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O medo de não estar à altura do passado

por José António Abreu, em 02.10.14

Blog_U2

 

Os U2 levaram-me a instalar o iTunes. Parece que muitos dos 500 milhões de utilizadores ficaram pouco satisfeitos ao descobrirem um álbum do quarteto irlandês na sua colecção; eu, refractário à instalação de software de utilidade duvidosa (devo ser das pessoas com menos apps no telemóvel), tratei ainda assim de instalar o programa para o obter (a Apple já pode anunciar que tem 500 milhões e um utilizadores). Por muito que os U2 sejam hoje vistos como irrelevantes, impõem-se gestos mínimos de respeito.

 

É sintomático que tanta gente tenha ficado irritada. Os U2 passaram de moda. Tornou-se «bem» dispensá-los com um trejeito de desprezo, sem conceder à sua música recente mais do que alguns segundos de desatenção. Hoje em dia, os juízos são rápidos, definitivos – e frequentemente pré-determinados. Afinal, há tanto para ver e ouvir. Para quê perder tempo com vozes do passado?

 

Não vou abordar a questão da parceria com a Apple. Se existisse, incomodar-me-ia a falta de coerência entre mensagem e atitude (comum tanto na música como noutras artes). Os U2, porém, foram uma banda de intervenção apenas por acidente e deixaram há muito de o ser. A sua música ressente-se? Talvez. Mas não é por aí – a Sunday Bloody Sunday seguiram-se imensas coisas interessantes sem uma mensagem política evidente. Mesmo a ironia dos tempos de Achtung Baby e Zooropa foi mais celebração do que contestação.

 

O novo álbum, Songs of Innocence, é pouco coeso mas não merece a crítica feroz da Pitchfork. (Nem a – habitual, valha-os Deus – entusiástica da Rolling Stone.) Acima de tudo, revela o medo de falhar de uma banda que não se importou de parecer fora de moda na década de oitenta nem de correr o risco de ir tão para além da moda no início da de noventa que conseguiu tornar-se o epítome da ironia e da eficácia no universo da comunicação planetária (é por isso duplamente irónico que hoje tenha de recorrer a expedientes de gosto duvidoso para chegar às massas). Bono referiu-o várias vezes durante os muitos anos em que Songs of Innocence esteve em gestação: os U2 não se podem permitir lançar qualquer coisa, têm de ter a certeza de que o material está à altura das expectativas – ou seja, à altura do que fizeram na primeira década e meia de existência. Este receio de já não serem capazes é o grande problema: rouba-lhes espontaneidade, fá-los disparar em todas as direcções e sobreproduzir os temas até uma perfeição anódina. Songs of Innocence nem abre mal: The Miracle (of Joey Ramone), um tributo ao vocalista dos Ramones, tem uma sonoridade que remete para o início da banda e falta-lhe apenas a ingenuidade dos dezoito anos para resultar em pleno. (De qualquer modo, se Bono e companhia podem ser acusados de muitas coisas, é forçoso admitir que, aos cinquenta e tal anos, continuam a confessar influências e encantamentos com a facilidade dos tempos mais ingénuos.) Seguem-se duas canções que os U2 fizeram antes dezenas de vezes, sempre melhor, e que por vezes soam a The Killers, um pecado mortal quando os The Killers não passam de uma má imitação dos U2. Depois há dois temas mais intimistas, em que Bono evoca pessoas que lhe estão próximas – a mulher em Song for Someone, a mãe em Iris (Hold Me Close) –, nos quais intenção e emoção esbarram em letras demasiado fracas (não obstante pepitas como something in your eyes took a thousand years to get here) e música demasiado produzida. Entra-se finalmente numa série de temas em que a banda parece libertar-se um pouco do peso do passado e arrisca sonoridades menos habituais, baseadas num baixo forte e sincopado e num som de guitarra agressivo e mais directo. Detecta-se a mão do produtor Danger Mouse (que não é responsável pelos primeiros temas) e não há mal nisso: Eno, Lanois e Lillywhite também foram importantes no passado. Acima de tudo, na segunda metade do disco a banda parece divertir-se. Cedarwood Road abre com um som de guitarra rasgado, e, num álbum de letras genericamente fracas (as capacidades de Bono estão longe dos tempos de Achtung Baby), é um hino ao optimismo (I was running down the road / The fear was all I knew / I was looking for a soul that's real / Then I ran into you / And that cherry blossom tree / Was a gateway to the sun / And friendship, once it's won / It's won, it's one) e à capacidade de superar dificuldades (And a heart that is broken / It's a heart that is open). Após graves problemas com a voz (dolorosamente evidentes em All That You Can’t Leave Behind, de 2001), Bono arrisca depois um falsetto em Sleep Like a Baby Tonight, a penúltima canção, e é delicioso por ser tão inesperado e por a voz ficar à beira da ruptura, o que confere ao tema (ainda assim, algo sobreproduzido) a faceta genuína que falta a outros. This Is Where You Can Reach Me Now, logo a seguir, é dos mais alegres e despreocupados do álbum – dos melhores, também. Songs of Innocence termina com The Troubles, um dueto com Lykke Li, e termina bem, numa nota de melancolia e aceitação (You think it's easier / To put your finger on the trouble / When the trouble is you / And you think it's easier / To know your own tricks / Well, it's the hardest thing you'll ever do).

 

Em Acrobat, de um Achtung Baby a que poucos negam o estatuto de obra-prima, Bono citava o título de um conto de escritor Delmore Schwartz, cantando: in dreams begin responsabilities. A responsabilidade de os perseguir mas também a responsabilidade de, tendo-os atingido, não os defraudar. É habitual considerar-se que a fama e o dinheiro libertam. Que permitem não ligar às opiniões alheias ou arrumar as botas e apreciar os rendimentos. Não quando mais do que fama e dinheiro se anseia por relevância, por continuar a justificar a posição alcançada. Existe integridade no desespero dos U2. Não chega para poder considera-se Songs of Innocence um grande álbum (quando muito, meio bom álbum), serve-lhes de empecilho, todos aquele para quem é pior tentar e falhar do que desistir vê-la-ão como embaraçosa mas, no fundo, merece respeito.

 

(E agora, desinstalo o iTunes ou fico à espera de que a Apple ofereça o próximo álbum dos Depeche Mode?)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 02.10.14

 

O Crime em Lisboa -- 1850-1910, de Maria João Vaz

Prefácio de Miriam Halpern Pereira

História

(edição Tinta da China, 2014)

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Guincho

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.10.14

 Quando não me lembrar de nada lembrar-me-ei de ti.

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As canções do século (1736)

por Pedro Correia, em 02.10.14

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Inqualificável

por Rui Rocha, em 01.10.14

Na Champions os adversários do Benfica acabam os jogos com onze.

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Excerto (16)

por Patrícia Reis, em 01.10.14

Natália

Cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela professora Isabel da terceira classe era amarrado à volta dos olhos de uma menina, a cabra-cega, que ficava acocorada no centro de uma roda.

 

Cabra-cega, donde vens?

Venho da serra.

Que me trazes?

Trago bolinhos de canela.

Dá-me um!

Não dou.

Gulosa, gulosa, gulosa...

 

Era isto que repetia, incessantemente, o coro formado pelas crianças, numa lengalenga impiedosa, renovada até à exaustão, que acabava por fazer surgir as lágrimas, apenas ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

Rute Coelho, Gostas do que Vês?

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Penso rápido (54)

por Pedro Correia, em 01.10.14

Releio o fabuloso livro de memórias de Stefan Zweig, intitulado O Mundo de Ontem. Foi, dramaticamente, um livro-testamento: o célebre escritor judeu austríaco, refugiado no Brasil, suicidou-se em Janeiro de 1942 logo após a conclusão deste manuscrito.

Retenho, em particular, o capítulo em que Zweig nos descreve a atmosfera europeia nas semanas que antecederam a I Guerra Mundial. "Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumuilar ao longo desses 40 anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo: cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro."

Um testemunho dilacerante. E cheio de lições para os dias de hoje: a paz é a mais frágil conquista das civlizações contemporâneas. E nunca está plenamente garantida: é um erro profundo pensar o contrário.

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No século XVI, um dos maiores prémios da exploração asiática era o controlo das ilhas Molucas, onde se produziam algumas especiarias importantes. Aquele arquipélago (na actual Indonésia e que surge muitas vezes escrito como Ilhas Malucas) era distante e sobre ele pouco se sabia na Europa, como pouco se sabia sobre a Ásia e o Índico, o que explica o enorme interesse no Tratado dos Descobrimentos, livro escrito pelo português António Galvão e publicado em 1563, já depois da morte do autor. A obra, a primeira do seu género, tornou-se muito famosa no século XVII e foi traduzida para inglês em 1601, quando as outras potências europeias começavam a interessar-se em estabelecer os seus próprios impérios.

Galvão foi um militar exemplar e participou em múltiplas acções de combate na Índia Portuguesa e nas costas de África. Tinha uma carreira irrepreensível, foi governador das Molucas e, apesar da coragem e honestidade dos seus serviços, regressou a Portugal, para viver na pobreza e até o seu funeral foi pago por esmolas. O editor do livro, Francisco Sousa Tavares, lamentava o tratamento dado ao autor seu amigo e a “fraqueza da natureza humana, que vindo ele  (António Galvão) a Portugal com grande confiança, que pelo que tinha feito devia ser mais favorecido e honrado, que só trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor ou honra, senão a dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital: onde o tiveram dezassete anos, até que dele morreu e dele lhe deram o lençol para o amortalhar” (1).

  

 

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Os luxos alemães

por Ana Lima, em 01.10.14

António Costa já tinha tido uma ideia semelhante para Lisboa mas, inspirado no seu estilo de vida espartano, a sua proposta ia no sentido de oferecer trabalho em troca de um copinho de ginjinha, mortalhas e alguns filtros. Quanto à remuneração, estudava-se a hipótese de pagar despesas de representação (umas t-shirts ou uns bonés das novas juntas de freguesia, por exemplo).

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 01.10.14

 

A Casa Azul, de Claudia Clemente

Romance

(edição Planeta, 2014)

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As canções do século (1735)

por Pedro Correia, em 01.10.14

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Ler

por Pedro Correia, em 30.09.14

Chicotada psicológica. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Uma grande vitória. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Os despojos do dia. De Paulo Pinto, na Jugular.

A condessa Violet e o PS "de direita". Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Primárias e humilhação. Do Mr. Brown, n' Os Comediantes.

Back to basics. Do João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos.

Democracia. Do Alexandre Borges, no 31 da Armada.

Remar, sempre. Do Filipe Nunes Vicente, no Nada os Dispõe à Acção.

 

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Excerto 15

por Patrícia Reis, em 30.09.14

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

 

Almeida Faria, Paixão

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Navegações

por Luís Naves, em 30.09.14

Bons exemplos de textos da concorrência sobre os desenvolvimentos políticos:

Em Nada os Dispõe à Acção, Pedro Picoito opina sobre a dinâmica de vitória do PS, as expectativas elevadas em relação a António Costa e a resposta da coligação, com a possível tentação da demagogia. Os anos eleitorais são tramados. Só que, ao contrário de 2009, desta vez temos a troika à perna. O texto é excelente e, por erro, foi atribuído em versão anterior deste post a Filipe Nunes Vicente, autor que considero um dos mais argutos da blogosfera. Peço imensa desculpa pelo lamentável equívoco.

Acho notável este texto de rui a., em Blasfémias. O autor fala de um padrão constante na política portuguesa, a existência do número dois nas lideranças e questiona-se sobre quem será o possível braço direito de António Costa.

Francisco Seixas da Costa sublinha a forte legitimidade do novo líder do PS, que é superior à que teria numa vitória em congresso. Isto representa um capital político inestimável.

Também há textos como este, de Isabel Moreira, publicado em Aspirina B antes da votação nas primárias. A prosa sugere que o PS sai da crise (ou transição) com feridas profundas. As clivagens são entre os que querem uma coligação mais à esquerda, que nos levaria a uma possível ruptura europeia, e os moderados que julgam inevitável um bloco central que prossiga as reformas estruturais.

Finalmente, este é um dos melhores textos que li sobre o tema. O autor é Rui Bebiano. Simplesmente brilhante.

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Um naco precioso de análise política

por Rui Rocha, em 30.09.14

Sempre considerei que o mês de setembro ia dar uma grande volta à situação económica e política portuguesa. Agosto foram as praias, por sinal com águas muito frias.

Mário Soares, no Diário de Notícias

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.09.14

  

Na Montanha com Hitler, de Irmgard A. Hunt

Tradução de Maria Carvalho

Memórias

(edição Bizâncio, 2014)

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Encosta-te a mim

por Patrícia Reis, em 30.09.14

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Delitos poéticos

por Patrícia Reis, em 30.09.14


Vem à Quinta-feira.



É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris

for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.


Vem à Quinta-feira.


A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,

e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.


Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.


Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo 

não é caro:

- viajar de auto-caravana,

- dançar pela Estrada Nacional,

- ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.


Vem à Quinta-feira.


Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.


Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.


Filipa Leal, in "21 Cartas de Amor"

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As canções do século (1734)

por Pedro Correia, em 30.09.14

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.09.14

Ao Isto e Aquilo.

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Penso rápido (53)

por Pedro Correia, em 29.09.14

António Costa falhou o primeiro passo na construção da unidade do partido quando ontem à noite, no discurso da vitória eleitoral, ignorou o nome de António José Seguro. Esta omissão não honrou as melhores tradições do sistema democrático, onde tão importante como saber perder é saber ganhar.
O futuro secretário-geral precisará dos seguristas para construir a nova maioria que ambiciona. Inútil fazer charme para fora das fronteiras do PS enquanto não assegurar a unidade interna.
Concorde-se ou discorde-se da sua actuação e do seu estilo, Seguro liderou o partido durante mais de três anos muito difíceis, em que mais ninguém se dispôs a fazê-lo. Três anos muito difíceis devido ao estado de emergência financeira em que Portugal se encontrava. Três anos muito difíceis para o PS enquanto partido da oposição num quadro político dominado pelo memorando negociado e assinado pelos próprios socialistas quando ainda eram governo, antes do mandato de Seguro. Três anos em que, apesar disso, o PS registou três vitórias eleitorais -- nas regionais açorianas, nas autárquicas e nas europeias.
Há uma tendência crescente para a perda de memória na política portuguesa. Até por isso convém ir lembrando alguns factos essenciais. Como estes.

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A guerra contra o Estado islâmico.

por Luís Menezes Leitão, em 29.09.14

 

Uma das análises mais correctas sobre o que se estava a passar no mundo resulta de um livro de Samuel P. Huntington, de 1996, intitulado The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. Nesse livro demonstra claramente como se estava a formar uma nova ordem mundial para o séc. XXI e que nessa nova ordem um dos factores mais decisivos era o Ressurgimento Islâmico. A seu ver a civilização islâmica estava a tornar-se cada vez mais influente a nível mundial, não apenas pela sua maior capacidade de conversão de novos crentes, mas ainda pelo maior crescimento demográfico das suas populações.

 

Para Huntington a influência mundial da civilização islâmica só não era maior porque o islamismo radical não tinha um Estado religioso forte que pudesse servir de sustentáculo às suas pretensões. A esmagadora maioria dos Estados árabes não apoiava uma versão radical do islamismo, preferindo estar de bem com o Ocidente, e a única excepção, o Irão, baseava-se na corrente xiita do Islão, minoritária em face dos sunitas, o que levava a que não fosse seguido pelos militantes islâmicos radicais.

 

Por isso o Ocidente ficou descansado com o aumento da influência islâmica no mundo, uma vez que as guerras eram travadas entre os próprios Estadoa arábes, ainda que o ataque ao Kuwait tenha pela primeira vez obrigado a uma intervenção, dado que pôs em causa os interesses ocidentais. Mas Bush pai teve a inteligência de deixar Saddam Hussein no poder, uma vez que bem sabia que o seu derrube só serviria para aumentar a influência do Irão e dos movimentos islâmicos radicais na região.

 

Bush filho, com uma inteligência rudimentar, e movido por uma questão pessoal, quis derrubar Saddam Hussein, seguindo a estratégia de iluminados como Wolfowitz que achava que o Iraque tinha que ser conquistado, uma vez que "nadava num mar de petróleo". Consta que terá respondido o seguinte a quem o interrogava como é que depois os americanos sairiam do Iraque: "É simples. Não saímos". Nessa estratégia teve o apoio ainda mais desastrado de Blair, Asnar e do nosso Durão Barroso, que juntos criaram um enorme sarilho.

 

Obama, que é inteligente e tinha a vantagem de se ter oposto desde o início a este disparate, não conseguiu, porém, ver que Wolfowitz tinha razão num ponto: é que depois de se ter entrado no Iraque já não era possível sair de lá. A saída dos EUA do Iraque, associada a um apoio às primaveras nos outros países arábes, foi um campo fértil para os militantes islâmicos radicais, que conseguiram nos territórios sírios e iraquianos aquilo que desde sempre ambicionavam: a reconstrução do califado. Ora, esse Estado islâmico vai ser seguido pelos militantes radicais de todo o mundo e pode ter um sucesso muito mais rápido que o califado original, cujos exércitos chegaram em 80 anos desde a península arábica em 632 até Poitiers em 711. E esse Estado todos os dias proclama o seu ódio aos ocidentais, como se vê pelas execuções que sistematicamente são exibidas.

 

É manifesto, por isso, que o Ocidente está a ser constantemente desafiado para a guerra, só que já não tem coragem de mandar tropas para o terreno e os ataques aéreos podem fazer mossa, mas não alterarão a situação. Quanto a Portugal, é o ridículo de sempre. Mal li aqui que o Ministro da Defesa afirmava que Portugal vai participar na coligação contra o Estado islâmico, julguei que se estava a planear uma cruzada, ao velho estilo do "Por El-Rey e São Jorge aos Mouros!". Mas afinal o Ministro explicou que "a seu momento se verá" de que forma Portugal participará, tendo em conta que a colaboração pode acontecer de várias formas, designadamente através "de treino, de inteligência, de formação" ou humanitária. Quanto a tropas no terreno, cruzes canhoto. Está visto assim que o Ocidente não vai ter a mínima hipótese de ganhar esta guerra.

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Pós-pós-Verão

por José António Abreu, em 29.09.14

O Verão já se acabou, Setembro está-se a acabar, Lisboa quase se afogou nas primeiras gotas de chuva mas a eleição de António Costa faz com que o Sol brilhe outra vez. Não soa assim fora de estação a power pop dos The New Pornographers, uma de várias superbandas canadianas (outras: Arcade Fire, Broken Social Scene) que colocam em palco um número inusitado de executantes*. O tema pertence ao novo álbum, Brill Bruisers, e devo tê-lo ouvido dezenas de vezes nas últimas semanas, muitas das quais enquanto assistia ao vídeo acima - em parte porque prefiro ligeiramente esta versão ao vivo àquela que surge no disco, em parte (bem-aventurados os que se deleitam com prazeres singelos) devido às calças da Neko Case.

 

* No vídeo ainda falta Dan Bejar.

 

Adenda para pessoas com tempo livre e propensão para actividades de relevância discutível (assim como ver vídeos de gatos no YouTube):

Pesquisem "the new pornographers" no site da Amazon. O sistema de sugestões, habitualmente solícito ao ponto do exagero, ignora teimosamente a hipótese "pornographers", apesar dos álbuns estarem disponíveis. O politicamente correcto adquire formas tão giras.

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O centro-direita está basicamente tramado. Em 2011, pegou num país à beira da falência e sujeito a um programa de resgate mal negociado, num contexto de crise da zona euro que dificultou a flexibilização das metas orçamentais, que foram mínimas e arrancadas a ferro. Apesar do espartilho, este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro, mas esteve sempre dividido e atraiu a hostilidade de sectores importantes da própria direita, que serão aliás os primeiros a entrar agora em pânico e a tentar abandonar o barco a tempo. Com péssima comunicação e insistindo no absurdo de querer ir além da troika (o que nunca fez), o lado governamental terá escassos argumentos a seu favor: as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro.

A História será provavelmente mais branda do que o eleitorado está disposto a ser na campanha para Outubro de 2015, mas isso é fraca consolação. O descontentamento geral só não é percebido por quem não quer compreender. Nas próximas eleições, as pessoas vão votar de forma emocional e isso será visível de imediato nas sondagens, com forte subida do PS. António Costa não terá pressa e dispõe de muito tempo para esmifrar os ministros mais fracos e para encostar o Governo às cordas.

Acima de tudo, Costa não quererá interromper os erros do adversário, sobretudo se a estratégia governamental for a de tentar diabolizar os ex-socráticos que esvoaçam à volta do novo líder socialista. Falhou em 2009 com o próprio Sócrates, mas esta direita é burra, aprende mal e vai querer repetir o número.

Para não perder por muito nas próximas legislativas, a coligação deverá trazer a discussão política para os temas que verdadeiramente contam: como é que o PS de António Costa tenciona cumprir o Tratado Orçamental e o que prefere na questão da dívida pública? A reestruturação? Não sendo o crescimento económico suficiente para o milagre das contas públicas positivas, que cortes e reformas estão os socialistas dispostos a fazer? O líder do PS só precisa de fintar estes temas, de não se comprometer, de insistir na mudança e na esperança, de mostrar preocupações sociais, de falar aos desempregados e aos que vivem no medo de perder os seus empregos. Nestes assuntos, o governo estará em forte desvantagem. Costa evitou com êxito mencionar o Tratado Orçamental nas primárias do PS, tentará fazer o mesmo nas legislativas.

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A renovação do PS

por José António Abreu, em 29.09.14

Para o futuro, de Costa(s).

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.09.14

  

 

Teremos Sempre Paris, de Ray Bradbury

Tradução de Maria do Carmo Figueira

Contos

(edição Bizâncio, 2014)

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Primárias

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.09.14

1. Tirando o caso da Guarda, que não serei eu a explicar, e o facto de no dia 29 de Setembro às 00:08 ainda estar a receber "sms" do queixoso, dizendo que contava comigo, vá-se lá saber porquê, os resultados correspondem ao esperado.

 

2. Aquilo que foi divulgado até agora não permite, penso eu, fazer a separação entre o resultado da votação dos militantes e a dos simpatizantes. Isso era fundamental para se perceber até que ponto o partido estava com o secretário-geral demissionário e estabelecer a comparação com o que se pensava fora do círculo restrito dos militantes. Não sei se será possível vir a apurar esse dado; como também ignoro se o facto dos votos aparecerem misturados ainda é o resultado de uma estratégia destinada a criar e arrastar a confusão durante três meses ou uma consequência da pressa do processo. Aproximando-se este acto do seu final, seria bom desde já repensar todo o processo das primárias. O ideal era que isso fosse feito nos próximos dias, corrigindo para futuro os desfasamentos já identificados e mostrando aos portugueses que se as primárias vieram para ficar importa que sejam sempre sérias, rigorosas e não dependam de ajustamentos de conveniência. 

 

3. As primárias podem ser um primeiro passo para a emissão da certidão de óbito do sinistro "aparelho". Se a ideia era fazê-lo funcionar, o resultado agora verificado pode ter acabado com ele.

 

4. Se os resultados das recentes eleições para as federações podiam de algum modo dar um sinal da força que secretário-geral demissionário e da separação de águas dentro do partido, os dados hoje conhecidos desequilibraram decisivamente os pratos da balança a favor de António Costa, dos simpatizantes e da maioria silenciosa em que Seguro apostava. O resultado de António Costa, avaliado na sua globalidade, demonstra que praticamente todas as federações que apoiaram Seguro estavam erradas e não souberam ler os sinais que chegavam de todos os lados do país. Por conveniência ou teimosia.

 

5. António José Seguro não perdeu sozinho. Com ele perderam os analistas e comentadores que saíram em sua defesa perante a óbvia mediocridade da sua liderança, invocando o direito ao prémio de se apresentar às legislativas pelo simples facto de ter "aguentado" o partido durante quase três anos. Como se o PS ou o país, no estado em que estão e entregues a grotescos e reconhecidos carreiristas, ainda pudessem suportar o pagamento desse tipo de prémios. Uma carreira política não pode ser o resultado da contagem da antiguidade partidária, do pagamento de quotizações e do número de fretes assumidos até que chegue a hora de se sentar na cadeira do poder.

 

6. Com António José Seguro perderam também Passos Coelho e Miguel Relvas. A sua derrota é a machadada final no modo sonso de estar na política, distribuindo afectos e sorrisos, ou abrindo portas e agilizando negócios, sem um percurso académico, político, ético e profissional que não ofereça dúvidas e com os quais as pessoas normais se revejam e reconheçam o mérito.

 

7. Seria bom que o Congresso do PS fosse marcado para a data mais próxima possível, de maneira a que todo este conturbado processo das primárias atinja o seu fim e o PS estabilize, se reorganize e possa pensar nas questões que importam a todos, a tempo de poder propor uma alternativa política de mudança susceptível de ser devidamente avaliada, ponderada e discutida pelos portugueses até às próximas eleições legislativas.

 

8. O resultado de António Costa - esmagador perante aquele que foi até há 48 horas o discurso alucinado de Seguro e dos seus apoiantes - é também um golpe vigoroso contra a teoria do coitadinho e a rejeição de todos aqueles que supunham que era possível dividir o país entre a gente boa, honesta e trabalhadora vinda do interior e da periferia, pobre e desertificada, e os malandros ociosos que vivem à tripa-forra na capital. Ou entre os filhos do povo e os de boas famílias. Os portugueses, sejam simpatizantes do PS ou de qualquer outro partido, não são estúpidos, detestam que façam deles uns tontos e abominam a criação ou agudização de clivagens para justificarem os fracassos que só aos fracassados podem ser imputados.

 

9. A partir de hoje, a eleição do secretário-geral do PS será o cumprimento de uma mera formalidade que se destinará, fundamentalmente, para dar a conhecer aos militantes e aos portugueses as propostas do PS para o futuro. Quaisquer que sejam deverão fugir ao modelo eleiçoeiro do tipo "cem medidas por semana para animar a malta". Os portugueses anseiam por ter gente séria nos partidos e na politica como de pão para a boca e estão fartos de folclore. Seria bom que António Costa tivesse isto sempre presente na hora de escolher os seus futuros colaboradores. 

 

10. O elevado e sem precedente nível de participação neste processo - sinal de que as pessoas não estão tão alheadas da política quanto alguns insistem em fazer crer - deve levar o Presidente da República a reavaliar, em especial face ao non liquet dos casos que envolvem o primeiro-ministro e a sua descredibilização completa (Pinto da Costa disse-o com todas as letras a propósito do caso BES), as suas condições de governabilidade e se perante o estado calamitoso a que chegaram algumas áreas da governação se justifica a manutenção em funções do actual elenco governativo até que se cumpra o calendário eleitoral regular.

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As canções do século (1733)

por Pedro Correia, em 29.09.14

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O António que se segue

por Pedro Correia, em 28.09.14

Foto Eduardo Costa/Lusa

 

1. Não vale a pena especular sobre quem terá contribuído mais para a eleição de António Costa como candidato do PS à chefia do próximo Governo. Militantes ou simpatizantes? Foram ambos. A diferença de votos em relação a António José Seguro, ao totalizar dois terços dos sufrágios, foi tão expressiva que dissipa qualquer dúvida.

 

2. Há que reconhecer: o processo de eleições primárias no PS foi o mais amplo do género desde sempre registado em Portugal e decorreu com irrepreensível civismo. Julgo tratar-se de um processo sem marcha-atrás, que funciona a crédito de Seguro. Embora a figura de "candidato a primeiro-ministro", em boa verdade, não exista no sistema constitucional português.

 

3. Os partidos que ainda não adoptaram esta solução para a escolha dos seus líderes terão rapidamente de adaptar-se às exigências dos novos tempos. A democracia, para se revigorar, não pode prescindir desta expressão da cidadania. Acabou o tempo em que os principais dirigentes partidários eram eleitos em petit comité.

 

4. Costa ganha por larga margem após uma campanha minimalista, em que nada prometeu e quase nada de concreto antecipou do seu futuro programa de Governo. Viu esta estratégia coroada de êxito: militantes e simpatizantes acabam de lhe passar um cheque em branco que ele preencherá como entender.

 

5. É uma vitória do PS histórico e uma espécie de desforra ao retardador da tendência sampaísta do PS, que perdeu para o guterrismo em 1992. Na altura, Seguro alinhou com o vencedor António Guterres enquanto Costa se manteve firme no apoio ao derrotado Jorge Sampaio. A tendência social-cristã eclipsa-se como nunca aconteceu nestes vinte anos de história do partido que se prepara para ter um terceiro lider chamado António.

 

6. Costa, que venceu em todas as federações socialistas excepto na Guarda, tem dois desafios fundamentais pela frente. O primeiro é unir e mobilizar todo o partido após uma campanha marcada por fortíssimas animosidades entre os dois candidatos. Parece ser o desafio menos difícil: a promessa de poder costuma congregar as hostes. E Seguro facilitou-lhe a tarefa ao abandonar o palco já esta noite.

 

7. Mais complexo é outro desafio que o ainda presidente da câmara de Lisboa, assumido apreciador de puzzles, tem pela frente: combater as tendências centrífugas no PS, à semelhança do que vem sucedendo nos partidos da sua família europeia. A atracção por novas forças partidárias, com protagonistas diferentes e um discurso mais radical, é um problema sério dos socialistas moderados.

 

8. Algumas figuras históricas do PS tenderão a empurrar Costa para entendimentos políticos à sua esquerda. Tenho as maiores dúvidas de que o caminho a seguir pelo novo líder acabe por ser este. O PCP, por exemplo, já separou as águas, reiterando a sua oposição a três pilares de uma futura governação socialista: manutenção de Portugal na União Europeia, no sistema monetário europeu e na Aliança Atlântica.

 

9. Com três dos quatro anos da legislatura decorridos, e depois de inúmeros vaticínios malogrados mês após mês sobre a iminente demissão de Passos Coelho da chefia do Governo, quem acaba afinal por sair antes do prazo inicialmente previsto é o líder do maior partido da oposição. Empurrado pelos seus pares, o que confere uma nota de amarga ironia ao percurso de um homem que exigiu vezes sem conta a resignação do primeiro-ministro, aparentemente convencido de que bastaria repetir este estribilho para que os seus desígnios se tornassem realidade.

 

10. À direita, Passos Coelho e Paulo Portas têm motivos para ficar preocupados. O novo rival, robustecido por este resultado, é muito mais temível do que o antecessor, que nunca encontrou uma linha de rumo clara na oposição ao Governo. Parafraseando o autarca lisboeta numa farpa que ele próprio dirigiu a Seguro no frente-a-frente da RTP, Costa deve sonhar ser primeiro-ministro desde pequeno. É uma ambição legítima -- e em política estas coisas contam. Mas ele, que aprecia citações, deve tomar esta em devida nota: "Tem cuidado com o que desejas porque pode tornar-se realidade."

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Costa está disponível para prescindir do sigilo bancário?

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Frases de 2014 (26)

por Pedro Correia, em 28.09.14

«Este é o primeiro dos últimos dias do actual Governo.»

António Costa, há pouco, no discurso de vitória das primárias do PS

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Então e os pais?

por Francisca Prieto, em 28.09.14

De tempos a tempos, mal renasce das trevas a estafada discussão sobre a lei do aborto e os direitos das mulheres e blá, blá, blá, fico sempre a pensar que nunca vi ninguém a discutir os direitos dos homens, neste caso concreto, dos pais dos fetos.

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Derrota assegurada

por João Campos, em 28.09.14

 

Há uns anos, um amigo emprestou-me o DVD do filme Alien vs. Predator, uma combinação improvável entre os monstros icónicos do filme de Ridley Scott (e da sequela de James Cameron) com a criatura do filme de John McTiernan (com Arnold Schwarzenegger) que surgiu na banda desenhada no final dos anos 80 e que já nos anos 90 deu origem a um videojogo muito popular e muito divertido - essencialmente por poder dar-se ao luxo de abdicar de qualquer noção de narrativa para apostar na atmosfera e no combate. O filme não correu tão bem, como de resto não podia correr, e antes de chegar à meia hora já eu desligava o leitor de DVD entre bocejos - tenho um fraco por aqueles filmes tão impossivelmente maus que se tornam bons de uma maneira muito retorcida, mas Alien vs. Predator é apenas e só mau, sem qualquer hipótese de redenção.

 

É, portanto, um pouco como as primárias do PS, a decorrer hoje após não-sei-quantos dias de campanha, de debates televisivos (como se entre duas cabeças desprovidas de sinapes activas como as de Seguro e Costa pudesse haver qualquer coisa de remotamente interessante a debater) e de sabe-se lá mais o quê. Aliás, todo este processo - que acompanhei a uma distância algo forçada, mas nem por isso menos higiénica - traz-me à memória o péssimo filme de Paul W. S. Anderson. Não alguma cena em particular, entenda-se, mas sim a tagline promocional que se podia ler nos cartazes do filme, que ganha toda uma nova leitura perante a evidência de que, com toda a probabilidade, o próximo primeiro-ministro do país será Seguro ou Costa: "Whoever Wins, We Lose". Muito adequado, sem dúvida.

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Plants vs Zombies?

por Rui Rocha, em 28.09.14

Pancadaria entre apoiantes de Seguro e de Costa em Braga.

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RR - João, obrigado por nos ajudares a perceber alguns dos aspectos relacionados com o processo Passos Coelho/Tecnoforma.

JM - Hã, ok, sem problema. Um gajo também não pode passar a vida a fazer gráficos sobre o salário mínimo.

RR - Bem visto. Então, antes de mais, gostava de perceber o que pensas sobre a situação de Passos Coelho e a presunção de inocência.

JM - As regras da presunção de inocência são para o processo judicial. No processo judicial, é-se inocente até prova em contrário e não se pode ser condenado por provas proibidas por lei. Mas isso é no processo judicial.

RR - Distingues então o plano político e o plano judicial?

JM - A questão não é apenas judicial. É também política. E a questão política é aquela que mais interessa à opinião pública e é também aquela em que a opinião pública conta. A opinião pública não conta para saber se Passos Coelho é um criminoso. Para isso existem os tribunais. Mas conta para saber se Passos Coelho é um bom primeiro-ministro. O cargo de primeiro-ministro é um cargo de confiança. O primeiro-ministro está ao serviço do soberano (os eleitores) e tem que merecer a confiança do soberano. Portanto, o que deve ser avaliado no caso Tecnoforma não é se o primeiro-ministro é um criminoso mas se o seu comportamento permite que o soberano tenha alguma confiança no seu servidor.

RR - Defendes então que quando existe uma suspeita sobre o primeiro-ministro é a este que cabe o ónus da prova no âmbito da sua relação com o soberano?

JM - Note-se que, na sua relação com o soberano, em nada adianta o primeiro-ministro dizer que é inocente até prova em contrário. O soberano não está apenas interessado num primeiro-ministro contra quem não se pode provar nada. O soberano quer um primeiro-ministro que esteja acima de qualquer suspeita. Tendo em conta que o primeiro-ministro é um servidor do soberano, não lhe basta alegar que é o soberano que tem que provar a culpa. Porque não é. O primeiro-ministro é que tem que prestar todos os esclarecimento que provem que merce a confiança do soberano. Ou seja, na relação entre o primeiro-ministro e o soberano, inverte-se o ónus da prova. Quem tem que provar que está acima de suspeita é o primeiro-ministro. O soberano não tem que provar nada, porque é o soberano.

RR - Não podias ser mais claro, João. E deixa-me dizer que concordo integralmente contigo. Chame-se o primeiro-ministro Sócrates, Pato ou Coelho.

JM - Er... claro. Nem podia ser de outra maneira. Queres que te fale agora dos efeitos nocivos do salário mínimo?

RR - Não, deixa estar. Tenho mesmo de ir andando.

 

* hat tip Mr. Brown

 

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Blogue da Semana

por João André, em 28.09.14

Escrevo muito menos sobre ciência do que gostaria, especialmente porque ganhei o hábito de ter cuidado em não escrever (especialmente em forma de blogue) sobre temas que não domino o suficiente para ter a certeza de não cometer erros. Isso, contudo, não invalida que a leitura sobre ciência seja uma das minhas actividades preferidas, especialmente quando tem como objectivo claro o aumento da cultura científica de cada um. É por isso que decidi chamar para blogue da semana o Bad Astronomy, de Phil Plait na Slate. Phil Plait é um astrónomo que se decidiu a começar a desmistificar muitas das falsas histórias que são propagadas sob a forma de ciência. Sendo astrónomo, é normal que o seu olhar recaia sobre este assunto. Mas quem o for ler vai descobrir muitos outros temas, quase sempre fascinantes e onde existe sempre o cuidado de exprimir a opinião de forma científica, i.e., céptica (por vezes em excesso perante histórias obviamente falsas).

 

É assim que recomendo, esta semana, O Bad Astronomy, como o blogue da semana.

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Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

 

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Outros tempos, outros sons

por Pedro Correia, em 28.09.14

 

Naquele tempo quase tudo se importava em termos musicais. Havia os Shadows portugueses, o Elvis português, os Beatles portugueses.

O Elvis era o célebre Victor Gomes, que actuava com os Gatos Negros. Gozou de fama efémera mas fulgurante como divulgador do rock n'roll na cinzenta Lisboa salazarista.

Há um episódio que Luís Pinheiro de Almeida relata no seu livro recém-surgido, Biografia do Ié-Ié. Ocorreu em 1964, quando Victor Gomes fez parar o trânsito na capital com um espectáculo ao ar livre perante milhares de pessoas na praça do Saldanha. Antes dos primeiros acordes foi chamado ao gabinete do empresário Vasco Morgado, proprietário do Teatro Monumental, ali situado. No gabinete estavam três agentes da PIDE, que lhe disseram: "O menino não vai cantar canções de protesto." Resposta pronta do Elvis português: "Eu? Eu quero é rock." E obteve luz verde.

Este episódio ilustra bem o que era aquele Portugal de há meio século onde o rock -- canção de protesto por excelência nos EUA e no Reino Unido -- servia essencialmente para descarregar alguma adrenalina, funcionando como válvula de escape tolerada pela ditadura. De tal maneira que no palco desse mesmo Monumental a entidade promotora do Concurso Ié-Ié -- "provavelmente o maior festival de música jamais realizado em Portugal" -- foi o Movimento Nacional Feminino, instituição por excelência do regime, pilar do "esforço de guerra" desenvolvido pelas forças armadas nas três frentes africanas.

Por lá passaram os Beatles portugueses -- os Sheiks, formados por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. E 73 outros "conjuntos", como se designavam as bandas daquela época. Incluindo os Jets, que tinham na bateria João Alves da Costa, futuro jornalista d' A Bola. E os Rapazes, que tinham como viola-solo António Santos, mais tarde jornalista da RTP e assessor de imprensa do primeiro-ministro António Guterres. E os Deltons, com Fernando Tordo como vocalista e viola-ritmo. E os Rebeldes, que contavam na voz e viola-solo com um tal Fausto Bordalo Dias, oriundo de Nova Lisboa (Angola) e então mais conhecido por Carlitos Dias.

 

 

Eram outros tempos, outros hábitos, outros sons. Os tempos gloriosos do ié-ié -- moda passageira, como todas as modas. Que parece ter sido boa enquanto durou, em perfeito contraste com a modorra ditatorial de um regime que parecia amarrado à eternidade. O mérito de Luís Pinheiro de Almeida, além da informação torrencial que nos proporciona nesta obra, é de através dela dar-nos também um vislumbre de uma década irrepetível, a dos anos 60, que decorreu sob o signo da mudança um pouco por toda a parte. E a música popular, entre outros méritos, tem também este: o de antecipar mudanças.

Portugal abria-se enfim a um certo cosmopolitismo de superfície: vinham aqui actuar vedetas da chamada "canção ligeira" e de outras áreas musicais: Charles Aznavour, Johnny Halliday, Sylvie Vartan, Gilbert Bécaud, Rita Pavone, Cliff Richard, Adamo, Françoise Hardy, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Louis Armstrong.

Paul McCartney, de férias no Algarve, compunha um tema numa noite de copos no bar do Penina, oferecendo a improvisada canção ao conjunto residente naquele hotel: os Jotta Herre, que adquiriram fama instantânea graças a essa canção, intitulada "Penina" -- com versões em Espanha, França, Brasil, Holanda, Itália e Chile.

Os Sheiks -- assim chamados porque os seus membros haviam gostado imenso do filme Lawrence da Arábia -- chegaram a gravar em Paris, tendo sido convidados a actuar no Olympia. A carreira internacional gorou-se porque os pais de Carlos Mendes exigiram que o filho regressasse a Lisboa para concluir o curso de Arquitectura. Mas um dos temas mais conhecidos do conjunto, 'Missing You', atingiu em 1967 o oitavo lugar do top parisiense.

 

O termo ié-ié (popularizado em França no programa radiofónico Salut les Copains que depois se tornaria também nome de revista) generalizou-se entre nós até ao final dessa década de 60 quando começou a ser considerado "piroso", dando lugar a outras designações, já sob influência anglo-saxónica -- pop, soul, folk, rock.

E teve sempre detractores, à esquerda e à direita.

Os mais conservadores indignavam-se contra aquilo a que chamavam "batuque de pretos". Na trincheira oposta, José Afonso dava voz ao que muitos intelectuais pensavam insurgindo-se desta forma: "O ié-ié representa a expressão de um processo de decadência de uma sociedade. (...) Posso classificar o ié-ié como um ritual do 'chinfrim'."

No entanto, o guitarrista que mais acompanhou José Afonso, Rui Pato, "não deixou de fazer, também ele, uma perninha no ié-ié", integrado nos Beatnicks, que começaram a abrilhantar bailes estudantis em 1962/63. E Luís Cília, nome ligado aos primórdios da canção de protesto e ao Partido Comunista Português, também entrou na música como intérprete de rock n'roll.

 

Biografia do Ié-Ié transporta-nos a essa década de profundas transformações em que a música teve um papel pioneiro.

Uma década em que também a rádio contribuía para abrir mentalidades. Com programas que deixaram excelente memória em várias gerações de ouvintes: a emblemática 23ª Hora, iniciada em 1959 por Joaquim Pedro, Matos Maia e João Pedro Baptista, aos quais se juntariam João Martins (o nome mais associado ao programa), Fernando Curado Ribeiro, Amando Marques Ferreira e Carlos Cruz; Em Órbita, que em 1965 estreou a frequência modulada do Rádio Clube Português, com realização de Jorge Gil, Pedro Albergaria e do malogrado João Manuel Alexandre, tendo em estúdio a voz de Cândido Mota e mais tarde as de Pedro Castelo e João David Nunes, entre outros. Página 1, também na Renascença, iniciado em Janeiro de 1968 e por onde passaram José Schnitzer, José Manuel Nunes, Luís Paixão Martins, José Duarte e Adelino Gomes, só para mencionar alguns.

Eram tempos em que a censura retalhava um disco inteiro do Quarteto 1111, liderado por José Cid, que em 1958, quando ainda era conhecido por José Cid Tavares, integrou em Coimbra os Babies, "primeiro conjunto português de rock". O LP inaugural do quarteto, intitulado Quarteto 1111, foi retirado do mercado por ordem das autoridades. Basta enumerar os nomes de algumas faixas para se perceber porquê: "João Nada", "Domingo em Bidonville"; "Trova do Vento que Passa"; "Maria Negra"; "Lenda de Nambuangongo"; "Escravatura"; "Pigmentação".

O álbum Epopeia, editado em 1969 pela Filarmónica Fraude (que incluía António Pinho, futuro mentor da Banda do Casaco), muito aplaudida à época, tinha uma capa desenhada pela artista Lídia Martínez, que assinou Lídia 69. O disco passou no crivo da censura, mas a assinatura não: a indicação do ano foi cortada. "Eu, ingenuazinha, nem fiz de propósito, sabia lá o que era 69, era uma abelhinha", lembra Lídia Martínez, hoje bailarina em Paris.

Outros tempos, na verdade.

De tudo isto se fala aqui também.

 

Biografia do Ié-Ié. De Luís Pinheiro de Almeida (Documenta, 2014).

327 páginas

Classificação: ***

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.09.14

 

 

Funcionários da Verdade, de Diana Andringa

Ensaio sobre comunicação

(edição Tinta da China, 2014)

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Passado presente (CDI)

por Pedro Correia, em 28.09.14

 

Revista Ídolos

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Linhagens

por Rui Rocha, em 28.09.14

- Sou Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur.

- E eu sou Isabel dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos.

- Pois calo-me.

 

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As canções do século (1732)

por Pedro Correia, em 28.09.14

 

Dedicada ao Sérgio de Almeida Correia

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Passado presente (CD)

por Pedro Correia, em 27.09.14

                                      

                                                               Jornal Novo

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Uma de tecnologia

por Rui Rocha, em 27.09.14

- O novo Iphone vai ser um tremendo sucesso!

- Achas?

- Aposto que sim. Singelo contra dobrado.

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O caso Tecnoforma visa destruir o principal capital político de Passos Coelho, a sua imagem de honestidade. Embora o primeiro-ministro tenha esclarecido as questões ligadas à denúncia anónima e as dúvidas sobre a exclusividade parlamentar, há quem ainda não esteja satisfeito. A denúncia era falsa e o processo foi arquivado. Sem novas informações, esta história está morta. O primeiro-ministro demonstrou de forma convincente que cumpriu as regras da exclusividade parlamentar a que se obrigou quando recebeu um subsídio. Passos Coelho é aliás um político pouco habitual, sem sinais exteriores de riqueza e que tem resistido aos interesses que dominam o regime democrático.

Ontem, enquanto ouvia o debate parlamentar, lembrei-me de uma história pessoal: estive na Guiné-Bissau em 1998, como repórter, e gastei muito dinheiro numa guerra onde não se passavam facturas. Na altura, não podia provar despesas de centenas de contos. Sou uma pessoa remediada, não tenho sinais exteriores de riqueza e o meu pai ensinou-me a não ficar sequer com um tostão que não seja meu. O jornal devolveu-me o dinheiro e não posso esquecer o chefe de redacção e o director que nem hesitaram em aceitar a minha palavra.

As pessoas honestas não podem ser confrontadas com situações onde tenham de provar a sua honestidade. O princípio aplica-se no caso Tecnoforma, onde foram esclarecidas as suspeitas que até agora surgiram. É por isso grave que o primeiro-ministro não tenha direito à presunção de inocência. É dramática a exigência de que prove a sua honestidade através da devassa pública e da abdicação de um direito individual. Se triunfar a demagogia, não haverá pessoas de qualidade na política. E sem pessoas de qualidade na política, o que teremos é a promiscuidade com os negócios, exactamente aquilo que toda esta retórica afirma combater.

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