«Nunca se sabe como tratar uma mulher.»
Ernest Hemingway, As Torrentes da Primavera
Edição Livros do Brasil, Colecção Miniatura. Tradução: Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres.
O cliché é uma ferramenta inestimável para entendermos melhor o mundo. Ele mostra aquilo que persiste na memória e no olhar dos outros em relação a nós.
Este “nós” pode ser um alemão, irritado pela forma como o “outro”, por exemplo um português, olha para ele: um tipo autoritário e escrupuloso, hirto nas emoções, bebedor de cerveja, sem sentido de humor.
Seja então o “nós” um português que tenha acabado de ler o modo como a revista “Time” salienta os pontos “interessantes” (outro adorável cliché) de Lisboa na sua secção “travel”.
A “Time” é uma gloriosa sucessão de clichés, sob o formato de news magazine, ou seja, pretende informar com “interesse” quem esteja disponível para a leitura durante o shuttle aéreo entre Londres e Paris. Nada disto merece reparo até porque é tecnicamente irrepreensível, tanto o alvo (a classe média/alta europeia) como o critério editorial (os temas “importantes” – cliché! – da semana), como o ponto de vista (neutro, urbano, sintético, escrito com extraordinária eficácia, quer no que respeita à clareza, quer no que toca à elegância).
Sobre Lisboa a “Time” tudo faz para seduzir o seu leitor a dar um saltinho de fim-de-semana a esta cidade periférica, suficientemente exótica para prometer romantismo e suficientemente civilizada para não que não se desconfie da higiene das saladas. Lá está o rosário de clichés, pintados com cores amáveis e atraentes: os pastéis de nata, os Jerónimos, o bacalhau, o vinho do Porto, o eléctrico 28, a Brasileira, a Ler Devagar.
Só que a meio de tão branda prosa salta um cliché, absolutamente verdadeiro, mas verdadeiramente penalizante para o nosso orgulho nacional que vivendo de ilusões, não passa de prosápia: “… the eternal statue of famed local poet Fernando Pessoa.” Sim “local”, quer dizer: paroquial, pitoresco, curioso, interessante, lá está…
O problema é a “Time”? Não o problema somos nós. Somos de facto paroquiais e pitorescos, gastamos toda a energia às palmadas uns aos outros, ora na cara ora nas costas, e somos incapazes de olhar para lá de Badajoz e trabalhar muito, muitíssimo, para que fosse outro o cliché acerca de Fernando Pessoa.
(regressei. habitualmente regresso sempre. não reli este texto. perdoei-me qualquer coisa. sou apenas mortal)
Deveria haver um compartimento no nosso corpo reservado apenas para a saudade. Não teria de ser grande, porque a saudade no geral já é algo que aperta. Aperta o coração.
Deveria ser proibido sentir uma angústia que não se pode resolver. Proibido não por lei constitucional, mas por alguma regra incutida na infância. Sei lá. Deveria chegar-nos uma carta em casa com um comprimido que resolvesse esse nó.
Deveria ser possível fechar os olhos e encontrarmo-nos com pessoas em sonhos. Num mesmo sonho. Ao invés de sonharmos com alguém que, por sono pesado ou morte prematura, não se lembra do que sonhou.
Deveria ser fácil gostar das pessoas. Na realidade, é. Mas tal como sucede com todos esses outros "simples" sentimentos, complicamos um pouco, sofremos um pouco. Talvez para moldarmos os nossos caminhos mortais um pouco mais à semelhança das trágicas epopeias gregas.
Deveria ser tudo perfeito. Mas o “quase” é a palavra que mais se adequa ao ser humano. A única coisa “total” é o sentimento. Não se pode “quase” sentir.
No fundo, os nossos sentimentos são a única coisa que fazem de nós deuses. Mesmo que apenas por um segundo. E as palavras dos outros fazem de nós mortais. Porque não as podemos controlar.
Alguém me explica a lógica desta decisão depois de todas as medidas restritivas anteriormente tomadas? Se há rendimentos de trabalho é porque há trabalho. Se há subsídio de desemprego é porque não há trabalho. Ou apenas trabalha quem tem emprego?!
- Admito: fui beneficiada em vários aspetos.
- Conhecendo-te como te conheço, não me admira nada.
Há os países que se vão lixar por estarem sobreendividados. Há os países que se vão lixar por se estarem a sobreendividar. Há os países que se vão lixar por andarem a alimentar o sobreendividamento dos países mencionados nas duas frases anteriores. Há os países que se vão lixar porque vivem de vender petróleo ou gás natural aos países mencionados nas três frases anteriores. E há a Coreia do Norte.
Para a Primavera/Verão, ver cor(es) do vestido da Sharapova no Open da Austrália (finais de Janeiro).
Para o Outono/Inverno, ver cor(es) do vestido da Sharapova no Open dos Estados Unidos (finais de Agosto).
Ao Ainda que os amantes se percam.
Carlos Fuentes. Sangravam-lhe os dedos quando escrevia, para mais quando o fazia sobre o México. Era inovador, ousado, corajoso. Leiam o Adão no Éden, acabado de editar entre nós e vejam pelos vossos próprios olhos. Era um escritor comprometido com o seu mundo, que é também o nosso. Topava os esquemas e arrancava máscaras, e isso a reinventar sempre a escrita. Esta noite olho para a minha estante e não me apetece ler sequer. Acho que vou sair e beber um copo. A ele.

A notícia é de ontem e não deve ter escapado à maioria dos portugueses: Portugal passou a ser o quinto maior exportador mundial de tomate concentrado. Ou seja: já não nos chegava o lodo em que estamos enterrados, para agora sermos vítimas deste cenário tão incómodo. Concentrado, ainda por cima. E o que isto agrava, senhores, as nódoas nacionais? Livra!
Na verdade, quem cala normalmente discorda mas laborar com base na outra versão é mais simples para ambas as partes.
A primeira Feira do Livro de Lisboa foi realizada no Rossio, em 1930
Viagem a Berlim do recém-empossado Presidente francês começa mal: avião foi forçado a regressar a Paris após ter enfrentado uma fortíssima tempestade.
- Mas tu há um ano estavas cheio de dinheiro! Até compravas ações.
- Pois, vê lá. Agora até já tive que mandar descontar uma letra.
«Como é que alguém consegue governar um país que tem duzentas e quarenta seis variedades de queijo?»
Charles de Gaulle
Dados macro-económicos da França que François Hollande herda de Nicolas Sarkozy:
- crescimento médio do PIB entre 2009 e 2011: 1,5%
- crescimento do PIB em 2012 (previsão): entre 0,4% e 0,7%
- desemprego: 10,1%
- défice público: 5,2% do PIB
- dívida pública: 83% do PIB
Promessas eleitorais de Hollande:
- renegociação do tratado orçamental
- redução em 30% dos salários do Presidente e dos ministros
- equilíbrio orçamental em 2017 (défice zero)
- introdução na Constituição do princípio da concertação social
- concessão do direito de voto aos cidadãos estrangeiros provenientes de países extra-comunitários
- actualização do salário mínimo, indexado ao crescimento do PIB
- criação de 150 mil empregos para jovens: "contratos de geração"
- incentivos fiscais às empresas que contratem pessoas com menos de 30 anos e mantenham nos seus quadros pessoas com mais de 55 anos
- criação de 60 mil postos de trabalho no sector da educação público da educação e cinco mil na justiça durante os próximos cinco anos
- diminuição da idade de reforma para 60 anos quando houver 41,5 anos de descontos
- reforma fiscal: novo escalão de 45% para rendimentos acima de 150 mil euros e de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros por ano
- taxa de IRC de 35% para grandes empresas, 30% para as médias e 15% para as pequenas
- renegociação dos acordos com Bélgica, Suíça e Luxemburgo que permitam cobrar impostos aos exilados fiscais
- reforma bancária, criando um banco público de investimento separado da banca comercial
- maior regulação do sistema bancário
- proibição de envolvimento da banca francesa em paraísos fiscais
- aumento de 15% do imposto sobre os lucros bancários
- congelamento durante três meses dos preços dos combustíveis e do gás
- redução da componente nuclear da produção de energia eléctrica dos actuais 75% para 50%
- manutenção do Estado nos sectores postal, dos transportes e da energia
- redução do preço dos medicamentos e maior comparticipação de genéricos
- redução para metade da taxa do insucesso escolar
- casamento entre pessoas do mesmo sexo, com reconhecimento do direito à adopção
Fica o registo. Para dentro de um prazo razoável verificarmos quantas destas promessas foram cumpridas - e em que termos. Cada vez mais os políticos devem ser confrontados entre o que propõem aos eleitores e aquilo que são capazes de concretizar assim que ascendem ao poder.
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Um transporte como deve ser pode fazer-nos sentir em casa...
Depois da notícia arrasadora, o homem obrigou-se a subir os dezanove lanços da estreita escada de serviço, sem uma única paragem. Pelo contrário, foi aumentando o ritmo da escalada até ficar quase sem fôlego. Precisava de se aturdir, de dar ao coração uma outra razão para bater como uma bomba em contagem decrescente. Mas não bastou. Chegou ao topo com vontade de recomeçar tudo, uma e outra vez, até... Espreitou o elevador. Desceria nele e retomaria a marcha penosa da subida quantas vezes fosse preciso. Havia de conseguir ter paz. Mas o elevador estava no rés-do-chão, podia ver-lhe o tecto no fundo do fosso imenso, escuro. Hesitou um segundo, não mais. E foi por ali mesmo que desceu, afinal.
A Fnac enviou-me um bonito cartão plastificado. Chama-se «cartão Fnac Rock in Rio Lisboa 2012» e garante-me o extraordinário desconto de 5% na aquisição de um bilhete para o referido evento. Promoções em que o nível de pompa está vários graus de grandeza acima do de generosidade deixam-me sempre a pensar se conseguirão gerar receitas suficientes para compensar os custos. Visto continuar a recebê-las, presumo que sim. Esta teve pelo menos o efeito positivo de me levar a olhar para o cartaz do Rock in Rio deste ano (vem na carta) e a comprovar uma ideia já antiga: o Rock in Rio é um festival para ouvintes da RFM e da Comercial; para gente que gosta de dizer ainda apreciar música rock (o termo é importante, numa época em que o rock está mais ou menos morto) ao ponto de até continuar a ir a concertos mas que, na realidade, se encontra entalada na porta de passagem da década de oitenta para a de noventa do século passado. Repare-se: Metallica, The Offspring, Lenny Kravitz, Ivete Sangalo, Stevie Wonder, Bryan Adams, Bruce Springsteen, Xutos & Pontapés, James. Não estou a dizer que toda esta gente é má. Inclui até pessoas que muito prezo. Por exemplo: gosto tanto de Bruce Springsteen que o fui ver a Valladolid em 2009; por alturas de And Justice For All e do Black Album chateei tanto colegas de universidade com gostos a tender para o Phil Collins fazendo-os ouvir Metallica que dois pediram transferência para direito (mentira, já lá andavam e era por isso que eu achava justo chateá-los); tornei-me fã dos Smashing Pumpkins aquando de Gish, o primeiro álbum deles, numa época em que raros eram os que desviavam olhos e ouvidos dos Nirvana e dos Pearl Jam (convenhamos, todavia, que, por muito que o Billy Corgan seja quase tão bom quanto ele pensa ser, os Smashing Pumpkins sem James Iha, D'Arcy Wretzky – desculpa, Melissa – e Jimmy Chamberlin não são os Smashing Pumpkins); e também ainda me lembro de um fantástico concerto que os James deram no Coliseu do Porto há cerca de dez anos. É a acumulação que impressiona. Não seria possível misturar este pessoal (ou parte dele, porque de outra parte nem vale a pena falar) com gente mais recente? Eu sei que a última década não foi pródiga no nascimento de grandes bandas capazes de agradar ao público em geral (coisa linda, o público em geral). Culpa da internet e do carácter cada vez mais efémero da fama, certamente. Mas ainda se arranjam algumas. Imagino que após grande esforço mental, os organizadores do Rock in Rio até conseguiram lembrar-se dos Kaiser Chiefs, colocados a abrir o palco «Mundo» na única noite que poderia levar-me a gastar dinheiro neste mastodonte para quarentões (a faixa etária em que o bilhete de identidade me coloca, note-se). Mas ficaram por aí. Melhor ainda: em vez de misturar, porque não organizar uma noite (uminha só) com música mais recente e alternativa? Não, desculpem, esqueçam. Era capaz de gerar confusões com um festival a sério, como o Super Bock Super Rock – esse sim, quase me convence a fazer trezentos e tal quilómetros para ficar a cinquenta metros de um palco respirando pó, fumo de haxixe e transpiração (ora comparem). Provavelmente é mais seguro assumir uma linha e mantê-la. Permitam-me, então, que dê umas sugestões à Roberta Medina para a edição de 2014: miúda, tenta conseguir os Beatles (sshhh – vocês acham que ela sabe que os Beatles se separaram?), junta o Roberto Carlos e o Júlio Iglésias numa noite gloriosa e, quanto ao recinto, instala cadeirinhas e duplica o número de casas de banho, que a idade não perdoa.

Aqui.
À Ira Lusa.
Gasta que está a palavra 'excepções', o governo resolveu adoptar à maneira de Orwell uma outra expressão: 'adaptações'. As 'adaptações' são 'excepções' mas dá menos nas vistas dizer 'adaptações' e até é mais bonito. Pode ser que o povo engula. Fiquem pois a saber que "no corte salarial aos trabalhadores, uma medida que reduziu os salários entre 3,5% e 10% em 2011 – mas que foi mantida este ano –, também há «adaptações», segundo a expressão utilizada por membros do Governo. Em três empresas, está a ser seguida esta opção. Quem trabalha na CGD, na TAP e_na SATA vai receber o seu ordenado por inteiro este ano, sem os cortes médios de 5% para todos os trabalhadores do Estado que recebem mais de 1.500 euros mensais. Só na TAP e no banco público – os dados da SATA estão indisponíveis – esta alteração agrava a factura anual com os trabalhadores em cerca de 66 milhões de euros. Esta subida terá de ser compensada com cortes equivalentes noutras áreas." Por mim fazia-se já uma 'adaptação' neste governo de 'excepção'. Quem engana o eleitorado não merece respeito a não ser que seja em Singapura.
Vinte e quatro anos depois, a França - o país da Europa que pensa mais à esquerda e vota mais à direita - voltou a eleger um presidente socialista. François Hollande derrotou um desgastado Nicolas Sarkozy por escassos três pontos percentuais, inferiores ao que prediziam todas as sondagens.
Sarkozy, que pela sua natureza e pelas suas atitudes tem pouco a ver com os conservadores clássicos, repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade. Mas também é certo que o país tem um nível de desemprego preocupante e as taxas oficiais de crescimento não revelam - longe disso - uma economia dinâmica, o que ajuda a dar asas ao discurso demagógico e populista de Marine Le Pen, a dirigente da Frente Nacional que ambiciona liderar a direita francesa.
No digno discurso em que reconheceu a derrota, na noite de 6 de Maio, Sarkozy destacou a força das instituições democráticas que permitem uma alternância tranquila no poder. A vitória de Hollande projecta-se para fora das fronteiras da Europa com a força de um símbolo numa região do mundo onde a esquerda tem sido duramente penalizada nas urnas desde que eclodiu a crise dos mercados financeiros.
Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe.
A economia francesa não está bem. Mas a política mantém-se de boa saúde e recomenda-se. Prova disso foi a grande afluência eleitoral: mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto na segunda volta das presidenciais.
Uma boa notícia para a União Europeia, que está tão carente delas. E uma responsabilidade acrescida para o novo inquilino do Eliseu, que amanhã toma posse. O seu primeiro passo como Presidente é significativo: voa de imediato para Berlim, onde será recebido por Angela Merkel.
A política vive muito de símbolos. Este é tão forte que fala por si. De forma mais expressiva do que todas as torrentes de retórica em que a França sempre foi fértil. Como costumava dizer o general De Gaulle, "nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens - e os homens só se engrandecem quando estão determinados nisso".
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António Seguro garante que é a cara do emprego. Isto preocupa-me. Confesso que vi o emprego poucas vezes. E há muito tempo. Mas estava capaz de jurar que tinha um aspecto muitíssimo diferente. Por isso, das duas uma. Ou sou mesmo um péssimo fisionomista e não o consigo reconhecer quando dou de caras com ele, ou Seguro não se tem visto ao espelho. Nenhuma das alternativas é, convenhamos, muito agradável. Em todo o caso, uma coisa é certa. Se Seguro tiver razão, está na cara que se trata de emprego precário.
Tal como se esperava, logo depois da tomada de posse (que terá lugar amanhã), as temperaturas começarão a baixar, estando previstos, inclusivamente, alguns aguaceiros mais lá para o final da semana:
A crise europeia afecta todos os países da região, todavia de dois modos altamente distintos. Nos países pobres, naqueles em que há uma crise a sério, o voto de protesto faz-se, como seria de esperar, nos partidos extremistas, de esquerda ou de direita. Nos países ricos, naqueles em que a crise é branda, esse mesmo voto é, hoje em dia, tendencialmente atraído pelos partidos capazes de abrir uma janela para lá do tédio da política tradicional. Por um lado aqueles que representam uma rejeição simplista aos políticos tradicionais (considerados aborrecidos, previsíveis, mentirosos). Por outro, em alguns casos (como a Holanda), partidos extremistas de direita, que culpam os incomodativos imigrantes. Por outro ainda aqueles que apresentam um leque de propostas assaz reduzido, centrado nas preocupações de uma classe média incomodada, mas bem instalada (disso é exemplo o Partido Pirata).
Os países do centro e norte da europa vivem, cada vez mais, a segunda realidade. Na Grécia, a primeira começa a instalar-se, com consequências ainda imprevisíveis. Portugal, se excluirmos o “candidato Coelho”, tem escapado relativamente incólume a qualquer um daqueles casos. O futuro, porém, não é garantido, e um adensar da crise pode dar força aos partidos dos extremos, mesmo no centro e norte da Europa.
Quem tem fome não vota em partidos de protesto, vota em partidos de acção.
Traição
“Oh, as if you had no choice? There's a moment, there's always a moment, «I can do this, I can give into this, or I can resist it», and I don't know when your moment was, but I bet there was one”.
A traição não nos acontece. Nós é que a chamamos, primeiro ao de leve, como quem finge que não quer, depois quase aos berros, como quem finge que resiste. Ainda que dependa da oportunidade, a traição é sempre um exercício de vontade. É por isso que, nesse momento em que nos sabemos presos, apenas nos resta abraçar a liberdade do arrependimento. Só ele respeita a traição enquanto aquilo que ela é: uma opção.
Este Primeiro-ministro conseguiu um feito único: ser o Primeiro-ministro mais vaiado em menos tempo de governação e digamos que em termos de comunicação difícil é pior. Alguém que o aconselhe que o rapaz anda desgovernado. Como nós, de resto. Vem isto a propósito da vaia com que foi brindado ontem na Feira do Livro. Segundo se noticia aqui, o PM iria numa visita particular acompanhado pelo Secretário de Estado da Cultura e pelo Secretário-geral da APEL. Câmaras não faltaram para noticiar o acontecimento e depois foi-se no automóvel oficial. Estranha 'visita particular'.
«O que vemos no Eurobarómetro é que a confiança dos cidadãos nos dirigentes políticos está a descer. É um enorme perigo. Porque, se não há a confiança dos povos nos seus dirigentes nacionais e europeus, a democracia não pode funcionar. A resposta que dou é essa: voltemos a falar com os cidadãos. Porque não o fazemos há anos, essa é que é a verdade.»
Viviane Reding, vice-presidente da Comissão Europeia e comissária responsável pela Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania, em entrevista ao Público
Segundo o Wall Street Journal, as perdas do JPMorgan estão relacionadas com uma operação específica deste banco, que tinha como objectivo protegê-lo do risco na Europa.
Foi pensada por Ina Drew, directora de investimentos que trabalhava há trinta anos para aquela instituição, que é, em termos de activos, o primeiro banco norte-americano.
Na quinta-feira, Jamie Dimon, director executivo do JPMorgan, assumiu ter perdido nas últimas seis semanas mais de dois mil milhões de dólares em transacções de mercado. Este valor ainda poderá aumentar devido a investimentos de risco em derivados de crédito.
Ina Drew apresentou, por várias vezes, em Abril, a sua demissão. Contudo ela só seria aceite agora, depois de conhecidos os crescentes prejuízos. Outra possível baixa será a de Bruno Michel Iksil, operador francês do JPMorgan na capital londrina, conhecido como "a baleia de Londres" ou "Voldemort", um dos bruxos de Harry Potter.
Admite-se que a saída de um dos braços direitos de Dimmon possa significar um volte-face na posição de poder de uma das mulheres mais influentes de Wall Street.
As caixas de comentários dos grandes blogs colectivos recordam-me sempre uma boutade do Eça de Queirós em que se explicava a alguém que nos bordéis de Lisboa todas as meninas eram miguelistas.

A controvérsia em relação às corridas de touros / touradas já dura há alguns anos, e promete (assim passada a crise) intensificar-se. Trata-se, provavelmente, do tema fracturante por excelência. Talvez não tanto na extensão da fractura (arriscaria que há uma significativa fatia da população para quem o tema ainda é irrelevante), mas na intensidade da mesma. Com efeito, quem é contra as touradas acha-as um resquício medieval, de uma brutalidade animalesca completamente desfasada dos dias de hoje, preservado por uma antiga aristocracia e praticado em localidades interiores. Quem defende as corridas de touros, por seu lado, é visceralmente incapaz de entender os argumentos dos opositores. Considera-os um bando de anarcas que não conhecem as tradições e a vida rural.
Esta total clivagem tem levado a que alguns anos de polémica não tenham resultado em nenhuma alteração significativa no sistema, nenhuma cedência de qualquer parte. Na maioria dos temas fracturantes que têm sido discutidos nos últimos anos (e mesmo em tempos mais remotos), ainda que não deixando nunca de haver confrontação verbal, foram sendo feitas cedências de parte a parte. O motivo é simples, os defensores de cada posição não estavam aquartelados. Quando se discutiu a lei do aborto, por exemplo, todos nós conhecíamos pessoas próximas que defendiam a posição contrária à nossa. Mais, era comum haver várias posições intermédias entre os dois extremos. Na questão das touradas, tal não acontece: são duas tribos completamente distintas e sem qualquer relação que se enfrentam.
Dito isto, a solução para esta questão até é, paradoxalmente, muito simples, comparativamente com o que sucede com outras questões em que o consenso é virtualmente impossível. Sabe-se que os dois extremos jamais cederão um milímetro. No entanto, uma grande fatia da população, arrisco dizer, identifica-se facilmente com alguns dos argumentos de cada parte: aqueles onde reside o bom senso. Por um lado, o modo como os touros são tratados antes e após a lide é absolutamente inadmissível nos dias de hoje. É medieval e praticamente não supervisionado. Por outro lado, é evidente que as corridas de touros são uma tradição antiquíssima, com um papel cultural e identitário fortíssimo em algumas regiões (não falando sequer do seu significado económico). A lide implica algum sofrimento do animal, é verdade. Mas (quase) todos comemos carne, que não nasce propriamente no supermercado. E práticas como a matança do porco são bem mais cruéis e mantidas nos dias de hoje. Acresce ainda que os maiores maus tratos sofridos pelo touro acontecem, frequentemente, antes e depois da lide, e não durante esta.
A escalada de confrontação que certamente ocorrerá nos próximos anos acordará a opinião pública para o assunto, e esta começará a exigir alterações no sistema. Nessa altura, a bola estará essencialmente do lado dos defensores das corridas de touros, que se arriscam a ser vistos como incompreensivelmente inflexíveis e desfasados da realidade. Deverão, assim, capacitar-se de que a aceitação de alguma intromissão externa e a admissão de algumas regras civilizadas consistem numa pena manifestamente leve, se comparada com uma potencial proibição daquela prática.
Num país (urbano) tão pouco dado às tradições, é melhor não arriscar.
- Todos os meus heróis têm assento garantido na História. E os teus?
- Os meus herois não têm acento.
Vítor Gaspar apresenta livro que explica crise às crianças.
Presidente de Singapura visita a Feira do Livro instalada na ilha de Pulau Tekong e diz-se entusiasmado com a obra Passos Coelho, Um Homem Invulgar. "Inspirador, embora Portugal seja evidentemente um regime democrático, o que não é exactamente o que nós desejamos para Singapura", declarou Tony Tan Keng Yam, ele próprio um reconhecido escritor.
«Eu não minto, eu não engano e eu não ludibrio.»
Vítor Gaspar
A Sra. Procuradora Geral Adjunta afirmou:
“O nosso sistema [judicial] é muito bom, agora o abuso que dele é feito é que é muito mau."
Esta frase não é absurda, é sintomática. Para estes eméritos juristas a qualidade de uma legislação afere-se em abstracto. A lei é em si mesmo de uma bondade inapelável, o problema é essa coisa abjecta e contingente chamada realidade à qual ela, desgraçadamente, se vê obrigada a descer. A santidade intrínseca da lei é conspurcada pela malvadez inata dos homens. Corolário: que bom seria uma pátria feita só de leis, sem casos a que ela se aplicasse; um país de anjos, portanto. Qual Rawls, qual Madison, qual quê…
1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS
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NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO
– Os meninos já se deitaram?
Vivelina enquanto vertia o chá da lua cheia, pálido e fumegante:
– Tudo nos conformes, o menino João Cosme com a bifa – detestava-a e não conseguia tratá-la de outro modo – a retemperar das agruras do dia. Que bem os oiço resfolegar como dois coelhos. O rapaz desde que abriu os olhos parece que os abriu todos à uma.
– Os coelhos não resfolegam – cortou seca a madrinha ao queimar a língua na borda da chávena. Ordinarices na minha casa é que não, santa paciência…
– O Eduardo, esse não ata nem desata, já ronca.
Pobre, pobre, Eduardo que não ata nem desata. À falta de melhor ideia, a madrinha apreciava repetir os ditos pícaros da Vivelina.
Jantar e frugal. De portadas cerradas. Tudo na cama nem que fosse até à hora do lobo – e depois era com cada qual, entregue ao que o destino lhe reservava. Assim determinou a velha senhora madrinha, já basta o que basta.
– E o professor?
– Ainda está na cama a ler. Derreado desde de manhã. Pudera.
A manhã fora um circo, qual telenovela mexicana em que, como toda a gente sabe, o interesse do espectador é acicatado por uma intriga trôpega, de passo trocado, às cabeçadas e aos esses.
A inspectora lívida com o repente do professor, ainda o corpo etéreo de Valeriya não tocara no chão e os circunstantes também eles de boca aberta, tão inédita fora a cólera que eriçou as suíças e congestionou as maças do rosto de um homem por demais habitual:
– Viu o que fez? A senhora ou diz ao que vem e que provas tem contra nós ou aqui só volta com mandato. Muitos telefonemas hão-de correr antes disso, esteja certa.
E lá abalou a inspectora pela esquerda baixa, apanhada em flagrante falta de prova de delito sem, no entanto, deixar de franzir o cenho anunciando ser este assunto agora pessoal.
João Cosme a desanuviar:
– Aqui está uma que sabe mais do que diz.
– Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. – Isto era o professor cada vez menos em anticiclone, abaixando a pressão sanguínea no rosto – rondam, vasculham, interrogam e depois não encontram nada que faça prova, é o costume. É da maneira que se acabou o telefone, vão pôr-se à escuta, tão certo como eu me chamar José Augusto.
Vivelina soltou uma gargalhada, débil, ainda lhe doíam os miolos, mas acintosa quanto baste.
E numa voz álgida, vinda doutras épocas, de velhas alianças e em tom semi-bíblico, o professor proferiu direito a ela:
– Դուք չեք կարող տեղադրել կրակ դուրս թքել.
Ao que Vivelina dobrou a cerviz como os meninos nunca a viram dobrar:
– Այո Ձեր պատիվ.
“Eh lá!” exclamaram os irmãos Cosme: João estupefacto, Eduardo arregalado.
– Tratem disto, andem – bateu a madrinha com a bengala no chão à moda dramática que em nova vira nos palcos de Paris, uns dramalhões de condes, marquesas e cocheiros embrulhados até ao último acto. Apontava para o persistente desmaio de Valeriya – vocês querem ver que…
De noite outra vez, outra vez a madrinha para Vivelina:
– E o que lhe fizeram?
– Jaz morta e arrefece. Deixaram-na amortalhada na cave.
– Ó deus, que mau gosto vir com ironias poéticas numa hora destas. Só você, mulher…
E subiu ao quarto, a deitar-se na cama longamente aquecida por José Augusto.
Ninguém tocara entretanto nas medalhas esquecidas sobre a mesa da cozinha.
(Este é o décimo terceiro capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do João Campos.)
NOTA: Esta rubrica tem o mesmo tempo de vida do DELITO DE OPINIÃO. Foi criada em Janeiro de 2009 como singela homenagem aos companheiros de blogosfera que de uma ou de outra forma vão assinalando a nossa existência. Este é o número 700.
Assim tem sido, assim continuará a ser.
Passos Coelho decidiu ir, com um séquito desnecessário, ao último dia de feira do livro de Lisboa.
Além dos manifestantes que o assobiaram e apelidaram de ladrão, dos polícias com cara de mau, não lhe vi um livro na mão.
António Lobo Antunes demorou-se a sair da sua mesa para cumprimentar o senhor. Afinal, estava a trabalhar, a receber os seus leitores. Foi uma sorte, com tantas televisões e outros órgãos de comunicação social por perto, não ter dito nada de bombástico. No fim, já longe da confusão, ouvi um autor dizer: Já está em campanha. E outro: Boa sorte. E um outro: Bem precisa.
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