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Congresso do PSD: quatro notas

por Pedro Correia, em 18.02.18

1. Rui Rio reafirmou a sua convicção de que o PSD é um partido com "matriz social-democrata", ainda que a social-democracia esteja em recuo acelerado um pouco por toda a Europa. Louvo-lhe a coragem política.

 

2. Mal iniciou funções na presidência do PSD, o novo líder já tem adversário interno assumido: Luís Montenegro chegou-se à frente e marcou o território. Vamos ouvir falar com muita insistência nele nos próximos dois anos. Não por ter feito marcação a Rio, mas por ter condicionado a margem de manobra de potenciais rivais. Que serão muitos, num futuro próximo.

 

3. Elina Fraga, sucessora de António Marinho e Pinto como bastonária da Ordem dos Advogados, regista uma progressão meteórica: ascende a uma das vice-presidências do PSD quando quase ninguém sabia que ela era sequer militante do partido. Eis um exemplo de "abertura à sociedade civil". Pena que os militantes, ignorando tal facto, lhe tenham tributado uma sonora vaia quando foi chamada ao palco.

 

4. O grande animador deste congresso foi Pedro Santana Lopes, sempre mais aplaudido do que o novo presidente. Há tradições que não mudam.

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Um privilégio inaceitável

por Pedro Correia, em 18.02.18

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Deter um juiz em Portugal é mais difícil do que no resto da Europa.

Nada que surpreenda. Mas seguramente algo que devia envergonhar-nos enquanto cultores do princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei - uma das traves-mestras do nosso ordenamento jurídico-constitucional.

Retomo o que escrevi aqui há menos de um mês, quando dois desembargadores foram constituídos arguidos no âmbito da Operação Lex: considero profundamente errado que um juiz  não possa ser detido preventivamente excepto em casos de flagrante delito, ao abrigo de uma anacrónica norma do Estatuto dos Magistrados Judiciais.

Rui Rio anda à procura de propostas inovadoras que possam mobilizar os cidadãos e confrontar o Governo socialista com as suas responsabilidades legislativas. Esta bem poderá ser uma delas: pôr fim imediato a tão chocante privilégio que nos deixa de passo trocado com os restantes países europeus.

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Blogue da semana

por Rui Rocha, em 18.02.18

Uma praia de lucidez e serenidade em tempos revoltos, mesmo quando o espaço é ocupado pelo cantinho do hooligan. A Origem das Espécies do Francisco José Viegas é o nosso blogue da semana.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.02.18

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  Apagar Estocolmo, de Jens Lapidus

Tradução de Carmo Vasconcelos Romão

Romance policial

(edição Suma de Letras, 2018)

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Pensamento da semana

por João André, em 18.02.18

Um mundo completamente ligado electronicamente permite-nos partilhar a nossa vida. Mostramos viagens, sorrisos, festas, roupas, carros, concertos, sucessos profissionais. Fazemos likes aos outros na esperança que façam o mesmo a nós e invejamos. Invejamos o sucesso, o dinheiro, os parceiros, os amigos, a disponibilidade, os corpos, os brinquedos, a família. Invejamos a vida.

 

A vida toda? Não. Apenas metade dela. A outra, a que não vemos e que nos ajuda a crescer para podermos, saibamos aprender e tenhamos sorte, ter aquela que mostramos aos outros. Pena então que a vida que mostramos não seja aquela que melhor serviria os outros. Que tragédia tão electrónica. Que tragédia tão humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (324)

por Pedro Correia, em 18.02.18

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Leituras

por Pedro Correia, em 17.02.18

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«Mostra-me uma emoção descontrolada e eu mostrar-te-ei uma derrota certa.»

Warren Adler, A Guerra das Rosas (1981), p. 135

Ed. Círculo de Leitores, 1991. Tradução de Maria Adelaide Namorado Freire

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Resistência activa ao aborto ortográfico (129)

por Pedro Correia, em 17.02.18

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  Em Algés

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.02.18

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  Deixarás a Terra, de Renato Cisneros

Tradução de Mário Dias Correia

Romance

(edição Planeta, 2017)

 

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Canções do século XXI (323)

por Pedro Correia, em 17.02.18

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É já para a agenda

por João Villalobos, em 16.02.18

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Quem não aparecer vai reencarnar como escaravelho da batateira, só estou a avisar. Livro à venda num Pingo Doce perto de si a partir do próximo dia 21.

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Rui Rio e o "novo PSD"

por Pedro Correia, em 16.02.18

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Rui Rio, desaparecido em combate desde que venceu a eleição interna há mais de um mês, ressurgirá hoje na sessão inaugural do congresso do PSD.

Chega envolto numa névoa de interrogações.

Trará ele ideias inovadoras? Conseguirá "regenerar o partido", como prometem os seus mais firmes apoiantes e vem advogando há anos o seu principal ideólogo, Pacheco Pereira?

 

Da recente campanha eleitoral, ressaltaram três pontos do pensamento do novo presidente do PSD:

- Abertura à formação de um bloco central, prontificando-se a viabilizar um novo governo socialista que possa dispensar o apoio parlamentar de comunistas e bloquistas;

- Deslocação do PSD do centro-direita para o centro-esquerda, em nome da suposta matriz original do partido, abrindo assim espaço à progressão do CDS a nível nacional como já sucedeu nas autárquicas em Lisboa;

- Reafirmação da social-democracia como modelo ideológico do partido, renegando os modelos conservador e liberal, numa altura em que os partidos sociais-democratas estão em regressão em todo o espaço político europeu - como as eleições de 2017 na Holanda, Bulgária, França, Reino Unido, AlemanhaÁustriaRepública Checa e as eleições parlamentares realizadas no ano anterior em Espanha demonstraram.

 

Acredito que Rio seja consequente com este pensamento. E como a política vive muito de actos simbólicos, aguardo que aproveite este conclave laranja para anunciar a retirada do PSD do Partido Popular Europeu, que agrupa a família política conservadora, por troca com o Partido Socialista Europeu, que congrega a social-democracia e o trabalhismo representados nas instituições parlamentares de Bruxelas e Estrasburgo.

Com um só gesto, vira o PSD à esquerda, abraça sem reservas a social-democracia como família europeia do partido que agora lidera e começa a preparar terreno para uma futura coligação com o PS.

Os dirigentes visionários comportam-se assim. Dele, confesso, não espero menos que isto.

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Convidada: SOFIA GONÇALVES

por Pedro Correia, em 16.02.18

 

Sai um crime ambiental para a mesa 6!

 

Aquele ditado, “mais vale prevenir que remediar”, é mais um “olha para o que te digo e não para o que faço”. Embora exista a intenção de minimizar problemas, a política ambiental em Portugal não existe. Existem obrigatoriedades e preceitos europeus e internacionais impostos, mas também existem umas quantas sub-leis, entrelinhas, e outras entidades em que essas mesmas directrizes não se aplicam. Somos um povo de excepções.
A economia verde foi criada por capitalistas. Foi só uma forma de embelezar um capitalismo, com um mote mais carismático para o povo que agora já não é tão ignorante e começa a preocupar-se com o fim da vida como a conhecemos. As lâmpadas que poluem menos, o combustível que tem menos impacto, o filtro de água para evitar comprar garrafas de plástico e toda uma panóplia de objectos e acções do dia a dia que nos foram sendo incutidas com o intuito de contribuir para um planeta mais limpo e salvar o mundo no final do dia. Comprar um filtro de mês em mês não deixa de ser uma forma de consumismo? Gastamos menos plástico, mas não deixamos de produzir resíduos se pensarmos em todo o processo que está na criação daqueles filtros desde o plástico, como o próprio filtro interior, como o revestimento de plástico e cartão para estar nas prateleiras do supermercado, como o transporte que foi necessário até chegar à nossa mão. E depois, quando queremos separar e dar um final correcto a esses materiais? Já tentaram ir a um local de recolha de resíduos vender “lixo”? Recebem dinheiro por cartão, e plástico mole, e aço, e ferro, e sucata, etc. Mas também têm de pagar para ficarem com entulho de obras, por exemplo, para ficarem com plástico duro, e outras formas. Ou seja: no final, temos de pagar para ficarem com o nosso lixo (isto como se já não pagássemos nas facturas da água). Na minha humilde opinião, o nosso problema não está em arranjar soluções para destruir o nosso lixo, mas arranjar formas de deixar de criar tanto material.
Mas onde cabia aí o capitalismo?
Posso falar-vos noutra forma de capitalismo ambiental, que já todos conhecíamos, mas foram precisos anos de incêndios e a perda de vidas de vários portugueses para abrirmos os olhos: o nosso ordenamento territorial.

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Ainda era eu uma estudante universitária de biologia, em 2013, quando a agora líder de um dos maiores partidos portugueses, Assunção Cristas, criou uma lei sobre a plantação do eucalipto. Diziam os defensores desta lei que a ideia não era estragar a floresta portuguesa, mas sim acabar com a burocracia da florestação. Pois é, só faltou mencionar que é permitido plantar livremente um eucalipto praticamente em qualquer lado, mas é necessário notificar as autoridades caso queiram plantar um carvalho, que seria o mais normal, tendo em conta toda a história e evolução biogeográfica do nosso país.

É possível que tais directivas sejam impostas, quando já ouvi profissionais da área mencionarem que em áreas desflorestadas, para evitar a erosão, o melhor era plantar eucaliptos e acácias, mesmo depois de contrapostos por colegas meus a sugerir que a melhor opção seria plantar arbustos autóctones, como ericas, ou azinheiras.
O eucalipto é uma planta exótica. Como várias outras espécies exóticas, que se adaptaram ao nosso ambiente, proliferaram e podem tornar-se espécies oportunistas, galgando terreno facilmente. O eucalipto foi um bom oportunista porque parasitou o melhor vector que podia encontrar: humanos. Dá-nos jeito, cresce rápido e fornece madeira. E quando uma coisa faz o mesmo efeito em menos tempo isso geralmente é sempre mais dinheiro para a carteira de uns. Neste caso, falamos do interessado final: os madeireiros. As percentagens de eucaliptos e pinheiro bravo em Portugal são muito próximas. Estas duas espécies são das mais usadas pelas principais madeireiras. Numa discussão com um técnico desse tipo de indústria, afirmei que o problema dos incêndios em Portugal não reside só nos eucaliptos, mas também nas monoculturas, na inexistência de barreiras, nas extensões de um só tipo de matéria-prima. Ele contrapôs que não era esse o problema e questionou como é que eu resolvia a diferença de crescimento entre espécies diferentes e a falta de espaço para cortar uma árvore sem cortar a do lado. Eu admiti que é um problema, mas quilómetros e quilómetros de terrenos queimados e pragas difíceis de controlar, como acontece agora no eucalipto, não são melhores escolhas.
A liberalização do eucalipto foi uma grande ajuda para a industria madeireira, como os OGM foram uma ajuda para empresas como Monsanto. Assim vamos deixando na mão de alguns o que é de todos, deixando-os estragar o pouco de bom que ainda sobra deste mundo. O Tejo é só mais um reflexo disso: um bem público passa a ser usufruto de entidades privadas, que passam intactas pois as entidades que deviam gerir e punir estão compradas. Acham mesmo que o Estado não faz ideia da qualidade das águas? Acham mesmo que os estudos são feitos como deve ser? Basta eu dizer que tenho X por cento deste elemento químico na água, que aparece uma empresa que pertence a alguém muito importante primo de outro alguém importante no Governo que mostra que com as directivas delas esse X por cento do elemento não faz mal. E já nem disserto acerca do impacte ambiental que tem uma só barragem numa comunidade.

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Gosto de pensar, na minha mente sonhadora “hippie”, que os biólogos um dia ainda vão ser os super-heróis deste mundo: tantos agora sem trabalho e daqui a uns anos não vão chegar para os problemas ambientais. Gosto de pensar que ainda vamos conseguir colocar a mão na consciência e, como chegou a moda das vidas zen e hygge, chegará a onda da consciência ambiental forte. Gosto de pensar que vamos desacelerar a nossa forma de viver, que vamos usar o bom conhecimento que temos para realizar o verdadeiro BEM. Que a energia renovável vai ser melhor e que o que é de todos passará a ser respeitado e conservado.
O meu medo é que um dia, ao acordarmos, todos os nossos rios sejam o Tejo e todas as nossas florestas sejam Pedrógão.

 

Sofia Gonçalves

(blogue THE DAILY MIACIS)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.02.18

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  Adão e Eva no Paraíso, seguido de O Senhor Diabo e outros contos, de Eça de Queiroz

Conto completos

(reedição Guerra & Paz, 2018)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 16.02.18

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Melissa Sagemiller

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Canções do século XXI (322)

por Pedro Correia, em 16.02.18

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Massacres à conta da Segunda Emenda

por Alexandre Guerra, em 15.02.18

A América, mais uma vez, chocada, chora os seus mortos. Não aqueles que pereceram em combate algures no Iraque ou no Afeganistão, mas aqueles que tiveram a trágica infelicidade de estarem na mira de uma semi-automática nas mãos de um perturbado jovem americano numa escola secundária de Parkland, na Flórida. A história sangrenta repete-se. Desta vez, foram 17 mortos e outros tantos feridos. Nestes momentos, vem sempre ao de cima o eterno debate sobre a questão da posse de arma nos EUA, esse princípio constitucional e, para muitos, sagrado. De um lado, aparecem os habituais e impotentes críticos ao actual sistema e do outro lado, com a poderosa National Rifle Association (NRA) à cabeça, os defensores da liberdade de acesso às armas. Nesta arena política não há meios-termos. Os campos estão bem delimitados, com as palavras (ou ausência delas) a denunciarem as posições dos governantes. Veja-se, por exemplo, o senador Mark Rubio e o Governador republicano Rick Scott da Florida, em que lamentaram a tragédia, apelando a orações e ao fim da violência nas escolas, mas ao mesmo tempo, hipocrisia das hipocrisias, ambos têm “A+” dada pela NRA, um rating atribuído àqueles que mais têm feito pela defesa da Segunda Emenda e pelos esforços na promoção do direito pela posse e porte de arma.

 

O lobby das armas nos Estados Unidos é poderosíssimo e, em parte, essa força advém do culto à arma e ao papel que esta desempenhou na construção da América, assente num certo ideal de Nação, onde cada cidadão tem o direito a proteger-se. E sendo para muitos um bem de necessidade básica, eis que pode ser adquirido em qualquer grande superfície perto de si, nomeadamente a tristemente célebre AR-15, a arma mais usada nos massacres nas escolas. A NRA ostenta com orgulho o estatuto de a AR-15, uma adaptação civil da M-16, ser a arma mais popular dos EUA, porque, imagine-se, é “costumizável, adaptável, de confiança e precisa”. De acordo com a NRA, ainda há mais razões para comprar uma: é uma arma “versátil”, que tanto dá para “tiro desportivo, caça e situações de auto-defesa”. E a cereja no topo de bolo é o facto de ser uma arma “personalizável” nas suas peças, "o que a torna tão única”. Estima-se que esta arma esteja em 8 milhões de lares americanos.

 

Tudo isto é perturbador e faz-me lembrar uma cena do documentário Bowling for Columbine, onde, a determinada altura, Michael Moore entra num banco para abrir uma conta e sai de lá com uma arma. Ou seja, como se fôssemos ali à Caixa ou ao BCP para abrir uma conta e nos oferecessem uma pasta ou um relógio para incentivar à concretização do negócio.

 

Obviamente que qualquer acção legislativa no sentido de um maior controlo na venda e posse de armas suscitará um debate intenso e polémico na sociedade americana. E porquê? Como acima foi dito, porque, basicamente, uma grande parte dos americanos acha-se no direito constitucional de ter uma(s) arma(s). E, efectivamente, a Segunda Emenda (1791) sustenta essa realidade quando defende o “Right to Bear Arms”. Mas, a Segunda Emenda também é clara no propósito final subjacente a esse direito: “A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed.” Ou seja, os “legisladores” providenciaram o direito constitucional aos cidadãos de terem armas e de poderem andar com as mesmas como meio para garantir a virtude do Estado e do seu Governo e não como instrumento de defesa pessoal ou de serviço a outros interesses particulares.

 

Esta Emenda foi criada com base na desconfiança filosófica e ideológica que os legisladores tinham em relação ao Governo, por acreditarem que este poderia, nalgum momento, desvirtuar-se. Só com o povo dotado de armas poderia depor esse Governo e repor um novo “príncipe” virtuoso. De certa maneira, estaria aqui subjacente o princípio bíblico de armar o mais fraco (o justo) para derrotar o mais forte (o ímpio), e que permitiu a David, com a sua funda, derrotar Golias.

 

Ora, o problema, é que algures no caminho, os americanos esqueceram-se dos propósitos virtuosos e das boas intenções dos “legisladores”, agarrando-se apenas ao “Right to Bear Arms” para se armarem até aos dentes.

 

 

 

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vivemos num país só para jovens? parece que sim

por Patrícia Reis, em 15.02.18

Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.

Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.

Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.

Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.

E tudo isto importa porquê?

Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.

Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.

Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.

Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.

Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.

As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

Passam hoje exactamente quatro meses sobre os tétricos incêndios no distrito de Viseu, entre o concelho de Tondela e seus limítrofes, devastando a "Beira Alta", na segunda apocalíptica volta dos incêndios florestais de 2017, dessa vez causando mais de 40 mortos. Desde então o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (o mvf, que durante anos co-blogou comigo) percorreu aquela região, que bem conhece, calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo. Nisso fotografou as "Cinzas" promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se "de não ter tirado férias" ou, pelo contrário, "iam de férias" e pediam para "não os fazerem rir" a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as "cheias de inverno", inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros "salvados" de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

 

Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos "camaradas, companheiros e amigos", um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar. 

 

Desse acervo será agora apresentada uma exposição. Paisagens, pois o pudor impeliu-o a evitar mostrar os retratos feitos dos violentados. 42 fotografias integrarão essa "Cinzas", a inaugurar em Tondela, concelho tão devastado (só nele arderam mais de 400 casas, 219 das quais primeiras habitações), no próximo dia 24 de Fevereiro. Estando previsto que a exposição faça uma itinerância pelo distrito e, porventura, alhures. As fotografias estarão à venda, sendo os resultados monetários disso destinados para o apoio às vítimas. Verdadeiramente. Sem requebros burocráticos.

 

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Aqui uma entrevista do mvf a este propósito (a partir da página 34). Abaixo junto algumas das fotografias que serão expostas.  

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

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 (Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

 

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Os novos censores andam aí (6)

por Pedro Correia, em 15.02.18

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O abominável Mein Kampf poisa aí por todas as livrarias, com várias chancelas editoriais, ao alcance das mentes mais frágeis ou perturbadas: até uma criança pode adquirir um exemplar (ou dois ou mais). E tornou-se até um best seller na própria Alemanha, com 85 mil exemplares vendidos em 2016.

As torrentes de ódio vertidas pela pena do "cabo Hitler", como lhe chamava Churchill, deixam hoje aparentemente indiferentes os plantões de turno. Já a baba anti-semita escorrida por  Louis-Ferdinand Céline - admirável escritor com indefensáveis ideias políticas - continuam remetidas para o limbo da clandestinidade. Num tempo em que tudo se publica, do excelso ao péssimo, o autor de Viagem ao Fim da Noite mantém obras interditas: a editora Gallimard desistiu de lançar a edição crítica, anotada e profundamente contextualizada que planeara de três panfletos, escritos entre 1937 e 1941, e que permanecem por reeditar desde a II Guerra Mundial: Bagatelas por um Massacre, Escola de Cadáveres e Os Maus Lençóis.

O reaparecimento destes títulos reunidos sob a designação Escritos Polémicos seria "uma agressão aos judeus de França", bradou Serge Klarsfeld, presidente da associação gaulesa de filhos e filhas de judeus deportados. Uma voz estridente entre tantas outras, somadas às pressões políticas e mediáticas, que forçaram a bater em retirada o poderoso grupo editorial, que tem no seu catálogo 36 escritores galardoados com o Prémio Goncourt, dez com o Pulitzer e 38 com o Nobel da Literatura.

"Suspendo este projecto por entender que não estão reunidas as condições metodológicas e memoriais para encará-lo com serenidade", anunciou no mês passado Antoine Gallimard em comunicado à agência France Presse. Céline, falecido em 1961, continua a ser censurado. Enquanto Hitler renasce como "besta célere" nestes dias incongruentes em que a liberdade é um bem escasso, sujeito a critérios selectivos e arbitrários.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.02.18

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  Um Amor Português, de José Jorge Letria

Romance histórico

(reedição Guerra & Paz, 2018)

"A presente edição não segue a grafia do novo acordo ortográfico"

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 15.02.18

 

Ao Mais Mulheres, Por Favor.

 

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Canções do século XXI (321)

por Pedro Correia, em 15.02.18

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Leituras

por Pedro Correia, em 14.02.18

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«Não há nada mais degradante do que termos de levantar-nos sempre tão cedo. O homem deve poder dormir.»

Franz Kafka, Metamorfose, p. 11

Ed. Livros do Brasil, Carnaxide, 2007. Tradução de Breno Silveira. Colecção Clássicos da Literatura, n. º4

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Já li o livro e vi o filme (221)

por Pedro Correia, em 14.02.18

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     A HORA MAIS NEGRA (2017)

Autor: Anthony McCarten

Realizador: Joe Wright (2017)

Churchill nunca foi tão bem retratado, no cinema ou na televisão, como nesta longa-metragem que valeu a Gary Oldman uma justa nomeação para Óscar de melhor actor. Um desempenho que vale por todo o filme. Falta ao competente livro-guião este suplemento de energia e autenticidade.

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Estava na cara

por Diogo Noivo, em 14.02.18

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De Amorim

 

No dia seguinte às eleições catalãs, atirei-me para fora de pé ao antever problemas no entorno independentista. Enquanto bloco partidário no parlamento, o independentismo ia sofrer um duro golpe – além do desferido pelos eleitores nas urnas. Não havia certezas, mas os resultados sugeriam uma colisão a breve trecho entre a ERC e o Junts per Cat. A análise foi vista como facciosa por alguns amigos e conhecidos favoráveis à causa independentista.  

No entanto, as coisas são como são. Desde o dia das eleições os sinais de ruptura sucedem-se. Puigdemont reconheceu que “esto se ha acabado”, acrescentando “los nuestros nos han sacrificado”. Hoje o El Mundo noticia o fim aparente do compromisso entre as duas forças independentistas, com o Junts per Cat a virar as costas a uma ERC que recusou a alteração legislativa que permitiria a investidura de Puigdemont à distância. Os partidários do unilateralismo e do ataque à Constituição estão a ser vítimas da estratégia que implementaram. Pelo contrário, aqueles que entendem que a identidade nacional catalã é compatível com a espanhola vêem reforçado o seu voto no Ciudadanos. O PP, partido ao qual foi infligida uma pesada derrota nas eleições catalãs, volta a ter espaço para respirar – um obséquio de Puigdemont y sus muchachos que, como quem os apoia, ainda não perceberam o que se está a passar.

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Convidada: GRAÇA SAMPAIO

por Pedro Correia, em 14.02.18

 

Exageros e fundamentalismos

 

O último quartel do século XX deixou a marca de que aquele foi o século da imagem. Para quem não é historiador – que é o nosso caso – o século não se vai medindo pelo tempo cronológico, ou seja, os cem anos, mas tão-somente por aquele em que nos movemos, aquele que mais nos marcou.

Há e sempre houve o ser e o parecer. Ora, pelo menos que me lembre, as pessoas de bem que antecederam o tempo da ditadura da imagem, sempre sobrepuseram o ser ao parecer. [esqueçamos agora o ter, que esse daria para escrever mais um ror de linhas..] Porém, desde que os fazedores (ou manipuladores?) de ideias descobriram a imagem e começaram a vendê-la – e não estou a falar do cinema ou da televisão – o parecer sobrepôs-se e nunca mais deixou o ser respirar livre.

Como fiquei chocada quando ouvi da boca de um professor de uma universidade de renome onde andava a fazer uma pós-graduação nos idos de 90 que «atualmente mais vale parecer que ser.»

Mas se o século passado terminou subjugado à tirania da imagem, já o atual, que está agora a entrar na maioridade, não se livra da canga dos fundamentalismos e dos enormes exageros. Culpa desta comunicação inculta, oca e falha de pensamento e de leituras, ou das redes sociais que pululam e se multiplicam em opiniões ignaras? Culpa nossa que nos deixamos arrastar e subverter pelas primeiras frases sem erros de sintaxe que se nos deparam.

Nem é preciso chegarmos ao exemplo terrível dos fundamentalismos religiosos que nos têm entrado pela casa dentro com as guerras decorrentes das ditas «primaveras árabes» com que o ocidente se deixou deslumbrar. Se quisermos pensar em exemplos de fundamentalismo religiosos nem precisamos de sair do país. De Lisboa. Basta atentarmos nos dislates que o seu inclemente cardeal tem bolçado.

Fundamentalismos políticos de uma direita fechada e ressentida contra governantes mais visionários que mostram ou mostraram preocupações sociais. Fundamentalismos de quem tem obrigações constitucionais e institucionais de defesa dos cidadãos contra os mais fracos, os menos poderosos, contra as mulheres ou simplesmente – o que é pior – contra quem não milita nos seus cânones da moral, da política, da visão do mundo, da religião (meu deus!). Fundamentalismos facciosos.

Não menos inquietantes os exageros que mostram, esses sim, como somos seguidistas e nem sempre pensamos pelas nossas cabeças. Quem já não se lembra do exagero que foi a importância dada aos livrinhos azuis e rosa da Porto que “menorizavam” – diziam – as meninas “e constituíam uma enorme ofensa à igualdade de género”? E o exagero acerca dos piropos? E o exagerado sururu em torno das posições da Catherine Deneuve e da Brigitte Bardot sobre o caso dos assédios trazidos a lume pelas atrizes hollywoodescas – em que também se tem exagerado…

Já para não falarmos do «politicamente correto»…

 

 

Graça Sampaio

(blogue PICOS DE ROSEIRA BRAVA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.02.18

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 A Boneca de Kokoschka, de Afonso Cruz

Romance

(reedição Companhia das Letras, 2018)

 

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Frases de 2018 (11)

por Pedro Correia, em 14.02.18

«Este julgamento histérico em praça pública é absolutamente repugnante.»

Michael Haneke, em entrevista ao jornal austríaco Kurier, criticando o movimento #MeToo por se ter transformado numa "cruzada contra qualquer espécie de erotismo"

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A inveja nas redes sociais?

por jpt, em 14.02.18

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 (Martin Luther afixando um postal no "site" da capela de Wittenberg, 31.10.1517, sem indicação de hora)

 

Olho o pensamento da semana no DO, colocado pelo João André. Não podia discordar mais. Este meu postal não é ad hominem  pois o que me conduz é que esta ideia, este fastio pelas "redes sociais", pelas poses atitudinais que elas potenciarão, é recorrente. Essa sensação de que são elas (nas quais se devem integrar os já vetustos blogs) um rizomático "Grande Irmão" alienante. E sobrealimentado pela perfídia invejosa, essa grande e tortuosa arma do controlo social, do aquiescimento do destino, próprio e colectivo.

 

Intelectualmente este fastio parece-me muito discutível. Nestes tempos de pós-marxismo isto é o avatar possível da velha grande teoria revolucionária. Deslustrada que está a ideia de que "a luta de classes é o motor da história" ficamos com esta simples, e simplista, sequela de que, afinal, "a inveja é o motor da história", pois é ela que nos conduz representações  e práticas. Mas este mal-estar, na sua bruma desconfiada, é eclético, no pior sentido deste termo, o de infértil. Pois advém também da degenerescência da concepção liberal, travestindo a procura do interesse individual  (como "motor da história", se me permito a usurpação) em mera inveja actuante. Esta infértil amálgama não passa assim de uma confusa noção, radicalmente conflitual, da vida social, derivada de um mero psicologismo (o primado da tal malfadada "inveja"), quantas vezes carnavalizado de um "culturalismo", este já de si tão pobre, como no tão habitual "os portugueses são ...".

 

O certo é que nem sequer representa o real. Na pequena parcela desse real a que tenho acesso os factos são outros. As páginas necrológicas passaram para as redes sociais ("morreu o meu marido", "morreu a minha mãe", "o funeral do nosso pai será amanhã"), tal como as notícias das doenças ("a minha irmã está hospitalizada e a recuperar", "obrigado ao estimável pessoal médico do hospital ...", "tenho que deixar de beber álcool") ou as efemérides dolorosas ("faz cinco anos que morreu o meu amor", "meu pai faria hoje 9... anos"), as rupturas de relações amorosas, etc. (os exemplos são todos de postais de facebook que vi nos últimos dias). Partilham-se pensamentos alheios e próprios. Imagens, orações, música, eventos da  vida colectiva, vicinal ou nacional, e individual, poemas, citações, notícias, memórias. Posições políticas, protestos desabridos, proto-ensaios, piadas, brejeiras umas outras nem tanto. Interessantes ou não, consoante o receptor. Ou seja, utilizam-se estes meios tecnológicos actuais para comunicar, para difundir "o que nos vai na alma". Tal como Luther o fez em Wittenberg. De facto, nem todos somos Luther mas todos temos uma "alma" na qual se passa algo. E muitos querem-no mostrar - indivíduos que todos são (somos) diante desse "Deus" que são os outros, com Ele (eles) contactar, "comungar" directamente, sem mediação, e nisso muito de Luther ressurge. Sendo certo que as pessoas, as tais "almas", assim estrategizam, sobre a imagem própria, quanto aos objectivos dos relacionamentos. Mas, e é isso que tanto me afasta destas visões conspiratórias adversas às "redes sociais", e tão cegas quanto ao que conduz a acção social, essas estratégias não são um defeito (uma imoralidade, uma malandrice). São uma característica, o que não macula, por si só, os actos.  

 

Há nisto uma encenação? Sim, na medida em que nos representamos. Acabo de reler, 30 anos depois, "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, um livro de que nada gostara. Ao contrário de agora (apesar daquilo do excedente idealizador da amada, mas enfim, será feitio meu ..). Coloco-o, como faço às minhas leituras não profissionais, na minha conta da goodreads, um belo clube de livro, "rede social" onde se trocam indicações de leitura e opiniões sobre o lido. Andamos ali a armar-nos em grandes leitores, a invejar as bibliotecas alheias? Ou a "conversar" sobre livros, aprendendo? Como ando com pouco tempo não meti a capa nem a foto do escritor na minha conta da pinterest, uma "rede social" óptima para coleccionadores de cromos, como eu o fui. Andamos ali a invejar-nos, a encenar-nos cultos e sensíveis? Ou a fruir imagens que nos agradam? Já agora, e porque tenho estado muito fechado em casa, raras são as vezes que vou ao cinema mas vou vendo filmes na tv, nas noites de insónia. Coloco-os na "rede social" IMDb, que disponibiliza informação vasta sobre os filmes, vistos ou desejados, e nos deixa opinar ("votar", criticar). É encenação, eu qual cinéfilo? Promovo inveja?

 

Não se trata apenas de mim, não me tomo pelo todo, são milhões de pessoas a fazer estas "maluquices". Inúteis, porventura? Se assim é, ainda bem, apartando-nos do "utilitarismo" básico, de pacotilha, que brota de tantos locutores silvestres. Estaremos a propagandear, melífluos, o nosso "sucesso" de consumidores, invejável aos outros? Afirmando um "capital cultural" mais relevante, procurando a "distinção", o estatuto social? Será isso mesmo?  Não haverá mesmo nada de prosaico na vida social? Não haverá espaço para "conversar" com outros sobre o que se vê e o que se pode ver? Neste rossio actual, neste átrio de igreja d'hoje, que as disponibilidades actuais tão mais alargam? E sem estarmos obrigados a ouvir apenas a prédica do cura local ou a dos "mestres do pensamento", "os senhores doutores" da aldeola, e nós de chapéu na mão ou de cálice na taberna, escutando-os? É assim tamanho o pecado de apenas ... irmos andando como se que por nós próprios?

 

Há alguns anos criei uma conta na "rede social" academia.edu, onde meto os textos mais "académicos" (alguns não o são, mas isso é outra conversa). Esta rede é um filão, pois congrega imensa gente, imensos textos. Dando acesso ao que não tínhamos nem conhecíamos. Divulgam-se textos próprios (provocando a tal "inveja"? procurando o tal "sucesso"?) e alheios (convocando, estrategicamente, a reciprocidade?). Certo, há quem critique este "acesso aberto", quem denuncie o "grande capital" a pilhar o trabalho intelectual. Mas isso é outra temática. O que interessa neste âmbito é perceber se o que move os milhões de participantes nesta rede de cariz profissional é a procura do "sucesso" por esta via? Se são movidos pela "inveja"? Somos assim tão  básicos? Ou se, pelo menos também, ali interagem, interagimos, comungando saberes, articulando fontes. Estrategicamente, claro. 

 

Há uma encenação nisto tudo? Em parte trata-se da forma como as pessoas recebem o que vem de outrem. Lembro sempre este ápice: durante anos bloguei em Moçambique, quando os blogs eram  mesmo uma "rede social" - a "blogosfera" dizia-se, com seminários, encontros organizados, jantares. E, mais do que tudo, "links" entre blogs e entre textos, críticas e debates, uma verdeira "esfera", cheia de amores e desamores, clubes e partidos. Enfim, "amizades", como na "rede" paradigmática de agora. Nesse meu blog meti crónicas de viagens feitas naquele país. Achava-lhes piada, até as imaginei em livro mas acabei por as juntar numa "rede social" (este "Ao Balcão da Cantina"). Mas antes disso, blogara eu uma dessas andanças e nessa noite recebi um simpaticíssimo comentário de uma leitora: "você deve ter uma vida extraordinária". Não pude deixar de me rir. Não é que me queixe da vida - "filha", dizia eu há uns anos à minha, após a morte de um querido amigo, "se me der o badagaio", "ó pai, não digas isso, cala-te", "nada, ouve, se me der o badagaio, lembra-te que a morte aos 50 já não é precoce. E que tenho levado uma bela vida, já fiz muito mais do que imaginara" ("o que não quer dizer que não queira cá ficar mais uns tempos") - mas aquele comentário apanhou-me a preparar aulas noite fora, a reler pdfs de fotocópias de Bachofen e McLennan, uns evolucionistas oitocentistas, leituras muito interessantes para quem estuda história da antropologia. Mas não exactamente "uma vida extraordinária". Ou seja, muito depende das formas como aquilo que nós, "redistas sociais", colocamos é apreendido e assim reconstruído. E não tanto a nossa volúpia egocentrada e vaidosona.

 

Diz Vergílio Ferreira, e por isto é que fui buscar o "Cântico Final", falando do tempo que nos passa ao longo da biografia: "viver era agora quase só durar". E a verdadeira encenação é negar esta clarividente verdade. Nós duramos, porque temos e/ou queremos. Para durarmos não precisaremos de fugir totalmente ao real nem de uma completa amnésia. Mas não o conseguiremos se ficarmos monopolizados pelas dores e insucessos, próprios e alheios. E nem só desses podemos recolher ensinamentos para o viver, para este durar. Temos que gostar de algo, manifestá-lo ou, pelo menos, aparentá-lo, um algo muleta da travessia. Dele falar a nós próprios. Demonstrá-lo quando em conversa com outrem. Por isso mostro os meus cães e gatos (que não tenho), a minha querida filha (raríssimas vezes), festas familiares (não sendo eu grande filho nem magnífico parente), uma ou outra comezaina se mais pitoresca (e sou frugal à mesa, menos atento à faca e garfo do que ao copo, é certo), a minha ida a Alvalade (e nem sequer tenho SportTV), etc. Duro. Resisto.

 

Exemplifico melhor neste assim. Estou em Bruxelas, vim ver a minha filha. Fomos ver a exposição "Magritte, Broodthaers & Contemporary Art". Pensei em fazer um postal sobre isso. E também sobre o Anima, o festival de cinema de animação de Bruxelas, no qual descubro ser o realizador José Miguel Ribeiro um dos jurados. Pensei também meter um postal no És a Nossa Fé, sobre o Sá Pinto que treina com sucesso o Standard de Liége. Talvez umas fotos, de prédios ou detalhes no meu mural de facebook, tudo isso a ecoar, como sempre, na minha conta do twitter. Enceno-me cosmopolita (ainda que, enfim, hoje em dia vir a Bruxelas não seja exactamente um "must")? Publicito um qualquer especial "capital cultural", com estes devaneios de consumo artístico? Anuncio um qualquer sucesso, existencial, familiar, económico? Tudo de molde a incentivar a inveja alheia, o mero "respeito" que seja? Entretanto, há quinze dias o colectivo DO juntou-se em jantar. Eu estava tão "tchonado" (o calão moçambicano para "teso") que me foi necessário conter-me e faltar. Mas não me passa, nem passou, pela cabeça fazer um postal sobre isso. Sendo certo que esse episódio é muito mais relevante sobre mim do que o Sá Pinto em Liége ou um detalhe do Horta bruxelense. Mas estamos, estou, cá para durar. E a comunicação, as partilhas, são sobre como duramos. Não exige a vasculha do íntimo, o intimismo auto-punitivo. Pois aprendemos, tomamos consciência, com as dores e maleitas, próprias e alheias, mas enfrentadas com filtros. Caso contrário afogar-nos-emos no caldeirão dessas dores

 

E o mais importante é que não são as dores e as maleitas que nos congregam ou alimentam. Numa rede social, real, dita (excepto pelos tolos hiper-liberais) sociedade. A qual não vive só do conflito, invejoso ainda para mais, como alguns quiseram crer, como estes "neo-commies" querem ressuscitar. Mas muito disto de nos apreciarmos. Com as nossas coisas. Apesar das nossas "coisas". Deixemo-nos pois de "coisas". E ombreemos. Estrategicamente, é certo. E com aquilo, também, da inveja. Que faz parte. E, tantas vezes, tão útil e produtiva é. Para fazer a "rede".

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Canções do século XXI (320)

por Pedro Correia, em 14.02.18

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Sobre o orçamento europeu

por Luís Naves, em 13.02.18

Instalou-se finalmente um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, tudo aponta para o futuro aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, vai provavelmente pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar segurança e migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase intensamente política, onde o interesse nacional será determinante. Nos próximos meses, a UE terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

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Depois das inacreditáveis declarações de António Costa ao ABC, a apoiar a vergonhosa acção de Espanha contra os independentistas catalães, vem o mesmo ABC poucos dias depois criticar a independência de Portugal, lamentando os 350 anos do "ignominioso tratado de paz que pôs fim à poderosa união de Espanha e Portugal". Mostra bem como António Costa deveria ter estado calado nesta matéria. Ao contrário do que muita gente julga, defender a autodeterminação dos povos de Espanha deveria ser uma política essencial ao Estado português, sob pena de Espanha também poder questionar o direito de Portugal à sua própria independência. É manifesto que para isso não lhe falta vontade. Afinal, como se escreve neste artigo, Portugal não se revoltou ao mesmo tempo que a Catalunha, só não tendo sido subjugado como esta, porque alguém em Espanha se lembrou de assinar um "ignominioso tratado de paz"? Bem diz o povo que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. E a falta de solidariedade com que agora estamos a tratar os catalães pode um dia virar-se contra nós. Se alguém tem dúvidas que olhe para a imagem, também fornecida pelo ABC, com uma alegoria da conquista de Portugal, com o leão espanhol a subjugar o dragão português. É elucidativo da forma como os castelhanos acham que devem conviver com os outros povos da península ibérica.

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Estarei a "cometer um ilícito"?

por Pedro Correia, em 13.02.18

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Perdoem-me a ousadia, mas acho a Cláudia Vieira muito bonita.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.02.18

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  Derborence, de Charles Ferdinand Ramuz

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Romance

(edição Sistema Solar, 2017)

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Canções do século XXI (319)

por Pedro Correia, em 13.02.18

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I Am Not Your Negro

por Alexandre Guerra, em 12.02.18

 

Uma obra inacabada do poeta, escritor e activista James Baldwin deu origem a este documentário que há dias tive ocasião de ver. Aclamado pela crítica, I Am Not Your Negro (2016) é um exercício intelectual brutal sobre a América. Não é sobre os "negros", é sobre homens que continuam "agrilhoados" aos preconceitos da História e que tiveram em figuras como Medgar Evars, Malcolm X ou Martin Luther King Jr., líderes na luta pela sua "libertação". Nos dias de hoje, onde os temas inquietantes da Humanidade se debatem de forma frívola e histérica nas ditas "redes", é estimulante ver um documentário destes, que apela ao que de mais inteligente as pessoas têm para se reflectir sobre assuntos que, infelizmente, ainda continuam a assombrar as sociedades. 

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Indignações

por Diogo Noivo, em 12.02.18

Lavra um ódio incendiário no twitter em Espanha. O combustível é um artigo de Javier Marías intitulado Ojo con la barra libre (atenção ao bar aberto). O tema, claro, é a fonte de todas as indignações do momento: o #MeToo.

Deixando claro que a rebelião contra o abuso sexual só pode ser algo positivo, Marías lembra que o uso do sexo como moeda de troca nos meandros do cinema é tudo menos uma novidade – o termo couch casting datará pelo menos de 1910 –, uma prática que contou com a anuência descomplexada de muitas aspirantes a actriz. Mais importante, Marías nota que “dar crédito às vítimas pelo simples facto de se apresentarem como tal é abrir a porta a vinganças, a represálias, a calúnias, a difamações e a ajustes de contas”. É uma opinião.

No entanto, ateou-se a pira moral e atirou-se o homem lá para dentro. Pelo caminho, e porque as labaredas são de monta, atirou-se também o jornal El País, onde Javier Marías publicou o texto em apreço. Pedem-se demissões – e até castrações. Põe-se em causa a obra literária do autor e questiona-se a utilidade do jornal. Usam-se hashtags como StopPatriarcado e expressões como bílis cerebral. Alega-se que Marías defende o direito de pernada e, sem surpresa, recorre-se a palavras como misógino, machista, repugnante, casposo, idiota e a tantas outras que o pudor me impede de reproduzir.

Opiniões e #MeToo à parte, razão tem Juan Cruz quando defende que impera a gritaria e o lugar-comum à custa da liberdade de expressão. Embrutecemos.

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O Luso-portuguesismo

por Rui Rocha, em 12.02.18

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Em 13 de Fevereiro de 2016, a seleção espanhola de futsal sagrou-se campeã europeia. No dia seguinte, os 3 jornais de referência do país tinham grandes manchetes de primeira página sobre tão extraordinário feito, certo? Errado. Não lhe fazem, sequer, uma minúscula referência. Compare-se isto com o que se pode ver hoje no DN, no JN ou até no Público, ou nas aberturas dos jornais televisivos. Com as homenagens, as condecorações e as recepções a que já assistimos ou que já foram ameaçadas nas últimas horas. Uma das características de sermos pequeninos, não de geografia mas de cabecinha, é não termos a mínima noção da real e relativa importância das coisas. Outra, que no fim é a mesma, é este entusiasmo infantil com qualquer sucesso, por irrelevante que seja, em que se ostente a nossa pobre bandeira. Cada vez que um luso-canadiano, um luso-francês, um luso-nepalês ganha na carica, o país abana em espasmo. Quando a gesta é daqueles portugueses mesmo daqui, quase caímos todos ao mar. No sábado, o fulano que exerce de primeiro-ministro, com apenas 5 minutos de jogo decorridos na primeira parte, já festejava um golo no twitter. Dói ser-se tão tacanho. Dói esta doença a que podemos chamar luso-portuguesismo.

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Convidada: LAURA AVELAR FERREIRA

por Pedro Correia, em 12.02.18

 

One from the heart

(ou a paixão materializada em cinema)

 

O cinema cresceu comigo, como um familiar chegado e imprescindível: deu-me a mão, ainda a minha mão era pequena e mal sabia falar.

Embalou-me adormeceres, escoltou-me em paradigmas, escolhas e decisões e ajudou-me a esboçar, com inequivoca distinção, uma exaltação ardente e longa, que nunca se cansa e nunca se arrepende.

O cinema povoou a minha vida de momentos nos quais o tempo se escoava, vagarosa e languidamente como num qualquer plano apertado de um filme europeu.

O cinema beliscou-me, arremessou-me contra o bonito, despertou-me quase tudo o que hoje sei e materializou-se em (quase) tudo, à minha volta: nas ruas ondulantes e apertadas do meu Porto e na maré vaza dos entardeceres das férias intermináveis da adolescência; nas viagens de carro com a vida lá fora, a passar veloz; nas portas dos elevadores que se fecham e deixam entrever qualquer coisa que podia ter sido e não foi; nos caminhares poéticos de algumas mulheres; na música do silêncio de alguns planos de uma viagem a Paris; nas gotas de chuva que correm, com vida própria, nos vidros e… nuns olhos resgatados, por acaso, num qualquer fim de tarde, num qualquer retrovisor.

 

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 Les Uns et les Autres, de Claude Lelouch (1981)

 

Nas músicas dos filmes que a minha mãe trauteava e nas músicas dos filmes que o meu pai fazia tocar, primeiro nos cartuchos e depois nos LPs: “Música no coração”, “Lawrence da Arábia”, “Les uns et les autres”, “Os sete magníficos”, “E tudo o vento levou”, “The bang wagon”, “Gilda”, “Esplendor na relva”, e tantos, tantos outros.

O cinema também me levou pelo caminho da rendição absoluta às mulheres bonitas. Ensinou-me a gostar de pontos de luz espalhados pela casa, de genéricos feitos antes de jantares, do risco preto de eye-liner nos olhos e de um baton rubro e mate, numa boca entreaberta.

Cresci, pois, com musicais, policiais, canções imortais, vestidos esvoaçantes e coreografias da Broadway. Lembro-me, em miúda, de fazer o rol de tudo aquilo que um dia gostaria de ter: o cabelo da Gilda, a voz sensual da Lauren, o decote da Sofia Loren e a beleza imaculada da Marilyn; a tez branca da Jean Harlow, o mistério gracioso da Lana Turner e a elegância indistinta da Audrey Hepburn; o corpo da Cyd Charisse, a musicalidade da Julie e a irreverência e a sensualidade precoces da Natalie Wood.

E, à minha maneira, filmava, realizava e interpretava: fumava palitos para imitar a Lauren Bacall e cantava para os espanadores do pó o “My favorite Things”.

Deitava-me na alcatifa do chão da sala e imaginava conversas com o Warren Beatty. Via-me dentro do Vertigo ou a fugir de pássaros e via-me dentro de um filme noir a esconder-me da sombra de um assassino.

Via-me agarrada à cintura do Charlton Heston numa corrida desenfreada de cavalos ou debaixo do guarda-chuva do Gene Kelly e beijava, apaixonadamente, as paredes da sala ou do quarto, à procura da boca do Cary Grant.

 

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 One From the Heart, de Francis Ford Coppola (1982)

 

Estes resquícios moram em mim como a idade ou as rugas de expressão. Ainda hoje sei de cor frases, respirações, pausas dramáticas e cores.

Sei o quanto sinto na pele o azul do “Bonjour Tristesse” ou o quanto me toca a música do “One from the Heart”. O calor absurdo do “Body Heat” e a magnificiência do Rutger Hauer, no final do “Blade Runner”. Sinto como se fosse minha a terra, de Tara, que a Scarlett o’Hara segura numa das mãos e sei de cor o cheiro da pele do Capitão Von Trapp.

Hoje já não ponho toalhas na cabeça para fazer de conta que tenho o cabelo comprido ou fumo palitos a imaginar que são cigarros.

Mas ainda me imagino, muitas vezes, a correr na erva fresca de uma qualquer montanha da Áustria e adivinho, entre cordas e pássaros, uma câmara de filmar, colossal e veloz, a aproximar-se de mim, num plano picado, como se fosse um pássaro e sei… sei que a deixa é minha.

Sei o tom, a roupa, os braços abertos, o vento a bater-me no rosto e o som, o som da música e do (meu) amor.

Cresci, de facto, com o cinema na minha vida. E tenho, na privacidade dela, um bocadinho de todas estas coisas – flmes, mulheres, música, planos, luz, fotografia, genéricos - e todos os bocadinhos de cinema que elas me ensinaram. Para toda a vida.

 

 

Laura Avelar Ferreira

(blogue O SÍTIO DAS PEQUENAS COISAS)

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O delfim.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.18

Há muito que se sabe que Fernando Medina é o delfim de António Costa e que o PS o anda carinhosamente a preparar para assumir uma futura liderança. Precisamente por esse motivo Medina beneficia de um espaço televisivo semanal e o parlamento está sempre disponível para aprovar todos os disparates que ele propõe, como a lei de salvaguarda de lojas históricas à custa dos proprietários dos imóveis. A verdade, no entanto, é que quem decide a viabilidade dos estabelecimentos, históricos ou não, é o mercado, como o parlamento acaba de comprovar ao assistir ao encerramento da sua própria papelaria. Mas, como é típico de qualquer socialista, desde que sejam os outros a pagar está tudo bem. Como bem salientou Margaret Thatcher, o problema do socialismo é que ele acaba quando acaba o dinheiro dos outros.

 

É por isso que Fernando Medina, que à sua responsabilidade decidiu inventar uma absurda e inconstitucional taxa de protecção civil, que o Tribunal Constitucional prontamente chumbou, agora diz que quer processar o Estado pela taxa que ele mesmo decidiu criar. Para Fernando Medina, uma lei que lhe permite lançar taxas por serviços prestados na protecção civil é uma lei que lhe permite cobrar uma taxa mesmo sem prestar serviço algum. E é óbvio que a responsabilidade pelo que aconteceu é do Estado, uma vez que a lei tinha sido criada "ad usum delphini", pelo que o delfim nunca pode ser responsabilizado pelo (mau) uso que dela faz.

 

E assim se consegue atingir o esplendor do socialismo. Se a Câmara de Lisboa abusou dos seus munícipes, cobrando-lhes uma taxa ilegal e inconstitucional, é óbvio que a responsabilidade por esse buraco de 80 milhões de euros tem que ser passada para o Estado. E até é provável que o parlamento e o governo, tão amigos que são de Fernando Medina, lhe venham a dar razão, fazendo assim com que sejam os munícipes de todo o país, desde o Corvo a Bragança, e incluindo o Porto, Coimbra, Faro, etc., etc., cujos municípios nunca lançaram qualquer taxa de protecção civil, a pagar as pseudo-taxas inventadas pelo autarca de Lisboa. É por isso que Fernando Medina é o melhor candidato a futuro líder do PS, uma vez que sabe ficar com o dinheiro dos outros como ninguém. Se os munícipes de Lisboa, que o elegeram para presidir à sua câmara, não estão dispostos a pagar as suas pseudo-taxas, chamem-se os munícipes do resto do país para pagar a factura. O delfim Fernando Medina é um verdadeiro socialista.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.02.18

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 Prefácios, de Søren Kierkgaard

Introdução de Elisabete M. de Sousa

Tradução de Susana Janic

(edição Relógio d'Água, 2018)

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Da saudade

por Joana Nave, em 12.02.18

Saudade, não da dor que perdurou, até que o tempo a disfarçou com dias de sol e conversas animadas, onde os risos tomaram o lugar da amargura. Saudade de um dia ter tido o que hoje não volta, de ter sentido o que hoje é apenas fragmento de uma memória eterna. É um sentimento atroz este que nos persegue por toda uma vida, que é um rasto que deixamos e que nem os muitos ventos apagam, que se faz sombra para sempre e que reside naquele cantinho secreto da memória, onde guardamos as lembranças ténues da vida singular que sonhámos ter. Tudo o que nos marca profundamente reside em nós até deixarmos este mundo, e talvez até depois continue a acompanhar a nossa alma. Saudade de ter sonhado e hoje a realidade se apresentar tão distinta, tão mais cruel. Saudade da inocência que alimenta o desejo de sermos o que sonhamos, de acreditarmos que podemos mudar o mundo, concertando o que está mal. E agora que acordo para o dia que se me apresenta, invade-me um misto de raiva e desalento, por não ter forças para mudar nada do que está terrivelmente errado.

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Canções do século XXI (318)

por Pedro Correia, em 12.02.18

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Fotografias tiradas por aí (396)

por José António Abreu, em 11.02.18

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Porto, 2017.

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Não é Kennedy quem quer.

por Luís Menezes Leitão, em 11.02.18

Um dos factos que mais marcaram a ascensão de John F. Kennedy a presidente dos Estados Unidos foi a sua defesa intransigente da independência da Argélia. Num discurso de 2 de Julho de 1957, o jovem senador do Massachussets defendeu perante o senado que a atitude dos Estados Unidos perante a questão da Argélia se caracterizava pelo abandono dos princípios da independência e do anticolonialismo, que não se podia justificar nem por amabilidades diplomáticas, nem por subtilezas jurídicas, nem mesmo por considerações estratégicas. Os Estados Unidos, que tinham nascido de uma revolução política, deveriam ganhar o respeito e a amizade dos líderes nacionalistas.

 

A mesma consideração deveria aplicar-se a Portugal, que obteve a independência contra o domínio espanhol, e por isso não deveria deixar de se mostrar solidário com a situação da Catalunha, onde políticos se encontram presos pelas suas convicções e onde um parlamento democrático está impedido de eleger como presidente do governo o líder que escolheu. António Costa tinha possibilidade de marcar alguns pontos nesta questão, mas preferiu as amabilidades diplomáticas e as considerações estratégicas aos princípios. Está visto que não é Kennedy quem quer.

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Leituras

por Pedro Correia, em 11.02.18

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«Qualquer um sonha com os seus mortos e vê-os vivos.»

Julio Cortázar, Octaedro, p. 74

Ed. Cavalo de Ferro, Amadora, 2017. Tradução de Isabel Pettermann

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Sebastião, de grata memória

por Pedro Correia, em 11.02.18

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 Sebastião Fernandes (1947-2018)

 

Devo esta nota a Sebastião Fernandes. Ao "senhor Sebastião" ou simplesmente Sebastião, como era assim chamado por muitos clientes que o iam acompanhando de restaurante em restaurante. Alguns desde o desaparecido Velha Goa, em Campo de Ourique - pioneiro dos estabelecimentos de comida goesa na capital, numa época em que Lisboa estava muito longe de ser o actual mostruário de gastronomia transnacional.

Na segunda metade da década de 80 fundou o Cantinho da Paz, que continua a ser lugar de romagem obrigatória para gastrónomos de diversos quadrantes. Já este século, inaugurou a Casa de Goa, de existência efémera, na Calçada das Necessidades. Nos anos mais recentes, abriu as portas do Nova Goa, entre a Avenida de Roma e o Campo Pequeno. Era lá que recebia, com a bonomia de sempre, dispensando uma palavra gentil a cada cliente.

 

Como aqui assinalei, era um dos restaurantes onde me habituei a abancar sem necessidade de pedir ementa. Sebastião conhecia a minha preferência pelo magnífico sarapatel da casa.

Em regra, chego cedo aos restaurantes: gosto de ser dos primeiros a ser atendidos, seja ao almoço ou ao jantar. Havia tempo para conversar com o proprietário, senhor de muitas histórias, desde a Goa natal de onde saiu ainda adolescente - paixão e devoção que nunca se lhe apagou da memória e dos afectos.

Conhecia muita gente - da política, da banca, da vida empresarial, do jornalismo, do desporto, dos meios artísticos e intelectuais. Sabia receber todos sem nunca trair confidências: esta é uma regra básica de quem quer singrar no ingrato mundo da restauração.

 

Almocei lá pela última vez num domingo de Dezembro. Achei-o um pouco abatido, talvez em consequência de um resfriado. Trouxe-me o sarapatel, com o delicioso arroz basmati servido à parte. O restaurante ia receber um grupo, dessa vez não houve tempo para conversarmos.

Na mesa ao lado, quatro trintonas obcecadas com dietas consultavam interminavelmente a lista, sem se decidirem. "Detestamos picante. Não queremos nada picante nem muito calórico", disse enfim uma delas, aparente porta-voz do grupo, com ar visivelmente enfastiado. Sebastião, com aquela paciência que apenas os orientais têm e a suave ironia em que são exímios, sugeriu: "Posso fazer-vos um bifinho grelhado..."

 

Faleceu há dias, de morte súbita, aos 70 anos. Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim - embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs - unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.

Devo à grata memória de Sebastião Fernandes outra deslocação ao Nova Goa. Onde talvez pela primeira vez me estenderão a ementa. Embora eu já saiba o que irei comer. E que vinho beberei em sua invocação.

Vão-me fazer falta o seu ar bondoso e a sua palavra inspirada em relatos da antiga Goa colonial e da Lisboa de outras eras. Relatos que davam um livro que muitos gostariam de ter escrito. Eu também.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.02.18

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 As Mil e Uma Noites - vol. 1, de autor anónimo

Tradução de Hugo Maia

Narrativas

(edição E-primatur, 2017)

 

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 11.02.18

Vivemos em Portugal a melhor época cinematográfica do ano, nestas semanas entre a distribuição dos Globos de Ouro e a cerimónia da distribuição dos Óscares de Hollywood.

Há bons filmes em cartaz - vários, à escolha. Acabo de ver mais um, que recomendo vivamente: As Estrelas Não Morrem em Liverpool.

Muitos, como eu, não gostam só de bom cinema: também fazem questão de consultar as críticas sobre os filmes que vão vendo. Por isso vos deixo esta sugestão: Film Comment, o blogue dedicado à Sétima Arte do Lincoln Center, de Nova Iorque. Para ler antes ou depois de ver.

 

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