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Mais um caso para o Poirot

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

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O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desconhece de que assunto se trata. Eu também. Os inspectores tributários querem ver esclarecido o destino de 10 mil milhões de euros. Eu também. O Ministério das Finanças e os partidos, através dos seus deputados no parlamento, querem saber o que se passou. Eu também.

Entretanto, "[h]á oito meses que estão a marinar no Parlamento várias propostas para combater a “criminalidade económica, financeira e fiscal”". Só há oito meses?

Longe de Portugal, perdido como já estou no meio de tantas "reformas" do Estado, da Administração Pública e de tudo e mais alguma coisa, creio que a pessoa ideal para esclarecer o que aconteceu aos milhões, e todos os outros mistérios que assolam o nosso país, é o meu velho amigo Hercule Poirot. É tipo para fazer um trabalho limpinho. Não cobra honorários, desconhece o que são horas extraordinárias ou subsídios, não é funcionário do Estado, não depende de nenhum partido, não pede emprestado aos amigos, nunca foi ao BES, não conhece ninguém na CGD, e ainda confidenciou-me que não faz tenções de se reformar. 

Para já, é uma sorte que se saiba quem são os beneficiários do subsídio de lavagem. Desta parte está o Poirot livre. Mas, pelo sim, pelo não, o melhor é que ele também investigue se todos os que recebem o subsídio tinham um carro para lavar. Ainda me lembro de em tempos haver uns figurões que recebiam um subsídio de residência, por estarem deslocados em Lisboa, tendo casa própria na capital. E houve um que até foi a correr mudar a residência para o Algarve para passar a receber o subsídio.

Em Portugal, nestas coisas das lavagens, seja dos carros ou dos milhões, sabe-se sempre quem paga e quem fica sem os milhões, tal como nos subsídios. Mas nunca se sabe muito bem quem lava o quê e a quem. Nem com que mão.

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RH Music Box (389)

por Rui Herbon, em 23.02.17

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Autor: Aisha Kandisha's Jarring Effects

 

Álbum: Shabeesation (1993)

 

Em escuta: A Muey A Muey

 

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 22.02.17

«A Lituânia passou entre 2008 e 2010 por um ajustamento duríssimo, com reduções dos salários públicos de 20% a 30%, com cortes nas pensões acima de 10%, com toda a coreografia dramática das exigências do FMI (pobreza, desemprego, desesperança) e se está hoje onde está é porque o sacrifício valeu a pena. O mesmo aconteceu na Irlanda. Ou, em parte, na Espanha. Se Portugal continua a ter ainda hoje um PIB abaixo do que registava em 2009, se cresce a ritmo de caracol, se a pobreza se mantém na ordem dos 20% da população e se continua a ser ultrapassado pelo cão e o gato, é porque o sacrifício não valeu a pena. Afinal, Portugal não deixou de ser um paraíso para as corporações patrocinadas pelo Estado. Não deixou de ser condescendente com ministros que fogem à verdade. Permite fugas de dez mil milhões de euros para os off-shores perante a passividade das autoridades tributárias. Subalterniza a Matemática e o Português nas escolas. Dá horários de privilégio a funcionários públicos. Isenta os restaurantes da equidade fiscal.»

Manuel Carvalho, no Público

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As canções da minha vida (1)

por Pedro Correia, em 22.02.17

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LA VALSE A MILLE TEMPS

1959

 

Escutei-a pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, quando comprei um “33 rotações” de Jacques Brel, que logo se tornou num dos álbuns que mais rodaram no meu gira-discos portátil, fiel companheiro desses anos de adolescência. Um álbum de 1972, simplesmente intitulado Jacques Brel. Mantenho-o bem preservado e ainda a ele regresso em momentos de indizível nostalgia.

La Valse a Mille Temps era o penúltimo tema dessa colectânea de grandes êxitos de Brel (1929-78), belga que se despediu demasiado cedo da vida mas deixou um rasto inapagável na música de raiz francófona. Vendeu 25 milhões de discos sem nunca atraiçoar os seus ideais artísticos. Compôs, escreveu e interpretou canções que são pequenos tesouros da narrativa musicada, cruzando a trova medieval de cariz romântico com a balada de protesto contra o conformismo burguês que sempre combateu.

 

O tema nasceu em 1959, quando Brel era cabeça de cartaz no Bobino, uma das mais famosas salas de espectáculos de Paris. Nesse ano prodigioso da sua carreira, concebeu também o inimitável e arrepiante Ne Me Quitte Pas. As duas canções integrariam o quarto LP do belga, surgido ainda em 1959. Com a valsa a abrir o álbum (cuja capa aqui reproduzo), justamente galardoado com o Prémio da Academia do Disco Francês.

Com 3 minutos e 48 segundos de duração na gravação original (de 14 de Setembro de 1959, com orquestra conduzida pelo maestro François Rauber), La Valse a Mille Temps começa como valsa lenta e bonançosa e vai rodando num crescendo cada vez mais acelerado e jubilatório até ao limite do impronunciável, ao jeito de um carrossel descomandado, ameaçando vencer o cantor pela exaustão. Não por acaso, poucos foram os que se atreveram a emular Brel nesta que é uma das suas mais extraordinárias interpretações. Um deles foi Carlos do Carmo, que em 1980 superou com distinção o desafio no mítico palco do Olympia, também na capital francesa. Do espectáculo sairia aquele que é talvez o seu melhor disco gravado ao vivo.

 

Só há pouco tempo me apercebi: esta é uma das canções que mais vezes me acompanham. Dou por mim a trauteá-la, a assobiá-la, no seu rodopiar festivo, como quando a escutei pela primeira vez naquelas manhãs de ilusória Primavera perpétua, quando o tempo parecia ter vocação para eternizar-se ao comando da voz de Brel soando a princípio quase infantil nesse compasso ternário de caixinha de música.

«Au premier temps de la valse / Toute seule tu souris déjà / Au premier temps de la valse / Je suis seul mais je t'aperçois / Et Paris qui bat la mesure / Paris qui mesure notre émoi / Et Paris qui bat la mesure / Me murmure, murmure tout bas...»

 

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Intervalo publicitário

por Pedro Correia, em 22.02.17

Como o País não é só Lisboa, longe disso, aqui fica o convite para uma nova sessão de apresentação da Política de A a Z, desta vez em Braga. No próximo sábado, às 17 horas, na Livraria Bertrand do Shopping Liberdade Street Fashion. Com intervenções de Luís Marques Mendes e Nuno Barreto.

Um convite dirigido aos meus colegas de blogue e a todos os nossos leitores da capital minhota.

Gostava muito de vos ver por lá.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.02.17

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O Caso Kurílov, de Irène Némirowskiy

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Romance

(edição Sistema Solar, 2016)

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 22.02.17

Em defesa de Centeno há que reconhecer que a solução que ele encontrou para convencer António Domingues a ir para a CGD foi muito fora da caixa.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Isto está a animar

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.02.17

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Pois é, contra factos não há argumentos, diz ele. 

Então e a dívida, que Passos Coelho, Gaspar e Maria Luís Albuquerque andaram durante quatro longos anos a fazer que encolhiam, e que António Costa está aflito para conseguir controlar, isso não interessa?

Já nem falo dos 10 mil milhões que entre 2011 e 2014, a Autoridade Tributária, na altura sujeita aos olhinhos da coligação PSD/CDS-PP, deixou sair de Portugal para paraísos fiscais, porque lá virá o tempo em que também mais essa roupa se lavará. Temo é que haja nódoas e odores que já não saiam e que também não possam ser imputadas aos antecessores.

O melhor mesmo, enquanto não sair o segundo volume da nova edição da sebenta do Prof. Cavaco, é aguardar pelas explicações do Prof. Bambo, personalidade de reconhecido mérito junto dos meios judiciais. Ele deverá ser, neste momento, o único capaz de se pronunciar sobre o que está a acontecer, e sobre o que mais irá acontecer aos portugueses, sem correr o risco de lhe serem chamados nomes feios. Por exemplo, como "burlão". 

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RH Music Box (388)

por Rui Herbon, em 22.02.17

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Autor: David Sylvian

 

Álbum: Blemish (2003)

 

Em escuta: A Fire In The Forest

 

 

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Modo de Vida (46)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 21.02.17

Há uns meses, andava eu pelo Porto, encontrei o 'Pensadora das Coisas Pensadas', da Agustina. Comprei-o, que ainda o não tinha, e abri uma página ao acaso, para nesse acaso me fixar na primeira frase que me surgisse. É um hábito antigo, este, o de abrir ao acaso os livros dos autores de que gosto muito, como que para receber uma inspiração, um conselho. Tiro uma fotografia, registo o dia, e procuro onde aplicar o ensinamento. Ontem dei pela fotografia que tirei ao 'Pensadora das Coisas Pensadas', num imprevisto exacto, oportuno: "O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única. A harmonia depende possivelmente de que deveríamos impor menos as fórmulas de felicidade, que é bom senso de raros, e aceitar redimensionando-a pela responsabilidade própria, a incoerência de todos".

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Estou com Adele: Lemonade é o álbum do ano

por Alexandre Guerra, em 21.02.17

Admito que, entre tantos assuntos da maior importância nacional e internacional, as minhas atenções viraram-se para uma discussão menos profícua que ocorreu nos últimos dias, mas que me suscitou bastante curiosidade. Até percebi a razão de existir, mas para ter certezas tive que ir ouvir os álbuns “25” de Adele e “Lemonade” de Beyoncé (este último andava para ouvi-lo desde que fora lançado). Apesar da minha estranheza inicial e das muitas críticas que se fizeram ouvir, percebo agora porque razão o Grammy de Melhor Álbum do Ano tenha ido para o “25”. Não concordo com a decisão, mas percebo-a à luz daquilo que são os Grammy que, à semelhança dos Óscares, premeiam e dão primazia ao “mainstream”. Não quer isto dizer que o vencedor não seja de grande qualidade musical porque, neste campo, Adele mostra bem os seus pergaminhos e apresenta um álbum pop mais “baladeiro”, bastante bem conseguido, mas sem grandes rasgos criativos e inofensivo em termos de mensagem. Não tem (nem pretende ter) aquele arrojo social e politicamente disruptor que o “Lemonade” de Beyoncé tem e que pretende colocar em causa a ordem estabelecida. E quando se trata de “agitar as águas”, por mais brilhante que seja o álbum (que é), o conservadorismo destas organizações fala mais alto. Neste aspecto, até acho que os Óscares têm sido mais “atrevidos” do que os Grammy que, no ano passado, voltaram a errar ao permitir que o sublime, poderoso, provocador e aclamadíssimo “To Pimp a Butterfly" de Kendrick Lamar perdesse o prémio de Melhor Álbum do Ano para “1989” de Taylor Swift. Da minha parte, não tenho dúvidas de que "To Pimp a Butterlfly" foi o melhor álbum de 2015, tal como fiquei rendido ao "Lemonade" de Beyoncé, uma artista que se assume neste álbum com uma grandeza artística e social, um patamar que Adele não conseguiu alcançar com o seu "25".

 

"Formation", umas das músicas mais interventivas de Beyoncé no muito bem conseguido álbum "Lemonade". 

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A falta de memória dos jornais

por Pedro Correia, em 21.02.17

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José Fernandes Fafe (1927-2017) com Fidel Castro quando foi embaixador em Havana

 

Li hoje seis jornais diários. Cinco deles, ao contrário do que se impunha, não concederam qualquer destaque à morte de José Fernandes Fafe - embaixador, escritor, político, grande figura do século XX português, uma daquelas pessoas de quem se diria sem favor algum que a sua vida dava um romance.

Conspirou contra o salazarismo, foi protagonista de diversos episódios da resistência à ditadura. Após a Revolução dos Cravos tornou-se um dos primeiros embaixadores "políticos" do nosso regime democrático por decisão de Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros pós-25 de Abril, como muito bem lembra Francisco Seixas da Costa no seu blogue, Duas ou Três Coisas.

Tornou-se assim embaixador residente em Cuba, onde conheceu toda a elite do regime comunista, incluindo Fidel Castro, que biografou num  livro muito interessante, cheio de revelações sobre o tirano que governou a ilha com mão de ferro entre 1959 e 2006. As rotas da diplomacia levaram-no ainda a ser embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Morreu ontem, aos 90 anos e com uma vida cheia. Mas quase toda a imprensa se esqueceu de assinalar o facto com o destaque que se impunha. Incluindo a mais antiga, precisamente a que tinha maior obrigação de avivar as memórias dos leitores. Por ironia, só no mais jovem título da nossa imprensa em papel - o diário i - encontrei um obituário digno do intelectual e do cidadão que Fernandes Fafe foi. Por ironia também, num texto de duas páginas (sem hiperligação disponível) assinado por Sebastião Bugalho, um dos mais jovens jornalistas políticos portugueses.

Os restantes, lamentavelmente, fizeram de conta que não sabiam. Ou não sabiam mesmo, num dia em que os cinco jornais generalistas concederam nada menos de 24 páginas a noticiário avulso sobre futebol.

A crise do jornalismo, de que tanto se fala, tem muito a ver com estas omissões. Cada uma delas é grave. Todas somadas, tornam-se imperdoáveis.

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Música recente (72)

por José António Abreu, em 21.02.17

The Invisible, álbum Patience.

Os Invisible são Dave Okumu, produtor do primeiro álbum de Jessie Ware, guitarrista da malograda Amy Winehouse, e Tom Herbert e Leo Taylor, colaboradores habituais de Adele. A música que fazem evita a velocidade e a grandiloquência; trata-se de pop electrónica, mas num registo contemplativo e melancólico. Alguns dos melhores temas do álbum incluem convidadas (Anna Calvi, por exemplo).

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Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 21.02.17

 

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Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.02.17

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Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio

Romance

(edição D. Quixote, 2017)

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Agora é a minha vez

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.17

 

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 (foto economia online)

Afastado como estou das confusões da política à portuguesa, tenho-me limitado a acompanhar à distância o que por Portugal vai acontecendo, fazendo fé nos relatos que me vão chegando, no que me é oferecido pela RTPI e, em especial, pela imprensa. E sobre o que tenho ouvido, visto e lido bem posso dizer que não estou nada satisfeito porque os anos passam e quase tudo continua na mesma. Em particular no que diz respeito ao comportamento dos partidos e dos agentes políticos.

Mas antes disso, convém dizer que resolvi fazer uma visita até aqui para vos dizer o que penso do "affaire" CGD/Centeno. A novela já vai longa e é tempo de se colocar um ponto final na bagunçada. Chafurdar na lama normalmente não acrescenta limpeza aos intervenientes, nem claridade ao que que lá se busca.

Não haverá português que ao ouvir falar da CGD, para todos os efeitos o maior banco nacional e uma entidade que faz parte de um grupo empresarial em que o Estado tem um papel determinante, que não pense logo no que há décadas vem acontecendo com aquela casa em matéria de distribuição de lugares a correligionários políticos e empresariais, contribuição para algumas reformas chorudas e atribuição de créditos para negócios mais do que duvidosos que depois acabam sendo pagos por todos os portugueses e enrodilhados nos meandros das investigações do Ministério Público. Gente ligada ao CDS/PP, ao PSD e ao PS, pelo menos estes, que me lembre, tem passado pela CGD como se o banco fosse uma sucursal dos próprios partidos onde é necessário colocar capatazes, amigalhaços e compadres para agradecer os respectivos favores políticos e garantir financiamentos a afilhados que de um momento para o outro resolvem ser "empresários". À nossa custa.

O que recentemente aconteceu com o ministro das Finanças e António Domingues nunca deveria ter acontecido e não é pelo facto do Primeiro-Ministro se chamar António Costa ou o PS ser governo que existe atenuante para o que aconteceu. O caso é revelador de uma inépcia política inqualificável por parte do ministro das Finanças, só justificável pela sua própria inexperiência e voluntarismo. Mário Centeno quis resolver um problema, dar uma gestão mais profissional à CGD, só que fê-lo da forma mais desastrada possível de que há memória.

Dou de barato que o ministro não é um político de carreira, que a sua experiência político-partidária era igual a zero e que apenas estava preocupado com a situação do banco e a obtenção de uma solução que servisse os interesses da instituição e dos portugueses. Quanto ao escolhido, o banqueiro Domingues, como é normal quando se convida qualquer pessoa para mudar de um emprego para outro, procurou obter as melhores condições remuneratórias possíveis, mantendo o sigilo que lhe parecia conveniente e assegurando uma equipa da sua confiança. Até aqui tudo normal. O que aparentemente se tratava de uma situação corriqueira complica-se, daquilo que me foi dado perceber, quando Domingues resolve fazer exigências que à partida deveria ter tido o bom senso de nem sequer pensar nelas. Domingues saía de um pequeno banco para uma entidade de muito maior dimensão, pelo que presumo que curricularmente, mesmo para um banqueiro, não seja coisa despicienda. Quando se passa de um estaminé de bairro para um empório peninsular as responsabilidades aumentam e a projecção é outra. Isto também tem um valor. Em todo o caso, não me parece que as condições remuneratórias oferecidas pelo banco público fossem más, nem pareceu que fosse essa a razão da disputa.

Onde parece que as coisas se desalinham é quando o banqueiro pretende obter para si um regime de excepção, claramente à margem do legalmente aplicável, e o ministro, vou admiti-lo em função do que veio a público e do que referiu Lobo Xavier, resolve dar-lhe trela em vez de liminarmente cortar a direito e dizer ao senhor Domingues que tivesse juízo, directamente ou através de um dos seus secretários de Estado. Não o fez quando o devia ter feito e foi por essa razão que chegámos ao ponto onde estamos. Domingues esteve muito mal quando se lembrou de propor ao ministro a desobrigação da entrega das declarações de património como uma das condições para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD e convidar os restantes membros dos órgãos sociais. Domingues sabia quais eram as condições vigentes para liderar o banco público e devia ter tido a vergonha, já que do ponto vista cívico não deixa de ser uma vergonha, mais a mais vinda de quem está na sua posição, de alguém que faz parte de uma elite nacional, de não propor isso ao ministro. Como se sabe, a educação, o dinheiro e a excelência do desempenho profissional nem sempre dão bom senso e qualquer um de nós está sujeito a ter um momento menos feliz. Ele teve ali o seu.

Posto isto, o que veio a seguir já é do domínio da chicana política em que são useiros e vezeiros alguns dos nossos maiorais partidários. Aquilo que sucedeu não serve para desqualificar tecnicamente Mário Centeno, cujos resultados são incontornáveis (não obstante o crescimento da dívida, mas este é mal que quem o precedeu também não conseguiu controlar em tempos de austeridade), mereceram aplauso em Bruxelas, declarações encomiásticas dos comissários Moscovici e Carlos Moedas, pelo menos destes, e o silêncio de Wolfgang Schäuble, o tal que dizia que Portugal estava no bom caminho até entrar o actual governo e que até agora, perante o défice mais baixo da história da democracia portuguesa e os números que foram conhecidos mantém um envergonhado e comprometido recato.

O Primeiro-Ministro protegeu o seu ministro, como faria qualquer outro no seu lugar e isso não lhe pode ser censurado. Não é a mesma coisa, convenhamos, que proteger quem tem licenciaturas de favor, usou a política para se promover e enriquecer ou andar a promover vistos gold. Nem é a mesma coisa que andar de braço dado com os Duartes Limas, os Loureiros e a maltosa do BPN e da SLN para depois só andar preocupado com as mentiras de um tipo como o Sócrates, a ponto de ter necessidade de lhe dedicar uma sebenta.

O Presidente da República fez o que lhe competia. Ficou zangado. Eu também ficaria, mas como o próprio sabe, no lugar em que está, por vezes, também tem de dar alguns mergulhos e engolir alguns sapos. Nessa matéria também não é nenhuma virgem e ele sabe como se há-de proteger.

Mal, muito mal, estiveram os partidos da oposição. E sobre o que Passos Coelho, Assunção Cristas e a sua malta andaram a dizer, e a sua preocupação em divulgarem os sms trocados entre Centeno e Domingues, gostaria de dizer uma coisa. Eu, como todos os portugueses, temos todo o interesse em conhecer o conteúdo dessas comunicações. Considero-as de interesse público e penso que são relevantes por razões de transparência e higiene da nossa democracia. 

Convirá, porém, dizer que considero perfeitamente aceitável a posição do PS e dos partidos que apoiam o Governo, tendo presente o passado próximo e aquilo de que a Oposição já se esqueceu. Não foi assim há tanto tempo como isso que Passos Coelho, quando confrontado com os pagamentos da Tecnoforma e a trapalhada das suas deslocações e das despesas de representação veio dizer, também perante factos de relevante interesse público, que não estava disposto a autorizar o "striptease" das suas contas bancárias, querendo à viva força que se confiasse na palavra de quem já fora apanhado em diversas "inverdades" e mentira descaradamente aos portugueses quando andou a convencê-los para lhe darem o seu voto. Foi a própria Assunção Esteves, ao tempo presidente da Assembleia da República, quem protegeu Passos Coelho e impediu o acesso do PCP aos documentos que clarificariam a situação do então primeiro-ministro, a qual até hoje, pelo menos para mim, continua por clarificar e envolta em muitas dúvidas. É bom recordá-lo.

E também que o PSD e o CDS/PP enquanto foram poder inviabilizaram todos os inquéritos em que a sua gente esteve envolvida. O caso mais escandaloso foi aquele que dizia respeito à ex-ministra das Finanças. Agora fazem-se de virgens ofendidas, esquecendo que em Julho de 2013, a audição que tinha sido requerida com carácter de urgência pelo Bloco de Esquerda (BE) fora por eles chumbada. Em causa estava, recordo, a acusação de que Maria Luís Albuquerque faltara à verdade e eram públicas informações de que recebera informação por escrito, designadamente do Director-Geral do Tesouro e Finanças, sobre a situação das perdas potenciais dos swaps. Em 25 de Julho de 2013, o Público referiu que "os emails enviados pelo ex-director-geral do Tesouro e Finanças, Pedro Felício, à agora ministra das Finanças em Junho e Julho de 2011 já continham informação sobre swaps e indicavam uma perda potencial de 1,5 mil milhões", acrescentando-se que "a troca de emails diz respeito aos dias 29 de Junho, 18 de Julho, 26 de Julho e 1 de Agosto". Até hoje estou para ler esses emails e para saber se Maria Luís Albuquerque mentiu, como acredito que aconteceu, ou se fez o que devia.

Que agora não seja possível ter acesso aos sms e às respostas que terão sido dadas por Mário Centeno a Domingues é mau para as nossas instituições e para a nossa vida democrática. Não concluo que tudo do que foi dito e veio a público seja verdade, pelo que importa por isso mesmo lembrar que aqueles que vêm agora armar um escarcéu por causa dos sms trocados entre Centeno e Domingues – sendo certo que não é o facto de um tipo escrever a um ministro a dizer o que quer que permite retirar qualquer assentimento do destinatário quanto às exigências que fez se nada for dito nesse sentido –, são os mesmos que no passado protegeram Dias Loureiro no Conselho de Estado e Miguel Relvas no Governo, e que inviabilizaram o esclarecimento das situações envolvendo Passos Coelho e a Tecnoforma e Maria Luís Albuquerque e os swaps.

É uma chatice ter de vir falar nisto nesta altura, só que perante tudo o que se tem escrito sobre este assunto e o circo que se montou, talvez seja altura de dizer que se o PSD e o CDS/PP tivessem tido então uma atitude decente, talvez agora estivéssemos todos, a começar pela Oposição, em posição de exigir, com outra autoridade, o conhecimento público das comunicações trocadas entre Mário Centeno e António Domingues.

Para mal dos nossos pecados, não têm agora de que se queixar. É pena, mas depois do que fizeram também não merecem outra coisa.

Quanto ao futuro, presente o sucedido, o que sugiro é que os partidos se entendam em sede parlamentar e acautelem a forma como deverão amanhã proceder perante situações idênticas. Não é só no futebol, em relação aos árbitros e aos artistas da bola, que devemos ser lestos a exigir responsabilidade, respeito e fair play. Temos obrigação de também os exigir na política e aos partidos. Isto se não quisermos que as futuras gerações tenham vergonha de nós. E se tivermos vontade de nos corrigirmos, evidentemente.

De outro modo, pode ficar tudo na mesma. Como sempre. Como até aqui. Entregue à gandulagem que medra encostada aos partidos e à democracia. Ninguém estranhará. Talvez um dia.

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 21.02.17

À Lili in the Woods.

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RH Music Box (387)

por Rui Herbon, em 21.02.17

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Autor: Susan Christie

 

Álbum: Paint A Lady (1969)

 

Em escuta: Rainy Day

 

 

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Descubra as diferenças

por Inês Pedrosa, em 20.02.17

Na reportagem que o Expresso online publicou sobre a leitura pública do romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, realizada na Fundação José Saramago, escreve-se: "Foi a escritora e antiga presidente da Casa Fernando Pessoa quem deu início à leitura, lembrando que estavam todos ali por serem amigos do Valter" (conferir aqui). A gravação video da minha prestação demonstra que eu não "lembrei" isso - nem nunca o "lembraria", não só porque não sou íntima do Valter, mas sobretudo porque se tratava de valorizar a qualidade de um livro e de um escritor. O reconhecimento do talento faz muita confusão a certa imprensa; custa-lhe a crer que haja outras coisas entre a terra e o céu além do corporativismo. Deixo aqui a gravação, para mostrar a diferença.

 

 

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Um olhar sobre a deriva feminina

por Teresa Ribeiro, em 20.02.17

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 Mulheres do Século XX 

****

Justamente nomeada para os globos de ouro, em "Mulheres do século XX" , de Mike Mills (também autor do argumento), Annette Bening dá-nos um retrato pungente do desamparo feminino ao encarnar Dorothea Fields, uma mulher madura e emancipada, mãe de um adolescente que cresceu só com ela e que, como a maioria dos adolescentes, a subavalia com crueldade e ligeireza.

Trata-se de um drama familiar banal, já vimos centenas, se não milhares no celulóide, mas rodado com uma frescura surpreendente. Gosto das acelerações de imagens em cores psicadélicas de Mills, das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas, das bios das diferentes personagens apresentadas em esboço e depois a encaixar como um puzzle na história que as juntou. Esta construção, nada naturalista, liberta-nos, pois evita que nos transportemos para dentro do filme.

Há filmes para ver e filmes para mergulhar. Este é dos que nos conservam à janela, simples voyeurs de vidas que de alguma forma já observámos a correr em pista, mesmo ao nosso lado.

Não sendo o filme do ano, "Mulheres do Século XX" (no original, "20th Century Women"), nomeado para os globos de ouro também na categoria de melhor filme de comédia ou musical e para os oscares na categoria de melhor argumento original,  é uma experiência que nos convoca a ternura e a ironia a propósito de um tema inesgotável, o das mulheres a abrir caminho num mundo que não foi feito à sua medida.

 

Realizador: Mike Mills

Actores: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig

EUA, 2016

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Ler

por Pedro Correia, em 20.02.17

Premiar o homicídio premeditado. Da Carla Hilário Quevedo, na Bomba Inteligente.

Desobedecer. De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Das boas ideias. Da Daniela Major, no Aventar.

Trabalhos forçados. Da Zélia Parreira, no Açúcar Amarelo.

Em bicos-de-pés. Da Vanita, na Caixa dos Segredos.

O segredo da felicidade. Da Maria João Caetano, n' A Gata Christie.

Trovoada. De Ana Cássia Rebelo, na Ana de Amsterdam.

Choupos. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Mar alto, rodeada por golfinhos. Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.

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Palavras para recordar (18)

por Pedro Correia, em 20.02.17

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NICOLAU SANTOS

Expresso, 20 de Fevereiro de 2010

«Vítor Constâncio foi eleito pelo Ecofin como o nome a apresentar ao Conselho Europeu de Março para ocupar o lugar de vice-governador do Banco Central Europeu. Foi uma escolha unânime, batendo os outros dois candidatos ao lugar. É uma grande vitória para o país e uma grande vitória para Constâncio, pois resulta essencialmente do prestígio nacional e internacional de que o governador do Banco de Portugal desfruta. (...)

Constâncio resistiu a todas as acusações e sai por cima para um cargo de grande responsabilidade e prestígio. Merece-o inteiramente. Foi um grande governador do Banco de Portugal. E a solidez com que o sistema financeiro português ultrapassou a crise é a prova disso mesmo.»

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Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo

por José António Abreu, em 20.02.17

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi),  lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.02.17

 

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Pastoralia, de George Saunders

Tradução de Rogério Casanova

Contos

(edição Antígona, 2016)

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RH Music Box (386)

por Rui Herbon, em 20.02.17

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Autor: Mandy More

 

Álbum: But That Is Me (1972)

 

Em escuta: God Only Knows

 

 

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Blogue da semana

por João Campos, em 19.02.17

Numa época em que os blogues caíram em desuso e foram ultrapassados pela irrelevância acelerada das redes sociais, é sempre interessante notar que ainda existem alguns fenómenos de longevidade - blogues criados durante a época de maior dinamismo da blogosfera que durante o seu ocaso têm mantido tanto a actividade regular como a pertinência. É o caso do Rascunhos, que desde 2006 tem vindo a deixar óptimas sugestões de leitura e reflexões interessantes sobre os livros e as bandas desenhadas que a Cristina Alves, com quem já tive o privilégio de partilhar algumas mesas redondas no Fórum Fantástico, vai lendo (e lê muitos). Pela longevidade e pela qualidade, será o blogue desta semana.

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Fotografias tiradas por aí (343)

por José António Abreu, em 19.02.17

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Vila Nova de Gaia, 2005.

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Tapar o sms com a peneira

por Rui Rocha, em 19.02.17

As tentativas de paralisar o acesso de uma Comissão Parlamentar de Inquérito aos sms de Mário Centeno têm sido, em geral, atabalhoadas. Mas, de todos os argumentos já utilizados com esse objectivo, o mais ridículo é aquele que afirma que o prolongamento da discussão do tema põe em causa o futuro da Banco público. Jerónimo afirmou mesmo que uma nova CPI corresponde a fabricar o caixão da CGD, mas o próprio Marcelo não anda longe disso embora com uma formulação mais cuidada. Vamos lá ver. Passámos semanas a ouvir dizer que o que está em causa são tricas e questões sem importância. Se é assim, nunca uma CPI que revelasse tais insignificâncias poderia pôr em causa o que quer que fosse. Aliás, se insignificâncias fossem, o caminho seria bem simples: revelar de uma vez por todas o que foi escrito e deixar a nu a falta de fundamento das acusações da direita. O ponto tem, portanto, de ser outro. As esquerdas e não só sabem que o conteúdo dos sms é grave. Mas não percebem que, se continuarem a prometer o apocalipse para a Caixa perante uma nova CPI, acabam não tarda, por dispensá-la. As afirmações dos geringonços e respectivos padrinhos constituem já uma confissão liminar da gravidade dos factos. Não se imaginava que as esquerdas, na ânsia de esconder, pudessem ser tão transparentes nas suas intenções.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.02.17

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Quero Acreditar, de Laurinda Alves

Reflexões

(edição Clube do Autor, 2016)

"Por vontade expressa da autora, a presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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RH Music Box (385)

por Rui Herbon, em 19.02.17

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Autor: Lee 'Scratch' Perry + Dub Syndicate

 

Álbum: Time Boom X De Devil Dead (1987)

 

Em escuta: S.D.I.

 

 

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Sobre o livro de Cavaco

por Rui Rocha, em 18.02.17

Considero o timing e o conteúdo (li em diagonal, saltando de capítulo para capítulo) no mínimo questionáveis. Desde logo, porque nada acrescenta à imagem daquele que parece ser o seu alvo principal. José Sócrates é um trambiqueiro volúvel, manipulador, irascível e perigoso? Obrigado, já sabíamos. Mas, sobretudo, porque é do senso comum que uma troca de argumentos com Sócrates é mergulhar na lama e só serve para dar palco a um cadáver político. Nestes casos, vale sempre a pena ter em atenção o conselho de Mark Twain: nunca discutas com um cretino; ele arrasta-te até ao nível dele e depois vence-te em experiência.

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Passado presente (CDXXIII)

por Pedro Correia, em 18.02.17

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  Taunus 17M

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.02.17

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Música no Coração, de Maria Augusta Trapp

Prefácio de Filipe La Féria

Tradução de Ana Paula Florindo

Memórias

(edição Verso de Kapa, 2017)

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Antes de eu voltar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.17

 

Antes de voltar às lides, e de me pôr a comentar o livro de Cavaco Silva, os emails da CGD ou as arbitragens no Dragão, convém ter uma ideia do mundo em que estamos...

Just in case.

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RH Music Box (384)

por Rui Herbon, em 18.02.17

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Autor: Suicide

 

Álbum: Suicide (1977)

 

Em escuta: Rocket USA

 

 

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 17.02.17

 

No país do achismo, quem tem olho é tudólogo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Portugal

por Rui Rocha, em 17.02.17

O país em que o Ministro das Finanças, o Primeiro-Ministro e o Presidente da República se enterram num lodaçal que envolve diplomas feitos à medida, normas ditadas pelos advogados do interessado, publicações fora de tempo, compromissos espúrios, negociações por sms, meias-verdades, versões contraditórias, novilíngua, mentiras, conferências de imprensa ridículas, bloqueios institucionais à descoberta da verdade e raspanetes públicos e, no fim, o único que apresenta a demissão é o Matos Correia da Comissão de Inquérito.

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Música recente (71)

por José António Abreu, em 17.02.17

Osso Vaidoso, álbum Miopia.

Ana Deus e Alexandre Soares num segundo álbum de sonoridade mais «suja», assente em letras de gente como Jorge Luis Borges, Natália Correia, Nicolau Tolentino, Rainer Maria Rilke e Sá de Miranda.

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Diz-me quem te critica...

por Pedro Correia, em 17.02.17

A semana começou com críticas do PSD a Marcelo Rebelo de Sousa e aproxima-se do fim com críticas do PS a Marcelo Rebelo de Sousa.

Prova evidente de que o Presidente da República está a cumprir bem o seu papel.

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As eleições presidenciais francesas.

por Luís Menezes Leitão, em 17.02.17

Há uma coisa que me tem surpreendido em absoluto nos últimos tempos: a total falta de profissionalismo na condução das campanhas eleitorais. Mesmo na América, onde as campanhas eleitorais são habitualmente conduzidas com enorme eficácia, Hillary Clinton fez uma campanha desastrosa, acabando por perder a eleição.

 

Em Franca, no entanto, parece que isto atingiu o absurdo total, estando todos os candidatos a dar sucessivos tiros no pé, parecendo que a única coisa que querem garantir a eleição a Marine Le Pen. O último episódio é esta entrevista de Macron. Será que ele acha mesmo que este discurso é a resposta adequada a esta campanha da sua adversária principal? Depois não estranhem o resultado.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.02.17

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Crónicas Moralistas, de João Távora

Prefácio de J. Rentes de Carvalho

Comentários, notas e memórias

(edição Páginas e Letras, 2017)

NOTA: o livro só se encontra à venda na internet, via este endereço: http://joaotavora.pt/index.php/cronicas-moralistas

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Frases de 2017 (6)

por Pedro Correia, em 17.02.17

«Como ministro das Finanças, Mário Centeno não está fragilizado.»

Manuela Ferreira Leite, ontem, na TVI 24

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 17.02.17

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Adriana Ugarte

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As etiquetas partidárias

por Pedro Correia, em 17.02.17

 

Ouço por vezes falar em "ideologias" na política portuguesa. Há até uns sábios que se assumem como guardiães dos respectivos templos.

Mas que ideologias, afinal?

 

O CDS reivindicou-se sempre como partido "do centro". C de centro, aliás. Mas esteve sempre à direita do centro, contrariando aliás a vontade de um restrito núcleo dos seus fundadores.

O PCP só seria comunista se fosse um partido revolucionário. Mas é um partido institucionalista, com base social no funcionalismo público a nível nacional e local. Nada tem de revolucionário.

O PSD nunca foi social-democrata. Foi - e é - um partido liberal, conservador, com matizes populistas nas suas adjacências regionais.

O PS meteu o socialismo na gaveta ainda na década de 70. Teve sempre uma matriz dominante - a da social-democracia clássica, com erupções sociais-cristãs sobretudo no consulado de António Guterres.

O Bloco de Esquerda é vagamente "socialista" mas contemporizador com a UE capitalista, da qual não quer dissociar-se. Burguês até à medula, com representação residual junto dos segmentos mais pobres da sociedade. 

O PEV é tão ecologista como eu sou evangélico, xintoísta ou libertário. Eterna muleta do PCP, sempre foi muito mais vermelho que verde.

 

Esqueçamos portanto as etiquetas. Dizem-nos muito pouco ou quase nada dos partidos portugueses.

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RH Music Box (383)

por Rui Herbon, em 17.02.17

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Autor: Die Jungen

 

Álbum: At Breath's End (2012)

 

Em escuta: The Sun Is Coming Up

 

 

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 Livraria Bertrand, Campo Pequeno (Lisboa), 11 de Fevereiro

 

Depois do sucesso registado em Lisboa, a Política de A a Z terá a próxima sessão de lançamento já no próximo dia 25, a partir das 17 horas, em Braga. Na Livraria Bertrand do Shopping Liberdade. Com apresentação de Luís Marques Mendes e Nuno Barreto.

Esta obra, que assino em parceria com Rodrigo Gonçalves, já foi pretexto para entrevistas na TVI 24, SIC Notícias, Lusa, Antena 1, Antena 3, M80, Rádio Amália, Rádio Cidade de Tomar, Rádio Voz da Golegã, Rádio de Vila de Rei e revista Novos Livros, além de ter justificado referências no Diário de Notícias, Jornal de Negócios, TSF, CMTV e revista Sábado.

Em breve darei aqui nota mais detalhada sobre os ecos que já mereceu este livro, entretanto destacado por Francisco Louçã, João Pereira Coutinho, Helena Sacadura Cabral, Carlos Vaz MarquesJoão Céu e Silva e Fernando Sobral.

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Tenham lá paciência

por Rui Rocha, em 16.02.17

Vejo que muitos dos que agora estão incomodados com a discussão da "questão de carácter" de Mário Centeno exigiram na altura (e bem, também o fiz) a demissão de Relvas. Naquele momento, fizeram-no porquê? Por causa da Lei da Rádio, foi?

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.02.17

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Ema, de Maria Teresa Horta

Novela

(reedição D. Quixote, 2017)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990"

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 16.02.17

 

Ao Comentador de Bancada.

 

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