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Contra as novas censuras

por Pedro Correia, em 18.01.18

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 Mulher nua deitada de bruços (1917), de Egon Schiele

 

«Vamos queimar os livros de Sade? Vamos qualificar Leonardo da Vinci como artista pedófilo e apagar os seus quadros? Retirar Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me sem voz e inquieta-me perante o futuro das nossas sociedades.»

Catherine Deneuve, em carta publicada no Libération

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Do calculismo

por Pedro Correia, em 18.01.18

Tenho lido e ouvido justas críticas ao "calculismo" daqueles que, podendo ter avançado agora para a liderança do PSD, optaram por ficar quietos aguardando o que vai seguir-se até ao próximo ciclo eleitoral.

O mais curioso é que estas críticas são formuladas com frequência entre elogios ao "desassombro" de Rui Rio. Esquecendo estes arautos de fraca memória o calculismo do próprio Rio, que levou uma década a tomar balanço para uma candidatura à presidência do PSD. Se o tivesse feito no momento próprio, teria poupado o partido à gestão errática de Luís Filipe Menezes e talvez tivesse poupado o País aos piores dois anos da governação Sócrates, com todo o seu estendal de amargas consequências.

Em política, nunca existem cenários perfeitos. Quem aguarda em excesso arrisca-se a chegar demasiado tarde, vá para onde for.

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Outras galáxias muito distantes (7)

por João Campos, em 18.01.18

Apesar da ideia que se possa retirar da televisão, do cinema e da Internet por estes dias, na ficção científica a chamada space opera não se resume a Star Wars (ou a Star Trek, já agora). Pese embora a sua popularidade, a franchise multimilionária criada por George Lucas em 1977 está a anos-luz de ser o pináculo criativo ou conceptual de um género que, muito antes de encantar nas salas de cinema, já encantava nas páginas das pulps norte-americanas. Esta é a última das sugestões de galáxias a descobrir na literatura e na banda desenhada. Pelo menos, por agora.

 

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 Ody-C

Uma odisseia no feminino

 

Esta curta série de sugestões de leitura de space opera começou na banda desenhada, pelo que me parece muito adequado concluí-la também com banda desenhada. E com uma não menos sofisticada: se Saga inova pela forma como pega nos elementos clássicos do género e os recombina numa narrativa moderna e arrojada, já Ody-C recupera uma das mais clássicas histórias da cultura ocidental - a Odisseia de Homero -, dá-lhe uma nova perspectiva pela alteração do género de praticamente todas as personagens, e transporta-a para um futuro espacial e psicadélico narrado por Matt Fraction e ilustrado de forma assombrosa por Christian Ward.

 

Seria talvez simples reduzir Ody-C a uma versão gender-bent da Odysseia - aliás, seria porventura simples para os autores limitarem-se a essa ideia original. É certo que são exploradas algumas das passagens mais icónicas da Odisseia, como o encontro com Polifemo ou a visita a Éolo, mas Fraction e Ward levam mais longe as atribulações de Ulisses, Menelau e Agamemnon, aqui Odyssia, Ene e Gamem, uma vez terminada a guerra centenária contra Troiia-VII. Se alguns mitos são simplesmente adaptados, outros são transformados com vista à criação de um universo ficcional próprio - e as viagens de regresso das três rainhas-guerreiras, perante a oposição de um panteão liderado por Zeus que vê nas proezas marciais das três combatente e no saque de Troiia-VII um desafio ao seu poder, combinam de forma tão elegante como surpreendente as inspirações clássicas (homéricas e não só) com alguns elementos tradicionais da space opera numa narrativa moderna. 

 

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Fraction opta por narrar esta odisseia de forma pouco convencional, aludindo ao poema épico original com um texto breve e minimalista tanto na descrição como no diálogo - é uma opção porventura estranha para alguns leitores, mas que se revela muito eficaz no modo como se funde à ilustração tão inventiva como psicadélica de Ward, cheia de cores e de formas improváveis. Folhear as páginas dos fascículos ou dos paperbacks é uma experiência singular, que não remete para a tradição dos comics norte-americanos mas antes para algumas bandas desenhadas europeias; e se à primeira vista é impossível não reparar na arte de Christian Ward, uma leitura mais atenta revela a forma hábil com que pega nas ideias que as palavras de Matt Fraction evocam para recriar com absoluta originalidade personagens que todos já vimos vezes sem conta em inúmeras narrações dos mitos da Grécia Antiga. 

 

Pelo tom e pelo estilo muito próprios, é possível que Ody-C não seja uma banda desenhada para todos os leitores - as críticas tendem a polarizar-se entre quem não consegue entrar na história pela forma como esta é narrada e entre quem se maravilha a cada página pela forma imaginativa como uma história tão contada pode ser reinventada com tanta originalidade e com tanto arrojo conceptual e artístico. Pesoalmente, coloco-me no segundo grupo: das bandas desenhadas que comecei a ler em 2017, Ody-C estará sem dúvida entre as melhores. Merece uma oportunidade, e deixa uma garantia: goste-se ou não, não se lhe ficará indiferente. 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.01.18

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Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais, de Maria Filomena Molder

Ensaios literários

(edição Relógio d'Água, 2017)

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 18.01.18

No tempo de Lenine havia esquerda a sério. Agora a "esquerda" faz compras no supermercado do Corte Inglés, lancha na Versailles e janta no Belcanto. Se a revolução saísse à rua, a "esquerda" corria a casa para salvar as pratas.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (293)

por Pedro Correia, em 18.01.18

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Frases de 2018 (5)

por Pedro Correia, em 17.01.18

«Eu não sou do PSD: eu sou do partido do doutor Sá Carneiro.»

Rui Rio, ontem, em entrevista à RTP

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A guerra no norte de Moçambique

por jpt, em 17.01.18

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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos "interesses americanos" a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma "cortina de fumo" distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam "será a Renamo?", outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de "social banditry". E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) "Al-shabaab". Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença - que nunca será a do "mínimo denominador comum" entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo - que é uma forma do "nada", do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado ...

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Já li o livro e vi o filme (217)

por Pedro Correia, em 17.01.18

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     REBECA (1938)

Autora: Daphne du Maurier

Realizador: Alfred Hitchcock (1940)

Obra-prima do romance psicológico, confrontando duas mulheres casadas com o mesmo homem: a falecida, que dá nome ao livro, e a sucessora, que nunca saberemos como se chama. Daqui nasce o primeiro filme americano de Hitchcock, galardoado em 1941 com o Óscar para melhor longa-metragem.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.01.18

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Porquê Este Mundo, de Benjamin Moser

Tradução de Maria Beatriz Sequeira

Biografia de Clarice Lispector

(edição Relógio d'Água, 2017)

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Reavaliação do consenso fiscal.

por Luís Menezes Leitão, em 17.01.18

Lisboa nunca deve ter tido um presidente pior do que Fernando Medina, que coloca a cidade permanentemente em obras inúteis que, depois de realizadas, só complicam a vida aos lisboetas. Como se isso não bastasse, os lisboetas são constantemente esmifrados com impostos e falsas taxas, que só a muito custo conseguem eliminar, como se viu com a tardia declaração de inconstitucionalidade da taxa de protecção civil, que toda a gente sabia ser inconstitucional. Agora, com um rombo de 80 milhões em perspectiva, Medina diz que "quer reavaliar o consenso fiscal em Lisboa". E se ele reavaliasse antes a sua própria presidência da Câmara?

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Canções do século XXI (292)

por Pedro Correia, em 17.01.18

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Viva a Tabárnia independente

por Pedro Correia, em 16.01.18

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Tabárnia já tem presidente. Um passo importante no processo de libertação do jugo da Catalunha. O direito à autodeterminação e à independência é inquestionável: nenhum povo deve renunciar a ela.

Liberdade para Barcelona e Tarragona, já!

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 16.01.18

blá, blá, blá, blá, ó mãe, a minha amiga tal de tal, quando se zanga fica rude. Rude mesmo, mãe. E eu, ai sim, então e tu, Rita, quando te zangas, como é que ficas? E ela, eu fico raivosa e agressiva, mãe. Raivosa e agressiva, mas não fico rude. E eu, enfim, muito mais descansada. Pelo menos não fica rude.

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Frases de 2018 (4)

por Pedro Correia, em 16.01.18

«O PSD deve vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.»

Manuela Ferreira Leite, ontem, em entrevista à TSF

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Dolores O’Riordan (1971-2018)

por Diogo Noivo, em 16.01.18

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Havia ali um apelo à insurgência. A letra da música falava de frustrações e de uma exasperação profunda, mas o videoclip instigava à revolta. Do ponto de vista estético, a explicação era simples: o realizador do vídeo de Zombie, dos The Cranberries, dirigira uns anos antes o clip do imortal Smells Like a Teen Spirit, dos Nirvana. No entanto, o apelo à revolta presente nas imagens tinha razões bem mais importantes: Zombie foi inspirado no atentado do IRA ocorrido a 20 de Março de 1993, em Warrington, Inglaterra, onde morreram duas crianças. A religião, a política, e uma sociedade rasgada ao meio apareciam no videoclip de forma explícita e sem recorrer a figurantes. Os irlandeses The Cranberries, que já andavam nas tabelas com baladas como Linger, entravam sem medo no campo minado da crítica a uma organização terrorista.

 

Zombie, o single do segundo álbum da banda, tomou as rádios e as televisões de assalto, fazendo da banda uma das mais importantes e icónicas da década de 1990. A 31 de Agosto de 1994, poucas semanas depois do lançamento desta música, o IRA declarou um cessar-fogo “completo”, interrompendo 25 anos de violência que deixaram um rasto de cerca de 3000 mortos. A cessação da campanha de terror foi o culminar de mais de 18 meses de conversações, mas não será exagerado assumir que o sucesso de Zombie – e a pressão social por ele gerado – terão dado uma ajuda.

Dolores O’Riordan, vocalista dos The Cranberries, morreu ontem aos 46 anos.

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Convidado: OLAVO RODRIGUES

por Pedro Correia, em 16.01.18

 

O que é realmente um erro linguístico?

 

Ao abordar esta questão, surgem sempre dois tipos de defensores: os mais conservadores e os mais liberais. Os primeiros opinam que, para que uma língua seja bem usada, esta tem de ser regida por regras que se reconhecem como sendo canónicas e aceitáveis, as quais estão relacionadas com a gramática e com a ortografia. Há alguns casos mais extremos que propõem distinções de qualidade entre as variantes de determinados países, incluindo, às vezes, as pronúncias também.

Por outro lado, existem os mais liberais que opinam que um idioma é inevitavelmente mutável em todos os seus campos, pelo que de nada serve tentar impor normas de fala, dado que, mais tarde ou mais cedo, as mesmas cairão em desuso. Por norma, estas pessoas não se importam com realizações linguísticas do género: «tu fizestes», «atão», «onteontem», entre outras. Algumas delas também concordam com a Reforma Ortográfica de 1990, precisamente por acreditarem que a língua, enquanto organismo vivo, necessita de uma mutação constantemente activa.

 

Nos dois grupos existem diversos graus nas suas inclinações, contudo, será que algum deles alguma vez conseguiu ou conseguirá, de facto, responder à questão: «o que é realmente um erro linguístico?»

Eu não pretendo encontrar uma verdade absoluta para este tópico, pois a minha opinião, à semelhança da de toda a gente, vale o que vale e duvido muito de que surja uma resposta infalível a esta pergunta, considerando que os próprios especialistas nem sempre chegam a um consenso. Contudo, não deixa de ser um novelo de lã com imensas pontas soltas que conduzem a um mundo enorme de conhecimento e reflexão.

 

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Comecemos, então, pelo seguinte: o que é um idioma? É um sistema de representação do mundo que tem determinados padrões na fonética, na gramática e no léxico, no entanto, embora haja sempre pontos em comum que se identificam na mesma língua, também existem imensas variantes quando o seu número de falantes é grande, como é o caso do português.

Partindo deste princípio, constata-se que o critério para considerar não-preferencial uma certa realização linguística é um pouco abstracto e funciona como uma espécie de espiral.

O círculo central é a variante-padrão e os que o rodeiam costumam ser considerados formas desviantes. Quanto mais afastados do centro, menos aceitáveis parecem. Em português dizer, por exemplo: «duvido de que faças isso» parece ser o ideal; «duvido que faças isso» já é um pouco desviante e «isso faças duvido que» não é aceite pelo sistema interno de reconhecimento de nenhum falante.

Porém, visto que uma língua é bastante rica em diversidade e está em constante mudança, há sempre estruturas a competir pelo reconhecimento, o que leva a que exista uma área cinzenta na qual é difícil escolher uma forma canónica, tendo em conta que as várias opções são todas muito usadas e que as gramáticas e dicionários nem sempre estão de acordo relativamente à mesma questão.

Pegando no exemplo que dei acima, é possível verificar esta ocorrência. À luz do meu conhecimento pessoal, já não é nada raro encontrar construções do tipo «duvido que» e não me refiro apenas à oralidade ou a textos informais. Quer em traduções, quer em textos originalmente escritos em português, tem-se tornado bastante comum a ausência da preposição «de» antes do pronome relativo «que».

 

Por enquanto, a presença da preposição ainda é a mais canónica, uma vez que, se o verbo a requer noutros casos, como em «duvido disso», então, faz sentido que se adicione «de» a todas as construções. No entanto, devido ao facto de que um idioma se encontra em mutação constante, daqui a alguns anos aparecerá, novamente, o choque entre conservadores e liberais - quase parece que estou a falar de política - umas gramáticas, menos receptivas à mudança, rejeitarão a forma recém-chegada e outras, adeptas da sua existência, aceitá-la-ão.

Ainda não se chegou a uma conclusão satisfatória. Por um lado, se uma determinada estrutura pode vir a tornar-se canónica, porquê resistir à naturalidade das alterações? Por outro, se não houver uma distinção restrita do que é certo ou errado, toda a gente falará e escreverá sem o conhecimento correcto, o que talvez origine indisciplina, dificuldades na comunicação e distorção da mensagem intrínseca no discurso.

 

Na minha mais sincera opinião, gostava de evitar a definição «erro». Nesta crónica não se atribuirá esse rótulo, isto porque a preferência de certas realizações idiomáticas não tem a ver com a linguística, mas sim com o meio socio-cultural e tem sido sempre assim em todos ou, pelo menos, em quase todos os países. Eis uma citação que o demonstra: «Grammatica (...) é um modo çerto e justo de falár e escrever, colheito do uso e autoridade dos barões e doutos.» (J. Barros, Grammatica da Lingoa Portugueza, 1540).

O/A leitor/a poderá pensar que a afirmação acima está desactualizada em relação ao nosso tempo e, de facto, de certo modo, tem razão, pois escrever algo assim nos dias de hoje não seria visto com bons olhos, no entanto, há que reconhecer que sempre existiu uma parte que se destacou para representar um todo.

 

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No caso do português europeu, o dialecto lisboeta tomou a dianteira, dado que, culturalmente, Portugal se tem centrado muito em Lisboa ao longo da História, da mesma maneira que, em 1540, eram as classes privilegiadas que definiam o que era correcto dizer e escrever.

Levando em consideração que todas as culturas, desde que não infrinjam os direitos humanos, têm o mesmo valor e dignidade e que a língua faz parte da cultura, então, há que pôr a hipótese de que dizer «tu fizestes» numa aldeia do Norte Interior é tão acertado como dizer «tu fizeste» em Lisboa, visto que se avalia o que é correcto através da norma linguístico-cultural em determinada região, independentemente de essa corresponder ou não à variedade canónica. Estamos a falar de variantes não de erros. 

Não tenciono afirmar, com esta óptica, que um/a lisboeta não pode combinar «tu» e «fizestes» ou que um/a nortenho/a não deve conjugar a forma da segunda pessoa do singular, no Pretérito Perfeito, sem o «s». O meu objectivo é assinalar que as estruturas gramaticais desviantes também merecem o seu lugar por pertencerem à nossa língua.

 

É verdade que se registam certos padrões nas mais diversas regiões, mas isso não significa que tenhamos de corrigir alguém amiúde quando nos apercebemos de que lhe escapou uma regra canónica.

Eu contra mim falo, pois, antigamente, tinha o hábito irritante de corrigir os meus interlocutores mais chegados. Todavia, agora olho para trás e pergunto: será que era mesmo importante? Muitas pessoas não nutrem nenhuma paixão pela linguagem, só se servem dela para cumprirem as tarefas do seu quotidiano, por isso, será que é mesmo produtivo impor-se-lhes regras que quiçá não venham a usar na sua vida profissional? Saber não ocupa lugar, porém, creio que ganharíamos muito mais se direccionássemos o esforço para a tolerância e para aqueles que estão realmente interessados em seguir a variedade-padrão.

Este raciocínio também se aplica à relação linguística entre países, pois creio que neste contexto também não deve haver competições deste tipo, as quais só costumam gerar ruído e nenhuma conclusão produtiva.

Digo isto, porque sempre que me dirijo à caixa de comentários do YouTube para ler as opiniões do público acerca de uma partilha cultural, geralmente entre Portugal e o Brasil, há imensas pessoas xenófobas dos dois lados do Atlântico que entram num conflito ridículo para disputar quais as melhores variante e cultura.

 

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Em Portugal algumas pessoas acreditam que o português brasileiro já é um idioma diferente, ponto de vista esse de que discordo, mas que respeito desde que os seus defensores abandonem a arrogância xenófoba, a qual é tão característica de alguns.

O único campo em que, do meu ponto de vista, é possível falar de erros, é a ortografia pelo facto de não ser uma parte do corpo da língua, mas sim um instrumento, ou seja: um idioma tem, naturalmente, como bases principais: a pronúncia, a sintaxe, a semântica e o vocabulário.

Todavia, a ortografia é uma invenção posterior e especificamente criada para servir a língua, não tendo nascido com ela. É possível haver um idioma sem ortografia, mas não sem as outras áreas anteriormente mencionadas.

A ortografia é algo legislado que, ao contrário, dos outros campos linguísticos, não se altera de forma autónoma, o que lhe confere, a meu ver, o estatuto de ferramenta e não de órgão.

 

Para terminar, não pretendo, com esta crónica, sugerir que a homogeneidade deve ser ignorada, tendo em conta que o ensino e a difusão do idioma necessitam de alguma coerência de modo a não confundir os aprendentes - nativos ou não - e para que a comunicação em massa seja o mais clara possível.

Contudo, é também preciso considerar o contexto em que usamos determinadas maneiras de falar e de escrever, não excluindo variantes que, provavelmente, sempre existiram e contribuíram para a riqueza da nossa língua. O que as distingue das formas canónicas é o facto de nunca terem sido acolhidas pela literatura, pelo jornalismo, pela política ou por outros, o que não lhes tem permitido alcançar o centro da espiral.

Assim sendo, quando se fala em erro linguístico, há que especificar qual é o objectivo do/a escrevente ou do/a orador/a, bem como o meio social em que vai comunicar. Usar uma variante não-canónica é adequado a uma conversa de café ou a uma SMS, mas não a uma palestra ou a um ensaio.

A variedade-padrão do português europeu tem os traços que hoje conhecemos, porque a sociedade e a cultura portuguesas a definiram dessa maneira, porém, podia ter quaisquer outras características igualmente aceitáveis.

 

 

Olavo Rodrigues

(blogue TOCA DO COELHO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.01.18

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A Primeira Guerra Mundial, de Martin Gilbert

Tradução de Francisco Paiva Boléo

História

(reedição A Esfera dos Livros, 3.ª ed, 2016)

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Rio a correr para a foz

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.01.18

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 (DN/Pedro Grandeiro/Global Imagens)

 

Da vitória de Rui Rio, neste momento, pouco mais se poderá dizer de que ainda estão todos a digeri-la. Os militantes e simpatizantes do PSD e os dos outros partidos.

Em o todo caso, o resultado alcançado não deixa de ser lisonjeiro para o vencedor. Participaram menos militantes do que em 2010, mas bem mais do que nas três anteriores eleições, tendo o líder sido eleito com mais votos do que Passos Coelho nos três anteriores escrutínios, ou do que aqueles que foram obtidos, respectivamente, por Marques Mendes, Menezes e Ferreira Leite em 2006, 2007 e 2008.

O partido sai dividido, mas o resultado apresentado por Rio é melhor do que inicialmente se poderia esperar, atendendo aos anti-corpos que contra si existiam. O carisma de Santana Lopes, a sua experiência, a empatia com as bases, e o facto de ser um antigo líder e ex-primeiro ministro foram insuficientes para derrotarem Rui Rio. O resultado de Santana Lopes, acima dos 45%, longe de ser uma humilhação – Paulo Rangel obteve 34,44% em 2010 – coloca um ponto final nas suas ambições. Talvez esteja na hora de deixar de "andar por aí".

Claramente fracturado – a sul do Tejo, Rio só venceu em Faro – o partido vai ter necessariamente de se unir para construir uma alternativa de Governo, embora a perspectiva de lá chegar, salvo uma catadupa de erros políticos de António Costa, se afigure por agora como remota.

Rio tem desde já a tarefa de começar a arrumar a casa, libertando o partido dos "emplastros" de que se rodeou Passos Coelho e que ajudaram a afundar a anterior liderança, trocando-os por gente mais bem preparada, politicamente mais qualificada e que seja capaz de navegar pelas questões de actualidade sem ignorância e arremedos populistas. A ver se com Rio não aparece outro deputado a dizer que o Governo anterior tinha "proibido" a legionella.

A presença ao lado de Rio, no discurso de vitória, para além do presidente da sua Comissão de Honra, do experiente Nuno Morais Sarmento, que nos últimos anos tem sido um dos críticos do caminho trilhado pelo PSD e da forma como o partido se deixou enredar pela estratégia de grupos, grupinhos e grupelhos ligados aos jotinhas e ao poderoso lobby autárquico, não pode deixar de ser visto como um sinal da necessidade de mudança e de ser conferido outro peso, político e jurídico, à direcção do partido.

Para o CDS-PP a ascensão de Rio à liderança do PSD será factor de risco acrescido para o seu crescimento e sobrevivência com alguma dimensão que lhe permita voltar a aspirar a ser governo. As hipóteses do CDS-PP manter o actual protagonismo tenderão a esfumar-se. Com Rio, o acantonamento à direita tornar-se-á mais evidente, ficando mais difícil a pesca nas águas do centrão.

Quanto ao PS convém que tenha presente que a aliança à esquerda começará a ser mais periclitante à medida que nos formos aproximando do final da legislatura e o cenário eleitoral for ganhando contornos. A novela da Auto-Europa está aí a prová-lo, funcionando como balão de ensaio de alguns movimentos à sua esquerda. Neste cenário não será de colocar de lado um reforço da liderança de António Costa, com o consequente cerrar de fileiras dos seus indefectíveis e do partido em torno do líder. A evolução da conjuntura económica e os resultados em matéria de finanças públicas têm ajudado a manter a vela enfunada, mas daqui para a frente vai ser preciso algo de mais sólido. A margem de tolerância ficará cada vez mais reduzida.

A mudança de liderança num partido com a história e o peso do PSD é sempre motivo de atenção. E de esperança para quem acredita na regeneração das instituições e dos homens, confiando na existência de partidos fortes e com gente credível para renovar o regime e fortalecer a democracia, assegurando em todos os momentos modelos alternativos e consistentes de governação.

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 16.01.18

 

Ao All About Little Lady Bug.

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Canções do século XXI (291)

por Pedro Correia, em 16.01.18

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Pelo Mundo

por Francisca Prieto, em 15.01.18

Era uma vez um monge que estava a tirar uma fotografia a uma janela de um templo, em contraluz. Os viajantes que passavam por perto ficaram fascinados com a imagem, e resolveram fotografar o monge a tirar uma fotografia a uma janela de um templo, em contraluz. Depois o monge virou-se de repente e, quando percebeu que estava a ser fotografado por uma multidão, desatou-se a rir. Os viajantes, apanhados em flagrante delito, também se riram.
Às vezes, o humor é uma linguagem universal que se basta.

 

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Birmânia 2017

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Por falar em vender a alma ao Diabo...

por Alexandre Guerra, em 15.01.18

O lendário pacto de Fausto com Mefistófeles, no qual entrega a sua alma ao demónio em troca do domínio pleno da técnica e do conhecimento, tem sido reinterpretado ao longo dos séculos, seja através da literatura, pintura, teatro ou cinema. Goethe imortalizou aquela lenda alemã e, provavelmente, a ele se deve o facto de algumas almas mais perdidas se sentirem tentadas a forjar um acordo com o Diabo para obterem, digamos, certos benefícios especiais.

 

Uma dessas almas terá pertencido a Robert Johnson, o misterioso e célebre músico de blues do Delta do Mississippi e que, em certa medida, foi o precursor do que mais tarde viria a ser o Rock&Roll e o inspirador de guitarristas como Muddy Waters, Jimi Hendrix, Eric Clapton ou Keith Richards, entre tantos outros. Johnson morreu em 1938, com apenas 27 anos, e para a posteridade deixou um conjunto de músicas gravadas em duas sessões no Texas (Novembro de 1936 e Junho de 1937). Essas gravações são uma espécie de Bíblia para quem vive a música, não apenas como entretenimento, mas como paixão, como um dos elementos da vida. Aquelas gravações contêm a alma do Delta, quer o sofrimento sentido nos campos de algodão, quer a euforia electrizante da comunidade negra nas tardes de Sábado naqueles lugarejos poeirentos perdidos nos confins do Mississippi e Lousiana.

 

Johnson tocou como ninguém, como se tivesse sido bafejado por forças do Além. E é aqui que a lenda de Robert Johnson se cruza com a de Fausto. Esta é aliás uma das histórias mais importantes do folclore da zona do Delta. Por volta de 1930, em Robinsonville, Mississippi, Robert Johnson era um “little boy”, que nem tocava mal harmónica, mas era um desastre com a guitarra, diria anos mais tarde Son House, um dos pais do blues do Delta e que conviveu com o jovem músico. Vários relatos históricos dizem, de facto, que sempre que Johnson tocava era um suplício para quem o ouvia. É por esta altura que Johnson deixa Robinsonville durante alguns meses para ir aprimorar a sua técnica com Ike Zimmerman, de quem se dizia que tocava a sua guitarra de forma sobrenatural durante as visitas nocturnas que fazia às campas dos cemitérios.

 

A lenda de Robert Johnson nasce nesta altura, aquando do seu regresso a Robinsonville meses depois, com uma técnica e domínio da guitarra inexplicáveis para tão pouco tempo de aprendizagem. Diz a lenda que nos meses em que esteve fora terá feito um pacto com o Diabo (na figura de Legba) num “crossroads” próximo da plantação de Dockery. Nunca foi possível identificar o local do encontro, havendo várias referências a uma intersecção de estradas em Clarksdale, sabendo-se apenas que terá sido num cruzamento entre quatro caminhos poeirentos no meio do nada. O encontro deu-se à meia-noite, com a chegada de um homem negro e alto ao entroncamento, que pegou na guitarra de Robert Johnson, afinou-a e tocou umas músicas. De seguida, devolve a guitarra a Johnson. Em troca da sua alma, Johnson estava agora em condições de criar e tocar os blues que lhe iriam trazer fama e glória.

 

Esta história perdurou no tempo, tendo o próprio Son House confirmado, numa entrevista mais tarde, a veracidade do pacto firmado entre Johnson e o Diabo. Ao longo dos anos muito se tem especulado sobre o maléfico encontro e as capacidades (quase sobrenaturais) de aprendizagem do guitarrista. A lenda de Robert Johnson continua a fascinar todos aqueles que vêem no blues uma música que, mais do que notas, mostra aquilo que vai na alma do seu intérprete.

 

Esta é uma das cenas do filme "Crossroads" dos anos 80, inspirado precisamente na lenda de Robert Johnson, mas numa versão mais moderna e que se tornou objecto de culto para os amantes do blues e da guitarra. Aqui, Willie Brown, um dos músicos mais importantes do Delta e que tocou com Son House, agora retratado ficticiamente numa idade já avançada, aguarda pelo Diabo no "crossroads" para poder recuperar a sua alma.  

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Lá está

por Bandeira, em 15.01.18

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 (José Bandeira/DN)

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Antídoto contra o “cainismo”

por Diogo Noivo, em 15.01.18

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Nos idos de Dezembro de 2015, no primeiro post que deixei no DELITO, escrevi sobre a Constituição espanhola e, em particular, sobre a forma como os novos partidos a encaravam. Defendi que enquanto “partido recente e saído do caldo político catalão, o Ciudadanos precisava de fazer barulho para conquistar o palco nacional. Ainda assim, optou por defender a ordem constitucional, reiterando que foi essa ordem que permitiu a união dos espanhóis – referência implícita aos traumas profundos deixados pela Guerra Civil, à Transição, ao combate à ETA, à independência da Catalunha e aos demais desafios que ameaçaram (e ameaçam) o equilíbrio institucional em Espanha. Embora critique o duo PSOE-PP, afirme a necessidade de reformas políticas estruturais e apele à elevação dos movimentos cívicos contra as más práticas do sistema, o espírito conciliatório e de preservação de uma ordem político-constitucional amplamente validada pela sociedade espanhola parece fazer de Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, um digno sucessor de Adolfo Suárez e da sua política de pactos.” No essencial, nada mudou na postura do partido desde que escrevi estas linhas.

 

Em doze anos o Ciudadanos passou de 3 deputados no Parlament para 37, tornando-se o partido mais votado na Catalunha.  E, fazendo fé nas sondagens publicadas pelo El País e pelo ABC (sempre com parcimónia, bem sei), será agora o principal partido nacional. Há quem veja nesta ascensão a força de uma marca pessoal, o chamado “efeito Arrimadas”. Parece-me uma explicação curta e demasiado conjuntural. A verdadeira explicação estará na domesticação do cainismo. No último século (para não recuar mais), a vida política espanhola foi marcada por antagonismos fratricidas. A estratégia de pactos que sustentou a transição democrática foi um antídoto eficaz contra estes abismos sociais e políticos e, actualmente, o Ciudadanos é o partido que melhor advoga e defende essa política de pragmatismo tolerante na negociação e inabalável na protecção de princípios fundamentais. Para os eleitores que temem um regresso às rupturas e às tragédias do passado, a crise catalã pôs em evidência que o Ciudadanos é a sua única opção. PP, PSOE e separatistas que se cuidem.

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Frases de 2018 (3)

por Pedro Correia, em 15.01.18

«Ninguém no PSD é leal a ninguém.»

Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo (11 de Janeiro)

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PSD: enfim, um "banho de ética"

por Pedro Correia, em 15.01.18

«Todos sabemos como é que se desenrolam estas eleições. Há externalidades que por vezes influenciam o voto dos militantes. Nós sabemos que existe essa hipótese e por vezes as pessoas votam sem saberem precisamente em que é que estão a votar...»

Salvador Malheiro, director da campanha de Rui Rio

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Assédio?

por jpt, em 15.01.18

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida - o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e ... demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados - o professor que não "lança" a nota, que "chumba" a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o "poder dos homens" mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores. 

Ponho este arrazoado por causa do que vem sendo para aqui (e não só) dito sobre o "assédio sexual". E sobre o "fundamentalismo". Abaixo leio que os homens têm que assediar as mulheres para que haja reprodução. É uma patetice iletrada. Não há nada de animal nisto: as gatas têm cio e "assediam" os gatos. Dizer isso é apenas ignorância, remeter a questão para a léria de que os homens precisam das parceiras para se reproduzir. O corolário dessa ignorância é a naturalização da poliginia e a imoralização da poliandria. O que nós estamos treinados (cada vez menos, diga-se) é que sejam os homens a cortejar as mulheres e não o oposto, a nós homens o explícito, a elas mulheres o implícito. São códigos, muito do seu tempo, e em desaparecimento. O assédio não é explicitação do desejo, nem corte amorosa. É poder exercido: físico, económico, patronal, cultural, psicológico. Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua,  não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado. E perora. E qualquer tipo que tenha aprendido que não se vai para a cama com uma mulher (algo) inconsciente - aquela miserável cena do "só mais um copo" à rapariga -, com o livre-arbítrio reduzido, só pode desprezar quem assim pensa.

Debater isto não implica qualquer fundamentalismo, não há "fundamentalismos inevitáveis", como Teresa Ribeiro defende. Há tempos escrevi aqui sobre o Spacey, que é inserível neste eixo. E este moralismo - de facto, a "contra-reforma" da revolução sexual de há décadas - instala-se a torto e a direito. Sob um ideal de justiça popular, que transformou este movimento num verdadeiro #you too. Isto não é um "fundamentalismo inevitável", é uma justiça  popular perfidamente moralista.  A leitura do documento das "100 europeias", por tantas energúmenas torpemente reduzido a um lamento da "velha" e "reaccionária" Deneuve - a "estrela" que deu a cara ao manifesto pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, encabeçado por Beauvoir, e agora tratada como uma machista misógina caduca - é exemplo disso. É o corolário do mero radicalismo, confusionista. Porque, no seu moralismo pacóvio, censor, retira a questão do poder do centro da questão. Não há nada inevitável (a não a ser a morte ... e os impostos). Muito menos o fundamentalismo. Recusar e combater o assédio sexual é uma obrigação. Mas o assédio não é "roubar um beijo" (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), "encostar suavemente a mama ao antebraço alheio" (idem) - isso é explicitação da disponibilidade. Gestos que nós, homens, estamos treinados a saudar positivamente, mesmo que desinteressados ("he pá, ainda mexo", comenta para si-mesma a tal carcaça bloguista cinquentona). Um âmbito de gestos que, porventura, muitas mulheres entendem como prenúncio de outra agressividade, treinadas (socializadas) que foram de outra forma, e assim tornando-os incómodos. 

E o que muita gente diz, e o tal "manifesto das 100" explicita, é que o assédio não é isso, não é a mais ou menos desbragada corte, o "incómodo" acusável pela "justiça popular". E as fundamentalistas (e os fundamentalistas também) que tudo confundem, para se fazerem soar, não merecendo levar com "panos encharcados" merecem, com toda a certeza, oposição. 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.01.18

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Matar o Salazar - O atentado de Julho de 1937, de António Araújo

História

(edição Tinta da China, 2017)

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A importância da consistência

por Joana Nave, em 15.01.18

Sermos consistentes é das coisas mais importantes da nossa vida. A consistência dá-nos um rumo, mas também nos dá credibilidade. Se formos consistentes fidelizamos os nossos seguidores, as pessoas começam a confiar e a esperar por nós. Por outro lado, a inconsistência gera desinteresse a até esquecimento. Por isso, temos de nos focar na consistência, se queremos crescer com sustentabilidade, se queremos inspirar confiança em quem nos segue. Temos de ser persistentes, metódicos, pragmáticos, fiéis e verdadeiros. No entanto, não podemos ser cegos às adversidades, aos contratempos e às surpresas. A palavra de ordem é flexibilidade. Pessoas consistentes e flexíveis conquistam o mundo e inspiram os que as rodeiam. É por tudo isto que escrevo hoje, para me manter fiel ao que me propus para este novo ano, para que a escrita seja uma prioridade e uma constante da minha vida, e para que mesmo com sono eu não deixe que o meu objectivo perca força, deixando de publicar esta crónica no início de mais uma semana. Ainda que a flexibilidade seja uma força maior, a consistência, pelo menos hoje, venceu.

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Canções do século XXI (290)

por Pedro Correia, em 15.01.18

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O blogue da semana

por João Pedro Pimenta, em 14.01.18

Acompanho-o quase desde o início e sempre me espantei com a assiduidade com que escreve no blogue, quase diariamente, por vezes mais do que um post por dia. E não se pense que se trata de pequenos textos escritos à pressa para preencher um qualquer espaço: são posts longos, didácticos, com inúmeras ligações e remissões, devidamente ilustrados, sobre os mais variados assuntos. Normalmente versam sobre história e política (e também muita BD, sobretudo franco-belga, como se quer), com acontecimentos já esquecidos ou pouco divulgados, mas diria que os traços principais do blogue são a capacidade de interligar eventos passados com outros que estão na ordem do dia, e a ironia, mesmo sarcasmo, com que o autor, A. Teixeira, discorre sobre o objecto dos posts. Desde 2005 que ficamos a saber mais pormenores sobre o que sucedeu no médio oriente durante a Segunda Guerra, a fabricação de alguns mitos, operações militares nas Malvinas,  ou como se vivia na Rússia do tempo do czar

 

Por tudo isso, o Herdeiro de Aécio é o blogue da semana. 

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Fotografias tiradas por aí (392)

por José António Abreu, em 14.01.18

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Porto, 2012. 

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A vitória de Rui Rio.

por Luís Menezes Leitão, em 14.01.18

O PSD profundo mostrou ontem a enorme capacidade que tem de se regenerar. Não alinhou em cantos de sereia de quem queria propor ao partido um passismo sem Passos, encabeçado por alguém de cuja experiência governativa os portugueses não têm boas recordações. Agora é altura de virar de vez a página e preparar rapidamente uma alternativa séria e consistente. É hora de agir, de facto.

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Imperdível Porque é Extraordinário

por Francisca Prieto, em 14.01.18

Regresso ao teatro com a comoção de quem regressa a casa. Deixo-me embalar no ritmo de um bom texto, divirto-me com os pormenores de encenação, com a forma como a tela vazia do palco se vai pincelando em jogos de movimento, em marcações, em soluções improvisadas. E penso sempre nos actores, nas pessoas que estão por detrás das histórias, que fazem aquele trabalho porque não lhes faz sentido estar na vida a fazer outra coisa.

ACTORES, em cena no São Luiz, é uma celebração a tudo isto. Uma peça tão bem montada que dá vontade de continuar a ver mesmo depois do pano cair.

A sério. A não perder.

Até 28 de Janeiro, de quarta a domingo.

 

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#metoo - um pequeno preço a pagar (2)

por João André, em 14.01.18

O Pedro Correia seleccionou dois textos nesta temática como comentários da semana. Compreendo-o, houve depois do meu mais alguns posts muito relevantes sobre o assunto aqui no blogue. Noto que os dois textos são ambos escritos por homens e vão na mesma direcção: "coitados de nós que agora passámos a ser perseguidos e já não podemos dizer nada que somos logo perseguidos".

 

Claro, cada um tem a sua opinião, mas ninguém tem direito aos seus factos. Se há casos de mulheres que exageram nas acusações e na pose incendiária e desejo de justiça/vingança, também é certo que a esmagadora maioria dos casos de acusações constituem, no mínimo, comportamento impróprios. Não se trata na maioria dos casos de mulheres a queixar-se de abordagens sexuais, mas da forma como essas abordagens foram feitas.

 

Como escrevi, haverá quem se queixe e terá razões para isso, mas aquilo que deveremos ter que fazer será recalibrar as nossas atitudes para aceitar que o objecto do nosso desejo pode não considerar os nossos avanços tão inofensivos quanto isso. Se os homens não compreendem a necessidade de aceitar este simples facto, então o "preço a pagar" é ainda mais que ajustado.

 

Esta história parece-me simplesmente mais um episódio nas mudanças sociais que elegeram Trump: uma categoria/classe de cidadãos (neste caso, homens) perdem parte do seu poder. E reagem contra isso. Os comentários que o Pedro seleccionou, relevantes como a maioria dos que surgiram ao longo desta semana, fazem parte dessa lógica. A da falácia do espantalho. Nisto, estou com a Teresa.

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Leituras

por Pedro Correia, em 14.01.18

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«El silencio es la mejor arma de la inteligencia.»

Juan Luis CebriánPrimera Página, p. 28

Editorial Debate, Barcelona, 2016

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.01.18

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Mulheres Excelentes, de Barbara Pym

Tradução de Vasco Gato

Romance

(edição Relógio d'Água, 2017)

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Uma pequena diferença

por Pedro Correia, em 14.01.18

Notícias do PSD: o candidato que se propôs viabilizar um Governo minoritário do PS liderado por António Costa acaba de derrotar o candidato que também admitiu viabilizar um Governo minoritário do PS mas sem António Costa.

O primeiro recebeu 22.700 votos (54,3%), o segundo reuniu 19.100 votos (45,7%). Costa, compreensivelmente, já felicitou o vencedor.

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Canções do século XXI (289)

por Pedro Correia, em 14.01.18

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 13.01.18

«Os episódios sobre esta temática fazem-me lembrar as guardiãs dos costumes da minha terra nos anos 70. Eram quase todas solteironas e provavelmente inteiras. Nunca faltavam à chamada do sino para a oração das 18:00. Ninguém lhes questionava a devoção, embora as más línguas dissessem que eram devotas sim, mas do apessoado sacerdote. Ouvi estórias que nunca reproduzirei por escrito pois continuo a viver na mesma terra e também porque não iria resolver nenhuma das alegadas consequências.
Quando o hashtag #metoo e afins regressa à ribalta penso sempre que a agonia e repulsa que outrora o mundo de Hollywood e Woodstock causavam às ditas senhoras seriam, se ainda cá andassem, coitadas, substituídas por uma total identificação pela muito defendida vivência sexualmente segregada. Os homens podem falar apenas com homens (nunca mais novos, como poderá confirmar o recém-impichado Kevin Spacey), mulheres apenas com mulheres, dispensando-me a dissertar sobre outras derivações de género.
Quando por estrita necessidade social se tiver que falar sobre o tempo (a mais banal temática em qualquer parte do globo) com alguém do género oposto devem evitar-se palavras como “molhado”, “abertas”, “encoberto” e “precipitação”, entre outras que se lembrem de acrescentar ao índex.
Mantendo a trajectória, em breve serão necessárias as técnicas de abordagem usadas nas esplanadas de Teerão: trocar mensagens via bluetooth com nicknames fictícios. Fora disto corre-se o risco de cair nas garras das solteironas guardiãs da moral.»

 

Do nosso leitor Paulo Sousa. A propósito deste meu postal.

 

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«Ninguém pode negar que o assédio sexual e que as violações existem. É um facto.
Mas também ninguém pode negar que há uma necessidade imperiosa, para a espécie humana, de que os homens assediem as mulheres. Se nunca os homens assediassem as mulheres, nunca eles se uniriam sexualmente e não haveria reprodução! O assédio é portanto fundamental. E mulher que nunca seja assediada por nenhum homem certamente que ficará profundamente infeliz!
E também ninguém pode negar que as mulheres têm percepções flutuantes e inconstantes. (La Donna è mobile) Aquilo que para uma mulher num dia foi uma saborosa relação sexual, passada uma semana pode ser recordado como uma infame violação. Aquilo que num momento é sentido como um homem atiradiço mas ligeiramente excitante, no mês seguinte será visto como um perigoso assédio.»

 

Do nosso leitor Luís Lavoura. A propósito deste texto do João André.

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Leituras

por Pedro Correia, em 13.01.18

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«Se tirarem do homem a vida eterna, ele cai de quatro, imediatamente.»

Nelson RodriguesTeatro Desagradável, p. 294

Cotovia, Lisboa, 2006

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Só com um pano encharcado

por Teresa Ribeiro, em 13.01.18

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Sei dizer exactamente com que idade fui assediada pela primeira vez na rua. Tinha dez anos. Foi com essa idade que passei a ir sozinha para a escola, andava então na 4ª classe. No caminho tinha de passar por uma garagem e como era hora de almoço, apanhava sempre a mesma trupe a lagartear no passeio. Diariamente ouvia as piores ordinarices enquanto amedrontada apressava o passo, olhos no chão e coração a bater. Quando, décadas depois, comecei a notar que era menos assediada, estranhei. Será que afinal até gostava daquelas palavras gelatinosas que me chocavam em idade púbere? Ou das ordinarices que me enojavam quando, mais velha e expedita, já podia contabilizar anos de assédio de rua? Não. As mulheres não gostam de assédio, o que não apreciam é o que significa deixarem de ser assediadas. É da natureza humana (e não exclusivo da feminina) estabelecer associações complexas de causa-efeito. Deixar de ser assediada na rua é um dos muitos sinais que revelam a uma mulher que está a envelhecer e é isso que incomoda.

Quando, aos 12 anos, comecei a andar sozinha nos transportes públicos, a minha mãe disse-me: "Se um homem se encostar a ti, pisa-o com toda a força. É remédio santo". Também ela tinha ouvido esse conselho da minha avó e muitos anos depois foi a minha vez de o passar à minha filha (ao meu filho, como é óbvio, nunca precisei de fazer tais recomendações).

Sim, há uma corrente defensiva que se estabelece entre gerações de mulheres. Como poderia não haver, se vivemos num mundo que estigmatiza o sexo feminino? E porque são estas as circunstâncias de todas, repito, todas as mulheres (mesmo as que juram, enquanto lhes cresce o nariz, que nunca foram assediadas, na rua, no trabalho, em circunstância alguma, querendo com esse depoimento colocar-se acima de todas as outras parvas que se queixam "e que se calhar puseram-se a jeito, consentem, no íntimo gostam", mimetizando o discurso mais machista) espanta-me a pressa com que tantas correm em defesa dos homens, como se fossem eles as grandes vítimas da sociedade.

Quando se geram movimentos como o de Hollywood, logo aparecem as guardiãs do statuo quo a apontar a dedo os fundamentalismos que inevitavelmente surgem por arrasto, confundindo razões justas com folclore, conceitos como assédio e galanteio, relações sexuais consentidas com violação. Mais misóginas que os misóginos, colocam-se orgulhosamente à margem das causas femininas. E eu ao vê-las, lê-las e ouvi-las só penso no trabalho que foi para as sufragistas porem as mulheres a votar e o que custou às "fufas das líderes dos movimentos feministas" conseguir que as novas gerações de mulheres fossem tratadas como gente. Francamente, só com um pano encharcado!

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Grécia: um silêncio gritante

por Pedro Correia, em 13.01.18

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Lembram-se de um tempo em que a Grécia inundava o caudal noticioso português? Recordam-se de personalidades dos mais diversos quadrantes terem saudado a ascensão ao poder da esquerda radical em Atenas como uma luz de esperança para a Europa em geral e os portugueses em particular?

Foi há três anos, em Janeiro de 2015.

 

Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à "devolução da dignidade" do povo grego. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. "O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha", entusiasmou-se Freitas do Amaral. "A Alemanha teve de ceder", sorria Nicolau Santos. "A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias", celebrou André Freire.

"Viva a Grécia", gritou a escritora Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que "uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras" e do seu ministro das Finanças, por quem "muitas mulheres da Europa" andariam "perdidas de amores". Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa."

 

A Grécia há muito desapareceu dos nossos noticiários: as opções editoriais cada vez mais estreita dos responsáveis máximos dos media nacionais estimulam cada português a espreitar pelo buraco da fechadura de uma casa onde mora não sei quem no bairro das vizinhanças enquanto ignoram o que de mais relevante vai ocorrendo no mundo.

As gargantas lusas que em 2015 enrouqueceram de júbilo pela vitória do Syriza e pelo desengravatado Tsipras que, qual Roncinante, galoparia contra os mercados, a "ditadura austeritária" e a hegemonia alemã, há muito se calaram. Hoje não se vislumbra ninguém por cá que saia em defesa da esquerda radical grega: Freitas e Ferreira Leite, entre outros, meteram a viola no saco.

 

Felizmente temos acesso à imprensa europeia que, em rigoroso contraste com o silêncio português, nos vai informando sobre o que se passa em Atenas. E é garantido, como alguns de nós ousámos antecipar faz agora três anos: não se vislumbra por lá nenhuma revolução em marcha. A menos que considerem "revolucionário" o caos nos transportes, o declínio da assistência hospitalar, as greves e manifestações em série e a feroz repressão da polícia de choque contra quem protesta nas ruas.

Já vimos este filme em várias latitudes. Os "amanhãs que cantam" emudecem perante o choque com a realidade nua e crua.

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As vitórias efémeras de Santana

por João Pedro Pimenta, em 13.01.18

 

Não sou militante do PSD, mas quero sempre que para a liderança dos partidos vençam os melhores e, sinceramente, já tarda uma oposição eficaz ao actual (esquema de) Governo, e o CDS não basta, por mais que Assunção Cristas se esforce - com algum êxito. Por vezes Catarina e Jerónimo tentam preencher a vaga, mas é raro aventurarem-se em grandes indignações.

 

Vivi bastantes anos sob os mandatos de Rui Rio e pude ver os seus sucessos e os seus fracassos. É um homem rigoroso, minucioso com as contas, pouco influenciado por grupos de pressão e ameaças (lembram-se da manif dos Super Dragões?) e teimoso, para o bem e para o mal. Como pontos negativos é autoritário, tem uma visão limitada e demasiado genérica sobre diversos assuntos, como a justiça, e uma péssima relação com a comunicação social. Não parece ser a escolha ideal para líder da oposição e para primeiro-ministro, embora pudesse fazer um papel competente como ministro das finanças ou da administração interna. Ainda assim, prefiro alguém com as suas limitações mas com rigor e organização do que um viciado nas disputas políticas como Santana Lopes, que por onde passou deixou as finanças em pantanas, e que nem quando já tinha atingido finalmente uma aura de credibilidade "senatorial" resiste a vir disputar pela enésima vez a liderança do partido - que já teve, com o êxito que se viu - com uma leviandade que já se pensava ser coisa do passado.

 

E neste combate pela presidência do PSD, nestas tricas, acusações várias e respectivos desmentidos, tenho ouvido por mais do que uma vez que Santana é um "vencedor". Os únicos triunfos que lhe conheço são os das vitórias autárquicas na Figueira e em Lisboa. É sobretudo esta que os seus apoiantes recordam, com razão, porque vencer uma coligação entre o PS e o PCP com um presidente no cargo cujo mandato não tinha desagradado à população, e apenas com o PSD (e simbolicamente o PPM), era uma tarefa hercúlea. Mas as vitórias de Santana acabaram aí. E vale a pena lembrar que já depois de ter oferecido a maioria absoluta a Sócrates seria de novo candidato em 2009 à câmara de Lisboa, desta vez à frente de uma coligação que juntava PSD e CDS, e perdeu com o PS de António Costa apoiado pelo grupo de Helena Roseta.

É este o pormenor que merece ser apontado: caso ganhe a presidência do PSD, Santana terá pela frente não João Soares mas António Costa, o que significa que a conquista de 2001 perdeu a validade. Já agora, é bom lembrar que Rui Rio cometeu uma proeza semelhante, ao conquistar o Porto nessas mesmas eleições (que ditaram a demissão de Guterres) a um PS de Fernando Gomes considerado absolutamente imbatível. Rio manteve-se na câmara por três mandatos, crescendo sempre nas sucessivas eleições que disputou, sempre com uma coligação PSD/CDS. Fica a nota para quem se apoia demasiado em actos eleitorais que já lá vão. Até porque os votos não são dos candidatos, são dos eleitores, e eles podem mudar o seu sentido sempre que tiverem oportunidade.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.01.18

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Poemas Escolhidos, de Yorgos Seferis

Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis

(edição Relógio d'Água, 2017)

 

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Pensamento da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 13.01.18

"A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra só se pode ser morto uma vez, mas na política muitas vezes" (Winston Churchill). Penso que se trata de um pensamento adequado a esta semana.

 

Este pensamento do grande estadista inglês acompanhou os leitores do Delito durante a semana.

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De Portugal inteiro (103)

por Pedro Correia, em 13.01.18

 

Vizinhos do Areeiro (de Lisboa).

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Canções do século XXI (288)

por Pedro Correia, em 13.01.18

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A "carta racial"

por jpt, em 12.01.18

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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a "carta racial", nisto de se exigir que se repartam os trabalhos "representativos" por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (não consegue?, não quer?) é quais são os critérios de "representatividade" que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a "carta racial". Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que "as nossas meninas" (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é "natural" ...

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

 

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