundial há muito esgotado por cá. Um livro que devia ser lido por todos os aprendizes da política, actividade povoada de anões que oscilam do narcisismo mais exacerbado ao servilismo mais rasteiro.

 

Duma fresta do castelo onde vive, Piccolino espreita certa noite o cerco dos exércitos sitiantes com indisfarçável fascínio:

«Quase poderia descrever os rostos dos mercenários quando, sentados em volta dessas fogueiras, contam uns aos outros os sucessos do dia. Lançam algumas raízes de oliveira no meio dos ramos que ardem e, ao clarão oscilante das chamas, os seus traços revelam-se duros e enérgicos. São homens que talham por sua mão o próprio destino e não vivem no eterno temor do que lhes trará o dia de amanhã. Acendem as suas fogueiras em qualquer sítio e preocupam-se pouco com o povo que lhes proporciona aquilo de que vivem. Não se interrogam sobre qual o príncipe que servem -- no fundo não servem ninguém senão a si mesmos. Quando estão cansados, deitam-se de costas ao comprido, nas trevas, e dormem até à carnificina do dia seguinte. São homens sem terra, mas toda a terra lhes pertence.» (p. 129)

Mercenários de ontem e de hoje. Anões morais de sempre. Prontos a devastar o mundo como se não houvesse amanhã.

 

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Últimos textos desta série:

 

O Homem que Via Passar os Comboios - Fora dos carris

O Adeus às Armas - Frágil como o mundo

A Oeste Nada de Novo - Geração perdida

A Marcha de Radetzsky - O passado é um país distante

O Coração das Trevas - Quanto pior, melhor

O Fim da Aventura - Efémero amor eterno

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.09.14

 

 

Lições de Storytelling - Factos, Ficção e Fantasia, de James McSill

Lições de escrita criativa

(edição Topbooks, 2014)

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As canções do século (1725)

por Pedro Correia, em 21.09.14

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Eugénio de Andrade

por Patrícia Reis, em 20.09.14

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

 

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Bella per sempre

por Pedro Correia, em 20.09.14

 

Icona della bellezza italiana nel mondo, allora come oggi. Il tempo non conta, tanti auguri Sofia.

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Passos Coelho, o da má memória

por Rui Rocha, em 20.09.14

Pretende-se então esclarecer se o Dr. Passos Coelho, um dos mais extraordinários produtos da universidade de Verão do PSD, recebeu, ou não, uma determinada importância (ao que parece o equivalente a 150.000€) não declarada quando se encontrava a exercer funções de deputado em regime de exclusividade. Tal pagamento, a ter sido efectivamente realizado, constituiria a contrapartida, entre outros prestimosos serviços, da promoção de indispensáveis acções de formação para funções que não existiam em diversos aeródromos espalhados por este venturoso país fora. Perguntado sobre o recebimento da simpática remuneração que teria sido paga em confortáveis prestações mensais de 5.000€, o Dr. Passos Coelho respondeu "não ter presente todas as responsabilidades que desempenhou há 15 anos, 17 e 18". Deixando de lado o facto de aparentemente se recordar das exercidas há 16 anos, não pode deixar de sublinhar-se que o que está em causa não são propriamente as responsabilidades mas as contrapartidas financeiras que terão (ou não) sido recebidas. Não sendo a primeira vez que o caso Tecnoforma vem à praça pública, ou o actual primeiro-ministro é um idiota chapado, hipótese que não é de excluir para já, ou é evidente que já teria arranjado tempo na preenchidÍssima agenda para reunir informação e factos que lhe permitissem ter presente, a dias de hoje, se recebeu ou não tais importâncias. Eu, por exemplo, lembro-me sem grande esforço de não ter recebido 5.000€ em todos os meses da minha vida laboral em que não os recebi. Daí que uma resposta deste teor perante um caso desta natureza nos obrigue a colocar como possíveis apenas duas, e não mais, possibilidades. Ou o Dr. Passos Coelho é um idiota chapado com necessidade urgente, para além do mais, de tomar Memofante, ou tem o rabo trilhado. O que é certo, em qualquer circunstância, é que o Dr. Passos Coelho, não tendo presente se recebeu ou não o que não devia ter recebido, tem pouco ou nenhum futuro daquele resto que ainda lhe sobrava.

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Penso rápido (49)

por Pedro Correia, em 20.09.14

Regresso aos tempos em que lia três livros alternadamente. Com o prazer de sempre, mesmo perante obras consideradas menores. Incluo neste prazer algo muito específico: a releitura. Há livros que nos tocam de maneiras diferentes, consoante a época em que os lemos. Pensei nisto há dias, ao chegar novamente ao fim de um livro que me fascinou pela terceira vez. Como tenho há muito o hábito de assinalar nos próprios exemplares a data em que concluí a leitura, fui lembrar as duas anteriores inscrições: 31 de Maio de 1983 e 16 de Setembro de 2004. Lá deixei mais uma data: 11 de Setembro de 2014.

Os livros têm este dom: são fonte permanente de recordações. E devolvem-nos até memórias de factos, pessoas e lugares que a eles ficarão perpetuamente associados.

Prestes a terminar, este foi para mim um Verão de várias e estimulantes leituras, feitas sobretudo de reencontros com autores de que muito gosto: William Faulkner, Jack London, Ray Bradbury, Georges Simenon, José Cardoso Pires, Joseph Roth, Rubem Fonseca, Ernest Hemingway, Joseph Conrad, Erich Maria Remarque, Graham Greene. Dezasseis obras em três meses.

Lembro-me de ouvir um professor que tive aos 18 anos, na universidade, perguntar aos alunos num anfiteatro: "Os senhores leram muito? Espero bem que sim, pois a partir de agora lerão muito menos. Eu li o essencial dos livros que me formaram até aos 18 anos."

Penso pela enésima vez nesta frase que guardei na memória, tomando-a na altura pelo seu valor facial, e não posso deixar de sorrir perante a falta de capacidade de previsão daquele catedrático, pelo menos na parte que me toca.

A vida também é isto: sabermos desarrumar os ficheiros em que nos querem incluir os mais velhos e alegadamente mais sábios naqueles anos em que todas as páginas de quase todos os livros permanecem por abrir para cada um de nós.

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No caso do Iraque, é bastante evidente que a América não tem intenção de enviar tropas para o terreno, o que aliás seria um brinde oferecido aos radicais do Estado Islâmico (eles não querem outra coisa). O EI está a tentar perturbar o fluxo de petróleo, cuja produção se encontra sobretudo no Curdistão e no sul do Iraque, mas o radicalismo tentará também ser uma ameaça aos regimes autoritários da região. Até que ponto a monarquia saudita é estável? Os curdos continuam a controlar a parte mais apetecível do petróleo iraquiano e os pontos de saída parecem por enquanto seguros, mas os ocidentais estão claramente à defesa.

Os imperialistas ingleses da Era vitoriana diziam que não tinham aliados, mas apenas interesses. Os americanos deviam um dia deixar-se de grandes discursos sobre a defesa de alianças e dos valores da democracia e da moral, assumindo com simplicidade aquilo que sempre fizeram, que foi defender os seus interesses. Tentando perceber o que é conveniente para a América (e para o Ocidente), podemos analisar um pouco melhor os vários conflitos que se agravam no Médio Oriente. Tudo o que afecte o fluxo de petróleo terá de ser travado. Tudo o que enfraqueça o governo iraquiano de maioria xiita terá de ser evitado, pelo que Washington precisa de estabelecer uma comunicação com Teerão, que será cada vez mais um importante parceiro conjuntural. A Arábia Saudita é uma perigosa incógnita, como veremos porventura nas próximas peregrinações a Meca. Os regimes tradicionais da região devem encarar a radicalização com especial medo, o que implica não ser esta a melhor altura para falar em revolução árabe. E, no entanto, sem uma abertura nestes regimes, sem um pouco mais de justiça, o descontentamento das populações só alimentará os radicais. 

 

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Nós por cá

por Pedro Correia, em 20.09.14

Número de visitantes recebidos aqui no blogue nos últimos sete dias: 12.491. Média diária: 1784 leitores. Visualizações do DELITO DE OPINIÃO nos últimos sete dias: 21.089. Média diária: 3012.

Ficam os números, para nosso registo e para informação de quem continua a procurar-nos diariamente.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.09.14

 

 

Enquanto Dormes, de Alberto Marini

Tradução de Sérgio Coelho

Romance

(edição Planeta, 2014)

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Luz Vaga

por Patrícia Reis, em 20.09.14

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As canções do século (1724)

por Pedro Correia, em 20.09.14

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Outra explicação.

por Luís Menezes Leitão, em 19.09.14

Também estranhei a influência que a discussão sobre as consequências económicas e os riscos financeiros tiveram no debate sobre a independência da Escócia. Do Kosovo a Timor-Leste, e passando por todas as ex-repúblicas soviéticas, nunca vi que a economia tivesse algum peso na decisão dos eleitores de uma nação em escolherem a sua independência. No caso da Escócia não foi, porém, isso o que se passou, sendo esse um dos pontos essenciais do debate. Mas há uma explicação simples. Afinal este personagem não era escocês?

 

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Ljubomir Stanisic

por Helena Sacadura Cabral, em 19.09.14
O nome é difícil de pronunciar, mas mais difícil ainda é não ficar rendido ao programa de culinária que ele conduz no canal de cabo 24 Kitchen, que se chama Papa Quilómetros. Trata-se de Ljubomir Stanisic, considerado um dos Chef's sensação do momento. 
Depois do programa “Masterchef” e de ter lançado o seu próprio livro, oferece-nos agora na televisão um programa no qual não só investiga como descobre os segredos e as tradições das iguarias nacionais. 
Mas faz mais. Ao percorrer o país em todos os sentidos, presta um serviço digno de registo ao turismo nacional, já que confeciona as suas receitas quase sempre no meio natural, entre paisagens lindíssimas.
Com uma história de vida que, sendo curta – nasceu a 8 de Junho de 1978 em Sarajevo –, é ao mesmo tempo longa, porque começa num sonho de criança cuja musa é Rose, a sua mãe, que apesar de cozinhar batatas todos os dias, conseguiu fazer com que nenhum deles fosse igual ao outro. Quem sabe se não terá sido este o estímulo para a sua imparável criatividade?
Em Belgrado estudou na Universidade Popular Bazidar Adzila e inicia uma carreira que o levaria, no seu país, a sub chefe da Padaria e Pastelaria Skadarilija.
Mas a guerra leva-lo-ia a fugir e, depois de várias peripécias, a vir parar na tranquilidade do Gerês. Mais tarde encontraria Vitor Sobral, com quem fica até que, já bem mais seguro de si, decide forjar o seu destino, com um notável percurso pessoal e profissional, que acumula merecidos prémios.
Será no 100 Maneiras em Cascais que a sua carreira dá um salto e a página do livro da sua vida se vira definitivamente para o sucesso. Sabe internacionalizar-se e anda um ano inteiro com a família, numa auto caravana a tentar descobrir os segredos gastronómicos do velho continente.
Volta, abre mais dois restaurantes com o mesmo nome – o Bistrot e o Nacional - e torna-se um fenómeno televisivo ao qual a Fox International Channels irá, com o seu Papa Quilómetros, dar uma nova dimensão de internacionalização.
Para os amantes de cozinha, ver um estrangeiro falar a nossa língua como muitos de nós não falamos e a dar a conhecer a nossa história, a nossa gastronomia e o nosso país, é motivo de orgulho. E um prazer para quem, como eu, vê na confecção dos alimentos, uma forma de partilha de amizades.

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E o resto são peanurs

por Rui Rocha, em 19.09.14

 

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Um golpe baixo.

por Luís Menezes Leitão, em 19.09.14
Já tinha aqui escrito que o Não iria ganhar o referendo, devido à artilharia pesada que utilizou e que assustou os escoceses. Nunca pensei é que chegassem ao ponto de recorrer a um golpe tão baixo como este.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.09.14

 

 

As Velas da Noite, de Ana Teresa Pereira

Seis contos e uma peça de teatro

(edição Relógio d'Água, 2014)

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Uma boa notícia para a Europa

por Pedro Correia, em 19.09.14

 Foto Carol McCabe/Daily Telegraph

 

Os escoceses demonstraram a sua opinião sobre a fragmentação do Reino Unido, rejeitando-a num referendo em que participaram 84,5% dos cidadãos recenseados. Fizeram-no com indiscutível maturidade democrática. O Partido Nacional, embora derrotado nas urnas, obtém no entanto mais autonomia para a Escócia, o que é positivo e adequado à realidade.

Este processo -- como já tinha sublinhado aqui -- decorreu sem rupturas constitucionais, o que merece ser enaltecido. Todas as forças políticas conservam vias de diálogo e margem de progressão para fazer evoluir as suas teses. Porque um dos aspectos positivos nesta vitória do não é a possibilidade de fazer novos referendos. A vitória do sim seria sempre de sentido único: nunca mais haveria referendo algum.

Os nacionalismos que já ferviam de júbilo perante um possível triunfo das teses independentistas na Escócia vão arrefecer ligeiramente. E, de caminho, os seus arautos devem meditar nos motivos que levaram uma clara maioria dos eleitores a optar pelo não. Aliás valeria a pena fazer tal reflexão mesmo que o sim vencesse por curta margem.

Uma declaração de independência só faz sentido se estiver apoiada na vontade largamente maioritária do povo -- como sucedeu em Timor-Leste, por exemplo, no referendo de 1999. Num mundo globalizado, nenhum país é totalmente independente -- salvo, talvez, a Coreia do Norte. Em termos políticos, ou a independência é um projecto realmente colectivo -- disposto a enfrentar todos os riscos -- ou não é nada. Dite a aritmética das urnas o que ditar.

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 19.09.14

 

Kelly MacDonald

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Lição

por Patrícia Reis, em 19.09.14

32 Feminist Lessons for My Daughter

Posted: 09/16/2014 4:28 pm EDT Updated: 09/16/2014 4:59 pm EDT
MAUREEN SHAW

 

Being a parent has presented me with more challenges than I ever thought possible, both as a human being with finite patience and as a feminist. I struggle with how to raise a girl in a society that is replete with violence, rape apologia, attempts to thwart women's access to healthcare, unequal pay, racism, sexism and a plethora of other social ills.

I want my daughter to be aware of these realities and uphill battles without letting them beat her down or dilute her potential. So what's a list-loving feminist parent to do? Write a list of lessons, of course.

1. Having a vagina isn't a disability. It's a superpower.

2. In that vein, having a period isn't a curse. It makes you uniquely qualified to create and sustain life, if you so choose.

3. Speaking of choice, only you can/should make the choice of if/when you would like to become a parent. Sure, some day I'd like grandbabies, but if -- and only if -- you're ready to make 'em.

4. Your lady parts, while powerful, are not your only defining characteristic. You also have a brain, a sense of humor and a million other qualities that make you awesome.

5. Sex is for pleasure, too. It's not just for baby-making.

6. Safe sex is sexy sex. And by safe, I don't just mean rubberized. By safe, I also mean consensual, comfortable and emotionally safe.

7. It's never OK to judge someone based on perceptions of their outward appearance or identities -- this includes skin color, sexual orientation, gender identity, physical abilities, etc.

8. Knowledge is power. Read, engage in thoughtful discourse, question authority. You'll be a better person for doing so.

9. Be an ally, not a White Knight. Lend an ear, your support and compassion; don't try and "save" someone.

10. Understand that every person has a different story and background, and that each story and background has value.

11. Your jean size is just a number on a tag. It doesn't even begin to define your worth.

12. Neither does your bra size.

13. Love your body for what it can do, not for what it looks like.

14. I don't care if a guy buys you the most expensive dinner -- or jewelry, clothing, what-have-you -- on the planet. You owe him nothing.

15. Laugh and smile as often as possible, even -- hell, especially -- in the face of adversity.

16. Know your financial worth and advocate for yourself. Ask for that promotion, raise, lead on a project; no one else will fight for you.

17. Support other girls and women, don't demean or judge them. We need each other. Believe me.

18. Raise your voice -- but never your fists -- to demand justice for yourself and for others.

19. Vote. Seriously, vote. And not just in presidential elections, but in local and state ones, too.

20. Vote with your wallet, too. Support pro-choice, women-led, women-friendly businesses.

21. Travel whenever possible. Even if you can't physically travel to a far-off locale, read about it. Watch documentaries. Exposure to other cultures is paramount to building tolerance and understanding.

22. Use your [financial, racial, educational] privilege for good. You have resources and a voice that, for various reasons, will be heard louder than others'. It's your duty to use it to help others and to help stem oppression.

23. Having pretty eyes or silky hair is nice. But it's nowhere near as beautiful as having self-confidence and passion.

24. It's OK to like what your friends like -- if you genuinely like it, too. But don't be afraid to stand apart from the crowd and be passionate about something that isn't popular or "cool."

25. Never misconstrue sexual harassment or catcalling for compliments.

26. Yes means yes.

27. Just because you're a female doesn't mean you have to get married and have babies. It's not for everyone, and that's totally OK.

28. Don't apologize for the sake of apologizing. Women tend to say "I'm sorry" for the littlest offenses -- like, standing in a grocery store aisle when someone else wants to walk down it too. It's annoying and unnecessary.

29. Don't be afraid to be "bossy."

30. Have your own bank account. Financial independence is crucial for your well-being.

31. Only date pro-choice guys (if you're into guys). You deserve better than to be in a relationship with someone who thinks it's OK to tell you what you can/should do with your body.

32. This is a big one: never, ever, ever get complacent. You may have the right to vote, access to birth control and the ability to date who you want, but it wasn't always this way. Women fought and died for these rights you currently enjoy. And your generation has its own struggles carved out to fight.

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As canções do século (1723)

por Pedro Correia, em 19.09.14

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Sopro do coração

por Patrícia Reis, em 18.09.14

 Sopro do coração...Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (porque não) porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor
Mero gozo
Sorvedouro caprichoso

No sopro do coracão...
No sopro dom coracão...

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do corpo num turbilhão
Sopra doido
E o que foi do corpo alado nas asas do turbilhão
Nisto ja nem de ar precisas
Só meras brisas,
Raras
Raras
Raras

Corto em dois limão
Chego ao ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho

No sangue do coracão
Pulsar em vão
É bem dele
É bem isso
E apesar disso eriça a pele

No sopro do coracão...
No sopro do coracão...

 

Clã - Sopro do coração...Sim, o amor é vao
É certo e sabido
Mas entao (porque nao) porque sopra ao ouvido
O sopro do coracao
Se o amor é vao
Mera dor
Mero gozo
Sorvedouro caprichoso

No sopro do coracao...
No sopro dom coracao...

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do corpo num turbilhao
Sopra doido
E o que foi do corpo alado nas asas do turbilhao
Nisto ja nem de ar precisas
Só meras brisas,
Raras
Raras
Raras

Corto em dois limao
Chego ao ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho

No sangue do coracao
Pulsar em vao
É bem dele
É bem isso
E apesar disso erica a pele

No sopro do coracao...
No sopro do coracao...

 

Clã

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Em Portugal, o referendo pela independência na Escócia produziu análises diferentes das que encontramos na Imprensa internacional, que pareceu mais preocupada com as consequências da votação na vida dos escoceses e no futuro do Reino Unido. Por aqui choveram as críticas sobre a União Europeia, que estará à beira do colapso. Veja-se este texto de João Miranda, que coloca a questão ao contrário: os eleitores escoceses não votaram pela Escócia ou pelo Reino Unido, mas foram vulneráveis a um suposto interesse exterior. “A União Europeia tem interesse em enfraquecer os grandes Estados”, escreve o autor de Blasfémias, como se os Estados europeus que formam a UE tivessem algum interesse em enfraquecer-se a si próprios.

Neste texto no DN, Viriato Soromenho Marques compara a situação europeia ao império romano e à ex-Jugoslávia. As analogias históricas são sempre interessantes, mas não vejo como será possível usar estas duas. Roma era um império e a ex-Jugoslávia uma federação, a União Europeia não é uma coisa nem outra.

A Escócia pondera ou ponderou sair do Reino Unido, mas não se propõe sair da UE, pelo contrário, deseja permanecer (escrevo quando a votação terminou e o resultado ainda é desconhecido, mas o argumento funciona para os dois lados). A Catalunha quer sair de Espanha, mas não tem qualquer intenção de abandonar a União. O mesmo se pode dizer da Flandres e das outras regiões nacionalistas que em breve serão micro-Estados.

A fragmentação política na Europa está provavelmente no futuro, mas ligada à elevada sensação de segurança dos europeus. Os escoceses não sentem qualquer ameaça externa e acreditam que se podem tornar numa espécie de país escandinavo. Se houvesse uma ameaça, ninguém votaria a favor da separação. Dizer que o problema está na Europa parece ser uma conclusão contrária aos factos. É precisamente o oposto, ninguém quer perder o acesso a um mercado gigantesco e à livre circulação de bens e capitais. Isto também não é uma conspiração de Bruxelas contra o Estado-nação, pelo contrário, as nações europeias podem existir de muitas formas e existem também sob a forma União Europeia, que pertence aos Estados que a compõem.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 18.09.14

«As nações, os Estados, e os regimes não são assunto ao nível do governo ou da política económica. Mudar de governo é uma coisa, mudar de país é outra. Se uma separação escocesa reflectir simplesmente o desagrado com o actual primeiro-ministro, como Cameron receia, ou a ilusão welfarista inspirada pelo Mar do Norte, isto significa que, no caso da Escócia, uma elite política dividida e confusa expôs o que era património da história e reservatório de princípios ao acaso dos humores e demagogias de um momento eleitoral. Não haverá talvez melhor exemplo do fracasso das actuais lideranças políticas no Ocidente.»

Rui Ramos, no Observador

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Aye!

por André Couto, em 18.09.14

#decisionday #referendum #yesscotland

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.09.14

 

Portugal, Esse Desconhecido, de João César das Neves

Ensaio

(edição D. Quixote, 2014)

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Sabemos hoje que Marte é um planeta inóspito e deserto, com uma superfície avermelhada devido à presença de óxido de ferro e com atmosfera demasiado fina para conseguir captar calor. Distante do Sol em média 50% mais do que a Terra, as suas temperaturas são extremamente baixas e nos pólos chegam a ser inferiores ao ponto de congelação do dióxido de carbono (-190 graus centígrados). A fraca densidade da atmosfera marciana é um mistério, talvez efeito da extinção do campo magnético que permitiu a acção dos ventos solares, havendo a possibilidade de um impacto catastrófico ter arrancado uma fatia da antiga atmosfera.

O quarto planeta do sistema solar tem exercido forte fascínio. Observado já pelos egípcios e gregos, foi baptizado com o nome do deus da guerra dos romanos. Na Era Moderna, houve gerações de astrónomos que tentaram desvendar os seus segredos, mas no final do século XIX uma falsa descoberta excitou a imaginação do mundo científico, contaminando de forma irreversível a cultura popular. Em 1877, houve excelentes condições para a observação do planeta Marte. Foi nesse ano que se descobriram dois pequenos satélites, Deimos e Fobos (Terror e Medo) que serão possivelmente asteróides capturados pela força da gravidade do planeta. Nesse mesmo ano, um eminente astrónomo do Observatório de Milão, Giovanni Schiaparelli, descreveu o que lhe pareciam ser “canais” na superfície marciana. Schiaparelli fez desenhos pouco detalhados onde havia zonas escuras, a que chamou mares, e zonas claras, que denominou continentes. E, entre os dois, aquilo a que chamou “canali”, linhas finas que pareciam ligar as diferentes zonas.

  

 

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As canções do século (1722)

por Pedro Correia, em 18.09.14

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As canções do século (1722-bis)

por Pedro Correia, em 18.09.14

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A independência da Escócia.

por Luís Menezes Leitão, em 17.09.14

 

Não acredito na vitória do Sim no referendo de amanhã, em virtude da artilharia pesada utilizada nos últimos dias pelos defensores do Não, sendo que até a Rainha, quebrando a sua tradicional neutralidade, decidiu fazer campanha nesse sentido. Tal não significa, no entanto, que não tenha simpatia pela proposta de independência escocesa, até pelo paralelo com a independência portuguesa. Na verdade, Portugal nunca perdeu a independência, uma vez que houve apenas uma união pessoal, com o Rei de Espanha a ser a partir de 1580 também Rei de Portugal. Na mesma altura, Jaime VI, Rei da Escócia desde 1567 adquire a coroa inglesa  em 1603, ocorrendo também uma união pessoal das duas coroas, mas com os reinos a manterem-se separados. A partir de 1707 Escócia e Inglaterra formaram o Reino da Grã-Bretanha, passando a união pessoal desses reinos a uma união real, com a formação do Reino Unido. É o que teria a sucedido a Portugal se em 1 de Dezembro de 1640 um grupo de patriotas não tivesse expulsado o monarca espanhol, data que este governo vergonhosamente proibiu que fosse celebrada. Se a Escócia se tornasse amanhã independente, só se estaria assim a corrigir uma injustiça histórica, que Portugal conseguiu a tempo evitar.

 

A Escócia tem todas as condições para ser independente. Tem recursos naturais, uma economia estável, um bom sistema de segurança social e uma população qualificada. A dissolução da Jugoslávia demonstra, por outro lado, que não são os opositores da independência que a conseguem travar quando os povos querem seguir o seu próprio destino. A Croácia e a Eslovénia foram envolvidas numa guerra civil e isso não foi motivo para prescindirem da sua independência. O argumento de que a União Europeia rejeitaria a entrada da Escócia é perfeitamente ridículo. A Escócia está na então CEE desde 1973 e é evidente que ninguém se atreverá a rejeitar a sua entrada quando se admitiu a Croácia e a Eslovénia. E mesmo que rejeitasse, só a União Europeia é que perderia com isso, dado que a Escócia ficaria em posição similar à da Noruega, que demonstrou que se pode viver perfeitamente fora da União.

 

É por isso que, embora me palpite que a artilharia dos últimos dias vai levar o Não a ganhar por larga margem, compreendo perfeitamente os apoiantes do Sim. Outro dia encontrei um escocês que me garantiu que ia votar Sim, pois achava que era uma oportunidade histórica, que só tinha surgido uma vez em 300 anos, e que por isso não poderia ser desperdiçada. Tive que concordar com ele.

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Frases de 2014 (24)

por Pedro Correia, em 17.09.14

«Salário de 4.800 euros não permite padrões de vida muito elevados em Lisboa.»

António Marinho Pinto

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1

Dois espectros percorrem neste momento a Europa: o do nacionalismo e o da demagogia populista. Quando ambos germinam de mãos dadas, estamos num quadro de tempestade perfeita.

É neste quadro que deve ser lida a pressão centrífuga em várias regiões europeias. Desde a que se desenrola na ponta dos fuzis, no extremo oriental da Ucrânia, até ao processo independentista em marcha acelerada na Catalunha, pronto a fragmentar o Estado espanhol.

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

O próximo teste sério à unidade europeia ocorrerá amanhã, quando os escoceses forem às urnas num referendo sobre o destino do Reino Unido que vai acendendo paixões políticas um pouco por toda a parte. Porque noutros povos europeus não falta quem pretenda trilhar a via da Escócia, rumo à independência.  

 

 

2

Há que fazer um ponto prévio: este é um processo exemplar a vários títulos. Desde logo por ter cumprido todas as etapas legais, em consenso com o conjunto dos órgãos de soberania britânicos, sem rupturas constitucionais. Também é modelar pela moderação do Partido Nacionalista Escocês e do seu líder: Alex Salmond reivindica a independência, mantendo no entanto a Rainha Isabel II como Chefe do Estado e a libra como moeda, integrada numa hipotética “zona esterlina”.

Uma Escócia independente, embora sem cortar os laços financeiros com o Banco de Inglaterra e a City londrina, teria de sujeitar-se a um processo de adesão à União Europeia a partir do zero, sujeitando-se aos humores não só da classe dirigente britânica mas também de todas as capitais que receiam ver no precedente escocês o prenúncio de turbulências dentro das próprias fronteiras.

Está fora de causa a capacidade autonómica de uma Escócia sem amarras políticas com Londres. Os escoceses possuem 60% das reservas petrolíferas da União Europeia, com capacidade para produzir 24 mil milhões de barris nas próximas três décadas. E só a indústria do whisky gera quatro mil milhões de euros por ano em exportações. Mas os impostos aumentariam, tal como os custos de bens e serviços, e o investimento externo sofreria uma redução de dimensões imprevisíveis.

«Muitos de nós fazemos opções patrióticas no acto de comprar. Adquirimos salmão escocês ou carne escocesa em vez de salmão da Noruega ou carne da Irlanda, porque gostamos de apoiar a nossa economia. Mas se a Escócia se tornar um país estrangeiro, essa motivação desaparecerá», observa Robert Peston, editor de economia da BBC.

 

 

3

Salmond pretende transformar a Escócia numa nova Noruega: este é o apelo mais tentador do nacionalista que sonha ver a bandeira com a cruz de Santo André em fundo azul hasteada em Edimburgo, como símbolo do novo Estado independente, a 24 de Março de 2016.

A decisão está nas mãos dos eleitores, incluindo 125 mil novos inscritos, com 16 e 17 anos, maioritariamente inclinados para a independência -- enquanto os mais velhos preferem manter o statu quo. Uns e outros decidirão amanhã prolongar ou interromper um ciclo histórico iniciado em 1603 com a agregação dos dois reinos (inglês e escocês) numa união dinástica sob a mesma coroa, envergada por Jaime VI da Escócia (Jaime I de Inglaterra), e prosseguido em 1707, quando ambos os parlamentos ratificaram o nascimento da orgulhosa Grã-Bretanha, hoje o 11º maior Estado da Europa.

«Trezentos anos de experiência comum, na guerra e na paz, em maus e bons tempos, serão atirados para o caixote de lixo da história – e para quê, exactamente? Para que os escoceses passem a ter assento no Conselho Europeu, ao lado da Eslovénia e da Eslováquia?», questionava há dias Simon Schama no Financial Times. Lembrando dois escoceses mundialmente conhecidos que também integram o património intelectual inglês: Adam Smith e David Hume. Ambos, admite este prestigiado colunista, votariam “não” à independência no referendo de amanhã.

 

 

4

Julgo que essa acabará por ser a opção maioritária dos escoceses, contrariando a opinião de figuras mediáticas como o actor Sean Connery e a cantora Annie Lennox, e a tendência revelada nas mais recentes sondagens. Num mundo interdependente como o actual, isso representaria uma boa notícia para o conjunto da Europa. E uma péssima notícia para alguns incendiários que pretendem arvorar o nacionalismo radical como a novidade do momento em locais tão diferentes como a Flandres, a Córsega, a Padânia e o País Basco.

Parece novidade, mas não é: nenhuma bandeira ideológica é tão velha  e tão pervertida como esta.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.09.14

 

 

A Última Dama do Estado Novo, de Orlando Raimundo

Investigação histórica

(reedição D. Quixote, 3ª ed. revista e aumentada, 2014)

"O autor escreve de acordo com a antiga ortografia"

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A votação sobre a independência da Escócia mostra os perigos do referendo. É fácil que um debate seja captado por populistas, por interesses limitados e por ideias delirantes. Muitos eleitores votarão por não gostarem do governo conservador britânico. Julgando escolher a independência, tentam assim castigar um partido, afectando profundamente a vida de pessoas sem direito a voto.

Num referendo, as duas opções nunca são iguais nas suas consequências: neste caso, o sim à independência será irreversível (nem que seja por um voto), enquanto o “não” pode ser desafiado dentro de cinco a dez anos, sobretudo se houver diferença mínima. As sondagens indicam votação equilibrada, com tendência para o “não” à independência, logo estamos perante um exemplo do poder crescente do populismo e da fragmentação política na Europa.

Há outro aspecto relevante: como é que uma região da UE se transforma num país da UE?  A Escócia terá um óbvio problema de moeda, pois precisa de negociar a permanência na libra ou a adesão ao euro. Quanto tempo levará a transição? Que parte da dívida britânica ficará na Escócia? Os maiores obstáculos estarão na integração europeia, pois a Escócia precisará de negociar a partilha de poder (comissário, eurodeputados, assento no conselho, funcionários, legislação) e isso terá de ser ratificado por cada Estado-membro da UE. Por exemplo, o Reino Unido perde eurodeputados ou haverá aumento no número global e todos perdem? É irónico: os escoceses votam pela independência e terão de iniciar de imediato uma partilha de soberania.

Em caso de acabar o Reino Unido, o referendo será estudado de perto por catalães e flamengos. Caso o futuro corra mal, a votação funcionará como vacina para outros soberanistas. A democracia europeia tem esta evidente vantagem, permitindo que decorram várias experiências em simultâneo, umas servindo de modelo, outras de aviso.

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"Advogados já conseguem introduzir novas acções no Citius, mas ninguém sabe onde vão parar" - Público

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Por este andar, já só falta quererem que Marinho Pinto ande de Clio.

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