Deve ser do calor. Imaginem que sonhei que a ministra da Educação quer acabar com os chumbos no ensino. O sol a mais fez-me tanto mal à cabeça que até fiquei taralhoco.
Este blogue recomenda-se a pessoas com preocupações ambientais e sociais, espírito empreendedor e muito boa onda. Está associado a uma revista que oferece tudo isto e que ainda por cima é bonita. O próximo número sai amanhã para as bancas, mas como do conteúdo não constam prosas sobre as férias das Lilis e das Bibis e os casamentos e separações de apresentadores de concursos e estrelas de novelas, encontram-na só nos principais pontos de venda, como as FNACS, as Lojas da Galp e Centros Comerciais.
E pronto, agora que aproveitei para fazer publicidade à revista Gingko, já posso deixar-vos o link para o respectivo blogue, nosso blogue da semana.
Da minha infância guardo calorosas recordações de uns livrinhos escritos por uma autora com um belo nome que jamais esqueci: Cécile Aubry. Esses livros narravam as aventuras de Poly, um pónei, e do seu dono, um miúdo que teria a minha idade à época. As aventuras de Poly, a par dos álbuns de banda desenhada, ajudaram-me ainda em criança a ler e amar a língua francesa - o que viria a ser reforçado com a adaptação dessas histórias a uma série televisiva que me prendia a atenção dado o meu gosto de sempre por animais. O próprio filho da autora interpretava esta e uma outra série - Belle e Sébastien, em que o pequeno cavalo dava lugar a um grande cão.
Nunca mais ouvi falar em Cécile Aubry. Até esta semana, quando soube da notícia da sua morte. Antes de se dedicar à literatura infantil, como autora de grande sucesso, tinha-se destacado como actriz em filmes como Manon, de Henri-Georges Clouzot, hoje um clássico do cinema francês, e A Rosa Negra, ao lado de Tyrone Power e Orson Welles. O rosto correspondia ao nome: era uma mulher muito atraente - como se comprova pelas capas da Life e da Paris Match aqui reproduzidas - que, no entanto, não se deixou enredar nas malhas do show business.
Escrevo estas linhas e sinto que estou a discorrer sobre tempos pré-históricos: Cécile Aubry é um nome oriundo de um mundo que deixou de ser o nosso. Um mundo muito mais simples, em que uma tarde de Verão podia ser preenchida a ler exemplares da revista Tintim, romances como O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain, ou as narrativas desta mulher que abandonou o cinema para encantar a minha geração com histórias de miúdos e dos respectivos animais de companhia.
Histórias de um mundo ainda sem computadores que deixaram um rasto de ternura imune à erosão do tempo e à voracidade de todas as modas.
Aquela pedra de gelo dizia que era feita para o amor, mas quando me lembro da forma como tratava o desgraçado do professor, até fico azul. Que cínica! Misógino que se preze só pode ter esta mulher como referência.
Solução do teste anterior: O Lugar do Morto, de António Pedro de Vasconcelos (1984), com Ana Zanatti e Pedro Oliveira.
Vencedor: Cordeiro
Ao Carioca de Limão com Cheirinho.
1. Novo lay out d' A Douta Ignorância. Gosto.
2. Terra dos Espantos também com novo visual. Por mim, está aprovado.
3. Ana Lima no 2711. Mais um motivo para visitar este blogue.
4. Cristina Nobre Soares anuncia pausa que só terminará em meados de Setembro. Até lá.
5. Agradeço à Ana Gabriela e ao Luís Serpa as simpáticas referências que fizeram à série 'Os filmes da minha vida'. Que vai prosseguir aqui no DELITO.
6. Se há coisa que aprecio é alguém com sentido de humor. Alguém capaz de dar um nome destes a um blogue. Ou melhor: de não o dar.
7. Prosa puxa prosa: o texto "delituoso" da Margarida motivou a reedição deste, do João André, que também já foi nosso convidado. As palavras são como as cerejas. E os postais também.
Um mergulho sob as cascatas da Misarela. Um bocado de história em Marialva. Caminhadas por São Jacinto. Um gelado na Emanha. Bailarico no Pinhal. Arroz malandrinho na Comporta. Uma romaria na Idanha. Uma noite em Marvão. Um poejo ou um medronho, algures entre Almodôvar e Odemira. Lapas acabadinhas de apanhar em São Jorge.
"Sócrates é como Deus Nosso Senhor, está em toda a parte”
Almeida Santos
O Bryan Adams nunca soube, mas eu namorei com ele
Metade do meu ipod tem músicas dos anos 80/90. Nunca mais senti o que sentia quando Morrissey cantava "last night I dreamed that somebody loves me" e me dava ao luxo de deprimir, nas noites quentes de Agosto, férias entediantes e a pensar que o Carlos do quinto E, afinal, só me queria por causa do cubo mágico. Não há como a música do Prince para que as nossas hormonas (já por elas aos saltos) nos obrigassem a "Get off" abanando a anca pequena (bons tempos) na idade da inocência em que o microfone que as bailarinas lambiam era um microfone e nada mais... Ou o desespero do cadeado no telefone que não nos permitia telefonar à Susy e pedir-lhe para gravar o top mais (em VHS, claro) porque iria dar os "Europe", oh the final countdown, aquele cabelo, aqueles movimentos, senhores, que lindos que eles são (que feios que eles eram).
E depois a Samantha Fox! Íamos ser assim, alma enorme e cabelo espetado, era só a nossa mãe não o cortar à tigela, íamos ser assim, giras, com a boca semi-aberta, a sussurrar "touch me" seja lá o que isso queria dizer. Namorei durante anos com o Bryan Adams, ele nunca soube de nada mas namorei. Tonight havia de ser a noite e nunca iria deixar que algum sentimento "cuts like a knife", ia tratar bem dele, era só o tipo apanhar a carreira e sair na minha zona, margem sul, autocarro 54, simples.
E depois, de chumaços enormes que não nos permitiam olhar para os lados, take on me dos Ah ah, sabiamos de cor, inovação total em termos de telediscos (sim telediscos) e - segurem-se, vou descer baixo - Tarzan boy, era terrível e andava na boca de toda a gente alternando com as aberrações "modern talking" que faziam uma dupla três D; ora de vez em quando pareciam um casal, ora agora são dois homens.
A Madonna era virgem, o festival da canção era um feito sem igual, o tabaco custava dezaseste escudos, a feira popular era o feito do ano e o cheiro preferido era do plástico dos cadernos no início do ano lectivo, início esse a que chegávamos emburrecidos de três meses de férias. Coma mental. Totalmente. Eu era a morena e tu podes ser a loura, amigas para sempre, vamos casar com dois irmãos para que não nos tenhamos de separar nunca, vou ser veterinária e modelo ao mesmo tempo. O meu melhor vai chegar, tenho o mundo todo para morder. Eram assim os anos oitenta. Bem giro.
Os anos oitenta passaram (a sério, eu sei), os anos noventa também, chegamos a 2010 e o Morrissey faz concertos no Poceirão, o cubo mágico é electrónico, o top mais foi substituido pela MTV, Prince cantou numa praia, os Europe venderam o cabelo para extensões e foram trabalhar para o talho do sogro, Samantha Fox anda com afrontamentos, o nosso cabelo não é à tigela mas o espetado já não se usa, Bryan Adams? quem é esse tipo?, não quero falar no preço do tabaco nem sequer no emburrecimento das férias que alastrou ao ano inteiro provocando nos adolescentes de hoje um vazio de ambições. Ninguém quer ir para nada, não há ambições, os veterinários estão no desemprego e já nem sequer se pode ir para dentista; ninguém hoje tem dentes para morder o mundo...
Lindsey Vonn
Hoje recebemos a visita da Margarida. Sem Filtro, claro.
Sofrer devia ser proibido.
O Galambinha tem razão: aquele assunto do Freeport está completamente esclarecido.
Em seis anos de investigação sobre o caso Freeport, o Ministério Público não teve tempo para registar as respostas que o ex-ministro do Ambiente José Sócrates estaria certamente pronto a dar a 27 pertinentes perguntas sobre o tema. O que parece dar razão ao juiz Rui Rangel, que esta noite, no telediário da RTP2, afirmou sem rodeios: "Há que repensar o papel do Ministério Público no domínio da investigação criminal." Enquanto isso não acontece, seria útil contratarem novos peritos em material tecnológico. Só para evitar que futuros "problemas no sistema central de gravações" voltem a impedir a realização de escutas a suspeitos, como sucedeu entre 26 de Fevereiro e os primeiros dias de Março de 2005, também no caso Freeport. Uma chatice.
ADENDA - Vital Moreira, fiel ao seu estilo, prefere matar o mensageiro. Nada de novo.
Diogo Noivo, aqui.
«Como estamos num Estado de direito, Sócrates é inocente, ponto,»
(Título de Isabel Moreira só com vírgulas, aqui)
Após a "pausa" do ano passado, o Fórum Fantástico regressa este ano, de 12 a 14 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Telheiras. Até ao momento, já está confirmada a presença de alguns escritores nacionais e internacionais. Mais informações aqui.
Só há pouco li, na revista "Actual" do Expresso, um extenso artigo de Rui Ramos sobre Salazar e o Estado Novo, no qual esbarrei com este período: «Perseguiu e exilou o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, em 1958-1959.» É um simples detalhe retirado do todo, mas chamou a minha atenção. Como a História não se inventa e como já me tenho dedicado ao assunto, retirarei de um livro que publiquei há meia dúzia de anos um excerto em que narro o episódio.
«Em 1958, D. António Ferreira Gomes (1906–1989), bispo do Porto, depois de duas intervenções entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem os princípios sociais da Igreja. Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo desloca-se a Roma no ano seguinte e, na volta, é impedido de entrar no País, ficando em Tuy (na Galiza) e passando depois a viver entre Espanha, França (Lourdes) e o Vaticano. Em rigor, não tem o estatuto de exilado político e não chega a ser substituído como bispo do Porto. O Papa João XXIII — Ângelo Giuseppe Roncalli (1881–1963) — nomeia-o para uma das comissões que preparam o concílio Vaticano II e o seu regresso só vai ser possível dez anos mais tarde, em 1969, na sequência de um movimento em que sobressai o advogado portuense Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (1934–1980), num envolvimento que o transporta à política, para se destacar depois como deputado da "ala liberal" nos finais do Estado Novo.»
Não deve dizer-se, portanto, que o bispo do Porto foi perseguido e exilado de facto e menos ainda que isso ocorreu em 1958/59. Na verdade, o plano foi mais bem urdido: esperaram que ele fosse ao estrangeiro e criaram uma teia artificial de dificuldades administrativas na fronteira para impedir a sua reentrada em Portugal. O afastamento do bispo durou uma década, mas foi em vão que o Estado Novo pressionou a Igreja para que o substituísse na diocese do Porto.
Imagem — Estátua de D. António Ferreira Gomes (Porto, Clérigos)
Não sei a que textos em concreto alude João Galamba, por interposto militante socialista da Amadora, para sustentar em abstracto que este blogue devia pedir desculpa ao primeiro-ministro. Será este, em que sublinho a presunção de inocência de José Sócrates enquanto aproveito para lembrar aos mais esquecidos que o actual chefe do Governo ascendeu a secretário-geral do PS na sequência de acusações não comprovadas contra o antecessor, Eduardo Ferro Rodrigues, numa clara demonstração de que a política tem horror ao vácuo? Será este, em que refiro a necessidade de explicações do primeiro-ministro, reafirmando a sua presunção de inocência? Será este, em que se anota que o Presidente da República considerou o caso Freeport um "assunto de Estado"? Ou este, que comenta a tardia demissão do procurador Lopes da Mota após a pena de suspensão que lhe foi imposta pela secção disciplinar do Conselho Superior do Ministério Público no termo do processo disciplinar instaurado pelo procurador-geral da República por pressões sobre os investigadores?
Não ignoro que é mais fácil, para um deputado da nação, criticar blogues do que atacar o Chefe do Estado ou o procurador-geral Pinto Monteiro a propósito do caso Freeport. Até por isso, agradeço antecipadamente a resposta.
A talhe de foice sobre um ponto tocado pelo José Gomes André aqui mesmo por baixo, registo explicitamente uma conclusão tirada aqui por um tal José Albergaria, que publicita as abrantices do costume e que João Galamba correu a publicar em segunda mão sem trabalho nem imaginação própria: «Acham que algum desses senhoritos (Zé Manel Fernandes, Pacheco Pereira, Moura Guedes, Ana Leal, Eduardo Moniz, José António Saraiva, os bloguistas do 5 dias, do Mar Salgado, do Corta Fitas, do Delito de Opinião, do, do...) vão apresentar desculpas a José Sócrates? Podemos, todos, ficar à espera e sentados.»
Estamos a falar do mesmo Sócrates? Bem me parecia. Pela nossa parte e relativamente ao que escrevemos ao longo do tempo, podem mesmo ficar todos à espera. Mas não é sentados, ouviram? Ou alguém vos deu autorização para preguiçar? É em pé, que é bom para as pernas. E bem vão precisar delas não há-de faltar muito.
1. "A verdade vem sempre ao de cima", diz-nos Sócrates. Certamente... Basta aliás estar atento às notícias da sucessiva incapacidade da justiça para punir criminosos reconhecidos como Valentim Loureiro, Pinto da Costa ou Isaltino Morais, entre outros. Significa isto que Sócrates é culpado de um acto ilícito? Não. Tal como não significa que é inocente de qualquer acto ilícito apenas porque o Ministério Público foi incapaz de apresentar prova ou porque o tribunal assim o determinou.
2. Pode então perguntar-se: "Mas pairará sempre sobre Sócrates um manto de suspeição, apenas porque os seus opositores o desejam?". Ao que respondo: da minha parte, seguramente. Não devido ao Caso Freeport, mas pela extraordinária capacidade do primeiro-ministro em cultivar amizades com patifes de toda a espécie e em se meter em todo o tipo de trafulhices (particularmente as de "menor porte") - da Licenciatura às casas da Guarda.
3. Sobre o processo em causa, continuam por responder algumas questões de somenos importância: como diabo se constrói um monstro urbanístico daquele género numa área protegida? Quem o autorizou e porquê? E a troco de quê?
4. Registe-se a reacção histérica à Esquerda. Os Abrantes foram ao baú resgatar umas capas de jornais supostamente "caluniosas" (como adoram a palavra), suplicando pela imolação dos jornalistas que não obedeceram aos pedidos caridosos de Lopes da Mota & Ca. Tiago Barbosa Ribeiro (não confundir com o excelente autor do "Kontratempos", que emigrou para parte incerta) pede mesmo o julgamento dos jornalistas envolvidos. E João Galamba, citando José Albergaria, exige um pedido de desculpas de uma data de gente, incluindo os bloggers do "Delito de Opinião". Da minha parte, pedirei desculpa com a máxima prontidão, assim que Sócrates também pedir desculpa por ter mentido sobre os números do défice, o não-aumento de impostos e o grau de endividamento nacional. Palavra de honra.
São palavras de José Sócrates, impressas há exactamente 28 dias, no jornal Público. Palavras, como tantas outras deste primeiro-ministro, destinadas a figurar numa espécie de antologia muito particular. Nem um mês decorreu e já a poderosa Telefónica passa a liderar o mercado brasileiro de telecomunicações após adquirir a participação da PT num raide digno dos filmes do Rambo. Diferença: oferecia 7,15 mil milhões de euros, mas acabou por oferecer 7,5 mil milhões. Olé.
Sócrates, como sempre ocorre quando é ultrapassado pelos acontecimentos, congratula-se com o sucedido: "Valeu a pena ter resistido às pressões." Já está esquecido das suas próprias palavras, aparentemente tão categóricas, dadas à estampa no início do mês. Ficam reimpressas aí em cima, com a devida vénia: a função dos blogues é também a de reavivar permanentemente a memória dos leitores. Entretanto, ficamos a saber qual é o valor exacto dos "interesses estratégicos do País", na óptica do primeiro-ministro: 350 milhões de euros. Razão tinha o outro: para tudo há um preço.
ADENDA: Em matéria de nacionalismo económico, o Brasil dispensa lições portuguesas. Como sempre foi óbvio. (Via Blasfémias)
Ao Plataforma Algarve pela Vida.
Macau Passado é um novo blogue do João Severino, a quem até fica mal dar as boas-vindas, pelas suas vivas andanças na blogosfera. Mas fica feito o acolhimento ao novo espaço, que promete ser um repositório de muitas memórias dos vários anos passados no "último reduto do Império Português".
Um abraço ao João e longa vida ao projecto.
Foi logo de manhã, quando ia no carro; ultrapassei um ciclista e um cão cinzento. Pareceu-me estranho que o ciclista estivesse a passear o cão numa estrada cujo trânsito aconselha alguns cuidados. E também me pareceu estranho a ausência de capacete, não no cão, já se vê, mas no ciclista. Talvez por isso, pela ausência de capacete, ao fazer a dupla ultrapassagem tive a sensação de que se tratava de um conhecido político (o ciclista), e ainda por cima a revelar-se bem esforçado naquele momento. Pedalava com afinco, como se estivesse a terminar, nem sei, a escrita de um discurso, ou as contas de um orçamento de estado, ou umas papeladas para se reformar ao fim de dois anos de um instituto qualquer. O cão, uns metros atrás dele, fazia o que podia para conseguir acompanhá-lo.
Fui-os observando pelo espelho retrovisor, diminuindo um pouco a marcha do carro. Acabei por confirmar que era mesmo o conhecido político. E notei que o cão ladrava. Claro que eu não ouvia, por causa do barulho do rádio, mas dava para ver os movimentos da boca do cão no espelho retrovisor.
«Ladra de contente», foi o que pensei. Uns segundos, não mais do que isso, até perceber como o cão tinha o focinho muito franzido. E que o político pedalava com afinco porque, afinal, fugia do cão. Alguma coisa ele teria feito ao cão, de certeza.
Ao fim nem de um quilómetro, o político meteu-se por uma estrada secundária, que começava do lado esquerdo. Uma manobra perigosíssima, e sem fazer sinal com o braço nem nada. Não sei por quê, travei. O cão, sempre a ladrar, foi apanhado de surpresa. Pelo desvio do político e pela minha travagem. Acabou por bater-me no carro, com estrondo. E ainda por cima era um cão grande.
Levei o carro para a berma e saí. Dei logo com o cão estendido no alcatrão. Já não ladrava, nem sequer tinha o focinho franzido. Mas estava de olhos abertos, e respirava. Aproximei-me devagar. Ele olhou para mim, parecendo querer ajuda. Achei estranho, pois se estava assim era por causa da minha travagem. Talvez devesse ladrar-me. E perseguir-me como fazia antes ao político ciclista. Mas não. Queria ajuda. Pedia-a com olhar.
Agarrei-o junto às patas da frente, para levá-lo para a berma. Enquanto fazia isso, percebi que ele começava a levantar-se, tentando apoiar-se nas quatro patas. Já na berma, pareceu recuperado, mas ainda confuso, sem saber para onde ir.
Olhei para a estrada, num e noutro sentido. Não vinha nada. Então atravessei para o outro lado, batendo com as mãos nas pernas, um pouco acima dos joelhos. O cão percebeu e seguiu-me. Quando cheguei à estrada secundária, apontei lá bem para o fundo, para onde o político em fuga não era mais do que um pequeno ponto de referência.
O cão pareceu entusiasmar-se. Até que começou a correr, de forma atabalhoada. Ao fim de uns vinte ou trinta metros já dava para ver que recuperava o ritmo normal. A pancada não devia ser coisa séria. Até porque ele já ladrava outra vez. Desejei-lhe sorte e fui ver se o carro tinha alguma amolgadela.
Vasco Martins, aqui.
Não é por nada, mas não queria deixar de dar os parabéns a Ricardo Salgado.
Invulgar sucesso de bilheteira, este filme português, dos anos oitenta, teve a particularidade de ser protagonizado por um jornalista e a uma apresentadora de televisão.
Solução teste anterior: mãe de Steven Spielberg, realizador de ET.
Vencedor: Leonor
Chega para lá esse Ministério
O meu ramo de engenharia não é a civil, acho que as autoestradas nos trocaram o tempo ganho e o encurtamento de distâncias pela monotonia com o juro do roubo das paisagens. Para mais, detesto pagar as portagens. Portanto, o ramo das Obras Públicas não é comigo. É mesmo o ramo ministerial que me está mais distante. Prefiro as Finanças, para as odiar quando me descontam o IRS. Ou a Cultura para me lembrar de Carrilho em oportunidade aproveitável de simpatia. Também gosto da Defesa para me rir do caricato de terem abolido o serviço militar obrigatório substituindo-o pelos submarinos obrigatórios. Enfim, e resumindo, as Obras Públicas estão-me sempre, qualquer que seja o ângulo de apreciação, em último lugar de proximidade e estima. No entanto, se tento afastar de mim o cálice das Obras Públicas, estas, nos últimos anos, teimam em não me largarem. Primeiro, Santana Lopes ministeriou um tipo que, antes e quando presidente da empresa em que eu trabalhava, tentou “despedir-me com justa causa” por umas coisas que escrevi num fórum interno da empresa. Santana caiu e subiu ao Ministério das Obras Públicas um meu antigo camarada de partido com quem tive colaboração próxima e de quem não só tinha boa opinião como acrescia uma estima pessoal. Mas não tardou que ele se saísse com boutades atrás de boutades e, inclusive, me pusesse a viver no meio do “deserto”, ofendendo-me e ao resto da malta da margem sul. Percebi, assim, que este amigo e antigo camarada, por força de enturmar na equipa de Sócrates, se tornara um trapalhão. Depois veio o Doutor Mendonça, que foi vários anos meu vizinho de residência, com as nossas famílias a partilharem convívios e com quem conspirei fartamente na camaradagem da dissidência no PCP sob a utopia pueril de “democratizar o partido”, ou seja, tornar quadrado o que é redondo. Fiquei à espera do que lhe aconteceria após frequentar uns tantos conselhos de ministros chefiados por Sócrates, um especialista a degradar ministros que não tenham tomado posse já em estado de degradação. Não tardou a resposta temida. Primeiro, propagandeou o TGV como forma de captar banhistas espanhóis para a Costa da Caparica. Agora acaba de me ofender, enquanto transmontano de origem, esparvoeirando a dizer que era mais barato oferecer automóveis e combustíveis ao pessoal do vale do Tua que manter-lhes o comboio em andamento. Convenci-me que há aqui sina não escrita na palma da mão. Pelo sim e pelo não, tenho debaixo de olho todos os tipos de algum gabarito que conheço e sejam potencialmente ministeriáveis. Algum de entre eles, certo e a saber, vem a seguir ao Mendonça. Para as Obras Públicas, é claro.
... qual foi a utilidade que teve a utilização da golden share. O resultado final parece-me muito semelhante -- para não dizer igual -- ao que já se antecipava como sendo possível nessa altura. Basta consultar os jornais. Tudo não passou de uma manobra estéril para o Governo mostrar autoridade? Para o Governo ceder sem parecer que o estava a fazer? É para isso que serve a golden share?
Daqui a pouco, aparece por cá o João Tunes. Com a acutilância e a irreverência a que já nos habituou no seu blogue, Água Lisa.
Freepór? Ah, pois, o Freepór. Não deixaria a noite chegar sem fazer um comunicado sobre o Freepór, claro. O dia tivera uma agenda apertada com o seu ponto alto em Sines, no seu seapór e no futuro Harbor Freight Transpór. Tivera de falar na alta velocidade, mas sem se referir ao novo airpór. A seguir, dispensaria o motorista para dar uma volta no seu carro de spór. Depois de jantar, iria calhar bem um cálice de Pór wine doce. Onde é que se produz? Será em Pór-au-Prince? Ou em Davenpór? Não interessava. Esperava-o uma noite bem dormida. Queria levantar-se cedo, chamar o transpór oficial e ir fazer uma corridinha junto ao cais, lá para as bandas do Taguspór. Se o dia fosse mais calmo, aproveitaria para rever aquele velho compêndio de inglês técnico.
A Insustentável Beleza dos Seres.
«Em 2013, haverá uma linha de alta velocidade Poceirão–Madrid, que servirá também para mercadorias.» Estas palavras foram proferidas hoje pelo primeiro-ministro. Já não me lembro qual tinha sido a última versão e também ficou por se saber como é que a obra irá ser paga, mas agora varreram-se quaisquer dúvidas, porque a frase foi claríssima. Mais a mais, quem fez a afirmação foi o próprio José Sócrates. Portanto, pode dar-se como certo que a linha não será para mercadorias, não será Poceirão–Madrid e não será de alta velocidade. Nem será em 2013.
Ainda bem que terminaram todas as dúvidas, não é?
Diogo Freitas do Amaral anda mesmo em passo trocado relativamente ao Governo. Numa altura em que o Executivo socialista prepara um novo pacote de megaprivatizações, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates exibe musculatura nacionalista, proclamando na Visão: "Se a União Europeia acabar por nos tirar - sem fundamento explícito nos tratados - as golden shares, a Assembleia da República não deve hesitar em estabelecer, por lei, os direitos de veto do Governo nas empresas consideradas estratégicas. E se essa e outras medidas semelhantes também forem consideradas 'ilegais' à luz do Direito comunitário(!), então haverá que caminhar sem receios para a nacionalização de 50,01% do capital das empresas que não estamos dispostos a perder. O Estado português não pode ceder."
Aprecio esta bravata do biógrafo de D. Afonso Henriques. Restam-me, no entanto, algumas dúvidas. Aqui ficam elas:
Quais as empresas que "não estamos dispostos a ceder"? Serão a TAP, a ANA, a EDP, a GALP, a CP e os CTT, que o Governo quer privatizar rapidamente e em força? Será a Vivo brasileira, que suscitou o recente conflito entre a PT e a Telefónica espanhola, agravado com a interferência de Sócrates? O regresso ao nacionalismo económico num mundo globalizado é um sinal de "progresso"? A hipotética reabertura dos postos alfandegários em Quintanilha, Vilar Formoso e Vila Verde de Ficalho significaria "progresso"? E o que sucederá enfim aos interesses empresariais portugueses e espanhóis se o Presidente Lula - rendido à receita de Freitas 'Krugman' do Amaral - anunciar a nacionalização da Vivo? Regressamos orgulhosamente sós ao doce cantinho peninsular, como nos tempos de Salazar e Franco, a dedilhar guitarras e a tocar castanholas?
Vítor Baía
Luís Amado desaconselha passeios no deserto do Saara. Diogo Noivo explica o que está a acontecer e as eventuais consequências no âmbito da UE.
«Para Mouzinho da Silveira, os grandes vícios do País estão nas instituições vigentes, caducas e obsoletas, o que lhe permite expressar a ideia de que, para benefício dos cidadãos, é mais importante reformar as estruturas do Estado do que proceder à mudança do sistema de governar. Verdadeiro estadista fundamentado no conhecimento profundo das causas públicas, até a Constituição lhe parece supérflua: com ou sem ela, é possível fazer mais e melhor, alterando radicalmente a teia institucional em que Portugal está enredado.»
(O autor in O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; STJ, 2003)
Thus he (Immanuel Kant) kept away from all moralizing and understood that the problem was how to force man "to be a good citizen even if he is not a morally good person" and that "a good constitution is not to be expected from morality, but, conversely, a good moral condition of a people is to be expected under a good constitution".
Hannah Arendt, Kant Lectures, página 17. Em grande medida, este é o nosso problema constitucional. Com e sem preâmbulos, simbólicos ou não.
"DICIONARIZAR"
Segundo o Google Reader, este post foi publicado por mim às nove e quarenta e três de segunda-feira.
Este, foi publicado pelo Miguel Abrantes às nove e cinquenta e nove do mesmo dia.
Gosto muito de colaborar com os assessores do senhor primeiro-ministro.
Aqui.
A privatização da TAP é "premente". A privatização da EDP é para avançar "ainda este ano". A privatização da GALP Energia vai concretizar-se após terem sido ultrapassados os prazos iniciais. A privatização da ANA só aguarda a "definição do modelo". A privatização dos CTT poderá ocorrer até 2013. A privatização da CP vai decorrendo às talhadas, a ver se dói menos - objectivo que parece longe de conseguido.
O Governo socialista declara-se assim pronto a alienar quatro 'jóias da coroa' do estado e duas das mais emblemáticas empresas públicas enquanto os seus propagandistas assobiam para o lado, fingindo que nada se passa. E ainda há quem acuse Passos Coelho de ser um perigoso "neoliberal"...
Portas, o justiceiro, relata ao país cinco julgamentos de meliantes da Amadora ou da Damaia, não percebi bem, que sobressaltaram velhinhas nos autocarros e foram absolvidos. Um escândalo, uma vergonha.
Um minuto depois, Crespo pergunta-lhe pelos submarinos. Portas, homem de estado, responde-lhe que não comenta casos concretos da justiça.
LAURA:
O AMOR EM EXCESSO PODE MATAR
Há filmes que nos tocam desde o primeiro momento. Basta uma frase. O sortilégio de Laura começa logo na frase inicial: “Jamais esquecerei o fim de semana em que Laura morreu. Não me lembro de um dia tão quente. Senti-me o único homem em Nova Iorque.” É proferida por uma voz off – a de Waldo Lydecker (Clifton Webb), famoso colunista social, habituado a construir e arruinar reputações. Somos assim logo transportados para um enigma dentro da labiríntica mente de Waldo: quem matou Laura Hunt?
O que só saberemos mais tarde é que Laura – a mulher que todos cobiçam, ao som da partitura hipnótica de David Raskin, é uma criação de Waldo. Não existia antes dele, como o ser que deslumbraria as noites nova-iorquinas, e provavelmente seria incapaz de lhe sobreviver. Neste filme de constantes trocas de identidades, onde todas as aparências iludem, Laura é tanto mais real quanto surge exposta num retrato que domina o salão do apartamento onde morou. É pela mulher que contempla neste quadro que o tenente da brigada de homicídios Mark McPherson (Dana Andrews) se deixa arrebatar em noites de insónia regadas a scotch barato. Logo ele, o homem que deixou há muito de acreditar no amor. Quando Waldo lhe pergunta se já esteve apaixonado, ele responde: “Uma vez, em Washington Heights, uma tipa conseguiu que eu lhe oferecesse uma pele de raposa.”
Um insólito clima de necrofilia percorre este filme de Otto Preminger – obra-prima do noir, o género cinematográfico que melhor desvenda a alma humana. Numa obsessiva peregrinação nocturna pelo quarto que Laura deixou vazio, Mark lê o diário dela, cheira o frasco de perfume dela, contempla os vestidos dela. E ao fechar as portas do guarda-roupa vê com espanto a sua própria imagem reflectida no espelho. Percebemos de imediato que mal se reconhece: está apaixonado por um cadáver.
Das sombras nocturnas de Nova Iorque emergem figuras que se vão iluminando. Waldo, o homem que escreve “com pena de pato embebida em veneno”. Shelby Carpenter, o galã com voz de veludo que passa cheques sem cobertura enquanto proclama: “Posso tolerar uma mancha no meu carácter mas não no meu fato.” A tia de Laura, incapaz de suportar a ideia de ver a sobrinha casada com Shelby. E Mark, que conduz o inquérito com a raiva surda de um amante despeitado. Como se soubesse de cor o poema que Waldo declama no seu programa radiofónico: “O amor estende-se para além das trevas da morte.”
A paixão partilhada por Laura – deslumbrante Gene Tierney, escolha perfeita para este papel – traz à tona as piores facetas dos homens que se deixam sucumbir pelo seu feitiço. De tal maneira que saber quem a matou passa a ser a questão que menos interessa perante a certeza de que todos seriam capazes de matar por ela. Incluindo o polícia que se perdeu de fascínio pelo seu retrato.
“O homem mata o que ama”, dizia Oscar Wilde. O amor em excesso pode ser fatal. E a ilusão do amor também.
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Laura (1944). Realizador: Otto Preminger. Principais intérpretes: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson
Aqui.
... um bebé a comer uma melancia pode parecer que a melancia está a comer um bebé? Ah, não sabia. Nem eu.
É como o Estado estar a comer mais impostos e parecer que são os impostos que estão a comer a gente.
Socialismo moderno
Existe uma velha cartilha ideológica que diz que a esquerda é amiga dos pobres, enquanto a direita, essa maléfica trupe de malfeitores, defende apenas os ricos e os capitalistas. Este simplismo ideológico, que muito boa gente genuinamente acredita e defende, tende a dificultar um debate sério sobre o desenvolvimento de uma sociedade. Claro que em países politicamente maturos esta cartilha não é tão evidente no debate público. Mas em Portugal, onde o partido mais à direita se chama Centro Democrático Social e o grande partido de centro-direita é o Partido Social Democrata, esta divisão adultera muitas vezes o debate. Se tentarmos explicar que o que existe são projectos diferentes para a sociedade, com a direita a acreditar mais no papel dos cidadãos e dos privados como motor do progresso económico e social, rapidamente nos chamam de neoliberais (esse fantasma que ninguém percebe muito bem o que é) e nos mandam calar. O Estado, na direita que eu acredito, tem um papel importante na regulação da sociedade, no estabelecimento de rigor na vida pública e também na ajuda aos mais desfavorecidos e desafortunados.
Mas a realidade é perversa e muitas vezes encarrega-se de desmentir estas falsas visões. Nada melhor que olhar para actuação do governo socialista para desmentir esta visão simplista. E nem é preciso dizer que na última década e meia, quase sempre governados por socialistas, os portugueses viram o seu nível de vida agravar-se, com a classe média a viver pior e o número de pobres a aumentar. Mas prefiro analisar políticas concretas.
Nas suas políticas de controlo das contas públicas, e contrariando o defendido pelos partidos do centro-direita, o PS apostou numa sobrecarga fiscal (desde 2005 que os impostos têm subido de forma ininterrupta), e nunca cortou na despesa do Estado, a grande responsável pela situação deplorável das contas. Mais grave ainda: nos últimos meses, ao abrigo das políticas de austeridade, têm sido cortados apoios essenciais para os mais desfavorecidos, em contraste com a manutenção dos grandes elefantes brancos do Estado: as fundações inúteis continuam intocáveis, o desperdício corrente da Administração mantém-se e os luxos execráveis, como a compra de 900 automóveis, não param. A opção politica foi outra: além de um novo aumento de impostos, cortou-se nos apoios aos desempregados, numa altura em que já representam mais de 10 por cento da população. E este mês soube-se que as bolsas para o ensino superior vão baixar no próximo ano. Este assunto toca-me particularmente, pois desempenhei funções enquanto estudante no Conselho de Acção Social da minha Universidade e conheço de perto a realidade dos alunos bolseiros. Segundo números do Administrador de Acção Social da Universidade do Minho (uma das zonas mais afectadas pela crise) no próximo ano cerca de 50 por cento dos alunos bolseiros podem ficar sem acesso à bolsa com estas novas regras. Ora digam-me se isto é de quem se preocupa com os mais pobres?
As soluções defendidas pelo centro-direita só podem divergir desta lógica socialista, que tudo pretende controlar através do Estado, que interfere em tudo o que mexe na sociedade civil, mas que em momentos de aperto e de crise não se recusa em cortar apoios substanciais às classes desfavorecidas, apenas para manter as regalias de um Estado forte e omnipotente. A alternativa terá de surgir por libertar a sociedade do estado, mantendo uma rede de ajuda aos mais precisam; não para estes se encostarem ao Estado, mas para evoluírem e se reerguerem. Este deverá ser o caminho para Portugal. Veremos se ousamos segui-lo.
Hoje é dia de recebermos a visita do Nuno Gouveia. Dos blogues Era uma vez na América, O Cachimbo de Magritte e 31 da Armada.

«Concordo consigo quando escreve que a Constituição não é intocável. Não é, não tem sido, nem deve ser, pois, tal como toda a legislação, vai necessitando de ajustes com o passar do tempo. Todavia, é sempre perigoso proceder a uma revolução, seja em qualquer diploma legal, seja, sobretudo, na Lei Fundamental que é o pilar da nossa Democracia e do nosso sistema político, social e económico.
Para além de concordar com o ponto 1 e deixando o 2 para o fim, concordo com o ponto 3. De facto, até consigo compreender o que penso que seja o objectivo da alteração linguística. Mas, tal como escreveu e bem, a expressão proposta é demasiado vaga e acaba por estar bem mais perto do despedimento livre do que do actual regime por vezes rígido. Talvez com a negociação se possa encontrar um termo mais adequado e que não abra as portas ao despedimento livre.
Ponto 4. Esta matéria vai ao encontro daqueles que defendem um regime presidencialista. E não vale a pena vir o PSD tentar esclarecer, afirmando não pretender dar mais poderes ao PR. Como escreveu Vital Moreira, no Causa Nossa, é mangar com os portugueses. A proposta traduz-se, de facto e sem qualquer margem para dúvidas, numa alteração do cariz semi-presidencialista, atribuindo mais poderes, quase ilimitados, ao PR, no que tange à relação com o governo.
Finalmente, quanto ao ponto 5, do PCP e do BE não é de esperar outra coisa. Quanto ao PS, acredito que será um misto entre tentar aproveitar eleitoralmente a proposta e defender a sua matriz, pois, quer se goste ou não, quer tenha corrido bem ou mal, o PS tentou sempre desenvolver o sector social com investimentos e medidas nessa área. A reacção, por exemplo, de António Arnaut sobre a proposta na Saúde é perfeitamente justificada, pois foi ele que criou o SNS e o actual modelo de Saúde.
Vamos então ao Ponto 2, à Saúde...
A tendência para a gratuitidade não é uma fraude, ou semi-fraude. Bem pelo contrário. Tal como na Educação (sobre esta área, o José Gomes André não se pronunciou), a Saúde é considerada, para muitos, umas das áreas em que o acesso deve ser livre, universal e sem quaisquer condicionalismos, sobretudo económicos. Para quem defende, tal como eu, que o Estado deve ter a menor intervenção possível na sociedade, mas ao mesmo tempo deve ter uma intervenção relevante em determinados sectores, acabar com o actual regime de Saúde e de Educação é subverter o princípio fundamental da igualdade de acesso. Por muito que se defenda e se tente criar mecanismos de compensação aos mais carenciados ou de "desconto" aos mais pobres, acabará por suceder o que aconteceu na Justiça, com o famigerado Apoio Judicário, sector este onde os mais pobres não pagam custas judiciais nem honorários ao advogado (mas este é um dos que têm pouca experiência e necessita do regime de acesso do direito para ter clientes e trabalho) e os mais ricos podem pagar, enquanto a classe média nem tem direito ao apoio judiciário nem dinheiro para pagar os elevados valores. É que nesta matéria, este governo (supostamente socialista) limitou o acesso à Justiça e transformou-a em duas justiças, a dos pobres que terão de se contentar com um advogado pouco experiente e a dos ricos que podem pagar aos melhores advogados.
Note-se que até nos EUA, o melhor exemplo de sistema capitalista do mundo, alterou o seu sistema de Saúde. Tal como vimos nos filmes e nas séries (Serviço de Urgências, por exemplo), os mais pobres ou tinham um golpe de sorte ou morriam durante a espera. Os mais ricos tinham tudo o que o dinheiro pode pagar ao seu dispor. Na prática, a proposta do PSD resultaria nisto. O mesmo se aplica à Educação, em que quem tem dinheiro tem os melhores professores, porque podem pagar os melhores colégios, enquanto que os pobres não têm acesso às melhores condições possíveis só porque não as podem pagar, competindo injustamente com os mais favorecidos no mercado e sem as mesmas armas e oportunidades.
Tudo isto se resume numa questão prévia a qualquer discussão. Achamos, ou não, que existem pessoas melhores que outras, não porque tenham maiores capacidades ou virtudes, mas apenas por causa da sua proveniência social, familiar ou condições económicas.
O mesmo critério aplica-se à Monarquia. Faz-me confusão que haja quem defenda que os cargos devem ser ocupados não por quem tenha mérito ou qualidades para as funções a eles inerentes, mas por quem seja filho de quem já lá esteja. Onde está o mérito?
Não existe, naturalmente, uma desigualdade entre os homens. À partida, à nascença, todos somos iguais e deveremos ter as mesmas chances. Entendo que haja quem considere que sim, que alguns são, por natureza, melhores, acham-se melhores, seja por causa da família de onde vêm, seja por terem mais dinheiro e, dessa forma, poderem comprar o que quiserem. Também há quem ache que os homens são melhores que as mulheres, que os brancos são melhores que as restantes raças. Entendo, pois trata-se de um ideal, de um conceito de vida. Mas discordo profundamente.»
Do nosso leitor Ricardo Sardo. A propósito deste texto do José Gomes André.
"A dor tem as suas regras próprias e aquelas pessoas que nos dizem que a raça humana procura evitá-la não sabem, é evidente, o que dizem."
Irwin Shaw, Amor numa Rua Escura
Publicações Europa-América, colecção Século XX (1971)
Fazia sempre questão de a acompanhar até à escada, mas naquele dia ela insistiu para que se deixasse ficar na sala. Ele caminhava devagar e ela estava com pressa. Teimou. Às voltas com uma afasia que lhe tolhia o discurso e limitava drasticamente o vocabulário, enquanto a seguia pelo corredor até à porta, argumentou: "É que assim tenho-te mais tempo."
Avassaladora e pueril, porque feita com as palavras que talvez não lhe dissesse se ainda soubesse usar as palavras, esta declaração de amor fê-la sorrir, enternecida, mas não a demoveu. Tinha de ir, estava mesmo com muita pressa. Poucas semanas depois acabou-se o tempo e a pressa.
- A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: "Já estamos no Algarve... Sim, já estamos no Algarve... no Algarve." À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.
- A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.
- O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.
- O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.
- A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica "não correu muito bem" e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.
- Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. "Don't do that", ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.
- O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.
- Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.
- No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. "Eu sou o David Villa", diz um. "Não, eu é que sou o Villa", contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.
Não é pelo facto de eu ser particularmente adepto de limões que o blogue escolhido da semana, que me coube nomear, é o Mercado de Limões. As razões que fundamentam a escolha são outras: num contexto em que todos somos economistas e todos os economistas que ouvimos alinham pelo coro socialista do costume, é bom ler quem, com fundamento, expõe uma outra forma de analisar o fenómeno económico e propõe, com segurança, uma outra grelha de avaliação. A ler por quem procura esta nova grelha, claro. Mas também, e sobretudo, para os que insistem, apenas porque sim, nas verdades imutáveis dos socialismos que nos governam.
Blondie, de Chic Young
Antigamente(!) dizia-se que o segredo era a alma do negócio. Hoje não faltam negócios virtuais que só acontecem nas páginas dos jornais e em que a falta de segredo é precisamente a alma do negócio. Afinal, hoje também se ganha bom dinheiro com negócios que nunca serão concretizados.
Naturalmente, as linhas que se seguem são pura ficção e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é mera coincidência.
A proposta de Pedro Passos Coelho sobre os poderes presidenciais nunca foi para levar a sério. Ao apresentar agora esta proposta -- que PPC não poderia deixar de saber que seria polémica -- o líder do PSD 'obriga' Aníbal Cavaco Silva a pronunciar-se sobre o assunto, fazendo-o renovar a sua posição de apoio à actual moldura, e arruma desde já na prateleira os defensores da presidencialização do regime, dentro e fora do PSD.
Passos Coelho pretende concorrer ao cargo de Primeiro-Ministro e não de Presidente da República, pelo que não teria interesse em alargar os poderes presidenciais, antes pelo contrário.
Perante a reacção adversa e no âmbito das negociações com o PS que irão seguramente ocorrer mais à frente, o líder do PSD será 'obrigado' a sacrificar esta proposta e em troca conseguirá assegurar aquelas que são, para si, verdadeiramente cruciais.
Cheque-mate.
Solução do teste anterior: Anthony Perkins, depois de ter protagonizado Psycho (1960), de Hitchcock.
Vencedor: Jorge Pimenta
Estes olhos foram inspirados nos de quem?
Por estes dias, Paulo Portas tem seguramente uma certa nostalgia dos tempos em que Manuela Ferreira Leite era líder do PSD. Bons velhos tempos que permitiam ao CDS ter um espaço político que hoje já não existe. Na verdade, os velhos tempos eram tão bons que o efeito foi quase de overkill e o resultado eleitoral do CDS em 2009 teve em si uma faceta algo pírrica. Afinal, o péssimo resultado do PSD tornou irrelevante o excelente resultado do CDS.
Nesta fase, Portas anda desesperadamente à procura do seu espaço no novo contexto, a procurar evitar a irrelevância política, mas não me parece claro que pelo tom das suas intervenções já o tenha encontrado. Tudo me parece intervenções de natureza ad hoc, em que o fio condutor é o tom errático. Se o CDS já encontrou uma estratégia, então confesso que não sei qual seja.
P.S. — A partir de hoje os meus posts deixam de autorizar comentários.
... esta lancha J Craft Torpedo, que lembra muito um modelo dos anos 60 usado pelo James Bond, foi lançada no Mónaco durante o Yacht Show de Setembro de 2009 e é um must este ano? Pois é verdade, mas o revivalismo da embarcação fica-se pelo design, pois o famoso construtor sueco J Craft Boats não esteve com meias medidas: pegou nos melhores materiais e madeiras autorizadas, juntou-lhes dois motores Volvo Penta IPS 500 e dotou o conjunto com um controlo por joystick (a par do volante do Ferrari 250 GTO) que confere uma incrível e excitante capacidade de manobra. Instalações? Tem-nas para quatro pessoas mais um tripulante, tudo com requinte e feito meticulosamente.
Enfim, um brinquedo muito exclusivo de Verão, feito à medida para os nossos gestores públicos, consumidos com o problema de dar saída aos bónus e prémios de desempenho. É verdade que o imposto sobre iates e outras embarcações de recreio está pela hora da morte, mas perguntem ao Vale e Azevedo, que ele conhece diferentes modalidades para dar a volta à coisa.
LA ESTACIÓN TOTAL
I
SIESTA
¡Qué solo suene el tiempo rojo y verde
contra tu comenzada ausencia eterna!
¡En qué arrinconamiento quemado nos dejaste
la superficie material sin tu presencia!
Te llevaste contigo a tu más ser
la identidad de nuestro azul,
la instalación desnuda del anhelo,
el fervor amplio de la estación plena.
(Estoy viendo ascender la rosa que dijiste,
caliente, entre la luz mayor y, a un tiempo, fresca.
Verano y sol aquí encima, sin ti.
un eco frío y una pompa seca.)
Ahora será, otra vez primaveral, debajo,
a tu apretado alrededor, tu hora entera.
Hora con radios de tu corazón
centro parado en floración suprema.
II
ESPACIO
Tu forma se deshizo. Deshiciste tu forma.
Más tu conciencia queda difundida, igual, mayor,
inmensa,
en la totalidad.
Y te sentimos
alrededor, en el ambiente pleno
de ti, tu más gran tú.
Nos miras
desde todo, nos sumes,
amiga, desde todo, en ti, como en un cielo,
un gran amor,
o un mar.
III
LUGAR
Con la tierra, en la inmensa madrugada,
tú; en esa paz sin sed, que no admite cansancio,
tesoro del estar definitivo
bajo el abismo azul sin miedo ni cuidados...
(Mano, ¡con qué mano segura
te abriste tú la estrada del remanso;
qué bien sabías tú en la sombra, arriba,
que penetrabas en la luz, abajo!)
..Y en lo evidente variable,
por el alrededor, jardín de espera
de caballeros y señoras,
tirito al blanco de la feria vana,
los otros, sí, nosotros, grises, negros,
intentando, tentando, tanteando
IV
AURORA
Estará auroreando, primero, sobre ti
el campo seco. Guadarrama rosa;
aún soñará tu tierra gris en esa lucha dulce
del sol que viene y la huidera sombra;
el gorrión accidental, la fija esquila
gotearán su son, su pío de la hora.
¡Qué plenitud, tú en lo definitivo,
fundida a lo que nunca cambiará ya la historia;
estensión de tu yedra, tu nueva vida solitaria
por lo real profundo sin pasadiza forma;
semilla verdadera de lo fijo, escultura, conciencia
enquistada en la tierra que no de desmorona!
(Un momento, en su riel, el alto tren del alba
conducirá sus deslumbrados presos de una pena a otra.)
..¡Tú dentro ya, tú fuera, tú ya libre,
el vivo muere, el muerto es inmortal,
sustancia voluntaria para más alta obra!
Juan Ramón Jimenez, Agosto de 1932
... desesperadamente partir para férias a cavalgar a revisão constitucional. Tentar, o PS tentou. Em vão.
Porquê em vão? Porque se limitou a reprovar ideias do PSD e lhe faltou uma ideia própria com pernas para andar.
Nuvens
O tempo passou e já todos esquecemos a nuvem provocada por um vulcão na Islândia, território que nos parecia longínquo mas que, afinal, está aqui bem perto. Durante dias e dias fomos assaltados pelas notícias da nuvem e das suas consequências. Porém, no meio da nuvem, a manchete foi, sem dúvida, o regresso de Cavaco Silva à nação de que é presidente. Uma epopeia, uma crónica… uma tragicomédia.
Depois da islandesa, uma outra nuvem surgiu.
Mas desta estávamos à espera: o governo socialista, saído das eleições de Setembro do ano passado, veio encher-nos os céus – o futuro – com a promessa disto e mais daquilo. Promessa que, sabia-se, não seria cumprida. Um pouco de boa memória e conseguimos relembrar como este governo tem gerido o país:
- Apresentou uma proposta de Orçamento de Estado divorciado do Plano de Estabilidade e Crescimento, como se este não estivesse intrinsecamente ligado àquele;
- Ignorando avisos e alertas, continuou a percorrer o país inaugurando coisa nenhuma e, fazendo uso da propaganda, tentou iludir a cor negra das nuvens que se aproximavam.
Não demorou muito tempo este estilo esquizofrénico de governação. Bastou o primeiro alerta de Bruxelas para que Sócrates e o governo percebessem que tinha chegado a ocasião para “fazer alguma coisa”.
Que coisa?
Pedir dinheiro para pagar os seus delírios socialistas.
Pedir dinheiro aos portugueses, já depauperados.
Pedir mais sacrifícios aos que já nada têm.
Resumindo: Sócrates transformou Portugal num país pedinte.
Para afastar estas nuvens cinzentas, só falta ao Primeiro-Ministro pedir aos portugueses para que soprem com energia nas vuvuzelas.
Pode ser que essa energia o empurre, a ele e aos socialistas, para fora do governo.
Nos dias que correm, fala-se muito no "atraso de Portugal". Ele é a economia que não cresce, o desemprego que não pára de aumentar, os políticos que não param de dizer disparates, a Justiça que já parou há muito tempo, os estudantes a dizerem disparates deste calibre. Enfim, é uma tragédia, este nosso Portugal, e uma tragédia atrasada. Mas como poderia isso mudar, quando temos serial killers com o nome de "Ghob, o Rei dos Gnomos"? Está tudo doido? Nunca ninguém viu séries norte-americanas? Sei lá, Criminal Minds, Bones, CSI? Desta nem o Horatio Caine se lembrava: "Ghob, o Rei dos Gnomos". Isto é nome - e título, não esquecer o título - que eu não daria a uma personagem de Dungeons & Dragons, quanto mais a um serial killer. E depois querem que o país se modernize. Impossível.
"INTERORGANIZACIONAL"
É dia de termos entre nós o João Espinho. Da Praça da República. Sê bem-vindo, João.
Blogue da semana
Afinidades
Ligações
Caminhos de Ferro Vale da Fumaça
Dissonâncias d' Aquém e d' Além
E as fadas... também se enganam no caminho?
This is not simply a metaphore
Lá fora cá dentro
Crónicas das Horas Perdidas (Holanda)
2 Dedos de Conversa (Alemanha)
Estrada Poeirenta (Moçambique)
No Cinzento de Bruxelas (Bélgica)
O Livro das Contradisoens (Timor-Leste)
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